O Setor Público: o Governo como Empresário

As pessoas sempre tendem a seguir hábitos e rotinas inquestionáveis, principalmente quando se trata de questões governamentais. No mercado, e na sociedade em geral, sempre esperamos por mudanças — e nos acomodamos rapidamente a elas — que quase sempre trazem grandes maravilhas e melhorias para nossa civilização. Novos produtos, novos estilos de vida e novas idéias quase sempre são aceitas avidamente. Mas quando se trata de áreas governamentais, seguimos cegamente o mesmo caminho que vem sendo trilhado por séculos, satisfeitos em acreditar que o que quer que esteja sendo feito deve ser o certo. Em particular, os governos — seja o americano, seja qualquer outro — vêm desde tempos imemoriais fornecendo-nos certos tipos de serviços essenciais e necessários, serviços esses que todos consideram importantes: defesa (incluindo as forças armadas, a polícia, o judiciário e as leis), corpo de bombeiros, ruas e estradas, água, esgoto e remoção de lixo, correios, etc. O estado ficou tão identificado com a provisão de tais serviços na mentalidade das pessoas, que qualquer crítica às finanças do estado parece ser para muitas pessoas um ataque à natureza desses mesmos serviços. Assim, se alguém afirmar que o estado não deveria fornecer serviços judiciários, e que empresas privadas no mercado poderiam fornecer tais serviços de maneira bem mais eficiente, bem como de maneira mais ética, as pessoas tendem a acreditar que isso significa negar a importância dos próprios tribunais.

O libertário que quer substituir o governo por empresas privadas nas áreas mencionadas acima é tratado da mesma maneira que ele seria tratado se o governo tivesse, por várias razões, o monopólio do fornecimento de sapatos — utilizando o dinheiro do contribuinte, é claro — desde tempos imemoriais. Se o governo, e somente o governo, tivesse o monopólio da fabricação de sapatos e fosse o dono de todas as revendedoras, como será que a maioria das pessoas iria reagir ao libertário que viesse advogar que o governo saísse do setor de calçados e o abrisse para empresas privadas? Sem dúvida nenhuma as pessoas iriam bradar: "Como assim? Você não quer que as pessoas, e principalmente os pobres, usem sapatos! E quem iria fornecer sapatos ao povo se o governo saísse do setor? Diga! Seja construtivo! É fácil ser negativo e desrespeitoso quando se trata do governo; mas diga-nos quem iria fornecer sapatos? Quais pessoas? Quantas lojas de sapato haveria em cada cidade? Em cada município? Como isso seria definido? Como as empresas de sapato seriam financiadas? Quantas marcas existiriam? Qual material elas iriam usar? Quanto tempo os sapatos durariam? Qual seria o arranjo de preços? Não seria necessário haver regulamentação da indústria de calçados para garantir que o produto seja confiável? E quem iria fornecer sapatos aos pobres? E se a pessoa não tiver o dinheiro necessário para comprar um par?"

Essas perguntas, por mais ridículas que pareçam, e são, quando se trata do setor calçadista, são igualmente absurdas quando dirigidas ao libertário que defende um livre mercado para o setor de combate a incêndios, para o setor policial, para os correios, ou para qualquer outra operação governamental. O ponto principal é que o defensor da existência de um livre mercado para todas as áreas não pode fornecer antecipadamente um projeto "construtivo" de como seria tal mercado. A essência e a glória do livre mercado é que as empresas e os negócios individuais, quando competindo no mercado, fornecem uma orquestração contínua de bens e serviços cada vez mais eficientes e evolutivos: os produtos e os mercados estão sempre se aperfeiçoando, a tecnologia está sempre progredindo, os custos estão constantemente sendo diminuídos (ao contrário do que ocorre com o governo), e a inconstante demanda do consumidor está sempre sendo satisfeita da maneira mais rápida e eficiente possível. O economista libertário pode tentar mostrar umas poucas diretrizes sobre como os mercados poderão se desenvolver onde atualmente eles são proibidos ou restringidos; mas ele pouco mais pode fazer do que apontar o caminho para a liberdade: pedir que o governo saia do caminho da produtiva e sempre inventiva energia que emana dos indivíduos quando estes se envolvem nas atividades voluntárias do mercado. Ninguém pode prever o número de empresas, o tamanho de cada empresa, a política de preços, etc., para qualquer futuro mercado de qualquer serviço ou commodity. Apenas sabemos — da teoria econômica e de um discernimento histórico — que um livre mercado em qualquer área fará um serviço infinitamente melhor do que o monopólio compulsório de uma burocracia governamental.

Como os pobres pagarão por serviços de defesa, proteção contra incêndios, correios, etc., pode ser respondido basicamente com uma contra-pergunta: como os pobres pagam por qualquer coisa que eles atualmente obtêm no mercado? (Pense nos telefones celulares). A diferença é que sabemos que um mercado livre e privado irá fornecer esses bens e serviços de forma muito mais barata, e em maior abundância, e com muito mais qualidade do que monopólios governamentais fazem hoje. Toda a sociedade iria se beneficiar, especialmente os mais pobres. E também sabemos que a enorme carga tributária para financiar estas e outras atividades seria tirada dos ombros de todas as pessoas, inclusive as mais pobres.

Já percebemos que todos os problemas que são universalmente admitidos como urgentes estão todos relacionados a operações governamentais (guerras, apagões, caos aéreo, saúde pública, cotas universitárias, malversação de dinheiro público, TV pública, etc.). Também é fácil concluir que os enormes conflitos sociais entrelaçados no sistema público educacional iriam todos desaparecer se a cada grupo de pais fosse dado o direito de escolher e financiar o tipo de educação que fosse a preferida para seus filhos. As graves ineficiências e os conflitos intensos são coisas totalmente inerentes às atividades governamentais. Se o governo, por exemplo, fornece serviços monopolísticos (como, por exemplo, em alguns setores da educação, o setor energético, ou o fornecimento de água), então quaisquer decisões que o governo tome serão coercivamente impostas sobre a infeliz minoria — quer seja uma questão de política educacional para as escolas (integração ou segregação, progressiva ou tradicionalista, religiosa ou secular, etc.), quer seja o tipo de água a ser vendida (por exemplo, fluoretada ou não-fluoretada), quer seja a forma como a energia será gerada, distribuída e paga. Já deve estar claro que tais batalhas ferozes não ocorrem quando cada grupo de consumidores pode comprar os bens e serviços que bem querem. Não há brigas entre consumidores, por exemplo, sobre quais tipos de jornais devem ser impressos, quais tipos de igrejas podem ou não ser construídas, quais tipos de livros devem ser publicados, quais tipos de músicas devem ser vendidas, ou quais tipos de carros devem ser fabricados. (Todas as brigas que por ventura ocorram nessas áreas envolvem o uso da força do governo para fazer restrições). Tudo que é produzido no mercado reflete a diversidade, bem como a força, da demanda do consumidor.

No livre mercado, portanto, o consumidor é rei, e qualquer empresa que queira ter lucros e evitar prejuízos tentará fazer o seu melhor para servir o consumidor da maneira mais eficiente e ao menor custo possível. Em uma operação governamental, ao contrário, tudo muda. Uma dissociação grave e inevitável entre qualidade dos serviços prestados e o pagamento dos mesmos é algo totalmente inerente a qualquer operação do governo. A burocracia governamental não recebe sua renda da mesma forma que uma empresa privada, que tem que servir o consumidor de maneira satisfatória e vender seus produtos de maneira que a receita seja maior que os custos de toda a operação. Não, a burocracia governamental adquire sua renda através da extorsão do resignado contribuinte. Assim, suas operações se tornam ineficientes — além de os custos continuamente aumentarem —, pois as burocracias governamentais não precisam se preocupar com prejuízos ou falências; elas podem compensar eventuais perdas simplesmente fazendo extrações adicionais do bolso dos cidadãos. Além disso, o consumidor, ao invés de ser cortejado e galanteado para seu próprio benefício, se torna uma mera chateação para o governo, um alguém que está "consumindo" os escassos recursos do governo (pense na Previdência Social). Nas operações do governo, o consumidor é tratado como um intruso indesejável, uma interferência no sossego do burocrata e na sua estável renda.

Assim, caso aumente a demanda do consumidor por bens e serviços de certas áreas, as empresas privadas ficarão contentíssimas em supri-las; elas cortejarão e saudarão as novas oportunidades de negócios, expandindo suas operações e ansiando por satisfazer os novos pedidos. O governo, ao contrário, geralmente encara essa situação instando e até ordenando que os consumidores "comprem" menos, e permitindo que escassezes ocorram, conjuntamente com a deterioração da qualidade dos serviços. Destarte, o aumento do uso das ruas estatais das cidades descamba em congestionamentos exacerbados e em contínuas denúncias e ameaças contra as pessoas que dirigem seus próprios carros. A administração da cidade de Nova York, por exemplo, está continuamente ameaçando banir o uso de carros particulares em Manhattan, onde o congestionamento tem sido particularmente desagradável. Somente esse ente chamado governo iria pensar em ameaçar os consumidores dessa maneira; somente o governo, é claro, tem a audácia de "solucionar" o congestionamento tirando os carros particulares (ou caminhões, ou táxis, ou qualquer coisa) das ruas. De acordo com esse raciocínio, a solução "ideal" para o congestionamento seria simplesmente banir todos os veículos!

Mas esse tipo de atitude para com o consumidor não está restrito ao tráfego nas ruas. A cidade de Nova York, novamente, tem sofrido periodicamente de "falta" de água. Eis aqui uma situação em que, por muitos anos, o governo da cidade tem tido o monopólio compulsório da oferta de água aos seus cidadãos. Tendo falhado em fornecer a quantidade suficiente de água, e tendo falhado em precificar essa oferta de tal maneira a equilibrar o mercado, a igualar a oferta à demanda (algo que as empresas privadas fazem automaticamente), a resposta das autoridades de Nova York à escassez de água tem sido sempre a de culpar não a eles próprios, mas o consumidor, cujo pecado tem sido o de usar "muita" água. A única reação da administração da cidade foi banir o uso de aspersores (sprinklers) para gramados, restringir o uso de água, e requerer que as pessoas bebam menos água. Dessa forma, o governo transfere seus próprios fracassos para o usuário, que se transforma em bode expiatório e que é ameaçado e perseguido, ao invés de ser servido de maneira satisfatória e eficiente.

Tem havido uma resposta similar do governo para o problema sempre crescente da criminalidade. Ao invés de fornecer proteção policial eficiente, a reação de qualquer governo tem sido a de obrigar o cidadão a ficar longe de áreas propensas ao crime. Assim, quando o Central Park, em Manhattan, se tornou mal afamado por ser um local de assaltos e outros crimes no período noturno, a "solução" da administração da cidade para o problema foi impor um toque de recolher, banindo o uso do parque à noite. Ou seja: se um inocente cidadão quiser ficar no Central Park à noite, é ele quem será preso por estar desobedecendo ao toque de recolher; é claro que é mais fácil prender um inocente civil do que acabar com a criminalidade no parque.

Em resumo: enquanto o velho lema da iniciativa privada é que "o consumidor sempre tem razão", a máxima implícita de qualquer atividade governamental é que o consumidor sempre é o culpado.

É óbvio, os burocratas e políticos já têm uma resposta padrão para as crescentes reclamações a respeito de serviços ruins e ineficientes: "Os contribuintes precisam nos dar mais dinheiro!" Já não basta que o "setor público" — e a sua conseqüência natural, a taxação — tenha crescido no último século, e continue crescendo, bem mais rapidamente que a renda nacional. Também não basta que os defeitos e as chateações das atividades governamentais tenham se multiplicado junto com aumento do orçamento do governo. Todos nós devemos dar ainda mais dinheiro para aquele buraco sem fundo que é o estado!

O argumento correto contra a demanda de políticos por mais dinheiro de impostos é a seguinte pergunta: "Como é que as empresas privadas não têm esse problema?" Como é que empresas de eletrônicos ou companhias de fotocópias ou empresas de informática ou qualquer outra não têm problema para encontra capital para expandir sua produção? Por que essas empresas não publicam manifestos denunciando o povo por não dar a elas mais dinheiro para que assim elas possam servir as necessidades do consumidor? A resposta é que os consumidores pagam por eletrônicos ou por serviços de fotocópia ou por computadores, e os investidores, como resultado, passam a ver que é possível ganhar dinheiro investindo nesses negócios. No mercado privado, as empresas que servem os consumidores com sucesso encontram facilmente capital para sua expansão; empresas ineficientes e sem sucesso, não — e eventualmente elas saem dos negócios. Mas para o governo não existe esse mecanismo de lucros e prejuízos que o induza a fazer investimentos em operações eficientes e que penalize as operações ineficientes e obsoletas, descartando-as. Não existe, para as atividades do governo, um sistema de lucros e prejuízos que induza tanto a expansão quanto a contração das operações. No governo, portanto, não há um real "investimento", e ninguém pode garantir que operações de sucesso irão se expandir e as fracassadas irão desaparecer. Em contraste ao setor privado, o governo arrecada seu "capital" literalmente por meio de um assalto, que é a perfeita caracterização do mecanismo coercivo da taxação.

Muitas pessoas, incluindo alguns funcionários do governo, acreditam que esses problemas poderiam ser resolvidos se o "governo fosse gerido como uma empresa privada". O governo então criaria uma pseudocorporação monopolística, gerenciada pelo governo, que supostamente cuidaria dos negócios seguindo "princípios de mercado" — e isso foi feito, por exemplo, para os Correios e para a constantemente desintegrada e decadente New York City Transit Authority. Essas "corporações" seriam então obrigadas a acabar com seus déficits crônicos e autorizadas a lançar títulos no mercado de títulos. É verdade que os usuários diretos estariam assim aliviando um pouco da carga sobre a massa de contribuintes, que inclui tanto os usuários como os não usuários. Mas existem defeitos ruinosos inerentes a qualquer atividade governamental que não podem ser evitados por esse artifício pseudocorporativo. Em primeiro lugar, um serviço governamental sempre será um monopólio ou um semi-monopólio. Freqüentemente, como no caso dos Correios ou da Transit Authority, é um monopólio compulsório — toda ou praticamente toda a concorrência privada é proibida. O monopólio significa que o serviço oferecido pelo governo será bem mais caro, mais custoso, e de pior qualidade em comparação ao que seria no livre mercado. Empresas privadas obtêm seus lucros cortando custos o máximo possível. O governo, que não vai à falência e nem sabe o que é ter prejuízos, não precisa cortar custos; como ele está protegido contra qualquer concorrência e contra qualquer prejuízo, tudo o que ele precisa fazer é interromper o fornecimento dos serviços ou simplesmente aumentar preços. O segundo defeito ruinoso é que, por mais que se tente, uma corporação governamental jamais poderá ser gerida como uma empresa privada simplesmente porque seu capital continua sendo arrancado à força dos contribuintes. Não há como evitar isso; o fato de uma estatal poder vender títulos no mercado ainda depende do supremo poder de taxação do governo para poder resgatar esses títulos.

Finalmente, há um outro problema crítico inerente a qualquer operação governamental. Uma das razões que faz das empresas privadas modelos de eficiência é porque o livre mercado estabelece preços, que é o que torna possível o cálculo por parte das empresas e permite que elas descubram quais são seus custos e, portanto, o que elas devem fazer para ter lucros e evitar prejuízos. É através desse sistema de preços, bem como a motivação para aumentar lucros e evitar prejuízos, newliberty.gifque bens e serviços são devidamente alocados no mercado, dentre todas as intrincadas ramificações e áreas de produção que fazem parte da moderna economia capitalista. E é o cálculo econômico que torna essa maravilha possível; em contraste, sob um planejamento central, tal como foi tentado no socialismo, é impossível fazer quaisquer precificações acuradas, e assim os burocratas não podem calcular custos e preços. Essa é a principal razão pela qual o planejamento central socialista se mostrou um grande fracasso quando os países comunistas se tornaram industrializados. E é exatamente pelo fato de um planejamento central não poder determinar preços e custos com qualquer acurácia que os países comunistas do leste europeu abandonaram rapidamente o planejamento central e foram correndo em direção a uma economia de livre mercado.

Portanto, se o planejamento central empurra a economia para um incompetente caos calculacional, e para produções e alocações irracionais, o avanço de qualquer atividade governamental inexoravelmente introduz ilhas caóticas cada vez maiores na economia, e torna o cálculo dos custos e a alocação racional dos recursos produtivos cada vez mais difíceis. À medida que as operações do governo se expandem e a economia de mercado definha, o caos calculacional se torna mais e mais destruidor e a economia se torna crescentemente impraticável.

O derradeiro programa libertário pode ser sumarizado em uma única frase: a abolição do setor público, com a conversão de todas as operações e serviços executados pelo governo em atividades realizadas voluntariamente pela economia de livre mercado.


 

Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.


Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque



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SOBRE O AUTOR

Murray N. Rothbard
(1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.



"Não podemos ignorar o fato de que muitos governos protegem e subsidiam o produto nacional para torná-lo artificialmente competitivo."

Correto. "Artificialmente competitivo". Isso significa que algo só consegue ter um mínimo de competência caso chupe dinheiro de impostos de toda a população, a qual não ganha nada com isso, mas é obrigada a encher os bolsos de empresários mercantilistas, incompetentes e avessos à concorrência.

"Vejam o caso da Bombardier no Canada, que disputa mercado com a Embraer, que fez queixas formais à OMC."

E, ainda assim, a Embraer tem mais aviões que a Bombardier no mercado americano.

"A China subsidiou setores que ganharam mercado através da derrocada em outros países."

Quais mercados que foram dominados pelos chineses e que fizeram muita falta para outros países? Colocando de outra forma: esses mercados que os chineses dominaram por acaso são mercados tecnológicos, complexos e que geram riqueza e prosperidade, ou são mercado primitivos, tecnologicamente defasados e que não exigem nenhuma grande especialidade?

Até onde sei, chineses produzem pano, sapato e bugigangas de baixíssimo valor agregado. Isso leva alguém à pujança? Um país que deixou de fazer isso por causa dos chineses agora está irremediavelmente condenado ao atraso?

Por acaso cortar, entortar e rebitar ferro — tarefas que um xing-ling é capaz de executar a custos irrisórios — são coisas economicamente prementes para o país ou será que o governo quer que isso seja feito apenas para exibir estatísticas de produção industrial?

"Basta lembrar o que aconteceu com o setor textil e calçadista no Brasil."

Exatamente o que acabei de dizer acima. Em vez de nos preocuparmos com nanotecnologia, microprocessadores e outras atividades que realmente produzem riqueza, ainda estamos preocupados com pano e sapato, coisas completamente primitivas, que podem perfeitamente ser produzidas nos rincões mais atrasados do mundo.

Estude um pouco sobre divisão global do trabalho.

Comece por aqui:

Não há argumentos econômicos contra o livre comércio - o protecionismo é a defesa de privilégios

"Livre mercado é uma utopia irrealizável."

O que é realmente irrealizável é a inteligência econômica do brasileiro médio.
O artigo do André Lara já foi comentado pelo Leandro em duas ocasiões:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2578#ac189563

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2585#ac189561

Beira o inacreditável como é que um economista tão conceituado falou tamanha bobagem a respeito da política monetária americana. O André Lara simplesmente ignora como realmente se deu a política monetária americana. Foi impressionante.
Economistas do Banco Central do Brasil estão batendo palmas para este artigo publicado no Valor:
www.valor.com.br/cultura/4872458/andre-cochrane-e-teoria-fiscal-dos-precos

Gostaria de uma análise por parte do pessoal do Mises.

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VALOR ECONÔMICO -SP | EU E FIM DE SEMANA

BANCO CENTRAL | ECONOMIA, FINANÇAS E CONTAB.

André, Cochrane e a teoria fiscal dos preços (Artigo)

André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que "a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (...) tem sólidas credenciais analíticas". Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

Claro que não se trata disso! Apesar de o artigo se apresentar como uma crítica ao "conservadorismo intelectual", sua conclusão final é absolutamente conservadora: o trabalho de controle da inflação depende, em última instância, da confiança na sustentabilidade fiscal de longo prazo; sem isto, a política monetária estará sempre lutando uma batalha perdida.

A crítica de André ao conservadorismo parece resultar mais de um flerte com a doutrina neofisheriana, que se caracteriza por conclusões heterodoxas sobre a relação entre taxa de juros e inflação e por uma controversa teoria fiscal dos preços. Eduardo Loyo lembra que essas ideias têm apenas sobrevivido de forma marginal no corpo da ciência econômica, com seus resultados em total contraversão à opinião da maioria e ao senso comum.

Os neofisherianos dão muita importância à conclusão óbvia de que um regime monetário baseado em uma taxa de juros nominal fixa não produz uma âncora para a inflação. É possível ancorar a inflação quando se mantém o estoque total de moeda fixo, ou evoluindo a uma velocidade constante, como proposto por Milton Friedman. É possível também ancorar a inflação com uma taxa de câmbio fixa, como ocorria tradicionalmente nos regimes de padrão ouro. Não é possível, porém, ancorar a inflação apenas mantendo fixa a taxa nominal de juros.

Para demonstrar isso, considere a velha equação de Fisher, que na realidade é uma identidade que define a taxa real de juros:

Taxa nominal de juros = (taxa real de juros) mais (taxa de inflação)

Sabemos que a inflação aumenta quando a taxa real de juros cai. Imagine então que a taxa nominal de juros é fixa e ocorre um choque exógeno que aumenta a taxa de inflação. Pela identidade de Fisher, isso reduz a taxa real de juros, já que a taxa nominal permanece fixa. Como consequência, a taxa de inflação aumenta ainda mais, o que por sua vez produz uma redução adicional da taxa real de juros, e assim por diante. Ou seja, um regime monetário baseado numa taxa nominal de juros fixa não consegue ancorar a inflação. Qualquer choque exógeno produz uma trajetória explosiva, que tanto pode ser inflacionária como deflacionária.

É claro, porém, que nenhum banco central vai operar com uma taxa nominal de juros fixa, ainda que esta seja sua variável preferencial de controle. No mundo real, a ancoragem monetária é feita através de uma meta de inflação, com a autoridade monetária aumentando a taxa de juros quando a inflação fica acima da meta e reduzindo quando a inflação fica abaixo da meta, até que ocorra a convergência da inflação para a meta. Como consequência a ancora monetária não é uma taxa de juros nominal fixa, mas sim a própria meta de inflação. Nesse regime monetário, a taxa de inflação tende a ser igual à meta de inflação, que é a ancora efetiva. Quando isso ocorrer, a taxa nominal de juros terá seu valor determinado pela identidade de Fisher. Ou seja, no longo prazo a taxa nominal de juros não determina a taxa de inflação; ela é determinada pela meta de inflação!

O longo recente artigo de John Cochrane, citado por André, parece ser uma tentativa de relançar o neofisherianismo em bases técnicas mais respeitáveis. Cochrane sonha em ser uma espécie de Einstein da ciência econômica, afirmando que a experiência recente das economias avançadas com taxas de juros próximas de zero e taxas de inflação persistentemente abaixo das metas constitui-se numa espécie de experimento natural semelhante ao famoso resultado de Michelson-Morley, que foi o ponto de partida para a teoria da relatividade. Acontece que a teoria keynesiana moderna, que é utilizada por todos os bancos centrais, não encontra maior dificuldade para explicar os fatos.

Cochrane utiliza uma versão simplificada da teoria para demonstrar que, quando a taxa de juros de curto prazo é reduzida até zero, só existem duas possibilidades: ou a taxa de inflação volta a subir em direção à meta ou ocorre um processo ilimitado de deflação. Como nada disso teria ocorrido na experiência americana depois que a taxa de juros foi reduzida a praticamente zero ao fim de 2008, a conclusão é de que precisamos uma reformulação fundamental da teoria, e Cochrane sugere a alternativa da teoria fiscal dos preços.

Acontece que os números de inflação para os EUA estão longe de justificar o radicalismo de Cochrane. Em 2016 a taxa de inflação já convergiu, sim, para a meta do Fed de 2% ano. A taxa de núcleo do índice da Personal Consumption Expenditure, o PCE-core que costuma ser priorizado pelo Fed em suas decisões, também está subindo e chegou a 1,7% em 2016, ou seja, bem próximo da meta. Não é correto, portanto, dizer que a política monetária americana com taxa de juros próxima de zero não atingiu seu objetivo de colocar a inflação na meta.

Pode-se argumentar que parece ter demorado muito para conseguir isso? Na realidade não houve tanta demora. Entre 2011 e 2013, a inflação média do IPC americano ficou em 2,1%, com oscilação entre 1,5 e 3%, já perfeitamente compatível com a meta de 2%. No mesmo período, a média para o PCE-core ficou em 1,5%, com oscilação entre 0,9 e 1,7%, um pouco abaixo do IPC, mas nada muito dramático. Deve-se notar que nesses anos havia uma taxa de desemprego na faixa de 7 a 9%, o mercado imobiliário continuava em crise e as famílias provavelmente ainda estavam reduzindo suas despesas pessoais para ajustar seus endividamentos. Logo existiam forças importantes operando no sentido de impedir a elevação da taxa de inflação.

O quadro realmente mudou em 2014 e 2015, quando a inflação caiu abaixo de 1%. Essa desaceleração ocorreu junto a gradual eliminação do relaxamento quantitativo (QE), portanto em princípio com um aperto na política monetária, mas esta não nos parece ser a melhor explicação. O fator determinante foi uma brusca queda nos preços internacionais de commodities, com a cotação do petróleo Brent, por exemplo, caindo cerca de 70% entre meados de 2014 e fim de 2015. Os economistas da tradição de Chicago acreditam tanto em flexibilidade de preços que costumam não levar em consideração choques exógenos desse tipo. Se olharmos, porém, para as variações fortemente negativas do IPC Energia em 2014 e 2015 (menos 10,6% e menos 12,6%), fica claro que este foi um determinante importante da desaceleração inflacionária no período. Em 2016 alguns preços internacionais de commodities voltaram a subir (como 40% para o petróleo e 20% para os metais), o que certamente contribuiu para a elevação da taxa de inflação.

Ou seja, desde 2009 a política monetária americana foi efetivamente expansionista, ainda que diversos fatores tenham contribuído para um retorno relativamente gradual em direção à meta. Fica claro que estamos longe de um resultado paradoxal, tipo Michelson-Morley, que justifique alguma revolução teórica. Talvez o único conhecimento novo relevante que resultou da experiência americana com relaxamento quantitativo (QE) é que uma redução significativa das taxas longas de juros, que foi sua principal consequência, tem pouco impacto sobre o nível de atividade. Isto sugere que Keynes estava errado quando discordava de Hawtrey sobre a maior relevância das taxas curtas de juros para a política monetária.

Faltou comentar a tese de Cochrane sobre a possibilidade de deflação ilimitada quando a política monetária atinge a restrição do piso zero, o que talvez seja relevante para a economia japonesa. Pode acontecer que um banco central operando uma meta de inflação seja levado a reduzir a taxa nominal de juros até zero sem que consiga levar o nível de atividade a uma posição suficiente para reverter uma tendência generalizada à deflação dos preços. Isto ocorreria devido a uma configuração muito desfavorável da relação entre investimento e poupança. Uma economia com muita poupança e pouco investimento, que talvez seja o caso do Japão atual, pode produzir uma situação de desequilíbrio de longa duração com inflação cadente ou negativa.

Devido ao piso zero, a economia não consegue sair da posição deflacionária apenas através da política monetária e vai depender para isso de um estímulo fiscal. O fato de que uma situação desse tipo, como parece acontecer de forma crônica no Japão (particularmente quando olhamos o índice de preços empresarial), produz apenas uma deflação de intensidade limitada e indica apenas que a relação entre inflação e nível de atividade (representada pela curva de Phillips) não é linear e pode ter inclinação muito próxima de zero na região de taxas de inflação negativas. Isso é compatível com a velha noção keynesiana de que é difícil produzir deflações na prática.

Resta ainda entender o que pretende a teoria fiscal dos preços. A melhor explicação foi apresentada por Harald Uhlig no seminário sobre o assunto realizado em abril no Becker Friedman Institute da Universidade de Chicago. Uhlig, curiosamente, comenta que, entre outras possibilidades, a teoria fiscal dos preços talvez possa ser vista como "um conjunto de previsões que ocasionalmente funcionam em circunstâncias exóticas", e adiciona entre parênteses (Brazil?).

Sua explicação é muito simples. Se usarmos B para indicar o valor nominal da dívida pública e P para indicar o índice de preços de bens e serviços, então B/P indica o valor real da dívida. Os agentes privados que detêm esses títulos públicos esperam que eles possam ser pagos através da geração de superávits primários no futuro. Então para que se sintam confortáveis é necessário que o valor presente desses superávits futuros, que podemos indicar por VPS, seja igual ao valor real da dívida, ou seja, B/P = VPS. Isto pode ser visto como uma espécie de condição de arbitragem e podemos perguntar o que acontece se o governo aumenta sua dívida sem aumentar também o valor presente dos superávits futuros. Neste caso, B/P fica maior que VPS e, num mundo de preços plenamente flexíveis e expectativas racionais, o desequilíbrio será corrigido por um aumento no nível de preços. Ou seja, P aumenta de modo a que novamente B/P = VPS. Podemos concluir então que a taxa de inflação, que é a taxa de variação percentual de P, vai ser determinada pela diferença entre as taxas de variação percentual da dívida B e do valor presente dos superávits futuros VPS. Essa é a teoria fiscal dos preços, que se pretende uma explicação radicalmente nova para a inflação, sem qualquer menção a conceitos tradicionais como curva de Phillips, taxa de desemprego, investimento e poupança ou taxa de juros.

A teoria tem um defeito óbvio: não fica claro qual é o mecanismo de mercado que produz o movimento do índice de preços quando B/P difere de VPS. Não há dúvida de que se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para esses títulos, isto é, B/P maior que VPS, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição. Mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços?

Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal ao qual a dívida foi emitida pelo governo, que estamos indicando por B, e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por zB, sendo z um fator de desconto. Se escrevemos a teoria fiscal dos preços como zB/P = VPS, então parece mais razoável supor que um desequilíbrio entre zB/P e VPS vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública, indicado por z. Como esse fator está inversamente relacionado à taxa de juros de longo prazo, a conclusão é de que a teoria fiscal de preços não é uma nova teoria para a inflação, mas apenas uma teoria fiscal da taxa longa de juros.

Veja, porém, que realmente existe um caso exótico em que a teoria fiscal dos preços pode funcionar! É o caso em que a totalidade da dívida pública consiste de papéis ligados à taxa de juros overnight, como acontece com as LFTs no Brasil (que, aliás, foram inventadas pelo próprio André!). Neste caso, o fator de desconto para a dívida pública será sempre igual a um, por definição, e voltamos à formulação B/P = VPS, que viabiliza a teoria. Naturalmente, isso não significa que esteja garantida sua relevância prática no mundo real, fora dos modelos de preços totalmente flexíveis e expectativas racionais. Significa apenas que Uhlig tinha razão ao especular que a teoria fiscal dos preços poderia em tese funcionar em circunstâncias exóticas, como no Brasil das LFTs.

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC)

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • André Ramos  09/02/2011 11:39
    Os textos do Rothbard são sempre excelentes. É tudo tão claro que é difícil crer que alguém possa ler e refutar.
    Um ponto interessante, na minha opinião, é esse: "o defensor da existência de um livre mercado para todas as áreas não pode fornecer antecipadamente um projeto 'construtivo' de como seria tal mercado".
    Que bom que seja assim... Todos sabemos quem é que fornece respostas prontas, presente eterno e amanhãs sorridentes, não é mesmo? E é por isso que normalmente os jovens e os incautos se encantam com a causa socialista e aderem a ela com entusiasmo e, às vezes, boa fé.
    Abs.
  • Caio  16/04/2013 00:54
    Realmente, a escrita de Rothbard é ímpar.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  23/06/2013 22:33
    Quanto mais aprendo mais me questiono: como o "estado" ainda existe?
  • Emerson Luis, um Psicologo  04/09/2013 16:57
    Essas ideias são avançadas demais para muitas pessoas.

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