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“Governos nunca quebram, pois podem imprimir dinheiro!”, dizem. A Venezuela prova o contrário
Imprimir dinheiro não só não evitou, como acelerou a falência da Venezuela

"Um estado soberano que pode imprimir sua própria moeda jamais irá quebrar", dizem incessantemente vários economistas adeptos de teorias heterodoxas.

Segundo essa linha de raciocínio, a dívida pública não representa nenhum problema insolúvel, pois, em última instância, caso o governo não mais consiga investidores interessados em comprar os títulos públicos aos juros oferecidos, ele pode simplesmente imprimir dinheiro para se autofinanciar e, com isso, manter todo o arranjo econômico funcionando.

Essa, com efeito, é uma das principais críticas que fazem ao euro: dado que os países-membros não podem imprimir euros livremente, eles se tornam reféns dos investidores. Se os investidores não quiserem comprar a dívida pública — ou exigirem juros extremamente altos para isso —, os governos irão quebrar. Já se os países pudessem imprimir dinheiro, isso nunca aconteceria.

Por tudo isso, para tais pessoas, a capacidade de um governo poder imprimir dinheiro representa uma salvaguarda contra o endividamento, impede que um governo efetivamente quebre e, acima de tudo, permite que toda a economia possa funcionar sem solavancos. Por que se preocupar com o tamanho da dívida se você pode recorrer à impressora de dinheiro? Por que colocar em si próprio uma camisa de força que impossibilita aproveitar todo o potencial financeiro?

Por tudo isso, preocupar-se com coisas como equilíbrio orçamentário e responsabilidade fiscal seria um vício de ortodoxos socialmente insensíveis.

A realidade, obviamente, é bem diferente deste conto de fadas.

Evidentemente, se a dívida de um governo está denominada em uma divisa que esse governo pode imprimir livremente, então, por definição, ele sempre poderá evitar o calote. Ele sempre poderá imprimir dinheiro para quitar esses títulos. Em termos técnicos, ele sempre poderá hiperinflacionar a moeda para garantir que a dívida continue sendo paga. Só que isso garante apenas que a dívida possa ser paga em termos nominais.

O verdadeiro problema é que esse governo, de maneira nenhuma, poderá evitar que ocorra um calote em termos reais, isto é, que a dívida seja paga em uma moeda hiperinflacionada que já não possui nenhum poder de compra. Neste caso, mesmo que o governo pague sua dívida em termos nominais, o calote ocorreu em termos reais. Os credores emprestaram dinheiro ao governo quando a moeda valia alguma coisa e, tempos depois, receberam de volta uma moeda cujo poder de compra é muito menor do que quando emprestaram.

Sabendo disso, e para evitar tomarem esse calote, há duas opções para os investidores:

1) ou eles cobram juros nominais astronômicos como forma de tentar compensar o risco da hiperinflação futura [no Brasil, no auge da hiperinflação, os juros chegara a um pico de 800.000%]; ou

2) deixam de comprar esses títulos e exigem que o governo emita títulos em outra moeda, mais forte e fora do controle deste governo.

A primeira opção obviamente afeta toda a economia e é insustentável no longo prazo. Dado que o governo está hiperinflacionando a moeda, então bancos e financeiras só irão emprestar dinheiro para pessoas e empresas em troca de juros exorbitantes (muito acima da hiperinflação projetada para o futuro), exatamente para se protegeram da profunda desvalorização que ocorrerá com a moeda. Com juros astronômicos e uma moeda destroçada — o que desarranjo todo o sistema de preços e impossibilita por completo qualquer cálculo econômico sobre lucros e prejuízos para projetos de investimento —, toda a economia entra em colapso e regride ao estado de escambo. Escassez e desabastecimentos se tornam rotineiros.

E isso, presume-se, é exatamente o oposto do que intencionavam os defensores deste arranjo.

Por isso, a segunda opção acaba sendo a única mais sensata para esse governo.

Já a Venezuela recorreu aos dois.

Imprimindo até quebrar

A Venezuela está vivenciando uma galopante hiperinflação, fruto da explosão da quantidade de dinheiro na economia.

Os gráficos abaixo mostram a evolução da quantidade de cédulas de papel e de depósitos em conta-corrente na economia venezuelana (agregado M1) de acordo com as estatísticas do próprio Banco Central venezuelano. É necessário dividir em dois gráficos porque a explosão da oferta monetária foi sem precedentes.

venezuela-money-supply-m1.png

Gráfico 1: evolução da quantidade de cédulas de papel e de depósitos em conta-corrente na Venezuela, de janeiro de 2007 a dezembro de 2015

venezuela-money-supply-m1 (1).png

Gráfico 2: evolução da quantidade de cédulas de papel e de depósitos em conta-corrente na Venezuela, de janeiro de 2016 a novembro de 2017

Apenas não perca as contas: no primeiro gráfico, a oferta monetária em dezembro de 2015 é de quatro trilhões de bolívares. Já hoje, novembro de 2017, esse montante já está em quarenta trilhões de bolívares.

Isso significa que, em menos de dois anos, a quantidade de dinheiro na economia simplesmente decuplicou. Ou seja, dinheiro, em si, nunca faltou.

Entretanto, o governo venezuelano acabou de se declarar insolvente e incapaz de fazer frente à sua dívida denominada em dólares. [Nessa, o Brasil levou um calote de US$ 262 milhões].

Desde 1999, quando Hugo Chávez chegou ao poder, a dívida pública externa venezuelana subiu de 26 bilhões de dólares para 150 bilhões de dólares. O que leva às inevitáveis perguntas: por que um estado tão soberano e tão anti-imperialista quanto a Venezuela optou por emitir dívida em dólares e não em bolívares? Como é possível que ele tenha cometido, durante tantos anos, um erro tão elementar? Por que o país optou por renunciar à sua invejável soberania monetária para submeter-se ao opressivo jugo do endividamento em dólares, essa "moeda imperialista"?

Ora, tanto Chávez quanto Maduro multiplicaram a dívida venezuelana denominada em dólares não por gosto, mas sim por pura necessidade: a credibilidade de sua moeda nacional, o bolívar, era — e continua sendo — tão nula, que nenhum investidor se mostrou disposto a comprar os títulos denominados em bolívares. Quem é que gostaria de ser pago em uma moeda que nada vale?

Consequentemente, para que o regime bolivariano conseguisse importar bens e serviços básicos do estrangeiro em um montante acima daquele que era capaz de pagar com suas reservas internacionais, não havia outra solução senão endividar-se em dólares. O bolívar é divisa non grata fora da Venezuela (ao contrário do que ocorre com o dólar, o euro, a libra, o franco suíço e o iene fora de seus países de origem) e é assim porque ao longo das últimas décadas o governo venezuelano o administrou de maneira deliberadamente mal para conseguir se financiar internamente pela via inflacionária.

Neste sentido, não é nenhuma casualidade que todos os países com moeda forte contem com bancos centrais (relativamente) independentes dos caprichos orçamentários de seus governantes. A independência serve para sinalizar à comunidade investidora que tal país não irá abusar da multiplicação inflacionária da moeda para financiar seus déficit fiscais.

Conclusão

A lição é simples e direta: um estado soberano que abuse da criação indiscriminada de moeda para financiar seus déficits e, com isso, tentar manter sua solvência financeira, rapidamente deixará de ser soberano do ponto de vista monetária e se tornará insolvente.

Com a moeda nacional destroçada, nenhum estrangeiro a aceitará em troca de moeda forte. Consequentemente, se esse país tiver de importar bens e serviços essenciais, não haverá outra saída senão endividar-se em moeda estrangeira — isto é, em uma moeda que o governo não será capaz de manipular por estar fora do seu controle.

E, como acaba de nos demonstrar a socialista Venezuela, um estado com soberania monetária e liberdade para imprimir dinheiro para financiar seus déficits e pagar sua dívida pode sim quebrar.

Não se pode enganar todo mundo o tempo todo para sempre.

 

26 votos

autor

Juan Ramón Rallo
é diretor do Instituto Juan de Mariana e professor associado de economia aplicada na Universidad Rey Juan Carlos, em Madri.  É o autor do livro Los Errores de la Vieja Economía.


  • Carlos S Damasceno  14/11/2017 14:23
    Ciro Gomes precisa com urgência ler isso.
  • Antipaternalista  14/11/2017 14:41
    Por que precisa? Você acha que ele defende o contrário por engano? Coitadinho dele, sem instrução. Como vocês, liberais, são ingênuos. É por isso que apanham na política.

  • Júlio   14/11/2017 15:09
    Ah, na política apanhamos mesmo. Nunca soubemos como ser demagogos o suficiente para ter alguma chance. Na democracia, apenas os piores, maus caráter, demagogos e mentirosos chegam ao poder (tanto é que a família Gomes está no comando do Ceará desde 1990).

    Ah, e obrigado pela honestidade de reconhecer que os liberais nunca tiveram qualquer chance na política, e consequentemente nunca estiveram no comando do país.

    Assim, parabéns por assumir que todas as merdas e cagadas econômicas neste país foram feitas pelos anti-liberais.

    Tem meu respeito.
  • Igor  14/11/2017 16:23
    "Você acha que ele defende o contrário por engano?"

    Não, por orgulho do desconhecimento dele mesmo!
  • Gutemberg  14/11/2017 18:31
    Mostraram pra ele. Ele até tentou contra-argumentar, dizendo que não era bem isso o que ele defendia. Aí saiu isso aqui:

    media1.giphy.com/media/fJGwxnqWNgbew/giphy.gif
  • Lel  15/11/2017 00:03
    O Coroné não se importa com a verdade.

    Mas imbecil mesmo é quem vai votar em mais um desenvolvimentista.
  • Libertario raiz  15/11/2017 06:42
    Imbecil é quem vai votar, legitimar a máfia e pensa que mudará alguma coisa. O povão, que toca a vida ignorando políticos, é bem mais liberal que vocês.
  • Isaías M.  14/11/2017 14:24
    Que aula, meus amigos!
  • JOSE F F OLIVEIRA  14/11/2017 14:27
    A população de um determinado PAÍS são cúmplices pelas ANOMALIAS e DESASTRES existentes, na ordem das Finanças Públicas interna ?
  • Marcelo  14/11/2017 14:38
    De certa forma, sim, pois é ela quem chancela (e até mesmo exige) todos os gastos sociais, todos os empreendimentos estatais, todos os tipos de programas governamentais, toda a expansão dos empregos públicos, todo o inchaço do funcionalismo público etc.

    Acima de tudo, é ela quem elege e reelege governos perdulários.
  • Eduardo Henrique Mendes  14/11/2017 16:05
    A "população" não sabe muita coisa.
  • Pobre Paulista  14/11/2017 15:18
    Mas a gasolina lá é barata
  • Ricardo Ferreira de Oliveira  14/11/2017 15:59
    Mas a gasolina não faz bem para o estômago. Deixa o fígado doido e os citocromos P450 em polvorosa.
  • Andre  14/11/2017 15:20
    Este artigo é recado iminente para a terra de Pindorama e sua dívida pública de 80% do PIB e subindo?
  • Didi  14/11/2017 15:23
    ASÍ ÉS!

    De acordo com informações oficiais, a dívida atinge o montante exagerado de 150 bilhões de dólares, o que implica que cada cidadão deve 4.720 dólares pelo compromisso da dívida externa adquirida pelo governo venezuelano e Petróleos de Venezuela (Pdvsa). Isso é revisado por uma obra de Ana Díaz, publicada em El Nacional.

    Este cálculo é baseado em uma população de 31,7 milhões de pessoas.

    Aparentemente, de acordo com Alejandro Grisanti, diretor da Ecoanalítica, com a redistribuição da dívida, as condições do venezuelano serão substancialmente afetadas. Embora a inflação seja reduzida por 6 a 9 meses , o efeito da escassez e o desabastecimento será muito pior devido à falta de moeda estrangeira.

    Os cidadãos, por outro lado, comentam que, definitivamente, pela quantidade de dinheiro que a Venezuela tem que pagar, a medida e suas conseqüências o povo é que acabará "pagando".

    ¿ME EXPLICO?

    https://maduradas.com/insostenible-cada-venezolano-debe-4-720-dolares-por-la-deuda-externa/
  • Político  14/11/2017 15:26
    Exato, liberais acham que lógica ganha voto, o artigo é excelente, mas é pura pregação para convertidos.
  • Economista  14/11/2017 16:15
    Com a diferença de que não há pregação nenhuma. Há apenas explicações lógicas e racionais, que permitem que qualquer leigo inteligente consiga compreender o ocorrida.

    Explicação lógica e racional é o exato oposto de pregação para convertidos.
  • SERGIO MARDINE FRAULOB  17/11/2017 10:20
    O mundo é complexo. Embora a "visão Mises" do mundo seja correta, ela é insuficiente porque as pessoas não são exatamente racionais e até combatem a razão, votando com a emoção. O comunismo e socialismo também estariam corretos se as pessoas agissem corretamente.
  • Fabrício  17/11/2017 11:22
    Errado. Mesmo se o socialismo fosse gerido por anjos íntegros, probos e competentes, ele ainda assim não teria como funcionar.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2136
  • Constatação  14/11/2017 15:29
    Tem mais quatro na foto que já poderiam estar dentro da "embalagem" para a qual estão olhando.
  • Estudante  14/11/2017 16:26
    Olha lá amor que lindo, um neoliberal pobre.
  • Maestro  14/11/2017 18:40
  • Nordestino Arretado  15/11/2017 00:21
    Kkkkkkkk o pessoal aqui às vezes exagera na zoeira.
  • Gutemberg  14/11/2017 18:20
    No fundo, ainda tá cheio de economista diplomado e graduado que jura que dinheiro é riqueza. Ninguém fica rico com acúmulo de dinheiro e sim com acúmulo de riquezas. Dinheiro é tão somente um meio de troca, algo feito para precificar as riquezas que produzimos e assim conseguirmos troca-las com as riquezas que outras pessoas produzem. O dinheiro em si não vale nada. Do que adianta vc ter um baú com o equivalente a 1 bi de dólares no meio do deserto do Saara?
  • Emerson  14/11/2017 18:36
    O problema nem é governos quebrarem. O problema é que, quando quebram, levam junto todo o país, pois a moeda se esfacela por completo e, consequentemente, toda a divisão do trabalho se desintegra, a economia volta ao escambo e toda a poupança da população, acumulada durante uma vida inteira de trabalho, se esvai por completo.
  • John Maynard Keynes  14/11/2017 19:26
    Isso mesmo. Governos não quebram, eles quebram as nações e escravizam a população. Aí resta exportar serviços de escravos para países alinhados ou sem escrúpulos mesmo (Cuba -> Brasil, NK -> China).
  • Fábio Augusto  14/11/2017 18:45
    Claro que imprimir dinheiro sem limites é hiperinflacionário e não dá certo. Ok, todos sabemos.

    Mas há sentido no modelo atual em que o aumento da base monetária (necessário para alcançar a meta de inflação)necessita de emissão de dívida do governo (para o BACEN recomprar os títulos dos bancos)?

    Se há uma meta de inflação, uma impressão moderada de moeda não poderia, EM TESE (sei que políticos sempre tenderão a imprimir moeda sem limites), servir para atingi-la sem aumentar o endividamento do Estado?




  • Leandro  14/11/2017 19:44
    "Mas há sentido no modelo atual em que o aumento da base monetária (necessário para alcançar a meta de inflação) necessita de emissão de dívida do governo (para o BACEN recomprar os títulos dos bancos)?"

    Vamos com calma.

    Em primeiro lugar, o problema no Brasil sempre foi ficar dentro da meta da inflação (pois quase sempre ficamos acima da meta). Assim, a sua afirmação de que o BC aumenta a base monetária para alcançar a meta de inflação transmite uma conotação errada: passou a impressão de que o BC tem de imprimir dinheiro para alcançar a meta, sendo que a realidade é que ele tem de se restringir para não furar o teto a meta.

    Este ano de 2017 é que está atípico. Em todos os outros anos (com exceção de 2006), o esforço era para não furar o teto da meta.

    Dito isso, você está certo em criticar o modelo, ainda que por vias tortas.

    Na prática, o BC cria moeda para comprar os títulos em posse dos bancos não exatamente para ajustar a inflação de preços, mas sim para garantir liquidez ao mercado de títulos públicos.

    Sim, a principal função de um Banco Central, em qualquer país do mundo, é a mesma: financiar os déficits do governo.

    Caso não existisse um Banco Central, a quantidade de dinheiro na economia se manteria relativamente constante; ela poderia ser aumentada temporariamente pelo sistema bancário caso este praticasse reservas fracionárias, porém essa expansão seria relativamente restrita. Sendo assim, com a quantidade de dinheiro relativamente constante, haveria um limite tanto para a quantidade que o estado poderia arrecadar via impostos quanto para a quantidade que ele poderia tomar emprestado junto aos bancos.

    Quanto mais o estado se endividasse, quanto mais dinheiro ele tomasse emprestado, menos dinheiro sobraria para os bancos emprestarem para pessoas e empresas. Consequentemente, maiores seriam os juros cobrados sobre esses empréstimos — afinal, a quantidade de dinheiro a ser emprestada ficou reduzida, pois o governo abocanhou grande parte para cobrir seus gastos.

    É nesse cenário que entra a "genialidade" por trás da criação de um Banco Central.

    Imagine que você é um banqueiro. Você também sabe que a maneira como o Banco Central cria dinheiro é comprando títulos públicos que estão em sua posse. Logo, não é preciso ser nenhum gênio das finanças para entender que o investimento mais óbvio e seguro que você pode fazer é justamente comprar os títulos públicos que o Tesouro põe à venda.

    Em outras palavras, você alegremente vai financiar o déficit do governo, pois sabe que esses títulos que você vai comprar do Tesouro serão mais tarde comprados pelo Banco Central, pois é assim que ele faz política monetária.

    É justamente por saberem que os títulos do Tesouro serão comprados pelo Banco Central — o que significa que eles possuem um mercado de revenda garantido e de alta liquidez —, que os bancos animadamente financiam o déficit do governo.

    Ou seja, aquilo que antes era feito diretamente — com o BC dando dinheiro diretamente para o Tesouro, o que gerou hiperinflação e foi proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal -- agora passou a ser feito indiretamente, só que um adicional: agora os bancos entraram nesse arranjo e lucram enormemente com isso.

    Por outro lado, há a vantagem de que, sob tal arranjo, é praticamente impossível haver hiperinflação.No atual arranjo financeiro, o Banco Central não injeta dinheiro diretamente na economia; ele injeta dinheiro apenas nos bancos, e os bancos é que decidem se irão despejar este dinheiro na economia por meio da criação de crédito. Assim, para haver hiperinflação, empresas e pessoas teriam de se endividar aos trilhões e em pouco tempo, algo totalmente não-factível.

    "Se há uma meta de inflação, uma impressão moderada de moeda não poderia, EM TESE (sei que políticos sempre tenderão a imprimir moeda sem limites), servir para atingi-la sem aumentar o endividamento do Estado?"

    Você próprio já deu a resposta em sua observação parentética. Tal sistema é insustentável, pois os políticos sempre irão abusar dele. Toda vez que tal sistema foi adotado -- BC podendo financiar diretamente o Tesouro --, ele se degenerou em hiperinflação. Não há exceção. Não há como controlar isso. Não há como manter os políticos fora do arranjo.

    Milton Friedman chegou a defender esse arranjo. Ele queria um computador cuspindo dinheiro a uma taxa de 4% ao ano. Depois mudou pra 3%, depois pra 2%, e depois ele parou de falar sobre isso. Viu que era delírio por causa da política.

    Com efeito, se o objetivo é esse -- aumentar a moeda a uma taxa fixa, e sem sofrer a influência de políticos --, então faria muito mais sentido retornar ao padrão-ouro, pois este sim é escavado do chão a uma taxa anual relativamente constante e está totalmente fora do controle de políticos.

    Portanto, eis as duas opções factíveis: modelo atual (com alto endividamento, mas sem risco de hiperinflação) ou modelo da década de 1980 (baixo endividamento e hiperinflação arrasadora).
  • Fábio Augusto  14/11/2017 22:20
    Leandro, agradeço a resposta. Muito esclarecedora, como sempre.

    O que eu quis dizer no começo foi que o Bacen busca uma inflação mínima, né? Ao menos pelas metas historicamente estabelecidas pelo Copom. Então se a moeda estiver estável, em tese haverá compra de títulos para aumentar a base monetária e a inflação convergir para o centro da meta. A sua própria atuação é na pratica inflacionária, como bem explicado em outros artigos. Além disso, como você disse, garante o financiamento do Estado.

    O meu ponto é que como é algo buscado pelo Governo, não há sentido pagar juros por isso. Hoje uma boa parte do orçamento é serviço da dívida.

    Mas é isso, o problema sempre seria o abuso político, que geraria hiperinflação. Infelizmente, pagamos juros que acabam com o poder de investimento do Estado pelo risco político do outro modelo.

    O que você acha da tese do documentário "the money masters" de acabar com o sistema de reserva fracionária e imprimir o dinheiro correspondente para pagar dívida?

    Se fosse aprovado algo assim a impressão do dinheiro ficaria limitada ao montante da moeda escritural.

    Talvez o risco político seria mitigado...



  • Zézão Cianureto  14/11/2017 19:15
    Mas e dai?
    Boa parte do mundo está praticando uma politica parecida, através de seus Bancos Centrais.
    Como o Brasil pode aplicar Mises se o mundo insiste em usar Keynes?
    Já li artigos aqui no Mises Brasil sobre a China e Japão que a décadas usam artifícios keynesianos para "alavancar" suas economias.
    Como podemos sair desse ciclo vicioso aparentemente mundial?
  • Luiz Moran  14/11/2017 19:25
    O que os políticos condenados no mensalão e na lava jato tem em comum ?

    a) estão milionários ou bilionários

    b) estão soltos ou em "prisão domiciliar"

    c) continuam recebendo seus salários

    d) continuam praticando crimes

    e) todas as alternativas anteriores

  • Anos 80  14/11/2017 20:29
    Basta o governo indexar tudo, cortar zeros periodicamente e às vezes algum plano econômico louco com efeitos temporários, dar bons incentivos aos setores exportadores principalmente primários para fazer frente á dívida em moeda forte enquanto mantém na rédea curta importações de bens de consumo e gastos no exterior de pessoas sem intenções de negócios.
    Brasil ficou de 1980 a 1994 com inflação acima dos 100% anuais e poderia ficar muitos mais se não fossem as intenções eleitoreiras do PSDB.
  • Jonatas de Almeida  14/11/2017 20:46
    Sou novo no site, como se faz para votar ?
  • Caio  14/11/2017 21:33
    Canto superior direito, onde está escrito "Olá, Visitante". Clique ali, coloque email e senha (a qual você inventará na hora), e pronto.
  • Silvio Costa  14/11/2017 21:16
    Pessoal, o site é ótimo; mas a imagem do post está muito apelativa. Coloquem uma outra imagem que não remeta um momento de luto, independente das ideias que o outro lado está emitindo.
  • Fabrício  14/11/2017 21:33
    Ah, nem... Pensava que ao menos este site estaria livre da gemeção e do politicamente correto.

    Meu caro, a imagem é do velório de Hugo Chávez e, ao meu ver, possui um excelente simbolismo: representa o próprio enterro da Venezuela, cuja bandeira adorna o caixão do falecido tirano. Chávez, ao ser enterrado, leva consigo, para baixo da terra, o próprio país que ele faliu. E isso ocorre sob os olhares daqueles dois chefes de estado - Lula e Dilma - que chancelaram sua ditadura e toda a sua destruição econômica. E, para completar, toda a cena é observada por Nicolás Maduro, o coveiro-mor

    Impossível simbolismo maior.
  • Pobre Paulista  15/11/2017 21:39

    Silvio Costa, ele era parente seu?
  • anônimo  15/11/2017 18:30
    Pior que li numa página do facebook que os investidores internacionais sabotaram o valor da moeda ao retirar os investimentos da Venezuela.

    Gente assim possui algum problema mental.
  • Felipe Lange S. B. S.  15/11/2017 23:33
    Pessoal, alguém pode me explicar exatamente essa confusão lá no Zimbábue? Esse velho aí já ganhou do Fidel em exemplo de dinossauro comunista ditador.
  • Anônimo  16/11/2017 10:35
    Pois é, já eu quero entender isso aqui https://g1.globo.com/mundo/noticia/por-que-mais-de-400-multimilionarios-nos-eua-nao-querem-pagar-menos-impostos.ghtml , por que os magnatas não se juntam e criam uma instituição de caridade privada para ser contra a desigualdade social?
  • Paulo Henrique  15/11/2017 23:47
    O que acontece se o governo Venezuelano der calote na dívida interna? Isso é possível ?
  • Ivan  16/11/2017 00:11
    Qualquer pessoa ou instituição em posse dos papéis ficaria com um ativo que agora vale zero. No caso dos bancos, caso a quantidade seja alta, eles ficarão extremamente descapitalizados (passivos maiores que ativos) e irão à falência, o que pode gerar uma crise bancária sistêmica, fazendo com que todos os correntistas percam seu dinheiro.
  • Poder Nacional  16/11/2017 12:12
    www.defesanet.com.br/ghbr/noticia/26425/Comentario-Gelio-Fregapani---Manipulacao-da-informacao/

    www.defesanet.com.br/pensamento/noticia/22759/Comentario-Gelio-Fregapani---Assuntos--Politicalha--Divida-e-Juros---Uniao-Europeia-e-BREXIT/

    www.defesanet.com.br/crise/noticia/27577/Comentario-Gelio-Fregapani----A-danca-das-cadeiras-na-politica-e-o-dinheiro--Doacao-do-Pre-sal--O-maior-roubo--E-IBAMA---um-tiro-no-pe----/
  • anônimo  18/11/2017 12:46
    A única ética verdadeiramente aceitável é a ética Hoppeana de remoção física.

    Se todos fossem livres e vivessem no território que mais lhe agrada, a maioria dos conflitos no mundo estariam resolvidos.

    Mas graças a democracia, o mundo inteiro vai ser a mesma porcaria social-democrata homogênea.


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