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Os agregados keynesianos escondem justamente o essencial

Umas das mais acuradas frases pronunciadas por F.A. Hayek sobre John Maynard Keynes, e uma das mais repetidas, advém de uma crítica sua feita ao livro de Keynes lançado em 1930, A Treatise on Money.  Hayek escreveu: "As agregações feitas pelo senhor Keynes ocultam os mais fundamentais mecanismos de mudanças que ocorrem na economia".  A macroeconomia austríaca baseia-se firmemente na análise dos "mecanismos de mudanças" que ocorrem no âmbito microeconômico, os quais, em última instância, abrangem toda a atividade econômica.  E é esse discernimento austríaco o método que melhor explica tanto os erros e má alocações de recursos que ocorrem no período da expansão econômica artificial quanto a maneira correta de se curar recessões.

A abordagem austríaca é relevante tanto para o capital quanto para a mão-de-obra.  Nos modelos-padrões keynesianos (bem como na maioria dos outros modelos macroeconômicos), o capital é visto como sendo uma massa homogênea, indistinta, indiferenciada.  O modelo keynesiano também presume que as taxas de juros não equilibram a oferta de poupança com a demanda por fundos para serem investidos.  Consequentemente, de acordo com o modelo keynesiano, quando as pessoas decidem poupar mais — o que por si só gera um redução nos juros —, não há nenhum sinal enviado aos investidores de que eles devem investir mais para o futuro.  Como resultado, o declínio no consumo gerado pelo aumento da poupança faz com que as empresas invistam menos e que seus estoques se avolumem, e tudo isso sem que haja nenhum aumento nos investimentos em outras áreas da economia em decorrência das menores taxas de juros.  Logo, de acordo com o modelo keynesiano, não ocorre para contrabalançar um aumento da poupança.

Na visão austríaca, o investimento não pode ser e não é tratado com tamanho nível de agregação.  O processo de produção que leva à criação de bens de consumo é formado por várias etapas de produção, começando com os estágios "iniciais" de pesquisa e desenvolvimento, bem como a extração de matérias-primas, e terminando nos estágios "finais", como vendas no atacado e gerenciamento de estoques, os quais são os mais próximos do consumidor final.

Analisar a estrutura de produção desta forma permite aos austríacos observar que, quando a poupança aumenta e faz com que os juros caiam, recursos serão retirados dos estágios finais — por exemplo, haverá uma redução de investimentos para a formação de estoques — e serão realocados na forma de investimentos nos estágios iniciais do processo de produção, uma vez que juros mais baixos fazem com que processos de produção que envolvem mais estágios se tornem relativamente menos custosos.  Ao longo do tempo, a poupança promove esses processos mais alongados, mais voltados para o longo, os quais são mais produtivos e que, principalmente, fornecem à economia uma maior oferta de capital, o que possibilita um crescimento econômico mais sustentável.

Ao fazer essa desagregação do investimento, o modelo austríaco também mostra que diferentes tipos de bens de capital têm de "ser combinados" corretamente para que possam ser produtivos.  Isso se torna bastante claro quando o banco central tenta gerar crescimento econômico por meio da inflação monetária.  Nesse caso, as taxas de juros mais baixos produzidas pela criação de dinheiro levam a um aumento nos investimentos daqueles mesmos estágios iniciais.  No entanto, ao contrário do nosso primeiro relato, no qual esse aumento do investimento foi financiado por uma redução no investimento nos estágios finais, a inflação também aumenta o consumo ao longo de toda a economia, uma vez que juros mais baixos desestimulam a poupança e estimulam o endividamento.  A expansão do crédito não cria nenhum recurso novo (imprimir dinheiro não faz com que bens surjam do nada), mas faz com que haja mais investimentos tanto nos estágios iniciais quanto nos estágios finais do processo de produção.  Essa é a fase do crescimento econômico artificial do ciclo econômico.

No entanto, como uma ferrovia sendo construída simultaneamente desde dois pontos opostos, com seus trilhos partindo desalinhadamente, os planos desses dois conjuntos de investidores são insustentáveis, e os projetos, no final, não serão completados, pois não há recursos suficientes na economia para tal.  A expansão monetária, ao reduzir artificialmente os juros, enganou os empreendedores, fazendo-os crer que havia mais poupança do que de fato havia.  A recessão se instala.  [Para uma explicação mais completa deste processo, veja este artigo].

A mão-de-obra também

Tudo o que foi dito para o capital também se aplica para a mão-de-obra.  A maioria dos modelos keynesianos também trata a mão-de-obra como um agregado indistinto, referindo-se a coisas como "o" mercado de trabalho e "os" salários.  Porém, quando analisamos os processos microeconômicos inerentes à estrutura de produção, vemos que cada um desses estágios possui o seu próprio mercado de trabalho.  Assim, quando os recursos são direcionados de um estágio para outro, a demanda por mão-de-obra também será alterada, levando a mudanças nos salários pagos em cada setor.  Setores em crescimento irão atrair mais mão-de-obra, e setores que estiverem encolhendo irão liberar mão-de-obra.

Durante um período de crescimento econômico gerado pela expansão monetária, a mão-de-obra, assim como o capital, será alocada erroneamente ao longo dos estágios de produção.  E quando o crescimento se tornar recessão, trabalhadores perderão seu emprego tão logo os projetos nos quais estiverem trabalhando forem abandonados.  O desemprego sobe à medida que a economia entra em recessão.  Contudo, esse desemprego, assim como a alocação errônea e insustentável de capital, não será uniformemente distribuído por toda a economia.  Para ver os custos reais de um ciclo econômico gerado pela inflação monetária é necessário ir mais além dos agregados.  Só assim é possível ver e entender os mecanismos fundamentais das mudanças que ocorrem na economia.  

Centrar-se excessivamente nos agregados keynesianos também provoca equívocos quanto à melhor forma de sair de uma recessão.  Os agregados fazem parecer que tudo o que é necessário é aumentar o investimento, o consumo ou criar mais empregos.  Porém, quando entendemos que os "fundamentais mecanismos de mudanças que ocorrem na economia" estão relacionados à alocação insustentável de capital e mão-de-obra ocorrida durante o período da expansão econômica, torna-se então possível entender que o necessário é permitir uma realocação desses recursos para aplicações mais produtivas, e não expandir ainda mais esses recursos.  O capital deve ser liberado dos investimentos mais improdutivos e realocado para as linhas de produção mais produtivas e mais demandadas pelos consumidores.  E o mesmo vale para a mão-de-obra.

Gastos governamentais, pacotes de estímulo e de socorro a empresas falidas, e ampliação do seguro-desemprego irá somente impedir que os mecanismos fundamentais da mudança atuem para corrigir os erros cometidos durante o período da expansão.  A cura para uma descoordenação macroeconômica está em liberar o processo empreendedorial do mercado, permitindo que ele realoque e coordene os recursos.

Mas 80 anos após Hayek ter explicado esse processo, o fascínio dos economistas e dos políticos com os agregados keynesianos continua a ocultar os mecanismos fundamentais da mudança.  E, ao fazer isso, continua impedindo o processo por meio do qual uma recuperação sustentável possa ocorrer após uma recessão.



autor

Steve Horwitz
é professor de economia na St. Lawrence University e autor do livro Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.



  • Getulio Malveira  16/12/2011 07:04
    Há muito tempo eu esperava um texto que abordasse a questão do fator trabalho e do emprego a partir da E.A. Tenho a intuição de que a distorção causada pelo intervencionismo sobre na estrutura de trabalho da economia deve ser maior que a causada na estrutura do capital, já que suponho que a tranferência de uma pessoa de um mercado de trabalho à outro é mais difícil do que a tranferência de investimento. Gostaria de ver mais textos aqui sobre o assunto.
  • Leandro  16/12/2011 07:23
    Getulio, mas a questão é que uma coisa puxa a outra. A alocação do capital é seguida por uma alocação da mão-de-obra. Para onde vai o capital vai também a mão-de-obra, pois aquele precisa deste. Não faz muito sentido haver um aumento na demanda por mão-de-obra em um determinado setor sem um concomitante aumento na demanda por bens de capital para aquele mesmo setor. E vice-versa. Logo, a distorção tende a ser semelhante.

    O problema é que, quando a recessão se instala, tanto o capital quanto a mão-de-obra precisam ser realocados. Em teoria, realocar a mão-de-obra é mais fácil do que realocar capital, pois este tende a estar imobilizado (na forma de fábricas, construções e novas filiais), ao passo que a mobilidade da mão-de-obra tende a ser mais imediata.

    Só que leis trabalhistas, intervenções sindicais, impressão de dinheiro e gastos governamentais que visam a impedir que os preços caiam atrapalham essa mobilidade.

    Abordei esse assunto em mais detalhes na primeira metade deste artigo, talvez explique um pouco melhor.

    Grande abraço!
  • Getulio Malveira  16/12/2011 11:43
    Sim, esclareceu bastante. Mas o que eu estou divagando há algum tempo é o seguinte: certamente a maior parte da mão-de-obra é inespecífica e pode ser realocada com facilidade (não é difícil realocar um trabalhador da construção civil para a indústria metalúrgica), mas há profissões especializadas (como os engenheiros específicos, cientístas em geral, enfim, profissões que demandam anos de formação). Se a estrutura de produção, não haverá uma sinalização equivocada sobre a demanda futura por certas profissões especalizadas, levando, por exemplo, a um excesso de engenheiros civis e um déficit de engenheiros metalúrgicos? Ou a um excesso de engenheiros em geral e um déficit de trabalhadores manuais? Naturalmente penso que profissionais especializados tenderão a resistir á realocação. Mas o que é mais importante, ainda que pudessem ser realocados com facilidade (a última razão pertence ao estômago) o prejuízo humano é considerável em termos de um bem valioso, o tempo. No fim, o que venho pensando é: como aplicar a E.A. ao mercado de educação e formação profissional. \r
    \r
    De todo modo, valeu pela resposta e pala indicação do artigo. Qualquer outro nesse sentido também me seria de grande ajuda. abraço\r
  • Pedro Ivo  16/12/2011 08:26
    Mui bem humorada esta foto. Mas antes que as feministas reclamem, coloca também um marmanjo de sunguinha. kkkkkkk
  • Felix  16/12/2011 08:54
    Pode parar! nada de macho com sunguinha...
  • Paulo Sergio  17/12/2011 03:39
    Isso não agradaria as feministas.Elas tem ódio de tudo que tem a ver com a sexualidade natural humana.Essa moda de hoje, de botar apologia do movimento gayzista em desenhos animados, botar super herois vestidos de mulher, isso sim é o que agrada elas.
  • Paulo Sergio  17/12/2011 03:50
    obs: vou botar esse link só como prova, cuidado pra não vomitar
    escrevalolaescreva.blogspot.com/2011/12/as-poses-das-superheroinas.html

    Abram o olho,quem ta certo é o Olavo de Carvalho, esse pessoal age em todos os lados.Vcs se importam só com dinheiro,como se o resto não tivesse nada a ver com nada, é porisso que vcs se ferram.
  • Joao  17/12/2011 12:49
    haahahahhaahaha!!! O legal das feminazi é que eu não preciso ridicularizá-las. Elas fazem o trabalho sozinhas. Leiam outros textos desse blog. A coisa é de um ridículo insuperável.

    Para desmoralizar a autora desse blog, basta lembrar que ela DEFENDEU Roman Polanski. Ou seja, o cara pode drogar e estuprar (sim, porque drogar alguém para fazer sexo é estupro) uma menina de 13 anos. O que ele não pode é desenhar uma super-heroína mostrando a bunda. Eu não faria uma piada melhor do que essa.
  • Absolut  17/12/2011 15:03
    Mudando completamente de assunto - e via de regra -, quanto mais feminista, mais "jaburu"...
  • anônimo  23/12/2011 05:10
    E eu nem sabia que eu só me importava com dinheiro. Pra mim, a lógica da praxeologia é que sempre se mostrou a mais apropriada para análises sobre os homens. Mas este Paulo destrinchou meu caráter como libertário e sua análise é insuperável, acho que vou me converter à escola do Prof. Olavo agora mesmo (embora já concordasse antes com grande parte do que o prof. diz).

    No mais, posso concordar quanto às feministas.
  • Ubiratan Iorio  16/12/2011 08:32
    Somos austríacos, não keynesianos... Qq
  • anônimo  16/12/2011 09:44
    O título do artigo é "Os agregados keynesianos ESCONDEM justamente o ESSENCIAL"

    Será que a relação entre a foto e o artigo é que a moça esconde algo essencial, assim como os keynesianos, mas esconde no meio das pernas, apertado ali no biquini?

    Mistério.Hehe
  • Ewerton Alípio  16/12/2011 17:05
    Se este Instituto fosse keynesiano uma imagem do Mr. Garrison e do Mr. Slave seria mais adequada.
  • vanderlei  17/12/2011 09:40
    \r
    www.pampalivre.info/noticias.htm\r
    \r
    \r
    Brazil: o sistema bancário mais draconiano do mundo\r
    SAIBA A DIFERENÇA ENTRE POUPAR 100 REAIS E DEVER 100 REAIS PELO MESMO TEMPO\r
    \r
    Se um correntista tivesse depositado R$ 100,00 (Cem Reais) na poupança em qualquer banco, no dia 1º de julho de 1994 (data de lançamento do Real), teria hoje na conta a FANTÁSTICA QUANTIA de R$ 374,00 (Trezentos e Setenta e Quatro Reais).\r
    \r
    Se esse mesmo correntista tivesse sacado R$ 100,00 (Cem Reais) no Cheque Especial, na mesma data, teria hoje uma pequena dívida de R$139.259,00 (Cento e Trinta e Nove Mil e Duzentos Cincoenta e Nove Reais), no mesmo banco.\r
    \r
    Ou seja: com R$ 100,00 do Cheque Especial, ele ficaria devendo 9 Carros Populares, e com o da poupança, conseguiria comprar apenas 3 pneus.\r
  • Andre Cavalcante  17/12/2011 10:52
    3 pneus meia-vida, claro!

    Abraços
  • Marc...  18/12/2011 08:57
    Leandro, Fernando:

    O que acham dessas notícias?

    www.stockcitynews.com/france-prohibitions-money-sales-associated-with-gold-and-silver-above-600/4928

    finance.yahoo.com/blogs/daily-ticker/money-not-safe-gerald-celente-moral-mf-global-144949248.html
  • Fábio  19/12/2011 06:27
    Não sei porque vcs colocaram aquela foto, mas quero dizer que estou muito feliz que tenham feito isso...
  • Roberto  19/12/2011 08:05
    "As estatísticas são como o biquíni: o que revelam é interessante mas o que ocultam é essencial." Roberto Campos.
  • anônimo  22/12/2011 15:33
    Quem e essa mina?
  • Leandro  22/12/2011 15:37
    Salma Hayek. Houve muito debate se a gente deveria colocar essa foto mesmo ou esta aqui.

    Mas decidimos que esta última iria desvirtuar muito a atenção que o artigo merecia.

    Grande abraço!
  • Angelo T.  22/12/2011 15:52
    Minha nossa!
  • Arnaldo  26/12/2011 15:34
    Na dúvida, poderiam colocar as duas! rs
    Elas são austríacas ou keynesianas? rs
  • Leninmarquisson da Silva  15/01/2012 15:32
    Hum...essa foto dela de bikini vermelho escuro é quando ela fez "Um drink no Inferno", certo? Onde sua beleza escondia que era uma vampira assassina...

    Se tratando de Keynisianismo, nada mais adequado, afinal por trás do sedutor discurso Keynesiano com suas promessas de estabilidade econômica está um Estado vampiro de recursos e assassino de liberdades.

    Mas a citação do Roberto Campos é mais chic e brilhante :D

    Eu não tinha percebido que era a Salma de começo, tá com cara de mais nova e menos encorpada do que o habitual. Por um instante fiquei pensando se não seria uma dessas transex que nem o Pomo de Adão saliente tem haeohoehoeaho

    Mas não da pra deixar de dizer: tudo que tem "Hayek" no meio é mais interessante, principalmente se tradando da Salma Hayek.


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