A escola austríaca e um tal Renatão

Um gentil leitor, que simpaticamente utiliza a alcunha de Renatão, mandou-me um e-mail pessoal com uma pergunta aparentemente provocativa.  Respondi-lhe.  Como Renatão não me retornou, creio que ele deve ter ficado satisfeito com a resposta que lhe dei. 

Com a devida vênia do amigo (embora ele não ma tenha concedido), reproduzo aqui a nossa renatônica troca de informações.

 

RENATÃO:

Gostaria de saber dos senhores em qual lugar do globo essa tal de economia austríaca já foi aplicada com êxito, acabando com a pobreza.  Gostaria de saber onde essa teoria iluminada já deu certo.  Saudações e boa sorte.

 

MINHA RESPOSTA:

Prezado Renatão, obrigado pela pergunta e pelo genuíno interesse. 

O termo economia austríaca é apenas o nome popular de uma escola de pensamento caracterizada pela sua resoluta defesa da propriedade privada dos meios de produção e do respeito aos direitos individuais, principalmente aos direitos de propriedade, os quais são inegociáveis. 

Nenhuma outra escola de pensamento econômico faz uma defesa inflexível desses dois pilares da civilização.

Consequentemente, se analisarmos os países que mais perto chegaram do respeito a esses princípios, teremos a seguinte lista:

No continente americano: Canadá, EUA e, mais recentemente, Chile.

Na Europa: Reino Unido, Holanda, Bélgica, Alemanha, Suíça, França, Áustria, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, além daqueles países do Leste Europeu que vêm se esforçando, como República Tcheca, Eslováquia, Polônia e Estônia.

Na África: nenhum.

Na Ásia: Japão, Hong Kong, Cingapura e, mais recentemente, Coreia do Sul e Taiwan.

Na Oceania: Austrália e Nova Zelândia.

Em todos estes países, cada um à sua época, houve uma substancial aplicação dos princípios de livre mercado defendidos pela Escola Austríaca.  Como consequência, as pessoas se tornaram poupadoras, o que permitiu uma grande produção de bens de capital, os quais, por sua vez, possibilitaram um forte progresso científico e tecnológico.

Todo esse progresso foi resultado do vasto poder gerado pela divisão do trabalho, que nada mais é do que a cooperação e a coordenação espontânea do comportamento de milhões de pessoas.  Tal nível de coordenação pode existir apenas em economias de mercado pouco (ou, de preferência, nada) regulamentado.

Em um livre mercado, as pessoas não apenas podem, como também são estimuladas a se especializar nas áreas em que possuem maiores conhecimentos e habilidades.  Essa especialização ocorre exatamente pelo fato de que fazer isso é socialmente valorizado, no sentido de que aqueles que bem servem aos seus consumidores são recompensados com base no valor que seus consumidores dão aos seus produtos. 

Desta forma, se as mudanças tecnológicas empreendidas se revelarem inúteis ou de pouca valia, então seus empreendedores irão fracassar no mercado.  Já aqueles que souberem antecipar os desejos dos consumidores, satisfazendo suas demandas e necessidades com eficiência, tomarão o lugar daqueles que fracassaram.  E foi esse processo de mercado que permeou todos esses países durante sua caminhada para o enriquecimento. 

Esse arranjo permitiu que a produtividade da mão-de-obra aumentasse rapidamente, resultando em maiores ofertas de comida, vestuário e habitação per capita, bem como melhores ofertas de serviço de saneamento e higiene.

Como resultado, a mortalidade infantil diminuiu radicalmente, a expectativa de vida aumentou, o cidadão médio pôde se dar ao luxo de trabalhar menos horas por semana e o trabalho infantil foi progressivamente eliminado.  Ademais, pela primeira vez na história da humanidade, o cidadão comum passou a ter acesso a livros, música, arte e educação.

Não fosse esse tremendo progresso havido, por exemplo, nos países europeus no início e em meados do século XX, eles não teriam hoje como manter suas vastas redes de proteção social das quais tanto se orgulham.

Por favor, caso ainda tenha mais alguma dúvida, não hesite em nos contatar novamente.

Abraços,

Leandro


1 voto

SOBRE O AUTOR

Leandro Roque
é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


"Não podemos ignorar o fato de que muitos governos protegem e subsidiam o produto nacional para torná-lo artificialmente competitivo."

Correto. "Artificialmente competitivo". Isso significa que algo só consegue ter um mínimo de competência caso chupe dinheiro de impostos de toda a população, a qual não ganha nada com isso, mas é obrigada a encher os bolsos de empresários mercantilistas, incompetentes e avessos à concorrência.

"Vejam o caso da Bombardier no Canada, que disputa mercado com a Embraer, que fez queixas formais à OMC."

E, ainda assim, a Embraer tem mais aviões que a Bombardier no mercado americano.

"A China subsidiou setores que ganharam mercado através da derrocada em outros países."

Quais mercados que foram dominados pelos chineses e que fizeram muita falta para outros países? Colocando de outra forma: esses mercados que os chineses dominaram por acaso são mercados tecnológicos, complexos e que geram riqueza e prosperidade, ou são mercado primitivos, tecnologicamente defasados e que não exigem nenhuma grande especialidade?

Até onde sei, chineses produzem pano, sapato e bugigangas de baixíssimo valor agregado. Isso leva alguém à pujança? Um país que deixou de fazer isso por causa dos chineses agora está irremediavelmente condenado ao atraso?

Por acaso cortar, entortar e rebitar ferro — tarefas que um xing-ling é capaz de executar a custos irrisórios — são coisas economicamente prementes para o país ou será que o governo quer que isso seja feito apenas para exibir estatísticas de produção industrial?

"Basta lembrar o que aconteceu com o setor textil e calçadista no Brasil."

Exatamente o que acabei de dizer acima. Em vez de nos preocuparmos com nanotecnologia, microprocessadores e outras atividades que realmente produzem riqueza, ainda estamos preocupados com pano e sapato, coisas completamente primitivas, que podem perfeitamente ser produzidas nos rincões mais atrasados do mundo.

Estude um pouco sobre divisão global do trabalho.

Comece por aqui:

Não há argumentos econômicos contra o livre comércio - o protecionismo é a defesa de privilégios

"Livre mercado é uma utopia irrealizável."

O que é realmente irrealizável é a inteligência econômica do brasileiro médio.
O artigo do André Lara já foi comentado pelo Leandro em duas ocasiões:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2578#ac189563

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2585#ac189561

Beira o inacreditável como é que um economista tão conceituado falou tamanha bobagem a respeito da política monetária americana. O André Lara simplesmente ignora como realmente se deu a política monetária americana. Foi impressionante.
Economistas do Banco Central do Brasil estão batendo palmas para este artigo publicado no Valor:
www.valor.com.br/cultura/4872458/andre-cochrane-e-teoria-fiscal-dos-precos

Gostaria de uma análise por parte do pessoal do Mises.

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VALOR ECONÔMICO -SP | EU E FIM DE SEMANA

BANCO CENTRAL | ECONOMIA, FINANÇAS E CONTAB.

André, Cochrane e a teoria fiscal dos preços (Artigo)

André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que "a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (...) tem sólidas credenciais analíticas". Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

Claro que não se trata disso! Apesar de o artigo se apresentar como uma crítica ao "conservadorismo intelectual", sua conclusão final é absolutamente conservadora: o trabalho de controle da inflação depende, em última instância, da confiança na sustentabilidade fiscal de longo prazo; sem isto, a política monetária estará sempre lutando uma batalha perdida.

A crítica de André ao conservadorismo parece resultar mais de um flerte com a doutrina neofisheriana, que se caracteriza por conclusões heterodoxas sobre a relação entre taxa de juros e inflação e por uma controversa teoria fiscal dos preços. Eduardo Loyo lembra que essas ideias têm apenas sobrevivido de forma marginal no corpo da ciência econômica, com seus resultados em total contraversão à opinião da maioria e ao senso comum.

Os neofisherianos dão muita importância à conclusão óbvia de que um regime monetário baseado em uma taxa de juros nominal fixa não produz uma âncora para a inflação. É possível ancorar a inflação quando se mantém o estoque total de moeda fixo, ou evoluindo a uma velocidade constante, como proposto por Milton Friedman. É possível também ancorar a inflação com uma taxa de câmbio fixa, como ocorria tradicionalmente nos regimes de padrão ouro. Não é possível, porém, ancorar a inflação apenas mantendo fixa a taxa nominal de juros.

Para demonstrar isso, considere a velha equação de Fisher, que na realidade é uma identidade que define a taxa real de juros:

Taxa nominal de juros = (taxa real de juros) mais (taxa de inflação)

Sabemos que a inflação aumenta quando a taxa real de juros cai. Imagine então que a taxa nominal de juros é fixa e ocorre um choque exógeno que aumenta a taxa de inflação. Pela identidade de Fisher, isso reduz a taxa real de juros, já que a taxa nominal permanece fixa. Como consequência, a taxa de inflação aumenta ainda mais, o que por sua vez produz uma redução adicional da taxa real de juros, e assim por diante. Ou seja, um regime monetário baseado numa taxa nominal de juros fixa não consegue ancorar a inflação. Qualquer choque exógeno produz uma trajetória explosiva, que tanto pode ser inflacionária como deflacionária.

É claro, porém, que nenhum banco central vai operar com uma taxa nominal de juros fixa, ainda que esta seja sua variável preferencial de controle. No mundo real, a ancoragem monetária é feita através de uma meta de inflação, com a autoridade monetária aumentando a taxa de juros quando a inflação fica acima da meta e reduzindo quando a inflação fica abaixo da meta, até que ocorra a convergência da inflação para a meta. Como consequência a ancora monetária não é uma taxa de juros nominal fixa, mas sim a própria meta de inflação. Nesse regime monetário, a taxa de inflação tende a ser igual à meta de inflação, que é a ancora efetiva. Quando isso ocorrer, a taxa nominal de juros terá seu valor determinado pela identidade de Fisher. Ou seja, no longo prazo a taxa nominal de juros não determina a taxa de inflação; ela é determinada pela meta de inflação!

O longo recente artigo de John Cochrane, citado por André, parece ser uma tentativa de relançar o neofisherianismo em bases técnicas mais respeitáveis. Cochrane sonha em ser uma espécie de Einstein da ciência econômica, afirmando que a experiência recente das economias avançadas com taxas de juros próximas de zero e taxas de inflação persistentemente abaixo das metas constitui-se numa espécie de experimento natural semelhante ao famoso resultado de Michelson-Morley, que foi o ponto de partida para a teoria da relatividade. Acontece que a teoria keynesiana moderna, que é utilizada por todos os bancos centrais, não encontra maior dificuldade para explicar os fatos.

Cochrane utiliza uma versão simplificada da teoria para demonstrar que, quando a taxa de juros de curto prazo é reduzida até zero, só existem duas possibilidades: ou a taxa de inflação volta a subir em direção à meta ou ocorre um processo ilimitado de deflação. Como nada disso teria ocorrido na experiência americana depois que a taxa de juros foi reduzida a praticamente zero ao fim de 2008, a conclusão é de que precisamos uma reformulação fundamental da teoria, e Cochrane sugere a alternativa da teoria fiscal dos preços.

Acontece que os números de inflação para os EUA estão longe de justificar o radicalismo de Cochrane. Em 2016 a taxa de inflação já convergiu, sim, para a meta do Fed de 2% ano. A taxa de núcleo do índice da Personal Consumption Expenditure, o PCE-core que costuma ser priorizado pelo Fed em suas decisões, também está subindo e chegou a 1,7% em 2016, ou seja, bem próximo da meta. Não é correto, portanto, dizer que a política monetária americana com taxa de juros próxima de zero não atingiu seu objetivo de colocar a inflação na meta.

Pode-se argumentar que parece ter demorado muito para conseguir isso? Na realidade não houve tanta demora. Entre 2011 e 2013, a inflação média do IPC americano ficou em 2,1%, com oscilação entre 1,5 e 3%, já perfeitamente compatível com a meta de 2%. No mesmo período, a média para o PCE-core ficou em 1,5%, com oscilação entre 0,9 e 1,7%, um pouco abaixo do IPC, mas nada muito dramático. Deve-se notar que nesses anos havia uma taxa de desemprego na faixa de 7 a 9%, o mercado imobiliário continuava em crise e as famílias provavelmente ainda estavam reduzindo suas despesas pessoais para ajustar seus endividamentos. Logo existiam forças importantes operando no sentido de impedir a elevação da taxa de inflação.

O quadro realmente mudou em 2014 e 2015, quando a inflação caiu abaixo de 1%. Essa desaceleração ocorreu junto a gradual eliminação do relaxamento quantitativo (QE), portanto em princípio com um aperto na política monetária, mas esta não nos parece ser a melhor explicação. O fator determinante foi uma brusca queda nos preços internacionais de commodities, com a cotação do petróleo Brent, por exemplo, caindo cerca de 70% entre meados de 2014 e fim de 2015. Os economistas da tradição de Chicago acreditam tanto em flexibilidade de preços que costumam não levar em consideração choques exógenos desse tipo. Se olharmos, porém, para as variações fortemente negativas do IPC Energia em 2014 e 2015 (menos 10,6% e menos 12,6%), fica claro que este foi um determinante importante da desaceleração inflacionária no período. Em 2016 alguns preços internacionais de commodities voltaram a subir (como 40% para o petróleo e 20% para os metais), o que certamente contribuiu para a elevação da taxa de inflação.

Ou seja, desde 2009 a política monetária americana foi efetivamente expansionista, ainda que diversos fatores tenham contribuído para um retorno relativamente gradual em direção à meta. Fica claro que estamos longe de um resultado paradoxal, tipo Michelson-Morley, que justifique alguma revolução teórica. Talvez o único conhecimento novo relevante que resultou da experiência americana com relaxamento quantitativo (QE) é que uma redução significativa das taxas longas de juros, que foi sua principal consequência, tem pouco impacto sobre o nível de atividade. Isto sugere que Keynes estava errado quando discordava de Hawtrey sobre a maior relevância das taxas curtas de juros para a política monetária.

Faltou comentar a tese de Cochrane sobre a possibilidade de deflação ilimitada quando a política monetária atinge a restrição do piso zero, o que talvez seja relevante para a economia japonesa. Pode acontecer que um banco central operando uma meta de inflação seja levado a reduzir a taxa nominal de juros até zero sem que consiga levar o nível de atividade a uma posição suficiente para reverter uma tendência generalizada à deflação dos preços. Isto ocorreria devido a uma configuração muito desfavorável da relação entre investimento e poupança. Uma economia com muita poupança e pouco investimento, que talvez seja o caso do Japão atual, pode produzir uma situação de desequilíbrio de longa duração com inflação cadente ou negativa.

Devido ao piso zero, a economia não consegue sair da posição deflacionária apenas através da política monetária e vai depender para isso de um estímulo fiscal. O fato de que uma situação desse tipo, como parece acontecer de forma crônica no Japão (particularmente quando olhamos o índice de preços empresarial), produz apenas uma deflação de intensidade limitada e indica apenas que a relação entre inflação e nível de atividade (representada pela curva de Phillips) não é linear e pode ter inclinação muito próxima de zero na região de taxas de inflação negativas. Isso é compatível com a velha noção keynesiana de que é difícil produzir deflações na prática.

Resta ainda entender o que pretende a teoria fiscal dos preços. A melhor explicação foi apresentada por Harald Uhlig no seminário sobre o assunto realizado em abril no Becker Friedman Institute da Universidade de Chicago. Uhlig, curiosamente, comenta que, entre outras possibilidades, a teoria fiscal dos preços talvez possa ser vista como "um conjunto de previsões que ocasionalmente funcionam em circunstâncias exóticas", e adiciona entre parênteses (Brazil?).

Sua explicação é muito simples. Se usarmos B para indicar o valor nominal da dívida pública e P para indicar o índice de preços de bens e serviços, então B/P indica o valor real da dívida. Os agentes privados que detêm esses títulos públicos esperam que eles possam ser pagos através da geração de superávits primários no futuro. Então para que se sintam confortáveis é necessário que o valor presente desses superávits futuros, que podemos indicar por VPS, seja igual ao valor real da dívida, ou seja, B/P = VPS. Isto pode ser visto como uma espécie de condição de arbitragem e podemos perguntar o que acontece se o governo aumenta sua dívida sem aumentar também o valor presente dos superávits futuros. Neste caso, B/P fica maior que VPS e, num mundo de preços plenamente flexíveis e expectativas racionais, o desequilíbrio será corrigido por um aumento no nível de preços. Ou seja, P aumenta de modo a que novamente B/P = VPS. Podemos concluir então que a taxa de inflação, que é a taxa de variação percentual de P, vai ser determinada pela diferença entre as taxas de variação percentual da dívida B e do valor presente dos superávits futuros VPS. Essa é a teoria fiscal dos preços, que se pretende uma explicação radicalmente nova para a inflação, sem qualquer menção a conceitos tradicionais como curva de Phillips, taxa de desemprego, investimento e poupança ou taxa de juros.

A teoria tem um defeito óbvio: não fica claro qual é o mecanismo de mercado que produz o movimento do índice de preços quando B/P difere de VPS. Não há dúvida de que se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para esses títulos, isto é, B/P maior que VPS, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição. Mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços?

Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal ao qual a dívida foi emitida pelo governo, que estamos indicando por B, e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por zB, sendo z um fator de desconto. Se escrevemos a teoria fiscal dos preços como zB/P = VPS, então parece mais razoável supor que um desequilíbrio entre zB/P e VPS vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública, indicado por z. Como esse fator está inversamente relacionado à taxa de juros de longo prazo, a conclusão é de que a teoria fiscal de preços não é uma nova teoria para a inflação, mas apenas uma teoria fiscal da taxa longa de juros.

Veja, porém, que realmente existe um caso exótico em que a teoria fiscal dos preços pode funcionar! É o caso em que a totalidade da dívida pública consiste de papéis ligados à taxa de juros overnight, como acontece com as LFTs no Brasil (que, aliás, foram inventadas pelo próprio André!). Neste caso, o fator de desconto para a dívida pública será sempre igual a um, por definição, e voltamos à formulação B/P = VPS, que viabiliza a teoria. Naturalmente, isso não significa que esteja garantida sua relevância prática no mundo real, fora dos modelos de preços totalmente flexíveis e expectativas racionais. Significa apenas que Uhlig tinha razão ao especular que a teoria fiscal dos preços poderia em tese funcionar em circunstâncias exóticas, como no Brasil das LFTs.

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC)

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • EJSantos  19/07/2010 09:27
    Não sei se o Renatão ficou elucidado. Eu fiquei. Excelente texto.
  • Artur Reis  19/07/2010 10:21
    Talvez, se fosse aplicada em alguns outros governos, a ignorância que tanto nos consome poderia se tornar infértil e com a maior certeza, novas mentes se iluminariam ...
  • Evelyn Rodrigues Natel  25/06/2016 16:21
    pois é muitos políticos não pensam no que vão falar falam e depois não cumprem o que prometeram
  • Zen  19/07/2010 12:03
    Falando em fertiliade, neste caso a arrogância anti-libertária se mostrou um bom adubo.
  • Angelo Noel  19/07/2010 13:03
    É pena existirem tantos que raciocinam politicamente como "Renatões" e tão escassos "Leandros"...
  • Marcelo Werlang de Assis  19/07/2010 13:15
    Hehehehehehehehe... O lunático estatólatra do Renatão deve ter ficado no mínimo espumando de raiva ao saber que, sim, a EA funciona... =D\r
    \r
    Leandro, por gentileza, peço que leias o comentário referente àquele teu segundo texto sobre o padrão-ouro. Mais uma vez, meus cumprimentos por mais um prazeroso e elucidativo artigo!\r
    \r
    Huuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuugs!\r
  • Carlos Santos  19/07/2010 13:23
    Se o Renatão ainda não ficou convencido, então vai um imagem mental:\r
    \r
    Pense no governo com sua máquina intervencionista como um verme, uma lombriga que, alojada em seu estomago, devora boa parte dos nutrientes que você consome. Como resultado você fica raquitico e sem forças. O livre-mercado como defendido pelos 'austriacos' é o antibiótico que dará um jeito nessa lombriga!
  • Fernando Chiocca  19/07/2010 15:20
    Não gostei muito da resposta, pois EA não defende propriedade privada e nem livre mercado. EA é uma ciência de causa e consequência, não faz juízo de valor, diz apenas se A, então B.

    E a teoria econômica é uma ciência apriorística, logo não necessita de teste empíricos para ser validada. Mais aqui:
    O que é uma ciência apriorística, e por que a economia é uma,
    Praxeologia - A constatação nada trivial de Mises e
    O apriorismo de Mises contra o relativismo na ciência econômica.

    No entanto, os dados históricos mais do que comprovam a teoria, coisa que não poderia deixar de ser diferente, pois, como acabei de dizer, ela é válida a priori.

    Podemos ver os dados do Index of Economic Freedom, da Heritage Foundation, que mostra que o grau de liberdade coincide com o grau de desenvolvimento de um país.
    Um outro grande exemplo é os EUA, após a independência e até ~1.900, quando a liberdade econômica era muito alta e neste período o país se tornou o mais rico do mundo.
  • anônimo  04/08/2016 15:08
    "pois EA não defende propriedade privada e nem livre mercado"

    Que ignorância. O Human Action e o Man, Economy and State são tratados em defesa da LIBERDADE ECONÔMICA, e o cidadão vem dizer que EA "não defende propriedade privada e nem livre mercado"...

    Quando a EA diz, por exemplo, que "salário mínimo causa desemprego", a defesa da liberdade econômica está implícita na afirmativa.
  • anônimo  04/08/2016 15:28
    A EA não defende nada mesmo, pois estuda apenas a causa e a consequência de ações e politicas no âmbito econômico, sem fazer nenhum juízo de valor.

    Pior ainda é chamar o outro de ignorante estando errado, um idiota é o que resume você.
  • Diogo Siqueira  19/07/2010 15:42
    Renatão,

    Recomendo a você assistir à série "Livres para escolher" ("Free to Choose"), com Milton Friedman.

    O doutor Milton não é adepto da Escola Austríaca de Economia, mas é um defensor do livre mercado. Na série, ele demonstra com clareza como o livre mercado melhora o padrão de vida das pessoas, ao contrário da intervenção estatal.
  • Ulisses Alfredo Minarquista e Federalista  19/07/2010 16:57
    É incrível como basta dar liberdade e autonomia aos indivíduos que o resto se arruma...\r
    \r
    lembrando que na maioria dos países citados são FEDERALISTAS\r
    \r
    Os Escandinávos tem um forte estado +- 60 a 75 do PIb de seus países em impostos mas não existe lá concentração de poder para administrar esses impostos e sim um grande poder local. \r
    \r
    Federalismo e Minarquia é o caminho
  • Carlos Alexandre  19/07/2010 18:08
    Parabéns, Leandro; esta foi "nos dedos"!\r
    \r
    Só faltou Israel: não sei se lá a economia é regida pelo livre mercado, ou se é uma \r
    \r
    social-democracia...
  • CR  19/07/2010 20:39
    Gostei. Apenas para assinalar coincidência, mas não por acaso: exceto a hesitante França, na extensa lista elencada não desponta nenhum país greco-romano, o que comprova, de modo mais reluzente possível, não propriamente o progresso do norte, para mim ainda claudicante, mas a péssima herança cultural que preferimos abraçar.
  • Pedro Mundim  19/07/2010 20:58
    Esta questão sobre a "ecoomia austríaca" me lembra o "neoliberalismo". Um rótulo vazio, usado pela esquerda e pelos intervencionistas para referir-se a tudo o que há de ruim no mundo. O termo foi originalmente cunhado para a Inglaterra de Thatcher do início dos anos 80. Por aqui, chamou-se "neoliberalismo" às elementares providências de redução de gastos públicos e encolhimento do Estado levadas a cabo por FHC, sem as quais nunca que teria ocorrido a estabilização da economia brasileira, e encolhimento do Estado levadas a cabo por FHC, sem as quais nunca que teria ocorrido a estabilização da economia.
  • rafael  20/07/2010 00:53
    "Como consequência, as pessoas se tornaram poupadoras, o que permitiu uma grande produção de bens de capital"

    eu gostaria de saber mais sobre essa relação entre poupar e aumento de produção de bens de capital. Isso se dá através do investimento do dinheiro poupado? E por que com consumo nao acontece o mesmo? Enfim, poderiam me indicar alguma referencia para que eu pudesse ler mais a respeito disso? Obrigado
  • Leandro  20/07/2010 02:23
    Prezado Rafael, esse artigo responderá a essas suas dúvidas:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=487

    Abraços!

  • Marcelo Werlang de Assis  20/07/2010 08:31
    Caro Leandro,\r
    \r
    Acho que ainda não leste o meu comentário referente ao teu segundo texto sobre o padrão-ouro. Estranho a tua demora em me responderes...\r
    \r
    Abraços!
  • Leandro Coelho  20/07/2010 21:52
    Qual a dificuldade de entender o liberalismo clássico para quem acredita ser razoável matar 100 milhões de pessoas em prol de um mundo melhor que nunca aconteceu? É lógico que tem "treta" aí no meio! Inveja é uma das respostas segundo um vídeo aqui do Instituto cujo nome é mais ou menos assim: "Os bárbaros chegaram aos portões." (Eu diria que eles estão no poder, mas, tudo bem!)

    Abraços e lembrem-se: A américa latina está sob sérias ameaças e se nos limitarmos a discutir o que NÃO está acontecendo, seremos liberais clássicos mortos por estatistas bárbaros, dito de outro modo, os bárbaros vencerão!
  • Ricardão  23/07/2010 11:17
    Engano seu achar que nenhum país da África é libertário, pelo contrário a África sub-saariana ilustra excesso de libertarianismo. O Estado é simplesmente ausente. Reinam relações de emprego e comércio voluntárias, e abertamente informais mesmo. Enquanto isso, milícias armadas controlam amplos territórios onde o Estado não se faz presente.\r
    \r
    Por outro lado, em todos esses outros países que vc citou, do Canadá à Austrália, o Estado é rico, provê saúde e educação gratuitas para a população.\r
    \r
    Conheço o caso do estado sul-Coreano para afirmar que eles claramente afrontaram o livre mercado. O governo restringiu importações de produtos, quando não julgava prioritários, ou quando existia o similar nacional. \r
    Lá era o Estado quem incentivava a pirataria e a cópia, jogando um capitalismo pesado com os outros governos.\r
    \r
    Nos anos 80, boa parte dos artigos falsificados que vinham do "Paraguai", e que tanto detonavam nossa indústria, eram de fabricação coreana. Hoje eles podem colocar seus produtos com orgulho pela porta da frente, enquanto o estado volta-se mais para um papel de provedor de bem estar.
  • Leandro  23/07/2010 13:38
    Prezado Ricardão, seguindo a linha de resposta que dei ao seu quase-homônimo, resta-me apenas enfatizar duas partes absolutamente claras do texto, as quais você infelizmente ignorou.

    Primeiro: onde na África subsaariana há qualquer resquício de respeito à propriedade? E dos direitos individuais? Sem ambos, não há capitalismo e nem desenvolvimento. Ou seja, você involuntariamente comprovou o ponto do artigo.

    Segundo: do Canadá à Austrália, como exatamente esses estados enriqueceram a ponto de poder "prover" serviços assistencialistas à população? Não fosse o enorme progresso trazido pelo respeito à propriedade e pelo acúmulo de capital, estes países não teriam hoje como manter suas vastas redes de proteção social das quais tanto se orgulham.

    Você acha que, por exemplo, se a Bolívia hoje quiser imitar a Suécia ela vai conseguir? Será que se o Evo Morales instituir uma carga tributária de 45% o país vai virar um paraíso social-democrata? O problema é que você ainda não entendeu a ordem rígida das coisas: primeiro a riqueza precisa ser gerada e acumulada; só então haverá a possibilidade de ela ser abusada. Canadá e Austrália fizeram isso. Não fosse o processo de enriquecimento por que eles passaram durante o século XX, não haveria a menor chance de eles hoje possuírem estados assistencialistas.

    Nenhum país, sendo pobre, pode virar social-democrata dum dia pro outro. Social democracia é luxo de país rico, que já trabalhou e acumulou capital para ser esbanjado desta forma. E, ainda assim, um luxo temporário, pois o capital é escasso e sempre será exaurido. A atual situação dos países europeus, bem como da medicina canadense e britânica, é um ótimo exemplo.

    Quanto ao caso da Coréia do Sul, ora, como você mesmo concordou no seu parágrafo final, quando o estado estava bloqueando as importações, os produtos coreanos eram vagabundos. Depois que ele parou de fazer isso e passou a permitir a concorrência, o salto na qualidade foi exponencial.

    Você concordou com o artigo, apenas ainda não permitiu que seu senso cognitivo entrasse em ação.

    Abração, Ricardão.
  • Diego  26/07/2010 09:31
    Faltou dizer que para haver respeito à propriedade e aos direitos individuais, é imprescindível termos uma população armada, bem como o comércio de armas de fogo livre, irrestrito e voluntário. Inclusive esse é o insight que está faltando aos países pobres.\r
    Basta saber que no antigo oeste dos EUA, foram as armas de fogo que permitiram aos laboriosos protestantes protegerem suas terras, bem como o produto de seu trabalho, em meio aos frequentes ataques dos apaches. Atualmente aquela é uma das regiões mais ricas do mundo. Sua população desfruta de elevado padrão de vida, simplesmente.\r
  • L. do Ó  01/08/2010 09:14
    "O termo economia austríaca é apenas o nome popular de uma escola de pensamento caracterizada pela sua resoluta defesa da propriedade privada dos meios de produção e do respeito aos direitos individuais." - Leandro Roque

    Bom, não.

    A EA é o nome popular para o pensamento econômico que se caracteriza pela defesa de uma teoria subjetivista de valor (Carl Menger) e por uma posição metodológica individualsita e apriorística (Ludwig Von Mises), com foco na lógica da ação.

    Economia não é uma ciência normativa, seu papel é explicar a realidade dos eventos econômicos e não estabelecer regras de conduta (como propriedade de meios de produção e direitos a serem respeitados). De outra forma, economia é livre de juízo de valor (como já corrigiu Fernando Chiocca). E como boa economia a EA cumpre bem esse papel explicativo.

    Óbvio, como conhecimento científico a EA tem importância prescritiva, ela pode ser usada para guiar indivíduos em suas escolhas. Nesse sentido, autores que fazem parte da EA têm mostrado que a propriedade privada de meios de produção e o respeito aos direitos individuais são boas opções, dado que sejam almejados específicos fins (prosperidade material, bem-estar etc.)

    Mas a defesa do economista, enquanto mero economista, dessas coisas não pode ser resoluta porque a economia é livre de juízo de valor: o economista não escolhe fins, ele apenas pode aconselhar por que maneiras é possível alcançar tais fins, e qual o resultado de preferências e escolhas no processo.

    A defesa resoluta de tais fins cabe a outra área das ciências humanas, a ética e filosofia política, por exemplo.



  • Leandro  01/08/2010 14:59
    Concordo, L. do Ó. Essa diferenciação foi, inclusive, deixada muito por clara por Tom Woods nesse artigo. mises.org.br/Article.aspx?id=352

    A EA, como ciência, é positiva e não normativa.

    Entretanto, por estar discutindo com uma pessoa nova na área, dei-me ao luxo de ser pragmático. Afinal, dizer para um novato na área coisas como "A EA se caracteriza pela defesa de uma teoria subjetivista de valor e por uma posição metodológica individualista e apriorística, com foco na lógica da ação", não é algo que vá exercer imediato apelo.

    Ademais -- e isso é obviamente é opinião exclusivamente minha --, responder para um leigo dizendo que a EA é uma ciência apriorística e que, portanto, ela não precisa de testes empíricos para ser validada é algo que, além de ter apelo nulo, acaba sendo contraproducente: o sujeito, compreensivelmente, vai achar que você está enrolando e se esquivando da resposta.

    Por fim, falar apenas que a EA não defende propriedade privada e nem livre mercado é de uma pureza fundamentalista não só desnecessária, como também absolutamente confusa.

    A metodologia defendida pela EA leva inevitavelmente a uma defesa resoluta da propriedade privada e do livre mercado. Logo, qual o sentido em dizer "Ah, veja bem, a EA não defende exatamente a propriedade privada e nem o livre mercado, porém, no fim, acaba sim defendendo exatamente a propriedade privada e o livre mercado."?

    Fica até parecendo discurso de Maluf: "Não fiquei mai rico na política; apenas fiquei menos pobre!"

    Abraços!

    P.S.: estou na Mises University. Walter Block, o tempo todo, fez questão de ressaltar essa diferença entre ciência positiva e normativa. Entretanto, tão logo acabava de fazer essa distinção, ele partia para o mais puro normativismo, e saía xingando (hilariamente) todos os tipos de intervencionismo para, logo em seguida, prescrever com acurácia quais deveriam ser as soluções adotadas.

    E eu concordo com ele. Não se deve refrear de dar opiniões normativas -- as quais sempre são formadas pelo conhecimento da ciência positiva.
  • anônimo  22/10/2010 20:27
    ainda n disse qual o nome d cidade\r
  • Otavio  30/01/2011 20:58
    NEO LIBERALISMO OU LIBERALISMO É SE NÃO ...\r
    Interesse egoísta que, traduzido em lucro, é o motor da iniciativa privada.\r
    A economia é fundada nas vantagens e não nas necessidades. É o próprio egoísmo\r
    humano que motiva a atividade econômica desenfreada, que visa apenas o lucro, não se\r
    importando com os meios para alcançá-lo.\r
    2.1.2. A competição do mercado é que regula o apetite do lucro.\r
    Com o surgimento de novos produtores haverá a competição que regulará o preço de\r
    modo natural. E como nos diz SMITH (1981), eles, os capitalistas liberais, não se esforçam\r
    em fazer o bem, mas deixam que o bem surja como conseqüência do próprio egoísmo.\r
    2.1.3. A lei da oferta e da procura.\r
    Enquanto houver procura os preços permanecem estáveis. Satisfeito o mercado de\r
    consumo, eles começam a cair. Esta lei faz com que os produtos tenham preços justos de\r
    modo natural.\r
    E quando não houver mais mercado de consumo os produtores terão que inventar\r
    novos produtos, constituídos pela própria diversificação da produção. Para continuar a ter\r
    lucro é preciso descobrir novos mercados de consumo.\r
    Esta lei é aplicada também na relação do operário-patrão, regulando o preço dos\r
    salários.\r
    2.1.4. A acumulação e a população.\r
    Na medida em que as empresas crescem e se expandem, abrindo novas filiais e\r
    aumentando a atividade econômica, aumenta também a procura de trabalhadores, fazendo\r
    com que os salários subam.\r
    Agora entra em jogo a população. Melhorando os salários, melhoram as condições de\r
    vida, abaixando o índice de mortalidade infantil e fazendo com que a população também\r
    aumente. Sendo assim, com uma maior demanda de trabalhadores os salários abaixam, tendo\r
    por conseqüência a diminuição das condições de vida. Esta lei também é considerada natural,\r
    pois faz com que haja um equilíbrio entre mão-de-obra e salários.\r
    Essas leis resumem aquilo que costumamos chamar de liberalismo selvagem. Elas\r
    afirmam que a economia funciona de modo autônomo, sem a intervenção do Estado. E quanto\r
    às conseqüências quem sofre são aquelas pessoas que não tem os meios de produção nas\r
    mãos.\r
    Mas analisando as conseqüências, percebe-se que essa relação de causa e efeito\r
    apresentada por estas leis nem sempre funciona dessa maneira. Contudo, elas se apresentam\r
    mais como uma defesa dos interesses de uma minoria e não abarcam a toda a sociedade, que\r
    apresenta uma realidade complexa e não pode ser explicada por leis tão deterministas assim.....\r
    ...Como podemos perceber o modelo neoliberal possui inúmeras falhas, e para que haja\r
    uma mudança concreta desse quadro, a mentalidade da população precisa ser alterada.\r
    Portanto, é necessária uma afirmação não do individualismo humano, mas de sua\r
    individualidade, que é ter consciência de seu papel na sociedade e está revestida por uma\r
    profunda atitude de alteridade. Conforme nos apregoa DUSSEL (1983), o ser humano é um\r
    ser para o outro, está intimamente ligado às pessoas que o rodeiam, o homem não se explica\r
    de modo isolado, não se realiza sozinho, mas é um ser social e relacional, e sendo individuo\r
    5\r
    não pode alcançar sua realização com detrimento e exploração de outrem, pois estaria ferindo\r
    a individualidade alheia, portanto, fere-se a si mesmo enquanto ser social. Quanto mais a\r
    economia neoliberal seguir as próprias leis imanentes, tanto menos estará acessível a\r
    alteridade, fraternidade, igualdade e solidariedade.....\r
    \r
    TRECHOS DO TRABALHO DE Jandrei Lourenci (Adm)/PR
  • Joao  14/03/2011 11:24
    Aí entraria o Estado, para garantir a alteridade, fraternidade, igualidade e solidariedade, controlando a economia? Acho que não preciso mostrar exemplos de países onde isso não funcionou...
    A alternativa do Jandrei é... uma mudança de mentalidade de todas as pessoas do mundo. Ele está pensando em um mundo ideal, bonitinho, fofinho. Esse, aliás, é um problema comum àqueles que parecem ter se perdido no mundo das ideias e deixado de compreender o mundo real. No mundo real, um Estado que tente garantir à força a alteridade, fraternidade, igualdade e solidariedade, na verdade, acaba garantindo, à força, um desequilíbrio na distribuição de riquezas nas mãos de quem tem melhores ligações com o próprio Estado.
    Não sou anarco-capitalista, pois acho que este também é um modelo que não leva em conta o mundo real. Acho que um país precisa de um governo que faça o máximo possível para garantir leis básicas de convivência e garantia de liberdades fundamentais. Nenhum governo jamais conseguirá garantir tudo para todos. O famoso "welfare state" só funcionou em países que já eram ricos, afinal, não é um modelo economicamente sustentável.
  • Victor  03/05/2011 00:29
    Caro Leandro,

    A omissão de Cingapura é justificável ou foi somente esquecimento?
  • Leandro  03/05/2011 17:28
    Prezado Victor, perfeita a lembrança. Havia me esquecido de Cingapura. Obrigado pela recordação. Já acrescentei o país à lista.

    Grande abraço!
  • Eric Carro  25/10/2011 11:58
    Tive uma dúvida sobre a lista de países, sei que antes de adotarem a porcaria do Welfare State, os países nórdicos eram liberais e cresciam em grande escala, válido também para a maioria dos países europeus, mas eu queria saber especificamente, quando e como ITÁLIA e FRANÇA adotaram a teoria austríaca?
  • Leandro  25/10/2011 12:04
    Prezado Eric, Itália e França, cada um à sua maneira, adotaram ideais austríacos em determinadas épocas.

    Na França, por exemplo, o principal conselheiro econômico e monetário do General Charles de Gaulle, que ajudou a França a se afastar do socialismo, foi Jacques Rueff, um velho amigo e admirador de Mises (Rueff já escreveu artigos elogiosos a Mises, como este). Foi Rueff quem colocou as finanças da França em ordem (de Gaulle não era exatamente um sujeito preocupado com austeridade fiscal) e restituiu a solidez ao franco, garantindo sua conversibilidade.

    Rueff foi também um inflexível defensor do padrão-ouro, crítico ferrenho de Keynes e crítico do uso do dólar como moeda internacional (cenário esse que havia sido recém-estabelecido pelo acordo de Bretton Woods). Segundo Rueff, tal arranjo além de inflacionário seria também mundialmente desestabilizador. Como se vê, ele não estava errado.

    E foi ele quem instou os EUA a restituir em ouro todas as transações comerciais que a França tinha com os EUA -- o que, no final, após perder significativas reservas de ouro, fez com que Nixon abolisse os últimos resquícios do padrão-ouro.

    De um jeito ou de outro, a França do pós-guerra era um país que respeitava a propriedade privada e a liberdade de preços e salários.

    Da mesma forma, parte do afastamento da Itália em relação ao socialismo após a Segunda Guerra Mundial se deve ao presidente Luigi Einaudi, um distinto economista, defensor do livre mercado, amigo de longa data e colega de Mises. Einaudi começou como presidente do Banco Central da Itália (de 1945 a 1948), onde trouxe respeitabilidade à lira. Depois foi ministro das finanças, tornando-se em seguida presidente da Itália (de 1948 a 1955). Einaudi era defensor de um federalismo europeu.

    Vale lembrar que ambos os países estavam economicamente destruídos após a Segunda Guerra, e coube a estes homens criar as condições de mercado necessárias para sua recuperação (assim como o fez Ludwig Erhard, outro seguidor de Mises, na Alemanha). Embora menos "radical" que Rueff, Einaudi também teve sua cota em trazer estabilidade para a economia italiana, com respeito à propriedade e ao sistema de preços. Naquela época turbulenta, isso não era pouco.

    A situação na Europa começou a degringolar só no final da década de 1970, com a ascensão de partidos socialistas e social-democratas ao poder. A revolução thatcherista na Inglaterra, porém, trouxe um importante contrapeso a esta tendência, estimulando a volta ao poder de partidos conservadores na Europa na década de 1990. Mesmo os social-democratas foram obrigados a mudar seus programas, permitindo mais liberdade ao mercado. Isso também não é pouco.

    Grande abraço!
  • Pedro Ivo  13/07/2012 20:09
    Leandro, você tocou num ponto muito peculiar.

    Finda a 2ª Grande Guerra, na Alemanha, França e Itália, as economias se reegueram via livre mercado, respeito à propriedade, ao sistema de preços e à divisão do trabalho (e suponho que também noutros paises europeus que se reergueram da devastação, afinal, ñ dá p/ fazer isto agindo como Hugo Chavez).

    E varios destes governantes eram "austríacos", ao menos 'lato sensu' (o Bagus, inclusive, fala sobre eles no livro sobre a crise do euro, e sobre o conflito ideológico entre as 2 proposts que existiam para a Europa à época [grosso modo, minarquia e socialdemocracia]).

    Tenho uma pergunta, e você responde diretamente ou via um link: como o austroliberalismo caiu, no pós-2ª GG, no quase completo ostracismo político e intelectual, se ele foi alicerce para a retomada econômica europeia (e, suponho, também na Ásia, pois você disse que cada pais em dado momento, foi liberalista)? Seria porque estas figuras (como Einaudi, Rueff e Erhard) eram antes de tudo políticos, ao invés de economistas, e portanto faziam "concessões conciliatórias que levavam ao socialismo" (como disse von Mises em seu artigo)?

    Agradar-me-iria muito uma resposta a respeito por meio de um link, mas acima de tudo, sua opinião, pela qual nutro muita estima.

    Bom fim de semana a todos.
  • Leandro  14/07/2012 08:00
    Pedro Ivo, houve uma sequência de fenômenos:

    1) Primeiro houve a ascensão do keynesianismo na década de 1960, teoria esta que delegava ao governo, aos políticos e aos burocratas poderes oniscientes e total capacidade de fazer uma sintonia fina em todas as variáveis da economia. Qual político ou burocrata diria não a uma teoria que diz que eles são o máximo?

    2) Com a derrocada do keynesianismo em meados da década de 1970, surgiu outra teoria dominante, o novo liberalismo -- popularmente chamado de neoliberalismo --, esposado por acadêmico da escola de economia de Chicago. Tal teoria dizia que o governo não deveria exercer tanto poder sobre a economia, mas ainda delegava aos políticos e burocratas enormes poderes sobre questões cruciais.

    3) Já em meados da década de 1990, políticos, burocratas e acadêmicos perceberam que o mundo poderia ser muito mais bonito caso as duas teorias acima fossem mescladas numa só: donde surgiu o novo keynesianismo, que é chicaguista na microeconomia e keynesiano na macroeconomia. O resultado é a beleza que está aí.

    E por que a escola austríaca não é aceita? Porque ela diz exatamente tudo aquilo que político, burocrata e acadêmico nenhum quer ouvir. O governo gastar muito é ruim para a economia; imprimir dinheiro é péssimo para economia; déficits orçamentários devem ser abolidos; inchar a máquina estatal, dando emprego para burocratas, é ruinoso para a economia; regulamentações atravancam o crescimento econômico.

    Já a mescla ideológica atual diz: ""Ei, gastar muito é bom para a economia; imprimir dinheiro é ótimo para economia; déficits são perfeitos para a economia; inchar a máquina estatal, dando emprego para burocratas, é maravilhoso para a economia; regulamentações, se feitas por keynesianos, são supimpa e geram muito crescimento econômico. Ah, sim, e austeridade é péssimo. Ignorem economistas insensíveis que sugerem isso. Apenas gastem os tubos e se endividem ao máximo. O paraíso é aqui, e o Jardim do Éden, onde não há escassez, pode ser perfeitamente replicado pela impressora de dinheiro."

    Qual político resiste a isso?

    Aliás, conhecendo-se a volúpia do ser humano por poder e controle sobre a vida alheia, seria genuinamente um milagre caso as ideias austríacas prevalecessem no mundo atual.

    Grande abraço!
  • Pedro Ivo  14/07/2012 20:05
    Gostei muito dos pontos [1] [2] e [3] que você apresentou. Eu não dispunha destas informações.

    Outra questão: sendo que no pós-2ª GG havia economistas de formação austríaca em atividade no estado, na iniciativa privada e na academia, ainda fica um hiato de entendimento para mim. Eu entendo que a promessa de poder feita (aos acadêmicos, políticos e burocratas) pelo keynesianismo, chicaguismo e teoria dos jogos era irresistível; mas não entendo como pessoas que não topavam esta 'aposta de fausto', e que produziam resultados (como Einaudi, Rueff e Erhard), podem ter sido defenestradas tão eficientemente. Note que elas estavam em posições-chave, detinham poder, escolhiam seus assessores (e em certa medida seus sucessores), e eram capazes de produzir resultados desejáveis na vida pública, e de serem formadores de opinião (via produção intelectual, participação na imprensa, influência na academia e nas opiniões que a imprensa divulgava, escolhas de assessores e quadros em seus partidos; enfim: promoção de pessoas e ideias). Como estas pessoas podem ter perdido a 'batalha das ideias' tão abrangentemente? Von Mises sempre ressaltava que toda prática tem por trás uma ideia. Como, em sua opinião Leandro, eles foram perder tão largamente esta batalha, se eles tinham posições privilegiadas para pelejá-la?

    Mais outra questão (esta nada tem a ver com o artigo; estou só aproveitando que as postagens deste artigo estão abandonadas, assim posso usá-lo para conversar sobre o assunto com você): já que a praxeologia estuda o comportamento humano em seus aspectos formais, talvez seja do interesse do praxeologista os avanços em "discussões formais" ao longo do século XX, como metalógica, metamatemática, teoria dos modelos, teoria dos operadores, etc.. Há pesquisas em teoria austríaca que tentam fazer avançar a praxeologia via aplicação das ideias de Gödel, Tarsky, Skolem, Frege, Russel; e outros teóricos da lógica e metalógica; aos esquemas teóricos de von Mises e Rothbach?

    novamente, bom fim de semana
  • Pipe  16/07/2012 05:07
    mas não entendo como pessoas que não topavam esta 'aposta de fausto', e que produziam resultados (como Einaudi, Rueff e Erhard), podem ter sido defenestradas tão eficientemente.

    Quem já esteve presente em um ambiente cada vez mais cheio de estatistas sabe como é difícil ter ideias contrárias às deles. Os discursos do paraíso na terra criado pelo estado são muito, muito sedutores, e se você não entra no jogo passa a ser considerado uma pessoa vil e mesquinha, despreocupada com os pobres e oprimidos. É raríssimo ver um discurso realmente racional, na maior parte dos casos, parte-se para o estudo de casos extremos, como "se o estado não controlar a economia uma raça de seres superiores vindos de uma dimensão paralela nos escravizará e nos obrigará a trabalhar comendo toda a areia do Saara para produzir tijolinhos!", ou "se o estado não tiver o controle sobre os recursos os capitalistas irão destruir todas as florestas, porque, sei lá, porque eles são maus e faz muito sentido econômico destruir uma floresta inteira, acabando com recursos valiosos para ter um monte de madeira cujo manejo custará uma fortuna e custará uma ninharia, já que eu tenho um monte Everest de madeira e não há tanta demanda assim por madeira!". Perceba que não há nenhum raciocínio lógico envolvido: há uma resposta com um componente emocional muitas vezes insidioso.

    Além, é claro, de não ter em ao seu lado a parceria da entidade que possui a impressora de dinheiro. Acho que podemos dizer que há uma lei universal da gravitação em torno de quem tem a impressora de dinheiro e o monopólio da emissão de moeda. É natural que todos queiram fazer parte dessa entidade ou girar em torno dela.
  • Marcelo  17/11/2011 10:36
    Será que o tal de Renatão também já atacava o Olavo de Carvalho assim como o IMB?

    www.olavodecarvalho.org/textos/renatao.htm
  • Pedro Ivo  16/07/2012 07:07
    Grato pela resposta Pipe. Penso que sua opinião faça muito sentido. Àquilo que se denomina "público" há, associado, um elevado grau de proselitismo e messianismo; logo, de irracionalismo. Não há interesse em se discutir 'adequação X inadequação' entre objetivos expostos e atingidos, pois caso se discuta por este viés, estar-se-irá violando as convicções/suscetibilidades envolvidas, e nunca (p/ a maioria da pessoas) aceita-se convicções sejam questionadas com base nos resultados (a culpa é sempre da realidade e da desvirtude dos d+. Os valores são puros, e não podem ser questionados com bases pragmáticas pois são prioridades superordenadas: devem ser atingidas a quaisquer custos).
  • Caio Marcio Rodrigues  13/08/2012 14:05
    Excelente texto.
  • Gabriel  24/08/2012 09:21
    Leandro, Por que alguns países que possuem arrecadação de impostos de aproximadamente 40% do PIB, como os citados por você, ainda assim apresentam um nível de desenvolvimento muito maior, estatisticamente? A simples abertura de mercado explicaria isso?
  • Leandro  24/08/2012 09:54
    Também, mas não só. Há outros detalhes essenciais, como liberdade de empreendimento, burocracia, facilidade para a abertura de empresas, respeito à propriedade privada, instituições robustas, segurança institucional etc.

    Nenhum país enriquece se não observar estes quesitos. Recomendo este artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=271

    Abraço!
  • Gabriel  24/08/2012 12:02
    Obrigado pela atenção de sempre, Leandro.
  • Ana Maria Amaral  17/03/2013 20:30
    Excelente texto e excelente discussão. Vocês são claros, práticos e elegantes no fórum.
  • Marcelo Werlang de Assis  06/07/2013 05:10
    Com essa volta de Renato Gaúcho (a quem eu também chamo de "Renatão") ao cargo de treinador do Grêmio FBPA, acabei me lembrando deste artigo do Leandro Roque aqui publicado. Foi um grande prazer reler tal primoroso texto!

    Espero que o "Renatão" do Grêmio faça um trabalho decente, levando o clube às glórias passadas, em contraste com o comportamento desse "Renatão" aí, que escreveu tal e-mail cretino e provocativo ao IMB e recebeu de volta, como bela punição, uma contundente resposta do augusto guerreiro libertário Leandro Roque.

    Forte abraço!
  • Emerson Luis, um Psicologo  25/06/2014 17:51

    Outro exemplo: Liechtenstein

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1890

    * * *
  • Higor Oliveira  03/02/2015 05:09
    Leandro, o Pais chamado "Ilhas Maurício" ou "Maurício" ou "Maurícia", que situa-se na África, embora não na parte continental, pois é uma ilha, pode ser considerado de algum maneira liberal e ser incluído em sua lista como o único país liberal da África?
  • Leandro  03/02/2015 13:56
    Sei que é o país mais livre do continente africano, e o décimo economicamente mais livre do mundo, segundo a Heritage Foundation. Há respeito à propriedade privada, há liberdade empreendedorial, há moeda estável, as alíquotas máximas do IRPF e do IRPJ são de 15%, a carga tributária do governo não chega a 19% do PIB, e as tarifas de importação não chegam a 1%.

    Para a África, tá ótimo.
  • Renato  13/11/2015 21:45
    Apesar do início um tanto "vermelho", pelas últimas décadas, deixar de citar Israel naquela lista inicial foi um lapso fenomenal!
  • Renato  13/11/2015 21:46
    PS: esqueci! Não sou o Renatão!


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