12/08/2010 00:00  por  Fernando Chiocca \  política

Vejam esta notícia.

Uma casa de bingo eletrônico foi vítima de dois grupos criminosos quase ao mesmo tempo.

Quando o primeiro grupo executava seu assalto, e matinha os clientes e funcionários da casa como reféns, amarrados, o outro grupo chegou.  Houve confronto entre as duas quadrilhas inimigas.  O segundo grupo frustrou a ação do primeiro, que fugiu do local abandonando seu esbulho:

"Na fuga, os criminosos deixaram duas mochilas com o dinheiro do roubo e um computador."

Porém, isto foi algo terrível para os proprietários; os bandidos que chegaram depois fizeram um assalto muito maior:

"Quase 40 máquinas caça-níqueis foram recolhidas."

 Além de um grupo ter tido sucesso em sua empreitada criminosa e o outro não, existe outra diferença importante entre os dois grupos.  A diferença é essa:

"A polícia fez buscas na região, mas ninguém foi encontrado."

O segundo grupo criminoso não está "desaparecido".  Ele está identificado, polícia do estado de São Paulo, e todos sabem o seu endereço.  Sabem inclusive para onde foi levado o produto do roubo.

E assim segue a vida em nossa sociedade de criminosos, onde uma maioria da população condena o primeiro grupo mas, bizarramente, apoia o segundo.


06/08/2010 00:00  por  Leandro Roque \  política

A eleição presidencial deste ano promete ser, de longe, a pior e mais estupidificante já vivenciada pelo povo brasileiro.  Não que as eleições anteriores tenham sido grandes coisas, muito pelo contrário.  Porém, em todas elas, havia ao menos algum discurso ou comportamento um pouco mais interessante, algo que destoava um pouco do inconsciente estatizante que sem dúvida irá dominar a eleição atual.

As eleições de 1989 até hoje foram as melhores.  Com um governo que usufruía módicos 7% de aprovação, todos os 22 candidatos eram obrigatoriamente do contra.  É claro que era possível ser contra Sarney à direita e à esquerda.  E havia uma ampla leva daqueles infatigáveis seres ansiosos para trazer o Muro de Berlim para cá. Porém, também havia aqueles que falavam coisa com coisa — e em uma quantidade que jamais se repetiu.  

Afif, cujo plano econômico havia sido elaborado pelo economista Paulo Guedes, era de longe o melhor.  Era o único, aliás, que demonstrava entender genuinamente as causas das mazelas econômicas que afligiam o país à época.  Fernando Collor, por sua vez, apresentava um discurso que falava abertamente em privatizações, redução do estado e cassação de marajás, algo proibitivo hoje em dia.  Liberal demais.  Pena que após sua posse, o carioca-alagoano — que subiu a rampa do Palácio do Planalto bufando modernidade — resolveu entregar o comando da economia a uma ex-integrante do PCB.  O resultado não poderia ter sido outro.  Por fim, até mesmo Ronaldo Caiado tinha algumas ideias modernas.

Em 1994, FHC teve de adotar um discurso mais liberal para se contrapor ao seu rival petista, que ainda sonhava com Cuba.  O mesmo ocorreu em 1998.  Em 2002, foi a vez do PT mostrar que estava ficando racional, o que trouxe um certo frescor.  Mesmo em 2006 houve alguns (poucos) bons momentos no primeiro turno, nem que fosse a participação de Luciano Bivar, do PSL.  No segundo turno, é verdade, a coisa degringolou geral.

E é nesse espírito que começará a campanha presidencial deste ano.  Dos quatro principais candidatos, todos têm DNA 100% de esquerda.  José Serra foi trotskista na juventude e é de formação econômica cepalina.  Atualmente é pós-keynesiano.  Dilma Rousseff é de formação stalinista e, em sua juventude, participava de assaltos a bancos e praticava invasão de domicílios.  Ainda não se sabe o que ela defende atualmente, pois não tem vida própria.  Lula manda, ela obedece.  Marina Silva, como toda ambientalista, apenas limita-se a repetir chavões sobre 'sustentabilidade', 'desenvolvimento responsável' e xaropadas afins.  Finalmente, há a imperecível figura de Plínio de Arruda Sampaio, cujas ideias, que exalam naftalina, fazem com que Robert Mugabe pareça moderado.  E, como bom comunista, obviamente não dispensa o luxo: mora no bairro Alto de Pinheiros, São Paulo, ao mesmo tempo em que defende o confisco da propriedade dos "ricos".

Com a iminência do horário político, que será um verdadeiro tormento para os seres inteligentes pelos próximos dois meses, o IMB vem a público com a missão de poupar o leitor da aflição de ter de se informar sobre o programa econômico dos nobres candidatos.  Aqui vai um breve compêndio de como pensam as esclarecidas mentes destes quatro adoráveis seres que estão ávidos para comandar a sua vida e a economia pelos próximos quatro anos.

José Serra

Comecemos por José Serra.  Este talvez seja o portador do enigma mais transcendental da política brasileira.  Como pode um indivíduo de passado trotskista e presente keynesiano ser considerado o candidato liberal?  Mais ainda: por que um homem claramente de esquerda é odiado mortalmente pela ala esquerdista da sociedade brasileira?

A resposta à primeira pergunta é fácil.  Na falta de um discurso genuinamente liberal, pega-se para ocupar esta vaga o representante do partido cujos membros são vistos pela mídia como sendo os menos esquerdistas.  Desculpem a simplicidade da explicação, mas a resposta à primeira pergunta de fato é esta.

Quanto à segunda pergunta, sua resposta exige um pouco mais de aprofundamento histórico. 

A explicação simples, porém direta, é uma só.  Não é novidade alguma que o cenário político brasileiro está dividido entre duas e apenas duas forças: comunistas e social-democratas.  Esquerda e esquerda.  Qualquer coisa à direita disso está veladamente proibida.  A disputa entre uma direita e uma esquerda, ambas moderadas, é a essência de qualquer democracia europeia, americana ou mesmo colombiana e chilena.  Mas, no Brasil, a coisa é mais progressista.  A disputa se dá apenas entre os espectros à esquerda do centro.

E é aí que vem a resposta: enquanto que nas democracias consolidadas esquerda e direita brigam dentro das regras, historicamente a briga entre social-democratas e comunistas sempre foi coisa feia.  Onde quer que essa briga tenha dominado o palco, houve carnificina.  Na Rússia, os comunistas trucidaram os social-democratas, impondo o regime leninista.  Já na Alemanha ocorreu o contrário, e, após a chacina, o vácuo deixado pelos comunistas foi ocupado pelo populismo nazista.

Como no Brasil não há direita, nem conservadorismo e muito menos liberalismo, qualquer social democrata de maior expressão imediatamente ganha essa pecha.  E, ato contínuo, recebe toda a fúria das esquerdas originadas de movimentos comunistas, como é o caso do PT.  E não adianta: quanto mais o sujeito tenta aquiescer, quanto mais ele tenta conciliar, mais fúria ele atrai. 

Por mais que o sujeito defenda programas sociais politicamente corretos, por mais que ele defenda banco central imprimindo dinheiro para baixar os juros na marra (medida essa que, na verdade, acaba tendo o efeito oposto, algo que keynesiano nenhum entende), por mais que ele defenda crédito fácil e subsídios, por mais que ele defenda o aumento de gastos e investimentos estatais, por mais que ele faça tudo isso, não tem jeito: ainda assim o coitado não consegue o amor das esquerdas.

Justamente por não ser um genuíno conservador ou mesmo um liberal light, mas apenas um social democrata, ele é capaz de materializar toda a fúria esquerdista contra si próprio.

E quando olhamos seu plano de governo, vemos que ele de fato vem se esforçando ao máximo para agradar essa esquerda que tanto o odeia.  Já disse que vai criar mais dois ministérios, sendo um deles voltado para os deficientes físicos (como se um bando de burocratas encastelados em Brasília e comendo dinheiro público ajudasse em alguma coisa um sujeito numa cadeira de rodas vagando pelas ruas de Pirassununga).  O outro ministério seria voltado para a segurança pública.  Esse, sim, promete ser um monumental ralo de dinheiro público, pois os recursos certamente nunca serão o suficiente para dar sequência à imbecil guerra às drogas, por exemplo.

Aprofundando-se ainda mais em seu esforço, o cepalino prometeu duplicar o Bolsa-Família.  Atualmente, o programa atende 12,6 milhões de famílias.  A meta serrista é elevar esse número para parcas 27,6 milhões de famílias.  Ora, se imaginarmos que cada família pobre é formada por pelo menos 4 pessoas, teremos então que num eventual governo Serra nada menos que 110 milhões de pessoas estarão recebendo dinheiro diretamente do governo.  Se a esses números acrescentarmos o número total de funcionários públicos, tanto na ativa quanto aposentados, que até lá já estarão beirando os 11 milhões, temos que nada menos que 121 milhões de pessoas serão "empregadas" do governo.  Algo, no mínimo, soviético.  Sem dúvida, é assim que um país enriquece.

Mas, calma!, ainda tem mais.  O social democrata também prometeu criar um tal Bolsa-Adolescente, que, segundo ele, seria uma ajuda para que jovens concluam o ensino profissionalizante e entrem no mercado de trabalho.  Mais um pouquinho e ainda vão criar uma lei declarando a obrigatoriedade de se fornecer um emprego.  

Ah, sim: segundo o próprio, tal programa está na origem dos programas sociais do governo Lula.  Ambos duelam pra ver quem fez mais "pelo social", para ver quem é o mais progressista. 

Em termos puramente econômicos, no que tange ao papel do estado na economia, Serra já deixou claro em várias entrevistas que acredita no "ativismo estatal", com um governo regulando rigidamente a atividade econômica e investindo em infraestrutura.  Meio que para contrabalançar essas posições explicitamente interventoras, e também para não assustar tanto a sua base eleitoral, formada predominantemente por antipetistas, o tucano sempre recorre ao inefável "tucanês", e diz que a estrutura do estado deve ser "eficiente" — o que significa que dá para "fazer mais com menos recursos." (Normalmente tal frase é pronunciada com o punho fechado, demonstrando o vigor da ideia).

Isso significa que Serra irá cortar gastos?  De modo algum.  Corte de gastos é palavra proibida no vernáculo social-democrata, "pois causa muito sofrimento".  Ademais, temos de admitir, seria muita maldade parar de financiar amostras culturais, festivais de curta-metragem e algum grupo de teatro avant-garde (social democrata que se preze é fluente em francês).  No máximo, com muito esforço, Serra concede que é preciso diminuir o ritmo do aumento dos gastos.  E estamos conversados.

Por fim, há aquele área que faz todo pós-keynesiano salivar: crédito, juros e bancos públicos.  Nesse quesito, Serra garante que não haverá parcimônia.  Juros baixos, concessão de crédito subsidiado via BNDES e bancos estatais estão na pauta do programa keynesiano tucano.

Privatizações?  Nada.  O debate atual passa longe da necessidade de novas privatizações.  A única discussão permitida é perguntar por que o PT não desfez as privatizações que foram feitas pelo governo FHC...

E esse é o candidato liberal.  Analisemos agora sua rival.

Dilma Rousseff

Dilma Rousseff defende as mesmas políticas econômicas de Serra, porém é mais explícita em seu programa.  Sabemos que ambos vão aumentar os gastos, porém a petista não esconde que fará um "reaparelhamento da máquina estatal", com a "valorização do funcionalismo público", sendo que essa sempre foi historicamente a base eleitoral do PT.  Para ela, aqueles que falam que existe inchaço na máquina estatal são necessariamente defensores de um estado mínimo utópico.  Para Lula, um bando de criminosos sem alma e sem piedade. 

Caso Dilma seja eleita, prepare-se para sustentar um exército de marajás que desfrutarão aposentadorias de R$ 18 mil e que ganharão R$ 13 mil para serviços básicos.  E contenha-se, leitor: se você ficar irritado por ter de pagar salários magnânimos para parasitas, trata-se de uma postura criminosa.  Essa política, vale ressaltar, será uma mera continuação da política iniciada por Lula ainda em seu primeiro mandato.

Em um possível governo Dilma, ela própria já garantiu que não apenas não venderá nenhum bem governamental, como também fortalecerá estatais como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES.

Para contrabalançar, Dilma costuma dizer que irá diminuir a carga tributária sobre a folha de salário e sobre os setores energético e de remédios.  Por que isso sequer foi discutido nos oito anos do governo do qual ela participou integralmente é algo que não deve ser perquirido, pois há o sério risco da candidata se embananar nas respostas.

E quando isso acontece — isto é, quando a petista tenta formular alguma frase — é um Deus nos acuda.  As sentenças não fecham, o raciocínio é torto e confuso, e o discurso não flui, perdendo-se em intermináveis anacolutos.

Como seus marqueteiros já lhe disseram que ela não pode atacar e nem defender nenhum programa em específico (por exemplo, ela não pode desagradar aos ambientalistas e nem ao MST, mas também não pode hostilizar os ruralistas e os pequenos proprietários de terra), a coitada fica perdida e acaba dando respostas impossíveis, na vã esperança de que a embromação irá fazer o espectador crer que ela tem um pensamento percuciente, opalescente, refletido, pautado pelo rigor e pela temperança.

Em termos monetários, não há por que imaginar que ela pense diferente de Serra, embora seja bem possível que ela venha a manter Henrique Meirelles no Banco Central, apenas para manter a confiança dos tais "mercados".

Por fim, vale lembrar que Dilma sempre gostou de enfatizar que o estado deve defender o "interesse nacional" e "a emancipação do povo brasileiro".  Tradução: o governo vai encher o BNDES de dinheiro para que este dê empréstimos subsidiados às grandes empresas, cujos donos possuem ligações estreitas com o governo (o dono de uma famosa cadeia de supermercados não virou um entusiasta petista à toa).  A ideia é criar um conglomerado de empresas nacionais que serão verdadeiras potências mundiais, com o objetivo de dominar o mundo.  É o velho conluio entre estado e grandes corporações, política essa inventada por um cavalheiro chamado Benito Mussolini.

O problema é que, como o BNDES vem sendo financiado diretamente pelo Tesouro — que está vendendo títulos da dívida e dando o dinheiro arrecadado para o BNDES —, isso significa que, para manter esse socialismo para os ricos, a carga tributária e os fardos regulatórios sobre as pequenas empresas terão de seguir aumentando (afinal, alguém precisa pagar pela farra). 

Curiosamente, eis aí um arranjo que não só nenhum partido político condena, como na verdade todos aprovam.  Afinal, são esses barões que, em troca do financiamento camarada do BNDES, irão encher de dinheiro os cofres desses partidos.

O imenso espaço que isso abre no cenário nacional para que algum partido faça um discurso genuinamente libertário em defesa das pequenas empresas e contra subsídios e regulamentações não tem quem o preencha.  E é assim que chegamos ao inevitável arranjo que hoje domina a economia brasileira: subsídios e regulamentações sempre prejudicando a vida das pequenas empresas, e dando vantagens injustas para as grandes empresas.  E depois ainda acham estranho que as pequenas empresas paguem salários baixos...

Marina Silva

O que nos leva à senadora Marina Silva, que tinha potencial para adotar, nem que fosse de forma fingida, esse discurso.

O problema é que a senadora parece um semáforo: às vezes está verde, às vezes está vermelha.  (Se bem que há pouca diferença entre ambas as cores.  Os vermelhos querem abolir a busca individual do lucro e da felicidade pois acham que tal comportamento gera exploração, monopólios e pobreza contínua.  Já os verdes querem aboli-lo pois acham que ele gera chuva ácida, destruição da camada de ozônio e aquecimento global).

Quando está verde, a senadora é inócua.  Tudo o que ela consegue com seus intermináveis discursos sobre a necessidade de termos mais moinhos de vento e menos hidrelétricas é atingir aquela inocente dignidade do ridículo. 

Após 3 minutos de falatório — no qual o espectador é seriamente desafiado a mostrar que não sofre de Distúrbio de Déficit de Atenção —, a senadora já descarregou uma pletora de substantivos abstratos, recheados com vários termos técnicos modernosos sobre meio ambiente e perfeitamente adornados por aquele linguajar poético que mistura o jacaré-do-peito-amarelo, as populações indígenas, os sedimentos e as licenças ambientais.  Tudo isso, é claro, cuidadosamente expressado naquele idioma diretamente saído do manual da agenda politicamente correta do novo milênio. 

Aquela figura de aparência frágil e beata, com voz um tanto sumida, ajuda uma enormidade a aumentar toda a mística em seu entorno, blindando-a da necessidade de quaisquer explicações mais aprofundadas.  Em uma entrevista dada ao programa Roda Viva, a senadora foi perguntada sobre política econômica.  Qual seria a dela?  Iria manter Henrique Meirelles no Banco Central?  A resposta foi um sorriso cândido e vitorioso, típico daqueles que enxergam a política em outro patamar.  O que Marina deu a entender é que essas preocupações são mundanas demais, e já estão devidamente superadas.  O que importa é a nova agenda do milênio, isto é, a sustentabilidade.  Todo o resto é conversa fiada.  Parodiando Fernando Pessoa, em um hipotético governo Marina, mordomos invisíveis seriam encarregados da administração da casa enquanto ela se dedicaria inteiramente aos "temas do futuro", que é o que importa.

Ou seja, quando está verde, a senadora é inócua.  Porém, quando muda pro vermelho, a coisa fica mais séria.  E de modo contraditoriamente engraçado.  Perguntada sobre redução de impostos, ela manda ver: "Eu disse que aumentar, não.  E, se possível, reduzir.  Temos que criar os meios para a redução".  Porém, logo após prometer que não irá aumentar impostos, a digníssima arremata dizendo que irá elevar impostos sobre "indústrias poluidoras" e que irá também promover a unificação do ICMS, numa clara intervenção federal na soberania dos estados — se é que existe alguma.

Tudo o que a economia mais precisa é que o governo imponha custos extras sobre as indústrias e que os estados mais pobres tenham seus ICMSs equiparados aos dos estados mais ricos.  Aparentemente a senadora ignora o fato óbvio de que esses custos extras repercutirão nos investimentos e, consequentemente, nos bens produzidos e nos salários pagos por essas empresas.  Mais ainda: a unificação do ICMS seria péssima justamente para os estados mais pobres.  Afinal, sendo o custo tributário estadual o mesmo, por que abrir fábricas em locais mais atrasados se é possível desfrutar da mão-de-obra e das comodidades dos locais mais ricos?

Sim, de vez em quando ela fala que está preocupada com o aumento da dívida.  A solução?  A mesma de Serra: reduzir o ritmo de aumento dos gastos.  Ambos creem que, dessa forma, o PIB irá crescer proporcionalmente mais que os gastos, reduzindo a dívida.  É tudo na base do achismo, sem qualquer sustentação teórica.  Afinal, por que achar que o PIB vai crescer mais que o ritmo de aumento dos gastos?  "Tudo dando certo, o endividamento tenderá a ficar menor em relação ao tamanho da economia, com o passar do tempo", disse um assessor.

Entendeu? "Tudo dando certo...".

Tudo dando certo, eu posso pular da janela, voar até a lua e ainda voltar a tempo do almoço.  E é isso que hoje em dia se passa por plataforma econômica...

Os nanicos

Mas não se desespere!  Caso ainda esteja insatisfeito com essas três distintas opções, nossa democracia pluralista permite que você possa escolher entre uma gama de partidos nanicos, cujas plataformas são extremamente diversificadas, indo desde a implementação da política econômica da Albânia da década de 1980 (aquela maravilha em que as pessoas, de tão desesperadas, se jogavam ao mar utilizando toras de árvore como bóias) até a restauração do regime maoísta.

Por exemplo, Plínio de Arruda Sampaio e seu P-SOL.  Eis aí um partido fundado inteiramente pela ala xiita do PT, com quadros majoritariamente vindos do PT gaúcho e paulista, os mais radicais.  Seus membros defendem desavergonhadamente a tomada da propriedade dos meios de produção. 

Muitos dizem que Plínio é um sujeito caricato demais e, logo, inofensivo.  Ledo engano.  Embora suas chances sejam nulas, o fato é que sua simples presença na campanha serve a um propósito muito mais avançado, a uma estratégia muito bem bolada: seu discurso de extrema-esquerda serve para deslocar o fiel da balança para essa direção, fazendo com que qualquer discurso mais à direita do PSDB seja visto como radical.  Com o fiel da balança violentamente girado para a esquerda, o lugar nominal do que seria a "direita" foi ocupado pelos tucanos, os quais na Europa seriam vistos como um partido social democrata qualquer — e, naturalmente, de esquerda.

Com esse o quadro de opções políticas completamente falseado, a hipótese de um discurso genuinamente liberal se tornou inviável e inconcebível no Brasil.  

Conclusão

Pronto.  Eis aí a nossa democracia em ação.  Eis aí a plataforma política de nossos potenciais chefes de governo.

Estranhamente, ninguém vê esse processo como uma anormalidade.  Ao contrário: as pessoas, inclusive os bem pensantes, veem aí uma saudável demonstração de pluralidade democrática.  Para a mídia e, principalmente, para o establishment universitário, o Brasil está perfeitamente dentro do espectro político aceitável, com partidos que vão desde a extrema-esquerda, de um lado, até a democracia socialista, do lado oposto.  E só.  Acabam por aí as opções.  Mesmo a social-democracia escandinava, com sua economia privada altamente desregulamentada, pouca burocracia, inexistência de salário mínimo e de bancos estatais, e com ampla liberdade comercial, não possui representantes por aqui.

Mises sempre dizia que, para poder sobreviver, o ser humano precisa ser capaz de pensar, precisa saber usar corretamente suas faculdades mentais.  Pelo visto, os brasileiros há muito já terceirizaram essa função.  Hoje, quem pensa pela população são a mídia e os intelectuais universitários.  E isso ajuda a explicar por que o país é uma fonte tão escassa de pensamento original e significativo.

Isso é realmente assustador.  E o que é ainda mais apavorante é ver que mesmo o universo intelectualmente independente — incluindo-se aí blogueiros famosos e muito lidos, professores de economia com grande reputação, historiadores e filósofos, e todos os outros campos direta ou indiretamente ligados à política — está predominantemente contaminado pelo mesmo nível de ignorância, o que o impede de identificar esse mesmo problema nos candidatos.  Aparentemente estamos vivendo em uma sociedade cuja cultura econômica é comparável a uma mesa de sinuca, na qual bolas de bilhar inconscientes se colidem ao acaso, sem que qualquer conhecimento ou compreensão da situação estejam presentes.



28/07/2010 00:00  por  Fernando Ulrich \  economia

Prezado leitor do IMB, perdoe-me a pretensão, porém me vejo obrigado a aproveitar este espaço para corrigir um erro da revista quinzenal Exame, edição 972 de 28/7/2010, cuja capa estampa a seguinte frase: Consumo, a força que move a economia.

Pela presente errata, retifico, não é o consumo que move a economia, é a produção!

Apesar da matéria de capa não entrar no debate econômico, acredito ser imprescindível que os leitores do IMB enxerguem a mídia através das "lentes" austríacas.

O artigo da editora Abril ilustra na verdade o fato de o mercado consumidor brasileiro estar crescendo. Indiscutivelmente e apesar do Governo, a economia brasileira vivencia um bom momento, com desemprego em baixa e aumento de renda, inserindo na economia camadas da população que antes praticamente não participavam. Sem entrar no mérito da sustentabilidade do cenário econômico brasileiro, é fato que este mercado consumidor está aumentando. Não se esqueçam, eu disse "apesar" do Governo.

Mas voltemos ao título da Exame. Ao contrário do que é divulgado intensa e quase que sublinarmente, dia após dia, o consumo não é a força que move a economia. O consumo americano não é o motor da economia mundial, é o principal entrave.

Consumo é a consequência da produção. Para que algo possa ser consumido, é preciso que este algo seja previamente produzido. Economistas keynesianos e do mainstream costumam inverter as relações de causa e efeito.

Portanto, quanto maior for a produção, maior será o consumo. Para que a produção aumente é necessário que haja investimento. Para investir é necessário poupar.

Os chineses pouparam e produziram. Os americanos consumiram comprando fiado dos chineses. Se os americanos não começarem a produzir, jamais poderão pagar a conta.

Enquanto economistas e leigos da mídia continuarem a perpetuar falácias como esta, será difícil corrigir as distorções da economia mundial.


22/07/2010 00:00  por  Fernando Ulrich \  economia

Poderíamos afirmar que Bernanke contra Trichet seria uma reedição de Keynes vs Hayek?

Ok, não é para tanto, Trichet ainda está longe de ser considerado um seguidor de Hayek. Entretanto, é louvável o artigo do presidente do Banco Central Europeu, publicado no Financial Times de 22 de julho de 2010, no qual ele não só questiona, como também receita medidas totalmente opostas ao seu colega do FED, Ben Maynard Bernanke. Soma-se a isto o fato de o artigo ter sido publicado horas após o Chairman do FED ter sugerido a necessidade de novos estímulos fiscais no curto prazo.

Em seu artigo, entitulado "Stimulate no more - it is now time for all to tighten" (Estímulos não mais - é hora de todos apertarem os cintos), Trichet reconhece a inutilidade e o potencial catástrofico de mais estímulos fiscais.

Economistas austríacos foram claros e enfáticos: jamais devemos aumentar gastos governamentais financiados por dívida em uma recessão. O que, felizmente, Trichet reconhece, ainda que de maneira tardia. Em suas palavras: "hoje vemos o quão infeliz, foi a mensagem simplista de estímulo fiscal dada aos países industrializados sob o lema de 'estimular', 'ativar' e 'gastar'!"

Devo admitir que, após ler seu artigo, senti uma sensação de leveza e contentamento, pois inclusive é sabido que Trichet leu por completo a obra de Jesús Huerta de Soto (Dinheiro, crédito bancário e ciclos econômicos).

Apesar das belas palavras, Jean-Claude Trichet não pode ser considerado um austríaco. Mas atrevo-me a afirmar que no debate Keynes vs Hayek, ele está deixando o lado negro da força.


05/07/2010 00:00  por  Leandro Roque \  economia

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A mídia obviamente não perdoa a dupla Dunga-Felipe Melo, culpando-os pela saída prematura do Brasil na Copa do Mundo.  Sempre que a mídia unanimemente resolve bater em alguém, pode estar certo de que esse alguém é portador de virtudes raras. .

Este é o caso da dupla em questão.  O primeiro escalou e o segundo jogou.  No primeiro tempo, Felipe Melo fez tudo o que não deveria: marcou forte e ainda deu uma bela assistência que originou o gol de Robinho.  Já no segundo tempo, como que para corrigir as bobagens feitas no primeiro, o homem resolveu finalmente fazer tudo certinho: fez gol contra, não marcou o holandês responsável pelo segundo gol e ainda cavou brilhantemente uma expulsão (quem viu a cena notou que foi coisa de profissional).

Tudo isso, claro, não teria ocorrido sem Dunga, o maestro responsável pela escalação do mestre.

Estou sendo irônico?  Nem um pouco.  Não sou de torcer contra o Brasil em copas.  Aliás, nem haveria motivos para isso.  É verdade que tenho aversão a esse ufanismo que toma as ruas em períodos de mundial, mas isso felizmente acaba em uma semana.

Porém, em todas as copas daqui pra frente, se você preza seu esforço próprio e tem amor aos frutos do seu trabalho, você deve torcer contra o Brasil.  O motivo?  Uma lei criada por Lula, que prevê que "todos os jogadores da seleção da CBF que foram campeões nos campeonatos mundiais da FIFA receberão de "indenização" e "reparação" R$ 465 mil e uma aposentadoria de R$ 4.650 por mês." 

Multiplique esse valor pelas duas dezenas de jogadores convocados, e você terá uma ligeira dimensão do estrago.  Dá quase R$ 10 milhões por copa só de premiação, sem contar a mesada vitalícia de R$ 4.650.

Estrago esse que será integralmente pago por você, é claro.  Mais detalhes sobre esse esbulho aqui

Dunga e Felipe Melo simplesmente pouparam ao povo brasileiro vários milhões de reais que seriam confiscados a força para sustentar atletas que já ganham milhões de euros por mês.  Ambos merecem estátuas, no mínimo.  Principalmente Felipe Melo, que aceitou ser execrado pela mídia nacional em troca de uma causa maior — e tudo em detrimento dele próprio e em benefício de toda a nação.  Um verdadeiro mártir altruísta.

De agora em diante, meu lema copeiro será em ritmo de samba ao estilo Pra Frente Brasil:

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"São mais de R$ 10 milhões em ação,

sou contra o Brasil,

poupem-me do mesadão! 

Todos juntos vamos,

pro bem da nação,

perde, Seleção!"



25/06/2010 00:00  por  Klauber Cristofen Pires \  economia

Você quer saber por que os preços nas feiras ou nos supermercados não têm baixado? Quer saber por que há inflação sobre os alimentos no país que mais e melhor os produz no mundo? Agradeça ao Lula, à Dilma e à equipe da estrela vermelha.

Lógico, a propaganda lulo-dilmo-petista não se exibe com estas tintas. Isto porque ela não é voltada para você, cidadão consumidor, mas sim para o benefício de grupos de interesses particulares. O nome do dragão inflacionário com que o governo se exibe agora se chama "Programa de Garantia de Preços Mínimos", e consiste na aquisição pelo governo de vários tipos de alimentos  - especialmente cereais - com o propósito de formar estoques reguladores. Mas espere, que volto ao assunto.

Não há muito tempo escrevi um artigo comentando sobre o revolucionário progresso na agricultura cubana. Pois eis que, depois de dez mil anos, os antilhanos dos Castro, enfim, descobriram as vantagens...da roça! Se o texto proporcionou ao leitor boas risadas, é hora de se preocupar: o nosso governo anda admiradíssimo com os resultados. Logo, logo, se Lula e Dilma quiserem, estaremos trocando a nossa vexaminosa produção de arroz, cuja produtividade mal passa de 7000 kg/hectare para estonteantes...1200 kg/hectare! E assim tanto quanto com os demais tipos de culturas...

Não por menos, decidiu o governo aumentar os investimentos no que chama de "Pronaf  - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar", desta vez com aumentos nos recursos reservados para financiamentos que desta vez ultrapassarão, pasmem, quinze bilhões de reais!

O termo "agricultor familiar", por sua vez, nada mais é que um posto de promoção ao antigo "assentado" do MST. Como se vê, gente que na maioria da vida nunca soube o que era uma enxada, até à hora de descobrir que serve para destruir cercas e benfeitorias. Mas é para indivíduos assim que o dito programa pretende emprestar até cerca de oitenta mil reais, a juros camaradíssimos. Bem conveniente, para estes tempos em que os milionários repasses de verbas ao MST via ONG's de fachada andam sendo questionados. O PT sempre tem um plano B, C, D...

Agora, os dois fatos se encontram. Não bastante as terras esbulhadas de algum pobre agricultor de verdade - deste que produz cinco a sete vezes mais do que a nossa metrópole caribenha; não obstante as infindas cestas básicas pagas com dinheiro suado de quem não recebe nada de graça, ainda mais para não fazer nada; não obstante tal gorda linha de crédito a fundo perdido; vem o estado garantir um preço mínimo ao novos "produtores". É a tal da manutenção do equilíbrio econômico-financeiro em sua forma rural.

Recorrendo a Henry Hazlitt, o que podemos esperar de tudo isto? Primeiro, os cidadãos urbanos vão pagar por isto. Ao trocar o agricultor autêntico - aquele que produz muito e se sujeita às regras do mercado -  pelo assentado metido a besta, vai pagar mais caro por menos e pior produto. Do dinheiro que escorrer do consumidor urbano, muitos e muitos investimentos serão drenados de oportunidades de negócios mais eficientes para a incipiente e nada promissora produção enxadista. O Brasil como um todo vai empobrecer.

Mas há mais para se lamentar: banqueiros privados cedem empréstimos com base em estimativas econômicas baseadas em complexas variáveis acompanhadas diariamente por anos e anos. Servidores públicos cedem empréstimos com base nos conceitos de justiça social que decoraram nos tempos em que eram concurseiros. O resultado para tais operações destituídas de garantias reais é um tremendo e inexorável calote, que todos nós pagaremos, mais uma vez. De Quanto? Eu falei 15 bi? É pouco ou querem mais?

Pois bem: desde quando estocar é uma atividade graciosa? Sem contarmos a rede de corrupção que se formará em torno da construção e manutenção destes silos - quem já não soube pelos noticiários de tantos golpes assim?  - o custo normal da armazenagem e da fiscalização do sistema se somará ao preço dito "normal", aumentando mais ainda o dito "preço " mínimo". E quem pagará? Adivinhe...

Como a cereja no bolo, agora vem o pior: com tal política de regularização de preços, o que o governo pretende alcançar terá como resultado justamente o inverso, pois fatalmente estará dando o disparo para uma onda especulativa em tempo presente para uma grande crise futura em que milhões de toneladas de alimentos terão de virar combustível ou adubo. Senão, vejamos como se expressa Hazlitt (Economia numa única lição p.52-53):

Quando o governo intervém, o celeiro sempre normal torna-se, de fato, um celeiro sempre político. Encoraja-se o fazendeiro, com o dinheiro dos contribuintes, a reter excessivamente sua produção. Como desejam assegurar-se do voto dos fazendeiros, os políticos que iniciam essa política, ou os burocratas que a executam, sempre colocam o denominado preço justo para o produto do fazendeiro acima do preço, que as condições da oferta e da procura justificam na ocasião. Isso reduz o número de compradores. O celeiro sempre normal tende, portanto, a tornar-se um celeiro sempre anormal.

Estoques excessivos ficam afastados do mercado. O efeito é assegurar, temporariamente, um preço mais alto do que poderia existir de outro modo, mas fazê-lo será provocar mais tarde um preço muito mais baixo, pois a falta artificial que se cria nesse ano, ao retirar-se do mercado parte de uma colheita, implica um excesso artificial para o ano seguinte. O mercado pode sozinho arcar com a tarefa de regulação dos estoques, assumindo todos os riscos e submetendo-se à aprovação pelos consumidores. Mesmo importar é economicamente mais recomendável do que armazenar. A prosperidade de um país não advém da acumulação de ouro, conforme prega a teoria mercantilista, mas, em termos gerais, em realizar a ação humana com o máximo de eficiência, e isto inclui aproveitar as vantagens comparativas da importação a preços baixos.

O mercado pode sozinho arcar com a tarefa de regulação dos estoques, assumindo todos os riscos e submetendo-se à aprovação pelos consumidores. Mesmo importar é economicamente mais recomendável do que armazenar. A prosperidade de um país não advém da acumulação de ouro, conforme prega a teoria mercantilista, mas, em termos gerais, em realizar a ação humana com o máximo de eficiência, e isto inclui aproveitar as vantagens comparativas da importação a preços baixos.

Sabendo que a Terra é redonda, e que o verão em um hemisfério é contrabaleanceado pelo inverno no outro, as nações podem se beneficiar trocando a preços baratos as grandes produções umas das outras e alternando-se conforme suas safras, e isto traz a vantagem de oferecer ao público consumidor comida fresca, ao contrário da política de reserva de estoques.

Como visto, é necessário que todos denunciemos este esquema e o repudiemos ao extremo. Mostrar a verdade de suas intenções e as suas reais consequências é o primeiro passo para a compreensão por todos e uma mudança de paradigmas.


17/06/2010 00:00  por  Leandro Roque \  economia

... os deputados e funças curtem com sua cara.  Ou melhor, com seu bolso.  Segue a notícia.


Deputados aprovam reajuste do Judiciário

Benefício aprovado pela Comissão do Trabalho da Câmara representa aumento anual de e R$ 6,4 bilhões nos gastos públicos

A menos de quatro meses das eleições, os deputados da Comissão de Trabalho da Câmara aprovaram um reajuste médio de 56% para os servidores do Poder Judiciário. O benefício vai atingir em torno de 100 mil funcionários, incluindo aposentados e pensionistas, e resultará em aumento nos gastos públicos de R$ 6,4 bilhões.

Com o reajuste, o salário do analista judiciário (cargo de nível superior) poderá chegar a R$ 16 mil, após somadas as gratificações previstas no projeto. A tabela prevê o aumento do salário básico do analista judiciário no fim de carreira de R$ 6.957 para R$ 10.883. O salário inicial nesta carreira sobe de R$ 4.367 para R$ 6.855, sem as gratificações que correspondem a metade do vencimento básico.

Essas são as informações que constam do projeto de lei, mas cálculos da área econômica indicam que a maior remuneração bruta poderá atingir R$ 32 mil, superando o teto salarial do serviço público, que é de R$ 27 mil, correspondente ao subsídio de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Leia mais aqui.

 

E a única mobilização nacional é para mandar Galvão Bueno calar a boca...



16/06/2010 00:00  por  Eduardo Foss \  filosofia

Ao amigo leigo,

Você já deve ter ouvido falar nesses monstros indefinidos, a classe média, a burguesia, o proletário, a sociedade, o mercado, o estado.  Já deve ter ouvido falar que eles têm vida própria, que ser a favor de uns é bom, ser a favor de outros é sinal de ganância...

Você já ouviu falar que eu defendo o mercado em detrimento da sociedade.

Deixa-me ser claro e definir o que os outros preferem deixar indefinido: a sociedade, toda sociedade, cada homem quando lida com outro homem, é o mercado.

Sociedade = Mercado

Você conseguiria negar que a nossa amizade é uma troca?  As idéias e experiências que trocamos são vazias, sem repercussão na nossa vida, ou enriquecem a gente e melhoram nossas decisões?  E você acha que há algum produto material que não seja feito com idéias e experiências?

Todo homem está em uma troca espiritual e física com a sua namorada.  Trocamos beijos, trocamos carinho e conselhos... Quando nos casamos trocamos serviços: a mulher cozinha, o homem cuida do carro, a mulher ajeita a cama, o homem cuida do encanamento.  E ambos estão sempre pedindo que o outro dê de si o proporcional, que pague com o preço justo o que recebe.

Já os pais trocam apoio e produtos por notas escolares e sinais de maturidade.  Isto é tão costumeiro que já se tornou uma lei não escrita, se tornou tácito.  Ninguém fala porque é óbvio.

Quando viajamos juntos ou vamos pra uma balada servimos um ao outro de seguro.  Quando sentimos que algo na vida vai nos enlouquecer, temos o amigo para nos servir de psicólogo etc.  Isso cria um débito e um crédito.  Ele sabe quem um dia iremos pagá-lo com um serviço semelhante.

Namoradas, pais e amigos são credores e devedores.  Esforçamo-nos para "ficar quites" o tempo todo, e quem é preguiçoso nisso, quem não dá o amor e a amizade que recebeu, vai ficando sozinho.  Ninguém quer mais trocar com ele.

Quer saber como ficamos amigos de alguém bem rápido?  Quando essa pessoa tem algo muito grande para nos dar, seja uma idéia, um serviço ou um bem material, e quando temos também algo bem grande para dar em troca.  Se ambos percebem que a troca é boa, e permanecem trocando com exatidão.  Com esses sinais periódicos de respeito daqui a pouco estarão trocando e emprestando a prazos de crédito tão largos, indeterminados, que mais parecerá que estão dando!

Esse é o lugar onde todos queremos chegar.  Quando todos trocarem como "amigos e irmãos".

Mas ninguém chega aí à toa.  Leva tempo e perseverança nesse comércio.  Ainda não tratamos o desconhecido que passa na rua como o amigo ou o irmão, porque há muita gente que dá moratória, que não quita, que toma o que recebeu e nunca dá o proporcional, que pega emprestado e não devolve.  Não adianta fechar os olhos para essa realidade.

Essa justiça comercial, que um bem vale um bem proporcional e nada vale nada, te acompanha desde a infância e quando você for trabalhar permanecerá a mesma, somente aumentará em magnitude.

É disso que eu sou a favor: do Mercado!

Eu sou a favor que todo homem possa trocar com outros homens. Sejam idéias, serviços, bens ou sentimentos.  Eu acredito tanto nos meus amigos e nos desconhecidos, eu acredito tanto em cada um e todos em comunhão, que acho que ninguém deveria impedi-los de trocar entre si.

O dia em que cada um puder trocar tudo que pensou, desenvolveu, serviu, produziu e sentiu com todos, é o dia em que a humanidade estará direcionada à amizade.

Tendo dito isso, eu vou finalizar contando que existe gente que é contra a amizade, o amor e a troca.

São pessoas que tomam parte do que é seu, do que você criou, contra sua vontade.  Toda troca é voluntária.  A pessoa que toma o que é seu impede assim que você troque com aquilo, impede que aquilo seja um veículo de amizade com os outros.  É um saqueador.

Imagine um país onde você é impedido de conversar idéias, de servir, de dar um bem e de expressar sentimentos em torno dos outros.  Esse é um país no qual alguém bloqueia a irmandade natural entre os homens.

Eu não vou te mentir que esse país existiu no passado.  Esse país existe agora, e você está nele.

O saqueador, no entanto, sempre age com o argumento mais sujo e mais contraditório.  Ele pilha nossa amizade, pilha nossa troca natural, dizendo que tomou o que é nosso pelo "bem de todos, da sociedade, do coletivo, ou de uma classe indefinida".

Ora, não trocamos com classes!  Não somos classes!  Somos pessoas.  Como podem meus bens gerar respeito mútuo se vão para alguém que nunca vi na minha frente!

Agora, há um lugar onde muitos saqueadores estão reunidos.  Como a causa deles é injusta eles se munem da força.  Como eles são muitos, estão o tempo todo ao seu redor tomando o que é seu.  Diria que 4 a cada 10 coisas que você faz vai para eles.  O nome deles reunidos é estado.

E por isso eu sou a favor da Sociedade e contra o estado.



08/06/2010 00:00  por  Cristiano Fiori Chiocca \  economia

No final de outubro do ano passado postei nesse blog um artigo em que eu apostava contra o Ministro Mantega que o dolar estaria abaixo de R$ 1,30.

Malandramente não disse quando (apesar da put pra janeiro de 2011), mas devo admitir que eu esparava que fosse logo. Dólares eram impressos numa velocidade espantosa e não eram acompanhados pela impressão de reais e menos ainda pela produção de commodities que, devido à crise, diminuiam até.

Dada a situação de pouco produto e muito papel moeda, a lógica era uma queda no valor do dólar em relação à moeda lastreada em minério de ferro, grãos, etc.

Não estava sozinho. Jim Rogers e Peter Schiff apostavam (e apostam contra o dólar) e me parecia irrelevante a média de aumento do IOF para brecar o fluxo de capitais para o Brasil.

O problema é que ainda continuo achando que meu erro foi só no timing mesmo. Com o euro condenado, o dólar ganhou uma sobrevida.  Pessoas veem o euro cair e realmente acham que o dolar é um porto seguro, mas, se de fato, como dizem, a Europa é os EUA amanhã, o que esta acontecendo com Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e mais tarde vai acontecer com Itália, Inglaterra, Fraça e Alemanha é o mesmo que vai acontecer com Missouri, Dakota, Nevada e mais tarde com California, Texas, New York.

A situação fiscal americana é uma bomba relógio como a que explode pela Europa agora. Nova rodada de impressão de dólares desenfreada virá pela frente.

Não acho porém que essa atual situação do dólar seja o "repique" que Schiff dizia que aconteceria antes da derrocada geral. Esse preço atual é mais fruto do derretimento do euro mesmo.

Aí, sim, o real entra nesse jogo e as commodities sobram como opção de proteção frente às inflações engatilhadas.

O simples não acompanhamento da impressão dos americanos e europeus fará o real se valorizar e ficar no teto que estipulei (R$ 1,30).

Apostas na mesa, dobro ou nada?

01/06/2010 00:00  por  Equipe IMB \  economia

Nota do IMB: extremamente informativa a reportagem de capa do jornal Valor do dia 31/05/2010.  Esse demonstrativo de valor agregado é bastante útil para mostrar, em bases completas, quanto é confiscado pelo fisco — ou seja, inclui tudo, desde pequenas taxas até os impostos mais relevantes.

 

Autor: Fernando Torres, de São Paulo

Valor Econômico - 31/05/2010

 

Da riqueza gerada pelas cem maiores companhias abertas do país por valor de mercado em 2009, que somou R$ 558 bilhões, as três esferas de governo abocanharam 45% na forma de impostos, contribuições e taxas. As empresas retiveram 13,5% do total para engordar seu patrimônio e distribuíram 9,5% aos acionistas na forma de juros sobre capital próprio e dividendos. Os funcionários ficaram com 20% e os credores, com 12%.

A disparidade é grande quando se analisa o peso da carga tributária em diferentes setores da economia, conforme levantamento feito pelo Valor com as cem maiores companhias abertas por valor de mercado. No topo do ranking, as empresas de telecomunicações destinaram 64% da riqueza gerada em 2009 para o pagamento de impostos, taxas e contribuições.

Os segmentos de bebidas e fumo, petróleo e gás e energia elétrica aparecem em seguida na lista dos que recolhem mais tributos. Em todas essas áreas, União, Estados e municípios se tornaram sócios preferenciais das companhias e ficaram com mais de 50% do valor adicionado por elas.

A medida do valor adicionado de uma empresa, que é a contribuição dela para a formação do Produto Interno Bruto (PIB), tem como base o faturamento bruto, descontados os custos com insumos comprados de terceiros.

Apesar do peso importante dos impostos em todos os segmentos, não é possível dizer que todas as empresas de grande porte possuem uma carga tributária acima da média do país, de 35%.

No ano passado, as empresas de mineração e siderurgia destinaram 29% do valor adicionado para o pagamento de impostos, enquanto nos segmentos de construção, aviação e papel e celulose a taxa ficou abaixo de 25%.

Na Embraer, por exemplo, que tem benefícios fiscais pelo fato de destinar praticamente 100% da produção para o exterior, o peso dos tributos sobre o valor adicionado foi de 2% em 2009. O índice foi puxado para baixo por conta de um diferimento de Imposto de Renda e CSLL.

Segundo o professor Ariovaldo dos Santos, da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), a análise de dados setoriais permite notar que a estrutura de tributação brasileira pesa mais sobre a produção do que sobre o lucro. "E isso não é uma coisa deste ou dos últimos governos, é algo que se construiu ao longo de 50, 80 anos", diz o especialista, que destaca que, na média, os bancos têm uma carga menor que indústria, comércio e serviços.

No levantamento feito pelo Valor, o peso dos impostos no valor adicionado das empresas do setor financeiro - o que inclui bancos, seguradoras e empresas de cartão de crédito - foi de 32%.

Na mesma linha, um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) mostra que, da carga tributária de 35% do PIB, 16,8 pontos percentuais referem-se a tributos sobre a produção de bens e serviços e 9,5 pontos sobre os salários.

Com peso bem menor, equivalente a 5,7 pontos percentuais na carga total, estão os impostos sobre o capital e outras rendas, enquanto os tributos sobre o patrimônio participam com 1,2 ponto. Ao todo, são 61 tributos no Brasil.

Segundo João Eloi Olenike, presidente do IBPT, esse tipo de estrutura favorece a aplicação no mercado financeiro, em detrimento da produção, que poderia gerar mais empregos. "Ao tributar o faturamento, o Brasil não deixa as empresas criarem riqueza", diz.

A Demonstração do Valor Adicionado, que passou a ser obrigatória para as companhias abertas em 2009 e foi usada como base no levantamento do Valor, permite também que se observe a remuneração do capital próprio, dos funcionários e dos credores.

Na média das cem empresas observadas, os detentores de capital ficaram com 23% do valor adicionado. Desse montante, pouco menos da metade, ou 9,5% do total, foi distribuído na forma de dividendos ou juros sobre capital próprio aos investidores.

Mas, da mesma forma que os impostos, há bastante variação em outros itens na análise por setores. Mais penalizados em termos de tributos, os sócios das empresas de telecomunicações ficam apenas com 8% do valor adicionado. Na ponta de cima do ranking, as incorporadoras imobiliárias conseguiram reter 44% do valor para remunerar o capital dos acionistas. Em segundo lugar surge o setor de mineração e siderurgia, com 40%, e em terceiro o financeiro, com 32%.

Os funcionários dessas cem empresas ficaram, na média, com 20% da riqueza gerada em 2009. As empresas de saúde e saneamento foram as que destinaram maior parcela às despesas com pessoal, com índices de 43% e 42%, respectivamente. Entram nessa conta os salários, benefícios, FGTS, décimo terceiro etc., mas não os tributos que incidem sobre a folha, como INSS.

Completando a distribuição do valor adicionado, a menor parcela, de 12%, é destinada à remuneração do capital de terceiros, por meio de juros e aluguéis, incluindo leasing. Esse índice é um sinal do baixo nível de endividamento das empresas brasileiras, diz Ariovaldo. Ele ressalta que dívida não é algo ruim, contanto que o custo seja menor que o retorno do negócio.




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