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“O uso do conhecimento na sociedade”, de F.A. Hayek, 80 anos depois

Oitenta anos atrás, uma das contribuições mais importantes para a teoria e a política econômica apareceu como o artigo principal da edição de setembro de 1945 da American Economic Review, sob o título O Uso do Conhecimento na Sociedade. Seu autor, Friedrich A. Hayek, havia sido um dos economistas mais conhecidos das décadas de 1930 e 1940 como opositor do socialismo e crítico da nova economia keynesiana.

No ano anterior, em 1944, ele havia publicado O Caminho da Servidão (The Road to Serfdom), que se tornou um best-seller tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos. Nessa obra, Hayek desafiou a suposição popular de que um sistema relativamente abrangente de planejamento central socialista fosse compatível com um alto grau de liberdade pessoal e de liberdades civis. Uma vez que o governo passasse a ter a responsabilidade e a autoridade para planejar os assuntos econômicos de uma nação, nada ficaria fora do processo decisório daqueles que detinham o poder político, fossem eles democraticamente eleitos ou não.

Por que o socialismo pode levar à tirania

A própria noção de um plano central para toda a sociedade significava que os milhões de planos individuais dos cidadãos do país teriam de ser subordinados a um plano abrangente, válido para toda a sociedade. O governo teria de decidir o que seria produzido e em quais quantidades, variedades e qualidades. O governo também teria de ser responsável por determinar a alocação de toda essa produção planejada centralmente, definindo quanto seria fornecido e distribuído à população.

As liberdades civis de todos seriam ameaçadas, uma vez que o governo se tornaria o provedor monopolista de entretenimento e informação. O governo determinaria a quem seriam fornecidos papel e impressão para a publicação de livros, revistas e jornais.

Mesmo sob um socialismo “democrático”, em oposição ao totalitário, uma vez que o plano tivesse sido definido e estivesse sendo implementado, as autoridades políticas seriam indiferentes àqueles que defendessem o desmantelamento do plano ou sua modificação radical de alguma forma? Não seria mais provável que os planejadores centrais passassem a promover apenas informações e opiniões sobre o socialismo em geral — e sobre o plano em particular — que estivessem em sintonia com as premissas do planejamento central? Por mais bem-intencionados que muitos dos que defendem e implementam o planejamento socialista possam ser, o sucesso do plano inevitavelmente levaria a uma determinação implacável de reduzir e até eliminar todas as críticas e resistências à sua realização.

O cerne do argumento de Hayek em O Caminho da Servidão, portanto, era que, se a liberdade e a prosperidade deveriam ser alcançadas, seria necessário confiar, em vez disso, nas instituições liberais da propriedade privada, da liberdade individual, da tomada de decisões descentralizada e da economia de mercado competitiva. Junto a isso, havia a necessidade de um governo limitado sob um estado de direito imparcial, com os poderes políticos e coercitivos mantidos no mínimo necessário para preservar uma ordem social pacífica, propícia aos incentivos de mercado que fomentam a poupança, o investimento, a inovação e uma produção orientada pela demanda dos consumidores.

Planejamento socialista e o cálculo econômico

Mas havia outra questão que, embora não tenha sido ignorada em O Caminho da Servidão, não constituiu o centro de sua análise: uma economia planejada centralmente consegue produzir e fornecer bens e serviços desejados pelos consumidores de maneira mais eficaz do que uma economia de mercado guiada pelo interesse próprio e pelo incentivo do lucro? O primeiro a desafiar de forma efetiva a viabilidade do planejamento central socialista foi o economista austríaco Ludwig von Mises (1881–1973). No período que se seguiu à Revolução Russa e ao fim da Primeira Guerra Mundial, os socialistas na Europa estavam certos de que havia chegado o momento de derrubar o sistema capitalista, com sua injustiça social e exploração dos “trabalhadores”. O socialismo e o planejamento central eram vistos como algo inevitável.

Nesse ambiente político acalorado, particularmente na Alemanha e na Áustria, Mises escreveu seu famoso ensaio O Cálculo Econômico sob o Socialismo, de 1920, que ele expandiu para uma crítica completa e abrangente de todos os seus aspectos em seu livro de 1922, Socialismo. O cerne da análise de Mises era que uma economia socialista planejada seria inerentemente inviável como alternativa a uma economia de mercado em funcionamento. O socialismo eliminaria todas as instituições sociais que haviam produzido um sistema ampliado de divisão do trabalho, o qual havia facilitado com sucesso uma ampla margem de liberdade pessoal de escolha tanto no consumo quanto na produção, ao mesmo tempo em que promovia uma coordenação entre oferta e demanda que tornava possível a eficiência econômica e a elevação dos padrões de vida.

Fundamental para a economia de mercado era um sistema de preços estabelecido de forma competitiva tanto para os bens de consumo quanto para os meios de produção (terra, recursos, capital e serviços de trabalho). Por um lado, na economia de mercado, os consumidores são capazes de expressar quais bens desejam comprar e o valor que atribuem a eles por meio dos preços que estão dispostos a pagar para adquiri-los. Por outro lado, com a propriedade privada dos meios de produção, empreendedores e empresários privados conseguem expressar seus julgamentos sobre o valor desses fatores de produção na forma dos preços que estariam dispostos a pagar para comprá-los, alugá-los ou contratá-los em linhas concorrentes de produção.

Os preços de mercado resultantes para os bens de consumo e para os meios de produção tornam possível o processo essencial do cálculo econômico, isto é, a determinação de lucros e prejuízos e a identificação de quais, entre as possíveis formas de produzir os diversos bens desejados pelos consumidores, seriam as menos custosas, dado o valor desses bens em usos alternativos dos recursos. O socialismo, ao abolir a propriedade privada sobre os meios de produção, eliminaria a única forma viável e eficaz de determinar os modos economicamente mais racionais de utilizar os meios escassos à disposição das pessoas para alcançar os fins aos quais esses meios podem ser aplicados.

O socialismo, na prática, terminaria em fracasso

Ou, como disse Mises em 1931:

“Na medida em que os preços monetários dos meios de produção só podem ser determinados em uma ordem social na qual eles sejam de propriedade privada, segue-se necessariamente a prova da impraticabilidade do socialismo. Do ponto de vista tanto da política quanto da história, essa prova [da ‘impossibilidade’ do planejamento socialista] é certamente a descoberta mais importante da teoria econômica. Sua importância prática dificilmente pode ser superestimada. (…) Somente ela permitirá que futuros historiadores compreendam como a vitória do movimento socialista não levou à criação da ordem social socialista”.

A razão era simples, como Mises havia afirmado alguns anos antes em seu livro Liberalismo (1927): o planejamento socialista elimina “a divisão intelectual do trabalho, que consiste na cooperação de todos os empresários, proprietários de terra e trabalhadores, como produtores e consumidores, na formação dos preços de mercado. Mas, sem isso, a racionalidade — isto é, a possibilidade do cálculo econômico — torna-se inconcebível”. Somente na economia de mercado era possível um uso descentralizado de todo o conhecimento existente na sociedade para uma formação eficaz do sistema de preços, sem o qual o socialismo, na prática, se transforma em um “caos planejado”.

A crítica de Mises ao planejamento central socialista resultou em uma tempestade de controvérsias entre os economistas, primeiro no mundo de língua alemã e depois na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Os sonhos socialistas de um mundo livre do capitalismo pareciam ter sido despedaçados. Seus defensores se contorceram e se esforçaram, tentando “refutar” o argumento de Mises sobre a impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo sem um sistema de preços.

Planejamento central e socialismo de mercado

Mas, na década de 1930, começaram a surgir uma série de artigos e livros que afirmavam que um socialismo com sistema de preços não apenas era “possível”, como também poderia proporcionar todos os benefícios do planejamento racional sem o fardo de toda a injustiça social e exploração inerentes ao sistema capitalista. Oskar Lange (1904–1965), economista polonês que se mudou para os Estados Unidos em 1937 e se tornou professor de economia na Universidade de Chicago em 1938, foi o mais conhecido desses socialistas. Em um artigo dividido em duas partes, publicado em 1936–1937 na The Review of Economic Studies, intitulado “On the Economic Theory of Socialism” (Sobre a Teoria Econômica do Socialismo), Lange defendeu um sistema de “socialismo de mercado”.

Com ironia satírica, Lange iniciou seu artigo agradecendo a Mises por ter chamado a atenção dos economistas socialistas para o problema do cálculo econômico e declarou: “Tanto como expressão de reconhecimento pelo grande serviço por ele prestado quanto como lembrança da importância primordial de uma contabilidade econômica sólida, uma estátua do professor Mises deveria ocupar um lugar de honra no grande salão do Ministério da Socialização ou do Conselho Central de Planejamento do estado socialista”.

(Convém observar que Lange acabou se tornando um serviçal de Stalin, renunciando à cidadania americana que havia adquirido, servindo como o primeiro embaixador da Polônia comunista no período do pós-guerra nos Estados Unidos, participando ativamente das discussões sobre planejamento central na Polônia e, em alguns de seus trabalhos publicados sobre planejamento econômico, até a morte do tirano soviético em 1953, rastejando retoricamente em elogios efusivos e reverenciais a Stalin).

Lange aplicou a teoria microeconômica da “concorrência perfeita” para sustentar que o planejamento econômico racional e o uso dos recursos poderiam ser aplicados em um estado socialista com a mesma eficácia que em uma economia de mercado privada. Tudo o que seria necessário era o conhecimento das preferências dos consumidores por diversos bens e serviços finais; o conhecimento das quantidades disponíveis dos fatores de produção (terra, trabalho, recursos e capital) e de suas possibilidades tecnológicas; e os “termos de troca” nos quais esses fatores poderiam ser adquiridos em troca uns dos outros.

Ele afirmou que o conhecimento das preferências dos consumidores e da disponibilidade dos insumos de produção poderia ser conhecido pelos planejadores socialistas com a mesma facilidade com que se supunha ser conhecido pelos empresários privados em uma economia de mercado. A coleta estatística de todos esses “dados”, declarou Lange, seria prontamente obtida. No modelo de concorrência perfeita, pressupunha-se que cada demandante e ofertante em cada mercado era pequeno demais, como comprador ou vendedor, para influenciar individualmente os preços de mercado de tudo o que comprava ou vendia. Assim, tomavam os preços encontrados no mercado como “dados” e simplesmente decidiam quais quantidades adquirir como consumidores e quais produtos pareciam ser lucrativos, ou não, como produtores, bem como qual combinação de insumos minimizaria seus custos na produção de qualquer produto escolhido.

Nos mercados, se oferta e demanda não estivessem equilibradas (em “equilíbrio”), havendo excesso de oferta ou escassez, então os preços de mercado seriam simplesmente ajustados na direção apropriada — seja um preço mais baixo para eliminar um excedente, seja um preço mais alto para superar uma escassez — de modo a restaurar ou estabelecer o equilíbrio dentro dos mercados e entre eles. Tudo isso seria apenas um exercício matemático de “resolver” uma série de equações de oferta e demanda.

Em vez de proprietários privados dos meios de produção, as empresas nacionalizadas seriam supervisionadas por gestores nomeados pelo estado. As agências de planejamento central inicialmente fixariam os preços pelos quais os bens finais poderiam ser comprados ou vendidos e os preços dos recursos pelos quais os gestores das empresas estatais poderiam adquirir ou contratar os fatores de produção, incluindo o trabalho. Os gestores seriam orientados a escolher as combinações de trabalho, capital e outros recursos que minimizassem seus respectivos custos de produção em relação ao preço de venda previamente estabelecido para o bem de consumo que estivesse sendo fabricado.

Inventários periódicos dos bens de consumo disponíveis e dos insumos de produção indicariam se havia excedente ou escassez. As agências de planejamento, então, simplesmente ajustariam todos os preços nas direções necessárias (para cima ou para baixo) para colocar tudo em equilíbrio. Como se tratava de empresas estatais, não existiriam mais empreendedores e empresários privados decidindo quais novos investimentos de capital deveriam ser realizados para a produção futura. Em vez disso, em nome do “bem social”, os planejadores centrais determinariam as direções finais do crescimento e do desenvolvimento econômico futuros, em vez de qualquer incentivo privado baseado no interesse próprio e no lucro.

As críticas de Hayek ao socialismo de mercado

Mises não apresentou diretamente sua própria resposta aos argumentos formulados por Oskar Lange e outros defensores do socialismo de mercado até a publicação de seu grande tratado Ação Humana, em 1949. Em vez disso, a resposta mais significativa foi oferecida por Friedrich Hayek em seu artigo “Economic Calculation: The Competitive ‘Solution’” (Cálculo Econômico: a “Solução” Competitiva), publicado na Economica em maio de 1940. Hayek observou:

“Parece, então, que… as críticas dirigidas aos esquemas socialistas anteriores foram tão bem-sucedidas que seus defensores, com poucas exceções, sentiram-se compelidos a se apropriar do argumento de seus críticos e foram forçados a construir esquemas inteiramente novos, nos quais ninguém havia pensado antes(…)

[Lange e outros] recorrem, até certo ponto, ao mecanismo competitivo para a determinação dos preços relativos. Mas eles(…) recusam-se a permitir que os preços sejam determinados diretamente no mercado e propõem, em vez disso, um sistema de fixação de preços por uma autoridade central, no qual o estado do mercado de uma mercadoria específica — isto é, a relação entre oferta e demanda — serve apenas como uma indicação para a autoridade sobre se os preços prescritos deveriam ser elevados ou reduzidos”.

É claro, em retrospecto, que foi o debate sobre o cálculo socialista, especialmente esses tipos de propostas de uma forma de socialismo de mercado, que levou tanto Mises quanto Hayek a perceber o quão distinta era a perspectiva “austríaca” sobre o processo de mercado em relação à abordagem microeconômica mainstream ou neoclássica emergente, tal como refletida no modelo de concorrência perfeita da economia de mercado. De fato, a crítica de Hayek à proposta de Lange é, na realidade, uma crítica a grande parte daquilo que o modelo de concorrência perfeita pressupunha.

Quando Lange afirmou que todo o conhecimento necessário sobre as preferências dos consumidores, a disponibilidade de recursos e os potenciais tecnológicos seria tão prontamente conhecido por um planejador socialista quanto por empresários privados sob o capitalismo, Hayek perguntou: a quem e de que maneira todos esses “dados” são fornecidos? Partes de todo esse conhecimento são conhecidas por pessoas diferentes, realizando atividades diferentes, em momentos diferentes, em lugares diferentes e para propósitos diferentes. Esse conhecimento não é facilmente coletável em uma forma estatística e quantitativa simples, de modo que os planejadores possam conhecer todas as circunstâncias sutis de um ambiente social em constante mudança e, então, de maneira simples e periódica, ajustar os preços para cima ou para baixo, de modo que todos os demais membros da sociedade se adaptem passivamente e ajustem seu comportamento para garantir um equilíbrio econômico planejado centralmente.

Além disso, precisamente porque os planejadores centrais não conseguem saber tudo o que está ocorrendo e mudando nos diferentes cantos da economia, eles dependem de levantamentos periódicos dos estoques de bens e recursos e dos desequilíbrios entre oferta e demanda. Com base nisso, as autoridades de planejamento realizam seus respectivos ajustes de preços, aos quais todos os demais participantes do mercado reagem e, então, modificam aquilo que estão fazendo.

Mas essa exigência mostra o quanto um sistema desse tipo de socialismo de mercado seria menos eficaz e menos eficiente, precisamente porque os ajustes de preços necessários não podem ser conhecidos nem implementados até que os planejadores adquiram os “dados” requeridos. Por outro lado, no mercado livre privado e competitivo, os indivíduos, em seus respectivos cantos do mercado, podem decidir como melhor se adaptar e modificar rapidamente aquilo que estão fazendo, enquanto o sistema de socialismo de mercado de Lange estaria sempre defasado em relação a quaisquer circunstâncias novas e em mudança.

Além disso, justamente porque a propriedade privada e o uso dos meios de produção teriam sido abolidos, deixariam de ser os empreendedores em busca de lucro a direcionar o capital existente e o capital recém-formado para direções diferentes e alteradas com base em suas estimativas da demanda futura dos consumidores. Em vez disso, seriam os valores e as preferências dos planejadores centrais que determinariam como a economia deveria se desenvolver e sob quais formas.

A divisão e a busca do conhecimento na sociedade

As reflexões de Hayek sobre essas questões culminaram em seu artigo de 1945, O Uso do Conhecimento na Sociedade. Ele afirmou que, se todo o conhecimento relevante necessário para assegurar uma coordenação plenamente eficiente de todas as atividades de produção e consumo estivesse disponível a uma única mente ou a um grupo de mentes, o problema do planejamento econômico racional seria pouco mais do que um exercício lógico e matemático destinado a determinar as condições necessárias e contínuas de equilíbrio geral, dentro e entre todos os mercados de bens de consumo, bem como o uso mais econômico dos meios de produção. No entanto, esse conhecimento não existe e não pode ser centralizado da forma como muitas vezes se presume possível nas discussões sobre as possibilidades do planejamento central socialista. Disse Hayek:

“O caráter peculiar do problema de uma ordem econômica racional é determinado precisamente pelo fato de que o conhecimento das circunstâncias das quais fazemos uso nunca existe de forma concentrada ou integrada, mas apenas como fragmentos dispersos de conhecimento incompleto e frequentemente contraditório que todos os indivíduos separados possuem(…). Trata-se, antes, de um problema de como assegurar o melhor uso dos recursos conhecidos por quaisquer membros da sociedade, para fins cuja importância relativa apenas esses indivíduos conhecem. Ou, para dizê-lo brevemente, é um problema da utilização de um conhecimento que não é dado a ninguém em sua totalidade”.

Parte da confusão, sugeriu Hayek, reside no que as pessoas frequentemente querem dizer quando se referem ao “conhecimento” na sociedade. Com demasiada frequência, o conhecimento em questão é aquilo que poderia ser chamado de “conhecimento científico”, o tipo de conhecimento que pode ser aprendido e compartilhado, em princípio, por qualquer pessoa por meio do estudo e da comunicação. Por exemplo, o conhecimento que pode ser descoberto por meio do estudo da física, da química ou da biologia, ou ainda da engenharia, do direito ou da medicina. Embora exista aprendizado prático em todos esses campos, o núcleo desse tipo de conhecimento é inteiramente coletável e compartilhável por meio do acesso a livros-texto e do aprendizado formal.

Hayek destacou que, evidentemente, todo esse conhecimento é crucial para grande parte do que acontece na sociedade. Ele faz parte da divisão do conhecimento que complementa a divisão do trabalho na sociedade. Se alguém necessita da assistência de um advogado ou de um neurocirurgião, é útil que essas pessoas tenham adquirido todo o conhecimento relevante, tanto teórico quanto prático, para prestar adequadamente seus serviços especializados. O mesmo vale ao contratar um engenheiro para planejar a construção de uma ponte ou um químico para preparar um composto medicinal.

Mas o ponto de Hayek era que esse não é o único, nem necessariamente o mais relevante, tipo de conhecimento envolvido em grande parte do que ocorre diariamente, em circunstâncias em constante mudança, para assegurar uma adaptação e um ajuste eficazes e eficientes às transformações contínuas da vida econômica.

Tão importante quanto, se não mais importante, disse Hayek, é o conhecimento localizado no tempo e no espaço. Trata-se do conhecimento que uma pessoa aprende e possui apenas nas circunstâncias cotidianas dos cantos da sociedade em que vive e trabalha. Costumo dizer a meus alunos que imaginem que se formaram e estão agora em seu primeiro dia em um emprego de nível inicial. Eles recebem um documento e são instruídos a fazer “x” cópias para uma reunião da equipe sênior dentro de duas horas. Mas onde está a máquina de fotocópias, em que sala do escritório? E se eles a encontrarem, mas, ao colocarem os originais na máquina e apertarem o botão de iniciar, nada acontecer? Suponha que outro funcionário perceba a dificuldade e diga que a máquina tem um mau contato em algum ponto interno, e que um técnico virá consertá-la no dia seguinte. Mas, se você chutar a máquina no lugar certo na lateral, o contato é restabelecido e as cópias serão feitas.

Em que livro-texto você teria aprendido que, nesse negócio específico, nesse dia específico, a máquina de fotocópias não estaria funcionando, mas ainda poderia ser feita funcionar até o dia seguinte, quando o técnico ou consertaria o problema ou substituiria a máquina? No entanto, a vida cotidiana é composta exatamente desse tipo de questões aparentemente triviais e banais.

Considere outro exemplo: você ocupa um cargo de gestão na empresa. Um funcionário liga dizendo que está doente e não retornará ao trabalho por pelo menos dois ou três dias. Quem você coloca em seu lugar para executar sua função enquanto ele está afastado? Quem conhece suficientemente bem o trabalho dele, em nível de detalhe adequado, para cobri-lo até que retorne? E quem ajuda a cobrir a pessoa que está cobrindo o funcionário que adoeceu? Afinal, o fato de um empregado estar doente não altera a necessidade de que a produção continue, os pedidos sejam atendidos e os clientes permaneçam satisfeitos, para que a empresa não perca seus negócios.

Como empresário ou empreendedor, você precisa saber o que os consumidores desejam, como seus gostos e preferências podem ou não ter mudado em relação às qualidades e características que procuram em um determinado bem, ou quanto ao preço que podem estar dispostos a pagar, ou ainda à quantidade que podem adquirir a um certo preço. É necessário avaliar como clientes potenciais podem reagir a um produto novo ou significativamente aprimorado. É igualmente essencial antecipar como os concorrentes na disputa pelos consumidores reagirão às mudanças em seu produto e em seus preços, e o que eles podem estar planejando iniciar para fortalecer sua própria posição de mercado em relação à sua.

Além disso, uma parte significativa desse conhecimento rotineiro e localizado no tempo e no espaço inclui habilidades e capacidades cujo conteúdo completo não é facilmente articulável, seja por escrito ou oralmente, para ser explicado a outras pessoas. Por exemplo, seu carro apresenta algum problema no motor. Você o leva ao mecânico; ele escuta o motor e lhe diz para voltar em algumas horas, pois o carro estará funcionando como novo. Se você lhe pedir que explique como sabe qual é o problema apenas ouvindo o motor, ele lhe dirá que trabalha com esse tipo de carro há anos e simplesmente sabe qual é o defeito. O que é mais importante: que ele consiga explicar o problema com precisão ou que ele devolva seu carro à estrada funcionando como novo?

Existem formas de conhecimento inarticulável que são essenciais no dia a dia para realizar tarefas e resolver problemas e que são utilizadas por aqueles que as possuem ou, caso contrário, são utilizadas de maneira ineficaz ou até mesmo perdidas, justamente porque nunca podem ser plenamente expressas em formas transmissíveis aos planejadores centrais, de modo que estes saibam o que pode ser feito, por quem e de que maneira.

Todos esses tipos de conhecimento e experiências decorrentes de circunstâncias mutáveis são conhecidos e descobertos apenas por aqueles que ocupam seus respectivos papéis e posições nos diferentes cantos do sistema social de divisão do trabalho, na busca por oportunidades positivas de mercado e lucro. Grande parte disso depende de julgamentos e interpretações de situações existentes e em transformação que não podem ser facilmente reduzidos a medições “objetivas” ou a explicações completamente articuláveis sobre como e por que o mercado está mudando, que é exatamente o que o agente individual faz em seu lugar específico no mercado. Além disso, mudanças grandes e pequenas ocorrem potencialmente o tempo todo, às quais o agente individual precisa se adaptar de forma tão imediata e adequada quanto possível.

O sistema de preços de mercado e a coordenação econômica

O argumento de Hayek era que tentar transmitir todas essas informações e conhecimentos às autoridades de planejamento central e aguardar que elas os digerissem e decidissem quais deveriam ser as respostas faria com que essas informações chegassem tarde demais e de forma demasiadamente incompleta aos planejadores de níveis mais baixos, incapazes, assim, de assegurar a coordenação contínua e necessária de todas as ofertas e demandas do mercado que seriam requeridas.

Isso, disse Hayek, é o benefício e a utilidade do sistema de preços de mercado. Não é necessário que todos os participantes do mercado se conheçam entre si em um sistema global e interdependente de divisão do trabalho, nem que conheçam as razões e os propósitos específicos por trás do desejo de qualquer indivíduo por determinado bem ou serviço. Tampouco é necessário que todos possuam conhecimento sobre como e por que outros indivíduos desejam contratar, adquirir ou utilizar recursos específicos, tipos de trabalho ou formas de bens de capital pelo lado da oferta do mercado.

Todas as informações essenciais e mínimas de que os indivíduos precisam para tentar se adaptar e coordenar, de forma eficaz e bem-sucedida, tudo o que estão fazendo com as ações dos demais no mercado tornam-se possíveis por meio do sistema de preços estabelecido competitivamente. É suficiente, raciocinou Hayek, que as pessoas expressem suas demandas e seus custos de oportunidade estimados por meio dos preços aos quais estão dispostas a comprar algo e dos preços aos quais estão dispostas a produzir e ofertar algo. Cada mudança em qualquer preço de insumo ou de produto envia um sinal ao mercado como um todo sobre uma mudança nas ações de alguém, em algum lugar, à qual os indivíduos relevantes em outras partes do mercado precisam se adaptar e responder em suas próprias ações.

Isso reforçou a importância da liberdade individual e de mercado, para que todos possam estar livres para usar o conhecimento que possuem e dominam de maneiras que outros jamais poderiam, de modo que terceiros possam se beneficiar daquilo que essas pessoas sabem e da melhor forma de utilizá-lo da maneira mais oportuna possível. Assim, o “conhecimento acumulado do mundo” é colocado à disposição e ao uso de todos, em vez de ficar limitado e dependente daquilo que um pequeno grupo de planejadores centrais pode jamais conhecer e utilizar de maneira eficaz em qualquer período de tempo determinado. Ou, como Hayek expressou isso:

“Devemos olhar para o sistema de preços como um mecanismo de comunicação de informações, se quisermos compreender sua verdadeira função(…). O fato mais significativo desse sistema é a economia de conhecimento com que ele opera, ou quão pouco os participantes individuais precisam saber para poderem tomar a ação correta(…)

assombroso é que, em um caso como o da escassez de uma matéria-prima, sem que qualquer ordem seja emitida, sem que mais do que talvez um punhado de pessoas conheça a causa, dezenas de milhares de indivíduos, cuja identidade não poderia ser determinada nem após meses de investigação, sejam levados a utilizar o material ou seus produtos de forma mais parcimoniosa; isto é, eles se movem na direção correta”.

Estou convencido de que, se ele [o sistema de preços] fosse o resultado de um projeto humano deliberado, e se as pessoas orientadas pelas mudanças de preços compreendessem que suas decisões têm um significado muito além de seus objetivos imediatos, esse mecanismo teria sido aclamado como um dos maiores triunfos da mente humana.

A inteligência artificial não é substituta da mente humana

Hoje, alguns sugerem que os argumentos de Hayek já não são tão convincentes, dado o desenvolvimento e a aplicação do “big data” e da inteligência artificial (IA). Certamente, afirma-se, com a capacidade de coletar e utilizar rapidamente quase qualquer quantidade de informação mensurável por meio da ciência da computação moderna, e com a capacidade da IA de digerir, integrar, analisar e interpretar todo esse vasto conhecimento em uma velocidade superior à capacidade de qualquer mente individual ou mesmo de um grupo de mentes, teria sido encontrada uma solução para o “problema do conhecimento” de Hayek.

Mas, se refletirmos um pouco mais profundamente, a IA não oferece a técnica capaz de tornar o planejamento socialista possível. Por mais rápida que seja a capacidade computacional e informacional da IA, ela ainda fica atrás de diversos elementos humanos inescapáveis dos quais a própria IA depende. Primeiro, qualquer conhecimento compartilhado com a IA precisa, antes, ser conhecido por alguém que tenha vivenciado a descoberta de alguma nova circunstância no mercado, por mais profunda ou aparentemente insignificante que seja, antes que possa ser compartilhado com a IA. Assim, a IA continua defasada em relação à descoberta humana de novas circunstâncias.

Mesmo que essa defasagem não seja considerada de grande relevância diante da rápida capacidade da IA de absorver as mudanças da vida cotidiana descobertas pelos seres humanos, ainda permaneceriam os aspectos imensuráveis e não quantificáveis do processo de mudança na descoberta, na interpretação e nos usos imaginados de novos conhecimentos. Assim, a IA jamais poderá possuir a mesma dimensão sutil e qualitativa no uso do conhecimento na sociedade, dimensão essa que permanece exclusivamente “humana”. E nenhum “cérebro” computacional pode conhecer ou antecipar os pensamentos e ideias novos e originais que só podem surgir da mente humana e dos quais emerge toda mudança real. Quaisquer supostas novas “ideias” que a IA possa produzir a partir das informações contidas em seus bancos de dados seriam as supostas “ideias” do computador. Elas seriam sempre diferentes daquelas que provêm dos bilhões de mentes humanas espalhadas por todos os cantos do mundo.

Assim, o problema do conhecimento de Hayek permaneceria: a liberdade das pessoas para usar suas próprias mentes à sua própria maneira, à medida que descobrem e interpretam seu conhecimento do mercado, versus o “cérebro” computacional de IA do planejador central, antecipando-se às pessoas e passando a comandá-las?

Este artigo foi originalmente publicado no site da Future of Freedom Foundation (FFF).

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O uso do conhecimento na sociedade

A pretensão do conhecimento

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2 comentários em ““O uso do conhecimento na sociedade”, de F.A. Hayek, 80 anos depois”

  1. Adiciono mais um argumento em relação à questão da IA: hoje há pessoas que criticam o Bitcoin por supostamente gastar muita energia (mesmo sendo um meio de pagamentos que é muito mais econômico do que todas as agências bancárias do mundo somadas), e já existe um debate sobre o gasto de energia das IAs. Imaginem o absurdo de poder computacional necessário pra sequer tentar processar todos os dados de uma economia no detalhe, e consequentemente, a energia necessária pra isso. Não faz o menor sentido tentar criar uma “economia artificial” se o livre mercado já resolve o problema da forma mais eficiente conhecida pelo homem.

  2. Ano que vem os bancos americanos vão estar EMITINDO Seus PRÓPRIOS Dólares

    O GENIUS Act permitirá bancos Americanos emitirem suas próprias stablecoins lastreados em dolar e controlados via FED. Isso vai aumentar ainda mais a inflação nso EUA>

    https://www.fdic.gov/news/press-releases/2025/fdic-approves-proposal-establish-genius-act-application-procedures-fdic

    https://www.tradingview.com/news/cointelegraph:51f870b8e094b:0-us-banks-may-soon-issue-stablecoins-under-fdic-plan-to-implement-genius-act/

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