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Reservas fracionadas geram ciclos?

Alguns austríacos defendem que um sistema bancário baseado em reservas fracionadas é um "gerador natural" de ciclos, pois nesse tipo de sistema há a produção do que é comumente chamado de "moeda fiduciária" ("fiduciária" de fidúcia, confiança. Seriam moedas emitidas sem lastro em algum tipo de reserva, como ouro, por exemplo. Os agentes confiam que, mesmo sem reservas suficientes, o emissor teria condição de resgatá-las quando assim fosse requisitado).

Essa posição, de reservas fracionadas como geradoras de ciclos, foi/é fortemente defendida por seguidores e ex-alunos de Mises, como Rothbard, Hoppe, Salerno, Hülsmann e gerou intenso debate não só sobre a proposição em si, como também sobre qual seria a posição do economista austríaco em relação ao tema.  Embora, em linhas gerais, a resposta já tenha sido dada pelos economistas do "outro lado" desse debate (mais especificamente neste texto por George Selgin e Lawrence H. White), vou tentar expor aqui como eu entendo o problema e a sua solução.

A essência da posição de que o sistema de reservas fracionadas (RF) gera ciclos (vou chamar essa defesa de 'rothbardiana') é a idéia de que há o uso, "ao mesmo tempo" e por diferentes pessoas, da poupança depositada em um banco que siga tal política de reservas.  Como se sabe, a teoria austríaca dos ciclos econômicos (TACE) argumenta que expansões do crédito levam os agentes econômicos a acharem que existe mais poupança do que realmente existe, e o problema surge exatamente quando "no meio" da execução/manutenção desses projetos, que foram concebidos com base nessa ilusão de mais poupança, se descobre que na realidade não há o montante de bens poupados necessários para a conclusão e sustentação de todos esses novos investimentos.

Para os rothbardianos, quando alguém deposita uma dada quantia em um banco e recebe em troca, por exemplo, um título ou um certificado de depósito, essa pessoa abriu mão de consumir, nesse período de depósito, a quantia depositada, que então será emprestada para alguém que a utilizará em alguma atividade.  Como se pode perceber, há um "casamento" entre o ato de poupar, feito por um determinado indivíduo, e o investimento feito por outro indivíduo na outra ponta da cadeia de eventos, com o banco servindo apenas de intermediador. Repare que o poupador abre mão dos seus bens poupados para que o tomador de empréstimo invista/use esses mesmos bens.

O mesmo não ocorreria em um banco com RF.  Quando o depositante deixa seu dinheiro no banco, ele continua podendo utilizar o saldo disponível na conta, ao passo que, do outro lado, o banco empresta parte desse mesmo saldo para outra pessoa, a qual obviamente poderá dispor desse empréstimo como quiser.  Há aqui a idéia de que há "crédito demais" para poupança de menos.  O emprestador recebeu uma porcentagem do saldo depositado como se essa porcentagem estivesse sendo poupada por alguém, quando não está.  O "dono original" continua tendo esse mesmo saldo à sua disposição para uso.  Esse aumento do crédito sem lastro em poupança desencadeará ciclos econômicos na visão austríaca.  Como um sistema de RF funciona naturalmente nesses termos (de emprestar parte do que recebe e ainda manter o saldo disponível para o depositante original), tal sistema seria um desencadeador natural de ciclos econômicos.

A discordância entre rothbardianos e os defensores de RF (dentre os quais eu me incluo) se dá exatamente nessa questão de o sistema defendido pelo segundo grupo ser "inerentemente e inescapavelmente instável".  Nós defendemos que expansões de crédito não inflacionárias (no sentido convencional de inflação como aumento do nível de preços) não serão geradoras de ciclos.  Apenas expansões "excessivas" de crédito desencadearão o fenômeno.  Essa posição é a mesma de Hayek e, acredito, a mesma de Mises (embora, como já foi citado, os rothbardianos insistam que isso não seja verdade).

Explicando melhor.  Por "expansões de crédito não inflacionárias", queremos dizer o seguinte: o banco conseguiu conquistar mais "clientes" para sua moeda, isto é, pessoas que estão dispostas a carregar, em seus portfólios, saldos em conta corrente daquele banco como se fossem "moeda nas suas carteiras".  Ou seja, as pessoas "enxergam" esses saldos em conta corrente exatamente como se fossem moeda; elas formam encaixes utilizando esses saldos, o que significa que elas não "correm para trocar" (ou não trocam constantemente) saldos em conta corrente por moeda primária (cédulas de papel e moedas metálicas no nosso atual sistema, ou ouro na época do padrão-ouro).

Em termos econômicos mais genéricos, uma expansão de crédito não inflacionária significa que quando as pessoas desejam aumentar sua demanda por moeda, o banco aumenta a oferta de moeda no mesmo montante desse aumento de demanda, mantendo o "nível de preços" estável.  E ele faz isso exatamente conseguindo com que mais pessoas utilizem seus saldos em conta corrente como se fossem moeda primária (ou com que as mesmas pessoas que já eram clientes aumentem seus encaixes utilizando os saldos gerados pelo banco).

Por que tal política não é geradora de ciclos?  Pela explicação acima já temos a resposta. Imagine uma situação em que o banco faz uma expansão de crédito inflacionária — ou seja, sem o correspondente aumento de demanda por moeda por parte da economia.  Um modo de se fazer isso, dado que o Banco Central não aumentou a quantidade de moeda primária, é diminuir a quantidade de reservas bancárias.  O banco expansionista, então, pega parte das suas reservas e empresta.  As pessoas pegam o empréstimo (que pode ser em moeda primária ou mesmo em um saldo em conta corrente) e correm para gastar de alguma forma esse dinheiro.

Não houve, da parte dos depositantes originários do banco, nenhum aumento de demanda por depósitos bancários (saldos em conta corrente) que permitisse ao banco diminuir seu nível de reserva.  Também não houve, em outra parte do sistema, ninguém aumentando sua demanda por esses depósitos de forma a permitir ao banco a mesma prática (de diminuição de reservas).  Essa moeda nova entrou em "circulação" de um lado sem que, do outro, alguém aumentasse a sua própria demanda por depósitos bancários (e assim liberasse reservas para a expansão do crédito).  

Neste caso, sim, temos a descrição rothbardiana de "mais crédito sem poupança". Adicionalmente, como temos mais moeda "circulando", sem ninguém ter aumentado sua demanda por moeda, teremos inflação (de preços), além dos ciclos (pelo descasamento de poupança e crédito).

E como seriam as coisas caso a expansão do crédito fosse feita lastreada por uma expansão da demanda por moeda?  Um ponto importante a ser entendido é que demandar moeda significa "deixar de consumir".  Você pega uma parte da sua renda e a aloca em moeda.  A cadeira, o barbeador, a maçã que você produziu não serão consumidos e, portanto, estarão disponíveis para serem utilizados na produção de outros bens; estarão disponíveis para ser utilizados em investimentos como qualquer poupança.

Quando você aumenta sua demanda por moeda (no sentido amplo) e deposita dinheiro no banco, que por sua vez utilizará esse depósito para promover novos empréstimos, o que está ocorrendo é que você (depositante) está abrindo mão de bens em troca de um ativo financeiro emitido pelo banco (no caso, saldos em conta corrente), o qual será mantido em seu encaixe, em seu portfólio.  Esses bens dos quais você abriu mão naquele momento (deixou de consumir para aumentar seu encaixe) serão emprestados pelo banco; serão utilizados pelo emprestador na outra ponta do fluxo.  A diferença fundamental deste cenário para o outro é que, neste, você manteve os bens à disposição do banco quando se propôs a utilizar os saldos que ele lhe concedeu como moeda, mantendo um encaixe com esses saldos (exatamente como faria com moeda primária).  Já na emissão de crédito inflacionária, o banco não consegue isso; as pessoas pegam seus saldos e saem trocando por moeda primária, gastando, pois elas não desejam aumentar seus encaixes.  Por essa razão, há mais moeda concorrendo pelos mesmos bens (já que ninguém reteve os saldos disponibilizados), o que gera a inflação e também o problema do descasamento de poupança e crédito que desencadeia o fenômeno do ciclo econômico.

O ponto chave para entender essa diferença nos dois cenários é olhar exatamente para a demanda por moeda e como ela "lastreia" a expansão de crédito feita subsequentemente pelo banco.  

Imagine que eu seja o emissor de um papel-moeda (um papel-moeda já estabelecido no mercado) lastreado em algum outro bem (como ouro ou mesmo o papel-moeda emitido por um banco central).  Qual a vantagem existente em eu ser um emissor?  Ora, a vantagem é que eu emito papeizinhos — que custam muito pouco para serem fabricados — em troca do ouro que as pessoas depositam no meu banco.  Esse ouro eu posso emprestar e ganhar juros.  Observe que, desde que as pessoas aceitem meus papeizinhos como moeda — e elas aceitarão caso eu ganhe a confiança delas por cumprir exatamente aquilo que foi combinado (trocar esses papeizinhos por ouro na hora que elas desejarem) —, eu consigo uma fonte de captação a juros zero para meu banco.

O que significa aqui "aceitar os papeizinhos" como moeda? Significa que os demandantes mantêm esses papeizinhos em suas carteiras, nos seus encaixes, como se fosse ouro ou qualquer moeda primária.  Essa permanência das pessoas com a minha moeda me permite emprestar o ouro que elas depositaram em meu banco, e permite o casamento correto entre crédito e poupança.  As pessoas abriram mão de consumir bens ao manterem um dado número de papeizinhos como encaixe, e é esse montante ou parte dele (em ouro) que eu empresto via expansão do crédito.

No caso da expansão inflacionária, não há esse lastro fornecido pelos demandantes dos meus papeizinhos; eles não permitem a expansão de crédito que o banco deseja.  As pessoas não desejam manter em seus encaixes uma quantidade maior dos meus papeis, o que me permitiria expandir o crédito ao, por exemplo, diminuir o nível de reservas de ouro que mantenho em meu banco.  Esse não lastreamento pela demanda dos consumidores causa exatamente o descasamento entre poupança e crédito: as pessoas que receberam o novo crédito "vão às compras" e os demandantes do meu papel continuam gastando o mesmo que antes (eles não aumentaram sua demanda por moeda e, portanto, não deixaram os bens disponíveis para o banco expandir o crédito).

Se estivermos em um sistema sem um Banco Central para socorrer os bancos, aquele banco que praticou tal política tenderá a ter dificuldades nas conversões de papeis por moeda primária (ele está com reservas muito baixas, dada a expansão não lastreada que realizou).  A tendência em um mercado livre, portanto, é que aqueles bancos que pratiquem políticas inflacionárias sumam do mapa, e a estabilidade econômica prevaleça.

Antes de falar de ciclos novamente, uma crítica comum ao que foi exposto até aqui é a idéia de que não são necessárias mais emissões de moeda quando o consumidor aumenta a sua demanda por moeda.  Ou seja: que o correto seria deixar ocorrer uma deflação de preços (um aumento do poder de compra da moeda) porque seria isso o desejado pelo consumidor, seria a sua "vontade" expressa em ações em um livre mercado.  Eu não vejo muito sentido nessa crítica.

Primeiro, quando o consumidor aumenta sua demanda por moeda, o que ele quer é um maior poder de compra em sua carteira. Se esse maior poder de compra será obtido por meio do mesmo número de papeizinhos comprando mais bens (deflação de preços) ou com o consumidor obtendo mais papeizinhos com o mesmo poder de compra (novas emissões), é algo indiferente para ele.  Até onde se sabe, ninguém aceita pagar mais de R$100,00 para obter uma nota de R$100,00 no lugar de duas de R$50,00, o que deve significar que tanto faz se você tem um encaixe formado por dois papeizinhos pintados com um 50 ou um papelzinho pintado com um 100 — o que importa é o poder de compra real das duas cestas de notas (no caso, 100), e esse desejo de aumentar o poder de compra do seu encaixe pode ser obtido (em termos econômicos) com deflação de preços ou com novas emissões.

Segundo, não faz sentido econômico algum afirmar que, diante de um aumento da demanda por um dado bem, o produtor desse bem deve responder apenas aumentando o preço, não mexendo na sua oferta; e que mexer na oferta é uma violação do desejo do consumidor em "ter a mesma quantidade física desse bem, mas com cada unidade valendo mais".  Se um ofertante, diante de um aumento da demanda (ou esperando um aumento de demanda) vai responder mexendo no preço, no preço e na oferta, ou só na oferta, depende da lucratividade dos três caminhos.

Supondo-se que a empresa esteja no ótimo (na produção que maximiza seu lucro ao preço de mercado), se, por exemplo, o custo de se produzir novas unidades é constante, muito provavelmente a oferta será expandida e o preço ficará estável.  Se o custo for crescente, oferta e preços aumentarão.  E se, por alguma "excentricidade", o custo de produzir unidades a mais for proibitivo, todo o aumento da demanda só irá gerar aumento de preços (e a oferta ficará constante).

Não há nada que comprove que um caminho é necessariamente "mais correto" que o outro.  No setor bancário, dado que as pessoas estão querendo mais moeda para encaixes, o aumento da oferta monetária terá custo marginal praticamente nulo — logo, é de se esperar que o caminho tomado em um mercado livre seja esse (de expansão da oferta mantendo o preço estável), ainda mais quando a estabilidade de preços por si só (nenhuma ou pouca inflação/deflação de preços) é um fator desejável para os agentes econômicos (dada a facilidade de previsões para investimentos e escolhas futuras).

Bancos centrais e não reservas fracionadas são responsáveis pelos ciclos

Parece-me bastante natural que quem lesse autores como Mises e Hayek chegaria à conclusão de que eles pensam exatamente como a frase acima: ciclos são gerados essencialmente pela política monetária expansionistas dos bancos centrais e não por uma "falha" na própria natureza do sistema de reservas fracionadas. Os rothbardianos dizem que não.  Eles concordam que bancos centrais geram ciclos, mas também acreditam que mesmo em um mundo sem bancos centrais, porém com bancos de reserva fracionada emitindo moeda sem gerar inflação de preços, os ciclos continuariam existindo.  Como explicado anteriormente, essa posição é um erro.  Ela não percebe que emissões lastreadas por uma maior demanda por moeda significam emissões lastreadas em poupança, isto é, em bens que não estão sendo consumidos, já que a maior demanda por moeda implica uma parte maior da renda/riqueza não sendo consumida, sendo mantida em termos de encaixes monetários.

E é exatamente essa característica que também garante que tais emissões não são inflacionárias (no sentido de inflação de preço), já que algumas pessoas diminuem o seu consumo (porque aumentaram seus encaixes) enquanto outras aumentam o seu com os novos créditos.

A posição de que os bancos centrais são responsáveis pelos ciclos não implica que em um sistema de reservas fracionadas sem bancos centrais seja impossível ocorrer ciclos.  Bastaria que os bancos desse sistema se engajassem em emissões não lastreadas por aumentos da demanda de moeda (emissões inflacionárias).  O ponto é que eles não teriam incentivos a fazer isso.  Emissões acima da disposição dos consumidores em manter a moeda de determinado banco em encaixes implica aumento da demanda por resgates (por conversões da sua moeda em moeda primária).  Mas o nível de reservas desse banco está baixo exatamente porque ele expandiu o crédito (o nível de reserva era ótimo, adequado, para o montante de resgate anterior), o que significa que não existirão reservas suficientes para fazer os resgates corriqueiros que os clientes desejam.  Isso será fatal para o banco.

A confiança na sua moeda desaparecerá porque ele não consegue cumprir o que prometeu.  Haverá uma "corrida" a esse banco, ninguém mais quererá segurar sua moeda nos seus encaixes.  É o fim da galinha de ovos de ouro da captação a taxas zero (ou próxima disso).  Esse é o mecanismo básico de mercado que garante que bancos (que emitam moedas não primárias) só realizarão emissões não inflacionárias, isto é, emissões que não geram ciclos.

Existe uma tendência errônea entre alguns rothbardianos de interpretar o que ocorre atualmente no mundo como uma falha desse mecanismo — e, portanto, uma falha generalizada do sistema de reservas fracionadas.  O mecanismo descrito não funcionará se, por trás dos bancos, existir um emissor de moeda primária que cubra as necessidades por mais reservas no momento em que os resgates se multiplicarem, decorrência da emissão não lastreada.

Basicamente é isso que os bancos centrais têm como missão.  Fornecer a "liquidez" necessária aos bancos.  E é essa entidade, praticando essa política, que acabará gerando os ciclos — justamente por emitir moeda primária excessivamente (e, consequentemente, garantindo expansões creditícias inflacionárias, sem lastro na demanda por moeda dos agentes econômicos).

Explicando melhor: imagine que você seja um banqueiro.  Você sabe que não pode expandir o crédito além da disposição dos consumidores em manter sua moeda, seus "saldos de depósito a vista", nos seus respectivos encaixes.  Se você resolver expandir, mesmo não tendo o "aval" dos consumidores, os resgates aumentarão e você não terá reservas suficientes para arcar com esse aumento.  Mas imagine que exista um órgão que aceite lhe fornecer reservas (ou que diga da boca para fora que não fornecerá, mas que, em um momento real de necessidade, você sabe que irá fornecer).  Você, um banqueiro ávido por lucro, se preocupará com o nível de suas reservas?  Provavelmente não.  Dado que é sempre possível cobrar algum juro positivo com mais empréstimos, você expandirá o crédito o máximo possível, e não se preocupará quando os recebedores dos seus papeis começarem a trocá-los por moeda primária (reservas).  O órgão mencionado lhe fornecerá o quanto você precisar.

Essa política de crédito expansionista só foi possível porque esse órgão emissor de moeda primária lhe garantiu reservas suficientes, não porque você simplesmente pode, se assim julgar conveniente, expandir o crédito.  Na situação sem o órgão, você também poderia expandir, mas não expandiria porque, se fizesse, teria prejuízos.  O que incentiva a expansão é o resguardo do órgão de emissão de moeda primária.

Vendo o real problema, muitos economistas, dentre eles os austríacos Mises e Hayek, sugeriram mudanças em relação ao banco central (que, no nosso atual sistema, é o órgão garantidor de moeda primária citado acima). Mises, por exemplo, defendia a volta ao padrão-ouro, o que tiraria o banco central da posição de emissor de moeda primária.  O seu papel-moeda (se ele ainda continuar a existir como um emissor de moeda) passa a ser uma "moeda secundária", uma moeda que teria de ser convertida em outro ativo mais básico — no caso, o ouro.  Isso amarra as mãos do banco central, pois novas emissões de papel-moeda só poderiam ser feitas com maiores reservas de ouro (ou um aumento da demanda por papel-moeda).

Assim como os bancos normais, o banco central passa a ter de se preocupar com suas reservas; reservas que, por sua vez, não podem ser aumentadas sem custos consideráveis (é mais caro/difícil achar ouro do que imprimir moeda).

Hayek foi ainda mais longe.  Em seu "Desestatização do Dinheiro", o austríaco defendeu o fim do banco central e a transformação dos bancos privados em potenciais emissores de moeda primária.  Emissores de moedas primárias também possuem restrições de mercado, embora menores do que bancos que emitam moedas lastreadas em outro ativo que não seja de sua própria emissão/produção.  Se um banco emissor de moeda primária começa a "abusar" do seu poder, as pessoas simplesmente largam sua moeda e trocam por outra mais confiável, mais estável, acabando também com a fonte de captação a juros zero que esse banco provavelmente levou anos e anos para conseguir.  O próprio banco central tem um limite — bastante largo é verdade — na sua capacidade de abusar do poder de emissão.  São famosos os casos de hiperinflação em que a moeda que o Banco Central local emite é abandonada em troca de outro bem ou outro papel-moeda.  No Brasil mesmo, na época da hiperinflação, muitas transações corriqueiras eram feitas em dólar.  Os próprios preços — de eletrônicos, por exemplo — eram expostos em dólar.

Os rothbardianos, portanto, erram completamente o alvo ao culparem o sistema de reservas fracionadas e até mesmo o papel-moeda pelos ciclos econômicos.  Como diz o ditado popular: é jogar a criança fora junto com a água do banho.  Reserva fracionada, em geral, é a política ótima a ser adotada em uma economia de mercado, ainda mais se estivermos em um padrão-ouro.  Ela economiza ouro.  Permite que o sistema monetário funcione com menos ouro, liberando o metal para a produção de outros bens.  E o papel-moeda faz o mesmo.  Ele permite a existência de um sistema monetário sem a necessidade de usar um metal caro, como ouro, o qual poderia ser utilizado na produção de outros bens.  

Ambos são fenômenos de mercado, são produtos da velha história de que mercados levam à eficiência, à produção de bens a custos cada vez menores.  Tentar negar essas coisas, indo contra qualquer boa teoria econômica, é dar um tiro no próprio pé.  É dar munição a keynesianos, socialistas e intervencionistas de todas as matizes que apenas querem regular e estatizar ainda mais o sistema financeiro.  Mises e Hayek sabiam disso. Eles não defenderam mais regulações no setor bancário, como a imposição de 100% de reserva.  Eles defenderam o "free banking" (sistema bancário completamente desregulamentado), a saída completa do governo do setor bancário.  Defenderam que cada banco adotasse as políticas que achassem convenientes, que arcassem com os custos e usufruíssem dos benefícios do caminho adotado, como deve ser em um livre mercado.

Para finalizar, uma história interessante.  Recentemente, estava lendo uma reportagem sobre um livro de tecnologia que trazia a "polêmica" revelação de que Bill Gates não entendia o Gmail na época de seu lançamento. Como o Google era capaz de oferecer 2GB de armazenamento?  Quem usaria tanto espaço com e-mail, perguntava Gates.  No entanto, na mesma reportagem, era revelado o "truque" do Google em relação ao espaço de armazenamento.  Realmente, como Gates suspeitava, poucas pessoas usavam 2GB (e ainda menos pessoas utilizam os 7GB que o Google disponibiliza hoje).  O que o dono do Gmail fazia, então?  A resposta: "reserva fracionada" de espaço.  O Google tinha servidores com capacidade inferior a 2GB vezes o número esperado de usuários cadastrados, mas tinha servidores suficientes para dar o espaço que seus usuários realmente usavam.  Ele podia prometer 2GB para todos, mesmo não tendo 2GB para todos porque quase ninguém utilizava esse espaço.

Não faria sentido econômico algum ele prometer 2GB e comprar os servidores na capacidade do prometido porque ninguém iria usar.  Seria um desperdício total.  Mas a promessa foi um belo marketing, além das pessoas ficarem confortáveis em saber que, se quisessem, poderiam usar 2GB (e o Google conseguia ofertar isso a quem realmente se propusesse a usar esse espaço, dado que as pessoas não usavam 2GB todas ao mesmo tempo).

Esse é só um exemplo para mostrar que, dado que as pessoas se comportam de uma certa maneira, reserva fracionada é a política economicamente ótima até mesmo para espaço de armazenamento em servidores.


autor

Sidney Richard Sylvestre
é economista.

  • Bernardo Santoro  14/07/2011 10:40
    Sidney, antes de mais nada, parabéns pelo ótimo texto, e você tem argumentos muito persuasivos, mas não posso deixar de me questionar sobre dois pontos:

    1 - Você foi exclusivamente utilitário na sua explicação, ao dizer que não existe um "caminho correto" entre deflação e reservas fracionárias "não inflacionárias". Mas você não atentou para a questão ética da coisa. Quando um banco se utiliza do sistema de reservas fracionárias, ele se apropria de bens que não são dela, especialmente nos depósitos a vista, onde o depositante declara que não quer poupar aquela quantia e ainda assim o banco o empresta. Isso é furto, mesmo que a reserva fracionária venha a não ter efeito inflacionário e que o banco "devolva" o valor depois. Por isso que eu posso até concordar quando você diz que não existe um caminho correto do ponto de vista utilitário, mas do ponto de vista ético a deflação me parece, sme dúvida, o caminho mais correto. Ou estou enganado?

    2 - Não há uma garantia de que a reserva fracionária não terá efeito inflacionário. Você defende que se houver esse efeito o banco quebra, mas essa postura não é um pouco temerária, especialmente em um ambiente em que esse sistema não é acordado livremente com o depositante?

    Abraço!

  • Roberto Chiocca  14/07/2011 11:33
    Sidney,
    vc acha que um banco que praticasse reservas fracionarias, num livre mercado, conseguiria ser competitivo sendo sincero?
    Realmente acho que desde que seja tudo previsto em contrato e aceito entre as partes este esquema de piramide pode até ser legitimo, e tem gente que entra nestes esquemas mesmo sabendo de suas falhas. Mas eu nãoconsigo vislumbrar pessoas voluntariamente(e com opção de ter 100% reservas em outro banco) depositando suas riquezas num banco que lhes diz que não garante que se todos quiserem sacar ao mesmo tempo irão conseguir.
    Ou seja, o esquema de reservas fracionárias pode até se manter por muitissimos anos, desde que, de forma fraudulenta.
  • Leandro  14/07/2011 11:56
    "desde que seja tudo previsto em contrato e aceito entre as partes este esquema de piramide pode até ser legitimo, e tem gente que entra nestes esquemas mesmo sabendo de suas falhas."

    Aí é que tá o problema. Tal esquema jamais pode ser legítimo per se. Se Fulano e seu banco voluntariamente concordarem em emitir reservas fracionárias, até aí tudo bem. Porém, a partir do momento em que estes meios fiduciários forem parar na minha conta, e considerando que eu não concordo em utilizar meios fiduciários, então eu estou sendo fraudado.

    Aqueles dígitos na minha conta corrente não estão lastreado por uma quantidade real de dinheiro -- ou seja, não existe a correspondente quantidade de dinheiro físico a que eu teria direito caso fosse sacar o valor em minha conta corrente. Fui fraudado.

    Acho que esse é o artigo definitivo sobre o tema:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1030


    Quanto a reservas fracionárias sem banco central gerarem ciclos econômicos, bem, isso ficou claro no século XIX nos EUA. Não havia banco central, mas havia ciclos econômicos justamente porque os bancos praticavam reservas fracionárias com o ouro. É verdade que os ciclos se resolviam muito mais rapidamente naquela época(em comparação aos de hoje, eram um picnic), mas isso se devia justamente à ausência de um banco central para fazer políticas monetárias contracíclicas.

    Aliás, mesmo com reservas de 100% também é possível haver ciclos. Basta haver um descasamento entre o período de tempo que o indivíduo (poupador) deixa seu dinheiro investido no banco e o período de tempo que o banco empresta esse dinheiro para um empreendedor (o que se chama de "maturity mismatching" no jargão técnico).

    Se o poupador retirar seu dinheiro antes de o empreendedor concluir seu projeto, e se o banco não conseguir, nesse ínterim, atrair um outro poupador para poder continuar financiando esse empreendedor, então os empreendedor terá de suspender seu projeto.

    Se isso ocorrer de maneira generalizada na economia, haverá uma grande retração econômica.
  • Sidney  15/07/2011 01:45
    A existência de um Banco Central formal é totalmente irrelevante nessa questão. \r
    \r
    A teoria econômica não muda se antes o "guardião estatal da moeda" se chamava "Tesouro", "Escrawbol" ou "Banco Central". O efeito é o mesmo se antes o Tesouro ou o Ministério da Economia ou seja lá o nome do órgão estatal que cuidava desse assunto liberava os bancos de cumprirem seus resgates em ouro e hoje o banco central emite mais papeizinhos para que os bancos não fiquem sem reservas suficientes.\r
    \r
    E o artigo linkado do Polleit não tem absolutamente nada de definitivo.
  • Tiago RC  15/07/2011 10:14
    Bancos com reservas fracionárias teriam condições de ofertar serviços com taxas muito mais atrativas a seus clientes, eventualmente mesmo compartilhando um percentual dos juros ganhos com os empréstimos. Isso poderia ser motivação pra muita gente.
  • Sidney  14/07/2011 11:51
    Bernardo, \r
    \r
    Obrigado pelos elogios. \r
    Sobre suas perguntas\r
    \r
    1 - A idéia principal do texto era focar na economia da situação e não tanto na questão ética/moral. Se você estiver interessado, tenho um outro texto no meu blog que trata da parte ética. Eis o link: \r
    depositode.blogspot.com/2011/03/mais-sobre-reserva-fracionada-questao.html\r
    \r
    2 - Eu acho que em economia poucas coisas são "certezas" nesse sentido específico que você coloca. Por exemplo, uma discussão famosa entre libertarians - policias privadas teriam incentivos a "fazer a coisa certa" como proteger os cidadãos, mas pode acontecer de algumas virarem gangues e espoliar o pessoal. A economia nos dirá que ela terá incentivos a ir para o lado correto, mas algo específico, que nós não levamos em conta naquela situação específica que os envolvidos estão pode alterar esse incentivo. A mesma coisa acontece nessa questão de reserva fracionada e inflação e em quase todas as situações que você aplica economia. O incentivo é para que não gere inflação, mas algum banco pode achar vantajoso arriscar uma expansão e a faz. É análogo ao seguinte: o incentivo em um livre mercado para uma loja qualquer é o de oferecer produtos "de qualidade", mas várias delas oferecem produtos ruins e, assim como o banco que faz inflação, a tendência é quebrar. Pode não quebrar, pode demorar (depende dos detalhes de cada caso), mas no geral seria isso que aconteceria. E não é porque existe o risco de lojas oferecerem produtos ruins que você passa a obriga-las, via força, a oferecer "produtos de qualidade" \r
    \r
    Abraços
  • Sidney  14/07/2011 11:59
    Roberto,\r
    \r
    Sendo muito sincero, acho que bancos de reserva fracionada seriam muito mais competitivo que qualquer banco 100% de reserva, justamente porque as pessoas não sacam todas ao mesmo tempo. Bancos com reserva fracionada ofeceram a um risco quase nulo a mesma comodidade de um banco 100% de reserva e ainda lucrarão mais por emprestar o dinheiro parado (as reservas). P/ completar, podem pagar juros aos depósitos a vista (enquanto um banco 100% de reserva no máximo pode diminuir a tarifa que cobra)\r
    \r
    Se as pessoas sacassem sempre todas ao mesmo tempo, seria impossível praticar reserva fracionada em um livre mercado, mas não é o caso. Um banco consegue saciar a demanda dos seus clientes por moeda primária com apenas uma fração da mesma depositada em seus cofres.
  • Jeová  14/07/2011 15:27
    Sidney, \r
    \r
    A estória do Bill Gates é interessante. Eu, porém, desenvolvi uma que, modéstia à parte, considero ser mais apropriada: a da conexão de banda larga. \r
    \r
    As operadoras, sabendo que nem todo mundo usa a internet ao mesmo tempo, prometem conexão a uma velocidade que elas sabem não poder dar a todos ao mesmo tempo, mas, pela legislação, você só pode rescindir o contrato se sua velocidade se ela estiver, salvo engano, menos de 10% do que foi contratado. \r
    \r
    O cliente, portanto, (embora talvez não saiba) corre um risco, algo bem diferente do que ocorre em todos os sistemas de reservas fracionárias que eu conheço, que, teoricamente, transformam poupança em um investimento 100% seguro. \r
    \r
    Eu tenho minhas dúvidas quanto à natureza do sistema, mas o grande problema é que ele é uma coisa e é "vendido" como outra.
  • Tiago RC  15/07/2011 10:35
    Um parênteses nessa história da banda larga: há um outro problema além do compartilhamento da banda dos backbones, que é a tecnologia ADSL em si, que não é lá muito homogênea. Os vendedores de banda larga ADSL, quando anunciam que você pode ter até X Mbps com a conexão deles, só dizem nas letras miúdas que tal valor máximo só será atingido por quem tiver uma linha telefônica perfeita, ou seja, pra alguém que seja vizinho de uma central telefônica. A grande maioria nunca atingirá esse valor, mesmo que seja o único usando o servidor naquele momento.
  • Pablo  14/07/2011 17:40
    Ocorre que um sistema de reservas fracionárias gera um sobre-investimento em alguns setores gerando perdas para diversas empresas e má alocação de recursos. Quando o sistema de reservas gera dinheiro através de empréstimos sem lastro, o banco dá um sinal ao empresário de que há poupança disponível para realizar o investimento, quando na verdade recursos não estão sendo poupados, a taxa de preferência temporal das pessoas não se alterou.
  • Ricardo Sulyak  14/07/2011 19:31
    Prezado Sidney, tudo bem?

    Muito interessante seu artigo.

    Entretanto observo que o problema está no aspecto dinâmico do multiplicador bancário dos meios de pagamento (M1: Papel-moeda em poder do público mais depósito à vista nos bancos comerciais), que consiste em uma progressão geométrica matemática cuja taxa de crescimento dessa expansão é (1-R), onde R é a soma das seguintes percentuais:

    a) encaixe em moeda corrente dos bancos comerciais/depósitos à vista nos bancos comerciais;

    b) depósitos voluntários dos bancos comerciais no Banco Central/depósitos à vista nos bancos comerciais;

    c) depósitos compulsórios dos bancos comerciais no Banco Central/depósitos à vista nos bancos comerciais.


    obs: Os itens a) e b) não possuem muita relevância estatística por serem parâmetros comportamentais que variam de banco comercial a banco comercial, porém o item c) é um parâmetro definido, fixado pelo Banco Central.


    De modo que por fim acaba por afetar a Base Monetária da economia, gerando a expansão monetária primária, secundária e assim sucessivamente; coisa que ocorre como resultante da política de reservas fracionárias e ausência de carência obrigatória (não estou entrando no mérito se deve haver ou não) de algum percentual do que depositamos ou mantemos em nossas contas através de depósitos à vista, para só então poder ser emprestado, e assim haver algum tipo de conciliação entre o tempo de carência de nosso dinheiro no banco que não podemos mexer e os prazos dos créditos (desse mesmo dinheiro na carência) a serem quitados (isso é algo a se desenvolver ainda) e não afetar direitos de propriedade sobre o dinheiro em si.

    No aspecto dinâmico da programação monetária há algo chamado de criação de destruição dos meios de pagamentos resultado das variações entre ativo e passivo contábil dos bancos comerciais e Banco Central cuja causa está na relação entre o Setor Monetário e Setor Não-Monetário da economia, através da troca de haveres monetários e haveres não monetários entre esses agentes em seus respectivos setores.

    Diferente da observação estática, caso a caso, da relação do Setor Monetário (Banco Central e bancos comerciais) e Setor Não-Monetário (público) que só pode haver criação excessiva de meios de pagamento quando o governo passa a ter gastos maiores do que sua receita (gastos financiados junto ao setor monetário), no caso dinâmico o Banco Central dispõe dos seguintes instrumentos para expandir meios de pagamento:

    a) Expansão de empréstimos ao Governo

    b) Expansão de empréstimos ao setor privado via bancos comerciais

    c) Expansão de redescontos aos bancos comerciais

    d) Na compra de títulos da dívida pública em poder do público

    e) Redução do passivo em moeda estrangeira

    f) Aumento de reservas cambiais

    g) Redução da relação encaixe/depósitos nos bancos comerciais, diminuindo as exigências de recolhimentos compulsórios à sua ordem.

    Nesse sentido, o problema maior pode residir na existência do Banco Central, mas ocorre que os bancos comerciais são um braço dessa instituição que colabora com o processo inflacionário, em seu real sentido, a expansão monetária.

    O problema prático desse processo dinâmico é o como ter em conta qual será o comportamento dos agentes, o público e bancos comerciais, isso porque o Banco Central pode controlar a Base Monetária mais não o multiplicador e até mesmo alguma previsões das contas do Banco Central pode haver desvios como no caso das reservas internacionais dependendo do regime cambial vigente.

    A expansão de crédito não inflacionária é algo que depende das preferências de cada agente que possui contas-corrente em bancos comerciais e, por isso ser um tanto complexo, há os problemas na previsão do comportamento do multiplicador monetário porque nesse dinamismo todo não necessariamente haverá sempre troca de haver monetário por haver não monetário, haverá mais contas com mais crédito pelas criadas pelas reservas fracionadas.

    Essa velocidade de expansão é que faz com que uma mesma quantidade de bens seja perseguido por uma quantia maior de dinheiro disposto na economia, certo?

    Ocorre que na necessidade de um controle disso tudo é que existe um Banco Central, mas isso porque os bancos comerciais não necessariamente zelam pela moeda por ser ela única e utilizada por todos em um sistema monetário.

    Nesse sentido, há sim, por parte dos bancos comerciais a formação de um gatilho inflacionário que se sente a médio/longo prazo.

    Acho que foi nesse sentido que Hayek colocou em Desestatização da Moeda:

    "Bendito seja o dia em que não mais será da benevolência governamental que teremos de esperar uma boa moeda, mas do zelo dos bancos pelos seus próprios interesses".

    Nisso reside a idéia de que se cada banco possuísse sua moeda, caberia a este zelar por sua capacidade real de aquisição uma mesma cestas de bens ao longo do tempo e a lucratividade do banco comercial X,Y ou Z, seria igualmente alcançada por uma prestação de serviços baseada que ganharia via eleição do público pelo banco comercial X,Y ou Z.

    Grande Abraço

  • Matheus  14/07/2011 22:37
    Não acho que o sistema de reservas fracionárias envolva uma propriedade simultânea do mesmo bem entre duas pessoas (como exposto no "Against fiduciary media").

    Se um indivíduo A possui 100$ e então deposita esse dinheiro em um banco que pratica reservas fracionárias (e é claro, A está ciente disso), ele transfere a propriedade desses 100$ para o banco em troca de um "título" que promete devolver esses 100$ a qualquer instante. Se então o banco pega esses 100$ e empresta pra um indivíduo B, o que acontece é que o banco transfere a propriedade dos 100$ para B, em troca de um "título" que promete a devolução dos 100$ mais uma porcentagem de juros em um prazo determinado. São três "bens" diferentes, portanto, os 100$, uma promessa do banco e uma promessa do indivíduo B. Na verdade, eu enxergo as reservas fracionárias como uma forma de empréstimo particular, sendo que o tomador de empréstimo deve devolver o dinheiro no momento em que o emprestador requere.

    Posso estar errado, mas não consigo enxergar propriedade simultânea de um mesmo bem em nenhum momento. Abraços
  • Leandro  14/07/2011 23:12
    De fato, você enxergou errado, Matheus. A sua descrição estava certa até chegar à parte final. Permita-me reformular a sua linha de raciocínio:

    Se um indivíduo A possui 100$ e então deposita esse dinheiro em um banco que pratica reservas fracionárias (e é claro, A está ciente disso), A transfere a propriedade desses 100$ para o banco em troca de um "título" que promete devolver esses 100$ a qualquer instante. (Ou seja, A pode utilizar esses 100$, ou qualquer valor menor do que 100$, a absolutamente qualquer instante, sem nenhum aviso prévio. Afinal, é uma conta-corrente)

    Se então o banco pega esses 100$ e empresta pra um indivíduo B, o que acontece é que o banco transfere a propriedade dos 100$ para B, em troca de um "título" em que B promete a devolução dos 100$ mais uma porcentagem de juros em um prazo determinado. (Ora, veja a contradição que acabou de se formar: A tem acesso irrestrito a um dinheiro, 100$, que agora está totalmente à disposição de B! Não se esqueça de que, quando B pega esse empréstimo de 100$, o banco cria uma conta-corrente para B, que tem acesso livre e instantâneo a ela).

    Ou seja, temos um bem (100$), que é propriedade simultânea de duas pessoas ao mesmo tempo.

    Ao banco, resta apenas torcer que A não resolva sacar todo o seu dinheiro (100$) antes de B ter quitado o empréstimo. Caso isso ocorra, o banco quebra.

    Grande abraço!
  • Tiago RC  15/07/2011 10:28
    "Ora, veja a contradição que acabou de se formar: A tem acesso irrestrito a um dinheiro, 100$, que agora está totalmente à disposição de B! "

    Não, A tem acesso irrestritos a "títulos", e B tem acesso irrestrito a outros "títulos". Nenhum dos dois têm mais acesso irrestrito à moeda primária.
    Esses títulos podem, eventualmente, ser trocados pelo valor equivalente em moeda primária, mas não há nenhuma garantia de que tal troca poderá ser feita imediatamente, ou sem perdas.
  • Leandro  15/07/2011 13:52
    Não é verdade, Tiago, simplesmente não é. Tanto o correntista quanto o tomador de empréstimo têm total liberdade para sacar moeda física de suas respectivas contas-correntes (sempre lembrando que ao tomador de empréstimo é também criada uma conta-corrente).

    Se ambos vão preferir utilizar apenas o dinheiro eletrônico na conta-corrente, sem sacar dinheiro vivo, tanto melhor para o banco. Mas não é verdade dizer que nem A nem B têm acesso irrestrito à moeda primária. Eles têm. Se vão querer utilizar ou não, é outra conversa. Você, ao pedir empréstimo num banco e obter a sua conta-corrente, tem a liberdade para sacar dinheiro vivo dela quando quiser.

    Aliás, como o próprio Richard corretamente deixou claro, é o fato de os clientes de todos os bancos optarem por utilizar majoritariamente a moeda eletrônica o que dá aos bancos a liberdade de expandirem o crédito e manter taxas baixas de reservas bancárias em relação ao nível das contas-correntes, sem o temor de caírem nessa situação de um objeto sendo requisitado ao mesmo tempo por dois proprietários distintos.

    Portanto, enfatizo: ambos, A e B, têm sim acesso irrestrito à moeda primária (dinheiro vivo), e não apenas acesso a "títulos" sobre essa moeda primária. Isso não é questão de opinião, mas de fato, pois é assim que o sistema funciona.

    Só uma observação: quando discuto reservas fracionárias, principalmente o aspecto ético da coisa, não tenho a menor intenção de converter ninguém (mesmo porque pode ser possível provar que, em termos puramente utilitários, tal arranjo fraudulento é melhor do que um arranjo honesto. Por que não? Em termos utilitários, tudo pode ser possível). Mas é sempre bom esclarecer alguns fatos que parecem às vezes ficar confusos.

    Grande abraço!
  • anônimo  19/07/2011 21:49
    Tiago.\r
    \r
    Há uma grande diferença jurídica entre depósito e empréstimo. Sugiro ler Huerta de Soto em "Dinero, crédito bancário e ciclos económicos"; Capitulo 1, itens 1, 2 e 3; e Capítulo 3, itens 1 e 2.\r
    \r
    Há uma versao eletronica do livro em www.jesushuertadesoto.com/madre2.htm \r
    \r
    Abraço
  • Sidney  15/07/2011 01:33
    Matheus, \r
    \r
    Em linhas gerais vc está correto. O que o banco faz é trocar com o depositante ativos. O banco dá saldos em conta corrente em troca de "papel-moeda". Veja o que eu escrevi em um texto de minha autoria que trata dessa parte ética:\r
    \r
    "Quando alguém deposita R$100,00 em nota no banco ele deixa de ter propriedade sobre R$100,00 em papel-moeda (ou ouro, se fosse o caso). Ele passa a ter propriedade de R$100,00 em saldos de conta corrente, o que significa que ele tem R$100,00 de crédito em papel-moeda/ouro junto ao banco (já que o banco se compromete a trocar seu saldo por moeda a hora que ele quiser), mas não os R$100,00 agora, em papel-moeda/ouro, de forma que não faz sentido algum afirmar que "duas pessoas estão usando o mesmo dinheiro ao mesmo tempo" (só se fossem mágicas). Economicamente, o agente trocou moeda de um tipo (ouro ou papel-moeda), por moeda de outro tipo (saldos em CC) ao depositar dinheiro no banco. Ele simplesmente trocou de ativo. Obviamente, dada a politica do emissor do ativo que ele adquiriu, a qualquer momento ele pode "reverter" a troca."\r
    \r
    se vc quiser ler o texto inteiro, eis o link\r
    depositode.blogspot.com/2011/03/mais-sobre-reserva-fracionada-questao.html
  • Breno Almeida  14/07/2011 23:30
    Ouro não é dinheiro! O banco central só mantem reservas em ouro porque é uma tradição! www.youtube.com/watch?v=2NJnL10vZ1Y É meio irrelevante ao tópico mais o video é engraçado.
  • Roberto Carlos Todorovski  14/07/2011 23:50
    Prezado Sidney,

    Tenho dúvidas quanto a dois pontos:

    1. Como saber qual a fração ideal para compor a reserva de um banco considerando que o comportamento humano não pode ser enquadrada em fórmulas matemáticas de grande precisão? Em um mercado bancário sem banco central, 5% de demanda monetária a mais daquela prevista e disponível no encaixe bancário pode quebrar uma instituição financeira.

    2. Diz-se que o período dos depósitos captados pelos bancos devem casar com o tempo demandado para o término dos projetos de investimento para que os mesmos não sejam interrompidos antes de sua conclusão. No entanto, a grande maioria dos projetos de investimento chegam ao final e as dívidas contraídas para sua execução permanecem em ser anos após seus términos. Como isso é tratado pela teoria econômica austríaca?
  • Sidney  15/07/2011 12:11
    Roberto, \r
    \r
    Sobre as suas dúvidas:\r
    \r
    1 - Se vc observar bem, verá que esse tipo de previsão é feita a todo momento por quase todos os estabelecimentos de uma economia de mercado. Só para ficar em um exemplo simples, um padeiro, quando começa o dia, precisa fazer uma previsão relativamente boa de quantos pãezinhos vão sair no dia. Uma loja de calçados, precisa fazer uma previsão adequada de seu estoque, dos tipos de sapato que serão vendidos etc.. Agora, obviamente a previsão não é "mágica" e está passível de erro. A forma de se fazer as previsões (mesmo usando dos métodos mais sofisticados aos mais simples) é sempre olhar para o comportamento passado e agregar informações presentes que podem ser relevantes. A previsão será boa se as escolhas hoje não se alterarem muito em relação ao padrão passado usado para previsão (como estamos falando de ação humana, não há garantias quanto à isso). Se o padrão se alterar para "mais moeda", no caso de bancos, provavelmente eles aumentaram suas reservas como uma "medida de segurança" e mesmo no dia a dia é de se esperar que eles possam rapidamente transformar uma série de ativos, como títulos públicos, contratos de empréstimos em moeda para saciar algum choque aleatório de demanda. A maioria dos bancos tem uma área inteira monitorando isso (o nome da área varia, mas geralmente chamam de "risco de liquidez").\r
    \r
    2 - Não sei se a teoria austríaca tem um tratamento especial a isso. Como já foi mencionado pelo Leandro, existem alguns autores que defendem que o "descasamento de prazos" (maturity mismatching) gera ciclos econômicos. Mas eu desconheço tratamentos específicos para o próprio descasamento. O que se pode inferir da teoria é que, em geral, será do interesse dos próprios agentes casar o prazo de "recebíveis" (R ) com as obrigações (O) que possuem, pois, em um dado período, se R>O existirá prejuízo (no caso de bancos, por exemplo, é dinheiro parado que não está "trabalhando") e se O>R, teremos crise de liquidez (que no caso de bancos, pode destruir a confiança do público). Ocorre que muitas vezes, por questões relativas à risco, pode ficar complicado fazer esse casamento e aí surgem serviços no próprio mercado para que isso seja possível (dos mais simples como linhas de crédito automáticas para uma "emergência" à coisas mais sofisticadas como seguros contra calotes de um recebível, o chamado "CDS"). O que você diz sobre projetos que terminam e as dívidas ficam é normal, não é necessariamente um descasamento de prazo. Se eu empresto dinheiro para construir uma fábrica, primeiro eu construo a fábrica e depois, quando ela estiver funcionando, eu começo a pagar (por isso a fabrica fica pronta e as dividas sobram). Seria um descasamento de prazo se eu tivesse que pagar o empréstimo um ano depois da fábrica pronta sendo que a mesma só passará a gerar lucros suficientes para o pagamento em dois anos. E acho que seria um "erro de avaliação empresarial", nem classificável como descasamento de prazo se eu tenho que pagar o empréstimo daqui um ano e a fabrica só vai me gerar lucro suficiente daqui vinte anos.\r
    \r
    É isso.\r
  • Rafael  15/07/2011 02:46
    O que me deixa ouriçado com isso tudo é o fato de que com reservas fracionárias, ainda assim alguém acaba levando uma melhor em cima de mim sem minha permissão. Me explico comparando duas situações:
    Sr. Pacheco poupou durante a vida e agora desfruta sua aposentadoria sacando o dinheiro de sua conta-corrente. Lá há 1000 onças.
    Após um aumento da demanda por encaixe:
    -Os banco não criam reservas: haverá deflação e o sr. Pacheco ficará mais rico, e poderá usufruir melhor de sua aposentadoria.
    -Os bancos criam reservas na exata proporção que você aponta: não há deflação, e nosso sujeito não enriquece. Se ele desejar mais reservas (a demanda de todos na sociedade aumentou, segundo nosso modelo) ele terá de cortar o consumo, conservando o encaixe. Quem então utilizará essa deflação que não ocorreu? O banco e seus clientes favoritos, que receberão algo a custo zero para eles.
    Assim, há transferência de riqueza real para o banco que realiza reservas fracionárias.
    Os salários tenderão a aumentar em decorrência do aumento de produtividade. No primeiro caso, os salários diminuiriam menos em relação à diminuição nos preços das coisas, pois também houve aumento da produtividade (considerando que aquela pouponça foi invertida). Pode-se considerar que, de um ponto de vista utilitário, as maiores inversões produzidas pela coutilização de reservas são desejáveis. Mas eu entendo que de um ponto de vista ético, aqueles que foram prudentes e pouparam é que devem receber os benefícios da poupança, não aqueles que sabem melhor contabilidade bancária.
    Espero ter conseguido me expressar de forma eficiente.
  • Sidney  15/07/2011 10:45
    Não concordo com vc Rafael\r
    \r
    Pessoas tem propriedade sobre bens, não sobre preços e valores.\r
    \r
    Isso que vc disse só não é ético se vc considera que concorrentes diminuirem o preço de um bem não é etico tbm pq evita quem tem estoque desses bens de enriquecer.\r
    \r
    O Sr. Pacheco podia ter poupado em castanhas. Aí um belo dia, a demanda por castanhas aumenta (o que faria o estoque do Sr. Pacheco se valoriza bastante e deixaria ele mais rico). Mas os produtores de castanha respondem ao aumento de demanda, aumentando a oferta de castanhas e o preço não sobe ou sobe um pouquinho ou volta ao que era antes. Que ato não ético foi cometido aqui? \r
    \r
    O seu exemplo é identico, mas no lugar de castanhas, é moeda (como é hj, bancos não criam reservas ou moeda de alta potência, moeda primária etc.. mas criam moeda)
  • André Poffo  15/07/2011 09:53
    Minha opinião é simples, acredito que no livre mercado qualquer crise na região que ocasionasse uma certa corrida aos bancos, os bancos com reserva fracionada quebrariam, ou na melhor das hipóteses fariam dívidas impagáveis para honrar os contratos.. Não há como fazer previsão de como o mercado funcionará.
  • Tiago RC  15/07/2011 10:12
    Fico contente de ver um texto pró reservas fracionárias no IMB.

    Mas acho que não entendi muito bem o que o autor quis explicar com a primeira parte do texto. Todos aqueles parágrafos foram apenas para explicar que um multiplicador constante não altera as taxas de crescimento? (que se todos os bancos mantiverem o mesmo percentual em reservas, um aumento de 10% no M0 provocará um aumento de exatos 10% no M1).
    Acho que não foi isso que o autor quis dizer, porque não precisaria de tantas palavras pra algo óbvio, e também porque acho que todos os "rothbardianos" entendem isso. O problema é que para que existam reservas fracionárias, em algum momento a porcentagem de reservas teve que diminuir, e nesse momento há inflação monetária sem criação de moeda primária.

    O que me parece mais lógico é que a intenção foi dizer que, mesmo que a porcentagem em reserva diminua, bastaria que ela diminuísse numa taxa que não provocasse aumento de preços, que isso não provocaria ciclos econômicos. É isso?
    Eu sempre imaginei que qualquer nível inflação monetária dirigida inteiramente a empréstimos provocaria algum nível proporcional de malinvestments - mesmo num cenário de queda ("deflação") de preços. Estou enganado?

    Abraços,
    Tiago.
  • Sidney  15/07/2011 14:47
    Tiago,\r
    \r
    Não sei até onde exatamente vc considera "primeiros parágrafos", mas a intenção foi somente expor a posição rothbardiana em relação a reserva fracionada, o porque delas gerarem ciclos, a questão da implicação do uso simultânea de uma determina poupança (fulano q depositou usa o dinheiro, fulano q recebeu o empréstimo do banco usa o dinheiro como se existisse mais poupança do que realmente existe). É essa questão dos dois se comportarem como se existisse o "dobro" da poupança que realmente existe que gerará o ciclo. A posição obviamente é clara para os rothbardians (afinal é a posição deles), mas nem todos os leitores do texto são rothbardians e alguns podem nem ser (ou conhecer direito os) austríacos. \r
    \r
    Depois eu tento mostrar q essa interpretação (rothbardiana) está equivocada, mas não tem nada lá diretamente sobre "multiplicador constante" implicar em não alterar taxas de crescimento.\r
    \r
    Quanto à pergunta, depende do que você está chamando de "inflação". Se é no sentido austríaco (inflação = expansão monetária), esse é exatamente o tema do texto. Eu e o pessoal pró-reserva fracionada argumentamos que não, que expansões monetárias que casam com aumentos de demanda por moeda não são ciclicas, pq a opção por carregar os saldos do banco como moeda (o que possibilita a ele expandir monetariamente) implica em abrir mão de bens produzidos, não existindo o descasamento entre investimento e poupança alegado pelos rothbardians. \r
    \r
    Abs
  • Fernando Z  15/07/2011 18:08
    Eu gosto de ver as coisas de uma maneira simples.
    Os bancos emprestam dinheiro que não tem, e enganam a população, logo isso está errado.

    Simples assim.
  • Helio  15/07/2011 20:07
    Excelente artigo. Eu sou simpático a reservas fracionárias em um sistema de free banking pois a alternativa seria um decreto governamental proibindo a prática, que por sinal não é mais que uma troca voluntária.

    No entanto, ficou parecendo para o leitor não atento que o Sidney concluiu que RFs não geram ciclos, mas na verdade ele próprio afirma que RFs geram ciclos SE não forem reflexo de um aumento por demanda por dinheiro. Ainda que eu não tenha chegado à conclusão sobre esse segundo caso, me parece que o que os bancos corriqueiramente fazem é criar moeda independente de alterações na demanda por dinheiro.

    Imaginando um caso de free banking, onde um banco é aberto com 100% de reservas (por definição), este teria grande incentivo a diminuir reservas e criar dinheiro, pois os ganhos esperados parecem ser maiores que o risco adicional de corrida de resgates. Pronto: estará detonado o processo de ciclos. No entanto, quando alcançar o equilíbrio do trade-off, me parece que novas criações de dinheiro só se darão por aumento de demanda por moeda (assim entendo, mas será mesmo?). Se for esse o caso, e se aumentos de dinheiro derivados de aumento por demanda por dinheiro realmente não detonarem ciclos, então o Sidney estará correto.

    Finalmente, a instabilidade do sistema de RFs pressupõe um risco de corridas bancárias que podem provocar (e provocam mesmo) abruptas quedas na quantidade de dinheiro do istema, em uma dimensão que me parece muito maior que uma mera mudança na demanda por dinheiro sugeriria. Passado o susto e sobrevivendo os bancos mais solventes, haveria um abrupto aumento na quantidade de dinheiro do sistema. Ora, o que seria isso senão ciclos?

    Aguardo os sábios comentários do Sidney!

  • Sidney  17/07/2011 16:35
    Hélio\r
    Obrigado pelos elogios\r
    Sobre seu comentário, você está certo quanto ao que eu disse. RF podem causar ciclos (emissões inflacionárias podem gerar ciclos), mas elas não são "inerentemente" instáveis (por isso eu quero dizer, não há algo na sua natureza que faça com que somente a sua existência ela sempre gerará ciclos). Eu escrevi em um trecho do texto:\r
    \r
    "A posição de que os bancos centrais são responsáveis pelos ciclos não implica que em um sistema de reservas fracionadas sem bancos centrais seja impossível ocorrer ciclos. Bastaria que os bancos desse sistema se engajassem em emissões não lastreadas por aumentos da demanda de moeda (emissões inflacionárias)." \r
    \r
    Sobre seu exemplo hipotético (dos bancos que eram 100% de reserva e se transformam em reserva fracionada), tenho dois "sábios" comentários. Primeiro, algo mais de ordem prática do que teórica, não é um grande problema nos dias atuais, dado que todos os bancos são de reserva fracionada. Um banco que operasse muito acima da "reserva ótima" ou do "equilíbrio de trade-off" como vc chama, seria um banco bem estranho pois não estaria maximizando lucro, estaria deixando dinheiro parado quando poderia lucrar com ele. Então, esses movimentos em direção a "reserva ótima" serão bem pequenos porque nós já estaríamos próximos dela. \r
    \r
    Segundo, esse fenômeno que vc descreve, me parece, pode ocorrer quando "dentro" da demanda por moeda se alterar as demandas relativas por inside Money e outside Money (ou seja, a demanda por moeda, que é demanda por inside + outside Money não se altera, mas a relação inside/outside muda). A fórmula do multiplicador monetário ontém essa proporção (que nos dias de hoje seria a proporção entre depósitos a vista e papel moeda). Um incremento da demanda por inside Money versus uma queda da demanda por outside Money gerará uma produção de inside Money pelo próprio banco de RF. O problema, nos dias de hoje, é que o "outside Money" não é de controle do Banco e sim do Banco Central, logo o Banco Central deveria enxugar a base monetária. Ele perceberia isso quando, de alguma forma, percebesse o multiplicador monetário se expandindo ou mesmo as expectativas de inflação aumentando. Num sistema de free banking, os "outsides Money" serão de bancos privados que buscarão controlar seu nível de preços e assim terão que também enxugar a base. Se for ouro ou moedas commodities (que não são "emitidos" e "destruídos"), uma solução imperfeita seria a transferência do ouro de funções monetárias para funções não monetárias (vaza ouro do setor monetário para setores não monetários, como o de jóias, por exemplo).\r
    \r
    Veja que o problema nesse caso do inside/outside Money, é a produção do segundo porque um aumento de demanda do primeiro foi saciado pelos bancos. Aí sobrou papel-moeda ou ouro, que não "somem" se os seus emissores não agirem (o ouro não some mesmo, ele teria que ser transferido para outros setores e a expectativa de inflação poderia fazer isso). Se ocorrerem essas compensações dos emissores de outside Money, não teremos ciclos, assim como quando o banco emite moeda apenas "lastreado" pela demanda dos consumidores.\r
  • Fernando Ulrich  17/07/2011 13:10
    Helio,\r
    \r
    A "alternativa seria um decreto governamental proibindo a prática, que por sinal não é mais que uma troca voluntária"? \r
    Mesmo em uma sociedade de leis privadas, a lei que coibisse fraude englobaria o sistema bancário e as RFs se enquadrariam neste delito. E um sistema de RF não é uma troca voluntária, é uma troca impossível, pois um depositante e um prestatário jamais poderão utilizar o mesmo bem simultaneamente. \r
    \r
    Sidney,\r
    \r
    RF não deve ser aceita como legal simplesmente por ser um "fenômeno do mercado". Fraude surgiu no mercado, assim como diversas outras práticas condenáveis. \r
    \r
    E o exemplo do Gmail não pode ser usado como analogia ao sistema de RF. Primeiro, os programadores do Google conseguem estimar com razoável segurança, devido aos comportamentos passados de seus usuários quanto de espaço se utiliza e até mesmo manter uma margem de segurança para caso haja alguns picos de usos durante o ano. A chamada regra dos grandes números. No entanto, sabemos que isso não se aplica ao caso de depositantes do sistema bancário, pois o próprio sistema de RF pode gerar ciclos, desconfiança e a eventual corrida bancária. Não se pode "estimar" o dia que isto ocorrerá e os bancos acabarão insolventes. A não ser que ocorra como nos últimos séculos em que os governos concederam privilégios para que estes seguissem operando mesmo não honrando seus compromissos.\r
    \r
    Existe algo similar no mundo virtual? Com a utilização de espaço de armazenamento de email? Prometer 2Gb de espaço geraria uma "corrida a maior utilização de espaço" causando um crash do sistema em questão de dias? É uma comparação sem sentido. Um depositante não consegue retirar o seu depósito em uma corrida bancária. Um usuário do Gmail não conseguiria utilizar mais espaço conforme prometido em um eventual crash do sistema. São problemas completamente distintos. O primeiro problema é de não honrar a custódia "perdendo-se o bem depositado" e o outro é um problema de não honrar um contrato de maior capacidade de custódia e não de ser incapaz de devolver o que ali já está "custodiado" (emails, arquivos, etc.).\r
  • Sidney  17/07/2011 16:46
    Ulrich\r
    \r
    Essa questão da fraude não é discutida no texto, se vc quiser ler um texto meu sobre esse tema, eis o link:\r
    \r
    depositode.blogspot.com/2011/03/mais-sobre-reserva-fracionada-questao.html\r
    \r
    Agora, as lei da fraude não vão englobar RF pq RF não é fraude. Quando eu digo que RF é um fenomeno de mercado é simplesmente para mostrar que, dentro de um sistema de mercado, onde ninguém rouba ninguém, há um incentivo para se fazer reserva fracionada, as pessoas ganham nesse tipo de acordo, é eficiente, logo vai surgir "naturalmente", assim como as pessoas produzem sorvete, banana ou carros. Para vc evitar isso, como o Hélio disse, terá que invadir direitos de propriedade, terá que negar a proprietárioso direito de fazerem um contrato com suas propriedades. Isso é intervenção do governo no mercado. \r
    \r
    E corrida bancária (nesse sentido generalizado para quebrar o sistema) é tão provavel quanto corrida ao espaço do google. P/ ter uma corrida bancaria generalizada, o BC do país tem que ter feito muita, mas muita bobagem antes. \r
    \r
    Sobre o paper, agradeço a indicação. Vou ler.
  • Rafael Hotz  17/07/2011 13:46
    O pessoal da teoria do equilíbrio monetário ainda não respondeu a questão dos efeitos das reservas fracionárias sobre os preços relativos na economia...

    Honestamente, acho a teoria do "monetary equilibrium" uma teoria macroeconômica (só fala sobre o místico nível geral de preços) e extremamente ingênua... É mais uma das milhares de teorias que pregam que a quantidade de moeda na economia importa e que existe uma determinada quantidade "ótima" para "rodar" as transações sem "distorções de preço". Nada que um Keynesiano não defenderia.
  • Sidney  17/07/2011 17:01
    Rafael,\r
    \r
    A maioria dos socialistas atuais defendem liberação da maconha, nem por isso libertarians são socialistas.... \r
    \r
    Novos clássicos defendem RF e não tem absolutamente nada de keynesianos. A questão sobre se RF tem efeitos estabilizadores (porque mantém um dado nível de preços, e variações desse nível de preços implicam em complicações para a economia) depende da visão que se tem sobre "rigidez de preço". Keynesianos, monetaristas e eu diria que até austriacos hayekianos compartilham dessa visão de que há uma certa rigidez de preço e podem defender RF com base nesse aspecto (como faz, inclusive, o Selgin e White, embora o primeiro não seja um austríaco hayekiano). Novos clássicos defendem com base na eficiência do sistema e não por qualquer propriedade anti-ciclica baseada em rigidez.\r
  • Rafael Hotz  19/07/2011 21:15
    É aí que tá Sidnei, nível de preços é um grande nada teórico. Não há nada a ser estabilizado. O que importa são preços relativos, sempre. São eles que guiam a estrutura produtiva.

    E quanto a "rigidez de preços", poxa, ouvir isso de um Austríaco é complicado. Preços se formam no mercado seguindo expectativas e valorações. Se eu acho que os preços das coisas que eu desejo comprar vaão cair eu simplesmente aumento minha demanda por moeda. E se eu acho que eles vão subir eu reduzo minha demanda. Não há mistério nenhum nisso. Também não há nenhum nível "ótimo". Eu reduzo ou aumento a demanda por moeda tendo em vista uma certa cesta de bens, presentes ou futuros. Outra pessoa fará o mesmo tendo outra cesta de bens em vista. São os preços relativos entre os bens na cesta e fora dela (e dentro dos grupos) que importam. Reservas fracionárias afetam esses preços relativos de uma forma economicamente descoordenadora.

    Por fim, num processo de aumento geral na demanda por moeda, os preços de qualquer bem perecível vão cair rapidamente. Rigidez de preços é masturbação teórica sem sentido - mesmo porque preços absolutos não importam.
  • Sidney  20/07/2011 21:57
    Rafael,\r
    \r
    Vc não entendeu....\r
    \r
    se "nível de preços" é um nada teórico ou não, não vem ao caso. Eu não dei opinião sobre se nivel de preços é X, Z ou Y. Só falei que novos clássicos, alguns austríacos (como o próprio Selgin, hayekianos) e keynesianos falam em termos de nível de preços e que se reserva fracionada é anti-ciclica ou não depende da visão de cada um sobre rigidez de preço em consideração a esse nivel de preços (e que não é todo mundo keynesiano só pq falam em nível de preços).\r
    \r
    E eu tbm não estou dizendo que EU considero que os preços são rigidos ou qq outra coisa nesse sentido, não sei de onde vc tirou isso (disse que para keynesianos e para o próprio Selgin e White, monetaristas etc.. os preços tem sim uma certa rigidez).... leia de novo o que escrevi.\r
  • Fernando Ulrich  17/07/2011 14:04
    Por sinal Sidney, o debate parece ter sido revigorado por Bagus e Howden. Sugiro a leitura da recente treplica deles a Selgin, caso nao o tenha feito.

    libertarianpapers.org/2011/18-bagus-howden-unanswered-quibbles-with-fractional-reserve-free-banking/
  • Carlos  20/07/2011 19:08
    Olá Sidney,\r
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    Muito interessante seu texto e gostaria de contribuir com a discussão.\r
    Acabei de ler também o seu outro texto compleentar no blog e quero lhe fazer uma pergunta.\r
    Dado que o banco afirma que realizará a conversão de 1 para 1 do saldo em conta corrente para a moeda primária, mas não determina como fará isso, minha dúvida é:\r
    Como você (como correntista) assinou um contrato onde o banco lhe afirmou que realizaria a conversão citada acima, caso, numa dada situação, o banco não fosse capaz de horar tal compromisso ele estaria descumprindo o contrato correto? Portanto, ele teria cometido uma fraude.\r
    \r
    Digo isso pois em situações de corrida bancária (mesmo que não generalizada) o banco poderá não ser capaz de honrar todos seus compromissos e, portanto, esse é ponto que discordo de você.\r
    Por um lado, quando eu deposito meu dinheiro, ele poderá fazer o que quiser com ele, contudo, quando eu quiser sacá-lo ele precisará prover tal liquidez ou estará cometendo uma fraude, concorda?\r
    \r
    Aguardo um retorno para podermos evoluir tal discussão.\r
    \r
    Abs
  • Sidney  20/07/2011 22:17
    Carlos,\r
    \r
    Depende do contrato, mas aceitando um "contrato padrão" (troca, imediata, na hora que quiser na base do 1 p/ 1), se o Banco não for capaz de cumprir o prometido qdo for solicitado pelo cliente (atenção nessa condição) é uma quebra de contrato. É identico a qq contrato q vc faz e uma das partes não cumpre o que prometeu. Nesse particular RF não tem nada de diferente de outras transações (de compra de bananas a derivativos)\r
    \r
    a titulo de curiosidade, alguns contratos podem claramente dividir o risco entre contratado e contratante (tipo, eu sou obrigado apenas a te devolver 10% em situações especiais, raras etc..). isso não teria nada de "ilegal". Outros contratos poderiam dar um respiro ao banco (o banco se reserva, em situações emergenciais, a estipular um prazo de X horas ou Y dias para cumprir o seu desejo de saque). Atualmente, esse tipo de respiro (na verdade mais por questões de segurança) existe para gdes quantias (se vc for ao banco e quiser sacar quantias consideraveis, vai ter que avisa-lo com antecedencia)
  • Carlos  21/07/2011 09:08
    Sydney,\r
    \r
    Ok, dado um contrato padrão como citado (base 1 p/ 1), portanto caso o cliente solicitar a conversão de seu saldo em conta corrente para moeda primária e o banco não for capaz de realizar - pensemos em uma situação de corrida bancária mesmo - o banco estará descumprindo seu contrato.\r
    \r
    Portanto, dado que a política que o banco adotou (RF) foi a responsável pela alavancagem do mesmo sobre as reservas primárias (não estou dizendo que isso é ilegal até o momento), podemos deduzir que a mesma é também responsável pelo não cumprimento do contrato.\r
    \r
    Concluímos que o banco não será capaz de cumprir com todas as promessas, dado que pratica a RF e, portanto, grande parte dos correntistas possuem contratos que nunca serão cumpridos no caso da corrida.\r
    \r
    Acredito que é nesse ponto que discordo do RF. Ou seja, para ser justo o banco deveria oferecer um contrato onde ele não se compromete em converter esse valor integralmente em caso de indisponibilidade qualquer. \r
    \r
    A instituição de um Banco Central é o motivo o qual foi necessário instalar um intervencionismo estatal no mercado para que o mesmo fosse capaz de se sustentar na minha opinião. Pois, na existência do banco central os bancos podem praticar o RF e mesmo assim garantir a conversão dos saldo em conta corrente para moeda primária sempre que tal situação for demandada. \r
    \r
    Por gentileza, gostaria de ler seus contrapontos.\r
    \r
    Abs
  • Sidney  21/07/2011 10:57
    Carlos,\r
    \r
    Se um vendedor de bananas promete te entregar segunda-feira 6 duzias, chega a segunda-feira e ele não te entrega, vc será contra vender bananas? Ou se ele culpar a seca pelo não "cultivo" das bananas (e pelo calote) vc proibirá a plantação de bananas até todos instalarem um sistema de "chuva artificial"? Ou ainda, ele vendeu as bananas antes de plantar e depois deu errado (há risco em certas coisas). Vc vai proibir tbm a venda antes? Só pode vender bananas depois que comprovar a efetiva posse e estocagem das mesmas? Enfim, um contrato pode ser cumprido ou não, se ele não for, quem não cumpriu sofrerá alguma "pena".\r
    \r
    E, novamente, o banco pode não ter como arcar com todas as conversões se TODOS (ou uma porcentagem muito gde) querer sacar ao mesmo tempo (a tal corrida bancária). Mas as pessoas não se comportam assim, elas não fazem corridas bancárias toda hora (em alguns países, na maioria dos países com politicas monetarias e fiscais mais "sólidas" nem em décadas acontece isso). Isso sem contar que corrida bancaria contra UM banco, não gera maiores problemas (os próprios bancos tem um sistema de "ajuda" entre elas em relação a reservas, o chamado mercado interbancario). P/ gerar problemas dependeria de qual banco está sofrendo a corrida, do tamanho dele, da surpresa que foi a corrida (se era mais ou menos esperada) etc..
  • Carlos  21/07/2011 16:46
    Sidney,\r
    \r
    Ok com relação ao argumento do vendedor de banadas. Concordo que o cliente está ciente do risco da atividade bancária e aqueles que não o possuem deveriam tê-lo.\r
    Contudo, se o vendedor de bananas se comprometeu através do contrato e não for capaz de cumprir, por qualquer dos motivos, o mesmo, diante da situação, deverá declarar falência e ser excluído do mercado, pois suas obrigações são maiores que suas disponibilidades. \r
    \r
    Portanto, no aspecto bancário, o Banco Central, sendo o prestamista de última instância, intervém e salva determinadas instituições.\r
    Isso não ocorre no mercado das bananas, por exemplo e, adicionalmente, sendo o banco central uma entidade pública, o ônus do salvamento recai sobre a sociedade através de impostos ou inflação.\r
    \r
    Assim, o banco, com a implícita garantia de que será salvo, expande acima do limite natural de mercado a sua alavancagem e por isso sou favorável ao regime de RF, contudo, sem a existência de um banco central. Tal sistema limitaria a expansão dos ativos dos bancos, uma vez que os outros concorrentes, diante de uma expansão elevada e insustentável pelas reservas, poderiam exigir a conversão das posições e quebrar o mesmo.\r
    \r
    Abs,\r
  • Sidney  21/07/2011 21:51
    Sim, mas aí é um problema de intervenção do governo no mercado e não do sistema de reservas fracionadas. É preciso separar as duas coisas
  • Edik  21/07/2011 15:58
    Sidney,

    Se esse vendedor de bananas administrar um armazém de bananas e eu contratar o serviço dele de armazenagem, e ele não tiver a quantidade de bananas que prometeu a mim e aos seus outros clientes, vou considera-lo um fraudador e ser contra ele vender bananas. Como as bananas que ele vende são todas iguais, eu não me importo de ele não separar exatamente aquelas que são minhas, logo não me incomodo de ele guardar todo o seu estoque junto, sem separação por cliente. Mas ele tem que tem TODAS as bananas que promete! Se, por outro lado, ele fechou comigo um contrato de fornecimento semanal e por algum motivo não consegue entregar, eu posso ser prejudicado, até eventualmente processa-lo por perdas e danos, mas ele não cometeu fraude nesse caso.
  • Sidney  21/07/2011 22:00
    Edik

    Vc esta pressupondo que o seu contrato com o banco ao abrir uma cc é meramente de "estocar" seu dinheiro, deixar ele paradinho no cofre quando simplesmente não é. Mas, enfim, independente de vc caracterizar como fraude ou " perdas e danos" o NÃO CUMPRIMENTO do prometido (que é a conversao na hora que vc quiser), gera uma reclamação legitima do outro lado (que não teve o que foi prometido).
  • Edik  22/07/2011 12:33
    Sidney,



    Permita-me pedir sua opinião sobre o seguinte fato:
    Imagine que a corretora de valores com a qual você realiza seus investimentos em ações, percebe que uma certa proporção de ações mais líquidas (por exemplo, Petrobras e Vale) sempre se mantêm na sua custódia de clientes. Para incrementar seu lucro, ela decide vender uma parte dessas ações para emprestar para outros clientes comprarem essas mesmas ações. No final, seus clientes terão direito a uma quantidade maior de ações do que aquela que a corretora possui em sua custódia. Você acredita que a corretora agiu de maneira ilegal? Se todas as corretoras tivessem essa prática, não haveria consequência danosas para o mercado de ações? Se você fosse um certificador privado das corretoras, não recomendaria que essa prática fosse proibida?
  • Sidney  22/07/2011 23:19
    Edik,\r
    \r
    Se a corretora agiu de forma ilegal ou não depende o tipo de contrato que ela fez com seus clientes. Teoricamente ela, poderia, por exemplo, emitir certificados ou "vale ações" e caso conquistasse a confiança dos seus clientes (resgatando de acordo com o prometido), fazer o procedimento que vc afirma com alguma lucratividade (como os bancos no caso de RF). Mas, novamente, isso dependeria do tipo de contrato com os clientes. Se eu fosse um "certificador privado", pouco importa se eu recomendaria ou não a corretora (mas não, eu não recomendaria a ilegalidade. As partes podem fechar o contrato que acharem melhor com suas propriedades).\r
    \r
    E não acho que traria consequências "danosas" para o mercado. Se vc prestar atenção algo parecido já acontece nos mercados de ações mesmo. Opções, por exemplo, são uma espécie de promessas em cima de outro ativo que, pode ser ações (eu compro uma opção e posso exerce-la ou não e o emissor da opção tem que ser capaz de cumprir com o acordo). Sendo mais especifico, eu compro uma opção de compra de ações da empresa Y com preço de exercicio (strike) de R$X a ser exercida daqui 10 dias. Qdo passar os 10 dias, suponha que eu queira exercer, ou seja, quero minhas ações da empresa Y por R$X. O emissor dessas opções não precisará necessariamente manter essas ações da empresa Y na sua carteira o tempo inteiro, ele pode vender a descoberto (vender as opções sem ter a ação objeto da opção). Algumas bolsas, por questão de risco, proibem isso. É uma opção da bolsa (que é uma entidade privada). Agora, vc acha que deve ser ilegal vender opções a descoberto? De forma nenhuma, o ato de venda não viola a propriedade de ninguém. É mais arriscado? É, mas isso vai das partes aceitar ou não. Ainda p/ completar, em tese, tem opções "americanas", que significam que o direito de exercer essa opção é continuo (pode ser feito a qualquer momento), sem uma data fixada. Seria proibido vender isso a descoberto? Obviamente não. \r
    \r
    O fato de algo ser arriscado, de algo poder gerar perdas, não significa que deve ser proibido (nem é o caso de reservas fracionadas, que é bastante segura e sem risco consideravel). Se as pessoas desejam fazer um acordo arriscado, é um direito delas independentemente se eu ou você fariamos. E se isso afeta preços que você se importa, tbm não é direito seu proibir o negócio por isso. Você não tem propriedade sobre preços. \r
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  • Armando Aguiar  25/08/2015 01:15
    Sinto muito, mas este texto não fez sentido.

    Ele fala de dois modos de operar RF, uma inflacionário e outra não.
    Mas o modo não inflacionário me parece ser apenas uma poupança que não tem juros. O cara deixa o dinheiro parado, e aceita o banco utiliza-lo. No segundo modo, que é o modo operandis atual, o cara não aceita, usa, e mesmo assim o banco empresta.

    Melhor resposta até agora foi dada pelo Professor Huerta.
    E os romanos também sabiam que isso era crime.
  • Henrique  24/11/2015 19:17
    Desculpem eu reviver este artigo do tempo do EPA, mas tenho alguns questionamentos.

    Estou lendo pelo celular, não li todos os comentários, então peço desculpas se estou sendo repetitivo.

    A maior questão que veio à minha cabeça é a seguinte:

    Sendo a moeda fundamentalmente um meio de troca, por que eu aumentaria minha demanda por ela se meu intuito não fosse gastá-la (investir ou consumir)?

    Fica a pergunta porque o cenário da "expansão do crédito não inflacionária" me parece pouco provável.

    Do ponto de vista funcional, esse cenário é idêntico ao funcionamento do sistema sem reservas fracionárias: houve abstenção do consumo em favor da poupança. E, como há de ser em condições normais, poupança=investimento.

    Ou seja, eu adquiro um título do banco XPTO que possui liquidez diária. Posso usar esse dinheiro a qualquer momento, mas, por alguma razão, mantenho os encaixes voluntariamente.

    O grande problema aqui é a contabilidade: existe um descompasso entre a maturação dos ativos e dos passivos daquele banco. Embora possua passivos exigíveis de curtíssimo prazo, os ativos (empréstimos) são de prazo maior.

    Se eu, por alguma razão, resolver sacar o dinheiro, não existe mais o lastro para o empréstimo. Se isso ocorrer de maneira sistêmica, como no caso de uma eventual catástrofe natural ou ataque terrorista, uma corrida bancária faz com que esse sistema imoloda.

    Ou seja, não existe uma forma de garantir essa expansão "não inflacionária" do crédito por:
    1. Eu só aumento a minha demanda por moeda se precisar gastá-la.
    2. Mesmo que eu deixe o dinheiro parado no banco, em qualquer "emergência" eu não hesitarei em utilizá-lo. Isso feito em ampla escala transforma a expansão do crédito atual em inflacionária.

    Logo, esse sistema proposto é inerentemente instável por conta das reservas fracionárias
  • Emerson Luis  28/03/2016 11:58

    De qualquer forma, não se pode dizer que o sistema de RF é inofensivo.

    O sistema de RF talvez fosse aceitável se feito por bancos individualmente, com a ciência de seus clientes (que poderiam optar não correr o risco e escolher outro banco) e se não fosse uma prática institucionalizada e assegurada pelo Banco Central.

    * * *


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