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28/04/2010 00:00  por  Fernando Chiocca \  economia

Um ano atrás, Luis Almeida adquiriu um produto que continha creatina e teve sua mercadoria extraviada por um grupo autodenominado Anvisa. Ao invés de receber seu bem em sua casa, recebeu um telegrama deste grupo que informava o sequestro de sua propriedade, exigindo que Luis cumprisse uma série de exigências — caso contrário não teria seu produto liberado por eles.

Luis se limitou a responder o telegrama dizendo que não iria cumprir nenhuma exigência dos sequestradores e demandou que sua posse legítima fosse reestabelecida.

O grupo criminoso, por sua vez, reiterou as exigências e tudo ficou por isso mesmo.

Este grupo alegou que sequestrou o bem de Luis pois estava preocupado com sua saúde. Os criminosos da Anvisa achavam que existia a possibilidade de aquela substância causar algum mal à saúde de Luis. Isso seria uma grande piada se não fosse algo nefasto, já que o que certamente pode causar um grande mal à saúde de Luis são as armas que o grupo usa para impedir violentamente que ele consuma o que a Anvisa não deixa. Eles ameaçam diretamente a vida das pessoas impedindo com a força das armas que eles ajam como bem entendem — e ainda usam a saúde de suas vítimas como justificativa para sua violência e ameaça de violência.

Luis nunca conseguiu reaver sua propriedade.

Ontem o grupo Anvisa anunciou que "mudou de ideia". A quadrilha acabou dando certa razão a Luis, que havia dito que a substância não lhe faria mal (e mesmo se fizesse "mal", isto é algo que só diz respeito a ele, diga-se de passagem). Agora todo mundo está liberado para consumir creatina sem o cumprimento de suas exigências. Isto é uma vitória para Luis?

De maneira alguma. A luta de Luis é por liberdade. Liberdade de escolher o que consumir, sem precisar da autorização de ninguém para tal. Ele não quer que a quadrilha Anvisa "permita" que ele use creatina. Ele quer que ele tenha o poder de permitir ou deixar de permitir que algo entre em seu corpo, e não a Anvisa ou quem quer que seja. Qualquer coisa diferente disso é a negação do direito mais fundamental do ser humano: o direito de propriedade sobre o próprio corpo. A simples existência de um grupo como este, que tem o poder opressor de impor a força seus desmandos, é algo intolerável.

Ron Paul é o único político libertário com um mandato no mundo.  Apesar de ser a favor de gays firmarem contratos de casamento, ele e opõe a uma lei federal sobre este assunto, mesmo uma que retifique sua posição, já que considera que não é papel do governo federal legislar sobre este assunto, seja proibindo ou permitindo a união entre duas pessoas do mesmo sexo.

Esta também é a razão pela qual os que lutam pelo fim da demente guerra contra as drogas devem tomar cuidado para não clamar por "liberação das drogas".  Ao invés disto, pedir pelo "fim da proibição", pois quem tem o poder de liberar, tem o poder de proibir, e o estado não tem legitimidade para fazer nem uma coisa e nem outra.

Uma vitória para o Luis seria a extinção completa da Anvisa, ou ao menos o fim de seu poder de imposição de veto. Mas, por enquanto, será que a quadrilha vai devolver o produto com creatina que roubaram dele?


17/04/2010 00:00  por  Equipe IMB \  economia

Foi rompido o silêncio.  Finalmente os grandes veículos de comunicação reconheceram que a teoria econômica não apenas não está presa a duas vertentes (keynesiana e neoclássica), como, ao contrário, tem sua representação mais completa na teoria econômica formulada pela Escola Austríaca - a única escola de pensamento que realmente possui todo o instrumental necessário para explicar todos os fenômenos econômicos.

Ok, essa última parte ambas ainda não reconheceram.  Questão de tempo.

Seguem abaixo as duas matérias.  A primeira é da VEJA e a última é da ÉPOCA, que fez uma reportagem mais completa.


Uma visão ainda mais liberal

Crise do excesso de liberalismo? Não para os seguidores da Escola Austríaca, que acusam o governo americano de ter inflado a bolha financeira


Igor Paulin
, de Porto Alegre

Fotos Kevin Lamarque/Reuters e Divulgação

CONTRA A MARÉ
Os economistas da Escola Austríaca, reunidos em Porto Alegre (à dir.), atribuem a crise a falhas do governo, como os juros baixos demais de Alan Greenspan


Há dois anos, uma crise inaudita eclodiu nos Estados Unidos e arruinou as finanças de países inteiros. Críticos de esquerda regozijaram-se pelo abalo de um dos pilares do capitalismo, o livre mercado, e culparam a cobiça desenfreada de banqueiros pelo crash. Já os economistas do mainstream, representantes do consenso capitalista que administra os países mais maduros do planeta, reconheceram que houve falhas, como a ausência de um sistema regulatório mais eficiente para controlar fraudes e a especulação predatória. Apesar da vala mental que separa essas duas visões de interpretar o mesmo fenômeno, ambas convergiram na prescrição do remédio destinado a combater a recessão mundial. Recomendaram, em doses distintas, a ampliação da presença do governo, pelas vias do aumento dos gastos públicos, e também o acirramento da regulação financeira. Entretanto, há quem pense de forma diferente. Trata-se dos economistas da Escola Austríaca, uma corrente coesa de ultraliberais que exonera os propagandeados vícios do capitalismo dessa história. Segundo eles, foram na verdade as intervenções do governo que proporcionaram a crise. Mais do que isso, acreditam que o remédio que tem sido usado pelos governos mundiais, sobretudo o despejo de somas maciças de recursos estatais, é inadequado e trará mais problemas no futuro.

Na semana passada, o Instituto Ludwig von Mises, que congrega adeptos dessa corrente, realizou em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o I Seminário de Economia Austríaca do Brasil. Em dois dias, foram debatidos os acontecimentos recentes da economia mundial, assim como o receituário heterodoxo e radical desses pensadores. Embora centenária e influente no passado, essa escola esteve, nos últimos anos, à margem do pensamento dominante. No século XX, os seus dois teóricos mais proeminentes foram Ludwig von Mises (1881-1973) e o ganhador do Nobel Friedrich von Hayek (1899-1992). Ambos tiveram papel notável na exposição das fragilidades intrínsecas do planejamento econômico e na condenação do socialismo, num momento em que boa parte da intelligentsia mundial via com fascínio o avanço soviético. Os escritos de Mises e Hayek acabaram por inspirar as reformas liberais que começaram nos anos 80. Agora seus seguidores propõem uma recuperação dessas ideias para oferecer uma alternativa em relação ao novo consenso que se forma no mundo pós-crise.

"A crise que vivemos hoje teve início com políticas do governo que levaram à formação de uma bolha especulativa no mercado imobiliário", sentencia o historiador Thomas Woods, autor do best-seller Meltdown, sobre o recente crash. Para Woods e seus colegas, isso pode ser comprovado por causa do papel que tiveram as empresas de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac. Embora privadas, elas tinham um status privilegiado, porque dispunham de uma linha de crédito especial do governo para estimular a venda de casas a pessoas de baixa renda. Juntas, detinham 75% das hipotecas dos americanos. A política de estimular a venda de casas para quem não possuía a menor condição de assumir os compromissos de um financiamento imobiliário foi potencializada pelos juros extremamente baixos. Quando Alan Greenspan, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), estava no comando, a taxa básica permaneceu abaixo da inflação por mais de dois anos. A facilidade de adquirir um imóvel incendiou a demanda e os preços subiram rapidamente. Entre 1998 e 2006, as casas americanas ficaram 150% mais caras. Mais tarde veio a onda de calotes, e os preços desabaram. Para os austríacos, tanto os subsídios como os juros baixos demais foram erros que só podem ser atribuídos ao governo. "Os preços estavam fora da realidade. Criou-se uma prosperidade artificial e insustentável", diz o economista americano Mark Thornton, especialista em bolhas financeiras. O setor imobiliário foi ao chão e arrastou consigo o mercado financeiro. "Não fossem as investidas do governo, nada disso teria tomado as atuais proporções. Por isso dizemos que essa crise é do intervencionismo, e não do liberalismo", conclui Woods.

Contrariados com o avanço da mão estatal, os austríacos veem riscos adiante para a economia mundial. Para eles, os pacotes de auxílio do governo para recuperar a economia repetirão os erros do passado. Avaliam que a nacionalização de empresas quebradas (como ocorreu com a Fannie Mae e a Freddie Mac), o socorro aos bancos e o aumento do endividamento prolongarão a agonia, apesar do efeito de alívio momentâneo. "De onde sairá o dinheiro para arcar com tudo isso? Não existem muitos caminhos além do aumento de impostos e da impressão de mais moeda", diz Lew Rockwell, fundador do Instituto Mises. "Não se pode aceitar um liberalismo pela metade. É inadmissível entregar ao estado o controle da economia. Os interesses de um governo são sempre políticos. Quando esses interesses interferem nos caminhos do mercado, desencadeiam crises", afirma Rockwell. Durante os dois dias de seminários em Porto Alegre, tradicional sede de encontros de esquerda, como o Fórum Social Mundial (cujo lema é "Um outro mundo é possível"), os ultraliberais austríacos alardearam a ideia de que um novo mercado é possível.

Fotos Team/Alinari/Other Images e divulgação
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RELEGADOS
Mises (acima) e Hayek: influentes na condenação do socialismo,
agora no ostracismo

 

 

Em defesa do ultraliberalismo

Quem disse que as ideias de Keynes viraram unanimidade? Em Porto Alegre, a Escola Austríaca de Economia celebra o livre mercado

José Fucs, de Porto Alegre

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ANTIGOVERNO
O economista Thornton (à esquerda) fala contra o intervencionismo, seguindo as ideias de Ludwig von Mises (à direita)

Nos últimos anos, com a explosão da crise econômica, tornou-se um passatempo universal satanizar o liberalismo e a desregulamentação dos mercados. Eles seriam os responsáveis pela crise. Deveriam, portanto, ser esquecidos. Ao mesmo tempo, as ideias do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946), centradas na injeção de dinheiro público para estimular a economia em momentos de crise, passaram a encantar governantes em todo o planeta, inclusive no Brasil. Mas os defensores do livre mercado no país estão vivos.

Na semana passada, um seminário realizado em Porto Alegre para debater as ideias da Escola Austríaca, considerada a mais libertária de todo o pensamento econômico, transformou-se numa pequena trincheira de defesa radical do liberalismo. Organizado pelo Instituto Mises Brasil, uma entidade fundada em 2008, o seminário tinha o objetivo de promover os ensinamentos da Escola Austríaca no país. Seu representante mais conhecido foi Friedrich Hayek, prêmio Nobel de Economia de 1974. Mas o foco do evento eram as ideias do economista Ludwig von Mises, que estudou as diferenças entre as economias planejadas e as de livre mercado.

Fundada no final do século XIX pelo economista austríaco Carl Menger, a Escola Austríaca hoje guarda pouca ou nenhuma relação com sua origem geográfica. Sob muitos aspectos, suas ideias são semelhantes às da Escola de Chicago, o templo do liberalismo que tinha na figura do Nobel de Economia de 1975, Milton Friedman, seu principal porta-voz. Ambas defendem o livre mercado e a não intervenção do governo na economia como a melhor forma de promover o desenvolvimento e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos. Mas a Escola Austríaca vai além: é contra a existência do Banco Central e o monopólio de emissão de moeda, que considera um fator inflacionário e um convite à gastança do setor público. Ela também não gosta do uso de modelos matemáticos, popularizados pelos economistas de Chicago, por considerá-los rígidos e limitados para o entendimento dos fenômenos econômicos. E rejeita o ensino da economia por meio de experiências e observações do mundo real. A única lei verdadeira da economia, segundo seus adeptos, está baseada na lógica e parte do princípio de que todos sempre agem para melhorar a situação em que se encontram.

"Vamos tirar Brasília do nosso bolso", dizia o texto estampado em letras garrafais nas costas da jaqueta amarela de um representante do Partido Federalista, que veio de Curitiba especialmente para o evento. O seminário atraiu uma plateia eclética, de 200 pessoas, de várias regiões. A maioria tinha menos de 30 anos. Ela incluía filhos e filhas de empresários gaúchos associados ao Instituto de Estudos Empresariais (IEE), que promove todos os anos o Fórum da Liberdade e deu apoio ao evento, além de militantes do Partido Libertários (de tendência anarquista) e do Partido Federalista (que propõe a limitação do poder central e maior autonomia para Estados e municípios). Havia também estudantes, atraídos pela bandeira da liberdade incondicional defendida pela Escola Austríaca. Carentes de oportunidades para discutir suas ideias, os participantes aplaudiam de pé os palestrantes. "Sou um devoto do pensamento liberal", dizia o administrador de empresas D.M., de 29 anos. Ele mora em Brasília e, ironicamente, é funcionário da Anatel, agência governamental que regula e fiscaliza as telecomunicações. "Não volto sorrindo do trabalho para casa todos os dias."

A lista de palestrantes incluía dirigentes e economistas ligados ao Ludwig von Mises Institute, dos Estados Unidos, como Mark Thornton, um dos primeiros a alertar para a bolha imobiliária americana, em 2004. "A Escola Austríaca rejeita a falácia de que a prosperidade possa ser produzida por meio do crédito barato", disse no evento. Também estavam lá dois descendentes de Milton Friedman: seu filho, o anarcocapitalista David Friedman, Ph.D. em física pela Universidade de Chicago, e seu neto, Patri Friedman, que desenvolve projetos de construção de comunidades flutuantes em águas internacionais, livres da ingerência de governos. "Há 300 anos, boa parte da população nas Américas era formada por escravos e 100% dos frutos de seu trabalho eram de propriedade de seus donos", afirma Helio Beltrão, fundador e presidente do Mises Brasil. "Hoje, de 40% a 50% do resultado de seu esforço e talento ainda não é seu, mas de seus senhores: os governantes e seus amigos."

Em sua palestra, David Friedman defendeu uma ideia inusitada: a privatização do aparato judicial de segurança do Estado. Para ele, pessoas e empresas deveriam contratar serviços de segurança e juízes particulares para arbitrar suas disputas. Se alguém roubasse a TV de sua casa, você ligaria para sua empresa de segurança para ela tentar recuperá-la. Caso ela não conseguisse, você poderia contratar outra empresa, com um histórico mais favorável na recuperação de objetos roubados. As empresas que não prestassem um bom serviço tenderiam a sumir do mercado, como em qualquer outro setor da economia. "Essa não seria uma sociedade onde todo mundo estaria sujeito às mesmas leis", disse Friedman. "A lei seria determinada pelo acordo entre as duas empresas contratadas pelas partes para defendê-las."

Com o sucesso do seminário, Beltrão diz que o Mises Brasil pretende realizar encontros em outras cidades do país, formar professores e realizar cursos livres sobre as ideias da Escola Austríaca. "Estou pensando grande", disse Beltrão, vencedor do prêmio Libertas 2010, concedido pelo Fórum da Liberdade a quem se destaca na defesa das liberdades individuais. "Vou me concentrar no Brasil, mas quero participar desse movimento, ajudar a difundi-lo também no exterior."


Uma visão libertária

As principais ideias da Escola Austríaca de Economia

. A intervenção do governo na economia é contraproducente e deve ser evitada sob todas as formas
. A expansão dos livres mercados, a divisão do trabalho e o investimento do capital privado são os únicos caminhos para a prosperidade e o desenvolvimento
. O socialismo é desastroso para a economia, porque a ausência de propriedade privada impede qualquer tipo de fixação racional de preços ou estimativa de custos
. O Banco Central, detentor do monopólio de emissão de papel-moeda, deve ser extinto
. O padrão-ouro, sistema que prevê o lastro em ouro para a emissão de moeda, deve voltar
. Todos os tipos de seguros de depósitos bancários devem ser eliminados para que a quebra de bancos puna os maus investidores
. Os modelos matemáticos, considerados muito rígidos e limitados, devem ser abandonados na análise econômica
. Os ciclos da economia são consequência do crescimento exagerado do crédito bancário


17/04/2010 00:00  por  Cristiano Fiori Chiocca \  economia

Semana passada o IMB realizou o primeiro Seminário de Economia Austriaca no Brasil e preciso fazer aqui uma reflexão e agradecer.

Refletir por que as coisas vão acontecendo e mal nos damos conta dos feitos realizados. Nesse caso, fazendo uma retrospectiva, eu seria incapaz de imaginar que aquelas noites mergulhado em artigos e debates com meu amigo, então virtual, Richard em tempos pré redes virtuais, que datam dos idos de 99, surgiria algo sequer perto do seminário realizado.

Naqueles tempos as descobertas foram vindo aos poucos, um artigo do Roberto Campos aqui, um livro de Milton Friedman acolá e conforme a internet se alastrava, a velocidade das descobertas aumentava, e a troca de links de artigos do Mises Institute caiu como uma bomba.

Descobrimos ali uma fonte inesgotável de argumentos sólidos, uma forma concisa e precisa de defesa da liberdade, uma explicação sempre elegante da economia, nada de equações complicadas, a lógica, a clareza, saltavam aos olhos.

E dessa forma, quando veio o orkut e redes virtuais, o Mises Institute já era a fonte maior de conhecimento. Minha preocupação já era tornar essa fabulosa fonte de conhecimento acessível a todos os brasileiros. Quando decidi começar essa empreitada, as coisas aconteceram como se fossem caindo do céu. De imediato Helio Beltrão e Leandro Roque aderiram ao projeto e ajudaram na formatação e viabilidade, e meus irmãos, Fernado e Roberto, incentivaram. O fato é que a internet ajudou a agrupar leitores do Mises Institute que estavam espalhados e isolados por aí e esses reconheceram a importância de espalharmos no Brasil a revolução que o Mises Institute irradiava.

Mas, mesmo assim, Lew Rockwell, Joe Salerno, Bob Murphy, Mark Thornton, Hans Herman Hoppe, David Gordon, todos que lá escreviam me passavam a imagem de serem gênios com cérebros do tamanho de uma bola de basquete que ficavam escrevendo artigos numa torre de marfim, inalcançáveis e com tanta produtividade que jamais poderia imagina-los aqui no Brasil.

Pois aconteceu.  Eles vieram.  Posso dizer que acertei que eram gênios, mas errei no tamanho do cérebro e no acesso. São pessoas incríveis. No seminário, todos tiveram acesso a eles o tempo inteiro, se misturavam nas rodinhas dos intervalos como se não fossem as estrelas do evento. Também compartilhavamos aflições sobre o rumo das coisas na economia mundial, expansão ilimitada dos governos, etc.

Então, quando o Seminário estava acontecendo me veio uma sensação de gratidão imensa. O que poderia ser melhor que isso? Lew Rockwell sentado a duas cadeiras de mim, ouvindo a palestra de Mark Thornton, camisetas com o brasão do instituto sendo vendidas, livros esgotados em meia hora de seminário, cobertura da imprensa em um Seminário de Economia Austriaca, tradução simultânea.
Mas agradecer a quem? Agradecer ao Hélio, ao Fernando e ao Leandro pelo empenho? Claro, o trabalho foi enorme. Agradecer ao William, Salim, ao pessoal do Standard e ao José e ao Jorge que patrocinaram o evento? Claro, sem eles não seria possível nada daquilo. E o pessoal do IEE? Que grata surpresa a força desses jovens gaúchos e mineiros. Agradecer aos palestrantes "gringos" e brasileiros? Qualquer agradecimento a eles seria pouco.

Mas o meu agradecimento vai mesmo para a platéia. Na verdade, é pra eles que um dia pensei em fazer o IMB; eles, de fato, "são" o IMB. Os leitores do site, o público presente no seminário, o instituto só existe pra eles.

É pra todos que faço esse agradecimento, ao Effe, à Luciana, ao Carlo, aos Lucas (Harris e Mendes), ao pessoal do Clube de Viena, a alta cúpula botafoguense (acreditem, todos os 2 botafoguenses estavam lá!), ao Salles, ao Machado, ao gaúcho Fábio, ao Paludo, ao Rufino, ao Fabio Ostermann, ao Eduardo, ao Michael, ao Fração e a todos do IEE, ao Rafael Guthman, aos irmãos Ling, aos Cardoso (pai e filho), às meninas do IEE, à Daniela, à Isabelle, aos que viram o seminário pela internet, à Elisa, à Margaret... claro que não serei capaz de nominar todos, mas aqui vai meu Muito Obrigado aos que lá estiveram e prestigiaram o evento. Sem vocês não teria motivo de existir o IMB.

Obrigado.

07/04/2010 00:00  por  Equipe IMB \  política

Escreve-nos o leitor Luciano:

Raúl Castro, um libertário?

Olhem que pérola dita pelo ditador:

"Há folhas de pagamento infladas, muito infladas, terrivelmente infladas, em quase todos os setores, e pagam-se salários não vinculados à produção, com o que não se pode evitar que se deteriore a capacidade de compras do povo"

Ele apenas demorou uns 50 anos para perceber.  O verdadeiro problema do socialismo é a velocidade intelectual.  É o socialismo admitindo a derrota econômica, pura e simplesmente.  Cuba passa por uma grave crise, novas pérolas virão, aguardemos.  Acho que merece uma notinha no blog, para a posteridade.

Permita-nos destacar outro trecho da notícia:

[Raúl Castro] reiterou suas advertências dos últimos anos de que a situação econômica cubana é crítica, que seu governo não pode manter subsídios "excessivamente paternalistas", e que há um milhão de cubanos que sobram nas relações de empregados estatais.

"Continuar gastando acima da receita significa comer o futuro e pôr em risco a sobrevivência da revolução".

Conclusão

Mesmo aqueles que se alimentam de ilusões pueris são, no fim, forçados a reconhecer que as leis da economia não podem ser adulteradas por paixões e ideologias.  Ou você as entende e respeita, ou é engolido por eles.


21/03/2010 00:00  por  Leandro Roque \  economia

Não quero palpitar sobre essa soporífera discussão a respeito dos royalties do petróleo.  Toda a argumentação — contra e a favor — baseia-se na ignara ideia de que os recursos naturais do subsolo são propriedade da União.  Vale dizer que quem criou esse disparate foram deputados e senadores que votaram a Constituição de 1988 - ou seja, legislaram em causa própria.

Tão estapafúrdia é essa lei, que se você cavar um buraco no seu sítio, encontrar uma pepita de ouro, e se recusar a entregá-la para Sarney, Michel Temer, Lula et caterva, você automaticamente é classificado como um bandido.  É realmente uma graça: o fato de você se recusar a entregar para ladrões algo que você achou, faz de você um bandido ainda pior.

Mas não é isso que quero discutir.  O que gostaria de chamar a atenção aqui é para a oportunidade única que os fluminenses têm de finalmente desvencilhar sua economia das amarras de seu governo estadual, encolhendo-o brutalmente.

Seria ótimo para a maioria dos fluminenses se o estado do Rio perdesse os R$ 7,3 bilhões por ano que recebe em royalties.  Explico.

Por causa da Lei de Responsabilidade Fiscal, os governos estaduais, grosso modo, só podem gastar aquilo que arrecadam.  (Sim, é verdade que dá pra fazer umas gambiarras, tipo jogar algumas despesas correntes na conta "investimentos em saúde", "em educação" e afins, mas ainda assim tal margem de manobra é bem restrita).

Consequentemente, caso o governo fluminense perca R$ 7,3 bilhões de arrecadação, ele só terá duas opções: como ele não pode imprimir dinheiro, ou ele corta gastos em igual montante, ou ele mantém os gastos inalterados e aumenta impostos em 7,3 bilhões.  Como essa última hipótese é praticamente impensável, pois perigaria gerar inquietações civis, a única hipótese plausível seria um corte de gastos da ordem de 7,3 bilhões.

Um corte de gastos governamentais de tal magnitude - o orçamento encolheria 20% - liberaria enormes recursos para a economia fluminense, os quais finalmente poderiam ser utilizados pelo setor privado, aumentando o bem-estar da população.

Vale dizer que esses R$ 7,3 bilhões de royalties são mais do que o estado de Pernambuco arrecada de ICMS.  Ou seja, o estado do Rio recebe, de graça, sem produzir nada (considerando-se que a extração de petróleo é uma atividade federal, e se dá em alto mar), uma quantia maior do que Pernambuco recebe de ICMS.  Isso se traduziu em bons serviços para a população?  Tudo indica que não, mas sem dúvida fez a alegria daqueles que estão dentro da máquina estatal - os primeiros a quem o dinheiro chegava.  Estes, ao receber o dinheiro (que vinha de fora, 10% do valor de cada barril extraído em alto mar), imediatamente tinham seu poder de compra elevado.  Consequentemente, ficavam na posição privilegiada de poder adquirir mais bens em detrimento de seus conterrâneos.  São os únicos que realmente ganham com esses portentosos proventos e os primeiros que perderiam a mordomia conquistada.

Quando um estado tem o privilégio de ter arrecadações fáceis, a tendência inevitável é que ele incorra em gastos perdulários, em malversação de recursos, populismo rasteiro e em privilégios para os apaniguados.  Olhando-se os últimos governantes que ocuparam o Palácio Laranjeiras, não dá pra negar que esse foi exatamente o tipo de comportamento que predominou na máquina administrativa.  É algo psicológico: dinheiro fácil produz irresponsabilidades e prodigalidades.

Por outro lado, quando a receita é apertada - e a Lei de Responsabilidade Fiscal está em vigor - não dá pra fazer mágica.  O estado torna-se obrigado a gastos mais criteriosos.  Consequentemente, áreas como segurança (para satisfazer os minarquistas) e saúde (para satisfazer os social-democratas, bem como as várias correntes liberais) passam a ser privilegiadas.  Desvios de recurso inevitavelmente passam a ser combatidos com mais vigor.  Não há outra opção.

Não estou dizendo que, caso o estado do Rio perca essas receitas, a adaptação à nova realidade orçamentária será um piquenique e que todo mundo ficará feliz.  Não.  No curto prazo, no período de adaptação, haveria agruras.  Muitos perderiam privilégios inaceitáveis e se rebelariam.  Haveria greves em vários serviços públicos.  O efeito desse corte repentino de gastos seria equivalente a uma interrupção repentina na expansão da oferta monetária de um país.  Haveria um choque súbito e é bem provável que a economia do estado entrasse em recessão

Porém, no longo prazo, caso o governo conseguisse cortar os gastos nessa mesma quantia, conseguisse domar a insatisfação dessa minoria revoltada, e, principalmente, conseguisse manter o (novo) orçamento equilibrado, a quantidade de recursos que tal corte de gastos liberaria para a economia fluminense aumentaria em muito a qualidade vida de sua população - ou melhor, da maioria de sua população (os "habitantes" da máquina estatal sem dúvida perderiam).

Mas as chances de tudo isso acontecer são as mesmas de o sol tremer de frio.


19/03/2010 00:00  por  Ubiratan Jorge Iorio \  economia

Instado pelos entrevistadores da Globonews, anteontem à noite, a resumir em poucas palavras a decisão de manter a taxa básica de juros em 8,75% ao ano, que o Copom acabara de tomar, aquele economista foi incisivo ao bradar: "queremos juros civilizados!"

Entendi o que ele quis dizer, mas confesso que me vieram imediatamente à mente duas constatações: a da formação quase que exclusivamente intervencionista oferecida por nossas faculdades de economia e a da conseqüente falta de conhecimento, por parte da quase totalidade dos economistas, dos ensinamentos da chamada Escola Austríaca de Economia. As duas comprovações representam, indiscutivelmente, uma pena, um verdadeiro desastre em termos de interpretação da economia do mundo real.

É evidente que todos nós queremos não apenas juros "civilizados", mas também saúde, educação, segurança, justiça, infra-estrutura e muitas outras coisas "civilizadas". Ele quis, certamente, dizer que a nossa taxa de juros, quando comparada às dos outros países, ainda está em um patamar elevado, ou seja, em termos reais, em torno de 4% ao ano, enquanto nos Estados Unidos, na União Européia e no Japão está bem próxima de zero ou, até, igual a zero.

Mas quem conhece minimamente a boa teoria econômica convencional - vale dizer, a Escola de Expectativas Racionais - sabe que os juros necessários para manter a inflação sob controle no Brasil precisam ser maiores do que na maioria dos países por causa das necessidades de financiamento de nosso setor público, de sua deterioração e, principalmente, das expectativas de que tal degeneração vai prosseguir no futuro, a ponto de constituir-se em verdadeira bomba relógio a ser desarmada pelo futuro presidente do Brasil.

E quem, além da boa teoria econômica convencional, conhece também a teoria monetária da Escola Austríaca, sabe mais: sabe que as políticas de juros próximos de zero que os bancos centrais mundiais vêm adotando a pretexto de combater a crise não só não vão acabar com a crise, como vão agravá-la; sabe que a crise foi provocada exatamente por políticas monetárias frouxas adotadas no passado, especialmente entre 2003 e 2006, em todo o mundo; e sabe ainda que as necessidades de financiamento assustadoramente crescentes dos governos, com relações dívida interna/PIB ultrapassando os 80%, também são bombas de efeito retardado que terão que ser desarmadas no futuro, se esses governos ditos "civilizados" não desejarem que a inflação surja rapidamente.

Ao invés de "civilizar" artificialmente as taxas de juros, os governos - no Brasil e no mundo - precisam "civilizar" os seus gastos e abandonar definitivamente o que se convencionou denominar de "política monetária", ou seja, precisam gastar o estritamente necessário e permitir que as taxas de juros, que nada mais representam do que preços cobrados pela renúncia ao consumo - isto é, prêmios ao esforço de poupança -, sejam determinadas exclusivamente pela oferta e pela demanda de "loanable funds".
Os "austríacos" já sabiam disso há mais de cem anos. Mas, infelizmente, o mundo acadêmico e o dos negócios, dominado pelo intervencionismo e pela política, talvez só perceba isto daqui a mais cem e resolva extinguir os bancos centrais...

Confesso que morro de rir intimamente quando, ao expor essas ideias em salas de aula e palestras, percebo os olhares de espanto que se entrecruzam incrédulos...


11/03/2010 00:00  por  Leandro Roque \  política

Pelo menos agora o totalitarismo está escancarado, sem mais desnecessárias suavizações e amenizações.

A notícia a seguir dispensa qualquer comentário:

Após dez meses em hibernação na Câmara, os deputados vão começar a discutir nas próximas semanas um pacote tributário enviado pelo governo que promove um verdadeiro cerco aos contribuintes. No meio dos artigos para criar novos mecanismos de cobrança das dívidas ativas e penhora de bens, a Fazenda quer que seus fiscais ganhem poderes de polícia, sem autorização judicial. Os fiscais podem quebrar sigilo, penhorar bens e até arrombar portas de empresas e casas sem autorização prévia do Judiciário.

O pacote cria um sistema de investigação com acesso a todos os dados financeiros e cadastros patrimoniais dos cidadãos. A nova sistemática de cobrança valerá tanto para a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, órgão responsável pela gestão da dívida ativa da União, quanto para as similares nos Estados e municípios. No limite, a penhora poderá ser aplicada contra uma grande empresa ou contra um contribuinte-pessoa física que tenha deixado de pagar o IPTU ou o IPVA. Na prática, um oficial da Fazenda, mesmo sem autorização de um juiz, pode arrestar uma casa ou um carro para quitar uma dívida tributária com o município.

As três propostas foram enviadas em abril do ano passado, mas só agora começaram a ter tramitação efetiva - no mês passado foi criada a comissão especial da dívida ativa. O deputado Jurandil Juarez (PMDB-AP), que preside a comissão, pretende organizar ao longo dos próximos meses audiências públicas para discutir as propostas. O deputado João Paulo Cunha (PT-SP) será o relator das matérias.

A retomada das discussões não passou despercebida por entidades empresariais, tributaristas e pela seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que classificou as medidas como abusivas e inconstitucionais. O Planalto alega que as propostas são "indispensáveis" à "modernização" da administração fiscal e diz que está garantido aos contribuintes o princípio da "ampla defesa".

A OAB-SP, entretanto, entende de outra forma. "O conjunto de proposições choca pela forma contundente com que se pretende transferir, sem a intermediação salutar e constitucionalmente determinada do Poder Judiciário, e sem o devido processo legal, patrimônio jurídico dos particulares", afirmou a entidade em parecer entregue no mês passado ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), logo após a criação de uma comissão especial para discutir três dos quatro projetos de lei.

Anteontem, o advogado-geral da União, Luis Adams, defendeu o pacote de vigilância fiscal no Conselho Federal da OAB. Adams disse aos advogados que as medidas são de interesse do Estado, e não do governo, pois ajudam a defender a sociedade dos sonegadores. As medidas, afirmou, ampliam o poder de fiscalização do Estado. Ele admitiu que a pressão administrativa da Fazenda e da Receita vão ajudar o contribuinte a ficar mais em dia com o Fisco. [Rá, rá, rá]

Para o presidente da OAB, Ophir Cavalcante, o pacote tem "viés autoritário" e "joga no lixo a presunção da inocência que vale para todo o cidadão, tenha ou não problemas com a Receita". As medidas, acrescentou, "só são boas para o governo, que quer chegar o mais rapidamente possível ao bolso do contribuinte, mesmo que à custa da quebra de todos os paradigmas do processo tributário".

Ou seja, você trabalha igual a uma mula o ano inteiro e ainda é obrigado a repassar parte do seu suado dinheirinho para sustentar o bem-bom da quadrilha.  Porém, se na hora de fazer sua declaração você cometer um erro de cálculo e deixar de entregar uns trocados a mais, cuidado: em questão de horas, a porta da sua casa será arrombada, seus bens serão penhorados e seu carro será levado - e é bem possível que, de quebra, você ainda passe algumas noites na cadeia. 

E por quê?  Ora, porque a quadrilha necessita de mais verbas - afinal, é ano eleitoral, e o gasto não pode parar.

Uma pergunta aos crentes e otimistas: aquele tal "Estado Democrático e de Direito", como ele está funcionando para você?


10/03/2010 00:00  por  Nubia Tavares \  economia

É com grande alegria e prazer que o Instituto Mises Brasil anuncia os vencedores do I Prêmio IMB. Joel Pinheiro da Fonseca e Juliano Torres venceram, nas categorias melhor artigo e maior contribuição, respectivamente. Os dois participantes ganharão um curso promovido pelo Ludwig von Mises Institute à escolher, em Auburn, Alabama.

A Ciência Econômica vai ao shopping mas não encontra vaga foi o texto eleito o melhor de todos publicados sob o selo do concurso pela banca composta por Roberto Fendt, Daniel Goldberg e Fábio Barbieri. De autoria de Joel Pinheiro da Fonseca, o artigo conquistou 25,5 pontos de 30 possíveis, mais alta pontuação. No total, mais de 90 artigos foram enviados para o I Prêmio IMB.

Na categoria "Maior contribuição", o vencedor foi Juliano Torres, que teve cinco artigos publicados: Desestatize o Lixo!, O papel do marketing no livre mercado, IVC - 51 anos de regulação privada no Brasil, Propaganda - um fator de produção e A propaganda do Activia.

O Instituto Mises Brasil agradece a participação de todos que enviaram artigos para o I Prêmio IMB e parabeniza os dois vencedores, Joel Pinheiro da Fonseca e Juliano Torres!


09/03/2010 00:00  por  Leandro Roque \  política

Denis Russo Burgierman é um blogueiro de VEJA.  Possui uma coluna que se chama Sustentável é pouco, atualizada semanalmente.  Eu não o conhecia.  Passei a conhecer por indicação de um leitor, que me pediu para comentar um texto dele intitulado A doença do capitalismo.

Aparentemente, Russo leu o livro Gomorra, do jornalista italiano Roberto Saviano, ficou empolgado com algumas informações nele contidas e delas tirou uma série de ideias precipitadas - não o fez por malícia, creio eu, mas por simples desconhecimento da teoria econômica. 

Por que vale a pena comentar o texto dele?  Porque Russo aborda um assunto importante e cada vez mais comentado pela imprensa, e incorre no mesmo erro cometido por aqueles que o analisam superficialmente.

É imprescindível que o leitor clique aqui e leia o texto por completo (não é grande) para melhor se contextualizar sobre o assunto, antes de passarmos à análise.  Por motivos que ficarão claros ao final, vou comentar apenas da primeira parte do texto.  Por isso a importância de lê-lo todo.

Leu?  Então vamos lá.  Ele vai de vermelho, eu vou de preto.

Tem algo profundamente errado no nosso modelo econômico. O problema não é o "capitalismo", é uma doença do capitalismo: um pensamento financeiro criminosamente insustentável que se espalhou por toda a economia (inclusive em países comunistas). Precisamos erradicar essa doença se queremos ver a luz no fim do túnel.  Neste post eu quero tentar explicar que doença é essa. Vou partir de um exemplo concreto para deixar essa discussão mais clara.

Vejamos.

O exemplo é do livro Gomorra, do jornalista italiano Roberto Saviano, transformado num filme com o mesmo nome. Saviano revela que as grandes grifes de moda italianas, para diminuir seus custos, tercerizaram os seus serviços de tecelagem. Para reduzir mais ainda os custos, eles criaram um sistema de concorrência. É assim: as grifes fazem o desenho das roupas e entregam para várias pequenas empresas de costura. Quem conseguir produzir mais em menos tempo ganha a concorrência e é pago. Quem perde a concorrência não ganha nada - trabalhou de graça e pode ficar com as roupas produzidas.

Até aqui, nada de mais nesse arranjo.  Ele é totalmente voluntário e só participam dele as empresas de costura que se apresentarem para o serviço.  Ao que consta, elas não são obrigadas a tal.  Da mesma forma, a regra do jogo, ao que tudo indica, é pré-estabelecida: ganha aquela empresa de costura que for a mais rápida.  Quem não for, não ganha.  Ninguém é forçado a nada.  E quem acha que o arranjo é injusto, não precisa participar dele.

Ademais, a última informação é interessante.  As empresas perdedoras podem ficar com o material produzido - algo totalmente justo, dado que todo o capital e trabalho empregado foi delas (não sei, mas acho que as grifes não fornecem os tecidos para essas empresas de costura). 

Sendo assim, não se pode reclamar que esse arranjo voluntário não seja bom para essas empresas: afinal, como elas agora estão livres para revender esses seus produtos, e estes inevitavelmente serão semelhantes ao produto final escolhido pelas grandes grifes, há aí uma boa garantia de rentabilidade.  

Do ponto de vista estritamente financeiro, esse sistema é um grande sucesso. O incentivo da concorrência garante preços baixíssimos e uma produção muito veloz. Desde que o sistema foi implantado, os custos de produção baixaram e as margens de lucro cresceram. Ou seja, o sistema funciona.

E nem poderia ser diferente.

Mas ele tem um monte de consequências, das quais Saviano (que está jurado de morte pela Camorra, a máfia napolitana) fala em seu livro.

Vejamos quais e de quem realmente é a culpa.

Algumas dessas consequências afetam as próprias grifes. Exemplo: a pirataria cresce, gerando competição desleal para os produtos originais. É que as empresas que perdem a concorrência sobram com um monte de roupas. Óbvio que eles vão tentar reduzir o prejuízo vendendo o encalhe aos "comerciantes informais". O resultado é que o mercado é inundado por roupas e acessórios piratas que custam várias vezes menos que as originais, mas têm um padrão de qualidade parecidíssimo, às vezes até superior (porque a concorrência seleciona apenas rapidez, fazendo com que produtores mais caprichosos saiam em desvantagem).

Ou seja, o mesmo mercado "selvagem" que garante baixos custos e altas margens de lucro para as grandes grifes é capaz de gerar uma competição desleal para essas mesmas grifes, que agora têm de concorrer com produtos com "um padrão de qualidade parecidíssimo, às vezes até superior".

Nada como um mercado livre para corrigir seus próprios excessos - isso para quem acha que houve algum excesso até aqui.

Outras consequências afetam a sociedade inteira. As regras da concorrência são um incentivo para contratar imigrantes ilegais (que topam trabalhar dia e noite, inclusive no fim-de-semana, num regime que só pode ser descrito como de escravidão).

Russo dá a entender que imigrantes são como escravos que são amontoados em navios negreiros e levados a contragosto para trabalhos compulsórios.  Falso.  Um imigrante, por definição, sai de um lugar para ir a outro a procura de trabalho.  Sua intenção sempre é melhorar de vida.  Ele faz isso porque quer; porque a situação em seu país de origem não lhe é atraente.  Se ele está disposto a "trabalhar dia e noite, inclusive no fim de semana", é porque ele acha que assim ficará em situação melhor do que aquela em que se encontrava até então.  A menos que Russo comprove que o imigrante ilegal está sendo obrigado a trabalhar para essas empresas de costura, sem a opção de sair do emprego quando quiser, tal escolha sempre será benéfica para o imigrante.

Diante desses escravos ilegais, profissionais italianos que prezam a qualidade (uma tradição do país) perdem seus empregos, o que desestrutura famílias.

Aqui, Russo incorre no já manjado truque de apelar para o sentimental para tentar tornar seu argumento mais emotivo.  Afinal, quem será o desalmado que irá defender a desestruturação de famílias?

Mas as coisas são um pouco mais diferentes do que o senso comum nos ensina.  Veja só: partindo do princípio de que essas informações são genuínas - isto é, que as empresas de costura que contratam imigrantes ilegais estão destruindo empregos dos profissionais de tradição, aqueles que até então faziam o serviço e cobravam um preço maior -, então isso significa que os serviços desses profissionais de tradição não mais estão em alta demanda pelo público.  O público migrou para os produtos da concorrência, cujos bens - pelo menos de acordo com o público consumidor - estão sendo ofertados de maneira mais eficiente. 

Se o público migrou para os produtos da concorrência, é porque ela está utilizando melhor seus fatores de produção - ou seja, ela está ofertando produtos com melhor custo-benefício para os consumidores.  E contra isso, lamento dizer ao Russo, nada se pode fazer.  Qual seria a solução proposta?  Proibir o público de comprar o que ele quer e forçá-lo a comprar aquilo que ele deixou de querer?  E por que fazer isso?  Para garantir que a renda dos profissionais de tradição se mantenha inalterada?  Não parece ser uma receita eficiente e nem duradoura.  É como se quisessem proibir que o computador fosse inventado, pois isso levaria à extinção dos mecanógrafos (profissional que consertava máquinas de escrever).  Aliás, não existem mais mecanógrafos.  Devem estar com as famílias desestruturadas - pelo menos de acordo com Russo.

Sendo assim, a única opção que resta aos profissionais de tradição é se aprimorar.  Alterar seus métodos de produção, cortar custos, vender um serviço mais barato, nem que isso signifique uma ligeira queda na qualidade do produto.  No extremo, ele terá de se adaptar a outra profissão.  Por que não?  Isso, aliás, já é coisa corriqueira em vários setores da economia, que surgem e desaparecem da noite pro dia.  Por que seria diferente na área de grifes?

Quanto ao argumento emotivo, ele pode ser invertido e, com isso, ganhar uma conotação ainda mais emotiva: se o profissional de tradição está decaindo, o imigrante pobre e até então infeliz está agora melhorando de vida, dado que as preferências do público migraram para os bens por ele produzidos.  Logo, como pode alguém ser contra essa melhora no padrão de vida do infeliz?

Todo esse ambiente ilegal atrai gangsters armados que se dedicam a extorquir as empresas. O dinheiro dos produtos de grifes acaba então sendo usado para comprar armas para o crime organizado.

Permita-me contextualizar melhor a afirmação de Russo, que parece meio perdida.  O que ele quis dizer é que os mafiosos da Camorra se aproveitam desse ambiente da capitalismo "desregulamentado" para extorquir essas empresas de costura e utilizar o dinheiro para comprar armas. 

À primeira vista, parece uma conclusão irrefutável - afinal, trata-se de um fato, e não de uma opinião do Russo.  A Camorra realmente faz tudo isso que foi dito.  Parece que um ambiente de capitalismo desregulamentado estimula esse tipo de crime, não?  Ou seja, o capitalismo desenfreado, a busca pelo lucro, tudo isso leva à lei do mais forte.  Ou pelo menos é o que Russo deixa claro.

Porém, não sei se por desleixo ou por desatenção, Russo deixou escapar um detalhe importantíssimo que o próprio Roberto Saviano revela abundantemente em seu livro: a Camorra possui estreitos laços com várias figuras do estado na região em que opera.  E isso explica muita coisa.

Por exemplo, se uma empresa de costura está sendo coagida por mafiosos, então ela teria de buscar proteção nos sistemas legais - polícia e tribunais, ambas instituições estatais.  Porém, se essas instituições estão em conluio com a máfia local, então é óbvio que não resta alternativa para as empresas a não ser cooperar com os mafiosos.  Portanto, o que acontece é que a Camorra pratica seus crimes em um ambiente altamente estatizado, e não em um ambiente de livre mercado.  Um livre mercado requer respeito à propriedade privada, liberdade de empreendimento e de trocas, e plena autonomia contratual do indivíduo.  E o que temos nessa região da Itália?  Uma organização criminosa que, justamente por estar em conluio com as autoridades políticas locais, conseguiu garantir para si o monopólio da violência e construiu seu próprio sistema de tributação.

Ou seja, é o estado que está estimulando toda essa situação, e não um livre mercado.  É o estado que está gerando um ambiente propício para que gangsteres armados possam confortavelmente se dedicar a extorquir as empresas e utilizar o dinheiro - pago pelas grandes grifes - para comprar armas para o crime organizado.

Se isso realmente fosse capitalismo, Denis Russo teria toda a razão em dizer que ele está doente.  O problema é que estamos frente a um evidente excesso de estatismo.  Logo, Denis Russo faria bem em condenar os reais fomentadores do crime - os membros do estado. 

 

Entendidas essas questões cruciais, todo o resto do texto de Russo perde o sentido, uma vez que ele está atacando uma coisa achando que é outra.  (A parte final do seu texto é uma verdadeira maçaroca de achismos e ilações sobre o "pessoal de financeiro", PIBs, bancos e bolsas, algo que não nos interessa aqui e que pouco tem a ver com a ideia central do texto).

Sim, ele está certo em condenar as grifes italianas que utilizam o serviço dessas empresas de costura dominadas pela máfia.  Eu também acho moralmente condenável alguém utilizar as roupas de alguma grife cujo processo de produção envolve empresas controladas por quadrilhas de assassinos (por mais que, em última instância, inocentes imigrantes estejam melhorando de vida no processo). 

Qualquer propaganda contra essas grifes e qualquer discriminação contra as pessoas que utilizem roupas dessas grifes são totalmente válidas.  Mas é preciso ter honestidade intelectual: se é para apontar os culpados, que estes sejam claramente identificados.  O que temos nesse arranjo não é um capitalismo de livre mercado, mas sim um conluio entre mafiosos, governos e grandes empresas inescrupulosas.

Aí já se ouve a gritaria: "Ah, mas e tudo o que você havia dito até então sobre as empresas de costura operarem sob liberdade total de contrato com as grandes grifes?  E os profissionais de tradição?  Devem se estrepar mesmo assim?"

Tudo o que foi dito sobre as empresas continua sendo válido.  A relação entre as grandes grifes e as empresas de costura é de fato essencialmente livre.  O problema todo está no fato de tais empresas serem extorquidas pela máfia local, que está em conluio com o estado.  Também mantenho tudo o que disse sobre a questão dos imigrantes.

Já em relação aos profissionais de tradição, restaria apenas uma saída, que seria a moralmente correta: os consumidores dos produtos das grandes grife, por saberem do envolvimento da Camorra, deveriam exigir alguma atitude delas - por exemplo, que elas parassem de lidar com as empresas de costura controladas pela Camorra até que algo fosse feito (sendo que os imigrantes é que se estrepariam nesse processo).  Isso inevitavelmente voltaria a produção para os profissionais de tradição.

Porém, se os consumidores querem que tudo continue como está, se não houver boicotes e discriminação contra quem utiliza tais produtos, e se o estado continuar em conluio com a Camorra, então realmente nada pode ser feito.  (O objetivo principal, obviamente, deveria ser o de eliminar a Camorra.  Mas isso é algo em que aparentemente o estado local não está interessado.)

A situação continuará totalmente imoral.  Mas vale repetir: quem está estimulando toda essa situação é o estado, que concedeu o monopólio da violência à Camorra.  Isso não é capitalismo de livre mercado.


08/03/2010 00:00  por  Leandro Roque \  filosofia

O demiurgo que reside no Palácio da Alvorada desentendeu-se com o iluminado que habita a Casa Branca.  O primeiro, que surrupia nosso dinheiro, não gostou da maneira como o último está gastando o dinheiro que surrupia dos americanos.  Por causa disso, decidiu punir a todos nós, que não temos nada a ver com essa briga de gangues.

Explicando: o Brasil "ganhou" na Organização Mundial de Comércio (OMC - a quadrilha suprema que determina as regras que as quadrilhas nacionais devem impor a seus súditos, caso estes queiram incorrer em alguma prática comercial internacional) o direito de retaliar os EUA, já que o país concede subsídios à produção e à exportação de algodão.  Por retaliar, leia-se "encarecer o acesso dos brasileiros a produtos vendidos pelos americanos".

Entre os produtos que constam da "lista de retaliação", estão metanol (com alíquota de 22%), paracetamol (28%), soro de leite (48%), trigo (30%), batatas conservadas (34%), bebidas não alcoólicas (40% - ainda bem que meu Red Bull vem da Áustria), dentifrícios (36%), pneus novos (32%), produtos de beleza (36%), leitores de códigos de barras (22%), fones de ouvido (40%), óculos de sol (40%) e veículos de até mil cilindradas (50%).  Veja a lista completa aqui.

Além do soro de leite (alimento protéico de alto valor nutritivo), do paracetamol (substância usada para reduzir febre e aliviar dores) e do trigo (que pode impactar o preço do pão), note que os celerados incluíram na lista pasta de dente e pneus novos - afinal, esse negócio de escovar dente e dirigir em segurança são afetações burguesas.

Até onde se sabe, Don Corleone se preocupava em poupar inocentes durante seus acertos de contas com outras quadrilhas.  Mais ainda: o Chefão prosperou justamente porque atendia à demanda dos consumidores, fornecendo-lhes bens e serviços que o estado havia proibido.

Já o moderno formato das máfias, que agora operam livremente em âmbito mundial, é exatamente o inverso: os chefões trocam tapinhas nas costas e punem justamente os idiotas inocentes que os sustentam, encarecendo artificialmente seu acesso a vários produtos essenciais.  Ou vai me dizer que soro de leite, paracetamol, pneus e dentifrício são itens supérfluos?

E o pior é ver gente dizendo que, se o estado for abolido, quadrilhas despóticas assumirão o poder...  

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Mais sobre o assunto: A indústria de calçados e os pobres descalços






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