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12/08/2011 00:00  por  Fernando Ulrich \  economia

Imaginem a seguinte cena: um siderúrgico brasileiro vende X toneladas de aço a um empreiteiro suíço. Não contente com o volume vendido, o siderúrgico resolve presentear o suíço com mais 5% de aço grátis, free of charge. Quem sai ganhando neste arranjo? Para os economistas do mainstream resta claro que o siderúrgico brasileiro é o grande malandro e esperto da jogada.

Este exemplo extremo serve apenas para demonstrar que é exatamente isso que ocorre quando um país tem sua moeda valorizada. Momentaneamente os detentores de uma moeda apreciada poderão adquirir mais bens pelas mesmas unidades monetárias. Ou inversamente, os exportadores receberão menos dos residentes suíços do que previamente, e entregarão a mesma quantidade de bens. Agora pergunto: quem sai beneficiado? Ninguém em plena consciência diria que os suíços sãos os coitados e prejudicados deste arranjo.

Mas é exatamente isso que defende a imprensa e os economistas que ainda vivem na era do mercantilismo. "Pobre Suíça!" escreveu Alan Beattie (Financial Times, numa notícia publicada pelo Valor Econômico do dia 11 de agosto de 2011) lamentando o fato de o franco suíço ter valorizado muito nos últimos dias, semanas e anos. Mas alto lá! Pobre Suíça? Como assim? É claro que alguns setores não poderão exportar tanto como antes, ainda que temporariamente. Mas o que falar do altíssimo pode de compra que os suíços poderão aproveitar? Imaginem as barganhas de produtos e ativos, mundo afora? Exportadores poderão importar maquinário a preço de liquidação e adquirir concorrentes no exterior. Investidores poderão aproveitar a oferta e recompor seus portfólios. E consumidores terão a chance de importar mais bens, elevando o padrão de vida, e viajar ao exterior comprando vinhos e outras especiarias a preço de banana.

Será que estou louco? Deixe-me ver se entendi bem: empresas e indivíduos, residentes na Suíça, têm a belíssima oportunidade de comprar produtos, empresas, imóveis, ações e uma infinidade de ativos no exterior a preços excelentes, tudo fruto do altíssimo poder de compra do franco suíço, em grande parte gerada propositalmente por banqueiros centrais ao redor do mundo, e devemos sentir pena dos suíços?

Definitivamente vivemos num mundo bizarro. Como dizia George Orwell: Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão e Ignorância é Força. Sugiro mais uma: moeda fraca é uma benção.

Os banqueiros centrais do mundo todo já não seguem Keynes, Friedman ou qualquer outro apologético de bancos centrais. A filosofia de Bernanke e Cia agora é Lênin: "A melhor maneira de destruir o sistema capitalista é a destruição de sua moeda".

O pior de tudo é que nem mesmo o invejável Banco Nacional Suíço (SNB) está livre deste mal. Não contente com as intervenções para desvalorizar o franco, o SNB estaria estudando fixar o valor do franco suíço ao euro, o famoso currency peg. Esta vai definitivamente entrar para a história. Pela primeira vez um país fixaria o valor de sua moeda nacional a uma moeda moribunda. Levado ao ridículo, é como se o Uruguai, em 1989, olhasse para o Brasil e resolvesse usar o Cruzado Novo como âncora cambial.

O marco alemão e o dólar foram e são utilizados como âncora por serem moedas estáveis (ok, o dólar não mais). Por que diabos um banco central utilizaria uma moeda "instável" como âncora? Ah sim, lembrei. As exportações. Como sempre a ótica mercantilista e uma teoria econômica decadente impedem que os banqueiros centrais enxerguem a insanidade de suas medidas.

Qual a lição disso tudo? Não podemos confiar em banqueiros centrais. Se alguém achava que o franco suíço poderia ser considerado uma reserva de valor, pense novamente. Não existe moeda forte. Ou melhor. Não existe moeda forte de papel. Sem exceção, nenhum Banco Central está livre de suas ingerências monetárias. Alguns inflam mais. Outros menos. Neste cenário de guerra cambial, dólar desmoralizado, euro na beira do precipício, o único refúgio monetário continua sendo o mesmo há milhares de anos: o ouro.

Um consultor de investimentos provavelmente diria que o ouro não rende juros, não faz nada, apenas fica lá, parado e brilhando. É exatamente por isso que devemos comprá-lo, porque ele fica lá, parado, brilhando e envergonhando os banqueiros centrais.


08/08/2011 00:00  por  Leandro Roque \  economia

Cada um tem a sua teoria.  Eis a minha.  A origem do atual derretimento das bolsas está nas crises fiscais americana e europeia. 

Nos EUA, a questão da dívida está completamente sem solução.  O acordo sobre a elevação do teto da dívida não resolveu em nada o problema simplesmente porque, para os próximos anos, ficou resolvido que os gastos irão subir continuamente, só que a uma taxa de crescimento um pouco menor do que a inicialmente prevista.  É isso que no linguajar político atual passou a ser chamado de "corte de gastos": aumentar os gastos a uma taxa menor do que a anteriormente prevista.  Os gastos subirão ano a ano, só que, na melhor das hipóteses, em um ritmo um pouquinho menor. (Estratagema idêntico, aliás, é seguidamente adotado pelo governo brasileiro).

A atual dívida americana está em US$ 14,3 trilhões.  Caso os gastos do governo continuassem no ritmo atual, a dívida daqui a 10 anos estaria em US$ 25 trilhões.  Porém, com o acordo firmado na semana passada entre Obama e o Congresso, a dívida americana irá aumentar para "apenas" US$ 22 trilhões — isso, repetindo, na melhor das hipóteses. 

Ou seja, em vez de um aumento de 75% em 10 anos, haverá um aumento menor: 54%.

Ademais, o acordo deu ao Tesouro americano a autorização imediata para tomar emprestado e gastar US$ 2,5 trilhões adicionais durante os próximos 18 meses — quando o novo teto da dívida será atingido.  Em contrapartida, determinou-se apenas que US$ 250 bilhões deixem de ser gastos por ano durante os próximos dez anos.  Isso significa que, ao invés de um déficit orçamentário anual de US$ 1,4 trilhão, haverá um déficit de 1,15 trilhão por ano.  E isso supondo que as receitas não irão cair, uma hipótese bastante irrealista, considerando-se a depressão vindoura.

Para piorar, essa prometida redução de US$ 2,5 trilhões (US$ 250 bilhões por ano durante dez anos) nos gastos governamentais estimados para o futuro não especifica absolutamente nada.  Não há detalhes sobre em qual área o governo vai cortar, e nem em qual quantia.  Consequentemente, não há motivos para o mercado financeiro mostrar alguma confiança de que algo realmente será "cortado" — principalmente quando a depressão se intensificar futuramente, o que gerará pressão para maiores gastos.

Acrescente a tudo isso a incerteza sobre se Obama irá conseguir finalmente realizar seu desejo de elevar impostos, de implantar seu sonhado Obamacare (saúde "gratuita" para todos) e de impor regulamentações ainda mais apertadas sobre a economia, e misture a tudo isso um pouco da imprevisibilidade europeia, a sobrevivência do euro, e o futuro de Itália, Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda.  Aí pergunte-se a si mesmo: há alguma perspectiva de ascensão para os mercados financeiros?

Nesse período de grande incerteza, investidores tiram seu dinheiro das bolsas e aplicam em ativos que consideram ser seguros e muito líquidos.  Muitos estão indo para o ouro, que atingiu sua cotação recorde, fechando em US$ 1.713 a onça.  Outros ainda confiam nos títulos americanos, só que nos de longo prazo.  Eles ficam tão receosos com a atual situação depressiva da economia — uma recessão tende a diminuir ainda mais os juros à medida que a economia afunda —, que acabam buscando refúgio em títulos de longo prazo, comprando-os à taxa de juros vigente hoje.  Essa compra maciça de títulos de longo prazo faz com que os preços deles subam, e consequentemente os juros de longo prazo caiam.

O juro dos papeis de 10 anos da dívida dos EUA tocou a mínima de 2,325%, o nível mais baixo desde janeiro de 2009 e pouco acima da mínima recorde de 2,034%, atingida em dezembro de 2008, após o colapso do Lehman Brothers.

Essa retirada maciça de dólares das bolsas mundiais para serem aplicados em ouro e em títulos da dívida americana derruba as bolsas em todo o mundo, inclusive a Bovespa.

Enquanto os EUA e os países europeus não adotarem uma política econômica clara, e enquanto não ficar explícito se vão optar por mais governo ou menos governo, não há por que ser otimista com novas altas sustentadas das bolsas, muito embora curtos períodos de subida vertiginosa não estejam descartados.

Neste momento, o mercado financeiro é só para profissionais.



03/08/2011 00:00  por  Cristiano Fiori Chiocca \  economia

Um estudo realizado pela BM&F Bovespa, a bolsa de valores que concentra quase a totalidade dos negócios com ações de companhias abertas no Brasil, destaca o custo que uma empresa incorre para se manter como Companhia Aberta, com suas ações listadas em Bolsa.

O estudo indica, entre outros, o custo que as empresas têm com publicações — publicações de seus balanços, convocações e deliberações das assembléias gerais e extraordinárias.  As empresas são obrigadas por lei a fazer essas publicações, sendo que essa obrigação exige a publicação no Diário Oficial da União ou do Estado (ou DF) e em mais algum jornal de grande circulação na localidade em que está situada a companhia.

A bolsa calculou que uma empresa de pequeno porte (faturamento de até R$ 50 milhões) gasta com publicações R$ 95.000, uma empresa de médio porte (faturamento de R$ 50 até R$ 300 milhões) gasta R$ 312.394 e uma empresa de grande porte (acima de R$ 300 milhões de faturamento) gasta R$ 1.008.143.

O número de empresas listadas na bolsa aqui no Brasil, onde os custos ainda são proibitivos para empresas de pequeno porte — só existindo uma empresa listada —, totaliza quase 450 empresas, que estão entre médias e grandes.  Uma estimativa modesta nos faz concluir que, anualmente, as empresas gastam R$ 350 milhões com publicações em jornais.

O número total de pessoas físicas que investem na bolsa mal chega a 500 mil, e se contabilizarmos outros atores, como administradores de fundos de investimento, analistas de balanços e demais interessados, podemos chegar a algo como 750 mil atuantes no mercado de ações.

Como investidor em ações há mais de 20 anos, adoto a técnica fundamentalista, que compreende, entre outras atividades, ler os balanços e atas das empresas nas quais invisto ou estou interessado em investir.  Dito isso, posso assegurar que, depois que as empresas passaram a publicar seu balanço em seus sites na internet, jamais voltei a ler balanço em jornal.  Ninguém que eu conheça lê balanços em jornais.  Outra estimativa, ainda mais modesta que a primeira, é que, dos 750 mil atuantes do mercado, não chega a 10% — isto é, 75 mil — aqueles que de fato leem os balanços das companhias.

Os balanços e atas disponibilizados na internet ficam arquivados nos sites das empresas para sempre, como um banco de dados, de facílimo acesso, além de estarem disponíveis também no site da própria Bolsa, no formato padrão que as normas contábeis determinam.  São colocados nos sites (das próprias empresas e da Bolsa) a um custo baixíssimo, exigindo apenas que os mesmos sejam constantemente atualizados.

Já os balanços impressos são perecíveis, os jornais duram pouco, exigem espaço para serem armazenados, acessíveis apenas aos que leem determinado jornal.  Ademais, o preço é salgado, como vimos acima.

São, no mínimo, R$ 350 milhões que deixam de ir para o setor produtivo, que saem do cofre das empresas para atender a uma exigência estatal ridícula, que não atende interesse de nenhum investidor ou interessado nas informações de tais empresas, servindo aos interesses dos jornais.

No dia 28/07/11, a presidente Dilma vetou uma alteração que desobrigaria empresas com faturamento inferior a R$ 500 milhões a publicarem seus balanços e atos societários nos diários oficiais (mas mantinha a obrigação em jornais de grande circulação).  Esse veto foi celebrado por uma tragicômica Abio (Associação Brasileira das Imprensas Oficiais).

Evidente que nenhum órgão de imprensa se manifestou a respeito.  A imprensa aqui só quer liberdade para falar bem do governo.  Essa exigência legal os beneficia diretamente.  Trata-se de um lobby que propicia vantagens a uma atividade improdutiva e lesa o setor produtivo.  As empresas têm um custo que não gera retorno nenhum, e os investidores não sentem a mínima necessidade de ler um balanço em um jornal.

É mais um caso de como as regulamentações nada mais são do que tributos — nesse caso de fácil mensuração —, e de como elas criam lobbies que lutam para perpetuar privilégios conquistados à custa de quem produz.

28/07/2011 00:00  por  Fernando Ulrich \  economia

Quanto mais leio os jornais e economistas de outras escolas, em especial a keynesiana, mais admiro Ludwig von Mises: "Good economics is basic economics". Não lembro qual foi o primeiro texto de algum economista da escola austríaca que li, mas me recordo perfeitamente das seguidas sensações de prazer ao ler sequências de argumentos e frases sensatas em perfeita harmonia com uma argumentação lógica e clara, em total contraste a tudo que havia, até então, aprendido em economia. Tive a impressão, enfim, que a ciência econômica servia sim para explicar alguma coisa. Quem já passou a usar as "lentes austríacas" se identificará com o que escrevo.

Por que estou contando isso? Explico-me.

Hoje, aleatoriamente, lendo o Valor Econômico, passei os olhos sobre um artigo do presidente da Associação Keynesiana Brasileira, Luiz Fernando de Paula, divagando sobre o crédito no Brasil. Eis o seu primeiro parágrafo:

Uma das diferenças da teoria keynesiana em relação à teoria convencional é a importância fundamental que moeda e instituições financeiras têm no funcionamento da economia. Um sistema financeiro funcional ao crescimento é aquele com capacidade de atender via crédito a demanda de liquidez necessária para realização dos gastos dos agentes, e de criar mecanismos financeiros apropriados para realização da consolidação das dívidas das firmas investidoras, permitindo um ritmo de acumulação a um nível superior àquele que seria viável pela simples acumulação de poupanças prévias.

Tentarei incluir pequenos detalhes no seu texto para que fique clara a idéia que o autor quer passar. Em homenagem ao Leandro, eu "vou de preto":

Uma das diferenças da teoria keynesiana em relação à teoria convencional é a importância fundamental que moeda fiduciária emitida pelo estado e instituições financeiras têm no funcionamento da economia. Um sistema financeiro funcional ao crescimento é aquele com capacidade de atender via crédito criado do nada a demanda de liquidez necessária para realização dos gastos públicos dos agentes do estado, e de criar mecanismos financeiros apropriados para realização da consolidação das dívidas das firmas investidoras, permitindo um ritmo de acumulação de dívida a um nível superior àquele que seria viável pela simples acumulação de poupanças prévias.

Ficou mais claro agora? Um leigo em economia dificilmente conseguiria compreender que tudo o que o autor sugere se resume ao seguinte: se não houver poupança suficiente, imprima dinheiro.  Pronto. Agora está claro o que autor defende.

Assim como o mestre, Lord Keynes, magistralmente demonstrou na sua obra prima, o importante é não articular claramente o que se está defendendo. Use palavras complicadas, jargões vazios ou frases desconexas, para que poucos entendam de fato o que se está propondo. Alguém entende o que o autor quer dizer com "criar mecanismos financeiros apropriados para realização da consolidação das dívidas das firmas investidoras"? Eu não.

A escolha deste texto foi realmente aleatória e pouco posso comentar sobre as idéias deste autor, mas está intelectualmente equivocado e "linguisticamente", como era de se esperar, keynesiano, no pior sentido da palavra.

Talvez uma das maiores contribuições da escola austríaca tenha sido trazer o estudo da economia a um nível inteligível e ao alcance de qualquer pessoa com razoável nível de educação, seja um médico, advogado, engenheiro, dona de casa, empresário, atleta ou qualquer outro leigo. Enquanto a escola keynesiana conseguiu justamente o contrário.

Ao leitor recém iniciado nas idéias da escola austríaca, lembre-se: se em algum momento você não entender o que um economista está tentando articular, é bem provável que o problema esteja com ele e não com você.

Good economics is indeed basic economics.


17/07/2011 00:00  por  Leandro Roque \  economia

Notícias vindas de várias cidades do país — embora venham com mais intensidade da cidade de São Paulo — indicam que a bolha imobiliária brasileira pode estar começando a desinflar.

Uma recente reportagem do Valor Econômico, de 8 de julho, informa:

Embora ainda não haja nenhum indicador oficial que confirme ou aponte queda nas contratações, para muitas empresas, a crise da escassez de mão de obra dá claros indícios de arrefecimento. Uma resposta à desaceleração do setor imobiliário no segundo trimestre de 2011.

(...) "A euforia acabou e, inclusive, alguns desses profissionais contratados a peso de ouro já estão sendo liberados", completa um executivo do setor.

"O quadro está revertendo e, em algumas obras, os funcionários estão sendo dispensados, o que não acontecia antes.", afirma Adalberto Bueno Netto, sócio da Bueno Netto, empresa que incorpora e constrói obras próprias e para terceiros.

Na avaliação de um diretor de uma companhia aberta, a situação já foi mais crítica. "As contratações voltaram à normalidade", diz. "A velocidade de vendas no segundo trimestre caiu sim, está mais difícil vender imóveis caros em regiões nobres", admite.

O excelente blog Observador do Mercado vem compilando notícias a respeito, dentre as quais chamo a atenção para as seguintes:

Venda de imóveis novos recua 34% em São Paulo no ano

As vendas de imóveis novos residenciais na capital paulista registraram queda de 34,3% nos primeiros cinco meses do ano ante igual período em 2010, somando 8.964 unidades comercializadas, de acordo com a pesquisa do Secovi (Sindicato da Habitação) de São Paulo divulgada nesta quarta-feira.

 

Venda de imóveis usados em SP cai pelo 2º mês consecutivo

A venda de imóveis usados na capital paulista voltou a cair em maio, de acordo com levantamento divulgado nesta quinta-feira pelo Creci-SP (Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo). Foi a segunda queda consecutiva na comparação mensal.

Segundo a pesquisa, feita com 476 imobiliárias, o índice de vendas foi de 0,5221 em abril para 0,4937 no mês seguinte.

A locação de imóveis residenciais na cidade também teve queda, de 3,31% em maio ante abril, acumulando três meses de baixa.

 

Faturamento do varejo de material de construção cai 30%

O faturamento do comércio varejista da região metropolitana de São Paulo registrou queda de 3,8% em comparação a maio de 2010, segundo pesquisa divulgada nesta quinta-feira, 14, pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio). (...)

A queda no faturamento do comércio varejista em maio ante o mesmo mês de 2010 foi puxada por um recuo forte no desempenho de quatro setores: lojas de material de construção (-29,4%), eletrodomésticos e eletroeletrônicos (-22,6%), móveis e decorações (-19,3) e lojas de departamento (-11,7%).

Ainda é cedo para prognósticos, porém uma análise da evolução da oferta monetária da economia brasileira fornece um bom indicador sobre o que está ocorrendo. 

Leia mais.


28/06/2011 00:00  por  Leandro Roque \  economia

Algumas correntes de internet estão divulgando um comparativo entre os preços dos carros no Brasil e os preços desses mesmos carros em outros países.  Como era de se esperar, as diferenças de preços são gritantes e até mesmo revoltantes, com alguns modelos chegando a custar o triplo do preço aqui no Brasil.

Particularmente chamativo foi o caso do Honda City.  Segue um trecho de uma reportagem:

As montadoras têm uma margem de lucro muito maior no Brasil do que em outros países. Uma pesquisa feita pelo banco de investimento Morgan Stanley, da Inglaterra, mostrou que algumas montadoras instaladas no Brasil são responsáveis por boa parte do lucro mundial das suas matrizes [...] O analista Adam Jonas, responsável pela pesquisa, concluiu que, no geral, a margem de lucro das montadoras no Brasil chega a ser três vezes maior que a de outros países.

O Honda City é um bom exemplo do que ocorre com o preço do carro no Brasil. Fabricado em Sumaré, no interior de São Paulo, ele é vendido no México por R$ 25,8 mil (versão LX). Neste preço está incluído o frete, de R$ 3,5 mil, e a margem de lucro da revenda, em torno de R$ 2 mil. Restam, portanto R$ 20,3 mil.

Adicionando os custos de impostos e distribuição aos R$ 20,3 mil, teremos R$ 16.413,32 de carga tributária (de 29,2%) e R$ 3.979,66 de margem de lucro das concessionárias (10%). A soma dá R$ 40.692,00. Considerando que nos R$ 20,3 mil faturados para o México a montadora já tem a sua margem de lucro, o "Lucro Brasil" (adicional) é de R$ 15.518,00: R$ 56.210,00 (preço vendido no Brasil) menos R$ 40.692,00.

Será possível que a montadora tenha um lucro adicional de R$ 15,5 mil num carro desses? O que a Honda fala sobre isso? Nada. Consultada, a montadora apenas diz que a empresa "não fala sobre o assunto".

O jornalista faz um salseiro com os números, deixando tudo bastante confuso.  Vou tentar clarear um pouco o que ele escreveu.

O Honda City sai da montadora em Sumaré a R$ 20.300.  A concessionária mexicana o revende por R$ 25.800.  A diferença de R$ 5.500 é explicada pelo preço do frete pago pela concessionária mexicana e pela margem de lucro dela.

Até aí, tudo certo.  No entanto, a coisa fica mais animada quando se descobre que esse mesmo carro que sai da montadora a R$ 20.300 é revendido pelas concessionárias ao consumidor brasileiro por R$ 56.210.  O que explica esse encarecimento?

Para entender esse processo, muito antes de xingar as montadoras de "gananciosas" por quererem altos lucros (todo mundo sabe que gananciosos são só os outros; nós nunca somos), é preciso olhar como funciona a carga tributária no Brasil.

O assunto é extremamente aborrecido e não é minha intenção entrar em detalhes aqui.  Basta dizer apenas que, por exemplo, o IPI recai sobre o preço do veículo que a montadora venderá para a concessionária brasileira, mas não para a concessionária mexicana, pois o IPI não se aplica a produtos exportados.  O mesmo ocorre com o ICMS, que não incide sobre produtos industrializados destinados à exportação.  Já a COFINS recai sobre a receita bruta da montadora, o mesmo ocorrendo com o PIS.

Ou seja: suponha que você inicialmente queira vender um produto a $100 aqui no Brasil.  Imediatamente você terá de acrescer uns $13 só de IPI (a alíquota é de 13% para automóveis com motor de até 2,0 litros). Além do IPI, tem o ICMS (de 18% para São Paulo, estado onde o Honda City é fabricado), cuja base de cálculo é $100. Ou seja, você vendeu por $113, deu $13 para o governo federal e mais $18 para o governo estadual.  Sobre a sua receita bruta, ainda vão incidir 7,6% de COFINS e 1,65% de PIS.  E depois, sobre o lucro, ainda vai ter o imposto de renda de pessoa jurídica, que pode chegar a 25%.

Se quiser fazer os cálculos, vá em frente.  Eu tenho até medo...

Assim, utilizando-se os próprios dados contidos na reportagem, temos a seguinte sequência:

Preços

Preço de fábrica: R$ 20.300

Preço vendido para a concessionária: R$ 52.231,22

Preço da concessionária para o consumidor final: R$ 56.210

 

Lucros

Lucro da montadora: R$ 15.518,00

Lucro da concessionária: R$ 3.979,66

 

Carga tributária: R$ 16.413,22

 

Observe que a carga tributária é maior que o lucro da montadora e mais de 4 vezes maior que o lucro da concessionária.  É curioso notar que os brasileiros condenam o lucro da montadora, que ao menos está lhes oferecendo um bem, e dão passe livre para o esbulho do governo, que em troca lhes dá dois tipos de estradas: as pedagiadas e as esburacadas.

Não estou dizendo que as montadoras são inocentes.  Seria grande ingenuidade dizer isso.  Por exemplo, sobre a importação de carros, algo que traria grande concorrência para o setor, incide um imposto que está na faixa dos 35%.  Trata-se de um imposto criado justamente para atender aos interesses das montadoras nacionais.  Sem esse imposto, o preço dos importados ficaria muito menor, a concorrência seria maior, os preços dos carros nacionais teriam de ser diminuídos e, consequentemente, o lucro das montadoras (já que é com isso que o brasileiro se revolta) seria sensivelmente reduzido.

No extremo, se não houvesse essa enxurrada impostos (IPI, ICMS, PIS e COFINS) e não houvesse também o imposto sobre importação, tanto aqueles R$ 16.413,22 de carga tributária quanto o lucro de R$ 15.518 da montadora certamente seriam acentuadamente menores, o que traria o preço final para perto do preço mexicano.  Quando há concorrência, especialmente de importados, não dá pra colocar os preços nas alturas.

Poucos se lembram, mas logo no início do Plano Real, uma das medidas para conter o aumento de preços foi a brusca redução do imposto de importação.  Para os automóveis, as alíquotas caíram de 50% para 20% em setembro de 1994.  Essa redução vigorou até março de 1995, quando o governo voltou a elevá-las, desta vez dando uma pancada para 70%.  Aquele curto período de redução foi suficiente não apenas para atemorizar as montadoras nacionais, que repentinamente viram seus confortáveis lucros evaporaram, como também para trazer um impressionante revigoramento à frota nacional.  Os importados tornaram-se comuns principalmente nas ruas de São Paulo, onde desfilavam Rolls-Royces, Corvettes, BMWs, Mitsubishi Lancers, Audis, Alfa Romeos 164, Subarus e Mercedes-Benz C 180, coisa rara no Brasil da época.  No Rio de Janeiro, na Avenida das Américas, surgiram nada menos que 20 importadoras de carros se acotovelando para disputar clientes, algo até então inédito.  Mas toda essa farra foi interrompida pelo governo em março de 1995, para júbilo das montadoras nacionais, que voltaram a operar sossegadas em seu oligopólio protegido pelo estado.

Mas além dos impostos e do protecionismo, há também um terceiro fator que explica os altos preços dos automóveis no Brasil: a subjetividade dos consumidores.  O preço de um carro no Brasil não depende apenas de custos de produção, impostos, investimentos e margens de lucro; depende também, e isso é algo bem acentuado no Brasil, de quanto o consumidor está disposto a pagar pelo produto. 

Por algum motivo — talvez histórico, talvez cultural —, o brasileiro sempre considerou carro um sinal de status.  Quanto mais chique e caro, melhor ele acha que será avaliado o seu posicionamento social.  Isso não é uma crítica, mas apenas uma constatação de um traço peculiar do brasileiro.  Aqui, quando um indivíduo ascende socialmente, uma de suas primeiras providências é trocar de carro (isso vale tanto para porteiros quanto para jogadores de futebol).  Ele está muito preocupado com o julgamento das outras pessoas.  Quanto mais caro o carro, melhor ele pensa que será visto pelos outros.  É aquele fenômeno conhecido como "novos ricos", que faz a alegria não só do mercado de automóveis, mas também do mercado de restaurantes chiques e do mercado imobiliário.

Sendo assim, a aquisição de um carro passa a ser guiada mais pelo seu preço do que pela real conveniência que o carro trará ao novo-rico — o que dá margem para as montadoras colocarem os preços muito acima dos preços que vigoram em outros países; e, como se vê, mesmo assim não faltam consumidores, haja vista os seguidos recordes de vendas. 

(Com efeito, se a preocupação fosse unicamente uma locomoção confortável, qualquer Mille ou Gol com ar condicionado daria conta do recado para uma família de 4 pessoas.)

Na há necessariamente nada de errado nesse comportamento novo-rico, mas é fato que ele ajuda a deixar os preços dos carros em níveis mais altos do que estariam caso o brasileiro fosse mais frugal (e ele não é).  É uma simples questão de oferta e demanda.

Portanto, três fatores explicam os preços dos carros no Brasil: carga tributária, protecionismo e o fenômeno brasileiro dos emergentes, um pessoal que não sabe bem o que comprar mas acha que está comprando bem porque está pagando caro.

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ATUALIZAÇÃO EM 01/07

Algumas pessoas ficaram revoltadas e outras demonstraram discórdia em relação a este terceiro item (comportamento dos consumidores).  Curiosamente, este é exatamente o item mais óbvio de todos — ou o menos controverso —, e pode ser compreendido por qualquer pessoa sem nenhum conhecimento econômico.  A lógica é simples:

Qualquer empresa — seja uma montadora ou uma padaria — vai cobrar para os seus produtos o maior preço que puder, que seja consistente com o maior lucro possível.  Duas coisas colocarão um teto nesse preço máximo: a concorrência e a disposição dos consumidores em aceitar os preços praticados (fenômeno esse chamado de 'valoração subjetiva dos consumidores'). 

Para todo e qualquer empreendimento que lide com a venda de produtos não essenciais, são os consumidores que irão decidir o preço máximo que estão dispostos a pagar por estes produtos.

No caso brasileiro, as montadoras aparentemente ainda não chegaram a esse preço máximo para seus carros, pois os preços continuam subindo e os carros continuam sendo (muito) comprados, e os lucros continuam altos — o que significa que os consumidores de uma determinada faixa de renda continuam deixando claro que estão dispostos a continuar pagando os preços vigentes.

Sendo assim, que incentivo haveria para se reduzir preços?

Não há absolutamente nenhum motivo para afirmar que tal raciocínio seja controverso — a menos, é claro, que se parta do princípio de que um Honda City seja um bem absolutamente essencial para vida humana, e que sua compra é uma questão de sobrevivência.



07/06/2011 00:00  por  Leandro Roque \  política

Os ambientalistas seguem implacáveis em sua sanha de fazer a humanidade retroceder ao padrão de conforto da época das cavernas. 

Em Belo Horizonte, já está em vigor uma lei que proíbe os supermercados e padarias de distribuir sacolas plásticas aos seus clientes (pelo que fiquei sabendo, tal lei será implantada em São Paulo no início do ano que vem).  Segundo consta, o principal objetivo de se retirar as sacolas plásticas de circulação é porque peixes e tartarugas marinhas estão comendo essas sacolas e sofrendo alguma espécie de mutação ou contaminação ou qualquer mentira que o valha.  É claro que o fato de o mar ainda não ter chegado a Belo Horizonte, e o fato de uma tartaruga marinha ser tão conhecida por aqui quanto um boto voador, são detalhes menores, que em nada tiram o brilhantismo e a genialidade da ideia.

Assim, ao fazer suas compras nesses estabelecimentos, ou você tem de comprar uma sacola feita de um plástico vagabundo supostamente biodegradável e reciclável (chamada de sacola compostável), a qual rasga assim que você coloca uma garrafa de Coca-Cola ou um simples recipiente de leite longa vida, ou você coloca suas compras dentro de um caixote de papelão — provisoriamente distribuídos pelos estabelecimentos — e sai ridiculamente carregando aquela estrovenga, apoiando-a em sua barriga tal qual um marsupial. 

Há também a terceira opção, que é simplesmente a de sair carregando suas compras como um equilibrista, utilizando para tal façanha braços, pernas e, principalmente, a cabeça, como aquelas lavadeiras que eximiamente carregam trouxas de roupa no cocuruto.

É claro que os parasitas que aprovaram essa lei são uma gente chique que só vai ao supermercado de carro com motorista, e que possuem capatazes para carregar suas compras.  Eles praticamente não são afetados por essa imbecilidade.  Quem realmente sai perdendo?  Os mais pobres, é claro.  Aquele sujeito que não tem carro, vai a pé e mora em um prédio sem elevador, e que agora terá de subir escadas equilibrando seus caixotes de papelão na cabeça.  Ou isso, ou ele simplesmente compra as sacolas compostáveis (afinal, somos um país de endinheirados) e fica na torcida para que elas não rasguem no trajeto, ou ao passar na catraca do ônibus ou ao subir as escadas. 

De fato, uma simples ida ao supermercado agora se tornou uma aventura imprevisível para o pobre.  Ele nunca saberá se suas compras chegarão inteiras ou se ficarão pelo caminho.  A adrenalina será constante.

folder-sacola-plastica-blog.jpgNão só os pobres, mas também os mais velhos se estreparam com essa nova lei.  A vovó que vai à padaria comprar quitutes não mais ganhará sacolas para carregar suas compras; ou ela sai carregando caixotes de papelão (atravessar a rua assim é uma maravilha) ou desembolsa uma grana extra para comprar sacolas compostáveis que vão rasgar assim que ela chegar à primeira esquina, deixando aquela maçaroca de ovos e leite pelo caminho.

Embora por enquanto esteja restrita a apenas uma cidade, pode ter certeza, leitor, de que essa maravilha de lei ainda chegará a um supermercado próximo de você.  Ou a gente declara guerra aos ambientalistas ou ainda vamos acabar morando em tabas, comendo raiz de árvore e dialogando na base do au-au e miau, pois a voz humana será considerada ofensiva para o macuquinho-da-várzea.


30/05/2011 00:00  por  Joakim Fagerström \  economia

N. do T.:O texto a seguir é um resumo feito in loco da palestra de Hans-Hermann Hoppe por ocasião do 6º encontro anual da organização que ele próprio fundou, a Property and Freedom Society.  O encontro vai de 26 a 30 de maio e está sendo realizado em Bodrum, Turquia.  As observações a seguir foram registradas pelos suecos Joakim Fagerström em conjunto com Joakim Kämpe e Markus Bergström, os três fundadores do Instituto Mises da Suécia.


O professor Hoppe começou seu discurso relembrando que o propósito da Property and Freedom Society (PFS) é promover o austro-libertarianismo, a filosofia econômica e social representada mais proeminentemente no século XX pelo economista austríaco Ludwig von Mises e por seu principal seguidor americano, Murray Rothbard. 

Os membros da PFS defendem um arranjo que, por vezes, é chamado de 'anarquismo baseado na propriedade privada', ou anarcocapitalismo, ou simplesmente aquilo que achamos ser a definição mais correta: uma sociedade inteiramente baseada na ordem natural e em leis privadas.  A PFS é uma organização internacional cujos membros são exclusivamente convidados, e que reúne a elite intelectual mundial — pessoas que são capazes de enxergar através da cortina de fumaça que os governos criaram para encobrir e disfarçar o totalitarismo suas atitudes.

O professor Hoppe mencionou todos os elogios que já lhe foram feitos ao longo do tempo: extremista, reacionário, revisionista, elitista, racista, homofóbico, antissemita, arquiconservador, teocrata, ateu cínico, fascista e, é claro, o epíteto indispensável para um alemão, nazista.  Como resposta a essas pessoas, o professor Hoppe cita Rothbard, que diz que "uma pessoa que ainda não foi vituperada é porque certamente nunca fez nada digno de elogio."

Adicionalmente, um dos objetivos da PFS é defender o radicalismo intelectual ético e moral, uma postura em que dizer a verdade pode não ser confortável.  Citando Thomas Jefferson:

Não há uma só verdade que eu tema... ou que desejasse que não fosse conhecida pelo restante do mundo.

Após essa introdução, o professor fez uma impecável abordagem do estado, da moeda e do sistema bancário.  A principal qualidade dos discursos do professor Hoppe é sua sempre excelente clareza e inegável rigor educacional.  Ele sempre começa do básico e, passo a passo, vai explicando todos os pormenores, até chegar à arrebatadora conclusão.  Eis um breve sumário.

Política, moeda e sistema bancário — tudo o que você precisa saber em apenas 30 minutos

Hoppe começa definindo o estado como uma organização que detém o monopólio compulsório da jurisdição de um determinado território; ele é o arbitrador supremo de todas as disputas judiciais, mesmo aquelas que envolvem ele próprio.  Além disso, o estado, de acordo com essa definição, também possui o direito supremo de impor tributos — isto é, de determinar unilateralmente o preço que seus súditos devem pagar em troca de serviços compulsórios de baixa (ou nula) qualidade.

Feita essa caracterização, o professor pede para que nos imaginemos no controle do aparato estatal. 

A política é basicamente um arranjo por meio do qual você pode legalmente confiscar, espoliar e criar problemas para outras pessoas.  Como chefe do aparato estatal, você tenderia a utilizar sua posição para enriquecer a si mesmo e todos aqueles à sua volta.  Se você controla o estado você pode, em princípio, confiscar qualquer coisa que seja do seu interesse, porém você tenderá a confiscar apenas dinheiro e não bens, pois assim você poderá utilizar o produto do seu roubo da maneira que mais lhe aprouver.  Porém, você deve ter cuidada para não aumentar excessivamente o nível da tributação, pois isso não necessariamente irá gerar mais receitas para o estado, dado que os produtores podem acabar produzindo menos em decorrência desse desincentivo.

Para superar esse empecilho e conseguir aumentar a receita e consequentemente o consumo do governo, você pode pegar empréstimos junto aos bancos.  Bancos estão diretamente interessados em que o estado continue expropriando os cidadãos via impostos, pois eles, os bancos, lucram nesse processo.  Quando o governo pega empréstimos junto aos bancos, ele tem de pagar não apenas o principal, mas também os juros sobre esse dinheiro.  E esses juros serão pagos por meio do confisco tributário dos cidadãos que vivem no território que você controla. 

Isso significa que você, o estado, terá agora de enfrentar dois problemas:

1) Há uma oposição generalizada a aumentos de impostos, e sua receita pode cair;

2) Você pode se tornar viciado em pegar emprestado e pagar juros.

Para evitar essas complicações, há várias coisas que você pode fazer.  Primeiro, você pode garantir a si próprio o monopólio do dinheiro circulante, de modo que você se torna o único produtor legal de dinheiro dentro de um dado território.  Você também terá de manter os custos de se produzir este dinheiro os mais baixos possíveis (é muito caro produzir ouro e prata).  Logo, ao utilizar um dinheiro de papel, sem nenhum lastro, você consegue reduzir o custo de produção para praticamente zero.  Porém, não basta apenas ter pedaços de papel, pois, a princípio, ninguém iria aceitá-los.  Por isso, você terá de fazer com que esse dinheiro de papel tenha curso forçado, obrigando todas as pessoas dentro do seu território a aceitá-lo, criando assim, totalmente do nada, um poder de compra para esse seu dinheiro. 

Investido deste novo poder, você pode agora criar dinheiro quando quiser, sempre que julgar necessário.  E não apenas para você, mas também para seus amigos e outros indivíduos que lhe trazem benefícios. 

Haverá agora mais dinheiro em circulação, porém a quantidade de bens existentes continuará sendo a mesma de antes.  Acreditar que mais dinheiro cria mais riqueza equivale a acreditar que uma pedra possa ser transformada em pão.  Os preços dos bens em termos monetários passarão a ser maiores, e o poder de compra da unidade monetária será cada vez menor — que é exatamente a consequência da inflação.

Dado que a quantidade dos outros bens não foi alterada, tal processo de expansão da quantidade de dinheiro fará apenas com que haja uma redistribuição de riqueza para você e para seus amigos, pois vocês foram os primeiros a receber esse novo "dinheiro", antes de todas as outras pessoas, ao passo que aquelas que receberem esse dinheiro por último estarão mais pobres, pois todos os preços aumentaram antes de elas terem esse aumento nominal em sua renda.  O único problema em potencial que você poderá enfrentar será se você exagerar e criar uma hiperinflação, pois, nesse caso, as pessoas abandonarão seu dinheiro e passarão a utilizar outras moedas, bem como outros ativos reais, rejeitando desta forma esse seu mecanismo insidioso de confisco.

Para obter ainda mais vantagens dessa sua posição, você pode também criar um banco central, por meio do qual você pode criar crédito do nada com o qual comprar papeis em posse dos bancos, o que irá diminuir as taxas de juros da economia e aumentar a quantidade de dinheiro em posse dos bancos.  Os bancos, por sua vez, irão novamente emprestar esse dinheiro para você, empréstimo esse que será pago por meio dos tributos que você irá confiscar dos cidadãos que vivem em seu território.

Paralelamente, os bancos também emprestarão esse dinheiro para seus amigos a taxas de juros mais altas do que aquela a que ele empresta para você.  Os bancos poderão também criar mais dinheiro do nada (meios fiduciários), utilizando como base esse dinheiro que seu banco central concedeu para eles e expandindo, por meio das reservas fracionárias, a quantidade de dinheiro em toda a economia.  Isso faz com que os preços aumentem ainda mais.

Ao criar dinheiro para dar aos bancos, estes lhe dão em troca papeis (títulos públicos) que rendem juros, juros esses que lhe serão pagos por meio do confisco tributário da riqueza dos cidadãos que vivem em seu território.  Da mesma forma, seus amigos do sistema bancário estão lucrando ao emprestar algo que simplesmente não existe (meios fiduciários) e cobrando juros sobre isso. 

Essa expansão do crédito altera a estrutura de produção da economia, o que significa que todos os indivíduos da economia estarão temporariamente imbuídos da sensação de que não precisam poupar e reduzir seu consumo presente para investir.  Empresas recebem financiamento bancário para projetos e investimentos que normalmente não seriam lucrativos.  Caso tais projetos tenham prejuízo, você irá socorrê-los criando mais dinheiro.  Esse é um exemplo de um ciclo econômico (expansão econômica seguida de recessão) que ocorre como consequência lógica do crédito criado do nada, sem qualquer poupança.  Alguns investimentos são longos e às vezes leva tempo para que se torne aparente quais não são lucrativos.

E você, por mais poderes que tenha sobre essa economia, nunca poderá alterar o fato de que bens e riqueza não podem ser criados do nada.  Isso significa que vários investimentos originados unicamente da sua expansão monetária irão necessariamente falir e empobrecer a economia.

No longo prazo, suas ações apenas atrapalham o enriquecimento da economia como um todo.


Assista aqui os vídeos da PFS


18/05/2011 00:00  por  Fernando Chiocca \  economia

É notório que o estado não obedece as leis que impõe aos seus súditos — estraçalhando assim com o conceito de igualdade perante a lei. Deste modo, ele corretamente proíbe que as pessoas comuns tomem dinheiro de terceiros sem seus consentimentos, classificando este ato como ilegal e chamando-o de roubo; mas quando o próprio estado faz isso, é legal e chama-se cobrança de impostos. Raptar um comerciante e mantê-lo em cativeiro, exigindo de terceiros o cumprimento de exigências para a soltura do refém é, como deveria ser, considerado crime hediondo de sequestro quando praticado por criminosos comuns; mas quando desempenhado por funcionários públicos, o rapto de um comerciante se torna a prisão de um traficante, o cativeiro se torna penitenciária e cumprir exigências se torna cumprir pena, tudo legalizado. A lista é sem fim.

Mas quando chega ao "meu" elevador a coisa se agrava, pois não é o caso de o estado exigir de nós que obedeçamos leis que ele não precisa obedecer; o caso é o estado nos obrigar à não obedecê-lo. É de dar nó na cabeça, mas é isso mesmo, o estado exige que nós façamos o que ele proíbe que nós façamos! Ou seja, qualquer que seja nossa atitude, estaremos ao mesmo tempo cumprindo a lei e desobedecendo a lei. E ele pode nos punir ou nos parabenizar, dependendo do humor do parasita público.

Coloquei o "meu" entre aspas pois o elevador do meu prédio está repleto de avisos [1]que sou obrigado à afixar descrevendo regras que sou obrigado a cumprir, determinadas por burrocratas. Se fosse realmente meu, eu iria estabelecer as regras de uso e eu iria escolher os avisos que quisesse. Pois bem, entre os avisos destaco abaixo os dois que explicam a situação que estou relatando:

elevador-auto-contraditorio.jpg

E agora? O que devemos fazer caso um menor de 10 (dez) anos[2] queira andar no elevador desacompanhado? Impedir pois é menor de dez anos? Mas é vedado, sob pena de multa, discriminar em virtude de idade. Não podemos proibir. Mas também não podemos permitir, pois é exigido que cumpramos a norma de proibir. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. O que fazer?

Eu digo o que fazer. O objetivo não é fazer com que os políticos legisladores corrijam seu erro banal e risquem de seus livros umas das duas leis, tornando possível sabermos qual ordem deles devemos seguir. O que deve ocorrer é uma conscientização da população suficiente para fazer com que ela pare de aceitar passivamente as absurdas intrusões em suas propriedades por parte da classe política. Nenhuma regulamentação sobre absolutamente nada é necessária, além de serem uma violação criminosa do direito de propriedade, e, portanto, todas devem ser consideradas inadmissíveis. Cada condomínio deve determinar as regras de uso de seus elevadores, sejam elas quais forem. E isso pode incluir regras discriminatórias em virtude de qualquer coisa que os moradores queiram, afinal, o elevador é propriedade deles, e o direito de propriedade é indissociável do direito de discriminar. Discriminar é algo que todas as pessoas fazem o tempo todo, e como Lew Rockwell nota, os agentes do governo não leem mentes, portanto, não têm como saber o motivo de uma discriminação.

Se, por exemplo, um condomínio decidir estipular abertamente uma regra que proíba à pessoas de determinada cor o acesso aos elevadores, isto é problema deste condomínio, pois além de limitar o mercado à pessoas de outras cores, esta é uma prática considerada altamente desprezível pela maioria, o que tornaria os apartamentos neste edifício ainda mais difíceis de alugar ou vender, diminuindo seu valor consideravelmente. Os que quiserem fazer isso, que sejam felizes, mas pagando um alto preço.

Por fim, apenas gostaria de deixar registrado que qualquer proibição de discriminação é em si um ato de discriminação, pois ele discrimina quem discrimina. Logo, os que são a favor de atacar a propriedade de pessoas que praticarem atos discriminatórios pacíficos, como por exemplo, impedir a entrada de um católico em seu elevador ou se recusar a servir um ruivo em seu bar, estará apoiando outro ato de discriminação, só que agressivo. É evidente qual dos dois atos é o mais execrável, sendo apenas o segundo ilegítimo e criminoso, ao contrário do que o estado bizarramente tenta impor.


________________________________________________________________________________


[1]Além de duas placas do fabricante, contei cinco placas obrigatórias por "lei" no elevador do meu edifício. Tenho as duas mostradas neste artigo, a do famoso aviso do "mesmo", a qual foi material de piada de Bob Murphy em sua palestra recente no Brasil, que simplesmente não conseguiu de nenhuma maneira compreender porque alguém colocaria um aviso deste tipo na entrada do elevador. De fato, qualquer estrangeiro que passa pelo Brasil deve achar que os brasileiros sofrem de algum tipo de retardo mental — agradeçamos aos políticos por mais esta... Será que eles pensam que alguém que é incapaz de perceber que ao abrir a porta do elevador ali está um fosso escuro ao invés de um elevador com chão, luz, botões, será capaz de perceber, ler e compreender uma plaquinha? Mas o mais espantoso mesmo é uma população apática que aceita esta imposição. As outras duas obrigatórias são uma de fiscalização da manutenção e uma de proibido fumar:

mesmo_elevador.jpg

ficalização.JPG

fumar.JPG 


[2] Eu morava no 8º andar de um prédio, meus avós no 2º e meus tios no 4º. Comecei a andar de elevador sozinho com uns 5 anos de idade, mesmo antes de possuir altura suficiente para alcançar os botões, usando minha Garra de Aço para me ajudar. Ainda bem que isto foi antes da reunião de legisladores iluminados que impuseram esta importante resolução em 1998, comunicando a todos os pais que ninguém abaixo de 10 anos tem discernimento para acionar o botão de alarme, logo estão proibidos de andar desacompanhados nos elevadores.


17/05/2011 00:00  por  Cristiano Fiori Chiocca \  economia

Em matéria do jornal Valor Economico do dia 17/05/2011, sob o titulo "Rombo na Eletrobras", encontrei uma declaração que é como se fosse uma confissão de culpa. Na verdade, é uma confissão de incompetência.

A matéria analisava o resultado da Eletrobras (holding estatal do sistema elétrico), com destaque para os gigantescos prejuizos das distribuidoras de energia mesmo diante de todos os subsidios e facilidades concedidas. Deparei-me com o seguinte trecho (negrito meu):
A Eletrobras não só está ciente das dificuldades como o presidente das distribuidoras, Pedro Hosken — que está deixando o cargo para assessorar diretamente o presidente da holding —, diz que é difícil resolver a situação no curto prazo. A distribuidora tem que ter rapidez, produtividade e padrão.  "Isso não faz parte de uma empresa pública. Os prazos no ambiente público são mais lentos do que no privado ", disse.  "Esse tipo de concessão não é para ser pública, a não ser que se crie uma cultura, que toma um longo prazo. Todos do setor sabem disso, o presidente da Eletrobras sabe, o governo sabe e os políticos estão começando a perceber."

A reportagem inteira é (mais) um exemplo da impossibilidade da eficiência em empresas estatais, porém essa declaração é um xeque-mate.



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