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A genialidade do rap estrelando Keynes versus Hayek

Nota do IMB: uma alma caridosa e extremamente competente traduziu e legendou o rap da batalha Keynes x Hayek.  Não é exagero algum dizer que a letra da música não só é fenomenal, como também apresenta uma descrição extremamente acurada da visão antagônica que ambos tinham da mecânica dos ciclos econômicos.  É um vídeo para se ver e rever inúmeras vezes.  Por mais que você já o tenha visto, sempre acabará descobrindo detalhes novos.

 

O debate entre J.M. Keynes e F.A. Hayek, ambos vivendo e lecionando na Grã-Bretanha nos anos 1930, foi um dos grandes debates do século.  Desafortunadamente, o charme keynesiano acabou prevalecendo, e Keynes, um homem que estava em frequentes viagens pelo mundo, acabou conquistando o pódio da audiência — a ponto de influenciar a política de todo o mundo até os dias de hoje. 

Enquanto isso, o sereno e estudioso Hayek nunca de fato teve uma grande plateia.  Assim como seu colega e mentor Mises, Hayek escrevia para jornais acadêmicos e era ouvido apenas por aqueles que tinham uma mente mais cética, pessoas que duvidavam das políticas e teorias convencionais e tinham a vontade intelectual de pesquisar os assuntos mais a fundo.

De um lado, portanto, o debate entre esses dois foi um dos mais decisivos para a modelagem das ideias econômicas que dominariam o mundo ao longo dos 75 anos seguintes.  De outro lado, entretanto, esse debate nunca de fato ocorreu, uma vez que o ponto de vista hayekiano foi e tem sido sistematicamente marginalizado e escondido pelo establishment político e acadêmico desde que Keynes foi prematuramente declarado o vencedor no final da década de 30.

A maravilha das novas tecnologias midiáticas é sua capacidade de nos mostrar coisas que de outra forma poderiam passar despercebidas.  Fear the Boom and Bust [Tema a Expansão e a Recessão], um vídeo do YouTube feito pelo produtor John Papola e pelo economista Russ Roberts, e apoiado pelo Mercatus Center, que pertence à George Mason University, explora genialmente essa vantagem, contrapondo Keynes e Hayek em um rap que captura uma realidade que poucos haviam compreendido por completo até agora.

Até o momento, o vídeo [o original] já foi visto mais de um milhão e cem mil vezes e virou notícia internacional.  Além de ser uma bela e elaborada produção, o que realmente impressiona é sua transparência e acuidade teórica.  Ele tirou a teoria austríaca dos ciclos econômicos de um plano secundário e a trouxe para o primeiro plano do debate.



É verdade que em 1974 Hayek recebeu o Prêmio Nobel, o que trouxe atenção para a sua obra que havia há muito sido esquecida.  O comitê do Nobel citou especificamente o trabalho de Hayek sobre a teoria dos ciclos econômicos.  Mas o renascimento desfrutado por Hayek nos anos seguintes não se centrou nesse aspecto da sua obra.  Ao invés disso, toda a atenção foi voltada para elaborações sobre sua evolucionária teoria social, suas concepções sobre a ordem do processo de mercado e seus estudos sobre lei.

Com efeito, seus livros e a maioria de seus artigos sobre ciclos econômicos sequer foram reeditados desde o lançamento de sua primeira edição — até o ano passado, quando o Mises Institute lançou um maciço compêndio de sua obra: Prices and Production and Other Essays (bem como o livro Tiger by the Tail).  O vídeo, portanto, vem a público de uma maneira acessível e trazendo a grande contribuição que Hayek deu à literatura econômica, a qual é essencial para se entender os atuais eventos da economia mundial.

Permita-me agora explicar por que esse vídeo é sensacional.

O vídeo começa com Keynes e Hayek chegando à recepção de um hotel.  Ambos estão ali para a "Conferência Econômica Mundial".  A recepcionista é toda remelexos com Keynes, tratando-o como a estrela que ele é.  Keynes arrogantemente anuncia que ele não precisa de uma pauta porque ele é a pauta.  Enquanto isso, Hayek humildemente tenta se fazer notar.  A recepcionista nunca ouviu falar dele.  Isso captura muito bem o espírito que perdurou desde a década de 1930 até hoje: o mundialmente famoso Keynes versus os desconhecidos austríacos.

Algo totalmente fiel à realidade: vários estudantes estão dizendo que mandaram esse vídeo para seus professores de economia, os quais responderam que, antes de verem vídeo, nunca tinham ouvido falar de Hayek.  Enfatizo: professores de economia.

Voltando ao vídeo, a caracterização dos personagens é fantástica.  Keynes é popular e amado por todos, sempre promovendo um estilo de vida boêmio, com festas e farras intensas — o futuro que se dane.  Já a personalidade de Hayek é mais intelectual, sóbria e até mesmo um pouco puritana, com um foco na realidade e no longo prazo.

Hayek chega ao quarto do hotel e, ao abrir a gaveta da mesa de cabeceira encontra, ao invés da Bíblia, a Teoria Geral.  O telefone toca e é Keynes anunciando que as festividades no Banco Central já estão quase começando.  Hayek fica espantado, pois achava que eles estavam ali para seminários e congressos.

Eles se encontram no lobby do hotel e saem — Hayek com um ticket de metrô na mão.  Keynes, sem perder tempo, pede uma limusine, enquanto Hayek balança negativamente a cabeça, indignado.

O tema do 'festeiro vs. economista sóbrio' perpassa toda a história.  Os termos da argumentação são expostos bem claramente.  Hayek diz que os ciclos econômicos são causados por "juros baixos" resultantes de intervenções do governo, ao passo que Keynes culpa o "espírito animal" que opera livremente em um mercado que necessita urgentemente ser controlado.

Keynes então começa a explicar sua teoria para a depressão.  Ela é causada pela rigidez de salários e só pode ser curada se houver um estímulo à demanda agregada por meio do aumento dos gastos governamentais e impressão de dinheiro.  Ele defende obras públicas, guerras e janelas quebradas — pois tudo isso estimularia a demanda —, alerta contra a armadilha da liquidez, defende déficits, vangloria-se de ter mudado o modo de se estudar economia, e conclui "Diga bem alto, com orgulho, somos todos keynesianos agora!".  Enquanto isso, o espectador vai assistindo a cenas de pessoas embriagadas farreando freneticamente.

Sobra então para Hayek a missão de trazer realismo à discussão.  Ele rejeita o argumento de Keynes pelo fato de este esconder muita agregação em suas equações, as quais ignoram toda a motivação e ação humana.  Hayek compara estímulos governamentais ao ato de beber mais para tentar curar uma ressaca.  Ele chama atenção para o fato de que não é possível haver prosperidade sem poupança e investimento — e em seguida começa a educar Keynes em sua perspectiva austríaca.

Ele começa sua exposição alterando o foco da análise: não é a recessão, mas sim a expansão que deve ser analisada.  Pois é durante a expansão que são plantadas as sementes do desastre.  A expansão econômica começa com uma expansão do crédito.  Esse dinheiro recém-criado passa a ser erroneamente visto como sendo poupança real, que pode ser emprestada e investida em novos projetos, como imóveis e construção.

Porém, há uma escassez de recursos necessários para se finalizar esses projetos.  Imprimir dinheiro não faz com que os recursos surjam do nada.  Esses projetos, portanto, se transformam em investimentos errôneos.  O "anseio por mais recursos revela que não há o bastante".  É aí que a expansão se transforma em recessão.  Quanto à armadilha da liquidez, ela é apenas uma evidência de um sistema bancário insolvente.  A lição: "Você precisa poupar para investir, não use a maquina de imprimir."

Toda essa explicação ocorre enquanto Keynes tenta dormir para curar sua ressaca.  Sem sucesso, ele corre para o banheiro para vomitar — os efeitos colaterais da farra da noite anterior.

O que Hayek discute no vídeo é sua própria teoria da estrutura de produção de uma economia.  Mas vale notar que há uma estrutura de produção atuando no mundo das ideias também.  Os primeiros pedaços da teoria austríaca dos ciclos econômicos foram juntados 100 anos atrás, quando Mises estava trabalhando em seu primeiro livro, que foi publicado em 1912.

Esse foi o primeiro tratado a juntar a teoria dos juros e da produção à teoria da moeda.  O principal ponto de Mises era mostrar que os bancos centrais — que estavam sendo criados em sua maioria naquela época — iriam acabar causando mais ciclos econômicos, e não menos.  Hayek deu sequência a esse trabalho nos anos 20 e 30, publicando uma série de estudos sobre o assunto.  Mais tarde vieram aprimoramentos feitos pelo próprio Mises, que os publicou em sua obra magna de 1949, Ação Humana.  Os estudos feitos por Roger Garrison na década de 1990 fornecem alguns dos termos que aparecem no vídeo.  Ainda depois, surgiu o livro de Jesus Huerta de Soto sobre ciclos econômicos, o qual explica o papel do sistema bancário de reservas fracionárias na criação das expansões econômicas e das subsequentes recessões — um livro que se baseia em várias constatações feitas por Rothbard na década de 1960.

O que vemos nesse vídeo, portanto, é a culminação de várias sequências de ideias que começaram há um século.  Trata-se de uma longa e complexa estrutura de produção de ideias.  Mas foi exatamente essa estruturação que possibilitou que uma teoria dessa complexidade pudesse ser construída de modo tão coerente, que é perfeitamente possível apresentá-la em um vídeo de rap num formato que qualquer leigo pode ver e entender.

Sinceras e cordiais congratulações a Russ Roberts e John Papola por terem compilado tudo e apresentado um fantástico exemplo de como a ciência econômica pode ser explicada para qualquer indivíduo.  Era justamente essa a visão de Mises: a ciência econômica não deve ser relegada às salas de aula; ela deve fazer parte dos estudos de cada cidadão.  Roberts e Papola levaram essa prescrição muito a sério e, com isso, fizeram algo extraordinário para Hayek, para as ideias austríacas, para a ciência econômica em geral e para o progresso intelectual do mundo.

É por isso que o vídeo é fantástico.

1 voto


  • Santiago Staviski  28/04/2010 11:50
    Ótimo!
  • Isaías  28/04/2010 15:35
    Um dos melhores artigos que já passou pelo mises.org.br/
  • Cristiano  28/04/2010 17:34
    Com esse vídeo vou ao Procon pedir ressarcimento da faculdade que paguei.
  • mcmoraes  28/04/2010 18:53
    AHHAAHAHH. Essa do Cristiano foi ótima!
  • Filipe  28/04/2010 19:53
    É "incrível" como um pensamento tão tosco seja uma verdade absoluta. Certa vez perguntei ao meu professor de economia (o mais renomado da UFPE) o que ele tinha a dizer sobre a escola austríaca, o mesmo respondeu que "isso não existe mais, ou melhor, acho que nunca chegou a existir". É trsite!
  • mcmoraes  29/04/2010 07:56
    Gary North www.youtube.com/user/misesmedia#p/u/19/XqJSLS6xwKc explica a história de como Keynes ganhou influência. Segundo ele, tudo começou quando Hayek se omitiu de refutar as idéias do livro de Keynes.
  • Daniel Marchi  29/04/2010 15:13
    Apareceu no blog do Lew Rockwell\r
    \r
    "The theory of aggregated production, which is the point of the following book, nevertheless can be much easier adapted to the conditions of a totalitarian state than the theory of production and distribution of a given production put forth under conditions of free competition and a large degree of laissez-faire."\r
    \r
    Esse é um trecho do prefácio à edição alemã (1936) da Teoria Geral, escrito pelo próprio Keynes. Pelo menos ele foi honesto... Mises já dizia que o socialismo é o ponto de chegada de políticas intervencionistas. \r
    \r
    O prefácio completo encontra-se no link abaixo\r
    tmh.floonet.net/articles/foregt.html\r
    \r
  • Leandro  29/04/2010 17:12
    Daniel, sim, essa aberração inclusive foi comentada nesse artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=236
  • André   30/04/2010 21:28
    Eu não sou muito fã de rap, mas adorei muito essa música. Seria demais tê-la no mp3 para ouvir mais e mais vezes. \r
    \r
    Um abração a todos.
  • Tiago RC  01/05/2010 09:44
  • anônimo  09/06/2010 22:58
    O livro O Caminho da Servidão, do Hayek, é o mais vendido no Amazon.com atualmente: www.amazon.com/gp/bestsellers/books
  • André Ramos  11/03/2011 16:14
    Sem dúvida um dos melhores vídeos que já vi youtube.
    Mostrei pra uns amigos, e todos ficaram loucos com o vídeo.
    Excelente!
  • youtube to mp3  15/07/2011 07:03
    Este es uno de los mejores videos que he visto nunca! Fue maravilloso verlo, me gustó mucho! Muchas gracias por publicar!
  • william   21/08/2011 17:25
    E já tem parte 2.
    www.youtube.com/watch?v=GTQnarzmTOc
  • avi to mp4   26/10/2011 09:39
    Hola
    Me gusta este artículo y este vídeo un montón! Muchas gracias a ambos! Son muy interesantes e informativos!
  • Janj  30/12/2011 00:02
    Eso es un increíble vídeo y la idea es muy bonita! Gracias por esta interesante idea nueva y una nueva dirección en la creación de música.
  • vob to mov mac   17/05/2012 22:34
    Essa do Cristiano foi ótima!
  • Bernardo  23/06/2012 18:27
    Alguem por favor, traduza a segunda parte, muito foda o video!
  • Higor Monteiro  17/03/2013 00:44
    Ja havia assistido esse vídeo quando estava começando a conhecer o mises instituto, mas entendia pouca coisa, como capital desvalorizado, demanda agregada, juros manipulados, déficits, ou seja eu era um puro ignorante de economia ... ainda me considero um leigo nessa ciência, afinal ainda tenho tempo pra conhecer ainda mais essa ciência que mises, hayek, rothbard (sendo que ainda conheço pouco destes), além do próprio instituto me ensinaram a ver a ciências econômicas como uma linda ciência.
    Em breve entrarei na faculdade de economia e é bom entrar no mundo acadêmico já sabendo o que vou enfrentar e com os conhecimentos da escola austríaca que jamais irei esquecer.

    Show o vídeo!!
  • Emerson Luís, um Psicólogo  21/05/2014 22:57

    A segunda parte legendada:



    * * *

  • Jefferson Cavalcanti  03/05/2016 15:31
    Eu Sei que estou em um site de pensamento liberal, mas alguns pontos devem ser explicados com um poucos menos de parcialidade. Keynes de fato salvou o mundo pós a grande depressão e ele era a favor de imprimir dinheiro naquela epoca, tanto que ele era contra aumento de gastos em períodos de estabilidade. Enfim, são dois dos maiores economistas de todos os tempos, respeito todos vocês que discordam, mas para mim Keynes é o maior.
  • Affonso  03/05/2016 16:51
    Correção: Keynes não apenas não "salvou o mundo", como, ao contrário, suas políticas prolongaram a recessão e a transformaram em depressão.

    O governo americano aumentou os gastos em 43% em um único ano: o orçamento do governo, que havia sido de US$ 3 bilhões em 1930, saltou para US$ 4,3 bilhões em 1931. Já em junho de 1932, houve aumento de todas as alíquotas do imposto de renda, com a maior alíquota saltando de 25% para 63% (e Roosevelt, posteriormente, a elevaria para 82%).

    A Grande Depressão, na verdade, não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários (exatamente como havia feito na depressão de 1921, que foi ainda mais intensa, mas que durou menos de um ano justamente porque o governo permitiu que o mercado se ajustasse). Porém, o governo fez exatamente o contrário: além de aumentar impostos e gastos, ele também implantou políticas de controle de preços, controle de salários, aumento de tarifas de importação (que chegou ao maior nível da história), aumento do déficit e estimulou uma arregimentação sindical de modo a impedir que as empresas baixassem seus preços.

    Resultado: a recessão iniciada em 1930 só terminou em 1946. Que sucesso, hein?

    Artigos detalhados sobre esse assunto:

    www.mises.org.br/Subject.aspx?id=37
  • Antonio   20/03/2017 19:50
    Em teoria econômica existem duas grandes utopias, a primeira é uma economia sem o Estado e a outra é uma economia sem a inciativa privada. Keynes soube muito bem dar a dose certa. Se em vez de aplicar o gasto público em investimentos que trazem retornos a economia se constroem campos de futebol ou criam contas gordas em paraísos fiscais a culpa não é da teoria keynesiana.
  • Jarzembowski  20/03/2017 20:54
    Economia sem estado é utopia. Realmente, o que seria da economia sem burocratas distorcendo o valor da moeda, financiando seus déficits gigantescos com políticas inflacionárias, manipulando juros e elegendo seus apaniguados para se lambuzar em crédito farto e subsidiado com dinheiro roubado de quem produz?
  • Max Rockatansky  20/03/2017 21:49
    "Se em vez de aplicar o gasto público em investimentos que trazem retornos a economia se constroem campos de futebol ou criam contas gordas em paraísos fiscais a culpa não é da teoria keynesiana"

    Não é o que dizem os keynesianos: para o ilustre keynesiano Krugman, até invasão alienígena (segundo ele próprio) "traria retorno à economia".


    "existem duas grandes utopias, a primeira é uma economia sem o Estado"

    E existe uma grande (e triste) realidade: ignorantes econômicos que fazem uma afirmação esdrúxula dessas.


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