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Como seria a produção de dinheiro no livre mercado

Em um artigo seminal publicado em 1920, "O cálculo econômico sob o socialismo", Ludwig von Mises demonstrou que existe apenas uma única maneira de se saber se a produção de algo gera um benefício para a sociedade como um todo: os recursos, quando utilizados para produzir um bem que satisfaça as preferências de algumas pessoas, têm de ter um valor maior do que quando utilizados para produzir um outro bem que satisfaça as preferências de outras pessoas.  Quando esta premissa é satisfeita, o produtor obtém lucros; quando ela não é observada, o produtor colhe prejuízos.

A produção deixada a cargo do mercado é a única que satisfaz o teste de lucros e prejuízos, o qual mostra se uma produção é socialmente benéfica ou não.  Esta é a implicação do famoso argumento de Mises de que planejadores centrais não têm como utilizar de maneira eficaz e racional os recursos de uma sociedade.

Para que Tim Cook [atual presidente da Apple] possa obter chips computacionais, vidros para as telas de seus iPads, mão-de-obra e outros recursos para fabricar seus produtos, ele tem de oferecer preços que sejam altos o suficiente para conseguir retirar estes recursos de outros empreendedores que, caso contrário, teriam utilizado estes recursos para produzir outros bens.  Ao incorrer nestes custos de produção, a Apple compensa os proprietários destes recursos em um montante maior do que o valor dos outros bens que eles poderiam ter produzido para satisfazer um outro grupo de consumidores.  A Apple, então, utiliza estes recursos para produzir iPads, que são valorados muito favoravelmente por seus consumidores, como demonstrado pelo fato de que suas vendas geram receitas para a Apple mais do que suficiente para cobrir seus custos.

O teste de lucros e prejuízos se aplica a toda e qualquer produção feita no mercado, inclusive a mineração de ouro e a cunhagem de moedas.  Uma empresas mineradora de ouro irá produzir sempre que as receitas da venda de seu produto excederem os custos da compra de fatores de produção necessários para produzir seu produto.  Nesta situação, a empresa irá oferecer salários altos o suficiente para retirar mão-de-obra de outros setores da economia, bem como preços altos o suficiente para retirar equipamentos de mineração e outros recursos daquelas aplicações que os consumidores atualmente consideram menos valiosas, e irá direcionar esta mão-de-obra, estes equipamentos de mineração e estes outros recursos para o setor de mineração de ouro, o qual os consumidores consideram mais valioso. 

Uma empresa que faz cunhagem de moedas de ouro irá produzir sempre que as receitas da venda de seus serviços de certificação de ouro forem maiores que os custos de compra de seus fatores de produção.  A empresa irá igualmente retirar mão-de-obra, equipamentos de cunhagem, terra e outros recursos de aplicações que os consumidores atualmente consideram menos valiosas e direcioná-los para a cunhagem de moedas, atividade esta que os consumidores atualmente consideram mais valiosa.

Assim como a produção de todos os outros bens, a produção de dinheiro, quando deixada a cargo do mercado, é regulada pelo sistema de lucros e prejuízos.  Uma quantidade adicional de dinheiro será produzida quando a demanda por dinheiro aumentar ou quando a demanda por outros bens produzidos com estes mesmos recursos diminuir.  Se a demanda por dinheiro aumentar, o valor das moedas de ouro irá aumentar.  Ato contínuo, as empresas de cunhagem de moedas irão aumentar a produção para capturar este lucro adicional.  À medida que elas aumentassem oferta de serviços de certificação de ouro, o preço deste serviço iria diminuir; e à medida que sua demanda por recursos que possibilitam a certificação de ouro aumentasse, os preços destes recursos subiriam e os lucros seriam dissipados. 

Se a demanda por outros bens diminuísse, os preços de seus fatores de produção diminuiriam.  Empresas mineradoras de ouro iriam aproveitar esta queda nos preços dos fatores de produção para aumentar sua produção e, com isso, aumentar seus lucros.  Ao fazerem isso, os lucros oriundos de uma produção adicional serão eliminados.  Desta maneira, a produção de dinheiro no mercado sempre será socialmente ótima.  Foi por isso que Mises disse que fazer com que a produção de dinheiro se desse de acordo com a lucratividade da atividade e não com politicagens não era um defeito do padrão-ouro; era a sua principal virtude.

O teste de lucros e prejuízos também se aplica à produção de substitutos monetários no mercado.  Substitutos monetários — ou certificados de dinheiro — são títulos de propriedade sobre o dinheiro metálico.  Eles são emitidos por bancos e servem como substitutos para o dinheiro-commodity.  As pessoas podem considerar mais conveniente e seguro utilizar contas-correntes bancárias em vez de terem de carregar dinheiro metálico consigo quando forem transacionar.  Neste caso, os bancos irão criar e manter contas-correntes para seus clientes caso eles estejam dispostos a pagar tarifas bancárias que gerem receitas suficientes para cobrir os custos da administração de tais contas.  Se a demanda por contas-correntes aumentar, os bancos irão expandir sua oferta para capturar este lucro adicional.  À medida que eles aumentarem sua oferta de serviços de conta-corrente, as tarifas irão diminuir.  E à medida que eles aumentarem sua demanda por recursos necessários para a administração de contas-correntes, os preços destes recursos subirão.  Como consequência, os lucros serão dissipados e a produção adicional deste serviço seria interrompida em um ponto socialmente ótimo.

O teste de lucros e prejuízos também se aplica à intermediação financeira.  Bancos efetuam a função de intermediadores no mercado de crédito ao pegarem emprestado recursos de poupadores e emprestarem estes recursos a investidores.  Bancos agrupam a poupança de seus clientes, verificam a solvência e o histórico de crédito de investidores, e assumem o risco de calotes.  Se os clientes dos bancos considerarem tais serviços valiosos, então eles, ao emprestarem sua poupança aos bancos, estarão dispostos a aceitar taxas de juros menores do que aquelas que os investidores estarão dispostos a pagar aos bancos para obterem recursos emprestados. 

Os bancos fornecerão serviços de intermediação financeira se as receitas obtidas com este diferencial de juros forem altas o bastante para cobrir os custos deste serviço.  Se a demanda por estes serviços aumentar, os bancos irão aumentar sua produção.  O aumento de sua demanda por poupança de poupadores irá aumentar os juros que eles estarão dispostos a pagar aos poupadores, e o aumento da oferta de poupança para investidores irá reduzir os juros que os bancos cobrarão deles.  Haverá uma redução no diferencial de juros.  O contínuo aumento desta demanda por recursos dos poupadores irá aumentar o preço pago por esta poupança até que finalmente os lucros sejam dissipados e a produção adicional deste serviço de intermediação seja interrompida no ponto socialmente ótimo.

Ao sujeitar toda a produção, inclusive a de dinheiro e de serviços bancários, ao teste de lucros e prejuízos, o mercado produz um sistema integrado de produção que economiza otimamente o uso de todos os recursos da sociedade como um todo.

Inflação monetária e expansão do crédito

Uma moeda elástica, que pode ser produzida a custos ínfimos e de acordo com conveniências políticas, rompe toda esta integração da produção no mercado, pois é um elemento alheio ao teste de lucros e prejuízos.  Uma moeda elástica possui duas características: um banco central com autonomia de poder para emitir papel-moeda fiduciário e de curso forçado e bancos comerciais autorizados a emitir meios fiduciários. 

A produção de papel-moeda fiduciário e de curso forçado não pode ser regulada pelo sistema de lucros e prejuízos.  É e sempre será lucrativo produzir dinheiro de papel.  O custo médio de produção de um cédula de dinheiro é de $0,091.  Sendo assim, um lucro de aproximadamente $4,90 pode ser obtido com a simples impressão de uma cédula de $5.  Se o banco central continuar ordenando a impressão de cédulas de dinheiro enquanto tal atividade for lucrativa, então, no final, os preços dos fatores de produção necessários para a produção irão subir a tal ponto que custaria mais de $5 imprimir uma cédula de $5.  Consequentemente, o banco central ordenaria a impressão de cédulas de $20, depois de $50 e daí por diante, indefinidamente, exatamente como vimos em hiperinflações como as do Zimbábue recentemente, da Alemanha da década de 1920, da Hungria da década de 1940 e do Brasil nos anos 1980 e 1990.  Para evitar a destruição da hiperinflação, a produção de papel-moeda fiduciário e de curso forçado tem de ser regulada por políticas, adotando-se regras que serão inevitavelmente arbitrárias com relação ao uso de recursos escassos da sociedade como um todo.

Da mesma maneira, a produção de meios fiduciários não pode ser regulada pelo sistema de lucros e prejuízos.  Meios fiduciários são títulos de restituição em dinheiro lastreados apenas fracionadamente por uma reserva de dinheiro.  São depósitos bancários que podem ser utilizados como meios de pagamento e que não estão lastreados por dinheiro padrão, seja esse dinheiro alguma commodity como ouro ou simplesmente cédulas de papel-moeda.  Ou seja, trata-se da moeda escritural que não tem nenhuma reserva lastreando-a, pois foi criada do nada pelo sistema bancário.  Os bancos criam meios fiduciários ao criarem empréstimos.  Por exemplo, um cliente vai ao seu banco e pede um empréstimo de $40.000 para a compra de um automóvel.  Se o banco concordar em conceder o empréstimo, ele simplesmente cria um saldo de $40.000 na conta-corrente deste cliente.  Tal empréstimo irá gerar uma receita de juros para o banco ao mesmo tempo em que o custo de criação de meios fiduciários é simbólico.  Sempre será lucrativo para um banco criar outro empréstimo emitindo mais meios fiduciários.  Se, por ser esta uma atividade lucrativa, um banco continuar emitindo meios fiduciários por meio da criação de mais crédito, ele tenderá a se tornar ilíquido e insolvente, pois haverá uma grande demanda pela restituição destes meios fiduciários em dinheiro padrão.  Haverá uma corrida bancária e o banco entrará em falência.  Para evitar tal destruição, um banco tem de regular sua emissão de meios fiduciários por meio de políticas e regras que serão inevitavelmente arbitrárias com relação ao uso de recursos escassos da sociedade como um todo.

Os defensores de uma moeda elástica sabem que sua produção não pode ser submetido ao, e muito menos ser aprovada pelo, sistema de lucros e prejuízos.  Como disse F.A. Hayek,

Não há nenhuma justificativa histórica para a atual posição do governo como monopolista da criação de dinheiro.  Jamais foi proposto, muito menos provado, que o governo pode nos fornecer um dinheiro de melhor qualidade do que o livre mercado.

Defensores de uma moeda elástica meramente alegam que tal arranjo monetário pode alcançar um resultado mais desejável do que aquele gerado por um sistema de dinheiro-commodity.  A história, porém, mostra o contrário.  Desde a abolição completa da moeda-commodity e massificação do papel-moeda fiduciário de curso forçado, não apenas a inflação de preços se tornou contínua e constante, como também os ciclos econômicos se tornaram mais profundos e prolongados. 

Conclusão

Ninguém pode descrever hoje como seria a configuração de um sistema monetário criado por empreendedores operando livremente no mercado, assim como ninguém poderia prever, em 1900, como seria o desenvolvimento da indústria automotiva do século XXI, ou prever, em 1950, como seria a indústria de eletrônicos no século XXI.  O que podemos saber de antemão é que a produção de dinheiro seria regulada pelo sistema de lucros e prejuízos e que, portanto, ela resultaria na satisfação das preferências dos consumidores, seus usuários.  A inflação monetária e a expansão artificial do crédito, características constantes e deletérias de nosso vigente sistema monetário elástico, seriam eliminadas e, com elas, os ciclos econômicos que se tornaram uma calamidade em nosso mundo atual.



autor

Jeffrey Herbener
é professor de economia no Grove City College.


  • Andre Cavalcante  19/06/2012 06:57
    Muito bom!

    Entendo que a posição padrão da EA é o uso de moedas commodities (tais como o ouro e a prata) e o mercado definindo a sua necessidade, criação e uso.

    Entretanto...

    Sugestão: já está mais que na hora de um artigo exclusivo sobre o bitcoin. Por definição, é uma moeda fiduciária (não é uma commoditie). Entretanto, sua maneira de criação (trocando energia e poder de processamento por bitcoins, ou seja, há um custo para fabricação), inflação controlada, certa facilidade de transporte e uso etc., o aproxima mais de uma moeda como o ouro. Talvez o ponto negativo seria o seu uso corrente, que por hora é somente por meio eletrônico, uma vez que as versões materializadas dos BTC ainda não são amplamente difundidas, bem como a própria moeda. Algumas questões interessantes para serem resolvidas a luz da EA: seria o BTC (ou outra moeda virtual) uma forma de contra-cultura/economia fora do estado? poderia servir como meio de troca internacional? qual a qualidade da moeda frente às moedas fiduciárias atuais e frente às moedas commodities?

    Abraços.
  • Bruno  19/06/2012 09:30
    Nunca entendi qual é a do Bitcoin. Um artigo seria bastante esclarecedor!
  • Diego Kruger  19/06/2012 10:31
    O Bitcoin não tem valor intrínseco, são apenas dígitos.
  • Bateia  19/06/2012 11:55
    Dólares tampouco possuem valor intrínseco, euros e reais também não, todos são lastreados por títulos do governo que possuem uma demanda artificial que por sua vez lastreia o mercado de derivativos em uma proporção de 10 para 1, tal argumento não serve para invalidar as bitcoins, ela é o mais próximo que temos do ouro como moeda de troca e ainda a facilidade de ser virtual permitindo rápida disseminação e distribuição.

    Eu escrevo para um blog especializado no tema bitcoins e estou à disposição se necessitarem de ajuda para um artigo sobre o tema.

    Deixo um link para um post que explica o movimento que está ocorrendo na internet rumo à uma economia mais equilibrada e eficiente, é o próprio mercado corrigindo seus defeitos, o vídeo no final do post é excelente:

    www.bitcoinrevolution.com.br/a-hora-dos-bancos-chegou/

  • Diego Kruger  19/06/2012 12:10
    E é exatamente por isso que defendemos o padrão ouro. Não faz nenhum sentido você trocar um pedaço de papel por dígitos, o problema continua igual.
  • Marcio Vinhaes  19/06/2012 17:28
    Na verdade o bitcoin pode ser usado no mercado negro da internet, ambiente que é impossível usar outro tipo de moeda por causa da necessidade do anonimato, é como se o bitcoin fosse lastreado em drogas e armas ilegais; ou como se a moeda fosse lastreada em seus próprios serviços oferecidos - anonimato, velocidade etc.

    Mas sim, em um ambiente de livre-mercado o ouro provavelmente seria o preferido, mas isso não quer dizer que outras moedas não funcionariam paralelamente.
  • Andre Cavalcante  19/06/2012 18:30
    Diego,

    Um certificado de ouro também é apenas papel. O lastro é em outro, mas o papel é papel. Poderiam ser dígitos no computador. Isso não muda a essência do dinheiro: simples meio de troca.

    Não ter valor intrínseco é o que caracteriza uma moeda fiduciária. Nenhuma moeda moderna, por fiduciária, tem valor intrínseco (a não ser um piadista português que arrumou um novo uso para o euro: papel não-higiênico!).

    Não se discute que a escolha do IMB é para uma moeda commoditie. Mas seria interessante uma análise das bitcoins através de uma visão austríaca.

    Marcio Vinhaes,

    Só esclarecendo: as bitcoins não são lastreadas em nada, ou melhor, são lastreadas no processamento gasto para validar as bitcoins na rede bitcoin, ou seja, sua vida reside inteiramente em uma formulação matemática nos computadores. Se você usa isso para comprar drogas num mercado negro ou um novo computador numa loja que paga impostos, é uma questão pessoal, nada relacionado à moeda em si. Mas essa propriedade é uma das que me leva a questionar sobre a validade da alternativa bitcoin como uma forma de contra-economia.

    Abraços.
  • Tiago RC  20/06/2012 01:55
    "são lastreadas no processamento gasto para validar as bitcoins na rede bitcoin"

    Isso é incorreto. Dizer isso é como dizer que o ouro é lastreado nos custos necessários para extraí-lo.

    Quem fala tanto em "moeda com lastro", "moeda sem lastro" deveria entender melhor o que está dizendo. Nenhuma moeda primária, por definição, pode ter lastro. Uma "moeda com lastro" é apenas um certificado, um contrato, uma dívida, um "I Own You". Não é a moeda primária em si.
    Uma nota de papel "lastreada em ouro" é apenas um contrato onde alguém se compromete a entregar ouro em troca de tal nota. O ouro, a verdadeira moeda primária nesse caso, não está lastreado em nada, nem poderia estar.

    Não faz sentido dizer "não aceito moedas sem lastro", já que nenhuma moeda primária pode estar lastreada em algo.
  • Andre Cavalcante  20/06/2012 04:46
    Thiago,

    Ok. Cê está certo. Apenas repeti um argumento comum, associar os custos de operação da rede bitcoin com o "lastro" da moeda. Dúvida: esse custo não seria o tal custo marginal da moeda? Outra: as bitcoins poderiam ser lastreadas em ouro ou outra commoditie?

    Abraços.
  • Tiago RC  20/06/2012 05:59
    André, o custo de produção das bitcoins varia de acordo com uma série de fatores (capacidade do hardware, dificuldade atual, ponto atual na curva de produção, custo pago pela eletricidade etc), mas nada disso tem a ver com "lastro".

    Quanto a lastrear bitcoins em outra commodity... bom, qual seria o propósito? É como lançar moedas feitas de prata pura, lastreadas numa quantidade de ouro (ou vice-versa). Não vejo o interesse.

    Se o que você quer é um protocolo interessante para emitir "tokens" digitais lastreados em algo, sugiro dar uma olhada no Open Transactions. É algo ainda bem novo, mas bastante interessante. O modo "cash-only" desse protocolo, por ex., garante um nível de anonimato praticamente equivalente ao de transações com dinheiro vivo, ou seja, mais anônimo que bitcoins. Só que é um protocolo dependente de servidores, não é p2p. Mas nem faz sentido ser, já que o propósito é emitir títulos de propriedade garantidos por alguém. Já é necessário confiar no emissor por definição.
  • Samuel  19/06/2012 20:08
    Como todos nós aprendemos aqui no IMB, a moeda surge naturalmente. Para que uma "coisa" seja eleita como meio de troca e reserva de valor, ela deve cumprir, ou melhor, ela deve possuir certas características: ser durável, ser divisível, ter alta demanda em relação à oferta, ser facilmente reconhecido pelas pessoas e difícil (impossível) de ser falsificado e/ou reproduzido, ser transportável/armazenável com alto valor intrínseco etc...

    Acho que, pelo menos em nossa geração, os bitcoins ainda não cumprem com todos os requisitos. Só com muita fé para acreditar que os bitcoins possam se igualar ao ouro e a prata.
  • Tiago RC  20/06/2012 02:11
    "ser durável, ser divisível, ter alta demanda em relação à oferta, ser facilmente reconhecido pelas pessoas e difícil (impossível) de ser falsificado e/ou reproduzido, ser transportável/armazenável com alto valor intrínseco "

    Com exceção de
    * "alto valor intrínseco", que é uma auto-contradição, já que valor é subjetivo.
    * "alta demanda em relação à oferta", que é algo que não faz muito sentido, já que são duas grandezas incomparáveis (tudo o que você pode tentar dizer é que num dado período de tempo a demanda cresceu mais que a oferta ou vice-versa, mais dizer que uma é alta em relação a outra não faz sentido... os preços estão lá justamente para equilibrar essas coisas). Eu suponho que o que você quis dizer aqui foi algo como "alto preço por unidade de massa/volume, em relação às alternativas", e nesse quesito qualquer moeda digital é incomparavelmente melhor a uma alternativa física.

    Em todos os outros pontos (os pontos válidos), cryptocurrencies como Bitcoin se destacam. Duram enquanto você conseguir preservar seus backups, com evoluções no protocolo são infinitamente divisíveis, podem ser imediamente reconhecidas por qualquer pessoa com o programa adequado (i.e., um programa não fraudulento), é impossível de se falsificar, e na questão transporte/armazenamento, o que preciso dizer? Todas as bitcoins do mundo podem teoricamente caber no teu bolso, e podem ser enviadas para qualquer lugar do planeta em instantes.

    Sério, indico mais uma vez o texto do Erik Voorhees. Todo libertário que ainda é cético quanto ao conceito de moedas digitais p2p deveria ler: evoorhees.blogspot.fr/2012/04/bitcoin-libertarian-introduction.html

    Abraços!
  • Tiago RC  20/06/2012 01:38
    Nada tem valor intrínseco. Um leitor do IMB deveria entender isso. Valor é subjetivo.
    The Fallacy of "Intrinsic Value", by Gary North
  • Silvio  02/10/2012 16:12
    O maior problema (do ponto de vista do governo e seus interesses) é que ele garantidamente é irrastreável. Ou seja, o governo não consegue determinar quem tem o bitcoin e pra quem repassou numa compra/venda.

    Dessa forma, é impossível cobrar impostos sobre renda pois não dá pra determinar o destino dos recursos e associar a uma pessoa.

    É por isso que o bitcoin é "tão temido pelos governos".
  • Eliel  19/06/2012 07:40
    Recomendo a leitura em pt.wikipedia.org/wiki/Bitcoin, a respeito do bitcoin conforme sugestão do Andre. Após a leitura deste artigo e dessas outras fontes ficamos mais curiosos.
    O próprio mercado poderá um dia melhorar a criptografia da bitcoin através dos nós da rede mundial alocando mais recursos para o desenvolvimento dos qubits da computação quantica.
    Realmente, ninguém previu a existencia da internet até fins da década de 80. Prever moeda virtual segue nessa linha.
    Entretanto, poderíamos antecipar algumas coisas relacionadas à informação. Ainda assim teria que aprofundar nos estudos de Hayek para melhor clareza de raciocínio, pois este assunto não se esgota.
    Em tempo, sobre moeda virtual ha uma teoria sobre isso que li ja faz tempo num livro escrito por um brasileiro. Trata-se de um meio do proprio mercado livre vencer o desemprego com a criação e destruição de moeda vitual, a principio para os desempregados, em um nivel minimo de sobrevivencia basica na sociedade.

    Vejam tambem:
    www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=economia-futuro-dinheiro-virtual&id=010150110614.
    Abraços.
  • amauri  19/06/2012 08:03
    Bom dia!
    A equipe IMB fará um artigo comentando o debate que está ocorrendo agora entre os "Guardiões da Estabilidade"?
    abs
  • Tiago RC  19/06/2012 08:32
    "Sempre será lucrativo para um banco criar outro empréstimo emitindo mais meios fiduciários. Se, por ser esta uma atividade lucrativa, um banco continuar emitindo meios fiduciários por meio da criação de mais crédito, ele tenderá a se tornar ilíquido e insolvente, pois haverá uma grande demanda pela restituição destes meios fiduciários em dinheiro padrão. Haverá uma corrida bancária e o banco entrará em falência."

    O autor se contradiz na primeira e na última frase desse trecho.
    Se "será sempre lucrativo", como é que o banco pode "ir a falência"? Se ele vai a falência, é porque não foi lucrativo no final das contas. É como fazer um investimento que você não pode dar conta de levar até o final.

    Não é correto dizer que será sempre lucrativo aos bancos criar mais dinheiro via empréstimos. Se não houver um "emprestador de última instância" para salvá-los com nossos recursos, eles estariam assumindo um risco, que deve ser levado em conta.

    "Para evitar tal destruição, um banco tem de regular sua emissão de meios fiduciários por meio de políticas e regras que serão inevitavelmente arbitrárias com relação ao uso de recursos escassos da sociedade como um todo."

    Essas políticas serão tão arbitrárias e desconectadas do uso de recursos escassos quanto as políticas adotadas pelos mineradores mencionados previamente.
    Todo agente econômico toma "decisões arbitrárias". Mas enquanto esteja agindo num sistema voluntário, está submisso ao sistema de preços. Suas decisões não serão desconexas da escassez de recursos... más decisões podem implicar em prejuízos e eventualmente falências.
    Não consigo ver porque essa regra se aplica perfeitamente à decisão voluntária de minerar mais ou menos, mas não se aplicaria à decisão voluntária de criar reservas fracionárias.

  • Leandro  19/06/2012 09:15
    Tiago, a falência bancária, como você sabe, ocorreu neste caso devido a uma corrida aos bancos para o saque de depósitos, e não porque houve um aumento dos custos superior às receitas. Logo, não há contradição em se dizer que sempre será lucrativo emitir meios fiduciários.

    O banco vai à falência não porque houve um aumento de seus custos, mas simplesmente porque não foi capaz de honrar integralmente todos os contratos assumidos.. Não é à toa que, havendo uma restrição de saques, banco nenhum vai à falência por excesso de emissão de meios fiduciários.

    Essa distinção é importante.

    Abraços!
  • Tiago RC  20/06/2012 01:47
    Mas Leandro, então seria correto também afirmar que eu sempre terei lucros fazendo investimentos super arriscados, o que é uma afirmação claramente errada. Em algum momento eu posso perder dinheiro (=prejuízo) e ir à falência.
    O banco que emite moeda fiduciária via reservas fracionadas está aceitando um risco, que ele deve calcular bem, ou não terá "sempre lucros". Riscos podem ser considerados custos, de uma certa maneira. O banco que não contabilizar direito o risco de uma corrida bancária pode acabar tomando prejuízo.
    Voltando ao exemplo de mineradores, seria como um minerador que não calculou direito o risco de terremoto de uma região e perdeu toda sua mina em um. O que antes podia estar dando lucros, de repente vira um enorme prejuízo, pois um dos custos (o risco de um terremoto) não foi devidamente contabilizado.

    Se você tem "sempre lucros" não dá pra ir à falência, é isso que quis dizer que é contraditório.

    Abraços!
  • Leandro  20/06/2012 03:40
    Tiago, não entendi seu exemplo e não vejo nenhum sentido nele. Fazer investimento arriscado nada tem a ver com criar dinheiro. Aliás, eu diria que criar dinheiro é exatamente o oposto de um investimento arriscado.

    Criar meios fiduciários é e sempre lucrativo simplesmente porque você está criando dinheiro (ou receita) a custo zero. O que você está dizendo é que se, você tiver uma impressora de dinheiro em sua casa, e puder imprimir dinheiro a custo (quase) zero, você irá falir.

    Abração!
  • Tiago RC  20/06/2012 04:36
    Imprimir dinheiro como um BC faz não é idêntico a criar dinheiro via reservas fracionárias. O BC de fato não incorre em nenhum risco. O banco com reservas fracionárias (e seus clientes) sim. O BC pode não ir a falência por criar mais dinheiro. Já um banco pode quebrar por isso.

    É por isso que comparei reservas fracionárias com um investimento arriscado. Não há garantias que a prática "sempre dará lucros". Em algum momento isso pode se reverter em prejuízos.

    Abração!

    PS: Obrigado por estar frequentemente por aí respondendo os comentários de todo mundo. O IMB ganha ainda maior legitimidade graças a isso.
  • Someone  21/06/2012 06:43
    Tiago, não sei qual a sua formação, mas complementando a informação do Leandro, será sim sempre mais lucrativo para o banco (perspectiva econômica/DRE). O fato dele falir por não conseguir honrar seus compromissos financeiros é outra perspectiva, a financeira (balanço), que trata, dentre outras coisas, do risco e liquidez. São questões muitas vezes descasadas, tanto que é facílimo uma empresa quebrar por problemas financeiros mesmo com lucro líquido positivo. Imagine uma rede de supermercados com receita mensal de $300 milhões, que receba dos clientes à vista, pague em 90 dias (prática comum) e tenha 30 dias de estoque. Ele terá $600M em caixa que não pertencem a ele e são resultados de uma necessidade de capital de giro negativa. Ele pode manter tal caixa em investimentos de liquidez diária e retorno fixo, o que minimiza o risco mas também o retorno. Ou ele pode "arriscar" parte deste caixa, por exemplo, comprando uma rede concorrente. Agora imagine que dos $600M ele coloque $500M em tal rede. Porém a algum evento local, regional ou global faz as vendas caírem a $200M mensais e o efeito chicote faça os estoques se elevarem para 60 dias. A situação anterior de $600M ($900M do fornecedor menos $300M do estoque) de caixa "gerado" pelo negócio passa para $200M ($600M do fornecedor menos $400M do estoque). Ele terá que cobrir estes $100M com caixa livre não relacionado ao NCG, e se não o tiver estará insolvente e terá que buscar aportes de acionistas, "queimar" ativos em cash à vista, buscar um empréstimo salvador caríssimo ou simplesmente decretar falência. E tudo isso pode acontecer com o DRE apresentando lucro líquido positivo. Um exemplo semelhante mais inverso é uma empresa que pague os fornecedores à vista e dê 90 dias de prazo para os clientes: se ele aumentar as receitas sem a correta cobertura do aumento da NCG estará insolvente - e novamente isso pode acontecer com LB/LO/LL/EBITDA ou qualquer tipo de lucro positivos. O caso dos bancos é um pouco mais complexo em seus detalhes mas o resumo é simples: na prática por aqui a poupança tem liquidez imediata e não tem prazo definido contratual para o saque (fonte de recursos) e é emprestada com prazo definido e incerteza de recebimento (aplicação). Se ocorrer uma corrida bancária (saques em massa) o banco ficará insolvente e ao mesmo tempo, graças às regulações esdrúxulas, as pessoas ficarão sem os seus depósitos que estão nessa "zona cinzenta" (promessa de uma ao dono do dinheiro e aplicação de outra forma), mas garantidas pelo governo dentro de certas regras, que imprimirá reais para salvar a todos. O correto, como já foi colocado aqui, é o banco ser liquidado e os portadores destes direitos ("poupança") serem ressarcidos na medida em que os créditos emprestados forem sendo recebidos ou negociados com outra instituição. Tido isso (que você já sabe), mas entendida a diferença entre lucro e caixa chegamos na chave da questão: se a remuneração paga para a fonte de recursos mais os custos gerais dos serviços (custos - de quem tomou dinheiro, como a poupança, e quanto custa processá-lo) for menor do que a remuneração recebida das aplicações (receitas - para quem emprestou) ocorrerá lucro nessa operação. E as reservas fracionárias são basicamente a possibilidade de auferir receita com custo zero, sendo, portanto operações lucrativas ou, em outras palavras, economicamente vantajosas. O fato de serem operações arriscadas - mesmo com a intervenção do governo - torna ela financeiramente problemática, sendo esta outra perspectiva de análise (Lucro/Resultados das operações/DRE e Patrimônio/Liquidez/Balanço). O exemplo do supermercado que eu dei é parecido: a rede pode "ganhar" novas lojas utilizando como capital um dinheiro em caixa que não é dos acionistas nem do banco e não precisa ser remunerado (teoricamente, mas em uma análise tu adicionarias o custo de capital), porém sofrendo significativos riscos em tal operação até que reponha o caixa com o fluxo de caixa das operações - tanto antigas quanto das novas lojas (semelhante a uma compra alavancada, que é feita com empréstimos a serem pagos pela geração de caixa futuro).
  • Someone  22/06/2012 17:18
    Acho que meu exemplo é meio complexo de entender para quem não estudou gestão financeira, mas a idéia geral é simples.
  • Bernardo Santoro  19/06/2012 08:48
    Eu realmente acho impossível um sistema de lastro-ouro perfeito. Eu preciso refletir melhor sobre a questão dos títulos de crédito. Se formos parar para pensar, notas promissórias, letras de câmbio, cheques, etc, são "dinheiro não compulsório" criados por particulares, e se aceitos funcionam como dinheiro. Até mesmo contratos com a cláusula "à ordem" podem ser utilizados como dinheiro, e nesse caso eles poderiam ser lastreados até mesmo por serviços, e não apenas por produtos (como ouro e prata). No Curso de Escola Austríaca eu cheguei a comentar por alto esse pensamento com o Helio, mas depois chegaram outras pessoas e o papo morreu. Quando eu tiver tempo, vou dar uma estudada mais profunda em títulos de crédito para fazer essa relação com dinheiro e lastros, para ter uma posição final sobre o assunto.

    No mais, como sempre, ótimo artigo. E humilde também, já que o próprio autor afirma no final que não sabe como prever como será a produção de dinheiro no livre-mercado, utilizando-se, portanto, do bom e velho raciocínio crítico e deixando de lado o sempre perigoso raciocínio construtivista.
  • Silvio  02/10/2012 16:20
    Desculpe minha ignorância, mas aproveitando que você falou de lastros em títulos.

    Eu consigo entender uma empresa emitir um título qualquer de dívida e vendê-lo com a promessa de pagamento de juros, o que configura um empréstimo, como no caso de debêntures, por exemplo.

    Mas não consigo entender o fluxo da moeda num sistema de produção de moedas de mercado.
    A mineradora fabrica a moeda de ouro. E depois, como ela vai para o mercado? Comprando fatores de produção para produzir mais moedas?
  • Leandro  02/10/2012 16:37
    A mineradora extrai o ouro da terra; quem faz a cunhagem do ouro em moeda é outra empresa, não necessariamente a mineradora.

    Como explicado pelo artigo, "uma empresas mineradora de ouro irá produzir sempre que as receitas da venda de seu produto excederem os custos da compra de fatores de produção necessários para produzir seu produto." Ato contínuo, o ouro extraído da terra será vendido para quem quiser comprá-lo. Uma vez comprado este ouro (o qual, vale enfatizar, ainda não está no formato final de moeda, pois ainda tem de ser trabalhado e cunhado), o comprador fará o que quiser com ele. Ele pode tanto utilizá-lo para fins industriais quanto pode levá-lo para ser cunhado e transformado em dinheiro. E ele só fará isso se o custo valer a pena (também explicado no artigo).

    Pronto, é assim que o dinheiro entra na economia.

    Compare com a realidade atual, em que o dinheiro entra na economia diretamente na forma de endividamento. Todo o dinheiro que existe hoje nas contas bancárias entrou na economia por meio de empréstimos. No atual arranjo monetário e financeiro, não há outra maneira de o dinheiro entrar na economia atual senão pela concessão de empréstimos.

    Isso foi explicado em detalhes neste artigo.

    Grande abraço!
  • Silvio  05/10/2012 13:27
    Prezado.

    Obrigado pela resposta mas não ficou claro pra mim.


    No sistema monetário que temos, a fundição é nacional e sem direito de troca, ou seja, a moeda não tem lastro em metais. Então só a casa da moeda pode imprimir dinheiro no sentido físico da coisa, de fazer cédulas e moedas. A casa da moeda imprime a cédula mas não pode jogar o dinheiro na economia.

    Então sobre a entrada de dinheiro na economia, entendo que o governo pode:

    1) Emitir moeda e pagar dívida/contratar serviços, aumentando a base numerária em circulação (imposto inflacionário);
    2) Comprar títulos de bancos via BACEN, e assim capitalizar os bancos para empréstimos, o que gera moeda via multiplicador (sistema de reserva fracionada).

    Então as formas de entrada são as empresas e serviços contratados pelo governo no caso 1; e os empréstimos bancários no caso 2.

    Já no caso de uma empresa de cunhagem, não ficou muito claro para mim. Digamos que uma moeda tenha valor 10, o ouro para produzi-la custe 5 e outros custos sejam 3. Para cada moeda feita a empresa lucraria 2. Ela usaria as moedas feitas para comprar mais ouro, pagar os funcionários e lucrar os 2 de diferença? É simplesmente assim?
    Se for só isso, parece bem mais simples que o sistema de reserva fracionária.
  • Leandro  05/10/2012 13:51
    "Digamos que uma moeda tenha valor 10, o ouro para produzi-la custe 5 e outros custos sejam 3. Para cada moeda feita a empresa lucraria 2."

    Obviamente não seria assim porque este exemplo não faz sentido econômico. Não existe isso de uma moeda de ouro ter valor 10 mas o seu ouro ter valor 5. Os valores são os mesmos. Você está raciocinando em termos de moedas de papel, cujo valor nominal é aquele que foi desenhado nela.

    Não, no padrão-ouro o valor de uma moeda é definido pela quantidade de ouro contida nela. Em vez de cifras monetárias, pense em termos de massa. Por exemplo, um carro que hoje custa R$60 mil reais custaria 522 gramas de ouros.

    Sendo assim, uma mineradora iria prospectar e escavar ouro apenas se todo este processo rendesse uma quantidade de ouro que, ao ser vendida no atacado, lhe fornecesse uma receita maior do que seus custos. Exatamente como é hoje, aliás.

    Isso, por si só, faria com que -- exatamente em decorrência dos mecanismos explicados no artigo -- a oferta de ouro crescesse de forma bastante moderada, ao contrário do que ocorre no atual sistema, em que dinheiro eletrônico é criado por meio de um simples toque de computador.

    E não, no padrão-ouro puro a moeda não entra no sistema por meio do governo ou dos bancos. Tal monopólio é exclusividade do sistema atual.
  • Silvio  05/10/2012 14:58
    Prezado,

    Obrigado novamente pela resposta.

    Entendo que a forma de entrada de dinheiro via bancos/governos, conforme eu escrevi, é exclusividade do sistema que possuímos hoje e que não existiria em um sistema padrão-ouro.

    Também entendo que a entrada de moeda no padrão-ouro se daria no ritmo em que o ouro fosse extraído e usado na produção de moeda.

    Mas não vejo como uma empresa de cunhagem existiria de maneira independente da mineradora. Se os valores monetários são expressos em peso de ouro, teoricamente peças de ouro sem forma definida teriam o mesmo valor de uma moeda com peso igual.

    Sendo assim, o uso da moeda seria apenas uma forma de padronizar a quantidade de ouro das "peças", facilitando a identificação das quantidades de ouro contidas nelas.

    Agora supondo uma empresa de cunhagem da moeda, ela tomaria o ouro "bruto" para si, e transformaria em moeda, tudo isso visando algum lucro. Mas de onde sairia? Se não há diferença de valor entre o ouro "bruto" e a moeda de ouro, desde que o peso seja igual, então como lucrar? Entendo que apenas é possível lucrar se o ouro bruto custar menos que as moedas. Ou seja, dou uma moeda de 2g para comprar 5g de ouro bruto, por exemplo. É isso?

    A pergunta é realmente com foco "operacional". Entendo a maioria dos conceitos do ponto de vista da macroestrutura.

    Desculpe a insistência no tópico, mas talvez meu hábito com o sistema atual esteja me impedindo de ver coisas óbvias.
  • Leandro  05/10/2012 15:29
    A empresa de cunhagem receberia o ouro em seu estado bruto, isto é, da maneira como ele saiu da terra. Este ouro teria de ser fundido e então cunhado para ser transformado em moeda. (Cada empresa de cunhagem teria seu design próprio e especial, de modo a facilitar ao máximo a identificação de suas moedas, bem como a quantidade de ouro contida nelas. Isso, por si só, seria um fator de concorrência entre elas.)

    Como as empresas aufeririam receitas? Exatamente como ocorria no passado (sim, nos séculos passados, havia cunhagem privada de moeda): quando um indivíduo levava um metal precioso para ser fundido, cunhado e transformado em moeda, o fundidor retinha parte do metal fundido. Essa era sua receita. Há até um termo técnico para designar este fenômeno: senhoriagem.

    A senhoriagem é essa receita gerada pela diferença entre o valor total final das moedas cunhadas e o valor total inicial do ouro que foi levado para ser fundido e cunhado.

    Desnecessário dizer que, dependendo do "trabalho de arte" do cunhador, suas moedas podem ser bonitas e, com isso, serem transacionadas a um "prêmio", isto é, a um valor nominal maior do que o valor total do ouro contido nelas. Quais as consequência disso? Duas. Quem levou os lingotes para serem transformados em moeda acabou, o final, não perdendo nenhum valor monetário (ele tem menos gramas de ouro, mas suas moedas, por serem mais bonitas, valem mais) e a empresa, por possuir esta competência, acabará naturalmente atraindo mais clientela.
  • Silvio  08/10/2012 15:51
    Perfeito Leandro.

    Era exatamente essa a minha dúvida e ficou esclarecida agora. Obrigado pela paciência em me ensinar um pouco mais.

    Um abraço.
  • jose carlos zanforlin  19/06/2012 12:18
    Tema muito interessante e que guarda relação com o título abaixo, pois criação de moeda pelo estado leva, quase sempre, a esse extremo. Sugiro leitura (ou tradução pelo excelente Leandro Roque).\r
    \r
    \r
    The Fascist Threat \r
    Mises Daily: Tuesday, June 19, 2012 by Llewellyn H. Rockwell Jr. \r
    \r
    mises.org/daily/5752/The-Fascist-Threat \r
    \r
  • eduardo  19/06/2012 19:59
    Estava esperando por esse artigo a um tempo ja..
    Boa, muito interessante!
  • Ari Castro  19/06/2012 20:43
    Bem legal esse vídeo: AWAY NILZER - IMPOSTOS NO BRASIL www.youtube.com/watch?v=Ew1QT8-gDMs&feature=relmfu
  • Eliel  21/06/2012 05:38
    Lembrei o nome do autor brasileiro que mencionei acima, em 19/06:

    Pichael Sueckes

    E seu livro é:

    XUSING: A Teoria Sistêmica do Usuarismo

    "Completo modelo alternativo como solução aos sistemas mundiais nos aspectos: monetário, econômico, social, financeiro, administrativo, político e ambiental. Complete alternative model as a solution to the global aspects: monetary, economic, social, financial, administrative, political and environmental. Un modelo alternativo completo como una solución a los aspectos globales: monetarios, económicos, sociales, financieras, administrativas, políticas y ambientales."

    Mas parece que este autor tá mais para um pós-keynesiano enrustido, se é que posso usar o termo. Li seu livro bem antes de conhecer a E.A. Vejam abaixo um resumo biográfico que localizei via google:

    "Pichael Sueckes é Economista e Administrador, autor do livro bilíngüe "XUSING: A Teoria Sistêmica do Usuarismo". Realiza palestras e cursos sobre nova sistemática como modelo alternativo para sociedade humana em seus aspectos econômicos, sociais e políticos. Considera-se cidadão do mundo e sempre viaja para novas regiões a fim de divulgar a Teoria e o Projeto XUSING. Dallida Cedrack é Administradora e pioneira no ensino e divulga novo sistema alternativo aos modelos socioeconômicos atuais. Busca mudança comportamental e treina pessoas a viver novo estilo de sociedade em que o dinheiro e a riqueza são abundantes para completa satisfação e desejos das pessoas, sem excluir ninguém ou perca alguma coisa com a mudança. Desenvolveram e implantam novo Sistema Financeiro e Monetário Mundial para tirar o mundo da atual crise financeira. Também, criaram o CAPITUS - A Moeda Única Universal que integra todo os países ou blocos econômicos, sem tirar o domínio das suas autoridades monetárias."

    Como cita o professor Iorio em seu livro "Ação, Tempo e Conhecimento", à pag.11:

    "Mas, como tudo tem um lado bom, (omnia in bonum, como escreveu São Paulo)."




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