Talvez no século XIX fizesse algum sentido em falar em ação de indivíduo contra empresa, a época em que Rothbard escreveu suas ideias, mas no século XX/XXI, onde o poder corporativo se desenvolveu até se tornar paralelo, é enganoso afirmar que os interesses de um ou mais civis podem se contrapor aos danos de grandes grupos.

Talvez podemos dizer que os escritos de Rothbard a esse respeito são antiquados desde que Lewis F. Powell Jr. saiu do quadro diretivo de uma empresa de tabaco e entrou no sistema judiciário americano agindo como conselheiro para o órgão de lobby da indústria de cigarros, e com uma mentalidade de ativismo "pró-liberdade de empreendimento", conseguiu evitar por décadas que as empresas admitissem que seus produtos tem alto potencial danoso à saúde e se responsabilizassem por isso.

As ações de Powell em prol do enriquecimento livre transformou empresas em"entes jurídicos" capazes de influenciar as leis de forma que os interesses de uma empresa passassem a ter o peso do interesse civil, como se o interesse de enriquecer tivesse o mesmo peso ou legitimidade do interesse de bem-viver e portanto devesse ter a mesma liberdade, como se a atividade comercial pudesse ser comparada à própria vida e a falência de uma companhia pudesse ser comparada à morte.

Os ideais que se suportam no discurso de que a defesa da propriedade privada é tudo o que se precisa para o bom funcionamento das liberdades civis carecem de explicações teóricas sobre como seria possível garantir essa proteção, uma vez que o estado, sendo máximo ou mínimo, fica sujeito ao poder privado e inevitavelmente é distorcido, sobrando a esfera civil como prejudicada.

A dúvida é, se a ideologia algumas vezes se baseia na ideia de que os seres humanos agem para o próprio interesse, como seria possível evitar que o corpo judiciário e as corporações não negociassem entre si, em causa própria, tornando-se o novo mecanismo de cerceamento de liberdade civil? Algumas vezes li que bastaria concorrência entre tribunais, mas não sei como isso poderia evitar o auto-interesse e garantir a independência das diferentes cortes. Em nenhum dos cenários (de mais ou menos estado) a corrupção (ou seria apenas auto-interesse) poderia ser evitada.

Então, quanto ao tema realmente da poluição, fica um tanto descreditado pela experiência histórica que haveria alguma forma de contê-la com qualquer uma das "opções" discutidas aqui, envolvam elas regulações estatais ou não. Nenhum dos lados que a produzem (ou permitem) tem interesse específico em barrá-la, e os que tem interesse não possuem poder para fazê-lo.

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