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Os sucessivos fracassos do keynesianismo

É algo que já deveria ser óbvio para todos.  Menos, talvez, para o mais empedernido adepto do keynesianismo: os vários e volumosos pacotes de estímulo econômico implementados pelo governo americano fracassaram.  A combinação de aumento dos gastos e do déficit orçamentário, as desesperadas tentativas de reestimular o mercado imobiliário, os vários esquemas inventados para socorrer empresas falidas dando-lhes dinheiro retirado à força de terceiros, e a criação direta de trilhões de dólares pelo Banco Central não fizeram absolutamente nada para revigorar a economia americana.

Na verdade, ocorreu exatamente o oposto.  Todos esses esforços lograram apenas impedir que a economia se reajustasse — e a realidade após uma década de expansões monetárias e manipulações dos juros orquestrados pelo Banco Central não é nada bonita.  Todos os recursos que os pacotes de estímulo consumiram foram extraídos do setor privado.  Afinal, como nunca é demais lembrar, o governo não possui recursos próprios; ele nada produz.  Tudo o que ele faz ou tudo o que ele utiliza teve necessariamente de ser extraído de produtores privados e dos cidadãos em geral — se não imediatamente, certamente no futuro.

É algo totalmente enfadonho termos de aprender essa lição mais uma vez, pois foi somente há 38 anos que o mundo vivenciou outro colapso completo do paradigma keynesiano.  O matiz da teoria era um pouco diferente naquela época.  O governo fazia "ajustes finos" na economia com a intenção de fazê-la funcionar de acordo com um modelo rígido que dizia haver um equilíbrio compensatório entre inflação e desemprego.  Se o desemprego ficasse muito alto em decorrência de um crescimento econômico lento, a solução preconizada era simples: aumentar os gastos e a inflação monetária.  Se o desemprego, por outro lado, ficasse muito baixo durante a recuperação econômica — levando a um "sobreaquecimento" da economia, como dizia o linguajar da época —, a solução era reduzir os gastos e a inflação monetária.

O objetivo desse simples equilíbrio era reunir todas as obscuras ideias defendidas por Lord Keynes e condensá-las à sua essência, a saber: o planejamento centralizado da economia.  Com essa nova roupagem científica, seria possível fazer um planejamento centralizado ao mesmo tempo em que se evitava todos os emaranhados legislativos que aporrinharam o New Deal.  Os keynesianos afirmavam que as tentativas de Franklin Roosevelt de adotar políticas contracíclicas não funcionaram bem porque não foram bem planejadas e tampouco cientificamente ministradas.  Mas graças à clareza desse novo e simples modelo criado no pós-guerra, os keynesianos desta vez acertariam. 

E eles certamente fizeram tudo à sua maneira em termos de políticas.  Em 1971, Richard Nixon aboliu os últimos vestígios do padrão-ouro, finalmente desvencilhando o dólar de qualquer relação com o ouro físico, permitindo que a moeda americana flutuasse como uma pipa presa a uma linha — ou talvez sem a linha.  Esse supostamente era o ideal keynesiano.  Nada de restrições à moeda.  Nada de apegos à relíquia bárbara.  Nada de limitações àquilo que os planejadores científicos do governo poderiam fazer.  Agora eles poderiam fazer o que fosse necessário para promover a combinação socialmente ótima de inflação e desemprego.  Nirvana!

É importante ter em mente que tudo isso era uma proposição testável.  Se de fato houvesse esse equilíbrio entre inflação e desemprego, e se de fato o governo pudesse controlá-lo, então seria impossível vivenciarmos, por exemplo, o desemprego e a inflação de preços aumentando ao mesmo tempo.  É verdade que, durante a maior parte da história, isso não realmente não ocorreu.  Durante a Grande Depressão, os preços caíram — e ainda bem, pois esse fato foi a única ocorrência positiva de todo aquele período.  Pior do que desemprego em massa, apenas desemprego e inflação de preços.  Já na década de 1950, houve um pequeno aumento da inflação, mas não em um nível suficiente para soar os alarmes.

E então vieram os anos 1973—1974.  O desemprego nos EUA estava alto e subindo, chegando a 6% — sim, naquela época, isso era considerado alto.  Ao mesmo tempo, a inflação de preços havia subido vertiginosamente para os dois dígitos, algo que não ocorria desde 1947, quando os controles de preços da época da guerra foram abolidos.  E assim surgiu a recessão inflacionária, também chamada de estagflação — uma besta que supostamente não deveria existir, pelo menos de acordo com o modelo econômico seguido à época.

Escrevendo sobre isso, Murray Rothbard explicou:

Esse curioso fenômeno de inflação em alta ocorrendo simultaneamente a uma aguda recessão simplesmente não poderia ocorrer, de acordo com a visão keynesiana do mundo.  Os economistas afirmavam que ou economia deveria apresentar uma expansão, sendo que nesse caso os preços estariam subindo, ou a economia deveria apresentar uma recessão com grande desemprego, sendo que nesse caso os preços estariam caindo.  Durante o período da expansão econômica, o governo keynesiano deveria "enxugar o excessivo poder de compra", elevando impostos — de acordo com a teoria keynesiana, isso reduziria os gastos da economia.  Por outro lado, durante uma recessão, o governo deveria aumentar seus gastos e seu déficit orçamentário, com o intuito de estimular o nível de gastos da economia.  Mas e se a economia apresentasse ao mesmo tempo inflação e recessão com alto desemprego, o que o governo deveria fazer?  Como poderia ele pisar no acelerador e no freio da economia ao mesmo tempo?

A resposta, obviamente, é que o governo e suas autoridades políticas e econômicas não poderiam fazer tal coisa.  Ao constatarem isso, o pânico se alastrou entre os economistas.  E foi aí que as mais insensatas e ridículas teorias já concebidas pelo homem foram implementadas para tentar reduzir o desemprego e a inflação de uma só vez.  Mas havia um problema.  Autoridades econômicas, sempre e em todo lugar, são completamente avessas a admitir culpa por qualquer coisa.  Certamente a culpa pelo descalabro não era da política monetária e nem da política fiscal, diziam eles.  É claro que a culpa era da ganância dos empresários, da voracidade da classe consumidora e do pânico que havia tomado conta da população geral — tudo era culpa dos outros, menos do próprio governo.

Assim, embora o paradigma keynesiano houvesse fracassado fragorosamente, quem no governo estaria disposto a assumir a responsabilidade por esse fracasso?  Ninguém.  Consequentemente, as coisas só pioraram e a recessão inflacionária tornou-se um estilo de vida dos americanos, até culminar na indignação e na revolta do final da década de 70, o que levou Ronald Reagan à presidência.

Reagan havia conduzido sua campanha em uma plataforma antikeynesiana.  Ele até chegou a cogitar a reinstituição do padrão-ouro.  Ele disse que iria cortar impostos e permitir que a economia funcionasse livremente.  Suas promessas não se concretizaram, mas ao menos naquela época parecia haver alguma consciência de que o governo não era capaz de se posicionar eternamente contra o mercado.  As coisas boas do governo Reagan devem ser creditadas, obviamente, a Paul Volcker, presidente do Fed nomeado por Jimmy Carter em agosto de 1979.  Como presidente do Fed, ao invés de apenas reduzir o ritmo da expansão da oferta monetária, ele chegou a implantar, em 1980—1982, uma genuína redução da oferta monetária total, algo inédito na história do Fed.  Com isso, ele quebrou a espinha dorsal da inflação de preços e da crise econômica que afligia os EUA.  Pense nele como uma espécie de anti-Greenspan ou anti-Bernanke.

Hoje, no entanto, reinam as doutrinas de Greenspan e Bernanke, e essa é a real tragédia de nossa época.  O Fed, o Tesouro, o presidente, os reguladores e o Congresso americano fizeram todo o possível para tentar estimular, reflacionar, estabilizar e contra-atacar as forças de mercado.  Como esperado, perderam a batalha.  O desemprego nos EUA continua escandalosamente alto e a inflação de preços já começa a ficar explícita — algo que keynesianamente não poderia ocorrer em uma economia com alto desemprego e em recessão. 

Mas há um problema ainda mais sério.  Em suas tentativas de estimular a economia, o Fed criou um volume inacreditável de dinheiro, o qual está guardado como "reservas em excesso" nos cofres de seus protegidos no sistema bancário.  Quando esse dinheiro represado vazar para a economia, será inevitável uma horrenda onda de inflação de preços.

Aqueles que culpam Obama pela atual situação da economia deveriam ser mais honestos e considerar se algum republicano (exceto Ron Paul) não teria feito exatamente a mesma coisa.  A receita de Obama para a recuperação econômica começou na realidade ainda sob George W. Bush — exatamente assim como foi Hoover quem começou o New Deal.  É claro que o sujeito que está na Casa Branca é um problema, mas ele não é o único problema.  O cerne da questão é que (1) nós temos um sistema monetário e bancário que é socialista por natureza, e que, portanto, é utilizado pela elite que está nos círculos do poder para enriquecer-se a si própria às nossas custas, e (2) a elite política se agarra à pretensão keynesiana de que o governo é capaz de empreender uma guerra contra as forças de mercado.  Isso, e o fato de que o keynesianismo delega todo o poder à elite que controla o estado, explicam por que essa patética e perigosa história vive se repetindo à (nossa) exaustão. 

Em uma economia de mercado, há uma tendência de que, no longo prazo, os erros sejam corrigidos e substituídos por práticas diferentes, as quais trazem melhorias às vidas das pessoas.  Já no governo, as coisas funcionam às avessas.  A tendência é que, no longo prazo, ele continue tentando as mesmas ideias, incorrendo seguidas vezes nos mesmos erros, não importa o quão frequentemente as coisas fracassem e nem o quão ruim seja quando isto acontece.  Afinal, como disse Joseph Salerno, o keynesianismo foi inventado para dar poder ao estado.  E esse é realmente o problema fundamental: a entidade monopolista que controla e devasta a sociedade para benefício próprio.

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Leia também: O keynesianismo é uma constante



autor

Lew Rockwell
é o chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.



  • Filosofo  31/08/2011 11:30
    O que mais me dixa indignado é o fato de que todos esses economistas do mainstream keynesiano seriam péssimos empreendedores. A primeira pessoa que deve ser ouvida é aquela que sabe gerar riqueza. Nada melhor do que essa pessoa para determinar quais são as melhores condições para a prosperidade geral da sociedade. Já sabemos: livre mercado.
  • Fernando Chiocca  31/08/2011 12:15
    Não é vedade filosofo. Muitas vezes quem é bom em empreender e ganhar dinheiro não sabe nada sobre ciência econômica. Prova disso são os comentários econômicos bizarros que ouvimos dos homens mais ricos do mundo, de Trump e Buffet à Eike e Gates.
  • Joao  31/08/2011 12:30
    O Eike é endeusado por muitos, mas é um grande exemplo de empresário que só consegue ter sucesso por causa de suas boas relações com os governos. Além disso, ele parece saber muito bem usar sua influência para fazer suas ações se valorizarem só no gogó.
  • Caio  31/08/2011 14:35
    Nunca saberemos dizer qual empresário de fato é melhor ou pior gereador de riqueza enquanto houver o Estado subsidiando, favorecendo ou regulando setores. Mas o que não podemos discutir é que, diante do atual sistema, os nomes citados acima são os mais bem adaptados e que reunem as melhores características para a atual realidade!
  • ANDRE LUIS  31/08/2011 22:51
    Caro João

    Vc tocou num ponto crucial: O incrível sucesso empreendedor de poucos que fazem acordos espúrios com o estado. Este não é um fenômeno novo, mas devidas as suas atuais proporções, e seu atual viés político, está pondo em risco toda a economia do planeta. Fico feliz em ver, pela primeira vez aqui no IMB, um artigo que trate do tema, mesmo que de passagem.

  • Rodolfo  31/08/2011 23:03
    Você está redondamente enganado ao dizer que é a "primeira vez" que o IMB aborda a questão dos grandes empresários que têm conexão com o estado. Esse é o problema de se chegar recentemente a um site que já existe há mais de três anos e imaginar que já sabe de tudo sobre ele.

    Aqui vão alguns artigos sobre esse corporativismo, uma pequena amostra:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=437

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=271

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=637

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=581
  • ANDRE LUIS  31/08/2011 23:40
    Rodolfo.

    Desculpe, vc tem razão. Corrigindo: Foi a primeira vez que li algo assim por aqui.

    Um abraço
  • mcmoraes  31/08/2011 12:51
    O Zuckerberg também (link):

    "...When Obama said wealthy taxpayers such as Zuckerberg and himself should pay their share, the youthful Facebook CEO quipped, "I'm cool with that," to an outburst of laughter and applause from the audience of high-tech executives, Democratic politicians and Facebook employees..."
  • Erick Skrabe  02/09/2011 17:55
    Bem... mas uma coisa e' ser bom empresario e outra e' ser um empresario bom.

    Os caras fecham o mercado pra si. E ficam todos felizes: eles ficam com a grana, o governo leva a parte dele e os caras que pagam imposto, pasmem, ficam feliz com sua cesta basica.
  • mcmoraes  02/09/2011 18:06
    E como poderia ser diferente se nós somos criados desde pequininhos a ficarmos felizes com a nossa cesta básica?
  • Thyago  31/08/2011 14:23
    Muito bom o artigo! Lew sempre manda ótimos textos...

    Só uns trechos ficaram confusos, dentre os quais:

    "Como presidente do Fed, ao invés de apenas reduzir o ritmo da expansão da oferta monetária, ele chegou a implantar, em 1980-1982, uma genuína explícita - algo que keynesianamente não poderia ocorrer em uma economia com alto desemprego e em recessão".
  • Leandro  31/08/2011 16:20
    Desculpe-nos, Thyago. Este trecho realmente ficou confuso. E não poderia deixar de ser. O sistema inexplicavelmente aboliu um trecho do texto durante a postagem.

    Mas já foi corrigido. Muito obrigado por chamar a atenção.

    Grande abraço!
  • Aírton  31/08/2011 16:40
    E sobre o Paradoxo de Bogotá?
  • Edimar Estevam  01/09/2011 00:01
    E o que seria o Paradoxo de Bogotá? Nunca ouvi nada a respeito.
  • Thiago  01/09/2011 13:23
    Eu procurei no google e as únicas referências a isso são relacionadas a esse comentário no site.
  • Amarílio Adolfo da Silva de Souza  31/08/2011 18:05
    Os governos são fracassos institucionalizados.
  • Nina  31/08/2011 20:48
    As leis econômicas são a infra-estrutura de uma sociedade. Para compreender qualquer sociedade historicamente determinada, devemos lançar mão de uma infinidade de conhecimentos, hierarquizando-os segundo o nível de abrangência de suas correntes determinadas. Sabendo que as leis de mercado pouco podem explicar a respeito de uma tendência qualquer, uma vez que as mudanças nas leis de mercado são o próprio sinal de que alguma coisa transcende o nível de influência da economia na sociedade, chegamos à conclusão de que o objeto a ser estudado se amplia no horizonte.

    Beijos da Nina

    verdadesitiada.blogspot.com
  • LAUDELINO  31/08/2011 21:23
    Que aula..........
  • Leonardo  01/09/2011 11:19
    Ainda não entendi uma coisa. Como que uma recessão pode ser inflacionária? Quais as razões para acontecer as duas coisas ao mesmo tempo?
  • Leandro  01/09/2011 12:13
    Leonardo,

    Ao contrária do que se imagina, o mais lógico é haver inflação de preços durante uma recessão. Basta lembrar que, durante uma recessão, por definição, está havendo uma redução na produção de bens e serviços. Logo, uma menor oferta de bens e serviços tende a gerar maiores preços. Se, em conjunto a essa redução de bens, você elevar bastante a quantidade de dinheiro na economia, então a consequência será inflação com recessão.

    Por outro lado, em uma recessão, as pessoas tendem a gastar menos e a poupar mais, por causa da maior incerteza da economia -- e é esse fenômeno que explica por que os preços aumentam pouco em economias recessivas, não obstante a queda na oferta de bens e serviços. As pessoas passam a demandar menos bens e serviços.

    Portanto, é sim possível haver tanto uma recessão com grande inflação de preços quanto uma recessão com pequena (ou zero) inflação de preços.
  • Leninmarquisson da Silva  01/09/2011 14:39
    Leandro;

    Meu professor passou um artigo do Belluzzo para considerar na aula. Pretendo refutar a baboseira keynisiana, mas gostaria de saber como refutar essa acusação de que os déficits aumentaram com as políticas pró-mercado de Reagan, Thatcher, etc (se for mesmo verdade).
    Entenda que faço engenharia, porém na faculdade do Belluzzo, então preciso vencer a ignorância econômica (inclusive a minha) e a idolatria ao Belluzzo por parte do povo aqui.
    Eu sinceramente acredito em desonestidade comunista, já que na visão deles o fracasso da UE é por culpa dos bancos que "financiaram o que não devia ter sido financiado". Então eles defendem a atuação de um Estado controlando a economia, mesmo quando não consegue controlar nem seus próprios gastos.
    E por fim, quando não cabe mais sujeira embaixo do tapete, é só acusar de "patife" e dizer que não estão "fazendo certo". Bah.

    O artigo é curto: www.cartacapital.com.br/economia/autoengano-ou-trapaca

    Desde já agradeço.
  • João  01/09/2011 16:18
    Agora, sobre o artigo, minhas opiniões de um leigo em absoluto:

    Ironicamente, foram as políticas "neoliberais" de Reagan, Thatcher & cia. que, a pretexto de reduzir o papel do Estado na economia, impulsionaram os déficits e as dívidas para limites insustentáveis.

    Acredito que é verdade que muitos neoliberais impulsionaram déficits. Sobre o Ronald Reagan, o Murray Rothbard escreveu um artigo a respeito dele: Ronald Reagan: An Autopsy. Aliás, Rothbard passou anos dizendo que os tais liberais só queriam favorecer os amigos do governo.

    À exceção dos anos 1990, o período em que se desenvolveu a "bolha da internet", a hipótese do trickle down não entregou o prometido. A migração da grande empresa para as regiões de baixos salários, a desregulamentação financeira e a prodigalidade- de isenções e favores fiscais para as empresas e para as camadas endinheiradas não promoveram a esperada elevação da taxa de investimento no território americano e, ao mesmo tempo, produziram a estagnação dos rendimentos da classe média para baixo, a persistência dos déficits orçamentários e o crescimento do endividamento público e privado. A procissão de desenganos foi acompanhada da ampliação dos déficits em conta corrente e da transição dos Estados Unidos de país credor para devedor.

    Eu não entendo essa lógica do Belluzzo. Favores fiscais são desregulamentação financeira? Se há "favores fiscais", não há desregulamentação financeira. Afinal, os "favores fiscais" sempre vão para quem tem melhores ligações com quem é responsável pelos favores. Por outro lado, o Belluzzo fala sobre a "bolha da Internet", que foi realmente formidável. Porém, ele se esquece de dizer que o mercado de TI não morreu por causa dela. Pelo contrário: a recuperação foi surpreendentemente rápida. Por que? Porque os investimentos errôneos foram liquidados e muita gente se deu mal. Quem conseguiu sobreviver sabia realmente o que estava fazendo. Quem trabalhou na área pode ser lembrar de ao menos um caso de uma empresa que conseguiu milhões em investimentos sem ter um modelo de negócios! (Eu me lembro da Eazel, que iria "vender serviços", mas não sabia dizer direito quais serviços venderia). Se o governo interviesse, veríamos programas de incentivo a empresas de TI que vendem sites para dar nota a esculturas cocô de cavalo. Tudo em nome da "demanda agregada".

    No primeiro trimestre de 2007 o estoque total de endividamento do setor não financeiro nos Estados Unidos chegou a mais de 35 trilhões de dólares, ou seja, mais do que o dobro do PIB. Esta cifra inclui, além do endividamento privado - sobretudo as famílias -, o débito público total, federal, estadual e municipal e o passivo financeiro das agências públicas encarregadas de bancar o financiamento da aquisição da casa própria. Mais impressionante foi o crescimento da dívida intrafinanceira: às vésperas da crise, o endividamento entre as instituições financeiras chegou a 120% do PIB, fruto das imprudências da alavancagem e da criatividade das inovações engendradas pelos gênios da finança.

    Ele brinca de faz-de-conta aqui, porque não fala sobre o papel do governo nisso tudo. Parece até que os empresários, malvadíssimos e à solta por causa da desregulamentação financeira, fizeram um estrago enorme. O estado, que dó, não tinha outra escolha. Afinal, os seres humanos do estado nunca querem poder e nunca querem dinheiro. São sempre vítimas do mercado!

    A dívida total cresceu seis vezes mais do que o PIB, com uma participação crescente dos governos federal, estadual e municipal. As grandes corporações trataram de reduzir seu ritmo de endividamento buscando a rápida "desalavancagem" para estabilizar a relação dívida/patrimônio líquido. As famílias, no entanto, não se atemorizaram, assumindo novos compromissos ou rolando os antigos a uma velocidade ainda elevada. Assim, a dívida das famílias saltou para 130% da renda disponível.

    As grandes empresas, bem conectadas com o governo, sabiam que seriam salvas pelo estado em caso de apuros. As famílias caíram no conto do financiamento mágico e eterno da prosperidade. E isso não funcionou. Pagar uma conta de um cartão de crédito com outro cartão de crédito não gera prosperidade. Ora, quem poderia imaginar?

    As famílias norte-americanas empreenderam uma "fuga para frente", que culminou com o "estouro" da bolha e a reversão do efeito riqueza decorrente da uma queda dos preços dos imóveis.

    É engraçado como esses economistas agora se fazem de desentendidos, afinal, eles mesmos achavam maravilhoso que os governos torrassem dinheiro para levar os países ao paraíso. O bem-estar social estaria acima de tudo, mesmo da lógica e do bom-senso. De repente, quando essa idiotice se mostra insustentável, ele se esquece de dizer quem estava por trás de tudo isso - o estado. E se esquece de dizer que ele não estava criticando esse arranjo. É o famoso profeta do passado.

    Restou ao governo arcar com déficits fiscais graúdos produzidos por gastos rígidos e receitas cadentes, para não falar do esforço para manter os bancos pecadores à tona. Tudo isso para enfrentar uma recuperação lenta, insegura, com ameaças de recaída na recessão.

    Coitadinho do governo! Só restou essa opção a ele! Realmente, ele não fez nada de errado. Só se endividou até os tubos com dinheiro inexistente para fazer de conta que tudo estava maravilhoso. Quando a conta chegou, pobrezinho, ele não teve culpa, foi feito refém pelo malvadíssimo mercado! O pior é saber que esse tipo de coisa se passa por economia hoje em dia.
  • Leninmarquisson da Silva  04/09/2011 17:52
    Leandro;

    Grato pelas informações. Até então imaginava Reagan como sendo pró-mercado. Mas me surpreende um pouco que um comunista declarado como Carter tenha começado as desregulamentações, embora nem tanto, já que sabemos que o marxismo é flexível para atingir seus objetivos.

    Sempre soube que os "neo-liberais" são apenas sociais-democratas e também tenho aversão a esse povinho, mas imaginei que, nesse caso, o Belluzzo se referisse às políticas pró-mercado, já que ele criticava a falta de intervencionismo estatal.

    Muito obrigado.
  • Leninmarquisson da Silva  04/09/2011 18:11
    Do jeito que ele escreveu (enrolou) não consegui assimilar algumas coisas óbvias. João, sua análise me ajudou a ler nas entrelinhas, muito obrigado.

    Mas a principal conclusão a que cheguei foi "ainda bem que escolhi engenharia". Fico imaginando que tipo de economista sairá daquela Facamp, fundada pelo Belluzzo e o João Manuel (primo do FHC)...
  • Angelo T.  01/09/2011 16:43
    O Belluzzo aplicou suas técnicas e quebrou o Verdão. O negócio dele era gastar e deixar a conta para os próximos presidentes.
  • Leandro  01/09/2011 16:47
    Leninmarquisson, Reagan é um bom espantalho por causa da sua retórica. Suas práticas, no entanto, foram bastante contrárias ao que ele dizia defender.

    Por exemplo, embora tenha reduzido a alíquota máxima do imposto de renda, Reagan aumentou sobremaneira alíquota da Previdência Social. No geral, Reagan aumentou os impostos em 65% e praticamente institucionalizou a gastança e os déficits orçamentários, tornando popular o dito "déficits não importam". O orçamento militar explodiu durante seus dois mandatos. Isso não é política liberal. Os déficits aumentaram simplesmente porque os gastos subiram muito mais do que as receitas, que subiram fortemente também.

    Durante seus 8 anos de presidência, o orçamento federal cresceu 69%, o que significa que Reagan aumentou o tamanho do governo a uma taxa de 6,9% ao ano. Compare essa média à do progressista Bill Clinton, que aumentou o governo "apenas" 3,6% ao ano.

    Ademais, todas as grandes desregulamentações ocorridas no governo Reagan na verdade haviam começado no governo Jimmy Carter -- desregulamentação da telefonia, do setor aéreo, dos correios, do transporte de carga e do setor energético.

    Sobre o "trickle down economics", é claro que, se você corta impostos mas aumenta o déficit, os ricos vão utilizar boa parte do seu dinheiro -- que antes ia para impostos mas que agora fica com eles -- para financiar esse déficit. Logo, o efeito para a economia é nulo -- aliás, é até pior, pois aumenta a dívida. Corte de impostos só funciona se ocorrer concomitantemente a um corte de gastos -- ou caso esse corte não aumente o déficit.

    Por fim, eu não sei o que o Belluzzo quer dizer com o termo "neoliberais". Nós aqui do IMB temos aversão a essa gente, pois são socialistas disfarçados de liberais.

    Grande abraço!
  • Fernando Z  01/09/2011 21:47
    Lembrando que Os Governos lucram com o desastre enquanto que as pessoas honestas lucram com a eficiência. Muito Obrigado!
  • Emerson Luis  19/06/2018 12:08

    Onde termina o autoengano

    e começa a hipocrisia?

    * * *


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