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O futuro da Europa começa a ficar mais claro

Como o leitor já deve saber, minhas expectativas já eram baixas desde o início.  Eu não esperava que o encontro de líderes europeus para discutir a crise da dívida fornecesse alguma solução.  Não há solução.  A situação não tem conserto e a crise continuará se desenrolando ininterruptamente.

O que mais me espantou ao ler as primeiras reações ao encontro foi isso: a maioria das opiniões que você lê dos especialistas da mídia convencional ou de economistas financeiros de Wall Street ou da City de Londres não somente ignora os pontos relevantes, como, pior ainda, entende as coisas completamente ao avesso.  As medidas políticas que estes analistas sugerem são quase sempre as piores possíveis, medidas que deveriam ser evitadas sob todas as circunstâncias.

Analisemos as principais:

1. Redução contábil de 50% no valor da dívida grega

"Envolvimento do setor privado" é uma daquelas frases apavorantes e deturpadas que escondem mais do que explicam.  O 'setor privado', neste caso, significa obviamente os bancos que foram estúpidos o bastante para dar bilhões de euros aos políticos gregos.

Todos sabemos o que ocorre, sob um genuíno capitalismo, às pessoas que emprestam dinheiro a tomadores de empréstimo que acabam se revelando incapazes de honrar sua dívida: elas perdem seu dinheiro.  É assim que deve ser.  Isso irá ensiná-las a serem mais criteriosas no futuro, tornando-as — espera-se — mais prudentes.  Infelizmente, estamos falando da Europa, e aqui não há capitalismo.  Logo, você pode recorrer à classe política, negociar seus prejuízos e, na pior das hipóteses, concordar em sofrer uma 'adequada' redução contábil no valor da quantia que lhe devem.  Em julho, uma redução contábil de 20% já havia sido acordada; agora, esse valor foi elevado para 50%.  Qualquer que seja o valor, ele é totalmente arbitrário.

A categoricamente orwelliana frase "investimento do setor privado" faz soar como se estes pobres bancos fossem apenas inocentes espectadores — e respeitáveis membros do setor privado — que foram involuntariamente arrastados para essa desventurada empreitada, sem qualquer culpa própria.

Afinal, com exatamente qual intensidade o setor 'privado' deveria se 'envolver' neste assunto?  Como resposta, eu diria que exatamente na intensidade com que ele tenha voluntariamente escolhido conceder dinheiro ao governo grego.  Quero dizer, será que os analistas de crédito e os gerentes de risco de bancos como o Crédit Agricole e o Société Générale se deram ao trabalho de ir a Atenas inspecionar o poço sem fundo em que seus empréstimos foram despejados?  Ou será que eles presumiram desde o início que os pagadores de impostos alemães ou o Banco Central Europeu iriam cobrir suas perdas?

É claro que uma redução contábil de 50% na dívida, como foi acordada agora em Bruxelas, é melhor do que os ridículos 20% 'acordados' em julho.  Porém, olhando a medonha situação financeira da Grécia, a redução deveria ser de pelo menos 60%, ou talvez 90 ou 100%.  Como explicado aqui e aqui, não há motivos por que os cidadãos gregos da atual e futura geração tenham de sofrer interminavelmente para pagar dívidas contraídas por governos passados.  Da mesma forma, os cidadãos gregos não devem ser responsabilizados pela corrupção de seu governo e pela imbecilidade de seus banqueiros.  Que deem o calote!  Apenas parem de pagar, vão à falência, encolham forçadamente seu governo, arregacem as mangas e recomecem tudo do início.  Após um completo e adequado calote, o estado não irá mais conseguir obter empréstimos tão facilmente — algo que coincidentemente seria um bônus adicional gerado por um calote geral do governo.  Isso manterá os futuros políticos um pouco mais honestos.  Esta seria uma solução de livre mercado.  Porém, novamente, estamos falando da Europa.

Uma redução contábil ainda maior, uma que fosse decidida não na base da barganha política, mas sim pelo mercado e pela real capacidade da Grécia de honrar suas dívidas, seria mais providencial para os gregos, e iria convenientemente disciplinar os banqueiros.  E por que isso não é considerado?  Bem, os políticos não gostam dessa solução porque ela paralisaria boa parte do mercado de títulos públicos, tornando difícil ou até mesmo impossível para que eles continuem incorrendo em déficits.  E também porque os bancos habilidosamente montaram armadilhas explosivas por todo o sistema financeiro, recheando-o com explosivos CDS (credit default swaps —  uma espécie de seguro contra um eventual calote de uma instituição qualquer) que serão disparados caso o "envolvimento do setor privado" se torne grande demais.  Os banqueiros cada vez mais se parecem com terroristas financeiros: "Se vocês não nos socorrerem, vamos explodir tudo!"

Conclusão: uma redução contábil de 50% é melhor do que 20%, mas ainda é muito pouco para a Grécia; e toda essa ideia de que o setor 'privado' negocia prejuízos com políticos não é um bom presságio para o futuro.

2. Coordenação fiscal

Nada específico foi acordado no encontro, mas é para isso que as coisas estão se direcionando, e os economistas convencionais estão torcendo por isso.

Há anos estamos ouvindo essa mesma conversa, repetidamente publicada em infindáveis panfletos acadêmicos macroeconômicos e em editoriais jornalísticos: não pode haver união monetária sem uma união fiscal.  Isto, obviamente, é de um ridículo atroz.  Besteira total.  E uma bobagem não se torna verdadeira só porque é repetida ad nauseam.

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O dinheiro do capitalismo genuíno
O dinheiro do capitalismo, do livre mercado e do comércio global sempre foi o ouro (ou a prata, mas aqui irei me referir apenas ao ouro).  Um padrão-ouro é a melhor e mais velha união monetária imaginável — e, diria eu, a única que funciona.  Sob um padrão-ouro, vários países e seus respectivos governos utilizam a mesma moeda, o ouro.  Não há banco central e não há impressora de dinheiro.  Os governos têm de se virar com a renda que conseguirem coletar via impostos de sua população.  Em tal sistema, o estado tem de sobreviver — assim como qualquer outra entidade da sociedade — exclusivamente com seus meios.  Aparentemente, esta simples noção é completamente ilógica e irreal para os políticos e economistas convencionais da atualidade. 

Sob um padrão-ouro, o estado também pode pegar empréstimos no mercado; porém, pela própria realidade da situação, torna-se claro que os emprestadores terão de assumir a totalidade do risco de um calote.  Não há um emprestador de última instância.  Não dá para imprimir ouro.  Ademais, quanto mais o governo tomar empréstimos, menor será o ouro disponível para empréstimos ao setor privado.  Consequentemente, maiores serão os juros.  Logo, um governo não poderá se endividar continuamente, pois isso literalmente paralisaria a economia.  Tudo isso funciona como uma poderosa restrição à atuação governamental.

A crise grega foi um bom teste para ver o quão próximo a União Monetária Europeia (UME), operando com uma moeda fiduciária, poderia se assemelhar ao funcionamento de um genuíno padrão-ouro.  Ao menos na teoria, como foi originalmente concebido pelo projeto da UME, não poderia haver nenhum tipo de pacote de socorro, e toda a bagunça deveria ser resolvida exclusivamente por uma negociação local entre o governo grego e seus credores, assim como ocorreria sob um padrão-ouro.

Toda essa besteira sobre o colapso do euro sempre foi, é claro, uma inútil tática de amedrontamento, ainda que politicamente motivada.  Quando, sob um padrão-ouro, um governo dá um calote, não há absolutamente nenhum motivo para que qualquer outro governo abra mão do ouro como moeda.  Da mesma maneira, caso o projeto original da UME tivesse sido obedecido e não tivesse havido pacotes de socorro, não haveria motivo algum de um calote grego afetar a aceitação e a utilização do euro em qualquer um dos outros países da união monetária, inclusive para os gregos  (como explicado aqui).  Uma união monetária não requer uma união fiscal.  Quod erat demonstrandum.

Mas a UME não é nenhum padrão-ouro, e ela já fracassou em seu primeiro teste sobre se poderia sequer ser uma união monetária com alguma disciplina.  O padrão-ouro foi abandonado globalmente exatamente para que os governos não mais tivessem de viver exclusivamente dentro de seus meios.  O euro é um dinheiro de papel, uma moeda fiduciária e de cunho político, emitido justamente para permitir uma persistente irresponsabilidade fiscal — exatamente como qualquer outra moeda de papel.  Bancos centrais sempre, em todo e qualquer lugar, foram criados para financiar o estado e o setor bancário.  Essa é sua principal função.  Com o Banco Central Europeu não é diferente.

Eis o retrato da situação global em 2011: após 40 anos de experiência com dinheiro de papel puro, sem nenhum lastro, a dívida pública ao redor do mundo atingiu dimensões tão monumentais, que os principais bancos centrais do mundo estão agora financiando diretamente o estado.  Antes isso era proibido, de modo que os BCs se limitavam a comprar apenas títulos que estivessem em posse dos bancos.  Agora eles compram direto do Tesouro.  Isso está acontecendo nos EUA, no Reino Unido e, de modo crescente, na zona do euro.  E tal prática ou é aceita com serena desconfiança ou é entusiasmadamente apoiada por economistas e inflacionistas a soldo da grande mídia.  A tendência é a mesma em praticamente todos os lugares.  A única diferença é que, na zona do euro, as coisas são um pouco mais obscuras, pois é mais difícil saber qual governo tem prioridade na fila da impressora de dinheiro.  Já em todas as outras economias baseadas no dinheiro de papel, esse processo é feito de maneira mais direta e explícita.

Supor que alguma forma de arranjo institucional de coordenação fiscal irá disciplinar os governos europeus e reduzir seus desejos por contínuas monetizações de suas dívidas com o Banco Central Europeu — isto é, o BCE imprimindo dinheiro para comprar diretamente títulos da dívida — é algo no mínimo ingênuo, para não dizer completamente parvo.  Todos os governos da Europa são fiscalmente irresponsáveis, até mesmo o alemão.  Durante as apressadas negociações sobre as diretrizes da UME, a Alemanha impôs os critérios de Maastricht (limitando o teto da dívida) sobre seus parceiros europeus.  E aí?  Alguém hoje se lembra do limite da dívida sendo fixado em 60% do PIB?  Risível.  Hoje a dívida da Alemanha está em 83% do PIB e subindo, valor esse que parece até relativamente prudente quando comparado ao da Bélgica e da Grécia.  Porém, se a Alemanha tiver de cumprir todas as obrigações já assumidas sob o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, sua dívida irá, num pulo só, para mais de 90%, aproximadamente onde estava a Irlanda quando seus credores disseram 'no mas!'. 

A Alemanha poder ter hoje a menor taxa de desemprego dos seus últimos vinte anos; e, ano passado, apresentou também a maior taxa de crescimento do PIB dos seus ultimo vinte anos.  Mas o país segue incorrendo em déficits, aumentando sua dívida ano após ano, assim como todo o resto da Europa.

Olhando-se para uma linha do tempo grande o bastante, todos serão a Grécia.

Conclusão: ainda veremos uma pletora de alterações no tratado, encontros de altos líderes da UE e várias outras geringonças inúteis sendo anunciadas.  Supor que os governos não irão coletivamente recorrer às impressoras, e que eles irão, ao contrário, impor disciplinas uns aos outros, quando na verdade todos eles são consagrados, costumeiros e incorrigíveis transgressores fiscais, é algo além do ridículo.  Quem acreditar nisso, por favor me ligue; tenho algo que quero vender para você.

3. 'Poder de fogo ilimitado', cortesia do banco central

Você pode argumentar que tudo poderia ter sido pior.  Merkel poderia ter cedido aos apelos de Sarkozy para utilizar o Banco Central Europeu diretamente para alavancar o fundo de resgate de 440 bilhões de euros.  Aparentemente ela não cedeu, e Sarkozy terá de ir, com o chapéu na mão, atrás dos chineses e ver se eles possuem algum trocado.  No entanto, esta não é uma solução de longo prazo e, tão logo a Itália e a Espanha se aprofundarem em seus problemas, o fundo de resgate será exaurido.

Um dos aspectos mais estarrecedores desta crise é o quão corriqueiro se tornou ver os economistas convencionais e os especialistas da grande mídia apontando para os 'recursos ilimitados' do BCE.  É verdade que um banco central pode criar quantias ilimitadas de dinheiro eletrônico e de papel para socorrer a todos — os governos, os bancos, os fundos de pensão etc.  O problema é que tal política costumava ser defendida unicamente por excêntricos anticapitalistas, dado que se trata de uma receita garantida para uma total aniquilação da moeda.  Hoje, no entanto, economistas de renome e supostamente bem conceituados chamam atenção para a importância de se 'manter o BCE engajado', pois somente o BCE possui os recursos 'ilimitados' para financiar a irrestrita devassidão fiscal dos modernos governos social-democratas e suas elites políticas em busca de eleições fáceis, e para financiar o colossal acúmulo da dívida.

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Super Mario
À medida que os apelos histéricos por agressivas políticas monetárias do BCE vão se tornando cada vez mais estridentes, Mario Draghi, o novo impressor-em-chefe da Europa, já sinalizou seu apoio a uma política de monetização da dívida a ser implantada pelo BCE — isto é, compras contínuas e em ampla escala de títulos governamentais desvalorizados — e, em última análise, sem valor — com a ajuda da impressora de euros.

Qualquer indivíduo que possua qualquer poupança aplicada na zona do euro já deveria estar extremamente preocupado com o que está acontecendo por aqui, e em particular com o tom do debate.  Quando passa a ser lugar-comum falar sobre recursos 'ilimitados' do BCE, tais pessoas genuinamente se referem a ilimitados mesmo.  A criação de novas unidades de euro dar-se-á sem qualquer limite.  E a inflação de preços resultante também será sem limites.

Conclusão: a julgar pela aparência, a posição alemã venceu — reduções contábeis mais profundas na dívida e nada de utilizar o BCE para alavancar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira.  Porém, de onde então virá o dinheiro para socorrer a todos?  Itália e Espanha continuarão sob pressão.  Ninguém tem o dinheiro para socorrê-los ou para recapitalizar novamente os bancos quando os países altamente deficitários perderem acesso ao mercado de títulos e derem o calote.  O BCE não está fora do jogo.  Recorrer à impressora passou a fazer parte da política global dos últimos três anos e, lamentavelmente, tal pensamento é hoje parte inerente ao pensamento dominante.

O BCE não vai parar de imprimir dinheiro.  Não há uma estratégia de saída.  As pressões por uma maior e mais acelerada monetização da dívida, dos déficits orçamentários e dos balancetes dos bancos irão continuar e até mesmo se intensificar.  O resultado final será a inflação.



autor

Detlev Schlichter
é formado em administração e economia.  Trabalhou 19 anos no mercado financeiro, como corretor de derivativos e, mais tarde, como gerente de portfolio.  Nesse meio tempo, conheceu a Escola Austríaca de Economia e, desde então, dedicou seus últimos 20 anos ao estudo autônomo da mesma.  Foi apenas após conhecer a Escola Austríaca que ele percebeu o quão mais profundas e satisfatórias eram as teorias austríacas para explicar os fenômenos econômicos que ele observava diariamente em seu trabalho.  Visite seu website.

Tradução de Leandro Roque



  • Rhyan  01/11/2011 11:19
    Engraçado como ele discorda do Gary North sobre o futuro do Euro.
  • Leandro  01/11/2011 11:50
    Notícia engraçada: enquanto os patetas se reuniam em Bruxelas pra especificar o pacote de socorro à Grécia, o primeiro-ministro grego convocava um referendo pra decidir se vão aceitar o pacote ou se vão simplesmente dar o calote. Sarkozy quase enfartou perante a possibilidade, cada vez maior, de ver os bancos franceses, atolados de dívida grega, irem pro vinagre.

    economia.estadao.com.br/noticias/economia%20internacional,referendo-da-grecia-enfurece-os-alemaes,90517,0.htm
  • Mohamed Attcka Todomundo  01/11/2011 12:16
    ñ sei oq eh melhor: Sarkozy enfartar, calote grego ou bancos franceses no vinagre.

    Como diziam os Raimundos: 'eu kero ver o oco!'.
  • Robert  01/11/2011 13:22
    Muito se tem discutido sobre a riqueza: o que é riqueza? como pode ser produzida? como pode ser consumida? quanto vale? e por aí vai. Parece que ao final de tudo, a conclusão é que ela é tudo aquilo que, tendo sido feito ou desfeito pelas pessoas, serve às necessidades e vontades humanas, desde que seja um produto acabado pronto para cumprir esta função. \r
    Então, porque o valor monetário de uma nação precisa ser pautado sobre o valor do ouro que ela tenha disponível, se a riqueza dela está nas realizações da sua população? \r
    Me parece que a medida da capacidade da produção, retrata a riqueza da nação muito melhor do que o ouro que ela tenha acumulado. É claro que este, digamos, Padrão Trabalho para embasar o valor da moeda, não é estático, variando a cada momento em função das ocilações de cunho sociais, tanto quanto das disponibilidades das reservas materiais necessárias para criar riquezas. No entanto, espelha melhor a realidade do proveito que a população efetivamente obtém daquilo que tem no presente, ou poderá ter no futuro (eis aí a riqueza). Então, porque há tanta insistência em voltar ao padrão-ouro? \r
  • Jose Ninguem  01/11/2011 15:04
    Padrão-Trabalho??!!
    Meu Deus...
    O padrão-ouro é uma medida contra a inflação, o crescimento do estado e a expansão artificial do crédito e da moeda.
    Quem é a favor do estado é contra o padrão-ouro. Quem é a favor da liberdade, respeita a vida humana e a sua consequência natural - a propriedade - é a favor do padrão-ouro.
    Um estudo aprofundado do tema remove todas as dúvidas sinceras a quem procurar honestamente saber acerca desse assunto.
  • Paulo Sergio  01/11/2011 16:31
    Não sei se entendi direito, mas imagino que o ponto do Robert seja algo mais ou menos assim:
    Imagine dois países, com mais ou menos o mesmo número de pessoas.Todos dois tem o dinheiro lastreado em ouro.E eles tem a mesma quantidade de ouro
    Mas um deles tem pessoas que, sei lá, produzem 100 carros por dia, e o outro eles produzem a metade
    Então no primeiro como a quantidade de ouro é fixa, quanto mais carros eles fazem mais o valor de cada carro, em ouro, vai ser menor, certo? Enquanto no outro país o mesmo carro, igualzinho vai valer mais em ouro, pq esse tem menos ouro

    Então, o país com as pessoas mais produtivas não acaba de certa forma num tipo de prejuízo,pras pessoas que fabricam os carros? Carro que é igualzinho mas acaba valendo menos?
  • mcmoraes  01/11/2011 17:28
    @Paulo Sergio: "...Então, o país com as pessoas mais produtivas não acaba de certa forma num tipo de prejuízo,pras pessoas que fabricam os carros? Carro que é igualzinho mas acaba valendo menos?"

    Meu palpite é que seu cenário não leva em consideração um fator extremamente relevante: a divisão do trabalho. Não dá pra simplesmente assumir que esses dois países vão coexistir sem competir um com o outro. Eventualmente, o que for mais competitivo na produção de carros vai dominar a produção e o perdedor vai realocar seus recursos para a produção de outros bens.
  • Jeferson  03/11/2011 18:42
    Solução: O país mais produtivo exporta carros pro país menos produtivo, e o país menos produtivo paga com ouro às empresas deste país ao invés de pagar às empresas do próprio país. No fim das contas, a quantidade de ouro existente no país mais produtivo vai aumentar e no menos produtivo diminuir. Isso se forem válidas as hipótese colocadas. O país menos produtivo em carros pode ser mais produtivo em... sei lá... computadores, e exportar computadores para o país que produz carros melhor, e com isso recebe ouro deste, ajustando a quantidade de ouro nos dois países de acordo com a produtividade deles e o valor subjetivo dado por cada um dos dois povos aos bens trocados.\r
    \r
    Ou seja, o padrão ouro É UM PADRÃO "TRABALHO", só que mais completo, pois considera não só o trabalho, mas também o capital aplicado, o conhecimento aplicado no trabalho (que inclui o desenvolvimento do capital - máquinas, equipamentos, softwares, etc.), a escassez de todos os fatores aplicados na produção e o benefício que as pessoas que estão dispostas a sacrificar o seu trabalho - que foi "materializado" no ouro - são capazes de perceber por cada produto que compram.\r
    \r
    Tudo o que você falou existe em qualquer padrão, a diferença é que sob um padrão-commodity (como o ouro) o estado não pode gastar o que não foi produzido antes, a menos que algum otário esteja disposto a emprestar o que produziu pra ele, correndo 100% do risco do governo dizer "não vou pagar". No esquema atual, toda a sociedade paga o preço pela gastança de dinheiro criado do nada pelo estado, e arca com os custos disso.
  • João M Santucci  01/11/2011 15:19
    Eu não vejo sentido nesse fascínio pelo ouro. Sob os mesmos aspectos que desqualificam a moeda fiduciária como reserva de valor, o ouro só se safa pelo quesito escassez. E, mesmo este, é questionável.

    A utilização do ouro como lastro nunca foi impedimento para a criação de moeda. A menos que haja circulação física do metal, o tal "direito sobre o ouro dos bancos ingleses" (ou sobre o ouro da própria Inglaterra, e isso independerá da nacionalidade dos agentes ou do país em questão) poderá ser posto em xeque.

    Não gostei do artigo.
  • void  01/11/2011 21:09
    Na verdade a posição libertária é que o meio de troca possa emergir espontaneamente. Ocorre que, historicamente, o ouro(e outros metais preciosos) foi o meio que emergiu como esse meio de trocas, e a questão da escassez é apenas um atributo que se mostrou útil para que isso ocorresse. Fora esse meio, nenhum outro bem tem se mostrado digno de uso além do ouro, por isso libertários costumam defender a volta ao padrão (o que não significa que não haja libertários defendendo outras idéias - por exemplo, defensores das chamadas cryptocurrency, como é o caso do BitCoin).

    Eu, por exemplo, não conheço nenhuma outra commodity ou bem que possa servir de forma tão eficaz contra as manipulações de valor como os metais preciosos, embora reconheça que mesmo eles não são a prova de fraude (problema que pode ser contornado, aliás).
  • Francisco  01/11/2011 15:45
    Não sei ao certo mas aparentemente tal riqueza criada "sem padrão" não passa de miragem.

    Se alguém detêm uma "riqueza" que para ser construída foi necessário crédito em larga escala e acumulação de imensa divida, e ao vender todos os bens que possui não conseguir pagar suas dividas (mesmo que trabalhasse mais 100 anos apenas a troco de pão e água), esse alguém iria a um estado de extrema pobreza ou talvez de escravidão.

    Claro que se ele tivesse uma impressora de dinheiro ia facilitar as coisas. Pelo menos até descobrirem que tao dinheiro não vale nada (é falso), acredito que nesse caso as dividas continuariam existindo pois sua moeda criada "artificialmente" não tem valor.

    Possivelmente após a morte do individuo a divida seria "rolada" para seus filhos que teriam que "pagar o pato" pela fanfarronice de seu pai.

    Acho que dinheiro sem lastro cria um crescimento irreal, que em algum momento não se sustenta. Acredito que por esse motivo qualquer moeda que seja deveria ser lastreada em ouro(ou outro artigo raro).
  • Arion  01/11/2011 16:23
    Tu tens toda a razão quando afirma que a produção das riquezas nada tem a ver com o meio monetário. O importante para um país é o quanto ele produz. A atual crise não é uma crise de produção; não temos falta de produtos. A crise é o desabamento de um esquema ponzi - aquele efeito pirâmide - de dívidas criadas a partir de um "dinheiro" criado do nada.\r
    \r
    Contudo o que tanto se fala do padrão-ouro é que para que tu possa realizar a troca daquilo que é produzido tu necessita de um meio facilitador. No início das sociedades os seres humanos trocavam pás por frutas, carnes por espadas e assim por diante. Mas conforme a sociedade foi evoluindo viu-se que o ouro era aceito para qualquer coisa (assim como outros metais e, em determinadas épocas e setores da sociedade outras coisas também) e assim ele facilitou o comércio. Não se precisava mais trocar uma pá por um carrinho de laranjas. Bastava eu pagar o tanto solicitado em ouro, prata, cobre, sal, tulipas, soja ou qualquer meio de "dinheiro" utilizado naquela sociedade. A evolução foi monumental. Impérios surgiram por causa disto.\r
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    Mas o padrão-ouro (ou de outro metal) exige que ele exista. O atual papel-moeda não e essa é toda a revolta que existe. O papel moeda de curso forçado pode aniquilar toda a tua poupança do dia para a noite em um piscar de olhos. O ouro vai ser sempre ouro e aceito em qualquer lugar.\r
    \r
    Se um governo resolve imprimir dinheiro (inflação monetária, que é diferente de inflação de preços) tu estás ficando mais pobre percentualmente na mesma proporção da quantia que ele imprimiu. Ele simplesmente ROUBOU teu dinheiro sem nem mesmo precisar tributa-lo.\r
    \r
    Espero ter ajudado.
  • Felix  01/11/2011 18:02
    Muita boa explicação...
  • void  01/11/2011 20:49
    Deixa eu ver se eu entendi, você quer que a moeda seja lastreada na capacidade das pessoas de trabalhar? Quer dizer, chego a um feirante e digo: "te dou 2 escravos por 100kg de batatas". Mas que "JÊNIO".

    Ayn Rand bem disse: "quando o dinheiro deixa de ser o instrumento por meio do qual os homens lidam uns com os outros, os homens se tornam os instrumentos dos homens"
  • Luiz  02/11/2011 02:05
    Talvez pudéssemos pensar que qualquer dinheiro, ou mesmo quaisquer dinheiros que - por que não? - eventualmente venhamos a adotar devessem ser necessariamente lastreados em produtos do trabalho humano, coisas úteis e necessárias, conforme os interesses daqueles que utilizam o dinheiro. O importante, parece-me, é que o dinheiro, isto é, o papel ou a moeda o que quer que seja usado para representar estas coisas, estes bens, que de outra forma seriam impossíveis ou ao menos muito incômodos de guardar na carteira ou no banco, pudessem, devessem necessariamente poder ser resgatados a qualquer momento conforme o juízo do proprietário do dinheiro. Só isso pode garantir que o dinheiro simboliza um valor econômico real. E sendo assim, e desde que em cada tipo de dinheiro estivesse claramente estampado não só uma quantidade (como estamos hoje acostumados) mas também a qualidade do produto do trabalho humano nele representado, poderíamos mesmo ter circulando, concorrendo no mercado, diversas moedas lastreadas em produtos diversos do trabalho humano. E, levando o pensamento às últimas conseqüências, nestas condições, mesmo a moeda fiduciária poderia ter o seu valor para alguns... From fiat money, fiat lux. Ou limpe-se a...
  • Luiz  03/11/2011 19:32
    Robert,

    por algum motivo (falha minha, provavelmente) meu comentário ao seu comentário acabou ficando lá embaixo, abaixo de outro comentário (do void).
  • vicente  01/11/2011 17:43
    "A crise grega foi um bom teste para ver o quão próximo a União Monetária Europeia (UME), operando com uma moeda fiduciária, poderia se assemelhar ao funcionamento de um genuíno padrão-ouro. Ao menos na teoria, como foi originalmente concebido pelo projeto da UME, não poderia haver nenhum tipo de pacote de socorro, e toda a bagunça deveria ser resolvida exclusivamente por uma negociação local entre o governo grego e seus credores, assim como ocorreria sob um padrão-ouro."\r
    \r
    Alguém sabe de algum artigo específico sobre isso [no caso, sobre a UME, em sua idéia original, funcionar como uma espécie de padrão-ouro]?


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