clube   |   doar   |   idiomas
Sobre a quantidade de dinheiro necessária para uma economia

N. do T.: o texto a seguir é o resumo de uma palestra feita por Mises na década de 1960 na Foundation for Economic Education (FEE).  As anotações foram feitas por um ouvinte.  Consta que Mises não gostava muito de ter suas observações orais publicadas, pois elas, obviamente, não traziam o rigor, o cuidado e a precisão que ele sempre dedicava aos seus escritos.  Entretanto, mesmo a maneira despretensiosa e informal presente no texto abaixo é capaz de mostrar o poder e acuidade de suas ideias.

 

Muitos famosos professores de economia acreditam que a oferta de dinheiro em uma economia, qualquer economia, tem sempre de estar crescendo.  É inacreditável, mas desde há muito temos vários livros-texto que dizem, a cada nova edição, que a quantidade de dinheiro deve aumentar anualmente a uma taxa de 5%, ou 10%, ou 15%.  Esses valores estão sempre mudando - algo de menor importância, pois a quantidade que eles recomendam é o de menos para o nosso objetivo aqui.  O que realmente importa é que eles dizem que tal aumento é bom e necessário para suas políticas.

Ótimo.  O problema é que o governo e os bancos podem sim distribuir mais dinheiro; o que eles não podem, pois são incapazes disso, é distribuir mais bens.  E esse é justamente o problema.  À medida que esse dinheiro adicional eleva os preços dos bens, aquelas pessoas que não recebem esse dinheiro recém-criado são prejudicadas.  E é isso o que as pessoas não percebem, é isso que elas não veem.  Se a quantidade de dinheiro aumenta ano após ano, isso significa apenas que haverá grupos beneficiados e grupos prejudicados.  Os grupos prejudicados dirão: "Por que nós não recebemos mais?"  E então o governo terá de lhes dar uma quantia adicional também, o que fará apenas com que outros grupos também exijam seu quinhão, e assim sucessivamente.  Mas a questão sempre será: Para quem dar essa quantia adicional?  Pois se a quantia adicional é dada para terceiros, você sairá prejudicado.

Eu não digo que a quantidade de dinheiro deve ser aumentada e nem que ela deve ser diminuída.  Não faz sentido que os economistas reclamem em seus livros-texto sobre a disparidade de renda, sobre o aumento da riqueza de determinados grupos da população e sobre o empobrecimento de outros grupos da população e, ato contínuo, passem a recomendar políticas que produzirão exatamente as condições que eles consideram erradas.  Do ponto de vista da maioria das pessoas, das massas, um aumento da oferta monetária é ruim.

Entretanto, esses métodos inflacionários são muito populares.  Eles são populares pois são muito confortáveis para o governo.  Eles também são muito confortáveis para os membros da câmara legislativa.  Um membro do parlamento não quer ser responsabilizado por uma carga tributária maior, mas ele aceita com prazer a responsabilidade por gastos maiores.  Por conseguinte, é fácil perceber como a maioria dos membros dos parlamentos é bastante rápida em sugerir gastos adicionais, bem como impostos do tipo que seus eleitores não pagam.  Ao mesmo tempo, eles demonstram pesar em relação àqueles impostos que consideram ser uma sobrecarga injusta sobre seu eleitorado.

Certa vez ouvi um alto funcionário de um governo, o ministro das finanças de um país famoso por sua inflação e por mais nada, dizer "O ministro da educação diz que precisa de mais dinheiro.  Como sou o ministro das finanças, tenho de fornecer o dinheiro.  Tenho de imprimir o dinheiro."  Não interessa se o propósito é bom ou ruim.  A consequência é que haverá agora no mercado uma demanda adicional por bens e serviços, demanda essa que foi criada do nada.

Há várias coisas cujo aumento em sua quantidade seria muito bom - por exemplo, um aumento na oferta daqueles bens e serviços que são proveitosos e benéficos.  Por outro lado, um aumento na oferta de ratos e baratas, por exemplo, não seria algo muito profícuo.  Felizmente, esse não é um problema sobre o qual os homens têm de debater, uma vez que os interesses de todos coincidem quanto a este caso específico.  Entretanto, seus interesses não coincidem quando se trata de dinheiro.  O que ilude e corrompe o pensamento de muitas pessoas, e infelizmente também daquelas que controlam nossas atividades políticas e governamentais, é a ideia de que a quantidade de dinheiro na economia é importante.

Um indivíduo certamente estará melhor com mais dinheiro do que com menos dinheiro.  Porém, o mesmo não é válido para o sistema econômico com um todo.  A economia não estará melhor caso haja mais dinheiro em todo o sistema.  O dinheiro é um meio de troca.  E isso significa, acima de tudo, que sua quantidade não tem qualquer importância para a perfeição de suas funções.  Se você aumentar a quantidade total de dinheiro, a quantidade total do meio de troca, você não estará melhorando as condições de todos; você estará apenas alterando a maneira como os indivíduos irão avaliar o valor dos bens e serviços em relação àquilo que é utilizado como dinheiro.  Quero deixar isso mais claro utilizando um exemplo extremamente simples que ocorre diariamente em nossas vidas.

O mais sincero defensor e pregador da inflação em nossa época, Lord Keynes, estava certo, do seu ponto de vista, quando atacou aquilo que é chamado de "Lei de Say".  A Lei de Say é uma das grandes façanhas da teoria econômica.  O francês Jean-Baptiste Say, na chamada Lei de Say, disse que você não pode aprimorar as condições econômicas simplesmente aumentando a quantidade de dinheiro na economia; quando os negócios não estão indo bem, não é porque não há dinheiro suficiente.  O que Say tinha em mente, o que ele disse quando criticou a doutrina de que deveria haver mais dinheiro na economia, era que tudo o que alguém produz representa, ao mesmo tempo, uma demanda por outras coisas.  Se há mais sapatos produzidos, esses sapatos serão oferecidos no mercado em troca de outros bens.  A expressão "a oferta cria demanda" significa que o fator produção é essencial.  Expressada mais acuradamente, ele estava dizendo que "a produção cria consumo", ou, ainda melhor, que "a oferta de cada produtor cria sua demanda pelas ofertas de outros produtores".  Dessa forma, um equilíbrio entre oferta e demanda sempre existirá em termos agregados (embora Say reconheça que pode haver escassez e fartura em relação a produtos específicos).

Em última instância, os bens não são trocados por dinheiro - o dinheiro é apenas um meio de troca; os bens são trocados por outros bens.  "Você quer minhas maçãs?  O que você me dá em troca delas?"  Say acreditava que a criação de mais dinheiro simplesmente cria inflação de preços; mais dinheiro perseguindo a mesma quantidade de bens.

E se você aumentar a quantidade de dinheiro, você não estará melhorando a situação de ninguém, exceto daquele indivíduo - ou daquele grupo de indivíduos - para quem você dá esse dinheiro recém-criado; esse indivíduo, ou esse grupo, poderá então comprar mais coisas, retirando mais bens do mercado, privando outras pessoas desses bens, piorando o bem-estar delas.

Quando as pessoas perguntam a um vendedor: "Por que seus negócios estão indo mal?  Por que você não está ganhando mais dinheiro?", ele responde: "As pessoas não têm dinheiro suficiente e, consequentemente, meus negócios estão insatisfatórios."  O que ele quis dizer é que seus clientes não têm dinheiro suficiente - e não que todas as pessoas não têm dinheiro suficiente.  Ele disse: "Meus clientes infelizmente não têm dinheiro suficiente e, consequentemente, eles não podem comprar mais coisas de mim."  Se o vendedor quisesse ganhar mais, e se seus clientes, todos tomados conjuntamente, não fossem ricos o bastante para propiciar ao vendedor melhores números, o vendedor teria de encontrar mais clientes.  Mas esse vendedor não está querendo dizer que é necessário haver mais dinheiro na economia.  Ele não disse estar interessado no dinheiro de todas as pessoas do mundo.  O que esse vendedor tem em mente é apenas mais dinheiro para seus fregueses.  Essa é a "filosofia de um vendedor".

É nesse ponto que os governos entram em cena, na crença de que - e vale dizer que eles podem ser inocentes neste ponto, pois estão apenas sendo guiados por "maus" economistas - algo deve ser feito.  E realmente "todo mundo concorda" que deveria haver mais dinheiro para esse ou aquele propósito - seja para mais escolas, mais hospitais, mais pesquisas científicas etc.; o objetivo é o de menos.  Suponhamos que o governo diga que os salários dos funcionários públicos estão muito baixos, e que, por isso, eles devem ganhar um aumento.  Como o governo por si só não produz nada, o único método bem sucedido de implementar esse aumento salarial é tributando as pessoas e utilizando as receitas coletadas pelos impostos para aumentar os salários de certos empregados do governo.  Não há qualquer outra possibilidade de o governo melhorar as condições dos funcionários públicos que não seja por meio da extração de dinheiro do resto da população, medida essa que irá prejudicar o padrão desta. 

Se o governo tributa, confiscando dinheiro dos pagadores de impostos, então estes serão forçados a restringir seus gastos.  Porém, não há qualquer motivo para que haja, nesse cenário, uma mudança geral nos preços.  Aquelas pessoas para quem o governo concede aumentos salariais estarão agora na posição de poder comprar aquilo que as outras pessoas costumavam comprar, mas que não podem mais comprar porque tiveram de pagar impostos.  As mudanças resultariam do fato de que algumas coisas que o Senhor A, pagador de impostos, costumava comprar agora não mais são por ele compradas, mas sim pelo Senhor B, funcionário público.  Esse novo arranjo tenderia a aumentar os preços de algumas coisas que o Senhor B compra e a reduzir os preços daquelas coisas que o Senhor A não mais pode comprar.  Porém, não ocorre nenhuma alteração revolucionária no nível geral de preços.  Isso é o que ocorre continuamente em um país em que o governo tem um orçamento equilibrado e não recorre à inflação. 

Porém, como imaginado, há um outro método.  E o governo utiliza esse método: ele imprime o dinheiro adicional.  E se o governo imprime esse dinheiro, qual o efeito de tal medida?  O efeito é que aqueles para quem o governo dá esse dinheiro adicional - nesse exemplo, os funcionários do governo - estarão agora na posição privilegiada de poder comprar mais bens a preços ainda inalterados.  Nada mudou no mundo; tudo ainda está como ontem; não há mais bens disponíveis; mas há mais dinheiro hoje, pois o governo imprimiu mais dinheiro e o entregou para certos empregados do governo - pode até ter sido com a melhor das intenções; não discutimos os itens no orçamento do governo, mas apenas a quantia total.  E agora o governo entrega esse dinheiro recém-criado para algumas pessoas, e essas pessoas aparecem nos mercados com uma demanda adicional, com uma demanda que não existia ontem.  Lord Keynes era um grande entusiasta desse tipo de demanda; ele a considerava algo maravilhoso.  Ele dizia que essa demanda crescente produzia uma "demanda efetiva".  Claro, essa é uma descrição correta.  Mas a questão é que os preços estão subindo.  O que isso significa?

Como exemplo, vamos pensar em batatas.  Não houve um aumento do número de batatas no mercado, mas agora há mais dinheiro nas mãos de pessoas que querem comer batatas.  Ao passo que ontem era suficiente para um homem gastar $1 para comprar as batatas de que precisava, hoje ele precisa de mais dinheiro.  Ele precisa hoje de, digamos, $2, unicamente porque há mais dinheiro, e não porque outras coisas mudaram.  Se ele oferecer apenas $1 pelas batatas, o indivíduo que ganhou o dinheiro adicional do governo irá dizer "Ha, ha! Vou pagar $1,10, levarei todas as batatas e você vai voltar pra casa de mãos abanando".  E isso é vivenciado diariamente em qualquer economia em que esteja havendo expansão monetária, a intensidade da inflação de preços variando de acordo com a intensidade da inflação monetária.

O governo aumenta a quantidade de dinheiro.  Todos os males enfrentados em decorrência de alterações nas condições de mercado se devem ao fato de que o governo acredita ser admissível e natural criar dinheiro para aumentar o poder de gasto dele próprio.  Com o intuito de poder gastar mais, os governos não precisam fazer praticamente nada, exceto dar uma ordem para a casa da moeda: "Imprimam uma determinada quantia de dinheiro".  Se algum cidadão tentar fazer isso, o governo não vai gostar.  O que impede o cidadão comum de imprimir cédulas de dinheiro é uma série de leis que criminalizam essa prática; e o governo é poderoso o suficiente para impedi-la, detendo e aprisionando todos aqueles que porventura se lancem em tal empreitada.

Porém, se é o próprio governo quem incorre nessa prática de contrafação, então é algo legítimo.  E isso aumenta a quantidade de dinheiro na economia.  E este é exatamente o problema monetário.  A maneira como ocorrem as mudanças na quantidade de dinheiro na economia é diferente para diferentes pessoas e para diferentes coisas; as mudanças não ocorrem de uma maneira neutra; algumas pessoas ganham à custa de outras.  Isso significa, portanto, que se a quantidade de dinheiro é aumentada ou mesmo duplicada, pessoas distintas serão afetadas diferentemente.  Também significa que um aumento na quantidade de dinheiro não pode trazer uma melhora geral nas condições de vida de todos.

Aquelas pessoas que não receberam esse dinheiro adicional ficaram em uma situação pior, tendo agora de lidar com preços maiores, um poder de compra menor e, consequentemente, um padrão de vida mais baixo.

_____________________________________________________________

Para uma explicação completa sobre como o mecanismo da inflação distribui renda dos pobres para os ricos, leia: Sobre a não neutralidade da moeda

1 voto

autor

Ludwig von Mises
foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico.  Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política.  Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico.  Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia".


  • Gustavo Boscolo Nogueira da Gama  22/03/2010 13:38
    Estupendo!\r
    Só podia ser do prof. von Mises.
  • Redson Vieira  22/03/2010 20:31
    Ótimo presente, no dia do meu aniversário!
    Obrigado Mises.
  • Thyago  11/04/2011 14:17
    hIAUh...

    Ótimo discurso. Só representa o nível de superioridade e do grau de perfeição do seu pensamento.
  • Filipe  11/04/2011 15:47
    Gênio!!

    Algo aparentemente tão simples, mas poucos conseguem entender!
  • amauri  11/04/2011 16:39
    Boa tarde!
    Como já disse não sou economista, estou tentando aprender o que jornais escrevem.
    "Isso é o que ocorre continuamente em um país em que o governo tem um orçamento equilibrado e não recorre à inflação"
    Esta frase retirada do texto significa que este país possui um regime fiscal equilibrado?
    A inflação seria uma ferramenta da política monetária?
    abs
  • Pedro Bolson  17/04/2011 20:50
    Engraçado, há algum tempo estava discutindo com meu professor de Economia Internacional sobre o que ele achava do padrão-ouro. Seu principal argumento em ataque ao padrão foi sobre a incapacidade da oferta de ouro se expandir as necessidades do mercado. Contra-argumentei com alguns fatos do texto acima. Ele, como bom keynesiano, continuou a se defender com argumentos pra lá de sem sentido. Uma pena ainda termos que ouvirmos isso, mas como o texto bem colcou "Muitos famosos professores de economia acreditam que a oferta de dinheiro em uma economia, qualquer economia, tem sempre de estar crescendo." Uma pena.

    Amauri,

    Exatamente. Um regime fiscal equilibrado significa dizer que as receitas estão em consoância com os gastos.
    Seria temeroso dizer que a inflação é uma política monetária. Acho mais correto dizer que a inflação é consequência de uma política monetária expansionista/frouxa.

    Abras
  • Aécio  23/09/2011 18:35
    Maravilhoso!

  • Henrique  15/05/2014 17:35
    Lá vou eu ressuscitar mais um artigo.

    Numa recente discussão com um colega adepto do keynesianismo, ele define que "a demanda é tudo".

    O ponto central da teoria keynesiana é dizer que só haverá oferta se houver uma demanda para suprir.

    De fato, a priori, faz sentido. O empresário só irá investir na produção de um bem se ele espera poder vender aquele bem e obter lucro. Logo, para estimular o empresário a investir, devemos estimular a demanda, dando mais dinheiro às pessoas.

    A Lei de Say diz que uma oferta de $100 em, digamos, sapatos, gera automaticamente uma demanda de $100 em todos os setores da economia.

    Uma vez que não comemos dinheiro, não vestimos dinheiro. Então, se vendemos sapatos, usaremos o dinheiro ganho para satisfazer nossas outras necessidades e, se formos inteligentes, usaremos parte desses $100 para amplia nossa capacidade produtiva, logo, suponhamos que eu guarde $10 para investir. Dessa forma, a demanda que eu gerei por bens de consumo foram de apenas $90. Os outros $10 serão gastos em bens de capital, contratação de mais mão de obra e P&D.

    OK.

    ---

    Mas o que acontece se o empresário produz $100 em sapatos e vende apenas $80? Se as pessoas tivessem mais dinheiro, talvez demandassem por mais sapatos.

    E foi nesse ponto que "perdi" a discussão para o keynesiano...
  • Juliano  15/05/2014 19:31
    Mas o que acontece se o empresário produz $100 em sapatos e vende apenas $80? Se as pessoas tivessem mais dinheiro, talvez demandassem por mais sapatos.

    Isso significa que ele produziu sapatos demais, precisa pensar em outras demandas a atender.

    Os recursos disponíveis na sociedade são finitos, limitados. Assim, se ele gastou na produção mais recursos do que as pessoas estão dispostas a pagar, ele fez um investimento errado. Precisa mudar.

    A vontade para consumo de todo mundo é infinita. O que limita é justamente a disponibilidade de recursos, não a falta de vontade. Pode ser que, dentro de um determinado cenário, seja preferível produzir mais X ao invés de Y. O mecanismo de preços vai gerar prejuízos aos empresários que errarem, justamente para forçar a correção.

    As políticas de incentivos governamentais apenas enganam o processo, gerando uma bagunça. Assim, passa a impressão aos empreendedores de que existem mais recursos do que realmente existem. As pessoas poupam menos e consomem mais, mesmo no caso de recursos mais escassos. O resultado é excesso de estoque de alguns produtos e racionamento para outros. Os empresários que produziam produtos que já estavam sobrando e seriam obrigados a mudar de estratégia ganham um empurrão do governo, produzindo ainda mais para a demanda que foi estimulada. Ele fica feliz, seus funcionários ficam felizes, todos votam nos candidatos "amigos" e, pra frente, quando o problema aparecer, culpam o livre mercado pelas crises inerentes do capitalismo. Pedem por mais uma intervenção governamental e o baile segue.
  • Emerson Luis, um Psicologo  20/11/2014 19:48

    Os economistas são tão eruditos,

    mas não sabem diferenciar um símbolo (o dinheiro) do simbolizado (a riqueza de fato).

    * * *
  • marcio carlos  29/05/2015 04:46
    Infelizmente estamos nas mãos de loucos. De pessoas que pensam o agora. De governos irresponsáveis e grupos financeiros gananciosos. Do consumismo absoluto. De ladrões de colarinho branco. Como diz o texto que as necessidades são infinitas e os recursos são finitos, não entendo o por que as coisas aumentam seu valor monetário. Batatas são batatas, são as mesmas que a milênios os homens plantam e que hoje com a tecnologia, sua produção é trezentas vezes superior ao que era a 20 anos. Luz, água, telefone, combustível, tantas coisas que detemos o conhecimento e tecnologia para fabricá-las e seu valor só aumenta. O desespero com o futuro, com os impostos, a realidade da inflação, com o desemprego e com as incertezas do governo é que podem explicar esta expansão de preços. Quanto ao dinheiro, nós sabemos que são apenas digitos eletronicos que aparecem e desaparecem. Não existe lastro, referencia. É uma loucura ou não é?
  • Daniel  29/09/2015 06:15
    Sou estudante de Economia e tenho uma dúvida em relação à afirmação de que qualquer aumento da oferta de moeda leva necessariamente a inflação. No caso de o produto se encontrar abaixo do nível de pleno emprego, por exemplo, significando que existem fatores ociosos à espera de emprego, uma expansão da oferta monetária continuaria a ser inflacionária? O fato de haver pessoas desempregadas, por exemplo, não possibilitaria um aumento da produção sem pressões inflacionárias, uma vez que essas pessoas provavelmente se conformariam a trabalhar por qualquer salário que lhes fosse ofertado, e aquelas que já estivessem empregadas, pelo medo do desemprego, se sujeitariam a trabalhar mais horas sem demandar maiores salários? Obrigado.
  • Leandro  29/09/2015 11:51
    Não é assim que funciona o mundo real. Isso vale apenas para os manuais keynesianos.

    Esse, aliás, é um dos grandes erros do raciocínio keynesiano: partir do princípio de que a capacidade ociosa decorre simplesmente de uma redução na demanda, e não de investimentos errôneos (para os quais não havia a demanda esperada) gerados pela expansão do crédito e pela manipulação dos juros efetuados pelo Banco Central.

    Crises, recessões e capacidade ociosa não são um problema de baixa demanda agregada. Crises, recessões e capacidade ociosa são causadas por uma expansão de crédito que, de um lado, endivida as pessoas (afetando, aí sim, sua capacidade futura de consumo) e elevam os preços, e de outro, geram vários investimentos errôneos e insustentáveis (em decorrência da distorção das taxas de juros) para os quais nunca houve demanda legítima.

    Não se trata de um problema de demanda agregada, mas sim de um problema de capital que foi desviado para aplicações que não eram genuinamente demandadas pelo público.

    Sendo assim, de nada adianta os governos incorrerem em déficits, aumentar os gastos e imprimir mais dinheiro, imaginando que tudo magicamente seria resolvido.

    O fato é que recursos escassos foram aplicados em investimentos para os quais não havia demanda. Este capital se encontra agora destruído (ou com um valor extremamente reduzido). A recessão nada mais é do que o período de reajuste desta estrutura de produção que foi distorcida pela expansão do crédito bancário e pela distorção das taxas de juros.

    Portanto, para acabar com uma recessão, é preciso fazer com que este capital mal investido seja liquidado e que os investimentos sejam voltados para áreas em que haja genuína demanda dos consumidores.

    O governo fazer políticas que estimulem a demanda agregada, de modo a não permitir que haja essa reestruturação do capital, irá apenas prolongar a recessão. O governo incorrer em déficits irá apenas retirar poupança do setor privado, justamente em um momento em que ele mais necessita dela.

    De novo: a capacidade ociosa não decorre de um problema de falta de demanda, mas sim de investimentos errôneos feitos em áreas cuja demanda foi superestimada.

    A razão pela qual há tantos recursos que repentinamente se tornaram ociosos é porque houve algum erro anterior de cálculo. Os empreendedores incorretamente imaginaram que havia uma demanda maior do que a que de fato existia, e isso os levou a fazer investimentos errôneos -- a saber, a expansão de sua capacidade instalada.

    Vou dar um exemplo básico:

    Imagine que a cidade de Teresina tenha sido escolhida a cidade-sede das Olimpíadas de 2016. Nesse cenário, imagine o dono de um restaurante da capital piauiense que, imediatamente após a chegada das delegações e dos jornalistas, vivencie um aumento sem precedentes na demanda por seus serviços.

    Esse dono de restaurante terá duas opções: ou ele mantém seus serviços no mesmo nível ou ele faz investimentos.

    Entretanto, suponha que esse dono de restaurante interprete mal esse aumento momentâneo da sua demanda e passe a acreditar que se trata de um aumento real e sustentável da mesma. Com isso, ele contrai vários empréstimos e faz investimentos vultosos em seu restaurante, contratando mais mão-de-obra, ampliando seus recintos, sua capacidade instalada (comprando mais fogões, pratos, talheres, geladeiras e churrasqueiras) e até mesmo abrindo um novo restaurante.

    O que vai acontecer assim que as olimpíadas acabarem e todas as delegações e jornalistas forem embora? Ora, acontecerá o óbvio: esse dono de restaurante ficará com recursos ociosos. Com vários empregados sem nada para fazer e um segundo restaurante totalmente vazio.

    E então? Será que o governo deveria "estimular" esses recursos, despejando dinheiro ali para tentar manter o nível anterior de atividade? Será que o governo deveria passar a comprar ativamente a comida desse restaurante, apenas para mantê-lo funcionando em plena capacidade? Isso seria um uso inteligente dos recursos? Ou seria um mero desperdício de recursos?

    Lembre-se de que essa mão-de-obra e todos esses recursos sequer deveriam ter sido alocados dessa maneira, em primeiro lugar. Portanto, esse restaurante está segurando mão-de-obra e capital que poderiam estar sendo mais eficientemente utilizados em outros setores da economia.

    A única medida correta seria deixar o mercado, sempre guiado pelo sistema de preços, realocar esses fatores da maneira mais racional possível.

    Logo, o problema não é apenas a falta de "demanda" ou de "gastos". Tampouco é economicamente sensato dizer que o governo deve preencher a "baixa demanda". O problema foi que, na esteira da farra do crédito fácil e dos subsídios, houve uma má alocação de recursos, um desequilíbrio estrutural, um descompasso entre a estrutura do capital e a demanda do consumidor.

  • Daniel  29/09/2015 16:33
    Leandro, muito obrigado pela resposta. Foi bastante esclarecedora. Eu tenho só mais uma dúvida, se não for incômodo. Pelo que eu entendi do seu comentário, desvios do produto efetivo em relação ao produto potencial são explicados principalmente pela expansão do crédito bancário conduzida pelo Banco Central, certo? E, assim sendo, na ausência dessas manipulações, a Lei de Say garantiria que, no agregado, nunca houvesse uma insuficiência da procura efetiva. Certa vez, porém, ao explicar a Lei de Say em sala de aula, meu professor de Macroeconomia fez uma crítica que, de certa forma, me pareceu bastante pertinente. O argumento dele era de que a Lei de Say funciona perfeitamente em uma economia baseada no escambo, mas, a partir do momento em que introduzimos a moeda, ela deixa de ter validade, na medida em que a moeda possibilita aos indivíduos adiar suas decisões de consumo. Assim, em uma economia monetária, as pessoas podem produzir, vender sua produção e, no entanto, não comprar nada. Nesse contexto, haveria um excesso de produção, justamente por conta da demanda efetiva insuficiente pelas mercadorias que foram produzidas. Esse 'erro' no raciocínio de Say, de acordo com meu professor, decorreria do fato de ele, a exemplo dos demais economistas clássicos, considerar a moeda apenas como um meio de troca, negligenciando a sua função de reserva de valor. O que você acha desse argumento? Obrigado!
  • Leandro  29/09/2015 16:43
    "Em uma economia monetária, as pessoas podem produzir, vender sua produção e, no entanto, não comprar nada. Nesse contexto, haveria um excesso de produção, justamente por conta da demanda efetiva insuficiente pelas mercadorias que foram produzidas."

    E, segundo o próprio Say, se há excesso de oferta em relação à demanda, os preços terão de cair até o ponto em que a oferta volta a atender a demanda.

    Seu professor criou um espantalho -- ignorou a flexibilidade de preços -- para criticar algo que ele nem conhece.

    Outra coisa: a Lei de Say, que é amplamente distorcida, diz que

    1) a produção tem necessariamente de anteceder o consumo;

    2) a produção cria uma demanda por outros produtos (de um lado, o produtor demanda outros bens, como matérias-primas, para fazer a sua produção; de outro, com a renda oriunda de sua produção, o produtor pode agora demandar bens de consumo).

    Daí Say ter dito que a oferta (produção) cria a própria demanda.

    Por exemplo, um agricultor pode cultivar milho para a sua própria família ou para alimentar seu rebanho, mas ele irá vender a maior parte do seu milho no mercado em troca de dinheiro. E ele utilizará esse dinheiro para satisfazer todas as suas necessidades e desejos. Sua plantação de milho, portanto, representou sua demanda por outros bens e serviços, e o dinheiro foi simplesmente o meio de troca que ele utilizou para satisfazer sua demanda.

    Keynes tentou refutar a Lei de Say alegando que a demanda, por si só -- criada artificialmente por meio da impressão de dinheiro pelo Banco Central --, iria estimular a produção. Ele tentou, de maneira ilógica e sem êxito, colocar o consumo antes da produção (exatamente como fez o governo brasileiro ao adotar a Nova Matriz Econômica). Isso gera apenas inflação de preços e endividamento.

    Até hoje, Keynes é extremamente popular entre políticos adeptos da gastança, aos quais ele concedeu a teoria intelectual e o imperativo moral de gastar o dinheiro que não têm.

    Say também escreveu que não é o dinheiro em abundância, mas os produtos em abundância que em geral facilitarão as vendas:

    "O dinheiro tem sua função mas é uma momentânea nesse mercado de troca; e quando a transação for finalmente fechada, e sempre será, aquela determinada mercadoria criará mercado para outra".
  • Anderson  28/05/2016 03:48
    É preciso ser PHD para entender que criar mais dinheiro do nada é algo ruim?


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.