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A ameaça da concentração bancária no Brasil

O artigo a seguir foi extraído do um boletim informativo mensal escrito para a empresa VOGA.


Quais as ameaças geradas por instituições financeiras que se tornam "grandes demais para quebrar"?

Já estamos no quarto ano da grande crise financeira do novo milênio e os bancos "grandes demais para quebrar" se tornaram ainda maiores.  Foram vários os casos de fusões forçadas, estatizações, aquisições de instituições insolventes — tudo sob a anuência, para não dizer a exigência, dos Bancos Centrais.

No dia 4 de novembro de 2011, o Financial Stability Board — órgão internacional que monitora e faz recomendações sobre o sistema financeiro global — publicou um relatório enumerando 29 instituições de importância global.  Nenhum banco brasileiro entrou na lista.  Em termos de ativos, nossos bancos não estão nem entre os cinquenta primeiros em nível global.

Isso, no entanto, não significa que não tenhamos nossos próprios "grandes demais para quebrar".  Temos, sim.  Mais ainda: nosso sistema bancário está perigosamente seguindo a mesma tendência internacional.  Os bancos brasileiros se tornaram ainda maiores nos últimos quatro anos.  Qualquer que seja a métrica utilizada para a análise, a inevitável conclusão é a de que o sistema bancário brasileiro está se tornando mais concentrado (ver gráfico 1); e, como uma indústria, sua fatia no PIB brasileiro vem crescendo rapidamente.

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Gráfico 1: ativos e depósitos bancários totais — Fonte: BACEN e VOGA


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Gráfico 2: ativos dos bancos e PIB — Fonte: BACEN e VOGA


A tendência desde a implantação do real

A introdução do real, em julho de 1994, e a consequente estabilização da inflação foram os principais motores da consolidação bancária ocorrida no final da década de 1990 e início da de 2000.  Após várias privatizações, fusões, aquisições e liquidações de bancos públicos estaduais e federais, o número de bancos em operação no Brasil declinou de 248 para 133 em 2007 (esta cifra leva em conta bancos comerciais, de investimento e outros, com a exceção de cooperativas de crédito).  Até o presente momento, este número segue inalterado.  Embora a quantidade de instituições financeiras possa indicar o quanto o sistema bancário foi reduzido a alguns poucos grandes bancos, é necessário também analisar o percentual de ativos e depósitos controlados pelos principais bancos (gráfico 1, que não inclui o BNDES).

A tendência é clara: um pequeno número de bancos passou a concentrar um valor crescente de ativos e depósitos durante os últimos 17 anos.  A fusão do Itaú com o Unibanco em 2008 — à época, o segundo e o sexto maiores bancos, respectivamente — provocou um salto significativo no gráfico, elevando o percentual de ativos dos cinco maiores bancos para quase 80%.

Entre as cinco maiores instituições temos o Banco do Brasil (BB), o Itaú-Unibanco, o Bradesco, a Caixa Econômica Federal (CEF) e o Santander.  O primeiro e o quarto são bancos públicos.  Repetindo o que foi dito neste artigo sobre a reestatização do crédito no Brasil, "estas gigantescas instituições financeiras ainda moldam uma considerável fatia da economia brasileira atualmente."

Por controlarem uma enorme fatia de ativos — dentre eles, empréstimos para empresas e pessoas — e depósitos, estes bancos certamente podem ser definidos como "bancos domésticos sistemicamente importantes" de acordo com o termo técnico criado pelo Comitê de Supervisão Bancária da Basileia, um mero eufemismo para "grandes demais para quebrar".

O crescimento no tamanho do setor bancário como um todo é claramente visualizado pela proporção do total de ativos em relação ao PIB do país, como mostrado no gráfico 2.  Se os bancos brasileiros já eram grandes e concentrados no passado recente, eles certamente estão maiores hoje, e bem mais concentrados.

À medida que a economia brasileira vai se tornando cada vez mais alavancada, com o crédito aumentando em relação ao PIB assim como o endividamento das famílias, o lado esquerdo dos balancetes dos bancos cresce a um ritmo mais acelerado do que o do restante da economia.  E essa tendência de concentração do setor bancário não é um fenômeno restrito ao Brasil; com efeito, internacionalmente, esta é a regra e não a exceção.

Parece haver uma tendência de aumento contínuo no tamanho do setor bancário, levando a uma maior concentração nas mãos de poucas instituições.  Embora economias de escala naturalmente exerçam uma função nestas tendências de consolidação, o moderno sistema bancário usufrui algumas características peculiares que o torna distinto de todas as outras indústrias da economia, características essas que são essenciais para consolidar esta tendência de concentração.

Por que os bancos crescem

Alguns economistas argumentam que a principal atividade dos bancos é saber gerenciar a maturação de seu portfólio, isto é, saber como tomar empréstimos de curto prazo e fazer empréstimos de longo prazo.  A verdade é que um termo mais preciso para isso seria "maturação descompassada", que é o que ocorre quando o passivo dos bancos vence antes da maturação de seus ativos.

Tecnicamente, qualquer empresa pode praticar a maturação descompassada, seja ela uma siderúrgica ou uma mercearia.  Mas o empreendedor tem de ter a certeza de que seu passivo não vencerá antas da maturação de seus investimentos.  Uma restrição de liquidez pode se transformar em um problema de solvência caso os ativos tenham de ser rapidamente vendidos (o que tende a fazer com seus preços caiam) ou caso os passivos não possam ser rolados.

No entanto, as práticas do atual sistema bancário são caracterizadas não somente pela maturação descompassada, mas pela excessiva maturação descompassada.  Como isso é possível?  Por meio de um gracioso privilégio concedido aos bancos conhecido como reservas fracionárias.  Como explicado neste artigo, "a maturação descompassada é uma especulação de risco.  E a prática de reservas fracionárias é uma maturação descompassada em ampla escala."  Para uma explicação mais detalhada desta prática, recomendo enormemente a leitura do artigo linkado.

Confiando na experiência dos banqueiros de que nem todos os correntistas demandarão a restituição em espécie de seus depósitos, os bancos, por meio das reservas fracionárias, fazem com que um depósito inicial seja utilizado para criar múltiplos empréstimos, empréstimos esses que utilizam dinheiro (no caso, meros dígitos eletrônicos) criado do nada, criado por meio de uma simples entrada contábil.

Em suma, a prática de reservas fracionárias permite que os bancos criem passivos de curto prazo (os depósitos de seus correntistas) ao mesmo tempo em que mantêm apenas uma pequena fração de ativos líquidos de curto prazo (dinheiro em caixa, também chamado de 'reservas'), sendo que o restante de seus ativos (a vasta maioria) está na forma de investimentos de longo prazo (empréstimos).  Mas quanto os bancos geralmente mantêm em suas reservas?

Nos tempos atuais, determinar tal quantidade é uma tarefa de responsabilidade dos Bancos Centrais.  É o Banco Central quem determina o nível de reserva que os bancos sob sua jurisdição devem manter.  Quanto maior este requerimento de reserva (popularmente conhecido como "compulsório", o qual vamos designar pela letra "c"), menor a capacidade de o sistema bancário expandir o crédito.

No entanto, esta não é a única restrição à capacidade dos bancos de expandirem o crédito por meio da criação de novos empréstimos.

Quando o Banco A concede um novo empréstimo, o tomador do empréstimo utiliza este dinheiro recém-criado para, por exemplo, pagar seu fornecedor.  Se este fornecer possuir uma conta no Banco B, assim que ele depositar o pagamento em seu banco, o Banco B irá requerer a transferência de fundos do Banco A.  Ato contínuo, o Banco A verá o nível de suas reservas diminuir, o que irá restringir sua capacidade de criar novos empréstimos.

Logo, quanto maior a clientela de um banco, maior será a probabilidade de que os depósitos que ele criar na forma de empréstimos não diminuirão suas reservas.  Colocando de outra forma, quanto maior o banco, menor a probabilidade de ele perder reservas em decorrência de pedidos de transferência de outros bancos. 

Chamemos de "k" a probabilidade de um tomador de empréstimo fazer pagamentos para outros clientes que possuem conta em seu mesmo banco.  Sob um sistema bancário de reservas fracionárias, c e k possuem efeitos opostos sobre a capacidade de expansão do crédito: quanto maior o compulsório c, menor a capacidade dos bancos de criarem novos empréstimos; por outro lado, quanto maior o k maior será a capacidade expandir o crédito.

Nos principais países desenvolvidos, os Bancos Centrais estipularam o compulsório ("c") em níveis perto de 0%.  Não havendo mais espaço para reduzir o c, a única maneira restante de aumentar a capacidade de criar novos empréstimos e depósitos é aumentando o k, isto é, a concentração dos bancos.

E como é no Brasil?  Historicamente, o Banco Central sempre estipulou compulsórios altos para os depósitos em conta-corrente.  Atualmente, a taxa do compulsório para estes depósitos é de mais de 40%, ao passo que, para os depósitos em poupança e a prazo, o compulsório é de 20%.

Em face desta significativa restrição à expansão do crédito, os bancos brasileiros estão sob ainda maior pressão do que seus congêneres europeus e americanos para fazerem fusões.  A necessidade de se aumentar o k é muito maior no Brasil.

A prática de reservas fracionárias por parte dos bancos possui dois interessantes efeitos econômicos: de um lado, estimula os bancos a se fundirem, a se tornarem mais concentrados e, consequentemente, a se agigantarem; de outro, por meio da maciça expansão do crédito, permite que os bancos aumentem seus ativos, passando a representar uma fatia crescente do PIB, pelo menos até que haja uma crise bancária completa.  O que nos leva à próxima seção.

Comparação com o resto do mundo

A Islândia é um exemplo característico que ilustra o último parágrafo.  Em 2007, os três maiores bancos islandeses detinham praticamente 80% do total dos ativos bancários do país.  E em termos de porcentagem do PIB, todos os ativos bancários totalizavam mais de 1.300% — ou seja, eram 13 vezes o valor do PIB do país.

Qualquer que seja o critério escolhido, esta cifra não é nada pequena.  Os bancos islandeses cresciam ininterruptamente — até finalmente um colapso espetacular sacudir o país nórdico.  Em 2011, as ativos bancários em relação ao PIB caíram para "meros" 521%, menos da metade do que eram quatro anos antes.  Ainda assim, um número enorme quando comparado às outras nações desenvolvidas.  Não obstante, uma contração impressionante.  No Brasil, tal cifra é de 124%.

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Gráfico 3: ativos bancários em relação ao PIB — Fonte: Banco Mundial, BIS, Bancos Centrais e Voga

Outro exemplo de como os bancos vêm aumentando seu tamanho absoluto pode ser encontrado no Reino Unido.

Em um trabalho apresentado durante a 12ª Conferência Bancária Internacional realizada pela sucursal do Fed de Chicago, Andrew G. Haldane, do Banco Central da Inglaterra, analisou os balancetes dos bancos britânicos em relação ao PIB desde 1880.  "A relação permaneceu estável por quase um século, em aproximadamente 50%.  Durante este período, os ativos bancários cresceram praticamente em linha com o PIB.  Porém, a partir dos anos 1970, este padrão alterou-se acentuadamente.  No início deste século, os balancetes dos bancos já eram mais de 5 vezes o PIB anual do Reino Unido.  No espaço de uma geração, o setor bancário, com o apoio do governo, decuplicou seu tamanho", concluiu ele.

Por que os anos 1970?  O autor não ofereceu nenhuma explicação.  Mas há uma.  E ela está diretamente relacionada ao fechamento da janela do ouro em 1971 pelo então presidente americano Richard Nixon.

Quando o sistema de Bretton Woods se esfacelou e o último elo do dólar ao ouro foi rompido, sumiram todas as amarras que impediam os Bancos Centrais de injetar liquidez no sistema bancário.  Sem nenhuma ligação ao ouro, e com um papel-moeda puramente fiduciário, os Bancos Centrais agora são capazes de socorrer bancos insolventes em qualquer circunstância.  Sob um padrão-ouro, tal resgate é impossível.

Quando comparados aos seus congêneres internacionais, os bancos brasileiros ainda representam uma fatia relativamente pequena do PIB doméstico.  No entanto, ela está crescendo rapidamente.  Ademais, o sistema financeiro do país está se tornando cada vez mais concentrado nas mãos de poucos bancos.  Uma situação paradoxal, já que um sistema bancário mais concentrado reduz a probabilidade de crises sistêmicas.  Mas, se elas ocorrerem, podem ser extremamente paralisantes.

Conclusão

Os problemas evidenciados pelo prejuízo de US$2 bilhões sofrido pelo JP Morgan com operações de derivativos, pelo escândalo da manipulação da taxa Libor e pela confissão do governo brasileiro de que havia identificado as supostas fraudes no banco Cruzeiro do Sul dois anos antes de sua intervenção mostram que a regulamentação e a supervisão governamental do setor bancário não garantem segurança alguma.  Desnecessário relembrar o fracasso retumbante dos Acordos de Basileia II (tópico coberto em detalhes neste artigo).

Em vez de estimular fusões entre instituições financeiras, os Bancos Centrais deveriam promover medidas para reduzir a concentração bancária.  No entanto, atacar somente a concentração bancária, sem levar em consideração as forças fundamentais que estimulam a concentração do setor — no caso, as reservas fracionárias — significa apenas sair criando mais regulamentação e mais supervisão governamental.

É, portanto, essencial entender que o estímulo à concentração bancária não advém apenas dos altos lucros gerados pela expansão do crédito, mas também do simples instinto de sobrevivência dos bancos.

Quando uma crise bancária se instala, fusões e aquisições são alternativas óbvias para as falências bancárias.  Tais alternativas podem acabar produzindo uma maior concentração no setor, mas isso é preferível a uma quebra generalizada e um subsequente risco de colapso sistêmico.

Infelizmente, enquanto o sistema bancário de reservas fracionárias não for trazido para o centro do debate, todas as outras formas de contenção da crise financeira por meio de aumento de regulamentações estarão fadadas ao fracasso, uma vez que os bancos inevitavelmente sempre serão mais espertos que seus reguladores e supervisores.

Embora um sistema bancário altamente concentrado diminua o risco de falências bancárias isoladas, ainda assim, caso um banco de fato se torne insolvente, ele gerará um grande risco de colapso sistêmico.  A própria natureza do sistema bancário de reservas fracionárias produz instabilidade sistêmica.

Apesar de os bancos brasileiros serem bem capitalizados e estarem auferindo altos lucros, qualquer problema de liquidez pode derrubar até mesmo um banco muito lucrativo e bem capitalizado em questão de dias, obrigando o BACEN a se apresentar para o socorro.

As autoridades políticas e monetárias brasileiras terão grandes problemas pela frente, já que elas terão de, de um jeito ou de outro, atacar as complicações geradas por bancos "grandes demais para quebrar", os quais estão continuamente se tornando cada vez maiores — especialmente os bancos públicos: altamente alavancados, altamente expostos ao mercado imobiliário e, ainda assim, abocanhando uma fatia cada vez maior do mercado por meio da "democratização" do crédito.

 

Leia também: O sistema bancário brasileiro e seus detalhes quase nunca mencionados 



autor

Fernando Ulrich
é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária, entusiasta de moedas digitais, e mantém um blog no portal InfoMoney chamado "Moeda na era digital". Também é autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

 

  • Breno  13/09/2012 06:51
    Um pouco de destruição criativa não faria mal ao setor.
  • bernardo  13/09/2012 13:27
    Texto muito bom, os textos sobre o sistema bancário são sempre muito bons, porém tenho uma dúvida...Os bancos podem expandir o crédito, além do compulsório, do tipo, c=10%, banco A tem 1000 reais no cofre, portanto, ele pode expandir o crédito em 10000 reais, certo? Tem alguma maneira dos bancos expandirem o crédito além desses 10000?
  • Leandro  13/09/2012 13:33
    Tem sim. E foi explicada em detalhes neste artigo.

    Abraços!
  • Renato  13/09/2012 17:55
    Leandro

    Li num artigo aqui no Instituto Mises sobre a política inflacionária de Roma, e como ela causou o colapso do império. Eu já havia lido sobre políticas inflacionárias dos governantes europeus ao longo dos séculos. Talvez fosso interessante um artigo (ou melhor ainda, um livro) comparando esse fenômeno ao longo dos séculos, e mostrando que as diferentes doutrinas que defendem essa trambicagem são apenas diferentes desculpas esfarrapadas para o mesmo crime.
  • Pedro Bolson  14/09/2012 04:19
    Meu entendimento do artigo foi paradoxal.

    As reservas fracionárias são o cerne do debate. Em suma, são elas que causam o risco de uma crise sistêmica.

    Porém se aumentarmos o compulsório(c), em outras palavras, se reduzirmos a criação de moeda escritural, estaremos dando maiores incentivos a concentração bancária(k). Foi isso que o artigo demonstrou.

    Pelo que constatei, em termos de taxas compulsórias, "promover medidas para reduzir a concentração bancária" , significa diminuir a quantidade de dinheiro a ser depositada no Banco Central. Paradoxalmente, como citei no início de meu comentário, isso desestabilizaria ainda mais o sistema financeiro.

    Enfim, quais seriam as "medidas para reduzir a concentração bancária" ao mesmo tempo que estabilização do sistema esteja garantida?
  • Leandro  14/09/2012 05:29
    Ótima pergunta. Há vários cenários. Vou citar dois, um com banco central e outro sem banco central.

    Em um cenário em que se mantenha um Banco Central, ficaria a cargo deste (1) impor um alto compulsório e fiscalizar seu cumprimento e (2) permitir que o mercado bancário seja completamente livre e irrestrito, permitindo o surgimento imediato de bancos de todos os tipos, justamente para estimular o máximo de concorrência possível.

    O problema com este cenário? A própria existência de um Banco Central já vai contra a ideia de livre mercado bancário. É aquele negócio: tal esquema funcionaria apenas se eu estivesse no controle. Se outra pessoa assumir o cargo e tiver ideias econômicas distintas, todo o arranjo se dissolve.

    Além do mais, um Banco Central com o poder de imprimir dinheiro já traz, inevitavelmente, um grande risco moral para todo o sistema, justamente o que se quer evitar.

    Em um cenário sem Banco Central e com total liberdade de entrada no mercado bancário, a coisa seria mais definida. Em princípio, e ao contrário do que se imagina, banqueiros não confiam em outros banqueiros. Sem um banco central para socorrê-los e para orquestrar a expansão coordenada do crédito, aquele banco que ficar mais animado e sair concedendo mais empréstimos estará imediatamente sob grande pressão dos outros bancos, que estarão exigindo a restituição em espécie dos depósitos recebidos. Se o Banco A criar mais dinheiro fictício (meios fiduciários) que todos os outros bancos, os meios fiduciários do Banco A inevitavelmente cairão nas contas dos correntistas de todos os outros bancos. Ato contínuo, estes outros bancos exigirão que o Banco A faça a compensação desse crédito, enviando-lhes a correspondente quantia em dinheiro, fazendo com que o Banco A perca reservas. No extremo, caso o Banco A houvesse expandido enormemente o crédito e os outros bancos houvessem adotado uma postura conservadora, o Banco A poderia ficar completamente sem reservas, indo à falência. E é exatamente isso que os outros bancos querem, pois irão ganhar seus clientes.

    Ou seja, em um cenário de liberdade de mercado no setor bancário, sem empecilhos para o surgimento de novos bancos e sem um banco central para coordenar o processo de expansão do crédito, a natural desconfiança de banqueiros e o seu senso instintivo de sobrevivência tenderia a fazer com que a expansão do crédito fosse bem mais prudencial. Aquele banco que fizesse mais graça e tentasse ganhar clientes oferecendo crédito a taxas tentadoras seria rapidamente extinto do mercado.

    Desnecessário dizer que o uso de um metal como dinheiro faria com que este sistema de livre mercado bancário operasse de maneira mais sólida, confiável e eficaz. Uma coisa são bancos guardando pedaços de papel, facilmente manipuláveis. Outra são bancos lidando com barras de ouro.
  • Pedro Bolson  14/09/2012 06:30
    Leandro,

    Obrigado pelo teu posicionamento.

    Discordo do primeiro cenário e vou utilizar argumentos do próprio artigo.

    Mesmo em um mercado liberalizado com a atuação do banco central, ao impor um alto compulsório o banco dos bancos estará estimulando a concentração bancária. Está dando incentivos para que bancos se unam e evitem, cada vez mais, que os depositos escriturais criados sejam depositados em outros bancos e reduzindo o risco de insolvência.

    Ou seja, a concentração bancária aumentará. Agigantando ainda mais os "grandes demais para quebrar".

    Já o segundo cenário sim, é genuinamente livre mas o incentivos ao agigantamento permanecem. Porém especular sobre este cenário atualmente é quase um conto de fadas.

    A tendência à concentração sempre haverá, e em qualquer setor da economia pois estará visando sempre os ganhos de escala. Porém nos demais setores, como o de tecnologia, a invoção pode dar a empresas nascentes um posicionamento e pulverizar a concentração.
    Infelizmente no mercado bancário não há inovaçao, é sempre o mesmo produto em essência (captação com juros e empréstimo com juros maiores). O único jeito de lucrar mais é aumentar de tamanho e auferir ganhos de escala. E isso é péssimo para a concorrência.
  • Leandro  14/09/2012 07:40
    Fusões bancárias, assim como fusões de quaisquer tipos de empresas, não são ruins quando ocorrem em um ambiente de liberdade. O que importa é que o mercado continue aberto, permitindo a contínua entrada de novos concorrentes. Isso é o essencial.

    Qualquer pequeno banco que surgir em um mercado com setor bancário concentrado terá muito a ganhar caso os bancos gigantes saiam expandindo o crédito desbragadamente: é só pedirem a restituição em espécie de todos os depósitos que receberem, como expliquei acima. Seria um mercado bastante lucrativo, exatamente como qualquer mercado que hoje se encontra cartelizado -- qualquer empresa que fura um cartel lucra horrores.

    E é justamente essa liberdade de entrada que não temos hoje no setor bancário, bem como em todas as áreas da economia em que há esse câncer chamado 'agências reguladoras'. (O Banco Central nada mais é do que a agência reguladora do setor bancário, embora um 'tantinho' mais poderosa).
  • Plínio Louzada  14/09/2012 05:33
    Excelente matéria exibida no Valor de hoje (14/09/2012)

    Novos tremores à vista?

    Por Eduardo Campos | De São Paulo

    Com inflação ou deflação, o ouro sempre é lembrado como escudo de grande eficácia, mas para cenários de convulsão social há quem recomende investir em armas
    Desde o começo dos anos 2000, o mundo enfrenta uma constante batalha entre forças deflacionárias e inflacionárias. As forças de mercado, se deixadas livres, certamente puxariam os preços para baixo de forma acentuada, promovendo o que para alguns é um necessário ajuste de contas depois de anos de crescimento baseado em endividamento e uma desregulamentação financeira que permitiu a criação e concessão de crédito "do nada".

    No entanto, os mercados não são completamente livres de influências. Os bancos centrais do mundo lutam contra essa força deflacionária. Sua resposta tem sido justamente a inflação, sob as mais variadas formas: inflam seus balanços, e tentam inflar os preços de ativos, a demanda, a concessão de crédito. Tanto quanto podem, procuram influir sobre a confiança do consumidor e do empresariado.

    O presidente de um novo fundo de hedge, Santiago Capital, baseado em San Francisco, encontrou uma forma interessante de ilustrar essa batalha. Em um vídeo (disponível em www.zerohedge.com/news/gold-and-grand-theft-economics), Brent Johnson, que tem 40 anos, metade dos quais vividos no setor financeiro, com passagem pelo Credit Suisse e outras casas especializadas em gerenciamento de grandes fortunas, mostra que as forças de deflação e inflação são como placas tectônicas. Estão sempre se atritando e, de quando em quando, sem o menor aviso, uma se sobrepõe à outra e o resultado é um terremoto de proporções devastadoras.

    Um exemplo é a crise de 2008. As autoridade monetárias acreditavam que tinham tudo sob controle. "Este é um sistema bancário seguro, um sistema forte. Esta é uma situação bastante gerenciável", disse Hank Paulson, então secretário do Tesouro dos Estados Unidos, em 20 de julho de 2008.

    De repente, as coisas mudaram: "O mercado de crédito ainda está frágil e congelado. A segurança financeira de todos os americanos depende da nossa capacidade de restabelecer nossas instituições financeiras". A frase é do mesmo Paulson, em 19 de setembro de 2008.

    Paulson já saiu de cena, mas é possível dar outro exemplo de alguém que ainda está na ativa. Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed), dizia em 16 de julho de 2008: "Fannie Mae e Freddie Mac [grandes instituições do sistema hipotecário americano] vão passar pela tempestade, sem perigo de tombar. Estão adequadamente capitalizados". Em 8 de setembro, as manchetes anunciavam que Fannie Mae e Freddie Mac tinham sido nacionalizadas.

    O que Johnson faz em seu vídeo é lembrar que terremotos massivos não são precedidos por alarmes ou avisos prévios. Não é o caso de acreditar que "desta vez é diferente", título com um toque de ironia do livro em que Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart recontam 800 anos de insensatez financeira. Os dados sobre a Grécia são particularmente interessantes.

    Na avaliação de Johnson, o sistema financeiro não foi projetado para lidar com deflações, ou seja, aumentos expressivos nos balanços dos bancos centrais, resultado de injeções de recursos na economia, têm de continuar indefinidamente, para manter o sistema acima da linha d'água. "Vivemos em um tempo no qual o balanço dos oito maiores bancos centrais subiu para US$ 7 trilhões e a base monetária, em dólares, subiu 300% em quatro anos", diz.

    Só ó Fed, desde 2008, ampliou seu balanço em US$ 2,5 trilhões. E o mercado está sempre na expectativa de nova elevação, porque a economia continua mostrando fraco dinamismo. Além do Fed, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou no começo de setembro que também fará uso da impressora de euros para lidar com distorções no mercado secundário de dívida governamental.

    A pergunta que se coloca é: qual força tectônica será mais poderosa?

    Para Johnson, basta entender que a inflação é necessária para o sistema sobreviver, e a resposta se torna um pouco mais fácil. "Redesenhar o sistema para um ambiente deflacionário seria admitir o fracasso", justifica, lembrando que uma deflação acentuada no preço dos ativos seria o mesmo que decretar a falência do sistema.

    A posição de Johnson pode ser tachada de radical, mas há outros agentes de mercado com visão semelhante. O expoente é Kyle Bass, que ganhou fama ao apostar contra o sistema "subprime" americano [créditos hipotecários de alto risco] e ficar rico, junto com seus investidores do fundo Hayman Capital. Bass também previu, ainda em 2008, o colapso da Grécia.

    Como Johnson, Bass acredita que as coisas vão piorar muito e ambos têm a mesma resposta para a pergunta: como se proteger disso tudo? Simples: compre ouro. Bass também recomenda a compra de armas de fogo, pois acredita que a dissolução do sistema vai gerar tumulto social sem precedentes. Ele é uma figura um tanto polêmica. Há uma interessante descrição sua num livro de Michael Lewis - "Boomerang: Travels in the New Third World" -, no qual a autor passeia pelos países europeus em crise e traz boas explicações sobre o que levou a zona do euro para a beira do abismo.

    Voltando a Johnson, da Santiago, seu argumento é simples. O ouro serve de proteção tanto no caso de uma explosão inflacionária quanto em um terremoto deflacionário. Além de ativo real, o metal é a forma de dinheiro mais antiga. Seu preço já subiu cerca de 500% nos últimos 12 anos, exatamente a janela de tempo no qual essa briga entre inflação e deflação está mais evidente.

    Outra vantagem do ouro, neste momento, é a relação entre risco e retorno. Há de se tomar mais risco para ter maior retorno. No momento, Johnson avalia, essa relação foi quebrada. O ouro pe o ativo de maior retorno potencial, embora seja o de menor risco conhecido.

    "É simples: você acredita em mágica ou em matemática? É impossível sair de uma crise de dívida tomando mais dinheiro emprestado." Com essa proposta, Johnson montou seu fundo no começo de 2012 e já tem cerca de US$ 7 milhões de investidores individuais. O fundo tem sempre 50% de seu capital em ouro físico. A outra metade é distribuída entre prata física, ações de mineradoras e dinheiro. O ouro e a prata ficam em cofres na Suiça e em Cingapura.

    Bass, do Hayman Capital, também tem simpatia pelo ouro. Em seu livro, Michael Lewis ilustra bem o que se quer dizer com "ouro físico". Ao perguntar o que sua mãe deveria comprar para se proteger da tempestade vislumbrada pelo gestor, Bass abre a gaveta e joga sobre a mesa uma barra de ouro.

    Como americano, Johnson jamais teve contato com a hiperinflação que ele prevê, mas diz ter uma boa ideia do que seja isso, pelos relatos de um "amigo carioca", que contou a ele como se relacionavam o recebimento do salário e a ida ao supermercado nos anos 1980 aqui no Brasil.

    Johnson inspirou-se na leitura de dois livros de Paulo Coelho, bastante populares, que o inspiraram a fazer a peregrinação de Santiago de Compostela, em 1999, para dar nome a seu fundo. Mas o lema da casa tem origem mais nobre. Vem de palavras do filósofo Alexis de Tocqueville: "As coisas podem se mover do impossível ao inevitável sem nunca parar no provável".
  • Paulo Kelson  14/09/2012 14:57
    Até o Jogo RPG INWO criado por um americano Steve Jackson em 1990 e lançado em 1995, já revelava que esse tipo de sistema financeiro é ameaçador. Eis a carta Fusões de Bancos:

    https://lh6.googleusercontent.com/-x7YsEeBd5pw/TXmmoYZvrWI/AAAAAAAAALE/x9nWIXYHoGc/s1600/p062.jpg
  • Marcos Campos  14/09/2012 23:35
    Já que se comentou em lastro em ouro, eu gostaria de tirar uma dúvida se possível.

    Temos 97% das reservas do mundo do metal denominado Nióbio. Metal este utilizado para confecção de diversos artefatos tecnológico como turbinas de aviões, naves espaciais, foguetes, centrífugas nucleares e até jóias, dentre outras centenas de utilidades.

    Este metal é comercializado as escuras pelo nosso governo desde 1980.

    A pergunta é:

    Digamos que nosso país politicamente falando fosse minimamente ético-moral, e utilizasse este metal como lastro para nossa moeda, seria possível?
    Se sim! Que benefícios este padrão Nióbio traria para o progresso brasileiro financeiro e economicamente?

    Fontes extra oficiais informam que o valor do metal é indexado pela Inglaterra a preço de banana, com aval de políticos corruptos e revendido ao mundo, mas esto não vem ao caso.
  • Hugo  21/10/2013 17:34
    Leandro fiquei me perguntando sobre o gráfico 1 da proporção dos ativos bancários dos maiores bancos,achei curioso que no período de 1995 a 2001 o sistema bancário passou por uma grande "limpeza" que ocasionou uma grande diminuição da quantidade dos bancos na economia através de liquidações e fusões de grandes bancos como o Nacional,Econômico e Bamerindus que eram grandes bancos brasileiros.Porém apesar desse enxugamento do sistema os ativos dos maiores bancos nesse período ficaram praticamente estáveis,e ainda com uma pequena diminuição em 2001 comparado a 1995.O que explicaria esse aparente paradoxo?


    E já ia me esquecendo de parabenizá-lo por mais um elucidativo artigo sobre economia.
  • Leandro  21/10/2013 17:45
    Prezado Hugo, apenas para esclarecer, este artigo não é meu, mas sim do Fernando Ulrich. Vamos aguardar sua participação aqui.

    Grande abraço!
  • Mateus Amorim  03/01/2017 23:58
    Gostaria de saber se há links disponíveis para consulta da participação do setor bancário brasileiro no nosso PIB, como o referenciado na tabela 1. O site do Banco Central tem muitas informações, mas fiquei meio perdido lá. Estou fazendo meu TCC sobre o tema e seria de grande ajuda. Obrigado pela atenção, abraços!


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