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Krugman concorda com os austríacos - mas por motivos completamente opostos

Embora keynesianos e austríacos não concordem em quase nada, há uma coisa em comum com a qual ambos concordam: a economia americana está se afundando no brejo da depressão.  A partir daí, entretanto, a concordância chega ao fim, e as duas escolas de pensamento apresentam duas explicações completamente distintas quanto ao porquê de isso estar acontecendo.

Os keynesianos, sempre capitaneados por Paul Krugman e seu megafone no The New York Times, já começaram a alegar que o pacote de estímulos e toda a gastança empreendida por Barack Obama foram, na realidade, excessivamente módicos, e que a atual ênfase que vem sendo dada ao debate sobre corte de gastos em todos os níveis de governo é uma estratégia exatamente oposta da que deveria ser tomada.  Os austríacos, não surpreendentemente, acreditam que tal choradeira keynesina não apenas é uma tolice, como na verdade é uma tolice extremamente perigosa.

Em uma recente coluna, Krugman apresenta sua mais nova tese, e ela é útil porque expõe de maneira verdadeira a mente keynesiana em ação; e uma mente keynesiana jamais permite nenhuma outra explicação para o que está acontecendo nos EUA.  Para um keynesiano, o problema é — e sempre será — uma "demanda agregada" insuficiente, e a única solução é que os governos gastem como se fossem marinheiros bêbados que acabaram de ganhar na loteria.

Escreve ele,

A grande bolha imobiliária da última década, que foi um fenômeno tanto norte-americano quanto europeu, foi acompanhada de um aumento enorme da dívida relativa a hipotecas.  Quando a bolha estourou, a construção de imóveis despencou, e os gastos dos consumidores também caíram, já que as famílias, sobrecarregadas por dívidas, reduziram o seu consumo.

Mesmo assim, tudo poderia ter corrido bem se outros atores econômicos importantes tivessem aumentado os seus gastos, preenchendo a lacuna provocada pela queda no setor de construção e pela redução dos gastos do consumidor.  Mas ninguém fez tal coisa.  É especialmente importante observar que as corporações repletas de dinheiro não veem motivos para investir esse capital devido à fraca demanda dos consumidores.

E os governos também não fizeram muita coisa para ajudar.  Alguns governos — aqueles dos países mais fracos da Europa, bem como governos estaduais e municipais nos Estados Unidos — foram na verdade obrigados a cortar os gastos devido à queda das arrecadações.  E as medidas modestas tomadas por governos mais fortes — incluindo, sim, o plano de estímulo econômico de Obama — foram, na melhor das hipóteses, suficientes apenas para compensar essa austeridade forçada.

Portanto, o que temos agora são economias deprimidas. E o que os legisladores estão propondo fazer quanto a isso? Simplesmente nada.

Se há algum raciocínio encadeado que descreva corretamente a mentalidade keynesiana, tal raciocínio profundo seria este: gastar, gastar, gastar.  Trata-se de uma tese obviamente simples, que certamente possui grande apelo junto a políticos, e até mesmo junto ao público geral, e que domina o pensamento econômico acadêmico desde a Segunda Guerra Mundial.  Como afirmou Krugman, as famílias não podem gastar aquilo que não têm, e as empresas, por não verem perspectivas quanto à demanda futura, não irão investir (leia-se: não irão gastar com investimentos em capital — algo que sempre é definido pelos keynesianos como sendo valioso unicamente porque representa gastos, e não por causa de qualquer aspecto relacionado à maior produtividade trazida por investimentos em capital).

E assim estamos presos naquilo que Krugman e os keynesianos chamam de "armadilha da liquidez" (situação em que a expansão monetária não diminui o valor dos juros, pois estes já estão em seu mínimo.  A única solução seria aumentar os gastos), conceito esse que Krugman acredita ter o poder de encerrar toda a discussão.

A ideia keynesiana é que a lei dos custos de oportunidade é suspensa durante uma armadilha da liquidez, pois as taxas de juros estão muito baixas, os recursos estão "ociosos", e o governo pode se endividar a juro praticamente zero e gastar à vontade, pois não estará consumindo nenhum recurso, dado que os recursos estão "ociosos".  Como disse Krugman em seu livro The Return of Depression Economics, os gastos do governo nesta situação podem criar um "almoço grátis". (Sim, ele realmente utilizou esse termo.)

Embora a maioria dos economistas convencionais não esteja disposta a confrontar os keynesianos quanto à ideia da "armadilha da liquidez", Murray Rothbard jamais recuou.  Em seu livro America's Great Depression, ele ataca toda a noção de "armadilha da liquidez", escrevendo,

A arma suprema do arsenal keynesiano de explicações para depressões é a "armadilha da liquidez".  Não se trata exatamente de uma crítica à teoria dos ciclos econômicos descrita por Mises, mas é a última linha keynesiana de defesa para as suas "curas" inflacionárias para a depressão.  Os keynesianos alegam que a "preferência pela liquidez" (demanda para portar moeda) pode se tornar tão persistentemente alta, que a taxa de juros não poderá cair o suficiente para estimular os investimentos necessários para retirar a economia da depressão.  Logo, só resta ao governo intervir maciçamente, se endividar e gastar — em qualquer área da economia.

Rothbard aponta um sério problema com esta análise, observando que Keynes jamais compreendeu corretamente a teoria dos juros, alegando que a taxa de juros é formada pela "preferência pela liquidez e não pela preferência temporal", raciocínio este que leva a mais conclusões incorretas sobre o estado da economia.  Outros austríacos também criticaram fortemente esta teoria, entre eles William Hutt e Henry Hazlitt.

Tanto Hutt quanto Hazlitt atacaram toda a ideia de "recursos ociosos", que está por trás da argumentação de que os custos de oportunidade podem ser suspensos durante uma depressão.  O argumento dos recursos ociosos baseia-se na noção de que os fatores de produção estão momentaneamente sem uso simplesmente porque os gastos estão em um nível muito baixo.  Sendo assim, um forte aumento no endividamento do governo (a custo quase zero — pois os juros estão nulos —, o que significa que não há custo de oportunidade) permitirá gastos maciços, os quais irão se difundir por todos estes ativos ociosos, fazendo com que eles voltem a ser utilizados.  

Como já observado, a teoria keynesiana é irresistivelmente simples.  Se há recursos não utilizados, então basta o governo "estimular" a economia por meio de mais gastos; os recursos voltarão a ser utilizados e, de alguma forma, a economia magicamente voltará a uma trajetória sustentável.  O que os keynesianos não entendem é que o motivo de haver tantos recursos que repentinamente se tornaram ociosos é porque houve algum erro anterior de cálculo durante o período da expansão econômica insustentável.  Os empreendedores, enganados pelos juros artificialmente baixos — os quais foram reduzidos pelo Banco Central por meio da expansão monetária, e não da poupança voluntária dos cidadãos — incorretamente imaginaram que havia uma demanda maior do que a que de fato existia, e isso os levou a fazer investimentos errôneos — no caso, a expansão de sua capacidade instalada.  Uma vez interrompida a expansão monetária, todo esse cenário artificial é revelado, e o período da correção (depressão) torna-se inevitável, para não dizer necessário.

Logo, o problema dos recursos ociosos não é apenas a falta de "demanda" ou de "gastos".  Tampouco é economicamente sensato dizer que o governo deve preencher a "baixa demanda".  O problema foi que, na esteira da farra do crédito fácil, houve uma má alocação de recursos em vários setores da economia, o que causou um desequilíbrio estrutural, um descompasso entre a estrutura do capital e a demanda do consumidor.

A depressão é o período no qual a economia passa a corrigir esse desequilíbrio.  E a única maneira de fazer corretamente esse procedimento é permitindo que os recursos sejam realocados de modo que correspondam às reais demandas do consumidor.  Para tal, a única medida correta é deixar o mercado, guiado pelo sistema de preços, realocar esses fatores da maneira mais racional possível.  Gastos do governo irão apenas retardar esse processo, intensificando a recessão.

Por outro lado, os keynesianos afirmam que, caso não haja novos gastos, então a deflação de preços será o resultado inevitável, fazendo com que ainda mais recursos se tornem ociosos até que, no final, toda a economia estará em um perverso equilíbrio: uma enorme quantidade de pessoas estará desempregada e sem perspectiva de melhorias econômicas.

Krugman é inflexível quanto a este ponto, e está tão convencido de que só ele está certo, que qualquer pessoa que porventura se atreva a discordar estará agindo assim apenas porque é um insensível que quer ver as outras pessoas sofrendo; ou porque tal pessoa está tão fanatizada pela teoria austríaca dos ciclos econômicos que se tornou incapaz de acrescentar qualquer ponto valioso ao debate público.  (Com efeito, Krugman acredita que não há mais debate nenhum, tão certo ele está de que sua posição é a única correta, de que ela já foi provada empiricamente e de que não pode jamais ser refutada — mesmo que ela venha sendo teimosa e continuamente refutada pela realidade).

Assim, mesmo que tenhamos testemunhado uma explosão nos gastos do governo americano durante os últimos anos, e que isso só tenha feito deprimir ainda mais a economia e elevar a dívida para mais de 14 trilhões de dólares, de acordo com Krugman a realidade é que o governo Obama este tempo todo adotou um plano de "austeridade".  Como assim?  Segundo Krugman, o governo americano adotou um plano de austeridade simplesmente porque, se o governo realmente tivesse aumentado os gastos maciçamente, a economia já teria saído da depressão.  É assim que funciona seu raciocínio.  Em outras palavras: dado que só existe uma única maneira de se retirar a economia americana do brejo — isto é, gastando-se os tubos —, e dado que a economia americana ainda não saiu do brejo, então é óbvio que o governo americano não gastou o suficiente.

E quanto à tese da "incerteza gerada pelo regime"?  Krugman também rejeita tal teoria, zombeteiramente chamando-a de "fada da confiança".  As empresas, ele argumenta, estão entesourando dinheiro porque estão sentindo que não há uma demanda do consumidor.  Porém, se o governo gastar, gastar e gastar, então aí sim as empresas voltam a investir — e ponto.

(Em relação a toda aquela retórica que vem sendo regurgitada pela Casa Branca contra as empresas e o mercado, todo o aumento nas regulamentações e toda a demonização das indústrias petrolíferas e de carvão — indústrias essas que são essenciais caso se queira que a economia americana volte a crescer —, tudo isso, de acordo com Krugman, ou nunca existiu ou é apenas espuma, e certamente não tem nenhuma relevância para a piora da situação econômica.  E por que não teria?  Ora, porque Krugman diz que não.  E ponto.)

A solução definitiva, de acordo com Krugman e os keynesianos, é induzir a economia americana a outro boom econômico, criar alguma outra bolha de ativos que possa fazer sua "mágica" durante pelo menos algum tempo — até que ela também estoure.  (Perversamente, em uma postagem endossada por Krugman, o economista keynesiano Karl Smith diz ter a esperança de que haja outra bolha imobiliária.  O Fed certamente está trabalhando arduamente para que isso ocorra.)

Sempre que leio Krugman e os keynesianos, fico espantado com sua análise de que ativos, economicamente falando, são na realidade homogêneos.  Não importa para onde os novos gastos sejam direcionados; o que importa é que haja gastos.  É só gastar, e todo o resto magicamente será devidamente afetado.  É só gastar, e todos os ativos serão estimulados, todos os fatores de produção ociosos voltarão a ser utilizados e toda a mão-de-obra desempregada voltará a ter trabalho.

Ademais, o ponto de vista krugmaniano/keynesiano baseia-se em uma interpretação extremamente mecanicista da ação humana.  De acordo com os keynesianos, as pessoas dentro de um arranjo de mercado não compram bens porque acham que terão suas necessidades individuais satisfeitas por esses bens.  Não, elas gastam, como se o gasto por si só fosse o objetivo supremo de uma economia.

Trata-se de uma visão que separa a produção do consumo, fazendo com que uma seja inexplicavelmente independente da outra.  A ação humana verdadeira e proposital não é encontrada em nenhum lugar desta análise.  Os indivíduos não agem.  Não há nenhuma conexão significativa entre desejos dos consumidores e a valoração dos fatores de produção, tampouco se analisa a maneira como os fatores de produção são empregados nas várias linhas de produção.  Tudo pode ser resumidamente descrito pela equação Y = C + I + G, sem nenhuma necessidade de se pensar mais profundamente.  Apenas esta tautologia já basta.

Como dito no início, tanto austríacos quanto keynesianos acreditam que a economia americana está se encaminhando para uma recessão ainda mais profunda, com a possibilidade de uma grande depressão.  Entretanto, Krugman e os Keynesianos acreditam que a única salvação são gastos maciços e profundas intervenções governamentais na economia.  Já os austríacos acreditam que são justamente estes gastos maciços e estas volumosas intervenções governamentais que estão piorando as coisas.  E enquanto Krugman e Companhia jamais irão admitir o contrário, o fato é que apenas o paradigma austríaco explica corretamente o que está acontecendo.  E o faz com total acurácia.

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Veja também: Paul Krugman e a terceira depressão — uma mente confusa



autor

William L. Anderson
é um scholar adjunto do Mises Institute, e leciona economia na Frostburg State University. 

  • Thiago  01/08/2011 10:57
    Prezado autor.

    Conheci esse site alguns poucos meses atrás, e acho incrivel como as coisas explicadas aqui fazem sentido. Mas sou engenheiro, não economista, e tenho uma dúvida.

    Pelo que eu entendi, o "normal" seria o consumidor gastar o dinheiro que têm enquanto o recebe. Quando se faz uma poupança, é porque o consumidor acredita que no futuro ele preceisará consumir outras coisas, ou vai estar mais barato, ou ele pode rebeber juros durante o processo. E quando se contrai uma dívida, o consumidor deseja algo que não possui recursos para obter e aceita pagar mais caro para pagar depois. Isso procede, correto?

    Então, quando existe poupança real (não expansão feita pelo Bc ou qualquer coisa do tipo), além dos juros serem reduzidos, os empreendedores decidem investir porque existem pessoas dispostas a comprar coisas no futuro. Se ele vai produzir essas coisas ou coisas inuteis vai da capacidade dele. E os empreendedores não vão expandir se o nível de endividamento estiver alto porque o dinheiro já está comprometido e não haverá aumento da demanda.

    Quando o BC expande a oferta de crédito, ele bagunça tudo. Fica fácil para as pessoas obterem crédito, elas decidem consumir agora e pagar depois, enquanto os empreendedores estão expandindo a oferta porque acham que os comsumindores estão com dinheiro gardado. Quando se percebe isso, vem a crise.

    Desculpa se sou um pouco confuso ao escrever, só quero saber se entendi direito.


    Eu sempre me perguntei porque a diferença entre os juros da poupança e do cartão de crédito. O banco me pagaria 0,5% ao mês na poupança e cobra 2,5% ao mês no crédito consignado de um aposentado.

    Se não houvesse expanção monetária, todo o dinheiro utilizado para investimento deveria vir da poupança. Então a poupança seria muito lucrativa. haveria razão para poupar. Porque hoje eu acredito que não exista.

    Por favor, escrevam um artigo explicando isso. Como ficaria a poupança numa economia sem expanção e sem reservas fracionárias?

    Obrigado.
  • Leandro  01/08/2011 11:28
    Prezado Thiago, agradecemos bastante seus elogios.

    O seu resumo apresentado nos 4º, 5º e 6º parágrafos está perfeito. Sobre a sua pergunta de como ficaria a poupança em uma economia sem expansão monetária e sem reservas fracionárias, é possível fazer uma análise causal-realista.

    Se houvesse um sistema bancário com 100% de reservas - isto é, caso não houvesse reservas fracionárias -, o crédito tenderia a ser maior e menos danoso. Afinal, ninguém iria deixar todo o seu dinheiro na conta corrente, tendo de pagar uma taxa de serviços. Grande parte seria destinada a investimentos, sendo que, durante o período de aplicação, tal dinheiro estaria indisponível para o poupador, obviamente.

    Isso significa que o dinheiro concedido como crédito estaria vindo da poupança genuína (abstenção do consumo). Mais ainda: o dinheiro emprestado não poderia ser utilizado pelo credor e pelo devedor ao mesmo tempo - que é o que ocorre no sistema bancário de reservas fracionárias; que é o que causa os ciclos econômicos.

    Ao contrário do que se imagina, tal sistema tenderia a elevar o volume de crédito. Em busca de maiores rendimentos, todos iriam emprestar o máximo possível de dinheiro, mantendo em sua conta-corrente apenas a quantia que julgassem necessária para suas despesas correntes e para demais contingências. Sem um banco central para fazer manipulações monetárias, os juros seriam determinados de acordo com a oferta e a demanda de crédito, exatamente como deve ser.

    Isso forneceria crédito de maneira saudável, sem atritos, sem inflação de preços e sem ciclos econômicos violentos. Principalmente: os investimentos dar-se-iam de acordo com a genuína preferência temporal dos poupadores, minimizando a destruição de capital e riqueza.


    Uma explicação mais completa sobre o mecanismo dos ciclos econômicos (desta vez aplicada para a economia brasileira) pode ser encontrada nestes dois artigos:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=937
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=837


    Grande abraço!
  • Thiago  01/08/2011 14:44
    Leandro.

    Obrigado por responder. Eu posso então assumir que, já que os bancos emprestam o dinheiro que está na conta corrente, eles não precisam do dinheiro que está na conta poupança?

    Um abraço.
  • Leandro  01/08/2011 15:22
    Não é tão direto assim, Thiago. O dinheiro que está na poupança também é emprestado pelos bancos, mas nesse caso um tanto mais compulsoriamente, pois os bancos são obrigados pelo governo a destinar 65% dos depósitos em poupança para o crédito habitacional, por exemplo. E há também a obrigatoriedade da destinação de recursos para o setor rural.

    Fora isso, há um complicador adicional: os bancos diariamente transferem um significativo volume do dinheiro que está parado na conta-corrente das pessoas e das empresas para outras aplicações de curto prazo em benefício dos próprios bancos. Às vezes fazem isso para "burlar" o compulsório (pois, ao retirar dinheiro das contas-correntes, o dinheiro que deve ficar preso no compulsório é necessariamente menor), e às vezes fazem isso para obter rendimentos extras. Muitas vezes esse dinheiro é transferido da conta-corrente para a conta-poupança, o que bagunça tudo e acaba não deixando claro o que está na conta-corrente e o que está na conta-poupança.

    Os bancos fazem isso justamente para obter rendimentos de curto prazo e para escaparem de algumas regulações do Banco Central, como o alto compulsório.

    Estou dizendo isso tudo apenas para responder que 'não', os bancos não emprestam apenas o que está na conta-corrente. Eles emprestam o que está também na poupança, o nos depósitos a prazo, nos CDBs, nos DIs e na Renda Fixa (estes dois últimos, ele empresta para o governo.)

    Grande abraço!
  • Giovanni P  02/08/2011 07:52
    Leandro,

    não é meio suspeito esse negócio de que "os empreendedores acham que as pessoas tem/não tem poupança pra consumir no futuro"? Os empreendedores na verdade não agem pensando no consumo que os outros estão planejando, mas apenas olhando a oferta de crédito para seus investimentos hoje e tentando prever a demanda pelo seu produto específico amanhã, baseados nos fatores mais diversos, incluindo aí seu próprio chute/genialidade de empreendedor. Ou não?

    Já vi essa explicação de que "a poupança sinaliza consumo futuro" em vários textos sobre a Teoria Austríaca dos Ciclos e ela sempre me pareceu furada. Não acho provável que algum empreendedor preveja a demanda futura por seu produto baseado nos níveis de poupança. Não acho nem mesmo que seja possível.

    Talvez isso tudo possa ser uma analogia bacana, mas não passa disso. Ou estou completamente enganado?
  • Leandro  02/08/2011 09:32
    Giovanni, eu concordo que há essa confusão. Porém, essa ilustração da "falta de poupança" deve ser entendida à luz de recursos físicos.

    Vou tentar explicar de maneira completa.

    A expansão monetária, como Mises explicou, não ocorre de maneira uniforme. Sempre há aqueles setores que recebem esse novo dinheiro antes do resto da economia. E esse dinheiro recém-criado que entra primeiramente em determinados setores da economia altera toda a estrutura de preços da economia; altera todos os preços relativos. Se o dinheiro recém-criado vai primeiramente para o setor imobiliário, por exemplo, a estrutura de preços da economia fica distorcida em relação a este setor, fazendo com que investimentos nesse setor aparentem ser mais vantajosos, mais lucrativos, pois os preços neste setor estão sempre subindo.

    A redução da taxa de juros decorrente de manipulações monetárias feitas pelo Banco Central desencadeia o início do ciclo porém, a partir daí, alterações na oferta monetária têm mais importância.

    O que interessa para a concretização de um investimento são as expectativas de lucros. As taxas de juros por si sós têm pequeno efeito sobre o planejamento empreendedorial e, consequentemente, sobre a formação de bolhas e de ciclos econômicos. O que afeta uma decisão de planejamento é a expectativa de lucros. E se os lucros propiciados por um investimento forem maiores do que os juros cobrados sobre os empréstimos para esse investimento, tal investimento é vantajoso.

    Ademais, os lucros são totalmente afetados por variações da quantidade de dinheiro na economia. Mais dinheiro sendo criado, maiores os lucros contábeis daqueles setores que recebem esse dinheiro antes dos outros.

    Ok, essa é a primeira parte. O que escrevi acima é a explicação geral de como começa um ciclo de expansão artificial da economia. Eis o que acontece em seguida.

    Essa expansão monetária causa uma redução nos juros. Porém, como essa redução nos juros não foi causada por um aumento na poupança (isto é, pela abstenção do consumo), mas sim pela simples manipulação dos juros feita pelo Banco Central, não houve uma liberação de recursos de um setor para ser utilizado em outro setor. Aí começam os problemas.

    Mais dinheiro na economia faz aumentar a demanda por mão-de-obra na indústria e na construção civil, mas ao mesmo tempo o setor de serviços e o de comércio continua precisando de mão-de-obra, pois não houve aumento na poupança (abstenção de consumo). Assim, começa a haver uma batalha por mão-de-obra. Houvesse poupança genuína, a mão-de-obra de um setor seria liberada para outro setor. Como não há poupança, esses fatores de produção começam a ser disputados via aumentos salariais e aumentos de preços.

    Assim, ao mesmo tempo em que uma construtora passa a demandar mais engenheiros, arquitetos, mestres-de-obras, corretores, vendedores, relações públicas etc., o setor de serviços e o comércio continuam demandando com a mesma intensidade esses profissionais, pois as pessoas não estão poupando, o que significa que o consumo segue aquecido em todos os setores -- a redução dos juros, como dito, não veio da poupança, mas sim da criação de dinheiro pelo Banco Central.

    O desemprego cai e os preços e os salários sobem, exatamente como está acontecendo no Brasil.

    A consequência é que esse aumento de custos vai ficando fora do controle das empresas que estavam realizando investimentos. Quando começaram a investir, elas não previam (e não tinham como prever) que haveria esse rápido aumento em seus custos (tanto de mão-de-obra quanto de matéria-prima).

    O aumento generalizado nos preços e nos custos força as empresas a obterem mais empréstimos (ou a renovar seus empréstimos) para que possam finalizar seus projetos já iniciados. Mais recursos passam a ser demandados. Essa busca por mais crédito provoca um aumento dos juros dos empréstimos. Entretanto, o Banco Central pode intervir injetando mais dinheiro no sistema, evitando temporariamente essa subida nos juros. Porém, tal injeção de dinheiro fará -- como foi explicado no início -- com que haja ainda mais distorções nos preços relativos e na estrutura de produção da economia, reiniciando o ciclo de mais procura por crédito. Isso vai se repetir até o momento em que o Banco Central resolver deixar os juros subirem.

    Quanto mais os preços dos fatores de produção sobem, mais desesperadas por novos empréstimos ficam aquelas empresas que deram início a projetos de longo prazo levadas pela crença de que o crédito seria farto e barato durante muito tempo. O aumento dos preços -- e, por conseguinte, dos juros -- altera seus planos.

    Esse aumento dos juros inviabilizará a conclusão desses empreendimentos de longo prazo -- sejam eles a construção de shoppings, a construção de prédios, a expansão de indústrias ou até mesmo a abertura de franquias de restaurantes. Descobre-se, finalmente, que não havia poupança suficiente (poupança no sentido tanto de recursos físicos disponíveis; a escassez fez com que seus preços subissem) para sustentar a viabilidade de longo prazo desses investimentos.

    Quando isso ocorre, há um processo de correção na economia, também conhecido como recessão. A mão-de-obra que foi desviada para setores que se expandiram apenas por causa dos juros artificialmente baixos -- qualquer grande empreendimento de longo prazo -- descobrirá que suas habilidades não mais estão sob demanda. Elas perdem o emprego e passam a ter de se reeducar para adquirir novas habilidades para outros empregos, os quais provavelmente estarão agora no setor de serviços e comércio.

    O período da expansão econômica irá terminar e dar-se-á início à recessão. Quanto mais cedo esta vier, menor terá sido a destruição de capital desse período da expansão.


    Portanto, respondendo à sua pergunta: quando se fala em ausência de poupança, não verdade está-se falando que, como não há uma abundância de recursos suficientes para sustentar todos os investimentos, os preços destes recursos irão subir acima do esperado no decorrer deste processo. E é isso que irá alterar os planos de todos os investimentos.

    Lembre-se que, como já mostrado aqui em outros artigos, os preços dos bens de capital são os primeiros a subir quando há expansões monetárias, e eles sobem muito acima do índice de inflação oficial, que é aquele em que normalmente as empresas se baseiam. E bens de capital são os recursos utilizados em grandes investimentos.

    Portanto, "não ter poupança suficiente" significa que "não houve abstenção de consumo o suficiente para liberar recursos físicos para outros empreendimentos." O fato de estes recursos (bens de capital e mão-de-obra) não terem sido poupados e liberados para os investimentos, irá fazer com que seus preços aumentem, que é exatamente o que começará a por um fim no ciclo de expansão da economia.


    Grande abraço!
  • Kleiton  01/08/2011 11:59
    Thiago

    Embora eu não tenha muito embasamento para responder a maior parte dos teus questionamentos, isso eu posso te dizer:

    "Eu sempre me perguntei porque a diferença entre os juros da poupança e do cartão de crédito. O banco me pagaria 0,5% ao mês na poupança e cobra 2,5% ao mês no crédito consignado de um aposentado."

    Essa é a forma pela qual bancos ganham dinheiro. Assim como um mercado gasta X reais comprando mercadorias no atacado, e as revende por X+Y para o consumidor (Y sendo o lucro), o banco faz a mesma coisa com a moeda.

    Ela "compra" moeda através da taxa da poupança e de outros investimentos, e "vende" moeda através do crédito oferecido aos seus clientes. Ao alterar a taxa de juros sobre poupança/empréstimos, o banco mexe na demanda por moeda. O "juro", no sistema bancário, é o equivalente ao "preço" do mercado de bens/serviços.
  • Giovanni P  02/08/2011 06:48
    Na verdade não é tão bonita e amigável assim a técnica dos bancos. Eles não "tomam emprestado a 0,5% e emprestam a 3%". Eles emprestam o dinheiro que não tomaram emprestado. Emprestam o dinheiro que foi depositado.
  • Thyago  01/08/2011 12:45
    Artigo bom...

  • HEITOR ARAÚJO OLIVEIRA  01/08/2011 15:21
    Olá, boa tarde\r
    \r
    Meu nome é Heitor Araújo Oliveira e não é a primeira vez que eu visito o site, mas é a primeira vez que eu escrevo algo. Primeiramente, gostaria de parabenizar a todos pelo belíssimo site e pelo conteúdo. Eu sempre fui meio desligado de economia, mas depois que eu entrei aqui, nunca mais vi a economia com os mesmos olhos. Tudo mudou. Foi aqui pela primeira vez li um artigo sobre economia que eu realmente entendi (infelizmente não me lembro qual foi). Eu jamais tinha ouvido falar sobre Escola Austríaca até chegar a este site. Foi um verdadeiro choque. Muitas coisas escritas diferem muito do que até então eu tinha aprendido. Tive que reformular muito das minhas antigas idéias (algumas comunistas, eu fui comunista em certos momentos, ou eu pensava que era... mas essa fase já passou há muito tempo). Fui desafiado pelo site e aceitei o desafio. Como sou "novato" ainda não tive tempo de ler tudo que gostaria. Ainda preciso absorver muita coisa daqui. Se vou concordar com tudo que está aqui? Isso não importa. O que importa é que eu abri a mente para uma nova forma de pensar. Saí de meu comodismo de pensamento. Portanto, amigos, se não for pedir demais, gostaria de que alguém me indicasse uma espécie de 'leitura para iniciados". Pode ser um livro, um artigo. Eu só quero aprender mais.\r
    \r
    Obrigado pela paciência de todos.\r
    \r
    Amplexos.\r
  • Leandro  01/08/2011 15:37
    Prezado Heitor, ficamos muito honrados com o seu relato. Obrigado!

    Quanto aos livros, bom, biblioteca do nosso site (clique aqui) oferece vários .pdfs gratuitos, que você pode ler no próprio computador ou no seu iPad/iPhone.

    Caso queira comprar os livros, basta ir à nossa loja virtual (clique aqui).

    As recomendações de leitura para iniciantes seriam estas:

    As Seis Lições
    Economia Numa Única Lição
    Intervencionismo - Uma análise econômica
    O Essencial von Mises

    Tendo terminado essa bateria, você já estará apto para encarar empreitadas mais ousadas.

    Entretanto, se nos permite a liberdade, podemos garantir que todos os artigos publicados neste site são perfeitamente compreensíveis para o leigo inteligente, podendo, é claro, haver algumas dúvidas pontuais quanto ao significado de algumas expressões. Fora isso, não há nada a temer. A economia é uma ciência puramente lógica e que pode ser perfeitamente compreendida e deduzida sem nenhum tipo de experiência prática. Basta utilizar a lógica e a razão. Você não necessariamente precisa de ler vários livros antes de começar a ler nossos artigos.

    Você provavelmente nunca entendeu artigos de economia simplesmente porque lia artigos escritos por pseudo-economistas, gente que gosta de se pavonear perante seus semelhantes acadêmicos utilizando jargões incompreensíveis e raciocínios fictícios. Nem eles próprios acreditam no que dizem (e falo isso de experiência própria, pois já convivi com muita gente deste meio).

    Pode ler nossos artigos sem medo. Qualquer dúvida, é só escrever nos comentários que iremos responder (dependendo do dia e do horário) prontamente.

    Grande amplexo pra você também!
  • Getulio Malveira  01/08/2011 15:57
    "Sempre que leio Krugman e os keynesianos, fico espantado com sua análise de que ativos, economicamente falando, são na realidade homogêneos. Não importa para onde os novos gastos sejam direcionados; o que importa é que haja gastos. É só gastar, e todo o resto magicamente será devidamente afetado. É só gastar, e todos os ativos serão estimulados, todos os fatores de produção ociosos voltarão a ser utilizados e toda a mão-de-obra desempregada voltará a ter trabalho."\r
    \r
    Realmente isso deveria parecer espantoso mesmo para alguém completamente leigo em economia, mas sobretudo para quem lida com empresas (administradores, contabilista, etc).\r
    \r
  • Giovanni P  02/08/2011 06:58
    Não sei se você é administrador ou contabilista, mas eu tenho uma forte impressão de que esse tipo de gente já foi há muito, desde a faculdade até o "mundo corporativo" (que é um mundo paralelo ao real), contaminada pelo pensamento economicista de pensar em agregados e basear suas decisões em "análises de mercado" generalistas.

    Acaba que as informações de que a maioria desses administradores são tão básicas que nem precisaria de análise nenhuma, e o neoclassicismo-keynesianismo acaba servindo.

    Duro é, eu penso, achar que suas empresas estão indo bem devido à alta precisão de suas análises e conhecimentos burocrático e não devido à boa idéia inicial do empreendedor, ajustes feitos no decorrer do tempo muito mais baseados em decisões arbitrárias de uma mente genial do que em análises de administradores, ou de ajustes feitos "de dentro" do processo produtivo.
  • ANDRE LUIS  01/08/2011 22:18
    Olá,

    Já que hoje é o dia dos novatos, resolvi arriscar uma também.

    Seria excesso de "teoria da conspiração" levantar a hipótese da teoria keynesiana ter sido fabricada justamente para enriquecer banqueiros e fomentar crises?

    Obrigado e um abraço a todos.


  • João  02/08/2011 10:47
    Não acredito em uma teoria da conspiração a respeito disso, mas acredito que o timing da publicação das ideias de Keynes foi perfeito. Os governos certamente teriam muito mais dificuldades para empurrar aumentos de impostos, gastos com guerras, encargos sociais baseados em dinheiro inexistente sem o Keynesianismo. Keynes era um cara esperto, sabia que sua teoria seria abraçada com muito amor e carinho por estatistas, empresários conectados ao governo, etc.

    Imagine a cara de felicidade dos governantes quando se depararam com uma teoria que os libertava de coisas chatas como não gastar demais. Eles pularam de alegria! Afinal, agora poderiam torrar dinheiro e dizer que estavam "fazendo a roda da economia girar". Gastar menos do que arrecada? Ora, você nunca ouviu falar sobre o efeito multiplicativo? O dinheiro que o governo gasta vem carregado de pó mágico! O governo gasta 1 dólar e gera 10, em um piscar de olhos!

  • Erick Skrabe  02/08/2011 12:06
    Como diz aquele ditado... ¨na teoria até o comunismo funciona¨.

    E até acho que ele era consistente. Tanto que dizia: ¨no longo prazo estaremos todos mortos¨.

    SE os governos só gastassem na época de recessão, SE os governos guardassem dinheiro na época de vacas gordas, SE todo o capital fosse homogenio, SE as pessoas nao levassem em conta a questao temporal, SE isso, SE aquilo, emfim, SE as pessoas ñ fossem pessoas e ñ tivessem vontade própria, a teoria dele seria muito boa.
  • Giovanni P  02/08/2011 13:50
    Não seria. E o comunismo não funciona nem na teoria.
  • Cristiano  02/08/2011 21:38
    Não me surpreende que Krugman tenha suas colunas reproduzidas pela Folha de São Paulo.
  • oneide teixeira  03/08/2011 01:14
    Parabens por mais um ótimo texto, eu tenho replicado-difundido os textos do site sistematicamnte, paro pelo menos 1-2 horas por dia para isso.

    O obscurantismo ainda reina neste país infelismente.

    Pelo que tenho visto houve aumento no numero de comentários, difundir este site é de vital importancia para mudar este país.

  • Emerson Luis  03/04/2016 12:05

    "Se há algum raciocínio encadeado que descreva corretamente a mentalidade keynesiana, tal raciocínio profundo seria este: gastar, gastar, gastar."

    Esse "raciocínio" está mais para pensamento obsessivo.

    * * *



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