04/12/2009 00:00  por  Leandro Roque \  política

Está difícil conseguir agendar alguma entrevista com Al Gore depois da ocorrência daquilo que, numa alusão ao caso Watergate, vem sendo chamado de Climategate: vazamento dos e-mails que comprovam que os cientistas adulteraram dados climáticos com o intuito de "comprovar" a existência do aquecimento global.

A última notícia é que o valente desistiu de proferir sua palestra durante a conferência climática a ser realizada em Copenhague no dia 16 de dezembro.  O título de seu discurso era auspicioso: "Conclusão Climática". 

Depois do escândalo, a conclusão sensata de Gore é que agora não é exatamente o momento mais propício para convencer o mundo a abandonar seus automóveis e voltar às carroças e aos cavalos - embora alguns digam que a flatulência dos equinos também seja causadora do aquecimento global.

É tão patético que chega a ser cômico; mas é algo a ser comemorado.  Como de praxe, a imprensa nacional está silenciosa - afinal, não é elegante mostrar a covardia de seu garoto modelo -, o que nos obriga a recorrer a links estrangeiros.

Alguns dados da reportagem:

1)  Gore dá no pé sempre que algum cientista descrente da antropogenia do aquecimento global tenta lhe fazer alguma pergunta.  Isso foi mostrado no documentário A grande farsa do aquecimento global (legendado em português).

2)  Uma corte britânica decretou que havia 11 erros factuais no documentário gorista Uma verdade inconveniente, que ainda assim ganhou o Oscar de 2007 (importantíssimo, uma vez que o pessoal de Hollywood é inegavelmente douto em aspectos científicos) e lhe rendeu o Nobel da Paz (prêmio que esse ano foi concedido a Obama, o homem que acaba de mandar mais 35 mil tropas para trucidar afegãos que se recusam a seguir ordens estrangeiras).

3)  Em novembro, vários erros também foram descobertos no recém-lançado livro de Gore.  A coisa é tão escabrosa que as gafes já começam na capa.

4)  Durante uma sessão de autógrafos do referido livro, alguns céticos se atreveram a perguntar a Gore o que ele achava do escândalo do Climategate.  O valente simplesmente acionou seus gorilas, que empurraram e expulsaram da sessão os inoportunos questionadores - para deleite de alguns membros do rebanho presente, que não admitem que Sua Eminência seja questionada.  Veja o vídeo e observe o comportamento altivo do político, perfeitamente cônscio de seu poder manipulador enquanto masca sobranceiramente seu chiclete - um produto que, aliás, demora mais de 5 anos para ser absorvido pela natureza.

5) Na terça-feira passada, o Senado da Austrália derrubou uma proposta de lei para reduzir suas emissões de carbono.  Os australianos estão entre os povos mais céticos do mundo quanto ao alarmismo aquecimentista.

6) Semana passada, o professor Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia, sede do maior programa meteorologista dos EUA, foi "colocado sob investigação" depois que se descobriu em seus e-mails que ele gostava de praticar "truques" para alterar dados antigos a fim de fazer com que as temperaturas pesquisadas parecessem mais cálidas do que de fato eram.  Curiosamente, esses antigos dados originais foram apagados, impossibilitando qualquer procedimento científico sério.  Se essa gente não pode ser classificada como bandida, então estão faltando adjetivos novos na praça.

7) Phil Jones, diretor da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade East Anglia e outro adepto dos "truques", foi afastado do seu cargo por causa de investigações em seu envolvimento na fraude.

Nunca foi tão difícil ser um crente na nova religião do Aquecimento Global.


01/12/2009 00:00  por  Rodrigo Constantino \  economia

A revista VEJA desta semana tem uma matéria sobre o livro Scroogenomics, do economista americano Joel Waldfogel, bem interessante. Em todo Natal bilhões de dólares são destruídos no mundo todo. "A cada dezembro, presentes ruins transformam em pó algo em torno de 25 bilhões de dólares ao redor do mundo", diz. "Isso faz do Natal uma das mais formidáveis máquinas de destruição de valor já criadas pela humanidade". Eis a passagem que merece destaque:

"A ideia central de Waldfogel tem a ver com o conceito de valor - que é diferente do de preço. O valor de um produto tem algo de subjetivo. Está relacionado à satisfação que ele proporciona. Um gasto é bom para o consumidor final quando a satisfação obtida com o produto excede o preço pago. Na situação inversa, destrói-se valor. Embora às vezes a percepção de nossos próprios interesses possa ser turvada, de maneira geral, diz Waldfogel, quando saímos de casa para comprar uma roupa ou um CD, sabemos escolher direito. Mas, quando outras pessoas escolhem por nós, a relação entre valor e preço fica negativa."

Desde Carl Menger sabemos que o valor é subjetivo. Esse é um dos pilares mais importantes da Escola Austríaca, fundada por Menger. Partindo dessa lógica, fica até bastante óbvio concluir que presentes de Natal acabam destruindo valor. Afinal, o preço pago por quem compra o presente dificilmente será equivalente ao valor extraído por quem o recebe. Se a própria pessoa pudesse escolher, usando a mesma quantia, sem dúvida saberia melhor o que ela mesma prefere. Por isso os "vale-presentes" estão ficando mais comuns, apesar de parecerem mais "frios".

"Dar dinheiro seria mais simples, mas na maioria dos países há um estigma associado aos presentes em dinheiro. Em certas situações, eles são considerados até mesmo rudes", diz Waldfogel. Mas isso não muda o fato de que seria mais eficiente, do ponto de vista do valor gerado para a sociedade.

Faltou apenas à reportagem concluir o óbvio, indo além na mesma lógica: não apenas presentes de Natal destroem valor, mas - e principalmente, os gastos públicos são as verdadeiras máquinas de destruição de valor! No caso do presente, ainda temos a boa intenção de quem compra, que conhece o beneficiário e deseja agradá-lo. Mesmo assim não há garantia de sucesso. Mas no caso dos gastos do governo a situação é muito pior. Não só quem gasta não se importa muito com quem supostamente recebe os benefícios dos gastos, como não é ele quem paga a conta.

Os gastos do governo são problemáticos justamente por esta característica: governantes vão às compras usando o dinheiro da "viúva", retirado na marra, sem consentimento, e não estão muito preocupados com os benefícios gerados por tais gastos. Não são santos, afinal de contas, mas indivíduos que buscam a satisfação de seus próprios interesses. Na verdade, existe um grande incentivo à corrupção, quando governantes gastam o dinheiro dos outros com si próprios. Até um carro oficial para levar uma cadela sozinha pode resultar disso!

Se o presente de Natal pode ser ruim para a economia, como tenta mostrar Waldfogel, imagine o grande presente de Grego que é o gasto público!    

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Eis a reportagem na íntegra:

O economista que não gosta de presentes

Em Scroogenomics, o americano Joel Waldfogel afirma que encher
a árvore de Natal de pacotes coloridos é uma maneira segura
de destruir riquezas. Mais exatamente, 25 bilhões de dólares por ano


Por Carlos Graieb

natal1.jpgTodo Natal, o constrangimento se repete em incontáveis lares. O parente que há muito não vemos nos dá um presente. Rasgamos o papel e, de imediato, nosso rosto se congela num sorriso amarelo. Enquanto fingimos gratidão e procuramos mentalmente um espaço no fundo do armário para aquele tricô esquisito, o presenteador se consola com a ideia de que, bem, valeu a intenção. E a família bebe um gole a mais para relaxar. Sob os olhos do economista americano Joel Waldfogel, contudo, essa pequena comédia doméstica, replicada ad nauseam, tem consequências nada menos do que desastrosas. Ele afirma ter desvendado o significado econômico de todos aqueles sorrisos amarelos. "A cada dezembro, presentes ruins transformam em pó algo em torno de 25 bilhões de dólares ao redor do mundo", diz. "Isso faz do Natal uma das mais formidáveis máquinas de destruição de valor já criadas pela humanidade." Para explicar como isso acontece, Waldfogel redigiu um inusitado panfleto antinatalino, batizado com o título intraduzível de Scroogenomics. Mas o subtítulo do livro, por enquanto só lançado nos Estados Unidos, é bem direto: "Por que você não deve comprar presentes para o fim de ano".

Scroogenomics faz referência a Ebenezer Scrooge, talvez o mais conhecido entre os muitos personagens antológicos criados pelo escritor inglês Charles Dickens. Ele é o protagonista de Um Conto de Natal (uma nova versão da história, em desenho animado, está em cartaz nos cinemas brasileiros com a assinatura da Disney) e seu traço fundamental de caráter é o pão-durismo. Mas Scrooge é pior que avaro. Um espírito ressecado, ele olha os homens com a mais profunda desconfiança. "Bah! Tapeação!" É assim que ele enxerga as festividades natalinas, que não se importaria em abolir: "Se dependesse de mim, todo idiota que anda por aí com um 'feliz Natal' nos lábios seria enterrado com uma estaca de azevinho no coração". Obviamente, o título Scroogenomics foi adotado como brincadeira (e para ecoar Freakonomics, o maior best-seller do filão recém-criado da economia popular). Waldfogel não defende a abolição do Natal.

Scroogenomics tampouco é uma condenação moral ou política do consumismo. A primeira aparece com frequência no discurso dos líderes religiosos. No ano passado, por exemplo, o papa Bento XVI saudou a crise financeira mundial como oportunidade para que a humanidade se desvencilhasse da "praga consumista e materialista" e reencontrasse os valores espirituais ligados ao Natal. A condenação política pertence ao repertório da esquerda: aprisionado na jaula do consumo irracional, o trabalhador se esqueceria de lutar por sua própria causa, a saber, a superação da sociedade capitalista. "Minha preocupação não é com os níveis de gasto e consumo no Natal, mas com o fato de que gastamos de maneira ineficiente", disse o autor a VEJA.

A ideia central de Waldfogel tem a ver com o conceito de valor - que é diferente do de preço. O valor de um produto tem algo de subjetivo. Está relacionado à satisfação que ele proporciona. Um gasto é bom para o consumidor final quando a satisfação obtida com o produto excede o preço pago. Na situação inversa, destrói-se valor. Embora às vezes a percepção de nossos próprios interesses possa ser turvada, de maneira geral, diz Waldfogel, quando saímos de casa para comprar uma roupa ou um CD, sabemos escolher direito. Mas, quando outras pessoas escolhem por nós, a relação entre valor e preço fica negativa.

Ao longo de vários anos, Waldfogel submeteu grupos de alunos a um questionário sobre o valor que atribuíam a presentes recebidos no Natal. Fez isso não só nos Estados Unidos, mas também em países como Suécia, Espanha e Brasil. Finalmente, um número emergiu da pesquisa: de maneira consistente, as pessoas davam aos presentes recebidos um valor 18% menor do que o preço pago. Dito de outra forma: se fosse comprar a gravata estampada que titia lhe deu, você pagaria cerca de 80 reais - e não os 100 reais que ela de fato desembolsou. Waldfogel chegou à cifra de 25 bilhões de dólares em "valor destruído" ao redor do mundo calculando os gastos natalinos dos trinta países da OCDE. Chegou a quase 145 bilhões de dólares e aplicou a esse montante sua regra dos 18%.

Para deter essa "orgia de destruição", Scroogenomics propõe soluções nobres, como as doações para caridade em nome do presenteado, ou pragmáticas, como a disseminação do uso de vales-presente. "Dar dinheiro seria mais simples, mas na maioria dos países há um estigma associado aos presentes em dinheiro. Em certas situações, eles são considerados até mesmo rudes", diz Waldfogel. Os vales contornam, em parte, esse mal-estar - além de dar maior poder de escolha ao presenteado. Finalmente, as cartinhas ao Papai Noel não são uma má ideia. "E com isso espero provar que não sou contra o Natal", afirma Waldfogel. "Apenas contra dar os presentes errados."


30/11/2009 00:00  por  Frank Shostak \  economia

Na quarta-feira passada, Dubai anunciou que iria pedir aos credores da Dubai World - o conglomerado estatal por detrás da rápida expansão imobiliária ocorrida naquele emirado (a entidade construiu o prédio mais alto do mundo) - e da Nakheel - a construtora das Palm Islands, as famosas ilhas em formato de palmas - para que aceitassem uma suspensão do pagamento das dívidas por seis meses.

Alguns comentaristas creem que os bancos que emprestaram dinheiro para o Dubai World poderiam sofrer prejuízos substanciais caso a empresa realmente dê o calote em toda a sua dívida de $59 bilhões - ou mesmo em parte dela.  A dívida total de Dubai está em $80 bilhões.  Se os credores rejeitassem as propostas de adiar o pagamento da dívida por seis meses, o governo de Dubai poderia ser forçado a fazer uma liquidação dos ativos imobiliários internacionais que possui.

Já alguns analistas creem que é improvável que outros emirados dos EAU - Emirados Árabes Unidos -, como Abu Dhabi, sejam afetados significativamente pela crise de Dubai, uma vez que os recursos financeiros destes advêm das exportações de petróleo e gás.

Mas o principal fator por detrás dessa crise é a política monetária expansionista adotada pelo banco central dos EAU.  A base monetária, após fechar outubro de 2006 com um crescimento anual de 4%, pulou para um crescimento anual de 177% já em dezembro de 2007.  Como consequência dessa enorme injeção monetária, a taxa de crescimento anual da oferta monetária verdadeira - também chamada de OMA[*] - saltou de 6% em outubro de 2006 para 62% em abril de 2008.

[*]A OMA - Oferta Monetária Austríaca, também chamada de oferta monetária verdadeira - foi formulada por Murray Rothbard e representa a quantidade de dinheiro na economia que está prontamente disponível para transação. A vantagem da OMA sobre as medidas convencionais é que ela considera apenas o dinheiro que está imediatamente disponível para transação e não faz contagem dupla. A OMA consiste nos seguintes agregados: o componente em espécie de M1, o total de depósitos à vista, os depósitos em poupança, os depósitos a vista do governo, os depósitos à vista em nome de bancos comerciais estrangeiros e os depósitos à vista em nome de instituições oficiais estrangeiras.

Essa maciça injeção monetária estimulou o surgimento de várias atividades que não teriam surgido caso não tivesse havido essa injeção.  Ou seja: tais atividades não poderiam se manter por conta própria sem essa crescente injeção monetária.

A partir de janeiro de 2008, o ritmo das injeções do banco central dos EAU começou a diminuir.  Já em janeiro de 2009, a taxa anual de crescimento da base monetária despencou para (-)36,5%, isto é, a base monetária estava 36,5% menor do que estava em janeiro de 2008.  Como consequência, a taxa anual de crescimento da oferta monetária verdadeira caiu para (-)12,5% já em julho desse ano, o que significa que em julho desse ano a oferta monetária estava 12,5% menor do que estava em julho de 2008. Veja os gráficos.

À esquerda: variação anual da base monetária (em relação ao mesmo mês do ano anterior)

À direita: variação anual da oferta monetária verdadeira (em relação ao mesmo mês do ano anterior)

uae-money.jpg

É justamente essa contração nas injeções monetárias que está atualmente colocando pressão sobre as várias atividades que surgiram em decorrência exatamente das volumosas injeções monetárias ocorridas anteriormente.

É de se esperar que outros emirados também não consigam escapar dos efeitos das políticas de expansão e contração praticadas pelo banco central - até porque, também nos outros emirados, essa política monetária frouxa estimulou o surgimento de novas e insustentáveis atividades econômicas, bem como a expansão das atividades que já existiam.  Como resultado do declínio das injeções monetárias pelo banco central, essas atividades também estão atualmente sob pressão.

Conclusão

Um possível calote dos dois grandes conglomerados estatais de Dubai causou preocupações nos mercados financeiros, que ficaram temerosos com a possibilidade de uma nova rodada de turbulência econômica global.  Dubai requisitou uma suspensão no pagamento de parte de sua dívida de $80 bilhões pelos próximos seis meses.  O principal fator por detrás da crise em Dubai é a clássica política de expansão e contração que foi praticada pelo banco central dos EAU.  A fenomenal expansão ocorrida em várias estruturas de Dubai ocorreu em grande parte como consequência da enorme injeção monetária praticado pelo banco central.

Assim, em dezembro de 2007, a taxa anual de crescimento da base monetária estava em 177%.  O estouro da bolha veio como consequência da forte contração ocorrida nas injeções monetárias.  Desde janeiro de 2008, o ritmo de injeções praticadas pelo banco central tem sido descendente.  Em janeiro desse ano, a taxa anual de crescimento da base monetária despencou para (-)36,5%, isto é, houve uma contração da base monetária.


27/11/2009 00:00  por  Rodrigo Constantino \  economia

Ontem as bolsas do mundo todo estremeceram quando a estatal Dubai World pediu mais prazo para pagar sua dívida bilionária. O default do governo argentino logo veio à mente de muitos. Os principais índices de ações da Europa caíram mais de 3%, e até o Ibovespa recuou mais de 2%. O emirado árabe de Dubai possui US$ 80 bilhões em dívidas, sendo quase US$ 60 bilhões só da Dubai World. O grosso dessa montanha de dinheiro foi usado para financiar um boom imobiliário que remete ao caso japonês da década de 1980. A liquidez de capital abundante no mundo, estimulada pelas taxas de juros artificialmente baixas, e a alta do preço do petróleo, sustentada por essa liquidez e pela demanda chinesa, explicam o clima de euforia em Dubai nos últimos anos.

Existem basicamente quatro tipos de bolhas: aquelas financiadas pelo mercado de capitais ou por crédito bancário; e aquelas em que o destino do dinheiro vai para investimentos produtivos ou para consumo. A pior combinação, naturalmente, é uma bolha financiada por crédito bancário para bancar uma orgia de gastos sem sentido. Eis exatamente o caso de Dubai. A bolha do Nasdaq foi o caso oposto, já que a origem do dinheiro foi o mercado de capitais e o destino foram investimentos em tecnologia que, mal ou bem, ficam depois do estouro, permitindo ganhos de produtividade. Foi uma bolha mais fácil de ser digerida. Já o caso de Dubai é diferente. Afinal, a grande fonte de recursos foram os bancos europeus, e o destino foram ilhas artificiais para celebridades, uma pista de ski no meio do deserto e o prédio mais alto do mundo - que Freud explica! Com a queda do castelo de areia, não sobra muita coisa produtiva.

Para os críticos do capitalismo liberal, será complicado culpar o bode expiatório preferido dessa vez. Afinal, uma bolha estimulada por políticas frouxas de bancos centrais e criada por gastos faraônicos de uma estatal poderosa não tem muito de livre mercado.

Leia também:

O que está por trás da crise financeira de Dubai

A ascensão e queda de Dubai: uma perspectiva austríaca



24/11/2009 00:00  por  Graça Varella \  filosofia

Quando me casei, levava comigo a certeza de que estava indo por um caminho onde os meus deveres não sufocariam os meus direitos de ter meus desejos e de lutar por eles. Desejos como prosseguir lado a lado com meu companheiro, mas ter como ele uma trajetória profissional com a melhora do meu curriculum e consequentemente da minha qualidade de vida, buscando sempre novos desafios. Uma vida onde a LIBERDADE caminhasse ao nosso lado.

Hoje fazendo uma análise da minha trajetória de vida, reconheço que me deixei levar pelas promessas do meu companheiro, promessas estas que nunca chegaram a ser cumpridas.

Enquanto casados, mudamos umas vinte e sete vezes, sempre indo ao encontro dos anseios dele. Seu trabalho exigia estas mudanças e eu fui seguindo-o, dando-lhe infra-estrutura, sempre com a esperança de que eu nesta mudança teria liberdade de dar os meus passos rumo ao meu crescimento.

Hoje tento encontrar o ponto onde deixei que ele dominasse minha vontade, porque eu sempre tive expediente para resolver qualquer problema que surgisse. E o que se tornou agora claro para mim é que ele usava da confiança que eu depositava nele em proveito próprio, fazia promessas e não as cumpria, usava de uma falsa bondade para com isto ir minando minha vontade própria. Delegava direitos que agora sei já estavam embutidos de muitos deveres. Enfim, foi me sufocando, me anulando e ficando com a fama de "Bonzinho", "perfeito" e qualquer resistência da minha parte seria taxada de rebelde sem causa já que, com tantos bônus, como eu poderia ser tão ingrata?

Enfim nosso casamento se acabou, pois ele encontrou, segundo suas próprias palavras, seu verdadeiro amor na pessoa de uma garota com a idade inferior à minha quando me casei com ele.

Me libertei? Imagine!

Qual não foi minha surpresa quando constatei que querem manter a mim e a todo cidadão presos, ignorantes, nulos e adormecidos como zumbis - zumbis sim, porque espero que acordemos todos antes que tenhamos todos os nossos direitos violados.

Minha indignação é porque:

Após a separação, fiquei com um imóvel que já era nosso e registrado. Ao passar para o meu nome e dos filhos, tive que pagar tantas taxas para a transferência, por volta de uns 5% do valor do imóvel, para que tivesse direitos de decisão sobre o mesmo - isto porque o pai dos meus filhos doou-lhes a parte dele. Sem contar que tenho que pagar uma taxa anual de IPTU para que o imóvel continue sendo meu e dos meus filhos.

Com dificuldades, minha filha comprou um carro para conseguir chegar ao término da faculdade, porque a mesma era de difícil acesso (longe). Só que, com a tal da crise mundial, foi junto com milhares de pessoas dispensada do emprego, ficando sem recursos suficientes por uns cinco meses e com isto não podendo pagar o seguro obrigatório de veículos e o IPVA. Consequentemente, ela foi impedida de transitar com o veículo porque se fosse autuada dirigindo corria o risco de ficar sem o mesmo até que tivesse dado a César o que o mantém no poder: IMPOSTOS.

Quando tentei abrir um pequeno negócio para meu sustento, fui obrigada a desistir, pois somando todas as taxas que teria de pagar para enfim ter um rendimento mensal, descobri que precisaria primeiro ter um rendimento mensal que me permitisse sustentar o negócio por um bom período para que depois ele me sustentasse. E aí se foi minha esperança de contribuir com o próximo, esperança de colocar no mercado nem que fosse uma vaga de emprego para um dos muitos cidadãos desempregados deste país. Acho que este seria um dos papéis de um governo - se é que precisamos de governo - que realmente quer fazer a diferença: deixar o empreendedor livre de tantos tributos para que possa investir mais no empregado, que é o seu capital de giro.

Aluguei nosso imóvel para uma pessoa que vive às custas de leis a seu favor. Exemplo: ela ocupa o imóvel com contrato e tudo mais registrado em cartório. A partir do segundo mês passou não mais pagar nenhum dos encargos (aluguel, luz, condomínio etc), e quando se entra com ação de despejo contra ela, as regras da justiça são favoráveis a ela, pois a partir daí ela tem de 3 a 6 meses para desocupar o imóvel, isenta de pagamentos - e vem vivendo assim sem se importar com as regras ditadas para pessoas de bem. E outra: se os lesados por ela alardearem isto, ela recorre à justiça e pode ser indenizada por danos morais. E o mais impressionante é que, nestes casos, a justiça trabalha com mais rapidez quando o caso favorece pessoas deste tipo, mostrando como a justiça é cega.

Mantenho os meus compromissos todos em dia, mas quando tenho algum problema com serviços que o governo regula descubro que, os deveres eu tenho de manter em dia, mas meus direitos, ah, aí são tão regulados e tão cheios de brechas, que acabam auxiliando aqueles que nos lesam.

Quando os direitos que instituíram para mim são violados, mesmo tendo cumprido com meus deveres, a indignação me visita e me sinto tentada a escrever como estou fazendo agora e perguntar: Quem sai ganhando com tantos regulamentos sem nos perguntar se queremos ou não ser taxados para sermos regulados? E com minha indignação eu mesma respondo:

  • Ganham aqueles que tudo fazem para que o povo não tenha acesso ao conhecimento, o que o levaria a pensar e escolher sem medo como melhor viver.
  • Ganham os filhos adotivos do governo sustentados por nós através das bolsas esmolas. Veja bem, no meu entender nenhum pai tem que receber bolsa alimentação para um filho freqüentar a escola; o próprio pai deveria se indignar com isto porque o pequeno ser que hoje o sustenta já está fadado a ser escravo sem direito a sequer se rebelar, pois não terá conhecimento e esclarecimento bastante para saber que nasceu livre e foi jogado na senzala para satisfazer aos inescrupulosos que tudo fazem para se manter no poder e que cuidam para que não se arrebente a cerca e nenhum dos seus escravos fuja em busca da liberdade que todo ser humano almeja e tem direito.
  • Ganham os marginais presos, cujas famílias recebem uma contribuição mensal; marginais que não precisam trabalhar para ter alimentação; que fazem rebelião, queimam colchões e fazem com que sejamos obrigados a pagar por mais colchões novos para eles. Digo mais: não me falta compaixão como podem estar pensando, porque o cidadão preso injustamente (e estes existem) se mantém no seu canto sem participar dessas barbáries; e se chega a fazê-lo é porque a turba o seqüestra e o obriga a fazer parte do tudo sem direito de escolha.

E como neste caso nós também somos obrigados a obedecer tantas regras feitas para nos "favorecer", acabamos confiando cegamente em falsas promessas de indivíduos que não querem o esclarecimento da grande maioria - aquela maioria que o elegeu. Não precisamos de quem nos faça promessas, temos que ter o direito de termos nossas próprias aspirações e o direito ainda maior de ter a liberdade para cumpri-las com o nosso próprio esforço.

O modelo de governo que ai se encontra se parece muito com o modelo usado por meu ex-marido. Só que com uma diferença: o marido eu tive a liberdade de escolher.

Não que eu venha agora a desculpar meu ex-marido; só quero mostrar que ele apenas seguiu o exemplo extraído do meio em que vivemos - um meio no qual tolher a liberdade do outro parece normal.

A duras penas estou aprendendo que não podemos abrir mão da nossa liberdade em prol da regulamentação de nossas vidas, algo que acaba sempre coroando de louros as minorias compostas por agentes do mal disfarçados em agentes do bem.

Chega de condicionamento!


19/11/2009 00:00  por  Leandro Roque \  economia

Vagabundos que não trabalham e nada produzem recorrem ao furto e/ou aos assaltos para sobreviver.

Na maioria dos casos, o assalto é praticado de forma violenta e explícita, abordando-se a pessoa na rua e ameaçando-a com um revólver, uma faca ou qualquer outro objeto cortante.

Há, porém, uma forma mais sofisticada e eficiente de assalto, na qual os vagabundos se agrupam e criam uma quadrilha cuja fachada é tida como respeitável (para os mais ignaros, obviamente).  Os vagabundos trajam terno e gravata, têm aparência normal (embora sejam mentalmente perturbados) e utilizam a tecnologia como arma.

Essa modalidade de assalto é duplamente mais vantajosa que a primeira: a receita auferida é muito maior e a prática é 100% segura, pois é tida como legítima pela maioria das vítimas - resultado de um longo processo de doutrinação realizado pelo braço intelectual dessa quadrilha. 

A quadrilha acostumada a praticar tal modalidade de assalto é sofisticada e goza de plenos e irrestritos poderes de atuação.  E, principalmente, é salvaguardada pela lei - que foi criada por ela própria.

Essa quadrilha sofisticada, muito bem armada e plenamente poderosa está à solta nas principais capitais do Brasil.  Com sede de dinheiro e com o aparato judiciário ao lado dela, você cidadão comum não pode fazer absolutamente nada a não ser acatar as ordens do assalto, obedecer bovinamente e entregar sua propriedade.

Com um meliante de rua você ainda pode negociar.  Caso consiga escapar dele, estará livre.  Já com essa quadrilha, não só você não pode negociar, como também, se tentar escapar, irá em cana - repetindo, o sistema judiciário está do lado dela.

Para informações adicionais sobre o mais novo ataque preparado por essa quadrilha, clique nos links a seguir:

Para quem mora em São Paulo capital

Para quem mora em Belo Horizonte, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e no Rio de Janeiro



18/11/2009 00:00  por  Leandro Roque \  economia

O fenômeno foi localizado e felizmente não causou vítimas fatais.  Porém, os princípios por trás de tudo são lamentavelmente universais.

Como todos já sabem, o governo de São Paulo contratou um consórcio de empreiteiras para construir um anel viário que contorna toda a região metropolitana de São Paulo.  Alguns trechos, como o Trecho Oeste, já foram inaugurados há alguns anos; outros ainda estão em construção.  A função dessa via é interligar as Rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Castelo Branco, Raposo Tavares e Régis Bittencourt.

Fatos

Na noite de sexta-feira, dia 13, três vigas de sustentação de um dos viadutos desse anel viário desabaram sobre a Rodovia Régis Bittencourt, atingindo três veículos e deixando três pessoas feridas.

O que se sabe até agora é que o Ministério Público Federal, com o auxílio do Tribunal de Contas da União, assinou um termo com as empreiteiras e com a Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.), estatal que gerencia a construção do Rodoanel, para limitar em R$ 264 milhões os gastos extras com as obras do anel viário.

Porém é sabido que, ainda em agosto, o governo do Estado de São Paulo anunciou que gastaria R$ 500 milhões extras com a obra. Ou seja, após a assinatura desse termo, foi vetado um gasto adicional de mais R$ 200 milhões.

Esses são os fatos conhecidos até o momento.  Observe que, até aí, só vimos entidades políticas e empreiteiras aliadas envolvidas na situação. 

Causas

As causas específicas do acidente serão desvendadas por engenheiros, mas já sabemos de antemão quais as causas fundamentais da lambança: ausência de propriedade privada e de mercado - característica essa típica das Parcerias Público-Privadas.

O raciocínio é tristemente linear:

1) As obras têm finalidade política e são gerenciadas por órgãos políticos.  Elas precisam estar concluídas antes das eleições.

2) Não há propriedade privada.  As empreiteiras estão ali apenas para receber o dinheiro dado pelo governo e entregar a obra finalizada dentro do prazo especificado.  Elas não vão gerir o Rodoanel após sua finalização.  Logo, elas não têm interesse em sua qualidade e robustez.

3) Da mesma forma, elas não têm autonomia para decidir seus custos, uma vez que não trabalham com capital próprio e nem com empréstimos.  Elas simplesmente recebem dinheiro do governo e precisam "se virar" com aquela quantia.

4) Isso significa que as empreiteiras têm de satisfazer o estado e não o consumidor do seu produto final - que, num genuíno livre mercado, é quem realmente manda.

5)  Não há mecanismos de mercado para alocar os recursos de modo eficiente.  O governo decide quem vai fazer a obra, como ela será feita e em que prazo.  O monopólio fica então estabelecido.   Eventuais empresas que porventura quisessem construir um Rodoanel por conta própria, sem utilizar um único centavo público, e que, por isso, pudessem cobrar de pedágio o valor que quisessem, estão rematadamente proibidas de incorrer em tal empreendimento.  O estado não deixa.

6)  Caso houvesse essa liberdade de empreendimento, a empresa que construísse a obra viária seria também a dona dela.  Nesse cenário, não é desarrazoado imaginar que ela teria total interesse na qualidade e durabilidade do produto, pois esse arranjo seria o que menos lhe traria custos de longo prazo (não seria inteligente utilizar vigas e asfalto de baixa qualidade, pois as despesas com reposição e indenização por acidente não compensariam a economia inicial de custos).

Portanto, antes que qualquer laudo técnico esteja pronto, o IMB já tem a resposta para as causas do problema, vale repetir: ausência de propriedade privada e ausência de mercado.

Compreendendo bem esses detalhes, chega até a ser surpreendente que algumas PPPs funcionem.

 

Mais sobre o assunto:

As PPPs - a porta de entrada para o socialismo

Algumas considerações sobre a "privatização" de estradas


13/11/2009 00:00  por  Leandro Roque \  economia

Tenho para mim que todo keynesiano que se preze, principalmente o da vertente pós-keynesiana, está fazendo todo o tipo de promessa e mandinga na esperança de que Obama saia o mais rápido possível da Casa Branca - caso contrário, a profissão vai cair em descrédito (para alívio mundial).

Aluno aplicadíssimo - certamente o mais aplicado que já passou pela Casa Branca desde Lyndon Johnson -, Obama até agora vem seguindo a cartilha (pós) keynesiana à risca: imprimiu dinheiro sem medo, reduziu os juros a quase zero, gastou o que tinha e o que não tinha, aumentou o déficit orçamentário, estourou a dívida pública e transformou o governo em empresário, substituindo a "ineficiência" do setor privado pela onisciência governamental.

Sendo tão aplicado assim, qual o problema que os (pós) keynesianos teriam com ele?

Simples: a teoria keynesiana diz que suas intervenções econômicas trazem resultado já no curto prazo - isto é, crescimento econômico e queda do desemprego.  Se Obama assumiu o governo em janeiro desse ano, 11 meses de keynesianismo em escala mastodôntica teoricamente já deveria ter surtido alguns resultados positivos.  Mas houve algum?  Não, pelo contrário.

O crescimento econômico ocorrido no terceiro trimestre, como já explicamos, é totalmente fictício e insustentável, tendendo a cair tão logo os estímulos sejam retirados.  Já o desemprego... Ah, essa é a melhor parte.

Veja o gráfico a seguir.

A linha branca mostra a previsão feita pelos economistas da Casa Branca sobre como seria a taxa de desemprego com a aplicação dos pacotes de estímulo adotados pelo governo americano.

A linha cinza mostra a previsão desses mesmos economistas caso não houvesse pacotes de estímulo.

E a linha vermelha mostra o real comportamento da taxa de desemprego, com todos os estímulos.

Realmente, uma imagem vale mais que mil palavras.

Mas sejamos justos.  Quem começou os pacotes de estímulo foi o próprio Bush.  Obama simplesmente deu continuidade - numa apavorante reprise do que fez a dupla Hoover/Roosevelt, um disputando com o outro para ver quem era o mais intervencionista.

Assim, quando a crise começou em agosto de 2007 (quando as bolsas começaram a cair após terem constatado o castelo de cartas das hipotecas subprime), o desemprego estava em 4,7%.  O Fed baixou os juros.  Em setembro de 2008, o desemprego já estava em 6,2%.  Os pacotes foram sendo aprovados.  Quando Obama assumiu, em janeiro de 2009, o desemprego já estava em 7,6%.  Pela teoria keynesiana, tudo o que foi feito deveria garantir que o desemprego ficasse pelo menos ao redor desse valor.  Hoje, 26 meses após o início dos estímulos, o desemprego já está em 10,2% -  117% maior do que quando tudo começou.  (Veja os números aqui).

Por fim, vale uma observação interessante, que já fizemos aqui: no ano 2000, o orçamento total do governo dos EUA foi de 1,8 trilhão de dólares.  Já em 2008, o orçamento total foi de $3 trilhões, o que significa que em 8 anos os gastos cresceram 66%.  Ou seja, já tinha havido uma explosão nos gastos governamentais antes que toda essa balela de "estímulo" tivesse sido inventada. 

Pergunta-se: por que esse aumento de 66% nos gastos em 8 anos não impediu a depressão americana?  De acordo com Keynes, era para a economia americana estar bombando.

A questão toda nem é divagar sobre como tudo poderia estar melhor caso nada tivesse sido feito - isto é, caso não tivessem ocorrido os déficits, o aumento da dívida, as estatizações, a gastança, a inflação monetária e a diminuição artificial dos juros.

A questão principal é: por que após seguidas demonstrações de uma abismal incapacidade de solucionar problemas econômicos, a teoria keynesiana segue sendo levada a sério, garantindo empregos vitalícios para vários acadêmicos e "pesquisadores" que só pensam em enriquecer sem esforço, sem concorrência e à custa dos outros?

Acho que a resposta está contida na própria pergunta.

12/11/2009 00:00  por  Rodrigo Constantino \  economia

"Parte da liberdade é o direito de cada um ir para o inferno à sua própria maneira." (David Friedman)

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu o uso das câmaras de bronzeamento artificial para fins de embelezamento. A justificativa é o risco de se contrair câncer em função da exposição à radiação ultravioleta. Fiscais serão mobilizados para verificar o uso das câmaras, que continuam liberados para tratamento de doenças como vitiligo e psoríase. A multa para descumprimento das regras pode chegar a R$ 1,5 milhão, e a clínica de estética pode ser interditada. Trata-se de mais uma medida autoritária de burocratas desocupados que se arrogam o direito de nos proteger de nós mesmos.

A medida poderia ser combatida com base em sua eficácia altamente questionável. Afinal, como fiscalizar todas as clínicas, avaliando o tipo de tratamento usado em cada caso? Parece evidente que a medida irá estimular a informalidade, favorecendo clínicas de fundo de quintal e colocando em risco ainda maior aquelas pessoas que não abrem mão do serviço. Além disso, a coisa chega a ser patética quando pensamos que a própria luz solar pode causar câncer. Qual o limite? Será que amanhã os burocratas "altruístas" vão vetar a praia durante o horário de maior intensidade solar?

Mas o verdadeiro ataque a esta medida absurda não deve se voltar ao aspecto da eficiência, e sim da moralidade. Com que direito a Anvisa pensa que pode controlar nossas vidas dessa forma? Quem autorizou o governo a ser o guardião de nossa própria saúde? Qual documento cada um de nós assinou permitindo tamanha tutela? Essa invasão de privacidade é totalmente imoral. Não tem legitimidade alguma. Se nossa vida nos pertence, se nosso corpo é propriedade particular, então segue naturalmente disso que podemos fazer com ele o que bem desejarmos, inclusive correr riscos mortais. Trata-se de uma escolha individual, afinal de contas. Muitas coisas podem causar câncer, podem causar doenças em geral, podem até mesmo matar. Mas optar por assumir tais riscos é uma decisão do indivíduo, não do governo. Somos cidadãos, não súditos.

Alguns podem argumentar que existem os gastos com saúde pública, e que, portanto, o governo pode sim controlar os riscos que assumimos à nossa saúde. É um argumento muito usado na cruzada antitabagista. Mas é um argumento totalmente furado. Não é porque uma coisa está errada - todos serem forçados a bancar a saúde de todos - que vamos insistir no erro, agravando-o. No limite desse raciocínio, o governo teria total controle sobre nossas vidas, nos mínimos detalhes. Afinal, se fumar faz mal à saúde, não praticar exercícios aeróbicos também faz. Deve o governo obrigar cada um a praticar corridas matinais? Comer fritura e gordura também faz mal. Deve o governo impor uma dieta saudável para todos? Fica claro que essa é a mentalidade dos ditadores, que não respeitam a liberdade individual.

Em suma, a medida representa apenas mais uma desastrada demonstração de autoritarismo do governo. Aguardamos ansiosamente qual será a próxima idéia genial dos burocratas da Anvisa para nos proteger de nós mesmos, de nossa irresponsabilidade. Quem sabe o uso obrigatório de protetor solar, com os fiscais verificando se foi espalhado direitinho em todas as partes do corpo? Ou então literalmente tapar o sol com a peneira? Melhor não dar idéia, nem de brincadeira, porque essa turma pode levar a sério...
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Veja também o impagável Luis Almeida enquadrando a Anvisa, chamando-a do que ela realmente é.


10/11/2009 00:00  por  Nubia Tavares \  economia

De novo, o FGTS. Comentei a postura do presidente Lula, que usa o dinheiro de cada trabalhador em favor do atual governo (sim, porque construção de casas populares, que segundo o governo é a real razão de existir do FGTS, é uma medida populista).

Hoje, vamos falar sobre uma das principais manchetes do dia - a perda real de valor dos FGTS, que renderá 3,9% em 2009, abaixo da inflação do ano, que deve fechar em 4,27% segundo as previsões oficiais. O FGTS é reajustado pela TR, que teve seu cálculo modificado por conta das constantes quedas na SELIC (para entender o que é e como funciona a SELIC, clique aqui e aqui). Com a queda da TR mensal, o trabalhador que tem dinheiro no FGTS (como é o meu caso), perdeu dinheiro este ano, em lugar de ganhar (ou pelo menos empatar com o que tinha no ano anterior). Na ponta do lápis: Quem tinha R$ 1000,00 no FGTS ano passado terá R$ 1039,00 esse ano. Por outro lado, um produto que custava R$ 1000,00, custará R$ 1042,70 esse ano, se for corrigido conforme a inflação. Ou seja: os R$ 1000 que compravam o produto o ano passado, não o compram este ano, porque os rendimentos do fundo não repuseram as perdas com a inflação.

Vamos entender o porquê.  A TR é uma taxa de juros calculada com base na taxa média mensal ponderada ajustada de 30 instituições selecionadas. Essa taxa foi criada no Plano Collor II para ser o principal referencial dos juros a serem aplicados no mês vigente, sem refletir a inflação do mês anterior. O cálculo da TR é constituído pelas 30 maiores instituições financeiras do país (considerando o volume de captação de Certificado e Recibo de Depósito Bancário - CDB/RDB).  Esta taxa (TBF) recebe um redutor "R" objetivando extrair as parcelas referentes à taxa de juros real e à tributação incidente sobre o CDB/RDB. Assim, temos o valor da TR. Até março de 2007, o redutor da TR era de 0,32 para uma TBF projetada entre 13% e 12% ao ano, 0,28 para TBF de 12% e 11% ao ano e 0,24 para TBF de 11% ao ano.

Só que, com o Copom reduzindo constantemente o valor da SELIC, os fundos de investimentos convencionais, que são os maiores responsáveis por comprar títulos do governo (ou seja, financiar a dívida pública), passaram a render quase tanto quanto a poupança, que tem a vantagem de não receber a tributação do imposto de renda. Com isso, parte do fluxo de capitais migrou dos fundos para a poupança. E como esse movimento afeta diretamente as contas governamentais, era preciso fazer algo.

A atitude que mais causou gritaria e acabou sendo engavetada pelo governo foi a cobrança de imposto de renda sobre a poupança. Contudo, outra medida foi adotada sem causar tanto barulho assim: a mudança no cálculo da TR - que também é a responsável por fixar os juros desta aplicação.

Sendo assim, o Conselho Monetário Nacional determinou que o redutor da TR seria também de 0,32 para as duas menores faixas da TBF, reduzindo assim o rendimento da poupança. Para as faixas acima de 13%, os valores do redutor permanceram os mesmos. Resumindo: sempre que a TBF/TR ficar abaixo de 12%, a poupança renderá menos que antes, já que o redutor é maior.

Resumindo a história: para proteger o financiamento da dívida pública, o governo não apenas reduziu os rendimentos de quem tem dinheiro aplicado na caderneta de poupança, como também aplicou perdas reais aos trabalhadores que possuem dinheiro no FGTS - que, não custa lembrar, é um fundo compulsório, ou seja, você não tem opção de mudar de aplicação, só podendo retirar seu dinheiro da conta em caso de demissão. Outro efeito colateral da mudança no cálculo da TR foi "beneficiar" os mutuários do Sistema de Financiamento Habitacional, cujas dívidas são corrigidas pela TR e, por conseguinte, ficaram menores com a mudança no cálculo.

 É isso mesmo: para proteger o financiamento estatal, o governo não só puniu os poupadores como acabou beneficiando devedores. Se isso não é abuso de poder, alguém poderia me explicar o que é?




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