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A redescoberta do capitalismo

No fim do mês passado vimos, em São Paulo, a marcha da maconha reprimida pelas autoridades.  Por mais que o tema das drogas seja relevante, não é dele que quero falar, e sim da curiosa aliança que ocorreu nessa manifestação, entre esquerdistas e liberais; ou melhor, do que ela pode nos ensinar. Apesar das imensas divergências políticas, econômicas, morais, talvez até metafísicas, ambos os lados concordavam que um sujeito tem o direito de fazer uso pessoal de uma substância sem que o estado se intrometa.  Em outras palavras, e talvez isso choque alguns manifestantes, a marcha da maconha era uma marcha pela propriedade privada.

Passemos para o campus da USP, de onde, suponho, sai muito do suporte à descriminalização das drogas.  Um belo dia alguns meses atrás, depois de um debate na faculdade de História, um estudante veio me vender um jornalzinho socialista por ele editado.  Embora recusasse o produto, lancei a provocação amistosa: "O que você está fazendo é livre mercado! Imagine um mundo em que fosse proibido criar o próprio jornal e vendê-lo"; ao que ele respondeu que concordava, e que na URSS isso era permitido (antes de Stalin).  Não entro no mérito histórico; basta-me que até um aguerrido socialista filo-soviético defenda o princípio básico do livre mercado no nível micro, da produção e venda.  Por que será, então, que o mesmo princípio seja rejeitado quando se pensa no macro?

O princípio que está em jogo é a transação voluntária, mutuamente benéfica; pessoas se ajudando de forma que todas vivam melhor.  Não é preciso ser liberal, libertário ou economista austríaco para se ver o bem intrínseco disso.  Infelizmente, por algum motivo que desconheço, o capitalismo se desvinculou, nas mentes das pessoas, desse princípio fundamental.  Defende-se o capitalismo porque ele é mais eficiente, porque aumenta o PIB, porque faz as ações subirem, porque gera mais impostos, porque o homem é egoísta mesmo e nada podemos fazer, etc., indo do entediante ao detestável sem tocar no essencial.

Quando se quer ver como o capitalismo funciona na prática, as primeiras imagens que vêem à mente são o mundo empresarial e o mercado financeiro.  Considero esta uma das piores crias intelectuais do marxismo: a idéia de que o livre mercado seria do interesse de grandes empresários e banqueiros, enquanto que proletários explorados, desempregados e meninos órfãos são naturalmente socialistas.  O mesmo termo, "capitalista", designa tanto o defensor do capitalismo quanto o detentor de capital, e os dois são facilmente confundidos na imaginação popular.

O fato, contudo, é que empresários e banqueiros costumam defender o intervencionismo estatal.  Uma evidência: a partir do ano que vem sacolas plásticas serão proibidas em São Paulo.  Os grandes supermercados já estão se adiantando à nova lei e achando ótimo contribuir para a sustentabilidade.  Já os mercadinhos de bairro, para os quais o gasto a mais com sacolas de papel será sentido (ou que terão que pedir a seus consumidores que tragam sacolas de pano, tornando-se ainda menos práticos do que as grandes redes), a vida ficará ainda mais difícil.  No balanço geral, as regulamentações impostas pelo governo não são nocivas às grandes empresas, pois as protege da concorrência das pequenas, impedidas de existir.  Você acha que as filiais das grandes lanchonetes reclamaram da proibição da venda de alimentos em automóveis?  Enfim, no mundo do grande capital o capitalismo está moribundo.  O mercado formal é espremido por regulamentações e sugado pelos impostos.  Para encontrar o mercado saudável precisamos procurar em lugares improváveis: na economia informal e no terceiro setor.

O capitalismo sobrevive nas camadas mais baixas, nas favelas, nas transações pequenas o bastante para fugir ao radar do estado, e as quais não valeria a pena controlar.  Quando o estado aparece, é na forma de fiscais facilmente subornáveis, que viram parte do ecossistema.  Camelôs, cozinheiras, bares, cabeleireiros, lojas de roupa, escolas privadas, cinemas caseiros, lan houses — tudo operando informalmente.

Stewart Brand não é um economista libertário.  Suas causas são o ambientalismo e o fim da pobreza.  Sua fala no TED dá uma boa idéia do que é a vida nas favelas ao redor do mundo: não são campos de refugiados onde famintos aguardam de mãos estendidas (a bem da verdade, nem mesmo os campos de refugiados são assim); são gente vivendo, produzindo, construindo e trocando. "These are not people crushed by poverty; these are people busy getting out of poverty" (~ 4:30 min.)  Não se trata de pessoas esmagadas pela pobreza; e sim de pessoas ocupadas em sair da pobreza, como prova a economia vibrante das favelas.

Não é por isso que deixaremos de querer ajudar os mais necessitados.  Ajudar os pobres a enriquecer é um dos grandes méritos do capitalismo; e é por isso que os ensinamentos do mercado estão sendo emulados até pelo terceiro setor.  O paradigma do terceiro setor era, e em muitos casos ainda é, o assistencialismo estatal.  Não que as ONGs e demais iniciativas filantrópicas tradicionais sejam financiadas pelo estado (embora, infelizmente, muitas o sejam); é que a visão delas é a dos pobres como seres inertes, dependentes de caridade para sobreviver.  É essa a visão que todo político alimenta e da qual dependem sua influência e poder.  Felizmente, uma nova concepção do papel do terceiro setor vem substituindo a antiga: saem as filantropias e entra o negócio social.

O negócio social é uma empresa que gera benefícios sociais em sua operação.  Como qualquer empresa, ela tem que lucrar para sobreviver.  O criador do conceito, Muhammad Yunus, defende que o negócio social não emita lucro aos investidores; ou seja, que todo ele seja reinvestido.  Deixemos esse purismo anticapitalista de lado, mesmo porque na prática a imensa maioria dos empreendedores de negócios sociais emite lucros para si (não dá para se dedicar full-time a um empreendimento não-remunerativo).

O grande insight do negócio social, e o que o torna tão promissor, é a percepção clara de que a transação mutuamente benéfica é a resposta para a pobreza; e que todo homem, mesmo o mais pobre, tem algo de bom a oferecer.  É a essência do capitalismo sem que ninguém saiba (ainda bem!) que se trata de capitalismo.  Os chamados negócios sociais são, basicamente, negócios convencionais que conseguem manifestar aquilo que os faz lucrar: prestar um serviço valioso à comunidade.  E ao fazer isso eles ganham a legitimidade moral para fazer coisas que, nos negócios tradicionais, seriam vistas como exploração ou ganância e rapidamente regulamentadas e taxadas, destruindo a espontaneidade e a variedade que tornam o setor tão atrativo.  Vou dar alguns exemplos do setor bancário.

"Tempo para os outros. Tempo para si."  Uma formulação eloquente do princípio básico do mercado.  Esse slogan é do Banco de Tempo, um banco português em que as pessoas não depositam dinheiro, mas horas de serviço. Uma costureira remenda roupas de sua vizinha por duas horas.  Ela ganha, então, duas horas de serviços a serem prestados por outros membros do banco; digamos, um mecânico que consertará seu carro.  É fácil perceber que horas de trabalho são um meio de troca um tanto imperfeito (quem disse que o valor de algo é medido pelo tempo gasto?).  Mas o mero fato de operar com uma moeda alternativa faz com que seja visto como um banco solidário e benevolente, ao contrário dos bancos maus e egoístas do capitalismo selvagem.  Escapa, numa tacada só, da condenação social e do controle do estado.  Os participantes sentem-se realizados de ajudar os outras e serem, por sua vez, ajudados de volta.  Consideram talvez que o Banco do Tempo seja uma alternativa ao capitalismo, quando na verdade ele é o capitalismo em ação.

Podemos ir mais longe.  Todos conhecem a idéia de microcrédito (do mesmo Muhammad Yunus que pensou o negócio social).  É como o crédito convencional, mas com uma aura de serviço social por emprestar pequenos valores a empreendedores muito pobres.  Observe que, ao contrário da esmola, o empréstimo (com juros) trata o receptor não como um pobre coitado, mas como alguém capaz de fazer algo de sua vida se lhe for dada a oportunidade.  Há, em operação, redes de microcrédito que unem pessoas ao redor do mundo que emprestam pequenas quantias e depois recebem seu dinheiro de volta com juros.  O terceiro setor aderiu à idéia de que é legítimo e justo que quem deu também receba.  O sistema bancário tradicional, e o mercado formal como um todo, perderam a idéia de que o lucro possa ser legitimado moralmente.  É hora de recuperá-la.

Remova da defesa do capitalismo o verniz de egoísmo, a fixação com o mercado financeiro, a dicotomia governo x grandes empresas (que é em parte verdadeira, mas esconde a igualmente verdadeira simbiose entre os dois), e o resultado será algo que não é, ou não deveria ser, exclusividade de tecnocratas sem coração.

Numa reportagem recente da The Economist ("Market of ideas", edição de 09 de abril de 2011), mostra-se que a popularidade do livre mercado tem caído.  O Brasil aparece perto do topo na defesa do livre mercado, com 68% (em primeiro está a Alemanha com 69%).  Os EUA, outrora os primeiros, caíram para 59%; entre os americanos pobres, o apoio foi de 76% para 44%.  Doug Miller, presidente da empresa que fez a pesquisa, conclui que as empresas americanas estão perdendo seu "contrato social" com as famílias.  Sua frase diz tudo: as empresas, coletivamente, são vistas como uma entidade separada das famílias. 

Capitalismo são as grandes empresas que trazem serviços e oferecem emprego para nós, num processo nefasto de exploração e competição na lei da selva, que deveria ao menos gerar bons resultados.  Enquanto essa imagem falsa durar, o capitalismo só ficará mais impopular.  É preciso resgatar o fundamental: capitalismo é garantir a possibilidade de que produzamos e trabalhemos, livremente, uns para os outros.  Poucos são maus o suficiente para ser contra um sistema assim; muitos, no entanto, não o vêem nas defesas convencionais que se fazem do livre mercado.  Cabe a nós mudar essa percepção.


autor

Joel Pinheiro da Fonseca
é mestre em filosofia e escreve no site spotniks.com.

  • Angelo Noel  09/06/2011 09:57
    Muito bom artigo, Joel.
    Parabéns!
    Aprendi boas lições de como parar de falar da imoralidade do estado e fazer propagandas sobre o livre mercado.

    Abraço a todos.
  • mcmoraes  09/06/2011 11:08
    Belo artigo, sr. Fonseca. Muito obrigado.
  • Cerqueira  09/06/2011 11:30
    Ora, claro que todo mundo pensa nas grandes empresas, qual o empregado que não quer ser patrão? Ou a pequena empresa que não quer ser média, ou a média que não quer ser grande?
  • Guterres  09/06/2011 11:59
    Simplesmente excelente! Pena que é pequeno.
  • Erick Skrabe  09/06/2011 12:18
    Excelente texto, Joel !

    Boa sacada essa comparação.
  • Augusto  09/06/2011 12:25
    "Numa reportagem recente da The Economist ("Market of ideas", edição de 09 de abril de 2011), mostra-se que a popularidade do livre mercado tem caído. O Brasil aparece perto do topo na defesa do livre mercado, com 68% (em primeiro está a Alemanha com 69%)."\r
    \r
    \r
    Os brasileiros são os que mais defendem o livre mercado??? Perae, tem algo de errado com essa pesquisa! So pode!\r
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    No mais, um outro texto fantástico sobre a economia das favelas é o livrinho do Hernando de Soto, "O mistério do capital". Esse livro dá uma boa descrição do processo de ocupação territorial dos EUA, pelo chamado "homesteading", e narra a dificuldade das pessoas em outros países para que seus direitos sobre a terra e benfeitorias sejam reconhecidos.\r
    \r
    Mas não há nada de incrível nisso, basta passar pela linha vermelha e olhar as favelas do alto. Tem sempre um puxadinho novo, ou um telhado sendo instalado. As pessoas fazem o possível para melhorar.\r
    \r
    Se não fosse a ilegalidade das drogas, e se o direito de propriedade sobre as terras ocupadas fosse reconhecido, a maioria das favelas já teria se transformado em bairros.
  • Leandro  09/06/2011 12:35
    O interessante dessa reportagem da The Economist, Augusto, é que entre os entrevistados que responderam "strongly agree" (azul escuro no gráfico) à pergunta sobre se o livre mercado é o melhor sistema para o futuro do mundo, o Brasil é disparado o primeiro, com mais de 40% dizendo que concorda fortemente com a afirmação. Os americanos vêm em segundo.

    É, no mínimo, interessante.
  • Marcio Vinhaes  09/06/2011 13:40
    Há a possibilidade dos entrevistados não saberem do que se trata livre mercado e tenham respondido mesmo assim. Talvez gostaram da palavra "livre" no termo.
  • Augusto  09/06/2011 14:01
    Pra mim, isso é pesquisa mal-feita mesmo. Ou as perguntas não foram corretamente formuladas, ou as pessoas não sabem o que a expressão "livre mercado" quer dizer (talvez tenham até confundido com a empresa Mercado Livre...), ou então houve um problema de amostragem e só entrevistaram partidários do Liber.\r
    \r
    Por outro lado, se aceitarmos os resultados da pesquisa, temos a demonstração clara de como o sistema democrático federativo vai de encontro aos anseios da população.\r
    \r
    Ou então, as pessoas acham que o mercado deve ser livre apenas para os consumidores, mas os produtores e vendedores devem ser restringidos, regulamentados, fiscalizados, etc., pelo governo.\r
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    ---\r
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    Pegando um exemplo específico, outro dia eu estava tendo uma discussão sobre contratos na área de telefonia celular. Meu interlocutor reclamava que as empresas abusavam, forneciam serviços de qualidade inferior ao estabelecido no contrato, ou os contratos não atendiam as necessidades das pessoas.\r
    \r
    Aí eu disse: no caso do serviço contratado não estar sendo prestado, você tem todo o direito de processar a empresa, afinal o contrato não está sendo cumprido. Quanto ao contrato não atender as necessidades das pessoas, é simples: não assine o contrato. Você não é obrigado por ninguém a ter um telefone celular. Se você assina o contrato, é porque você quer.\r
    \r
    Então ele disse, "mas veja o caso dos médicos. é absolutamente necessário que eles tenham celulares para trabalhar, mas os contratos não atendem a necessidade deles, porque tem problema de compatibilidade de linha entre diferentes operadoras, limitações de uso, etc."\r
    \r
    Minha resposta: a profissão médica existe há milhares de anos, antes da invenção dos celulares. Dizer que são absolutamente necessários, é um engano. Segundo, se os médicos acham que tem necessidades especiais que não são atendidas pelo contrato padrão, ora, os médicos formam uma das classes profissionais mais organizadas do país, porque não usam essa organização para obter um contrato específico junto às operadoras?\r
    \r
    Mas depois de toda a discussão, meu interlocutor continuava achando que o melhor seria se o governo forçasse as empresas a agir de outra forma...
  • Joel Pinheiro  09/06/2011 15:47
    É bem possível que tenha havido algum problema na pesquisa, Augusto; eu mesmo fiquei muito surpreso com o resultado. Por outro lado, quando converso com pessoas sobre assuntos ligados a impostos, burocracia, regulamentações, sempre noto uma insatisfação e uma raiva muito grandes; tanto contra as grandes empresas, como você menciona, quanto contra o governo que mete o bedelho em tudo e cobra impostos de tudo. Então, quem sabe a frustração de ter que viver na informalidade, de ser barrado pela burocracia, de ter que contratar despachante, esteja convertendo os brasileiros à liberdade...

    Agora, não duvido que os americanos estejam realmente mais contrários ao livre mercado depois da crise. O que eles não sabem é que o causou a crise, e a situação insustentável que eles estavam vivendo antes, não foi o mercado, mas o contrário dele.
  • Cerqueira  09/06/2011 17:24
    'Segundo, se os médicos acham que tem necessidades especiais que não são atendidas pelo contrato padrão, ora, os médicos formam uma das classes profissionais mais organizadas do país, porque não usam essa organização para obter um contrato específico junto às operadoras? '

    Ou seja,se um problema pode ser resolvido sem o governo, essa sempre deve ser a opção escolhida?
    Eu fico pensando nos negros americanos no sul racista no começo do séc passado, um dono de bar botava a placa 'negro não entra', daí qual a opção deles? Esquecer o governo, botar o rabo entre as pernas e voltar pra áfrica?
    obs: não venham com essa história de que o mercado ia fazer esses donos de bar falirem porque esse era um tempo que a maioria das pessoas era racista também.
  • Leandro  09/06/2011 17:46
    Prezado Cerqueira, como você deve saber, a segregação racial dos EUA era lei governamental.

    Ou seja, se os negros seguissem sua sugestão (indo ao governo reclamar), eles correriam o risco de serem espancados in loco pelos burocratas.

    Abraços.
  • Fernando Chiocca  09/06/2011 17:48
    Como assim Cerqueria? Que problema você está falando?

    Se o dono de um bar não quer servir negros, não exite problema. O negro simplesmente vai para outro bar. Não houve nenhuma violação de propriedade. Nenhuma agressão ocorreu. Ninguém ficou em pior situação.

    Se o governo obrigar o dono de um bar a servir quem ele não quer através da violência, aí sim estará criado um problema. Uma pessoa estará sendo forçada a agir contrario ao que ela agiria livremente. Está sendo obrigada a usar sua propriedade de uma maneira que ela não quer, dimunuindo assim sua utilidade.

    Pelo que entendi você é favorável a esta agressão criminosa, ou seja, a criação de um problema social.. é isso mesmo?
  • Joel Pinheiro  09/06/2011 17:51
    Cerqueira, um negro poderia também fazer um bar em que branco não entrava. Na prática era assim, branco não ia em vizinhança de negro e vice-versa. Aliás, embora isso seja hoje proibido, na prática ainda há resíduos disso; ou seja, há lugares em que um branco não se sente nada acolhido ao entrar, e vice-versa.

    Se um estabelecimento for idiota e preconceituoso o bastante para não querer me servir, bem, o azar é dele. E se duas populações não quiserem se integrar, por que obrigá-las a fazê-lo à força?
  • Cerqueira  09/06/2011 18:05
    'Se o dono de um bar não quer servir negros, não exite problema.'
    Eu acho bizarro alguém pensar assim.

    ' E se duas populações não quiserem se integrar, por que obrigá-las a fazê-lo à força?'
    Não seria integrar mas dar condições mínimas, uma dessas populações nem tem muita opção, eles não tem as mesmas condições e oportunidades que a outra justamente por terem sido tirados de sua terra, de suas propriedades,aí sim, à força

  • Joel Pinheiro  09/06/2011 18:19
    A escravidão foi um crime enorme e ninguém duvida disso.

    Agora, finda a escravidão, será que a população descendente dos escravos deveria ter proteções legais? Eu acho que isso seria ruim para essa própria população. Vide o caso dos índios americanos, com seus cassinos, e a situação deplorável em que vivem.

    Você cria uma dicotomia falsa ao concluir que, se um negro for barrado num bar, então só lhe resta voltar pra África. Ora, barrar um indivíduo de um estabelecimento é diferente de expulsá-lo de sua própria casa. A segregação racial era algo ruim, eu concordo com você; e na medida em que ela era instituída pela lei, deveria ser abolida o mais rápido possível. Mas o meio para resolver esse problema não é a coerção legal; tanto que ele não a resolveu, e hoje o desemprego entre os jovens negros é mais alto do que era no anos 50.

    E não me venha dizer que sou racista! Há autores negros que dizem exatamente o que estou te falando agora (os dois mais conhecidos são o Walter Williams e o Thomas Sowell).
  • rafael  10/06/2011 02:11
    > 'Se o dono de um bar não quer servir negros, não exite problema.'
    > Eu acho bizarro alguém pensar assim.

    e eu acho bizarro alguem pensar que tem o direito de obrigar os outros a realizarem um troca contra suas vontades, jogando-o na prisão caso contrário. Por mais errado que vc considere uma pessoa se recusar a atender um negro, vc não tem o direito de força-lo a faze-lo, se um bem é seu, vc vende a quem quiser, pq vc acha que tem o direito de forçar os outros?
  • Fernando Chiocca  10/06/2011 11:54
    Eu acho bizarro alguém pensar assim.

    Não cara. Bizarro é pensar que pode dar porrada em alguém por causa da maneira que ele pensa ou usa seu corpo ou propriedade. VOCÊ é o bizarro.
  • augusto  09/06/2011 18:05
    Cerqueira,\r
    \r
    \r
    "Ou seja,se um problema pode ser resolvido sem o governo, essa sempre deve ser a opção escolhida?"\r
    \r
    Sim, eh exatamente isso.\r
    \r
    "Eu fico pensando nos negros americanos no sul racista no começo do séc passado, um dono de bar botava a placa 'negro não entra', daí qual a opção deles? Esquecer o governo, botar o rabo entre as pernas e voltar pra áfrica?"\r
    \r
    Como outro colega ja apontou, a discriminacao racial nos EUA era ditada por lei - era politica de estado. Mas vamos ignorar esse fato: se voce nao eh bem vindo na casa de alguem, voce tenta entrar a forca? Nao, voce nao tenta, voce vai embora. Da mesma maneira, se alguem nao era bem-vindo em um estabelecimento comercial privado, devia simplesmente se retirar.\r
    \r
    "obs: não venham com essa história de que o mercado ia fazer esses donos de bar falirem porque esse era um tempo que a maioria das pessoas era racista também."\r
    \r
    Ninguem vai contar essa historia, especialmente porque a especializacao eh uma estrategia comercial perfeitamente valida. Os bares que nao aceitassem negros nao teriam os negros como clientes, mas seriam bastante frequentados por quem nao quisesse a companhia de negros.\r
    \r
    Os negros poderiam estabelecer seus proprios bares, ou buscar outras formas de entretenimento.
  • Cerqueira  10/06/2011 06:41
    'Você cria uma dicotomia falsa ao concluir que, se um negro for barrado num bar, então só lhe resta voltar pra África.'
    Eu não disse isso.O bar era só um exemplo.O ponto é, como é que uma minoria "livre" vai sobreviver numa sociedade que os trata como sub humanos?Se alguém responder que eles são livres pra ir embora, essa foi a primeira coisa que eu disse.

    ' Ora, barrar um indivíduo de um estabelecimento é diferente de expulsá-lo de sua própria casa. A segregação racial era algo ruim, eu concordo com você; e na medida em que ela era instituída pela lei, deveria ser abolida o mais rápido possível.'
    Ou seja, se o governo é racista, isso é condenável.Quando as pessoas são, o que se faz é dar de ombros e aceitar passivamente, pensando: ah, a vida é assim mesmo... ???

    'Os negros poderiam estabelecer seus proprios bares, ou buscar outras formas de entretenimento.'
    Poderiam como? Sem dinheiro, sem educação, sem estrutura, sem nada? Falar é muito fácil pra quem não vive isso.
    Você assistiu um filme chamado 'o patriota'? Tem uma frase no final que resume bem.Um negro escravo fica livre porque lutou na guerra, e aí um redneck pergunta pra ele: 'e daí? O que é que tu vai fazer com a tua liberdade?'

    E sim, existia a lei, mas o racismo continuou firme e forte ENTRE AS PESSOAS mesmo depois dessa lei.E até hoje em dia.
  • augusto  10/06/2011 09:04
    Cerqueira,\r
    \r
    Vamos la...\r
    \r
    \r
    "Ou seja, se o governo é racista, isso é condenável.Quando as pessoas são, o que se faz é dar de ombros e aceitar passivamente, pensando: ah, a vida é assim mesmo... ???"\r
    \r
    Quase isso. Voce pode aceitar passivamente, vou voce pode, por seus proprios meios, tentar mudar a situacao. O que voce *nao pode* eh querer usar o monopolio da forca do governo a seu favor. As pessoas tem o mecanismo mental para desenvolver o racismo. Nao eh um pedaco de papel assinado por um cara qualquer (e eh isso que toda legislacao eh) que vai mudar a natureza das pessoas.\r
    \r
    "Poderiam como? Sem dinheiro, sem educação, sem estrutura, sem nada? Falar é muito fácil pra quem não vive isso."\r
    \r
    O jazz eh uma das mais tradicionais expressoes culturais dos EUA. Foi desenvolvida essencialmente pelos negros. Nao precisava de dinheiro, nem de educacao, e nem de "estrutura". Os negros nao foram ao Ministerio da Cultura dos EUA com um pedido de patrocinio para desenvolver o jazz. Simplesmente criaram sua arte. Igualmente, os negros escravos brasileiros criaram uma arte marcial (capoeira) do nada, criaram tambem toda uma cosmogonia religiosa aproveitando elementos do catolicismo e das tradicoes religiosas africanas. Nao me consta que tenham pedido subvencao ao governo brasileiro para fazer nenhuma das duas coisas.\r
    \r
    Traduzindo: se as pessoas tiverem liberdade, por pouca que seja, elas vao fazer o possivel para melhorar sua situacao. nao eh preciso que o governo interfira.\r
    \r
    "Você assistiu um filme chamado 'o patriota'? Tem uma frase no final que resume bem. Um negro escravo fica livre porque lutou na guerra, e aí um redneck pergunta pra ele: 'e daí? O que é que tu vai fazer com a tua liberdade?'"\r
    \r
    A frase resume bem o que?\r
    \r
    "E sim, existia a lei, mas o racismo continuou firme e forte ENTRE AS PESSOAS mesmo depois dessa lei.E até hoje em dia."\r
    \r
    A licao que voce deveria tirar disso eh: legislacao nao muda a natureza humana.
  • Cerqueira  10/06/2011 10:44
    'Traduzindo: se as pessoas tiverem liberdade, por pouca que seja, elas vao fazer o possivel para melhorar sua situacao. nao eh preciso que o governo interfira. '
    Suponha que vc seja um fazendeiro.Isso justifica que eu tire a tua fazenda mas diga: não reclame, vc continua livre, então se vire. Você pode até conseguir, fazer musiquinha, fazer dancinha e ganhar uns trocados com isso, mas isso justifica eu tirar tua fazenda e ficar por isso mesmo?

    Augusto, suponha que alguém entre na sua casa e roube o seu carro.Você pode então ficar com raiva, entrar na casa dele e pegar seu carro de volta.Pode não ter contrato nenhum mas moralmente isso é condenável? Eu imagino que não.Pois é, então suponha que o teu carro não esteja na casa do ladrão, mas tem outro do mesmo valor.Ou então que não tenha carro nenhum mas tenha outros objetos de valor equivalente.Entendeu?

    Então porque no caso dos negros é condenável usar a força pra devolver um milésimo do que foi tirado deles, pela força?Pelo que vc sugeriu, me virar e tentar resolver de qualquer outra forma, parece uma questão de dois pesos duas medidas.
  • Leandro  10/06/2011 10:53
    Cerqueira, voce continua confundindo os preceitos mais essenciais do libertarianismo (não sei se de propósito ou por falta de informação).

    Libertários defendem três direitos básicos, contra os quais não dá pra argumentar sem cair em contradição. Eles são:

    1) Você tem o direito de que não tirem a sua vida:

    2) Você tem o direito de que não tirem a sua liberdade;

    3) Você tem o direito de que não tomem a sua propriedade honestamente adquirida.

    Em todos os exemplos que você usa para tentar refutar o segundo item, você apela para o primeiro ou para o terceiro, achando que assim está desferindo um golpe mortal na teoria libertária, quando na verdade está apenas comprovando sua irrefutabilidade.

    Veja seus últimos exemplos: você apela para o roubo, dizendo que um libertário defenderia isso. Pura desinformação sua (ou, como dito, uma mentira proposital).

    A par disso, tente agora formular uma situação que não infrinja nenhum dos três direitos acima, e você entenderá o que um libertário defende. E verá também que esse realmente é o único arranjo ético e moral que existe (atenção: falei em arranjo ético e moral, e não necessariamente em arranjo "economicamente eficiente". Você pode talvez conseguir provar que uma sociedade mais totalitária funcione melhor que uma mais libertária).

    Abraços!
  • Cerqueira  10/06/2011 11:10
    'Veja seus últimos exemplos: você apela para o roubo, dizendo que um libertário defenderia isso. Pura desinformação sua'

    Suponha que os dois estivessem debaixo da mesma justiça privada, o que ela diria nesse caso, seguindo os princípios libertários, não seria pro ladrão devolver o carro? Ou um valor equivalente?

    O que eu estou tentando mostrar é que no caso dos negros o que aconteceu foi uma violação da liberdade deles que ficou por isso mesmo. E quando eles pedem um pedaço minusculo do que lhes foi tomado de volta, são taxados de fascistas.

  • Leandro  10/06/2011 11:19
    Você impedir que uma pessoa entre em sua propriedade não configura restrição alguma à liberdade dessa pessoa. Afinal, não existe algo como "o direito de entrar na propriedade alheia".

    O problema é que você não quer aceitar isso.

    Mas vamos então inverter a situação: você obrigaria um negro dono de um bar a receber e a servir bem em seu estabelecimento clientes que são membros de grupos neonazistas? Suponha que os skinheads jurem de pé junto que não farão nada, e que querem apenas comer algo.

    Você obrigaria o dono negro a aceitá-los?

    Pela sua lógica, tudo indica que sim. Eu não.
  • Cerqueira  10/06/2011 11:31
    'Você impedir que uma pessoa entre em sua propriedade não configura restrição alguma à liberdade dessa pessoa. Afinal, não existe algo como "o direito de entrar na propriedade alheia".
    O problema é que você não quer aceitar isso.'

    E quanto ao carro, eu não estava falando de alguma reparação por não deixar eles entrarem no bar, mas sim em alguma reparação por tirar eles à força da terra deles e escravizar eles.

    'Mas vamos então inverter a situação: você obrigaria um negro dono de um bar a receber e a servir bem em seu estabelecimento clientes que são membros de grupos neonazistas? Suponha que os skinheads jurem de pé junto que não farão nada, e que querem apenas comer algo.
    Você obrigaria o dono negro a aceitá-los?'

    Não, mas se um negro, ou nazista, ou qualquer um outro escravizasse alguém, eu obrigaria não só a soltar como a pagar com juros e correção tudo que o escravo perdeu.
  • Leandro  10/06/2011 11:34
    Sim, seria totalmente justo e correto você devolver a essa pessoa a propriedade que lhe foi roubada. Isso nunca foi negado.

    Qual o ponto?
  • augusto  10/06/2011 11:59
    Cerqueira,\r
    \r
    Voce diz:\r
    \r
    "E quanto ao carro, eu não estava falando de alguma reparação por não deixar eles entrarem no bar, mas sim em alguma reparação por tirar eles à força da terra deles e escravizar eles.\r
    \r
    Não, mas se um negro, ou nazista, ou qualquer um outro escravizasse alguém, eu obrigaria não só a soltar como a pagar com juros e correção tudo que o escravo perdeu."\r
    \r
    Mas disso, ninguem discordou. Se os negros/escravos foram privados da liberdade, tem o direito de exigir reparacao.\r
    \r
    Isso nao tem absolutamente nada a ver com exigir o "direito" de entrar na propriedade privada dos outros.\r
    \r
    Ou seja, voce esta misturando assuntos diferentes.
  • Evelyn  10/06/2011 12:38
    Caro Cerqueira,

    imagino que a violação da liberdade dos negros a que você se refere esteja relacionada à escravidão. Até então, todos concordamos com você. No entanto, você sugere que os descendentes dos escravocratas sejam punidos pelas ações de seus antepassados, que é o que julgamos incabível. Um indivíduo só pode ser responsabilizado pelas próprias ações (ao menos eu não escolhi nascer branca), e, ainda, na prática, qualquer medida em sentido contrário dificilmente restituiria perfeitamente os direitos violados dos negros, devido à miscigenação e à impossibilidade de cálculo do valor presente do que lhes foi tirado.
  • augusto  10/06/2011 11:25
    Cerqueira,\r
    \r
    Voce faz uma confusao imensa de conceitos. Vou tentar simplificar:\r
    \r
    a) Se voce rouba minha fazenda, voce eh um criminoso. Eu tenho todo o direito de exigir minha fazenda de volta.\r
    \r
    b) se os negros foram privados de sua liberdade, entao eh justo que eles exijam uma compensacao. Mas essa compensacao deve ser extraida de seus antigos donos, e nao da "sociedade". Note que no caso especifico do Brasil, *o governo* determinou que os escravos libertos nao deveriam receber compensacao alguma. O entao ministro Ruy Barbosa determinou explicitamente que fossem destruidos todos os registros de escravos no pais, para impedir que esses pudessem exigir reparacao.\r
    \r
    c) o direito de um escravo liberto exigir uma reparacao pelo tempo que passou privado de sua liberdade *nao* implica em exigir que os demais membros da sociedade passem a ve-lo como um igual. A unica coisa que o escravo liberto (ou o negro) pode exigir, alem da reparacao, eh que sejam abolidas todas as leis relativas a segregacao.
  • Fernando Chiocca  10/06/2011 11:59
    Eu não disse isso.O bar era só um exemplo.O ponto é, como é que uma minoria "livre" vai sobreviver numa sociedade que os trata como sub humanos?

    Como uma maioria que discrimina uma minoria vai aprovar uma lei que proibe essa discriminação???

    Você sequer sabe que o poder do estado, o poder das leis, reside no consentimento de uma maioria....

    Se uma maioria acredita que uma minoria é subhumano, realmente não tem muito o que fazer, a não ser tentar convencer essa maioria do erro deles. É por isso que existiu escravidão (legal) de negros por tanto tempo.




  • Bernardo Santoro  10/06/2011 12:23
    Se em uma determinada cidade nenhum bar quisesse servir para negros e tivesse um monte de negros na cidade, eu abriria um bar para negros e faturaria uma nota.
  • Absolut  10/06/2011 13:20
    O ponto é, como é que uma minoria "livre" vai sobreviver numa sociedade que os trata como sub humanos?

    Isso é complicado, sim. Mas muito pior - do ponto de vista material - é viver numa sociedade com tanta coação...
    E, de quebra, a coação é injusta e a discriminação, não.
  • Heber  09/06/2011 18:55
    A maioria da população brasileira trabalha para a iniciativa privada, odeia os políticos e acredita muito sim na liberdade. claro que os políticos conseguem se aproveitar da situação crítica que muita gente vive para tirar a liberdade delas através de suas ações. Mas ninguém fica mais feliz quando está menos livre, apenas aceita resignado.
  • Juanito del Paiva  09/06/2011 17:02
    Descompreendo su imagita
  • Edimar Estevam  09/06/2011 20:51
    Texto muito bem escrito e que tem a mesma linha de pensamento que eu tinha a algum tempo, mesmo antes de conhecer a Escola Austríaca de Economia. Desde criança escuto pessoas dizeram que vão ao Paraguai buscar mercadorias, geralmente produtos eletrônicos, devido as preços atrativos. Eu ouvia a conversa dessas pessoas e tinha a certeza absoluta que aquilo era um bom negócio para elas: comprar barato, aproveitando os baixos impostos praticados no Paraguai e a relativa liberdade de importação (não sei como funciona o comércio internacional no Paraguai e seus impostos, mas daria um artigo interessante, não?). Mas, surpreendentemente, considerando minha ingenuidade de criança, o governo achava e ainda acha isso um crime. Com o passar dos anos e dos livros, finalmente entendi as coisas e, mudando uma célebre frase do filme Parque dos Dinossauros, "o livre mercado sempre encontra um meio".

    Governos passarão e farão de tudo para conseguir ainda mais poder e controle, mas no final, o capitalismo livre real triunfará.
  • Filósofo  10/06/2011 12:24
    Se o liberalismo austríaco é irrefutável, então segundo Popper nao é sequer científico. E pior, é uma teoria filosófica de pouco valor, assim como o Marxismo. Portanto é melhor dizer que ele é refutável, mas ninguém conseguiu isso ainda. E sendo o melhor que temos, vamos adotar. O liberalimos austríaco é uma teoria apriorística, portanto basta não reconhecer algum dos 3 postulados fundamentais para que ela não faça sentido algum. O desafio é o de apenas apresentar os 3 postulados fundamentais de uma maneira didática afim de que qualquer indivíduo aceite. E aí é pau no Estado e nos socialistas assasinos.
  • Irrefutável?  10/06/2011 13:15
    São repetidas "ad nauseum" neste site basicamente duas mentiras teóricas que alguém com um nível médio de leitura e que pensa o mundo com a cabeça e não com o estômago não têm a mínima condição de acreditar:

    1) A escola austríaca refutou o marxismo.
    2) Ela é irrefutável.

    Sobre o primeiro item basta comparar os textos do Bawerk com as contraposições do Bukharin e do Hilferding para ver que tais falácias já foram, há muito tempo, reduzidas a pó. Sobre o Mises, autor que dá nome a este site, basta comparar as distorções que fez da obra de Marx, como dizer que forças produtivas eram só as ferramentas e as máquinas, com os escritos originais de Marx para perceber no tamanho engodo que se está a acreditar.

    A segunda é digna de crentes religiosos: a escola austríaca é irrefutável! Já citei dois autores que reduziram a pó suas falácias, mas olhem este texto festejado por alguns aqui: dizer que o capitalismo reside na pobreza e que os pobres estão lutando para sair dessa situação é o mesmo que dizer que ele quer sair do capitalismo. Para quem quer defender o capitalismo se trata de um baita tiro no pé!

    Provavelmente meu comentário será censurado pelos "libertários" que sempre se utilizam do seu direito de propriedade para se desfazer dos inconvenientes. Como aliás sempre aconteceu na História do capitalismo.
  • Leandro  10/06/2011 13:52
    De maneira alguma vamos censurar seu comentário, caro anônimo, pois isso seria perder uma chance única: mostrar como nossos "opositores" se comportam, mandando palavras ao vento, sem dar um único exemplo específico, apostando no simples jorro de afirmações na esperança de que elas, por si sós, não apenas serão incontestavelmente aceitas, como também vão causar algum impacto.

    Hilferding, por exemplo, já teve sua tática de "argumentação" exposta nesse artigo. Se afirmações como essas são tidas por nossos opositores como afirmações que "reduziram a pó suas [da Escola Austríaca] falácias", então realmente nossos rivais são de uma profundidade intelectual ainda menor do que supúnhamos. Estivemos esse tempo todo sobreestimando vocês. Quanto desperdício de energia de nossa parte.

    Por fim, não, o senhor não nos causa embaraço algum, caro anônimo. Muito pelo contrário: o senhor nos fornece uma oportunidade que nem nós mesmos seríamos capazes de criar. Todo o embaraço foi causado a si próprio por você mesmo, que compreensivelmente, após dizer essas "verdades inconvenientes", não teve sequer coragem de se identificar, nem mesmo deixando seu email correto (irrefutavel@yahoo.com.br).

    Um digno debatedor.

    Abraços!
  • Joel Pinheiro  10/06/2011 14:13
    "dizer que o capitalismo reside na pobreza e que os pobres estão lutando para sair dessa situação é o mesmo que dizer que ele quer sair do capitalismo."

    Onde eu disse que o capitalismo reside na pobreza?

    O que eu disse foi que, nas favelas, há menos controle estatal; portanto, mais liberdade econômica. Se houvesse mais controle estatal, elas estariam ainda mais pobres. Não haveria lojas, bares, comércio, etc. Aliás, a maioria não poderia nem construir suas casas, pois todas estão em situaçõa irregular. Morariam embaixo de pontes; felizmente, o estado não os fiscaliza tanto assim (agora, se alguém da classe média resolver fazer uma reforma no quintal da casa, lá vem o fiscal...). Já reparou como os barracos de madeira quase desapareceram e que hoje a imensa maioria são casa de alvenaria? Os moradores da favela estão preocupados em melhorar sua condição de vida; se o estado não atrapalhar, é exatamente isso que farão.

    No mais, evite só jogar nomes e dizer que "eles refutaram tudo o que vocês dizem". Tente apresentar argumentos. A sua única tentativa de argumento contra o meu texto, que na verdade é um exemplo de má leitura, já foi devidamente refutada. Você tem mais algum a apresentar, ou devemos aceitar cegamente suas afirmações de que "Bukharin reduziu Bawerk a pó"?

    E um comentário final: o marxismo, e especialmente esses autores posteriores do marxismo, são bastante irrelevantes hoje em dia. Ninguém aqui está preocupado em debater com eles, de fazer exegese dos santos escritos de Hilferding ou Bukharin; isso é um vício de academia universitária perdida no tempo. Estamos discutindo a realidade. O valor de Mises não está em ter refutado ou não Marx, ou no cuidado com que leu e interpretou Marx, mas na contribuição que ele nos deu para o entendimento do mercado. Então, se você quiser realmente aprender economia, pare de se preocupar tanto com o que cada autor disse, com as minúcias das diferentes escolas, e comece a pensar sobre a realidade, preocupando-se mais com os argumentos do que com os autores. Ciência não é briga de torcida.
  • augusto  10/06/2011 14:58
    Joel,\r
    \r
    Desculpa, mas eu vou ter que discordar dessa tua frase, "O que eu disse foi que, nas favelas, há menos controle estatal; portanto, mais liberdade econômica"\r
    \r
    Nao ha mais liberdade economica nas favelas. Honestamente, entre essa suposta "liberdade" das favelas e a coercao estatal fora delas, eu escolho a segunda, sem hesitar. E como imagino que a maioria dos membros desse site nao moram nas favelas, tambem fizeram essa escolha.\r
    \r
    Existe mercado na favela? Sem duvida. As pessoas praticam o comercio? Obvio. Mas ate mesmo nas prisoes existe comercio (ver esse artigo por exemplo: www.ecoteacher.asn.au/pow.doc - The economic organization of a POW camp), e ninguem argumentaria que existe liberdade economica (ou de qualquer outro tipo de liberdade) nas prisoes.
  • rafael  10/06/2011 15:28
    > Desculpa, mas eu vou ter que discordar dessa tua frase, "O que eu disse foi que, nas favelas, há menos controle estatal; portanto, mais liberdade econômica"

    > Nao ha mais liberdade economica nas favelas. Honestamente, entre essa suposta "liberdade" das favelas e a coercao estatal fora delas, eu escolho a segunda, sem hesitar. E como imagino que a maioria dos membros desse site nao moram nas favelas, tambem fizeram essa escolha.

    há sim mais liberdade economica nas favelas, vc é que esta distorcendo a palavra liberdade, liberdade não significa riqueza, nesse caso significa ausência de coerção do estado

    é claro que muito de nós não gostariamos de morar numa favela, mas a diferença é que eles começaram praticamente do zero, eram muito pobres ha pouco tempo atrás para começar, enquanto as cidades ja tiveram centenas de anos para se desenvolver, mas não estamos falando da situação atual da riqueza de favelas x cidade, mas sim da liberdade e desenvolvimento economico, qnd há liberdade o desenvolvimento economico é claro
  • Joel Pinheiro  10/06/2011 15:37
    Augusto, seu raciocínio tem um erro.

    Sim, as favelas têm mais liberdade econômica (os empreendimentos pagam menos impostos - ou imposto nenhum -, as regulamentações não são seguidas). Só que disso não dá para concluir que quereríamos, portanto, morar lá.

    É bom ter um quintal grande em casa. E a casa A pode ter quintal maior que a casa B. Mas nem por isso escolheríamos a casa A, pois uma série de outras variáveis a se levar em conta.

    Assim, muito embora a favela tenha mais liberdade econômica, ainda é, para a maioria das pessoas, melhor viver numa vizinhança mais rica, desde que se tenha condições. (A favela, por sua vez, é preferível à pobreza rural para muita gente). A liberdade econômica não é a única coisa que valorizamos ao escolher onde morar, embora ela seja, sempre e em todos os lugares, um bem. Há outros bens que também são levados em conta: acesso a rede de esgotos, aspecto da vizinhança, qualidade da rua, localização, etc.

    Pode até ser que outros grupos que não o estado legal exerçam coerção sobre os moradores da favela (o crime organizado, por exemplo). Imagino que para muitos, ele seja uma presença constante, mas não necessariamente um agente que os exproprie rotineiramente.
  • augusto  10/06/2011 16:12
    Joel,\r
    \r
    Se voce argumenta que ha mais liberdade economica numa favela, entao voce esta negando as conclusoes praticas da escola austriaca. Especificamente, a EA indica que, em um ambiente de maior liberdade, havera mais prosperidade. Visto que nenhuma favela eh mais prospera que qualquer nao-favela, esse argumento nao se sustenta.\r
    \r
    Voce diz, "Pode até ser que outros grupos que não o estado legal exerçam coerção sobre os moradores da favela (o crime organizado, por exemplo). Imagino que para muitos, ele seja uma presença constante, mas não necessariamente um agente que os exproprie rotineiramente."\r
    \r
    Ora, basta ler qualquer jornal popular do Rio para saber que esses agentes nao-estatais expropriam rotineiramente. Tomam casas para abrigar seus compadres, matam pessoas apenas para intimidar, cobram todo tipo de taxa, etc.\r
    \r
    Os moradores da favela sao duplamente atacados: sao sujeitos ao jugo de agentes nao-estatais, e *tambem* ao dos agentes estatais.
  • rafael  10/06/2011 16:29
    > Se voce argumenta que ha mais liberdade economica numa favela, entao voce esta negando as conclusoes praticas da escola austriaca. Especificamente, a EA indica que, em um ambiente de maior liberdade, havera mais prosperidade. Visto que nenhuma favela eh mais prospera que qualquer nao-favela, esse argumento nao se sustenta.

    a riqueza não surge do dia para a noite, não basta implantar a liberdade em um lugar, ainda mais pobre, para em 2 anos ele virar os EUA. Esse processo pode ser lento.

    mises.org.br/Article.aspx?id=978

    O livro As Seis Lições fala um pouco mais sobre a importância do investimento em capital para a prosperidade.
  • Rafael Hotz  10/06/2011 16:37
    Colega, acho você entendeu o Joel errado. A maior liberdade economica nas favelas (sonegação, não cumprimento de regulamentações) faz com que elas não sejam ainda piores. Se elas seguissem a risca o modelo economico estatal seria o caos.
  • augusto  10/06/2011 16:58
    Nao acho que eu tenha entendido o Joel de forma errada. Voce esta correto quando diz que os produtores e fornecedores de servico nao cumprem as leis e nao pagam impostos - isso eh o que voce ve acontecer. O que voce nao ve, para citar Bastiat, eh o enorme risco que esses mesmos produtores e fornecedores de servico correm a cada instante. Basta que um policial, um miliciano, ou qualquer "chefe da favela" nao va com a cara do comerciante para que ele perca tudo. Os riscos sao enormes e constantes.\r
    \r
    A "liberdade" do mercado nas favelas eh apenas aparente. Mas essa aparencia esconde os custos de driblar tanto os agentes do Estado quanto os agentes para-estatais.\r
    \r
    Quanto ao comentario do colega Rafael, sobre o tempo necessario para acumulacao de riquezas: as favelas do Rio existem ha pelo menos um seculo. Nao ha nenhuma que tenha deixado de ser pobre.
  • Joel Pinheiro  11/06/2011 16:31
    "Especificamente, a EA indica que, em um ambiente de maior liberdade, havera mais prosperidade."

    De forma nenhuma. Onde há mais liberdade há CONDIÇÕES para que haja mais prosperidade. Mas para que se tornem ricos é preciso acumular capital. Um grupo de náufragos numa ilha deserta tem liberdade econômica completa, mas nem por isso são mais ricos do que a sociedade de onde vieram, ainda que ela sofra sob amarras estatais.

    E os favelados que acumulam capital o bastante em geral decidem sair da favela, pois a vida lá não é muito boa. E novos retirantes chegam. Lembre-se que a favela não é, de forma alguma, o lugar mais pobre ou miserável da sociedade: há os moradores de rua, os agricultores pobres, que em geral querem ir para as favelas.

    Em todo caso, aceito sua objeção no sentido de que há outros fatores em jogo (instabilidade da propriedade, crime organizado) que podem tornar a favela menos livre economicamente. Assim, digo que há menos controle estatal na favela; então, sob certos aspectos (embora não todos), há mais liberdade econômica lá do que fora dela.

  • augusto  11/06/2011 17:37
    Joel,\r
    \r
    "De forma nenhuma. Onde há mais liberdade há CONDIÇÕES para que haja mais prosperidade. Mas para que se tornem ricos é preciso acumular capital."\r
    \r
    Point taken. Voce esta correto.\r
    \r
    "E os favelados que acumulam capital o bastante em geral decidem sair da favela, pois a vida lá não é muito boa."\r
    \r
    O seu argumento original era de que nas favelas ha mais liberdade economica que fora delas, e portanto, segundo o que voce escreveu logo acima, mais condicoes para a prosperidade. Entao, o individuo, tendo alcancado um certo nivel de prosperidade - gracas a liberdade economica de que goza - decide, voluntariamente, ir para um local onde gozara de menos liberdade, e onde encontrara mais dificuldade de melhorar sua vida. Nao sei. Parece-me estranho.\r
    \r
    Eu inverteria o seu raciocinio para incorporar a questao da acumulacao de capital. Eu diria que no ambiente de pouca liberdade como a favela, assim que alguem consegue acumular alguma coisa, busca imediatamente sair de la.\r
    \r
    A questao, entao, me parece girar em torno de se eh possivel ter mais facilidade para acumular capital em um ambiente de menos liberdade.\r
    \r
    Assim, em uma favela, temos uma grande liberdade economica (noto agora que talvez esse termo esteja mal definido na discussao), mas dificuldade para se acumular capital.\r
    \r
    E fora da favela, menos liberdade economica, mas facilidade para acumular capital.\r
    \r
    Visto que eh possivel ser livre mas pobre (como sugere o seu exemplo dos naufragos na ilha), mas que a pessoa com capital eh necessariamente rica, pode-se concluir que as pessoas iriam voluntariamente abrir mao da liberdade em troca da riqueza. Esta conclusao me parece errada a luz da Escola Austrica (especialmente em seus aspectos politicos).
  • mcmoraes  10/06/2011 14:17
    @Irrefutável?: "...olhem este texto festejado por alguns aqui: dizer que o capitalismo reside na pobreza e que os pobres estão lutando para sair dessa situação é o mesmo que dizer que ele quer sair do capitalismo. Para quem quer defender o capitalismo se trata de um baita tiro no pé!..."

    Me pergunto como foi que o "Irrefutável?" conseguiu inferir tal conclusão a partir da leitura deste artigo; parece-me claro que a sua capacidade de interpretação textual está prejudicada.
  • Fernando Chiocca  10/06/2011 14:28
    Eu me pergunto se esses caras que contestam a irrefutabilidade da ciência econômica sequer sabem o que é uma ciência apriorística...
  • Angelo T.  10/06/2011 15:27
    Gosto desses dois textos aqui:

    True Knowledge from A Priori Theory
    Mises on Mind and Method


    Um trechinho:

    Some even go so far as to malign such an approach as "religious," because anything that isn't based on empirical fact must be "faith based." One wonders if such critics think of geometry as a religion, being that the theorems of geometry are prior to, and not based on, the gathering of topographical data.
  • Cerqueira  10/06/2011 16:55
    'o que é uma ciência apriorística'...trecho:
    'Michael Polanyi mostrou que o julgamento intuitivo é o árbitro final mesmo em ciências "difíceis", como física e química.'

    Isso está em algum ponto entre rizível e patético.
  • Leandro  10/06/2011 17:07
    Risível, Cerqueira? Então, em sua opinião, qual o árbitro final para julgar as grandes constatações? A mandinga?

    Quando Pitágoras deduziu seu teorema, como você acha que ele chegou à conclusão final? Ele utilizou sua intuição lógica ou apelou a forças ocultas para que elas lhe dessem clarividência?

    Você realmente não está tendo ideia de sua arrogância ao falar que isso é "patético e risível".
  • Carlos  20/06/2011 20:47
    O grande problema é que em certos casos as atitudes dos "vermelhos" casam direitinho com a visão libertária. É juntar a fome com a vontade de comer.

    Só que os motivos deles não são óbviamente os mesmos daqui.

    Ou vocês acham que descriminalizando as drogas eles estão pensando que o estado não pode descidir sobre a propriedade do corpo que cada indivíduo tem de si?

    Fica claro que com uma atitude destas, e outras como o casamento gay, o que eles querem é inverter valores da sociedade, para cada vez mais empurrar a merda deles guela à baixo.

    Em uma sociedade realmente livre, cada um tem sim o direito de usar drogas ou transar com quem quizer, mas fica òbvio que o restante que não aceite tais práticas poderiam discriminá-loes à vontade. Eu como banqueiro por exemplo, poderia não empregar um maconheiro por acreditar que ele não vai exercer suas funções de maneira satisfatória sendo um drogado, ou ainda cobrar um "adcional de risco" no contrato de crédito imobiliário para casais gays, por achar que a relação deles tem menos chance de ser duradoura, aumentando o risco de inadimplência e conflitos par saber quem vai pagar a dívida.

    Mas em uma sociedade como a nossa, onde retirasse a criança do seio da família e dá a ela conceitos e valores enlatados sob rótulo do governo, qualquer alteração desta muda completamente a mentalidade das pessoas. Ou seja, a partir do dia em que a droga se torna legal, o sujeito não mais vai rejeitá-la porque acha que faz mal para a saúde, ou que sua religião não permita, mas sim vai aceitá-la como algo normal, e que ele não usava antes pelo simples fato desta ser proibida.

    A mesma coisa com o casamento gay, não se assustem se começarem a pipocar gay por todos os lados, cagando regras para os outros, e achando que o que eles fazem é moral e sacrosanto, imune a qualquer tipo de crítica.

    Uma ação semelhante do banqueiro neste segundo exemplo (invelizmente o real) não vai ser considerado algo justo, mas sim uma atitude de um ser "atrazado", "reacionário", "quadradão", que acha que seu dinheiro pode tudo, e que deve ser obrigado a aceitar sim o drogado como empregado, e ainda ajudá-lo em sua recuperação, bem como não cobrar nenhuma taxa do casal gay, por isso seria uma atitude homofóbica horrenda. Tudo isso na base da imposição, sob o risco de ter seu patimônio expropriado.

    Qualquer pessoa que acredite nas atuais ações do governo nesta e em outras áreas como sendo um passo adiante à liberdade e o capitalismo, só pode estar com um parafuso a menos.

    Mas levando em consideração que a cultura brasileira é expressa na novela das 8Hrs da rede bobo, e que a maioria aceita qualquer idiotice como dar a bunda como sendo "da moda", não é de se esperar muito.
  • Emerson Luis, um Psicologo  30/12/2014 09:59

    Tanto "progressistas" (esquerdistas) quanto liberais defendem a liberdade?

    Sim, porém há pelo menos duas diferenças marcantes.

    Primeiro, os liberais defendem uma liberdade responsável: a pessoa é livre para fazer o que quiser, desde que que respeite os direitos dos outros e arque com os custos de suas decisões em termos de dinheiro, tempo, energia, reputação, empregabilidade, etc.

    Já os esquerdistas defendem uma liberdade irresponsável: a pessoa é livre para fazer o que quiser às custas dos direitos e recursos dos outros. Na hora de decidir, ela faz o que quer e ninguém tem nada a ver com isso; mas na hora de pagar o ônus, todo mundo tem que compartilhar as consequências para poupá-la da responsabilidade.

    Segundo, os liberais defendem a liberdade para todos, enquanto os esquerdistas defendem uma liberdade seletiva e querem impor seus valores "progressistas", diminuindo a liberdade de alguns em prol de outros. Não defendem a liberdade em si, mas a liberdade deles. Por exemplo, o sujeito não é livre para recusar-se a prestar um serviço para pessoas com determinados comportamentos que considera inadequados.

    * * *
  • Silvio  30/12/2014 12:55
    Sobre o assunto, lembrei-me de "O Caminho da Servidão". Eis o trecho:

    No que se referia à liberdade, os fundadores do socialismo não escondiam suas intenções. Eles consideravam a liberdade de pensamento a origem de todos os males da sociedade do século XIX, e o primeiro dos planejadores modernos, Saint-Simon, chegou a predizer que aqueles que não obedecessem às comissões de planejamento por ele propostas seriam "tratados como gado".

    Foi apenas sob a influência das fortes correntes democráticas que antecederam a revolução de 1848 que o socialismo começou a aliar-se às forças da liberdade. Mas o novo "socialismo democrático" precisou de muito tempo para vencer as suspeitas despertadas pelos seus antecedentes.

    (...)

    Para afastar essas suspeitas e atrelar a si o mais forte de todos os incentivos políticos – o anseio de liberdade – o socialismo começou a utilizar com maior frequência a promessa de uma "nova liberdade". O advento do socialismo seria um salto do reino da necessidade para o reino da liberdade. Ele traria a "liberdade econômica", sem a qual a liberdade política já obtida "de nada serviria". Somente o socialismo seria capaz de pôr termo à luta secular pela liberdade, na qual a conquista da liberdade política era apenas um primeiro passo.

    É importante perceber a sutil alteração de sentido a que se submeteu a palavra liberdade para tornar plausível este argumento. Para os grandes apóstolos da liberdade política, essa palavra significava que o indivíduo estaria livre da coerção e do poder arbitrário de outros homens, livre das restrições que não lhe deixavam outra alternativa senão obedecer às ordens do superior ao qual estava vinculado. Na nova liberdade prometida, porém, o indivíduo se libertaria da necessidade, da força das circunstâncias que limitam inevitavelmente o âmbito da efetiva capacidade de escolha de todos nós, embora o de alguns muito mais do que o de outros. Para que o homem pudesse ser verdadeiramente livre, o "despotismo da necessidade material" deveria ser vencido, e atenuadas "as restrições decorrentes do sistema econômico". Liberdade neste sentido não passa, é claro, de um sinônimo de poder ou riqueza. Contudo, embora a promessa dessa nova liberdade frequentemente se somasse a promessas irresponsáveis de um significativo aumento da riqueza material na sociedade socialista, não se esperava alcançar essa liberdade econômica mediante vitória tão grande sobre a escassez da natureza. A promessa, na realidade, significava que as grandes disparidades existentes na efetiva possibilidade de escolha de cada indivíduo estavam destinadas a desaparecer. A reivindicação da nova liberdade não passava, assim, da velha reivindicação de uma distribuição equitativa da riqueza. Mas o novo rótulo forneceu aos socialistas mais uma palavra em comum com os liberais, e eles a exploraram ao máximo. E, conquanto o termo fosse empregado em sentido diferente pelas duas correntes, poucos o notaram, e menor número ainda se perguntou se as duas formas de liberdade prometidas poderiam realmente harmonizar-se.


    Enfim, a liberdade defendida pelos socialistas não passa de um jogo de palavras com o propósito de disfarçar o roubo de todos para benefício de alguns, que é contrária à própria liberdade em si.


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