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Em defesa do Ultraliberal
por Geanluca Lorenzon, quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Com o lançamento do "livro" intitulado Historiadores Pela Democracia, escrito pela elite de pensadores de esquerda da área de história do país, o termo 'ultraliberal' voltou a ser usado para denominar o movimento liberal/libertário do país, do qual este Instituto é apontado como parte.

Embora tenha sido claramente empregado no sentido pejorativo, a pergunta é válida: seria mesmo uma má ideia utilizarmos o termo 'ultraliberal' para nos descrever?

Para responder a isso, retornemos às origens.

Existem duas formas de interpretar o termo 'liberal'. Nos países anglo-saxões, principalmente depois do New Deal, o termo foi apossado pela esquerda, e perdeu completamente qualquer sentido ou conexão com o liberalismo clássico.

No resto do mundo, inclusive na Europa continental, o termo 'liberal' continua sendo empregado como a evolução natural do liberalismo clássico, adaptado ao estado de bem-estar social vigente na Europa.

Mas o que aconteceu com aqueles que elaboraram e avançaram os ideais e a filosofia do liberalismo clássico na direção da genuína liberdade? Eles ficaram conhecidos, primeiramente nos EUA, como libertários. Essa mudança ficou consolidada com o histórico texto da década de 1950 escrito por Dean Russel: Quem são os libertários?

O problema para nós se inicia na chegada desse termo ao Brasil, ocorrida na década passada. Ao contrário do que ocorria no resto do mundo, especialmente nos EUA, em nosso país já existia uma corrente ideológica e política que se descrevia como libertária, e ela era exatamente o oposto do que os defensores da liberdade acreditam.

Por essas razões, pessoas mais velhas podem se assustar ao ouvirem o termo libertário, inclusive associando a grupos radicais que promoviam milícias armadas no país durante a ditadura.

Em Portugal, o termo libertário era, na década de 1950, a forma como os comunistas se denominavam em algumas situações. Não foi diferente no resto da América Latina.

As opções tradicionais, liberal e libertário, começam assim a ficarem prejudicas.

Se utilizarmos o termo 'liberal', ou prejudicamos nossa comunicação com nossos colegas anglo-saxões, ou nos associamos a uma corrente muito distinta que existe na Europa continental.

Se utilizarmos o termo 'libertário' (além de não ser sonoramente agradável), podemos ser confundidos com nossos opositores comunistas.

O termo 'liberal clássico' também não é adequado, uma vez que representou um movimento específico de séculos passados, do qual se originaram diversas correntes políticas atuais (com exceção das socialistas), incluindo o conservadorismo americano e britânico.

Assim sendo, a pergunta não é mais por que adotar o termo 'ultraliberal'. Mas sim, por que não o adotar? O termo já é usado até em Portugal.

Poderíamos inclusive usar as quatro subcategorias que Walter Block propõe para diferenciar aqueles que lutam pela liberdade no mundo atual:

  • Anarco-capitalistas: a corrente mais radical do ultraliberalismo, associada em grande parte à obra de Murray Rothbard, que descreve uma sociedade em que o estado não mais exista, de onde toda a ordem moral surge do conceito de autopropriedade. Também são expoentes desse pensamento as figuras de Hans-Hermann Hoppe (do lado austríaco) e David Friedman (do lado chicaguista).
  • Minarquistas e objetivistas: são aqueles que acreditam que o estado tem um papel, mas de maneira muito restrita, somente no que concerne a segurança e justiça. Nesta categoria encontramos o pensamento de Ayn Rand e Robert Nozick, em sua obra clássica Anarquia, Estado e Utopia (obra descrita pelo austríaco Peter Boetke como fundamental para entendermos o processo de liberdade).
  • Constitucionalistas norte-americanos: são a definição mais próxima do que existe hoje do termo liberalismo clássico. Por causa do documento produzido à época, que refletia exatamente o que se acreditava na filosofia, são defensores devotos da Constituição Norte-Americana. O exemplo mais clássico é a figura de Ron Paul.
  • Neoliberais: apesar da polêmica porém histórica definição, atribui-se o termo neoliberalismo às políticas de Milton Friedman e, em muito menor escala, a Friedrich Hayek (deste principalmente em relação à sua exposição na obra Lei, Legislação e Liberdade). Neoliberais acreditam que existe um espaço consideravelmente maior para o governo do que o resto dos ultraliberais, mas ainda menor do que gostaria um social-democrata. Neoliberais, ao acreditarem existir "intervenções capazes de aprimorar o mercado", podem ser descritos como defensores de uma mistura de social-democracia, keynesianismo e alguma liberdade de mercado em termos microeconômicos. Um neoliberal defenderia políticas social-democratas usando o mercado, e não o governo. Em vez de escolas públicas, tem-se o voucher.

A luta à frente será árdua, porém, sabendo quem somos, descobriremos aonde vamos. Ultraliberais, ao ataque!