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Um vermelho-e-preto com Benjamin Steinbruch - o homem que quer fechar o país

Benjamim Steinbruch é um empresário multifacetado.  Hoje, ele pode facilmente ser chamado de magnata do aço.  Um dos fundadores do grupo Vicunha, que mexe com produtos têxteis, Steinbruch foi incumbido, nos anos 1990, de diversificar os negócios da empresa, e acabou entrando nos processos de privatização da CSN e da Vale.  Mais tarde, abriu mão de suas ações na Vale e aumentou sua participação na CSN, empresa da qual hoje é presidente.

Esse é o seu lado empreendedor.

Porém, como infelizmente acontece com a maioria dos grandes empresários brasileiros, Steinbruch também possui seu lado cartorial: ele é o presidente em exercício da FIESP, entidade que define o que os paulistas e, por conseguinte, os brasileiros podem importar ou não.  O atual presidente da FIESP, Paulo Skaf, coerentemente é afiliado ao Partido Socialista Brasileiro.  A mídia, que não domina assuntos teóricos, fez troça dessa afiliação de Skaf: "Um empresário socialista? Como pode?" Ora, Skaf está demonstrando corretamente suas preferências.  O atual regime brasileiro, em que os grandes empresários fazem conluio com o governo para benefício de ambos e em detrimento do resto da população, nada mais é do que a variante fascista (corporativista) de um arranjo socialista.

Mas estou digressionando.  Voltemos a Steinbruch.  Sua entrevista a seguir foi dada ao jornal Valor Econômico, muito embora seu conteúdo pareça diretamente saído da Carta Capital ou do A Hora do Povo.  Sua proposta econômica é módica, sensata e equilibrada: quer criar mais dois BNDES, desvalorizar a moeda o máximo possível e simplesmente proibir as importações, fechando o país.

A seguir, os trechos mais saborosos de sua longa entrevista.  Vale a pena ler tudo, pois seu pensamento revela como pensa grande parte do empresariado protecionista brasileiro.  Ele e o Valor vão de vermelho, eu vou de preto.

 

Valor: O mercado interno (brasileiro) forte amplia a chegada das importações. Isso incomoda a indústria?

Steinbruch: A importação é uma coisa nova no Brasil.  Nós ainda não tivemos tempo de considerar nossa posição.  Temos uma ótima situação interna, gente comprando seu primeiro bem — casa, geladeira, fogão, carro — ao mesmo tempo em que lá fora os países estão em dificuldade, com enorme capacidade ociosa.  Então, nosso mercado interno, que é uma referência mundial, vira alvo.  O Brasil nunca viveu isso, não temos a experiência de ficar tão bem, então pagamos um preço pelo sucesso.  O mercado interno vai continuar bom, mas não necessariamente a produção local vai estar trabalhando a plena capacidade.  Num curto espaço de tempo as empresas vão fazer um esforço muito grande para exportar, por falta de possibilidade de vender o produto internamente.

Devo confessar que não entendi o raciocínio.  Primeiro Steinbruch diz que o mercado interno está muito bom, com as pessoas comprando seus primeiros bens, como casa, geladeira, fogão e carro.  Porém, em seguida, ele conclui que estar bom significa, na verdade, estar ruim, pois vários produtos externos passam a ser vendidos aqui dentro.  Conclusão: mais opções de compra é algo ruim para a população. 

Paradoxalmente, conclui Steinbruch, um mercado interno forte faz com que as empresas brasileiras tenham de "fazer um esforço muito grande para exportar, por falta de possibilidade de vender o produto internamente."  Entendeu?  Nem eu.  E, aparentemente, nem o jornalista.  Daí sua próxima pergunta.

Valor: Como assim?

Steinbruch: Há um descontrole de importações em todos os setores. No ano passado, no primeiro semestre, importamos o equivalente a US$ 5,9 bilhões em manufaturas da China. Agora, em 2010, importamos US$ 9,9 bilhões entre janeiro e junho, praticamente dobrou em um ano. E estou falando da China, apenas.

Aqui ele apenas cita um dado.  Porém, utilizando-se de um artifício malicioso, Steinbruch transforma essa ausência de conclusão em uma conclusão em si.  Basta falar que as importações da China aumentaram de 5,9 para 9,9 bilhões de dólares em apenas um ano e, voilà!, ele transforma um dado numérico em uma coisa vagamente assustadora, fiando-se apenas no preconceito anti-importação que domina toda a imprensa, algo que é tomado como um critério universalmente aceito.  À luz desse preconceito, não precisa haver mesmo conclusão alguma, pois o simples fato de estar havendo importações da China já é automaticamente aceito como algo supremamente anormal e condenável.  A pergunta a seguir confirma esse raciocínio.

Valor: Isso é discutido na Fiesp? (Observe que sequer há uma indagação sobre os motivos de tal aumento das importações chinesas ser algo ruim)

Steinbruch: Muito. Ninguém pensava que as empresas brasileiras iriam ter de parar a produção por excesso de estoques enquanto o mercado está com demanda forte, mas isso ocorre porque as importações estão ocupando espaço.

Se as importações chinesas estão "ocupando espaço" dos produtos brasileiros é porque os consumidores brasileiros estão voluntariamente mostrando que preferem aqueles produtos (talvez por serem mais baratos) aos produtos brasileiros.  E o senhor Steinbruch não aceita isso.  Ele quer, na verdade, um decreto governamental que proíba os consumidores brasileiros de exercerem livremente suas preferências no mercado.  Melhor ainda: ele quer que os brasileiros sejam obrigados a comprar apenas os produtos seus e de seus companheiros.

Se você acha que eu estou mentindo ou exagerando, continue lendo o show de horrores que virá a seguir.

Valor: O sr. tem algum caso concreto de empresa que vai fazer isso? (Parar a produção por excesso de estoques).

Steinbruch: Até duas semanas atrás ninguém falava nisso.  Se pegar os dados de 31 de julho, vocês não verão.  É algo que está acontecendo agora.  Há 350 mil toneladas de aço estocadas em Santa Catarina.  As empresas vão ser obrigadas à exportar, o que é um esforço muito grande com uma moeda tão valorizada.  Vai ter de baixar o preço no mercado interno para competir com o importado, o que é uma competição desleal, mas só vai ter o efeito disso no ano que vem.  Qualquer medida que o governo tomasse agora só serviria para 2011, então o governo está atrasado.  A economia vai bem, a demanda está forte, mas as empresas brasileiras estão com dificuldade de aproveitar essa bonança.

É até difícil escolher por onde começar.  Tentemos pela ordem.  Se há 350 mil toneladas de aço paradas em Santa Catarina, restam-lhe 3 opções:

1) Vender tudo no mercado interno — é só baixar o preço que ele vai encontrar o tanto de compradores que ele quiser.  Só que, como ele se acostumou com preços altos para seus produtos — tudo estimulado pela expansão do crédito orquestrada pelo Banco Central —, praticar uma redução é algo inconcebível.

2) Exportar a preços vigentes no mercado internacional, algo que para sua tristeza ele não pode controlar.

3) Estocar para vender quando o preço lhe for mais propício.

Depois dessa lamúria, Steinbruch prossegue dizendo que ter de baixar preços para competir com a concorrência dos importados é "uma competição desleal".  Como todo grande empresário cartorialista, ele parece ter se acostumado à crença de que vender a preços constantemente altos é um direito inalienável.

Ato contínuo, ele solta o veredicto: o governo tem de agir e tem de agir rápido! Aliás, já está atrasado!  As empresas brasileiras não estão conseguindo aproveitar a atual bonança, pois os malditos chineses estão acabando com a festa, atrevendo-se a vender aqui produtos baratos e voluntariamente desejados pelos consumidores brasileiros.  Que alguém trate logo de abolir o mercado e seu sistema de preços insensível às volúpias do grande empresariado.

Valor: Mas como convencer as pessoas de que é preciso fazer algo num período de crescimento forte, redução do desemprego e aumento de salários?

Steinbruch: Só perceberemos depois que as empresas começarem a parar mesmo. Aí veremos que alguma coisa furou no modelo, e furou por um descuido nosso, porque ninguém pensou nisso e muita gente não percebeu ainda. Vamos bater num muro a 200 km por hora. Cerca de 95% dos óculos vendidos no país são importados, sabia? Escovas e pentes têm a mesma situação. Não se fabrica mais aqui. Ou incentivamos mais ainda o mercado interno, com financiamento, isenção de imposto, para ter efeito rápido, ou restringimos ao máximo as importações.

Enquanto o resto do mundo se preocupa com nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e robótica, nosso empresariado ainda está preocupado com a produção de pentes e escovas!  De acordo com Steinbruch, se o país parar de produzir pentes, ficaremos pobres!

Consequentemente, para impedir a derrocada da portentosa indústria nacional de pentes e escovas, o governo deve abrir as torneiras, dar financiamento barato para as empresas voltarem a produzir tão demandados e insubstituíveis objetos (só falta encontrar algum índio pra fazer escambo), e, só pra garantir, dar uma fechadinha básica nas importações.  É assim que um país enriquece. 

Se nos aprofundarmos um pouco mais, veremos que tal raciocínio tacanho seria contra a substituição das máquinas de escrever pelos computadores, das velas pelas lâmpadas incandescentes e das carroças pelos automóveis.  Steinbruch, se possível, proibiria a importação de laptops, pois isso seria ruim para as representantes da Olivetti no Brasil.

Valor: O novo governo, seja qual for, vai fazer algo próximo disso?

Steinbruch: Isso certamente vai ter de ser feito a partir de 2011. Porque enquanto o Brasil estiver bem e os outros países estiverem mal, isso vai se perpetuar. A empresa estrangeira não tem para quem vender, então manda para cá. O que desorganiza a cadeia é que quem está importando não são os clientes finais da indústria brasileira, mas o intermediário. Se você conversa com os industriais, eles vão te dizer que estão com produção toda vendida até o fim do ano. Só que os clientes não estão retirando a mercadoria. Porque entrou uma opção alternativa, o importado, que não estava previsto. Nem por quem produz, nem por quem compra.

Maldito mercado!  Interpondo-se às expectativas sossegadas dos cartorialistas! Ou em 2011 o governo acaba completamente com as importações ou voltaremos à idade da pedra — só que, dessa vez, com escovas e pentes chineses.

Observe que o raciocínio tortuoso de Steinbruch leva a uma conclusão óbvia: quanto mais produtos estrangeiros forem vendidos aqui dentro, quanto maiores as opções e quanto mais baratas forem, pior para os brasileiros.  Ou seja: estamos pobres porque somos ricos. Vamos empobrecer porque enriquecemos.  Somos miseráveis pois vivemos na fartura.  Um país só pode ser rico quando seu mercado interno é dominado por apenas um tipo de produto vendido ao maior preço possível.

Por que é inconcebível para Steinbruch a hipótese de os produtores nacionais simplesmente reduzirem seus preços?  Por que o empresariado não aproveita essa maré favorável às importações e compra bens de capital que lhes permita otimizar seu processo produtivo, aumentando assim a produtividade?  Isso possibilitaria uma redução de preços e um concomitante aumento dos lucros.  Porém, é mais fácil simplesmente pedir para o governo barrar as importações.  O que vale é o bem-estar deles e não o dos consumidores.

Valor: Mas a maior parte do que importamos é maquinário e bem intermediário, que complementa a produção. Essa importação não é benéfica ao país?

Steinbruch: A importação benéfica para o país é difícil de se diferenciar. É aquela que complementa além do limite de produzir. Se há demanda para 105 e produzimos 100, assim os cinco vêm de fora, para equilibrar a inflação. Hoje, com a oferta que temos no mundo, o risco grande que temos não é de inflação, mas de deflação. O Banco Central está errado quando diz que há risco de inflação. O que veremos agora é deflação. Porque a ociosidade do mundo, em termos produtivos, dificulta e muito qualquer processo inflacionário de demanda, que seria nosso caso, então não existe risco de inflação no Brasil. O nível de esforço que os países maduros estão fazendo para conseguir gerar demanda, com bilhões e bilhões de gastos para incentivar a economia é justificável para reanimar a atividade. Aqui fazemos o contrário, estamos castigando o sucesso do ciclo positivo que nós desenvolvemos — mercado interno, emprego, renda familiar —, que é quebrado pela importação, favorecida pela moeda valorizada. Estamos surpresos.

Antes de tudo, observe que Steinbruch não respondeu à pergunta que lhe foi feita.  O que ele realmente quer — e disso ele não abre mão — é um maior rigor nas importações, de modo que seja importado rigorosamente apenas aquilo que vai complementar a produção.  Ou seja, se a indústria nacional de pentes está produzindo em sua capacidade máxima, mas a demanda por pentes continua insaciável, então nesse caso — e apenas nesse caso —, Steinbruch permite que os chineses vendam seus pentes aqui dentro.  Porém, tão logo essa demanda tenha sido saciada, as importações devem voltar a ser restringidas, para que a indústria nacional volte a ser soberana na venda de pentes mais caros.

Quanto à balela sobre risco de deflação, isso apenas mostra como os grandes empresários são contra uma moeda forte — como um padrão-ouro, por exemplo, que é inerentemente deflacionário (no sentido de provocar uma constante redução nos preços).  É muito mais fácil viver em uma economia cuja oferta monetária esteja em constante aumento, pois assim os lucros contábeis são mais fáceis e a produção pode ser de menor qualidade.

Valor: Com o quê?

Steinbruch: Uma situação previsível de tranquilidade no segundo semestre mudou para uma surpresa de empresas grandes estarem parando por férias ou reduzindo pessoas por um desequilíbrio entre oferta e demanda por conta do importado. Para um país como o Brasil, que tem matéria-prima, capacidade produtiva, capacidade de ter duas safras agrícolas e petróleo, não vejo onde está o benefício da importação, a não ser que seja para equilibrar preços, para evitar inflação. O Brasil teria que, de alguma forma, se fechar.

Uma situação previsível de tranquilidade foi perturbada pela repentina mudança nas preferências dos consumidores.  Empresário que se assusta e se surpreende com o fato de que os consumidores preferem produtos mais baratos me parece estar no ramo errado.  Essa é a essência do empreendedorismo: saber antecipar as mudanças no comportamento dos consumidores.  Como explicou Israel Kirzner, os empreendedores têm de estar sempre alerta às tendências de mercado.  Aqueles que não se adaptarem a isso, certamente perderão fatias de mercado — e os que são poderosos o suficiente, certamente recorrerão ao governo para tentar mudar isso.

Observe, ademais, o totalitarismo nas duas últimas frases de Steinbruch: não há benefício para os brasileiros nas importações.  Esta deve ser usada apenas pontualmente com o intuito de controlar o aumento de preços.  Fora isso, as importações devem ser proibidas e o país deve se fechar. (Lembra-se que eu falei lá em cima que eu não estava exagerando?)

Valor: Como assim?

Steinbruch: Fazer um pouco o que a China fez. Vocês falaram de máquinas, por exemplo. O certo é que o Brasil pudesse desenvolver, por conta do crescimento contínuo da economia, tecnologia própria, inclusive para máquinas e equipamentos, para avançarmos tecnologicamente. Hoje, importamos equipamento chinês. Por quê? Porque cresceram por 15, 20 anos e tiveram condição de testar equipamento e tecnologia, corrigir, melhorar. Começaram copiando, depois melhorando e hoje eles têm tecnologia própria. O Brasil tem de fazer a mesma coisa.

Esse é um raciocínio delicioso.  De acordo com Steinbruch, se o país se fechar, isso milagrosamente fará com que todo o intelecto nacional repentinamente se exacerbe e exiba seu pleno potencial, fazendo com que, do nada, haja um salto tecnológico no país. Para ele, a inteligência, a tecnologia e o capital são coisas que estão ali, adormecidas, apenas esperando uma oportunidade — no caso, um fechamento do mercado — para que possam finalmente despertar e se exibir em sua totalidade.

E ele aparentemente falou isso com um grande ar de seriedade.  É como se toda a tecnologia, todo o capital e todo o intelecto prático fossem apenas um adorno que automaticamente entraria em cena tão logo a concorrência estrangeira fosse suprimida; é como se a ausência desses elementos hoje observada não fosse de maneira alguma um obstáculo à conquista do padrão chinês de desenvolvimento.  Basta fechar o mercado e as mil flores irão florescer.  Haverá, finalmente, o nosso Grande Salto Para a Frente.

Valor: Fechar a economia, então?

Steinbruch: A economia tem que se fechar um pouco para poder propiciar esse salto.

Eu nunca exagero no que falo.

Valor: Mas durante esse processo, não experimentaremos um período de inflação mais alta?

Steinbruch: Você tem que incentivar o bem mais barato fabricado aqui. Nós não temos porque fazer mais caro que lá fora.

Ora, mas o bem mais barato é exatamente o que vem lá de fora!  Não era exatamente disso que ele estava reclamando?  Como um fechamento do mercado vai permitir que mais bens, melhores e mais baratos sejam produzidos aqui dentro?  Para responder isso, ele precisa antes explicar como vai solucionar aquele problema que mencionei duas respostas acima.

Valor: E o caso da Petrobras na exploração do pré-sal que dá prioridade ao fornecedor nacional, mas há máquinas e peças que só existem no exterior?

Steinbruch: E por que não têm máquina aqui? Não é por falta de capacidade nossa, seja tecnológica, gerencial ou financeira, então não é por isso. Temos que nos educar no sentido de colocar desafios maiores para o Brasil. Nós podemos tudo. Temos que dar um trato diferente ao capital que vai para investimento e ao que vai para custeio. O investimento no Brasil é muito caro, temos um custo que não é comparável com o exterior. Essa discussão do BNDES é totalmente secundária e inoportuna.

A Petrobras, que não é boba, concorda comigo e discorda de Steinbruch.  Na hora de buscar capital e tecnologia de ponta, ela corre pro exterior.  Apenas ficar com esse papo cafona de que não há falta de capacidade tecnológica, gerencial ou financeira no Brasil, e que "temos que nos educar no sentido de colocar desafios maiores para o Brasil. Nós podemos tudo.", não é o suficiente para sanar estes problemas.  O problema vem bem mais de longe, e não será solucionado apenas com romantismo.

Valor: Por quê?

Steinbruch: Porque temos que fazer todo o esforço possível e imaginável para favorecer o investimento. Então, o banco de desenvolvimento tem de dar condições para as empresas. Para micro, pequena, média empresa e também para as grandes e gigantes. Temos que ir para fora. Um país que quer liderar tem que ter empresas fortes e isso só ocorre se o governo apostar junto. Foi o que aconteceu em todos os países do mundo. Se for copiar o que aconteceu com Inglaterra, Estados Unidos, é o mesmo modelo. Temos que copiar e depois melhorar. Nós temos que privilegiar o BNDES e outros, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. O presidente Lula estava certo quando estimulou o BB e a CEF à fazerem mais, à estarem presentes num momento de crise, à não cortarem o crédito. Foi um momento muito importante.

Esta posição em prol do "crédito fácil que gera crescimento" é muito difícil de ser atacada no atual momento da economia brasileira, em que tudo parece estar indo às mil maravilhas.  Da mesma forma, era impossível criticar o Fed durante o período da bonança imobiliária americana, onde tudo aparentemente também era uma maravilha.  Alan Greenspan, o então presidente do Fed, era saudado como um gênio monetário, capaz de gerar riqueza por meio da simples impressão de dólares.  Deu no que deu.  E hoje, o que vou falar no parágrafo seguinte já é amplamente aceito nos EUA (exceto pelos keynesianos); já é amplamente entendido como a causa da expansão artificial e da consequente recessão americana.  Aqui no Brasil, como a coisa ainda vai demorar um pouco pra acontecer, tal raciocínio parecerá estranho.  Mas economia é assim mesmo: é a arte de entender o que não se vê.

Um aparente "crescimento" econômico trazido por uma expansão do crédito — no caso, os financiamentos subsidiados do BNDES e a redução dos juros feita pelo BACEN —, não chega sequer a ser um crescimento econômico.  Tampouco há um genuíno aumento da produção econômica.  Inflação e crédito fácil jamais podem aumentar a disponibilidade de bens em uma economia; jamais podem aumentar a produção total.  A única coisa que ambos fazem é provocar uma realocação de recursos, favorecendo aqueles que recebem esse dinheiro antes de todo o resto da população, e prejudicando aqueles que recebem esse dinheiro por último.

Durante esse período de realocação dos fatores de produção dentro da economia — período esse que é confundido com crescimento econômico genuíno —, as pessoas erroneamente creem que estão vivendo um período de bonança, quando na verdade estão vivendo um período de desperdício de recursos.  Bens de capital estão sendo empregados em projetos que serão insustentáveis no longo prazo. 

Esse processo é camuflado pelo fato de que alguns membros da sociedade realmente estão enriquecendo.  Porém tal enriquecimento foi trazido apenas e exclusivamente pela criação de dinheiro.  E sempre em detrimento daqueles que serão os últimos a receber esse dinheiro recém-criado.

"Ah, mas o PIB cresce!"  Não obstante todas as falhas com o cálculo do PIB, é suficiente apenas dizer que, como o PIB mensura os gastos da economia, é óbvio que uma quantidade maior de dinheiro fará com que os valores nominais desses gastos sejam maiores.  E mesmo sabendo que o PIB é "corrigido pela inflação de preços", sabemos que o aumento dos preços é sempre menor do que o aumento ocorrido na oferta monetária.  Consequentemente, um aumento da oferta monetária de fato causa um aumento do PIB real, mas está-se apenas mensurando gastos, e não produção e poupança, que é o que realmente gera riqueza.

ValorComo o sr. vê as críticas ao BNDES?

Steinbruch: Não precisamos de um BNDES, mas de três bancos como o BNDES para atender a demanda por investimentos e a formação de empresas globais.

Quanto mais crédito fácil, melhor é para aqueles que recebem esse dinheiro primeiro.  Nesse caso, o senhor Steinbruch está sendo bastante coerente.  Ele está defendendo aquilo que é bom exclusivamente para ele.

Valor: Além de fortalecer o BNDES, que medidas podem fomentar os investimentos?

Steinbruch: A mais imediata seria diminuir a taxa de juros, para desvalorizar a moeda.

O brasileiro não pode ter uma moeda forte, com um bom poder aquisitivo, que lhe permita comprar mais coisas de fora.  Não.  O ideal é que o brasileiro tenha uma moeda que ninguém aceita lá fora, valendo menos que capim.  A moeda ideal é aquela suficiente para comprar apenas os produtos produzidos pelo senhor Steinbruch e por seu círculo de amigos fiespianos.  O resto é desnecessário.

Valor: Mas já passamos por processo de redução de juros e mesmo assim a moeda continuou se valorizando...

Steinbruch: Se derreteu a moeda cortando juros, imagina elevando, como fazemos agora. Nossa taxa precisa ser um ou dois pontos percentuais acima da inflação.

As noções econômicas de Steinbruch são completamente invertidas.  Para ele, uma moeda "derretida" é aquela moeda forte, com poder de compra no mercado internacional.  Já uma moeda literalmente derretida, sem poder de compra algum lá fora, é para ele uma moeda robusta, geradora de prosperidade.  Aparentemente, enquanto o dólar não estiver na casa dos 15 reais, Steinbruch não vai sossegar.

Valor: Então não passa só pelos juros, certo?

Steinbruch: Não, podemos também controlar importação. Tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo. Há muitos bens, como lâmpadas, que chegam custando um centavo de dólar. Precisamos ter gente treinada, investimento em pessoal para que possam controlar e desenvolver sistemas. Os países maduros têm isso, porque eles também foram alvos. Os Estados Unidos têm uma bíblia para você poder entrar lá e um pessoal profissional para controlar o que entra. Agora, o alvo somos nós e nós não temos essa experiência, então vem tudo para cá.

O modelo de prosperidade de Steinbruch deve ser a Coréia do Norte.  Lá não há lâmpadas sendo vendidas a um centavo de dólar.  Lá as importações são bem controladas.  Lá há investimentos e gente treinada para controlar e desenvolver sistemas (nucleares).  Lá certamente há "uma bíblia para você poder entrar lá e um pessoal profissional para controlar o que entra".

Enquanto isso, nós, coitados, somos bombardeados por uma oferta de produtos chineses baratos, algo que não pode acontecer.  No Brasil de Steinbruch, haveria um exército de funcionários seus em todos os portos e aeroportos, inspecionando direitinho o que entra e ditando a nós, brasileiros, o que podemos consumir ou não.

Valor: A Usiminas entrou com um pedido de antidumping contra a importação de chapa grossa de aço. Acha que a abertura de processos antidumping pode ser uma saída?

Steinbruch: Tem que fazer. A gente vai deixar de ser um país produtor industrial para ser um importador? É um castigo que não podemos pagar.

Castigo é poder comprar produtos baratos de fora.  Benção é ser obrigado a comprar apenas os produtos feitos por Steinbruch e sua claque.

Valor: Então devem partir das empresas as medidas de controle?

Steinbruch: Tem que ser algo coordenado com o governo.

Esse coordenação entre governo e empresariado foi um arranjo de muito sucesso na Itália e na Alemanha da década de 1930.

Valor: Mas o governo atual ou o futuro vai fazer isso?

Steinbruch: Tem que fazer. O Brasil vai ter que adotar uma política dura porque hoje em dia é muito mais importante para nós a produção e o emprego [indústria] que a fazenda [campo]. O problema para nós é muito mais dar garantia à produção e ao emprego que a questão econômica e financeira, que já está equacionada. A prioridade agora é o Ministério do Desenvolvimento, tanto com incentivo para exportar quanto para evitar importação desordenada. Cada porto tem que ter um controle e isso precisa ser integrado.

Aqui Steinbruch é explícito.  Ele defende uma burocracia responsável por fazer planejamento econômico, em que a decisão sobre o que será produzido, em qual quantidade e para quem será vendido fica a cargo de burocratas, e não dos consumidores.  Nada de "importação desordenada".  Cada porto deverá ter um agente contratado por Steinbruch, inspecionado absolutamente tudo o que entra no país, e dando seu selo de aprovação.  (E aposto que você achou que eu estava exagerando nas minhas três respostas acima).

Valor: O que mais preocupa o empresariado?

Steinbruch: Preocupa tudo. Está faltando mão de obra, estamos colocando escola dentro do canteiro de obra, fazendo o que podemos para formar gente, algo que é um limitador do crescimento brasileiro.

Agora Steinbruch passou a concordar comigo e, consequentemente, a se contradizer.  Como um país com esse nível de educação vai repentinamente se modernizar via fechamento dos portos?  Apenas essa frase já está em contradição com metade das suas ideias acima expostas.

Valor: O que acaba por aumentar os salários. Isso é um empecilho?

Steinbruch: Aumentar salário para o consumo de produção nacional é razoável. Duro é aumentar salário para o cara consumir bem importado, isso é uma distorção. Estamos em condições de avançar e agregar outros 50 milhões de consumidores na economia. É um país fantástico, mas ainda temos muito o que fazer. Enquanto lá fora estão fazendo de tudo, o possível e o impossível para ressuscitar a economia, aqui não precisamos disso.

Aumento salarial bom mesmo é só aquele que é gasto integralmente na compra de produtos com o selo Steinbruch.  Se o aumento salarial for gasto no consumo da produção nacional, isso será apenas "razoável".  Mas duro mesmo é o sujeito se atrever a gastar seu salário comprando o que ele quer, principalmente coisas importadas.  Aí já é demais. "Isso é uma distorção".

 

São pensamentos totalitários como esses do senhor Steinbruch que fazem com que o capitalismo tenha uma má fama, sendo visto como um sistema manipulado, no qual empresários e governo fazem conluio para benefício mútuo em detrimento de toda a população, principalmente a de menor renda, que se torna obrigada a comprar produtos nacionais mais caros. 

Como bem disse Benito Mussolini,

 "O fascismo deveria ser mais apropriadamente chamado de corporativismo, pois trata-se de uma fusão entre o poder do estado e o poder das grandes empresas".

Apenas o livre mercado pode colocar essa gente no seu devido lugar.


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SOBRE O AUTOR

Leandro Roque
é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


"Não podemos ignorar o fato de que muitos governos protegem e subsidiam o produto nacional para torná-lo artificialmente competitivo."

Correto. "Artificialmente competitivo". Isso significa que algo só consegue ter um mínimo de competência caso chupe dinheiro de impostos de toda a população, a qual não ganha nada com isso, mas é obrigada a encher os bolsos de empresários mercantilistas, incompetentes e avessos à concorrência.

"Vejam o caso da Bombardier no Canada, que disputa mercado com a Embraer, que fez queixas formais à OMC."

E, ainda assim, a Embraer tem mais aviões que a Bombardier no mercado americano.

"A China subsidiou setores que ganharam mercado através da derrocada em outros países."

Quais mercados que foram dominados pelos chineses e que fizeram muita falta para outros países? Colocando de outra forma: esses mercados que os chineses dominaram por acaso são mercados tecnológicos, complexos e que geram riqueza e prosperidade, ou são mercado primitivos, tecnologicamente defasados e que não exigem nenhuma grande especialidade?

Até onde sei, chineses produzem pano, sapato e bugigangas de baixíssimo valor agregado. Isso leva alguém à pujança? Um país que deixou de fazer isso por causa dos chineses agora está irremediavelmente condenado ao atraso?

Por acaso cortar, entortar e rebitar ferro — tarefas que um xing-ling é capaz de executar a custos irrisórios — são coisas economicamente prementes para o país ou será que o governo quer que isso seja feito apenas para exibir estatísticas de produção industrial?

"Basta lembrar o que aconteceu com o setor textil e calçadista no Brasil."

Exatamente o que acabei de dizer acima. Em vez de nos preocuparmos com nanotecnologia, microprocessadores e outras atividades que realmente produzem riqueza, ainda estamos preocupados com pano e sapato, coisas completamente primitivas, que podem perfeitamente ser produzidas nos rincões mais atrasados do mundo.

Estude um pouco sobre divisão global do trabalho.

Comece por aqui:

Não há argumentos econômicos contra o livre comércio - o protecionismo é a defesa de privilégios

"Livre mercado é uma utopia irrealizável."

O que é realmente irrealizável é a inteligência econômica do brasileiro médio.
O artigo do André Lara já foi comentado pelo Leandro em duas ocasiões:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2578#ac189563

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2585#ac189561

Beira o inacreditável como é que um economista tão conceituado falou tamanha bobagem a respeito da política monetária americana. O André Lara simplesmente ignora como realmente se deu a política monetária americana. Foi impressionante.
Economistas do Banco Central do Brasil estão batendo palmas para este artigo publicado no Valor:
www.valor.com.br/cultura/4872458/andre-cochrane-e-teoria-fiscal-dos-precos

Gostaria de uma análise por parte do pessoal do Mises.

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VALOR ECONÔMICO -SP | EU E FIM DE SEMANA

BANCO CENTRAL | ECONOMIA, FINANÇAS E CONTAB.

André, Cochrane e a teoria fiscal dos preços (Artigo)

André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que "a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (...) tem sólidas credenciais analíticas". Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

Claro que não se trata disso! Apesar de o artigo se apresentar como uma crítica ao "conservadorismo intelectual", sua conclusão final é absolutamente conservadora: o trabalho de controle da inflação depende, em última instância, da confiança na sustentabilidade fiscal de longo prazo; sem isto, a política monetária estará sempre lutando uma batalha perdida.

A crítica de André ao conservadorismo parece resultar mais de um flerte com a doutrina neofisheriana, que se caracteriza por conclusões heterodoxas sobre a relação entre taxa de juros e inflação e por uma controversa teoria fiscal dos preços. Eduardo Loyo lembra que essas ideias têm apenas sobrevivido de forma marginal no corpo da ciência econômica, com seus resultados em total contraversão à opinião da maioria e ao senso comum.

Os neofisherianos dão muita importância à conclusão óbvia de que um regime monetário baseado em uma taxa de juros nominal fixa não produz uma âncora para a inflação. É possível ancorar a inflação quando se mantém o estoque total de moeda fixo, ou evoluindo a uma velocidade constante, como proposto por Milton Friedman. É possível também ancorar a inflação com uma taxa de câmbio fixa, como ocorria tradicionalmente nos regimes de padrão ouro. Não é possível, porém, ancorar a inflação apenas mantendo fixa a taxa nominal de juros.

Para demonstrar isso, considere a velha equação de Fisher, que na realidade é uma identidade que define a taxa real de juros:

Taxa nominal de juros = (taxa real de juros) mais (taxa de inflação)

Sabemos que a inflação aumenta quando a taxa real de juros cai. Imagine então que a taxa nominal de juros é fixa e ocorre um choque exógeno que aumenta a taxa de inflação. Pela identidade de Fisher, isso reduz a taxa real de juros, já que a taxa nominal permanece fixa. Como consequência, a taxa de inflação aumenta ainda mais, o que por sua vez produz uma redução adicional da taxa real de juros, e assim por diante. Ou seja, um regime monetário baseado numa taxa nominal de juros fixa não consegue ancorar a inflação. Qualquer choque exógeno produz uma trajetória explosiva, que tanto pode ser inflacionária como deflacionária.

É claro, porém, que nenhum banco central vai operar com uma taxa nominal de juros fixa, ainda que esta seja sua variável preferencial de controle. No mundo real, a ancoragem monetária é feita através de uma meta de inflação, com a autoridade monetária aumentando a taxa de juros quando a inflação fica acima da meta e reduzindo quando a inflação fica abaixo da meta, até que ocorra a convergência da inflação para a meta. Como consequência a ancora monetária não é uma taxa de juros nominal fixa, mas sim a própria meta de inflação. Nesse regime monetário, a taxa de inflação tende a ser igual à meta de inflação, que é a ancora efetiva. Quando isso ocorrer, a taxa nominal de juros terá seu valor determinado pela identidade de Fisher. Ou seja, no longo prazo a taxa nominal de juros não determina a taxa de inflação; ela é determinada pela meta de inflação!

O longo recente artigo de John Cochrane, citado por André, parece ser uma tentativa de relançar o neofisherianismo em bases técnicas mais respeitáveis. Cochrane sonha em ser uma espécie de Einstein da ciência econômica, afirmando que a experiência recente das economias avançadas com taxas de juros próximas de zero e taxas de inflação persistentemente abaixo das metas constitui-se numa espécie de experimento natural semelhante ao famoso resultado de Michelson-Morley, que foi o ponto de partida para a teoria da relatividade. Acontece que a teoria keynesiana moderna, que é utilizada por todos os bancos centrais, não encontra maior dificuldade para explicar os fatos.

Cochrane utiliza uma versão simplificada da teoria para demonstrar que, quando a taxa de juros de curto prazo é reduzida até zero, só existem duas possibilidades: ou a taxa de inflação volta a subir em direção à meta ou ocorre um processo ilimitado de deflação. Como nada disso teria ocorrido na experiência americana depois que a taxa de juros foi reduzida a praticamente zero ao fim de 2008, a conclusão é de que precisamos uma reformulação fundamental da teoria, e Cochrane sugere a alternativa da teoria fiscal dos preços.

Acontece que os números de inflação para os EUA estão longe de justificar o radicalismo de Cochrane. Em 2016 a taxa de inflação já convergiu, sim, para a meta do Fed de 2% ano. A taxa de núcleo do índice da Personal Consumption Expenditure, o PCE-core que costuma ser priorizado pelo Fed em suas decisões, também está subindo e chegou a 1,7% em 2016, ou seja, bem próximo da meta. Não é correto, portanto, dizer que a política monetária americana com taxa de juros próxima de zero não atingiu seu objetivo de colocar a inflação na meta.

Pode-se argumentar que parece ter demorado muito para conseguir isso? Na realidade não houve tanta demora. Entre 2011 e 2013, a inflação média do IPC americano ficou em 2,1%, com oscilação entre 1,5 e 3%, já perfeitamente compatível com a meta de 2%. No mesmo período, a média para o PCE-core ficou em 1,5%, com oscilação entre 0,9 e 1,7%, um pouco abaixo do IPC, mas nada muito dramático. Deve-se notar que nesses anos havia uma taxa de desemprego na faixa de 7 a 9%, o mercado imobiliário continuava em crise e as famílias provavelmente ainda estavam reduzindo suas despesas pessoais para ajustar seus endividamentos. Logo existiam forças importantes operando no sentido de impedir a elevação da taxa de inflação.

O quadro realmente mudou em 2014 e 2015, quando a inflação caiu abaixo de 1%. Essa desaceleração ocorreu junto a gradual eliminação do relaxamento quantitativo (QE), portanto em princípio com um aperto na política monetária, mas esta não nos parece ser a melhor explicação. O fator determinante foi uma brusca queda nos preços internacionais de commodities, com a cotação do petróleo Brent, por exemplo, caindo cerca de 70% entre meados de 2014 e fim de 2015. Os economistas da tradição de Chicago acreditam tanto em flexibilidade de preços que costumam não levar em consideração choques exógenos desse tipo. Se olharmos, porém, para as variações fortemente negativas do IPC Energia em 2014 e 2015 (menos 10,6% e menos 12,6%), fica claro que este foi um determinante importante da desaceleração inflacionária no período. Em 2016 alguns preços internacionais de commodities voltaram a subir (como 40% para o petróleo e 20% para os metais), o que certamente contribuiu para a elevação da taxa de inflação.

Ou seja, desde 2009 a política monetária americana foi efetivamente expansionista, ainda que diversos fatores tenham contribuído para um retorno relativamente gradual em direção à meta. Fica claro que estamos longe de um resultado paradoxal, tipo Michelson-Morley, que justifique alguma revolução teórica. Talvez o único conhecimento novo relevante que resultou da experiência americana com relaxamento quantitativo (QE) é que uma redução significativa das taxas longas de juros, que foi sua principal consequência, tem pouco impacto sobre o nível de atividade. Isto sugere que Keynes estava errado quando discordava de Hawtrey sobre a maior relevância das taxas curtas de juros para a política monetária.

Faltou comentar a tese de Cochrane sobre a possibilidade de deflação ilimitada quando a política monetária atinge a restrição do piso zero, o que talvez seja relevante para a economia japonesa. Pode acontecer que um banco central operando uma meta de inflação seja levado a reduzir a taxa nominal de juros até zero sem que consiga levar o nível de atividade a uma posição suficiente para reverter uma tendência generalizada à deflação dos preços. Isto ocorreria devido a uma configuração muito desfavorável da relação entre investimento e poupança. Uma economia com muita poupança e pouco investimento, que talvez seja o caso do Japão atual, pode produzir uma situação de desequilíbrio de longa duração com inflação cadente ou negativa.

Devido ao piso zero, a economia não consegue sair da posição deflacionária apenas através da política monetária e vai depender para isso de um estímulo fiscal. O fato de que uma situação desse tipo, como parece acontecer de forma crônica no Japão (particularmente quando olhamos o índice de preços empresarial), produz apenas uma deflação de intensidade limitada e indica apenas que a relação entre inflação e nível de atividade (representada pela curva de Phillips) não é linear e pode ter inclinação muito próxima de zero na região de taxas de inflação negativas. Isso é compatível com a velha noção keynesiana de que é difícil produzir deflações na prática.

Resta ainda entender o que pretende a teoria fiscal dos preços. A melhor explicação foi apresentada por Harald Uhlig no seminário sobre o assunto realizado em abril no Becker Friedman Institute da Universidade de Chicago. Uhlig, curiosamente, comenta que, entre outras possibilidades, a teoria fiscal dos preços talvez possa ser vista como "um conjunto de previsões que ocasionalmente funcionam em circunstâncias exóticas", e adiciona entre parênteses (Brazil?).

Sua explicação é muito simples. Se usarmos B para indicar o valor nominal da dívida pública e P para indicar o índice de preços de bens e serviços, então B/P indica o valor real da dívida. Os agentes privados que detêm esses títulos públicos esperam que eles possam ser pagos através da geração de superávits primários no futuro. Então para que se sintam confortáveis é necessário que o valor presente desses superávits futuros, que podemos indicar por VPS, seja igual ao valor real da dívida, ou seja, B/P = VPS. Isto pode ser visto como uma espécie de condição de arbitragem e podemos perguntar o que acontece se o governo aumenta sua dívida sem aumentar também o valor presente dos superávits futuros. Neste caso, B/P fica maior que VPS e, num mundo de preços plenamente flexíveis e expectativas racionais, o desequilíbrio será corrigido por um aumento no nível de preços. Ou seja, P aumenta de modo a que novamente B/P = VPS. Podemos concluir então que a taxa de inflação, que é a taxa de variação percentual de P, vai ser determinada pela diferença entre as taxas de variação percentual da dívida B e do valor presente dos superávits futuros VPS. Essa é a teoria fiscal dos preços, que se pretende uma explicação radicalmente nova para a inflação, sem qualquer menção a conceitos tradicionais como curva de Phillips, taxa de desemprego, investimento e poupança ou taxa de juros.

A teoria tem um defeito óbvio: não fica claro qual é o mecanismo de mercado que produz o movimento do índice de preços quando B/P difere de VPS. Não há dúvida de que se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para esses títulos, isto é, B/P maior que VPS, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição. Mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços?

Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal ao qual a dívida foi emitida pelo governo, que estamos indicando por B, e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por zB, sendo z um fator de desconto. Se escrevemos a teoria fiscal dos preços como zB/P = VPS, então parece mais razoável supor que um desequilíbrio entre zB/P e VPS vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública, indicado por z. Como esse fator está inversamente relacionado à taxa de juros de longo prazo, a conclusão é de que a teoria fiscal de preços não é uma nova teoria para a inflação, mas apenas uma teoria fiscal da taxa longa de juros.

Veja, porém, que realmente existe um caso exótico em que a teoria fiscal dos preços pode funcionar! É o caso em que a totalidade da dívida pública consiste de papéis ligados à taxa de juros overnight, como acontece com as LFTs no Brasil (que, aliás, foram inventadas pelo próprio André!). Neste caso, o fator de desconto para a dívida pública será sempre igual a um, por definição, e voltamos à formulação B/P = VPS, que viabiliza a teoria. Naturalmente, isso não significa que esteja garantida sua relevância prática no mundo real, fora dos modelos de preços totalmente flexíveis e expectativas racionais. Significa apenas que Uhlig tinha razão ao especular que a teoria fiscal dos preços poderia em tese funcionar em circunstâncias exóticas, como no Brasil das LFTs.

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC)

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Nuvens negras  20/08/2010 14:22
    Quando esse tipo de coisa começa a ser plantada na mídia por gente que se beneficia muito das relações com o governo ... onde há fumaça há fogo !
    Se esse tipo de pensamento se espalhar, pode apostar que é para ir acostumando todos com a idéia e implantar num eventual governo Dilma.
    Espero estar completamente errado e delirante. No entanto, no Brasil de hoje, nenhum delírio pode ser descartado considerando os malucos que estão no poder.

    Abraço
  • Malthus  20/08/2010 20:30
    Excelente desmantelada! Esse pessoal da FIESP... Ou o Brasil acaba com a FIESP ou a FIESP acaba com o Brasil.
  • Erick Skrabe  21/08/2010 00:45
    Dá até vergonha de ser empresário no Brasil.
  • Felipe Sola  21/08/2010 05:24
    O cara deveria criticar os altos impostos e regularizações ridículas como a CLT entre outras que se alastram por todos os setores, que fazem com que as empresas 'tupiniquins' produzam menos produtos e de qualidade inferior, ficando assim sem possibilidades de competir com a empresas internacionais e ao invés disso ele quer fechar a economia. Quanta insanidade!

    É claro que ele está atrás do pão dele!

    P.S.: As regularizações no setor de infra-estrutura aumentam o 'custo brasil' e isso ele nem citou.
  • Lucas Mendes  21/08/2010 11:03
    I-N-A-C-R-E-D-I-T-Á-V-E-L!!!!\r
    \r
    Belíssimo trabalho, Leandro! Parabéns!
  • 999.9 Kapitalist  21/08/2010 17:01
    Esperar o que de um "líder sindical"?
  • anônimo  21/08/2010 20:46
    Se dessem mais corda êle proporia também a volta do CIP (Contôle Interministerial de Prêços - lembram-se?). \r
    Fui dirigente de indústria no ABC nos anos 70 e 80. Fui protagonista (e não assistente) na luta contra o esfôrço do sindicalismo francês, alemão e italiano, patrocinando a CUT, para fechar a concorrência emergente que era o parque industrial do ABCDMRP, Mooca etc.. Fomos derrotados como se pode ver hoje andando por lá, pelos sindicatos e pela visão extraordinária de Deng Xiao Ping.\r
    Mas havia à época uma certa pressão do govêrno brasileiro para melhorarmos a nossa competitividade internacional ("Exportar é a solução" lembram-se?) o que nos permitiu (sem o CIP, claro) sobreviver à (saudável) abertura de portos de Collor. Houve tempo para fazer isso: pelo menos em nossa casa começamos a nos preparar 7 anos antes do Collor.\r
    Mas hoje não se fala mais disso. Não há pressão nem estímulo sério e coordenado do govêrno para melhorarmos a competitividade. Aliás, não é para fazer isso mesmo sem antes definir (ou escolher) o foco - a vocação - do país, pois não há como ser competitivo em tôdas as áreas da produção. E também não há como dar a 200 milhões, durante muito tempo, jeito de viver bem vendendo só pedra (minério) e mato (produto primário da agricultura).\r
    Ou definimos onde o Brasil vai doravante pôr suas fichas, e passar a incentivar iniciativas privadas de alto nível nessas áreas, ou ficaremos com metralhadora giratória, acertando no próprio pé algumas várias vezes.\r
    Assim, apesar do Sr. B. S. ter dado um show de bostejo de empresário amador (o que certamente foi uma encenação de mau gosto, talvez para manter sua cadeira na federação, porque de burro êle só tem as asas e de humorista, provou que só tem o estilo, mas não a graça), também o comentarista perdeu ótimas chances de ter mostrado sua competência sinalizando para soluções, em meio às suas críticas acertadas.\r
    Infelizmente, a única coisa que estou vendo hoje na nossa economia é uma grande bomba-relógio com pavio acêso e 200milhões de brasileiros sentados em cima dela. E...ninguém pisa no pavio.\r
  • Olavo de Carvalho  22/08/2010 12:06
    A esquerda nacional é burra e inepta, mas, comparada ao empresariado, é uma plêiade de gênios. Para qualquer estudioso de Antonio Gramsci, ludibriar industriais e financistas brasileiros, induzindo-os a trabalhar pela sua própria perdição, é bater em crianças. Que é que pode o pragmatismo grosso de quem mede o mundo pelo saldo de caixa, comparado ao complexo maquiavelismo da "revolução cultural"? É até covardia. Não conheço um só empresário que não alardeie tranqüilidade olímpica face ao avanço do comunismo, mas, defrontado com alguma estrela do esquerdismo letrado, não se prosterne em rapapés de abjeto servilismo. Claro: não importando o quanto de dinheiro você tenha no bolso, a superioridade intelectual, mesmo pequena, tem sobre você uma força e uma autoridade intrínsecas. Na estratégia revolucionária, a hegemonia cultural equivale ao que, na guerra, é o domínio do espaço aéreo. Correndo para esconder seus tesouros, os roedores se expõem aos olhos do predador que, do alto, controla seus movimentos.

    Já expliquei e vou explicar de novo, com requintes de didatismo que normalmente só seriam necessários no ensino pré-escolar:

    O Brasil foi o criador e é o centro de comando do Foro de São Paulo; como tal, fica na retaguarda, orientando e protegendo as vanguardas incumbidas das ações táticas mais imediatas, espetaculosas e arriscadas.

    Acalmar e até contentar o empresariado local é a condição sine qua non para que o governo petista possa, sem risco de crises e hostilidades, ir fortalecendo discretamente a máquina de guerra do Foro de São Paulo, já hoje habilitada a ocupar manu militari o continente inteiro, só não o fazendo para não correr o risco de abortar um processo que, pelas vias mais indiretas da política, da subversão cultural e do fomento ao banditismo, se anuncia de sucesso praticamente inevitável.
  • anônimo  22/08/2010 18:11
    O prof. Olavo tem razão quando prognostica o inevitável avanço das ideias encabeçadas pelo Foro de São Paulo em toda a américa latina e ao destacar o importante papel desempenhado pelo atual governo petista neste contexto. Leiam a conclusão do secretário nacional de Comunicação do Partido Comunista do Brasil, José Reinaldo Carvalho, em uma intervenção sua durante a plenária geral do 16º Encontro do Foro de São Paulo:

    Zé Reinaldo encerrou a sua intervenção referindo-se ao Brasil: "Os dois mandatos do presidente Lula (2003-2010), constituíram um passo histórico importante na luta por um país soberano, democrático e dotado de novo modelo de desenvolvimento econômico e social. Há muito ainda por fazer, pois as classes dominantes reacionárias constituem um obstáculo ao aprofundamento da democracia e ao combate às desigualdades sociais. Seguiremos dando novos passos agora com o terceiro mandato democrático e popular através da eleição de Dilma, sob a palavra de ordem de 'avançar, avançar e avançar'. Também no Brasil, a unidade das forças progressistas é o 'segredo' da vitória. É a bandeira da esperança". (grifo meu)

  • Domingos  25/08/2010 15:21
    Precisamos interromper a construção desse Volkswirtschaft brasileiro, antes que sejamos nós os exilados políticos da nossa própria pátria.
  • Angelo Viacava  27/09/2010 21:46
    Gente desse naipe são os self made men do Brasil. Cachorrinhos de madame criados em almofadas. Nunca puseram os pés no chão de verdade; só quando atola a HILUX na trilha de rally. Suas "firmas" são administradas sob a perspectiva das benesses estatais, tanto na compra superfaturada de insumos, quanto no salvamento pós "crise" oferecido pelo Estado pai dos pobres e mãe dos ricos, e no protecionismo safado dado aos amigos do rei. Os caras que começaram a vida empreendedora com um pequeno negócio e crescertam graças à própria competência unicamente, não existem. São personagens de histórias de consultores. Todos mentem e todos acreditam, e fica tudo bem. Ninguém paga pelos erros; ops, nós pagadores simples de impostos e de produtos ruins caros pagamos, claro! Cadê a verdade? O que é verdade neste Brasil? Um grande empresário é uma farsa. Poderia ser exemplo, mas que exemplo dará aos MBA do futuro. Aliás, o que faz um MBA (Master in Bajulation Administration)? Cadê os homens de verdade deste país?
  • Thiago  19/10/2010 00:58
    Galerinha por aqui 'e culta. Eu nao sou.

    Entao me expliquem uma coisa:

    Beleza......voces ai no Brasil abrem as portas e pernas para producao chinesa. Todo mundo comprando um monte de porcaria barata. Ate ai eu acho joia.

    So nao entendo aonde o operario/escravo/povo/analfabeto brasileiro vai procurar emprego quando as fabricas fecharem. Na China? Em website de intelectual?

    Se alguem estiver afins de explicar isso pra um ignorante como eu: tmatos@uol.com.br

  • Leandro  19/10/2010 02:36
    Prezado Thiago,

    Como você demonstrou uma genuína vontade de aprender coisas novas, recomendo então os dois artigos a seguir, que respondem de forma bem completa às suas indagações.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=419
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=585

    Abraços e volte sempre!
  • Fernando Chiocca  19/10/2010 13:25
    Thiago, comprar "porcaria barata" sobra mais dinheiro do que comprar porcaria cara, não é?

    E pra comprar algo, tem que ter produzido algo antes, pois comprar envolve vender algo, é uma troca. Se um país é formado por pobres miseráveis, ele não terá como comprar nada. Então, pode ficar tranquilo, pois se não tiver emprego no Brasil, nenhum produto chinês vai atravesar o oceano de graça...

    Ao invés de pensar em países, pense em pessoas, que no final, é a mesma coisa. O que é melhor para uma pessoa pobre, ter à sua disposição produtos baratos para comprar, ou produtos caros? o operário pobre pode comprar mais coisas ou menos coisas se elas forem mais baratas? Realmente não dá pra entender como alguém que parece preocupado com os mais pobres pode cogitar encarecer produtos importados.
  • Daniel  14/12/2010 12:03
    Gostaria de agradecer aos gênios do governo e da FIESP por colocar o consumidor brasileiro na situação relatada abaixo. Muito obrigado por fazer nossa nação cada dia mais próspera.

    Don't Go to Brazil for a Deal on an iPad
    The $985 cost of an iPad in Brazil provides a strong example of how high tariffs and protectionist policies hurt the nation's consumers

    www.businessweek.com/magazine/content/10_51/b4208013564850.htm?chan=rss_topStories_ssi_5

    trecho da matéria

    The iPad is one example of the many price distortions caused by Brazil's elaborate industrial policy. Companies that don't manufacture goods in Brazil have to pay stiff tariffs if they want to sell to the nation's consumers. Brazil levies a 60 percent tax on the iPad and as much as 90 percent on imported cars. A blouse that retails for $49.50 at The Gap in the U.S. goes for $82 in Brazil at non-Gap outlets. "Brazilians sometimes pay luxury-good prices for second-rate items," says tax specialist André Mendes Moreira, who writes a widely read financial column and tracks the impact of import taxes on everything from cars to champagne. "The consumer is at a clear disadvantage."
  • Andre canine  29/07/2012 19:06
    Genial! Estamos precisando de mais artigos desse estilo "vermelho e preto".
  • Valdecitineu  09/08/2012 12:15
    Só um as no pra ter pontos de vistas absolutistas, ou vendemos aço barato ou estocamos , não tem um meio termo, o índio o tal, devia vender aço barato pra industrias modernizar usar esta F.i..e.s.p, pra criar nanotecnologias, mas ta usando mercado pra lucrar e o governo sua marcha de manobra você quer diversificar seus negócios no mundo e ah, mercado fechado aqui decide que entra e saem, seu nazista eu mandei uma denuncia contra você na O.I.T., por assédio moral na sua vicunha, espero que alguém tome providências porque eu vou tomar.
  • Samir Jorge  02/07/2013 19:03
    Sensacional esta interpretação da entrevista concedida pelo empresário. Que ideia ótima.

    Parabéns.

    (a) - Samir Jorge.


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