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Liberdade de expressão

É fácil ser um defensor da liberdade de expressão quando isso se aplica aos direitos daqueles com quem estamos de acordo. (Walter Block)

 

Vivemos na era do "politicamente correto", da ditadura da maioria. Tais características impõem sérios riscos à liberdade de expressão, ferramenta das mais valiosas da humanidade, que garante nosso progresso contínuo. Walter Block escreveu um livro muito polêmico, Defending the Undefendable, cujo título já deixa claro seu teor radical. Nele, o autor libertário defende até os últimos limites a liberdade de expressão, assim como todos os atos consentidos entre adultos que não envolvem uso de violência contra terceiros. Seus argumentos são extremamente provocativos, tanto que Hayek considerou sua leitura uma terapia de choque tão forte como foi para ele a leitura de Mises antes.

Block considera que os "vilões" do mercado, como prostitutas ou traficantes, na verdade são bodes expiatórios. Ele tenta mostrar no livro que tais pessoas não são culpadas de uma ação de natureza violenta, e que, apesar da idéia contrária, eles acabam beneficiando a sociedade. A proibição de suas atividades levaria a uma perda geral, e não apenas para os usuários de tais atividades. Um exemplo seria a violência e criminalidade oriundas da proibição do comércio de algumas drogas. Sua premissa básica é que seria ilegítimo iniciar a agressão contra não-agressores, contra quem não inicia o uso da violência. Se adultos responsáveis lidam com essa gente, é de forma voluntária, portanto, mutuamente benéfica. O livre mercado é amoral, ele busca satisfazer da forma mais eficiente possível a demanda dos consumidores. Esta é que pode ser imoral ou não. O governo não deveria, então, punir uma ação somente por ser imoral, contanto que esta ação não esteja ameaçando ou iniciando o uso de violência física contra outros. Não quer dizer que as ações em si são morais ou adequadas, mas somente que o governo não deveria punir com prisão seus autores.

O primeiro caso defendido por Block é o das prostitutas. A prostituição é definida como uma troca voluntária de serviços sexuais por um preço. A parte essencial da definição é a expressão "voluntária". Se a força ou a fraude não está presente, e são dois adultos responsáveis consentindo, então a troca só ocorre porque ambas as partes desejam. Muitos podem achar a profissão degradante, mas isso não lhes dá o direito de impedir a escolha da prostituta. Normalmente, o ímpeto pela proibição da "profissão mais antiga da humanidade" vem justamente de terceiros, não envolvidos na troca. Eles deveriam ser ignorados, defende Block. Se não há agressão na troca, ninguém deve se meter. É um ato voluntário entre adultos, que assim querem, pois caso contrário bastava não realizar a troca. É esta mesma linha de raciocínio que estará presente no livro inteiro do autor. O caso das drogas é um exemplo. Ninguém além do indivíduo responsável deve ter a liberdade de escolha sobre consumir ou não drogas. Qual tipo de vida alguém quer levar, mesmo que uma vida de maiores riscos e talvez menor duração, é uma decisão individual. Aqui vamos focar na parte mais amena do livro, falando apenas da questão da liberdade de expressão.      

Em primeiro lugar, devemos entender que a liberdade de expressão diz que o indivíduo pode expressar suas idéias sem medo de coerção ou agressão. Ninguém é obrigado a lhe ceder os veículos de comunicação necessários. Cabe ao Estado apenas garantir sua segurança ao se expressar. Dito isso, devemos ter em mente que tal liberdade trará consigo o risco de escutarmos idéias controversas, que poderemos considerar até mesmo sórdidas. A liberdade somente existirá se as minorias forem livres para pregar suas idéias, por mais absurdas que possam parecer. Natan Sharansky, autor de The Case for Democracy, chegou a criar um método simples de se avaliar quão livre é uma nação, bastando verificar se o indivíduo pode ir em praça pública e contrariar com palavras o governo ou o consenso.

Infelizmente, muitos confundem liberdade com democracia, e ignoram que essa pode até mesmo acabar com aquela. Quando democracia não passa de uma ditadura da maioria, onde essa, mesmo que formada por 51% do povo, manda arbitrariamente no restante, não há liberdade verdadeira. Liberdade existe quando as minorias também são livres, e por isso as regras devem ser sempre válidas igualmente para todos. A fim de evitar este risco da ditadura de maiorias instáveis, os americanos criaram, logo na Primeira Emenda, o direito de liberdade de expressão, estendido a todos. Vindo em forma de pacote, as pessoas aceitam tal liberdade quase irrestrita, mesmo que tenham, com isso, que aturar as idéias opostas às suas. Em resumo, no liberalismo, até mesmo um socialista, que prega a destruição do liberalismo, pode se expressar. Já no socialismo, o liberal possivelmente acabará em um Gulag. Eis mais uma grande distinção moral entre os dois modelos.

Tal ideal de liberdade de expressão está longe de ser nossa realidade. O patrulhamento do "politicamente correto" anula totalmente esta liberdade. O teste é quando temos que agüentar o discurso contrário ao nosso, não quando garantimos a liberdade de repetirem, como vitrolas arranhadas, o consenso. E precisamos lembrar que a regra deve ser objetiva, válida igualmente para todos. Não é difícil citar exemplos contrários a tal modelo livre. A tentativa do governo do PT de impor uma cartilha politicamente correta foi o mais assustador passo na direção da supressão da liberdade de expressão. Mas fora isso, inúmeros outros casos demonstram pouca liberdade.

O relativismo moral entra também nesse conjunto que ameaça a liberdade de expressão. Como exemplo, podemos citar o caso de Salman Rushdie, romancista que escreveu Versos Satânicos, e foi jurado de morte por radicais islâmicos porque teria "ofendido" Khomeini. Os relativistas logo afirmaram que o autor não respeitou as crenças islâmicas, justificando o injustificável: a ameaça de morte porque o indivíduo expressou suas idéias! O livro de Dan Brown, O Código Da Vinci, sucesso de vendas, desagradou bastante a Igreja Católica. Ora, será que vamos defender o direito do Vaticano de ameaçar o autor? Dois pesos e duas medidas, outro grande risco à liberdade. A crença religiosa de uns não justifica a supressão da liberdade de expressão dos outros, mesmo que os primeiros considerem uma blasfêmia o que é dito pelos últimos. Para um não-crente, não existe algo como a blasfêmia, e sua liberdade deve ser respeitada.  

Um caso bastante polêmico tratado por Block é o direito de chantagem. Se cada indivíduo é dono de sua propriedade e de sua própria mente, segue-se daí que ele tem direito àquilo que pertence a ela, no caso seus conhecimentos. Caso seu conhecimento específico tenha sido obtido de forma legítima, ou seja, sem invasão de propriedade alheia, ele tem total direito de usá-lo da melhor forma que considerar desejável, novamente assumindo que ele não invade propriedade alheia. O relevante aqui é a idéia de que a imagem que os outros fazem de você não te pertence. Como disse Thomas Sowell, não é possível impedir as pessoas de falarem coisas ruins sobre você; tudo que se pode fazer é torná-las mentirosas. Alguém que vive inventando mentiras sobre as pessoas logo perde totalmente sua credibilidade. Mas ninguém tem o direito de calar à força os mentirosos. Muito menos os que estão falando uma verdade.

Ora, se alguém presenciou em local público um determinado evento, como, por exemplo, uma modelo famosa fazendo sexo em plena praia, por que ele deveria ser impedido de divulgar esta informação? A fofoca, na verdade, representa apenas o exercício desse direito. Mas vamos supor que o ato testemunhado seja bastante constrangedor para quem o praticou. Será que o silêncio não tem maior valor do que a fofoca? Como saber? A chantagem é uma oferta de troca. Costuma ser a proposta de trocar uma coisa, normalmente o silêncio, por outra coisa, normalmente o dinheiro. Se a chantagem é aceita, o chantagista mantém seu silêncio, em forma de segredo, e recebe por isso. Se a chantagem não é aceita, o chantagista apenas exerce seu direito de liberdade de expressão, relatando um dado que é de seu conhecimento legítimo. A diferença entre a fofoca e a chantagem é que na última, a pessoa ao menos oferece uma possibilidade da vítima pagar pelo silêncio. A fofoca expõe o segredo sem alerta, sem chance de qualquer negociação, e por este prisma pode ser vista como muito pior que a chantagem.

Walter Block defende que a legalização da chantagem é desejável pela ótica utilitarista também. Por ser ilegal, a chantagem costuma envolver atos violentos e criminosos, uma verdadeira máfia. Caso fosse legalizada, deixaria de ser crime, e a taxa de violência cairia bastante. As chantagens iriam aumentar, e as partes envolvidas poderiam escolher pagar ou não pelo silêncio, sem apelar para soluções criminosas. Seria uma negociação normal, como qualquer outra. É a mesma lógica do argumento de que a legalização das drogas iria reduzir a criminalidade, fruto justamente do fato de serem ilegais. Durante a Lei Seca americana, havia Al Capone e demais mafiosos. Após a legalização das bebidas alcoólicas, famílias tradicionais e empresários renomados assumiram o setor, de forma pacífica.

A questão parece estranha ou mesmo chocante para quem se acostumou a associar imoralidade à ilegalidade. No entanto, é preciso ter em mente que nem sempre aquilo que for visto como imoral deve ser ilegal também. Se não há uso de agressão ou ameaça de violência física, devemos usar como arma o poder das idéias, a persuasão. O chantagista pode ser visto como um ser humano mesquinho, que pensa em se dar bem explorando o sofrimento alheio. Tal como o fofoqueiro, pode ser visto como um urubu que vive de carniça humana, que não tem integridade para compreender a angústia de sua vítima e manter o silêncio sem nada cobrar. Mas nada disso justifica jogá-lo na prisão, usar a agressão contra ele, que não agrediu ninguém. Caberá à sociedade exercer pressão social contra esses tipos. Mas não é um trabalho para a polícia.

Por fim, o cerceamento da liberdade de expressão coloca em risco o nosso progresso. É simples ver isso, bastando pensar como estaria o mundo se as idéias controversas do passado tivessem sido caladas pelo "politicamente correto", pela defesa do status quo vigente. Darwin, Einstein, Galileu, Newton e vários outros não teriam tido a oportunidade de levantar suas teorias, que ajudaram a mudar o mundo, mas contrariavam o consenso da época. Como diz Walter Block, "é imperativo que os inimigos da liberdade de expressão sejam vistos exatamente como são: oponentes do progresso da civilização".

Pelo bem da humanidade, deve-se abraçar essa idéia com força. Com a exceção de ameaças de violência ou fraudes, o indivíduo deve ser livre para falar aquilo que quiser, não importa o quanto incomode ou choque a visão do consenso. Pode-se considerar um perfeito idiota o sujeito que acha tudo o que é consenso completamente idiota. Mas nesse mundo com liberdade de expressão, todos poderão expor suas idéias. No mundo sem tal liberdade, os que discordam da maioria estão perdidos.....


1 voto

autor

Rodrigo Constantino
é formado em Economia pela PUC-RJ e tem MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, primeiro como analista de empresas, depois como gestor de recursos. É autor de cinco livros: "Prisioneiros da Liberdade", "Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT", "Egoísmo Racional: O Individualismo de Ayn Rand", "Uma Luz na Escuridão" e "Economia do Indivíduo - o legado da Escola Austríaca".


  • Jerry  28/08/2011 18:42
    Olá. Tenho uma pergunta, caso alguém queira responder. Liberdade de expressão, até mesmo para quem fale a favor do racismo, nazismo e comunismo, deve ser aceito, certo? Eu abomino essas idéias, mas não vejo o menor problema nas pessoas -até mesmo as idiotas- dizerem o que querem.
  • Fernando Chiocca  28/08/2011 19:25
    Isso mesmo Jerry.

    Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las. -- Voltaire

    Se alguém é racista ou comunista (nazista) ele pode ser, contanto que não agrida a pessoa ou propriedade de outros, o problema é dele.

    Nos EUA, onde a primeira emenda de sua constituição que proibe claramente que o governo regule qualquer forma de expressão, ainda goza de muita liberdade de expressão. Lá, até nazistas podem se expressar livremente:

    Louis Theroux, and the Nazi's
  • tibartz  31/08/2011 20:11
    Fernando Chiocca, escrevi um texto ironizando um, digamos, "atentado politicamente correto". Um humorista brasileiro foi agredido por contar uma piada de gordo. É patético partir para a agressão física. Se o ocorrido fosse uma agressão verbal fortíssima (o que não houve, pois o humorista até gordo era) daria para tentar entender o caso. O agressor entendeu tudo errado. Depois leia a íntegra do site do G1.

    Se te interessar: tibartz.wordpress.com/2011/08/28/humorista-ben-ludmer-apanha-da-propria-plateia/
  • anônimo  03/03/2013 15:58
    sobre a prostituição,eu acho que deveria ser legalizada,para dar direitos as prostitutas e o mínimo de limpeza nos lugares aonde elas trabalham e também para evitar abusos por parte do dono da casa de prostituição

    numa democraria,a maioria toma as decisões pela minoria,exemplo o voto,só quem é eleito quem tem a maioria dos votos,a vontade da minoria não conta na escolha de algum cargo político

    direito a chantagem,eu sou contra,mesmo que o chantageado de o que o chantagista peça naquele momento,corre o risco do chantagista querer mais dinheiro algum tempo depois,isso eu acho que tem que ser criminalizado,pois pode causar um grande sofrimento para o chantageado,o chantagista também pode usar de meios ilegais para conseguir as infomações para chantagear as pessoas,como invadir a privacidade das pessoas

    legalização das drogas é uma coisa,a pessoa que usa maconha por exemplo,pode plantar a erva na sua casa,sem ter nenhum envolvimento com outra pessoa,mas no caso da chantagem só funciona com o envolvimento de outra pessoa

    o chantagista agrediu sim a pessoa,decidindo revelar informações obtidas de varios meios possiveis,inclusive dos ilegais

    chantagem é uma agração tão real quando a ameaça de violência,se for para legalizar a chantagem,vai ter que legalizar a ameaça de violência também,já que quem faz a ameaça está apenas exercendo o seu direito de liberdade de expressão

    eu acho que no futuro com a evolução social,todos vamos poder ter plena liberdade de expressão,mas a sociedade ainda não chegou a esse nível,mas por hora poderia ser discriminalizado,os crimes contra honra que não foi citado nesse artigo,pois esses crimes contra a honra sim,são uma agressão violenta a liberdade de expressão e a sociedade já chegou a um nível social para abolir de vez com os crimes contra a honra
  • anônimo  24/10/2015 11:55
    "sobre a prostituição,eu acho que deveria ser legalizada,para dar direitos as prostitutas e o mínimo de limpeza nos lugares aonde elas trabalham e também para evitar abusos por parte do dono da casa de prostituição"

    Cara, você já foi em um puteiro? Tem certeza que sabe o que acontece por lá?

    "numa democraria,a maioria toma as decisões pela minoria,exemplo o voto,só quem é eleito quem tem a maioria dos votos,a vontade da minoria não conta na escolha de algum cargo político"

    Justamente por isso que a democracia é uma bela porcaria.
    Se você estivesse em uma sala com 3 pessoas e cada um deles tivesse 50 reais, você com 100 reais e haveria uma votação para decidir juntar o dinheiro de todos e dar para um de vocês redistribuir da forma que achar melhor, você estaria confortável com isso? Tenho certeza que não

    "direito a chantagem,eu sou contra,mesmo que o chantageado de o que o chantagista peça naquele momento,corre o risco do chantagista querer mais dinheiro algum tempo depois,isso eu acho que tem que ser criminalizado,pois pode causar um grande sofrimento para o chantageado,o chantagista também pode usar de meios ilegais para conseguir as informações para chantagear as pessoas,como invadir a privacidade das pessoas"

    Faça um contrato, simples.

    Se a chantagem causa grande sofrimento para o chantageado, é problema exclusivamente dele, o que ele fez de tão grave aos olhos da sociedade que não pode ser dito?

    Se o chantagista invadir a propriedade alheia consequentemente ele está ferindo o pna, ou seja...
  • Liberdade de Expressão  31/12/2013 00:01
    Olha aí o Daniel Fraga, meu joinha!
  • Adriano Farias  05/08/2017 19:46
    Algumas dúvidas. Em um contexto de sociedade libertária:


    Se alguém aponta uma arma para você e lhe persuade a fazer algo que não queira, isto é considerado uma agressão que viola princípios de liberdade?

    Se alguém lhe jura de morte você não poderá tomar nenhuma atitude que possa restringir a liberdade deste indivíduo de poder concretizar tal ato?

  • Amante da Lógica  06/08/2017 14:29
    Sim. É coerção, agressão e escravidão.

    Óbvio que pode. O agressor, de livre e espontânea vontade, deixou explícito que irá retirar a sua vida. Ele confessou que irá lhe matar.
  • Adriano Farias  14/08/2017 18:59
    Obrigado!
  • Adriano Farias  14/08/2017 19:18
    Pelo o que entendi, agressão física ou ameaça de agressão física violam o Princípio de Não Agressão(PNA). E quanto à agressão psicológica? Xingar e denegrir a imagem de outra pessoa, como por exemplo um pai que grita e ofende seu filho desde a infância, levando a transtornos de ordem psicológica, ou o assédio moral do patrão sobre seu empregado, levando a prejuízos no seu desempenho profissional. A agressão verbal pode desencadear danos à saúde psicológica. O PNA não deveria levar em conta está categoria de agressão?
  • Fernando  14/08/2017 19:31
    Não. Palavras não configuram agressão física. Se palavras fossem agressão, a civilização acabaria. Qualquer coisa que qualquer pessoa falasse poderia configurar agressão, dependendo inteiramente da interpretação subjetiva (e da sensibilidade) da outra pessoa.

    Nenhuma lei que depende inteiramente da subjetividade e da delicadeza alheia pode ser justa e racional.

    Se você falasse que eu sou feio, e eu me sentisse ofendido com isso, você automaticamente se transformaria num criminoso. Aí eu o acionaria judicialmente e você estaria acabado (ou iria pra cadeia ou me pagaria uma pesada indenização até ir à falência).

    No extremo, ninguém mais dialogaria com ninguém, tão temerosas as pessoas ficariam de serem acusadas de agressoras. Isso seria bizarro.

    De novo: palavras não configuram agressão. Prova disso é que se você xingar um surdo, ele seguirá indiferente a você, e a vida dele prosseguirá normalmente. Já se você espancar um surdo, as consequências para ele serão bastante diferentes.
  • Adriano Farias  15/08/2017 14:59
    Não concordo que agressões psicológicas sejam absolutamente isentas de punição. Crianças e idosos, por exemplo, são extremamente vulneráveis a este tipo de agressão. Uma criança que vive em um ambiente onde os pais o xingam e humilham pode levar a transtornos comportamentais que acompanharão esta criança pelo resto de sua vida. Um idoso ou deficiente mental que vive sendo xingado e ofendido vai sofrer muito e possivelmente desencadear problemas de saúde.

    O ser humano não é estritamente racional. Não é possível ignorar o seu lado emocional. Em um extremo ninguém dialogaria mais com ninguém, mas esta hipótese carece de plausibilidade. Não creio ser possível generalizar e dizer que toda agressão psicológica é passível de punição e nem que nenhuma agressão psicológica é passível de punição. Uma análise de caso de agressão psicológica, por mais subjetiva que a situação possa ser, não deve ser excluída por tratar-se de uma questão subjetiva.

    Argumentos baseados em primeiros princípios, por mais atraente que sejam, não devem ignorar todas as possíveis consequências que deles decorrem.
  • Rogério Passos  15/08/2017 15:46
    "Não concordo que agressões psicológicas sejam absolutamente isentas de punição."

    Beleza. Mas quem irá estipular o que é agressão e o que não é? Mais ainda: quem irá atribuir a punição? Com base em que lógica racional e justa?

    "Uma criança que vive em um ambiente onde os pais o xingam e humilham pode levar a transtornos comportamentais que acompanharão esta criança pelo resto de sua vida."

    E quem será o policial que ficará dentro de cada lar, com um caderninho, anotando as "agressões verbais" e ministrando punições? O menino faz bagunça, o pai grita e o repreende, o menino chora, o pai vai preso. Imagina só que maravilha.

    "Um idoso ou deficiente mental que vive sendo xingado e ofendido vai sofrer muito e possivelmente desencadear problemas de saúde."

    Idem ao que foi dito acima.

    Não quero ofendê-lo, mas você está apenas dizendo platitudes. Falar que é contra uma atitude (que não envolve agressão física e nem ameaça de), ok. Mas pedir punição para quem a faz já é um salto e tanto.

    A simples defesa dessa ideia leva à imposição de todos os tipos de totalitarismos imagináveis. Se pudermos punir e mandar para a cadeia qualquer pessoa que gritou com outra, acabou a civilização.

    "O ser humano não é estritamente racional. Não é possível ignorar o seu lado emocional."

    Opa! Concordo plenamente!

    Mas aí vem outra encrenca: quem fará o julgamento do "pai que gritou com o filho" senão outro indivíduo emotivo e não estritamente racional?

    Fazer condenações baseadas na emoção e não na razão -- que é o que você está fazendo -- é uma postura incomensuravelmente perigosa. Qualquer pessoa que se disser ofendida poderá mandar outra para a cadeia.

    "Uma análise de caso de agressão psicológica, por mais subjetiva que a situação possa ser, não deve ser excluída por tratar-se de uma questão subjetiva."

    Imagine só o resultado disso? Na mais branda das hipóteses, os tribunais ficariam entupidas de casos envolvendo meras agressões verbais. "Ah, Fulano gritou comigo e me ofendeu! Quero indenização e cadeia para ele!" Viraríamos um estado policial, em que cada vizinho denunciaria o outro por "falar alto com o filho".

    "Argumentos baseados em primeiros princípios, por mais atraente que sejam, não devem ignorar todas as possíveis consequências que deles decorrem."

    E os argumentos baseados puramente na emoção?! Vale ressaltar que todas as ditaduras (de esquerda e de direita) sempre ascenderam por meio de apelos à emoção.
  • Adriano Farias  15/08/2017 19:53
    "Beleza. Mas quem irá estipular o que é agressão e o que não é? Mais ainda: quem irá atribuir a punição? Com base em que lógica racional e justa?"

    Não tenho ainda uma proposta robusta para estabelecer quando uma agressão psicológica se configuraria mas reafirmo que não é admissível que agressões psicológicas sejam absolutamente isentas de punição. Mas simplesmente ignorar que danos de ordem psicológica existem e que podem ser causados por outros indivíduos e que estes devem ser punidos após submetido ao devido processo legal também não é solução. Minha proposta de se considerar ilegal atos de agressão psicológica seriam aplicáveis principalmente à indivíduos reconhecidamente vulneráveis, como idosos, crianças e doentes mentais.

    "E quem será o policial que ficará dentro de cada lar, com um caderninho, anotando as "agressões verbais" e ministrando punições? O menino faz bagunça, o pai grita e o repreende, o menino chora, o pai vai preso. Imagina só que maravilha."

    Uma proposta seria, ao invés de policiais dentro de cada lar, o acompanhamento psicológico por profissionais de saúde de indivíduos vulneráveis, já que métodos clínicos baseados em metodologias científicas são menos passiveis de julgamentos subjetivos. Claro que isto incorre em outro problema, a saber, se os responsáveis pelos vulneráveis deveriam autorizar o acompanhamento psicológico. Esta é uma questão que pretendo refletir e gostaria de sugestões.

    "Não quero ofendê-lo, mas você está apenas dizendo platitudes. Falar que é contra uma atitude (que não envolve agressão física e nem ameaça de), ok. Mas pedir punição para quem a faz já é um salto e tanto.

    A simples defesa dessa ideia leva à imposição de todos os tipos de totalitarismos imagináveis. Se pudermos punir e mandar para a cadeia qualquer pessoa que gritou com outra, acabou a civilização."


    Porque deveríamos deixar impunes os indivíduos que praticam atos de violência contra vulneráveis por não haver um meio objetivo, como exame de corpo de delito, de se comprovar o dano? Agressões psicológicas existem e causam danos sim, não há dúvida. Não defendo que toda agressão verbal é punível. Deve haver julgamento, observando-se todas as evidências, como gravações de áudio e vídeo, testemunho de vizinhos, as alegações da vítima e do réu, laudos de psiquiatras, e tantas outras ferramentas que pudermos por à disposição para elucidar cada caso. A simples defesa dessa ideia não leva à imposição de todos os tipos de totalitarismos imagináveis. Não poderemos mandar para a cadeia qualquer pessoa que gritou com outra pois a configuração da agressão deverá ser analisada com critérios, como plausibilidade, comprovação do dano por laudo médico, direito de defesa. Não somos autômatos que, dado regras baseadas em uma ética proposta, simplesmente seguimos suas conseqüências não importa quais elas sejam.

    "[...]quem fará o julgamento do "pai que gritou com o filho" senão outro indivíduo emotivo e não estritamente racional?

    Fazer condenações baseadas na emoção e não na razão -- que é o que você está fazendo -- é uma postura incomensuravelmente perigosa. Qualquer pessoa que se disser ofendida poderá mandar outra para a cadeia."


    Com certeza que quem fará o julgamento do "pai que gritou com o filho"será uma pessoa que não é estritamente racional. Que outra espécie de ser seria além de outro ser humano? Fato é que o pai deverá ser julgado caso alguém tome partido pela criança, já que a mesma, na maioria das situações, não tem autonomia para fazê-lo. Daí a ser condenado é outra história. O problema da falta de objetividade que carece a agressão psicológica é também partilhado por tipos de agressão mais concretas: Se um vizinho seu liga um som alto ele pode causar lesões auditivas a você. Mas como definir o que é um som alto? Quantos decibéis? Seu vizinho agora queima lixo no quintal e a fumaça invade sua residência: quanta fumaça é considerada agressiva? E quanto à radiação eletromagnética? Não vou citar fontes mas existem estudos apontando riscos à saúde por emissões eletromagnéticas geradas por um outro vizinho seu que possui um rádio amador. E quando você conversa com um amigo e sem saber recebe dele um bombardeamento de bactérias provenientes de sua saliva. Houve agressão neste caso? Assim, da mesma forma poderia eu mandar todos estes meus vizinhos para a cadeia.

    " "Argumentos baseados em primeiros princípios, por mais atraente que sejam, não devem ignorar todas as possíveis consequências que deles decorrem."

    E os argumentos baseados puramente na emoção?! Vale ressaltar que todas as ditaduras (de esquerda e de direita) sempre ascenderam por meio de apelos à emoção."


    Você parece possuir uma filosofia extremamente radical. Ou somos todo emoção ou todo razão. Será mesmo que isto se verifica? O que quero dizer afinal é que não existe objetividade perfeita, não existe ética perfeita e princípios fundamentais podem levar a conseqüências indesejadas. Temos que ser criteriosos e não seguir às cegas uma ideologia. O Princípio de Não Agressão não é infalível.


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