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O antídoto para as mais populares falácias econômicas, e que explica inclusive a recessão do Brasil
Não é exagero dizer que Jean-Baptiste Say e sua lei são os guardiões da continuidade da civilização

Para entender aquele princípio que foi rotulado de Lei de Say é necessário começar o raciocínio pelo básico: por que duas pessoas decidem, livre e voluntariamente, transacionar entre si?

Porque elas acreditam que irão melhorar sua situação após a troca. Elas não fariam a troca caso esperassem ficar em pior situação.

E no que consiste essa transação livre e voluntária entre duas pessoas? Consiste no oferecimento mútuo de bens e serviços.

E este é o ponto.

Ver a transação como um oferecimento mútuo de ambos os lados mostra que o fenômeno da oferta e da demanda não é um problema sem solução, como a charada do ovo e da galinha. O indivíduo produz aquilo que, em sua melhor estimativa, imagina que outras pessoas irão querer consumir, na expectativa de que essas outras estão produzindo ou irão produzir aquilo que ele quer consumir.

Falando mais coloquialmente, as pessoas acordam cedo e vão produzir (trabalhar) para tentar atender às demandas de terceiros. Caso sejam bem-sucedidas em atender a demanda de terceiros, elas serão recompensadas (remuneradas) por isso. Essa remuneração irá agora lhes permitir demandar bens e serviços para satisfação própria.

Ou seja, ao produzirem e ofertarem para terceiros, essas pessoas podem agora demandar bens e serviços para proveito.

Mas de nada adianta apenas produzir e ofertar para terceiros: esses terceiros têm de querer adquirir essa produção. Caso isso não ocorra, isto é, caso as pessoas não se interessem por adquirir a sua produção, você não será recompensado por isso. E, logo, não terá como demandar bens e serviços.

A produção, portanto, sempre será inerentemente especulativa.

Em pequenos arranjos sociais, essa especulação normalmente não é muito difícil. Duas pessoas náufragas em uma ilha tropical, por exemplo, podem discutir antecipadamente o que cada uma fará e oferecerá para a outra. Em arranjos sociais mais amplos, formado por milhões de indivíduos, essa especulação é bem mais difícil. É aí que entra em cena o sistema de preços livres e de transações monetárias: para ajudar as pessoas a descobrirem o que as outras querem por meio dos sinais enviados pelos preços — que expressam as preferências dos consumidores, e mostram quais bens e serviços estão mais escassos e quais estão mais abundantes — e pelo mecanismo de lucros e prejuízos.

Mas a essência especulativa não se altera: as pessoas produzem aquilo que julgam que as outras querem, na expectativa de que essas outras irão fornecer aquilo que as primeiras querem.

A Lei de Say, portanto, pode ser descrita da seguinte maneira: o valor dos bens e serviços que qualquer indivíduo pode comprar é igual ao valor de mercado daquilo que ele pode ofertar. Ou, em um sentido macroeconômico agregado, o valor dos bens e serviços que qualquer grupo de pessoas pode comprar no agregado é igual ao valor de mercado daquilo que eles podem ofertar no agregado.

A Lei de Say, portanto, simplesmente expressa a realidade de que nós produzimos para poder consumir.

Sempre verdadeira

A Lei de Say sempre será verdadeira e para sempre permanecerá irrefutável porque ela se refere ao conceito subjetivo de valoração. A oferta colocada no mercado sempre fornecerá o meio com o qual o ofertante poderá comprar outros bens e serviços, mas somente na mesma extensão do valor subjetivo atribuído pelos consumidores a essa oferta.

De novo: de nada adianta você produzir e ofertar bens e serviços que ninguém quer; bens e serviços cujo valor subjetivo atribuído a eles pelos consumidores seja nulo ou extremamente baixo. Isso não lhe dará poder de compra para satisfazer suas demandas.

No entanto, e este é o ponto, mesmo que esta oferta fracassasse em criar qualquer poder de compra para seu ofertante — por ter sido considerada completamente sem valor de mercado, como cavar buracos no meio do nada —, isso não revogaria em nada a Lei de Say; ao contrário: seria mais uma manifestação dela própria.

Tal fenômeno também distingue a Lei de Say da teoria do valor-trabalho de Marx: Say reconhece o fato crucial de que o ato de produção, por si só, é insuficiente para criar poder de compra; só cria poder de compra o ato de produzir algo que é valorado por terceiros, os quais também produziram algo de valor no mercado e que, por isso, têm poder de compra e podem adquirir o que você produziu.

Em suma, não é a produção ou o trabalho que importam, mas sim o que é produzido e para quem.

Podemos agora entender por que David Ricardo disse que: "Nunca há uma deficiência de demanda; são os homens que erram em sua produção".

Ricardo estava se referindo ao grande debate sobre "excesso de oferta", travado no século XIX entre ele e Thomas Malthus, sobre a causa e a cura das recessões econômicas. Malthus defendia a ideia que viria a se tornar a essência do keynesianismo e da corrente econômica convencional: excesso de poupança e poucos gastos, dizem eles, causam um excesso de bens não-consumidos, o que significa que houve excesso de produção. Produtores ficam com mercadorias encalhadas, suas receitas entram em declínio e eles acabam tendo de demitir empregados. Ocorre uma recessão. Malthus, e posteriormente (e com mais ênfase) Keynes, defendem que poupar menos e gastar mais é a solução para recessões.

Mas a validade da Lei de Say mostra que a visão malthusiana-keynesiana está errada. Dado que a demanda é determinada apenas pelos produtos e serviços ofertados no mercado, erros empreendedoriais em grande escala (os quais são revelados na recessão) têm necessariamente de ser o resultado de erros — também em grande escala — cometidos pelos empreendedores, os quais especularam, erroneamente, que o valor de mercado que os consumidores atribuiriam a seus bens e serviços seria maior do que realmente acabaram sendo.

Ou seja, empreendedores — por vários motivos — imaginaram que os consumidores atribuiriam a seus bens e serviços valores maiores do que aquele que de fato foi atribuído. Não houve um 'excesso de produção'; houve, isso sim, um erro de cálculo quanto ao futuro valor de mercado dessa produção.

Esse tipo de erro empreendedorial coletivo ocorre tipicamente quando o governo embarca em uma política de crédito farto e barato, o qual gera um aumento temporário da renda disponível das pessoas, que então passam a consumir mais. Ludibriados por esse consumo maior — o qual foi causado pelo mero endividamento barato e não por um aumento genuíno da produção e da renda —, empreendedores passam a crer que haverá maior renda disponível no futuro, de modo que seus bens e serviços serão mais demandados, o que significa que poderão cobrar preços maiores. Mas tão logo essa expansão do crédito é interrompida, todo o cenário de aumento da renda se revela fictício e artificial, mostrando que nunca houve realmente um aumento da renda da população. Houve apenas endividamento. Consequentemente, seus bens e serviços não poderão ser vendidos pelo maior preço antecipado pelos empreendedores.

[Veja como toda essa teoria de fato ocorreu na prática no Brasil da última década].

Logo, se empreendedores erraram em sua estimativa e em sua produção — por qualquer motivo —, então a correção deve necessariamente passar pelo rearranjo dos esforços produtivos, de modo a estimar mais corretamente os desejos dos consumidores e a melhor servi-los.

Esse diagnóstico da recessão é bastante diferente do diagnóstico keynesiano, que enfatiza que houve uma redução da demanda em decorrência de misteriosas flutuações no "espírito animal" dos empresários, o qual deve ser retificado por meio de mais expansão do crédito, mais endividamento e mais gastos governamentais.

No diagnóstico da Lei de Say, o governo deve remover ao máximo os obstáculos burocráticos e regulatórios para que os empreendedores possam rapidamente corrigir seus erros e descobrir quais bens e serviços os consumidores realmente querem (e podem comprar). Dado que o mecanismo de preços é a principal fonte de informação dos empreendedores, uma flexibilidade nos preços de mercado é essencial para uma rápida recuperação.

Adicionalmente, uma vez que recursos escassos foram mal alocados em empreendimentos para os quais nunca houve real demanda — o que significa que capital está sendo imobilizado de maneira destrutiva —, é necessário haver ainda mais poupança (e não menos) para que trabalhadores e empreendedores possam ser supridos e tenham fundos suficientes para ser aplicados em novos investimentos.

Conclusão

Se aceitarmos a falácia de que são as ações individuais virtuosas (como a poupança e a frugalidade), e não a intervenção estatal, o que geram resultados sociais caóticos, então todas as maneiras de planejamento central podem ser justificadas não apenas em nome do benefício público, como também em prol da civilização. Mas essa medida, como bem atesta a história, é o caminho garantido para a ruína civilizacional.

A Lei de Say continua sendo a guardiã da liberdade econômica, da prosperidade e até mesmo da própria civilização.

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Leia também:

Não faz sentido estimular a demanda e o consumo; a encrenca sempre foi a produção


9 votos

autor

Russell Lamberti
é co-fundador do Instituto Ludwig von Mises da África do Sul e estrategista-chefe da firma de investimentos ETM Analytics. É também co-autor do livro When Money Destroys Nations. Mora em Joanesburgo.


  • Noé  20/02/2017 15:07
    A lei de Say representa simplesmente a realidade que produzimos para poder consumir.

    A oferta vem primeiro. A demanda é decorrente dela (o exato oposto do pensamento keynesiano).

    Exatamente como seria possível eu demandar algo sem antes ter produzido algo ou ofertado minha mão-de-obra? Somente sendo o beneficiário dos ganhos/poupança de outros, que já auferiram renda em decorrência de terem ofertado sua própria produção.

    A intervenção estatal sobre a moeda e o mercado de crédito complica a questão, pois a expansão monetária feita pelo estado (via Banco Central) passa ser vista como substituta da produção genuína que ocorre no mercado. Só que algo que representa uma produção futura -- o endividamento -- não é o mesmo que a própria produção. Quando o crédito passa a ser utilizado para representar "demanda", ele é apenas uma promessa de uma produção futura. Na prática, ele traz a demanda do futuro para o presente.

    A noção de que o governo pode "criar" demanda é falsa, uma vez que a demanda -- em virtude da Lei de Say -- não pode existir independentemente da oferta. Quer aumentar a demanda? Aumente a produção desejada pelos consumidores, e coloque à venda. No momento em que vender, será criada nova capacidade de demanda para o produtor/vendedor, permitindo que ele se torne um comprador/consumidor.

    Ao tributar e ao manter os preços artificialmente ou arbitrariamente elevados por meio de regulações -- especialmente encargos sociais e trabalhistas, e também tarifas de importações ou agências reguladoras que cartelizam o mercado --, o governo está restringindo a liberdade das pessoas de produzir, desta forma restringindo os indivíduos de gerar sua própria capacidade de demanda. Ao fazer uma expansão monetária e do crédito, o governo piora ainda mais a situação, pois está também diluindo o poder de compra daqueles que trabalham, produzem, vendem e ofertam.
  • Thiago  20/02/2017 16:24
    A oferta vem primeiro? Sempre e via de regra? E no caso de uma doença nova? O remédio será ofertado antes dos enfermos que irão demandá-lo? Tipo assim: "nossa, você viu? Agora tem um remédio pra um novo tipo de gripe. Vamos dar um jeito de pegá-lo e comprar o remédio." Veja bem: não estou invalidando a sua afirmação. Apenas digo que ela não pode ser generalista demais.
  • Roberto  20/02/2017 16:53
    Esse aí, coitado, não entendeu nem sequer o básico.

    "A oferta vem primeiro? Sempre e via de regra?"

    Sempre e "via de regra", a oferta vem antes da demanda. Para você demandar algo, você tem antes de ter ofertado algo. Se você não tiver ofertado algo, você não terá renda para demandar algo.

    Igualmente, para que algo possa ser consumido, este algo tem antes de ter sido produzido e ofertado. Como você vai demandar algo que não existe e não está sendo ofertado?

    Portanto, sim, a oferta tem necessariamente de vir antes da demanda. Sempre. Via de regra.

    "E no caso de uma doença nova?"

    Oi?

    "O remédio será ofertado antes dos enfermos que irão demandá-lo?"

    Santo Cristo. Para o remédio ser demandado pelo doente, o doente tem de necessariamente ter produzido (ofertado) algo em troca de uma remuneração, a qual então irá lhe permitir comprar (demandar) o remédio. Sempre e sem exceção.

    De novo: para alguém demandar um remédio, este alguém (ou sua família ou seu amigo ou mesmo sua seguradora) tem antes de ter ofertado algo em troca. Sempre. Sem exceção.

    Eis uma novidade que irá lhe fazer cair de costas: laboratórios farmacêuticos não trabalham de graça. E nem por amor. Eles só fornecem remédios em troca de dinheiro. Logo, para alguém adquirir o remédio, este alguém tem antes de ter ofertado algo.

    "Veja bem: não estou invalidando a sua afirmação. Apenas digo que ela não pode ser generalista demais."

    A única coisa generalista demais foi a sua total incompreensão sobre o assunto em questão.
  • anônimo  20/02/2017 19:33
    No caso, demandar algo significa compra-lo?
  • Gabriel  20/02/2017 21:43
    Significa consumi-lo.
  • O Libertário  20/02/2017 20:41
    Aplicou um belo fatality na figura. Thumbs up.
  • Henrique Zucatelli  20/02/2017 22:34
    Posso me meter nessa contenda.

    Roberto, analisei o nexo temporal de necessidade x invenção dos medicamentos e diria que sim, Thiago está correto.

    E pensando sobre isso, a necessidade antes da criação engloba tudo aquilo que escapa a ação humana e interfere em nossas vidas, como doenças, mudanças climáticas e a gênese química e biológica. Porém o cerne da Lei de Say não é o apriorismo da criação como antecedente da necessidade, mas sim de como o mercado valora a criação, e se por essa valoração intrínseca ela se perpetua ou não através do tempo. Mas vamos voltar ao exemplo do Thiago.

    Por exemplo, se analisarmos técnicas de irrigação em uma biosfera árida, e existem centenas delas. A partir daqui conseguimos estabelecer o cenário de solo árido (criado por... enfim eu acredito em Deus, mas quem quiser acredite no ocaso), a necessidade subjetiva de irrigação para agricultura, e a ação humana, que irá mover recursos escassos para ali produzir, calculando custos e impondo preços, e em contrapartida novamente a ação humana, que irá verificar se esses custos são viáveis, comprando ou não os frutos daquela terra.

    Com isso conseguimos estabelecer um nexo causal entre a necessidade primeira e a criação posterior, onde o agente primário criador daquele cenário árido não está entre nós. Não sabemos o por quê de ser árido. O criador desse quadro não o vendeu para nós, logo esse agente não busca o mesmo resultado que nós - o lucro. Só nós, o solo e a oportunidade subjetiva de aproveita-lo para produzir e prosperar.

    O mesmo paralelo podemos estabelecer entre a doença e a medicina, onde nós somos o terreno criado pelo agente oculto, e neste terreno habitam doenças causadoras de distúrbios (também criadas pelo mesmo agente).

    Apriorísticamente desde quando nascemos existe a necessidade primária de solução, ou o resultado é muitas vezes a morte. A partir dessas quase infinitas necessidades, profissionais de todas as partes do mundo criam desde os primórdios da nossa espécie técnicas e substâncias para, se não possível resolver, mitigar a necessidade trazendo conforto ao doente.

    Nesse emaranhado de técnicas foram se perpetuando as mais eficientes E mais econômicas, tanto ao doente quanto ao profissional. Novamente conseguimos enxergar o nexo causal, onde a ação humana só existe após a doença, e com ela cessada, a ação humana também cessa. Sendo mais lúdico, remonto as palavras do Mestre: "Os sãos não precisam de médico".

    Para concluir, os homens que estão a frente de seu tempo são aqueles que não somente criam antes da necessidade, basicamente inventando-a (afinal, quem diria como um Iphone é útil sem saber que ele existe?), mas aqueles que conseguem lidar com a necessidade criada pelo agente oculto de forma mais efetiva que seus pares, em menos tempo, e de forma mais econômica.

    Obrigado por quem leu até aqui.
  • Thiago  21/02/2017 11:15
    Obrigado Henrique, palavras muito esclarecedoras. É riquíssimo o que se pode ler aqui. Obrigado mais uma vez.
  • Henrique Zucatelli  21/02/2017 15:53
    Magina Thiago, eu que agradeço pelo elogio. Escrevi de forma apressada (novamente), mas que bom que conseguiu entender.

    Sim, aqui no IBM você pode encontrar verdadeiras pérolas (no bom sentido claro) no campo dos comentários. Eu sou suspeito para dizer, mas os prediletos são os feitos pelo Leandro, que tem a rara capacidade de transformar leigos em economistas libertários.

    Abraços.
  • Thiago  21/02/2017 20:30
    Agradeço pelo "aconchego", Henrique. Eu mencionei em outro comentário que a Escola Austríaca foi objeto breve de estudo no meu primeiro ano de faculdade, o que sou levado a reconhecer, hoje, como tendo sido uma lástima. A ótica dada à economia no âmbito da Escola Austríaca é rica e lógica. Claro que, como também comentei, inicialmente algumas coisas possam me parecer difusas ou um pouco sem sentido. Nada que não me seja prontamente esclarecido, seja de forma acadêmica e científica por meio dos artigos, seja por meio dos comentários, e aqui me refiro aos mais e aos menos amistosos. Peço desculpas se minha fala em outros comentários tenha parecido irônica ou qualquer coisa que o valha. Não foi por má intenção. Mas, acima de tudo, quero agradecer a todos pela contribuição que me têm feito. De tudo quanto li a respeito de economia (e que é muito pouco ainda), Mises tem se mostrado um dos melhores autores, se não o melhor. Creio com humildade que seus seguidores, e estou inclinado a me incluir aí, têm de veicular sua vertente teórica com mais concessões ao contraditório, para que não se pareçam com marxistas histéricos ou com fundamentalistas de qualquer corrente teórica.
    Agradeço uma vez mais. Um grande abraço.
  • Arthur M Meskelis  21/02/2017 22:21
    Olá pessoal. Vou ser do contra dessa vez. Não tenho muito tempo, então espero ser claro.

    Pra mim a oferta continua a vir antes da demanda e para isso faço um paralelo entre oferta x demanda = produção x consumo. No caso do remédio, há demanda por ele, mas não há oferta dele.

    Disto eu levanto uma questão. Podemos demandar algo que não existe ?

    Se só pudermos demandar algo que existe, logo, a oferta necessariamente vem antes da demanda, pois o produto está disponível no mercado e pelos motivos explicados no artigo. Só podemos demandar algo, no caso o remédio, se antes tivermos ofertado algo, por exemplo nosso trabalho (ou o trabalho de outrem via crédito, transferência de renda, etc). Logo, se demandamos é porque ofertamos.

    E se pudermos demandar coisas que não existem ? Utilizando o paralelo produção x consumo isto seria impossível. Pois a demanda (consumo) depende da oferta (produção) do bem demandado (a consumir).

    Em uma situação oferta x demanda indicam que tenho condições de consumir pois produzi (e agora tenho poder de troca para consumir).

    Em outra situação oferta x demanda indicam que não tenho condições de consumir pois ninguém produziu (eu ter ou não poder de troca não importa, pois o bem não existe). Logo não podemos consumi-lo.
  • Raul  21/05/2017 01:22
    Estou esforçado-me para entender a lógica de Say, uma vez que ela me é muito mais cara do que as que a tentam levianamente refutá-la. Eu entendi, a princípio, que a oferta vem sempre antes da demanda, tendo por base lógica o fato de que eu não teria recursos para comprar algo se nada tivesse ofertado antes na minha vida.

    Mas o exemplo de exceção do remédio vs doença me parece válido.

    Vejamos: eu, definitivamente, não tenho recursos para comprar um eventual remédio, caríssimo, que seja produzido. Mas tenho, precisamente, necessidade biológica pela solução medicamentosa. Nesse sentido, o laboratório, mesmo sabendo que, naquele momento, eu não possuo recursos, percebe que existe uma demanda por tal princípio ativo e fabrica o emplasto por saber que minha vida depende daquilo e, se preciso, que eu venderia todos os meus bens para adquiri-lo.

    Desse modo, não parece razoável pensar que a minha necessidade por algo (demanda) fez surgir o interesse de produção de alguém (oferta)?
  • Seixas  21/05/2017 03:53
    Isso não tem nada a ver com Lei de Say. Você está falando de desejos; Say fala de recursos.

    Para você demandar algo, você tem antes de ter ofertado algo. Ao ofertar algo, você aufere recursos. E é com esses recursos que você sacia sua demanda.

    Igualmente, para você consumir algo, esse algo tem de ser produzido. E ele só será produzido se outros tiverem poupado e investido. Impossível consumir algo que não foi produzido.

    Você pode demandar remédios o quanto quiser. Se não houver quem os produza, nada feito. E para haver quem os produza, alguém teve de poupar, investir e produzir. E você, por sua vez, só conseguirá comprar este remédio se tiver ofertado algo a alguém.
  • Skeptic  20/02/2017 15:52
    Ouvi dizer que Say foi um economista ainda mais brilhante que Bastiat. Alguém concorda?
  • Magno  20/02/2017 17:02
    Isso vai de cada um. Eu pessoalmente acho que sim.

    Bastiat foi mais um jornalista satirista -- e genial -- do que um economista desenvolvedor de teorias.

    Say, neste quesito, foi muito mais completo.

    Aliás, toda a teoria keynesiana -- toda ela! -- parte do pressuposto de que a Lei de Say está errada. Keynes construiu todo o seu arcabouço teórico tendo por base a crença de que Say estava errado.

    Sendo assim, a simples comprovação da veracidade da Lei de Say manda toda a teoria keynesiana para o saco. (Por isso os keynesianos gostam tanto de xingar Say. Não os culpo. Perceber que toda a sua teoria se sustenta no mentira não é realmente uma descoberta para os fortes).

    Igualmente, políticas que ignoram a Lei de Say -- como as de Dilma -- sempre geram desarranjos e colapsos econômicos.

    Say é imprescindível.
  • Skeptic  21/02/2017 17:06
    Excelente comentário, obrigado!
  • Taxidermista  21/02/2017 19:16
  • Thiago  20/02/2017 16:12
    Não dá pra superestimar a racionalidade dos agentes. Por isso, às vezes, a Lei de Say escorrega no quiabo.
  • André  20/02/2017 16:58
    Qual "racionalidade" foi superestimado?! Aliás, onde foi que a "racionalidade" entrou na teoria?

    Aliás, a própria teoria mostra que erros empreendedoriais são cometidos em decorrência de uma "irracionalidade" -- no caso, a deturpação dos preços pela expansão do crédito.

    Como já demonstrado na sua outra participação acima, quem realmente escorrega no quiabo, incapaz de entender coisas básicas, é você.
  • Thiago  20/02/2017 17:15
    Não precisa ser agressivo. A teoria da escola austríaca é fantástica, mas nem todos têm o seu nível de compreensão sobre ela. Estou aqui pra aprender. Entendi como "racionalidade" o início do artigo, que afirma categoricamente que todos os indivíduos "(...) acreditam que irão melhorar sua situação após a troca. Elas não fariam a troca caso esperassem ficar em pior situação." A meu ver, muitas vezes se veem condutas "irracionais" do ponto de vista econômico. Apenas isso. Se entendi errado, me perdoa. Meus professores passaram muito rapidamente pela Escola Austríaca no meu primeiro ano de faculdade, o que já faz um tempinho. Estou lendo mais a respeito dela agora, e estou tentando entender seus alicerces. É natural, inicialmente, supor algumas falhas. O que vocês, que já conhecem a teoria, precisam é ir mais com calma com aqueles que a estão descobrindo. Entendi o que você quis dizer com erros empreendedoriais que são cometidos em decorrência de uma "irracionalidade". Agora faz todo o sentido. Esclareceu pra mim a situação e pronto. Seu comentário poderia ter se limitado a essa contra-argumentação. É dessa forma que se edificam as coisas.
  • Alberto  20/02/2017 17:29
    Thiago, parabéns pela hombridade de reconhecer que foi afobado e cometeu um erro.

    Eu até compreendo você achar que a resposta foi agressiva, porém, observe que a sua intervenção não foi nada educada. Foi repleta de ironias, frases tiradas de contexto, imputações descabidas e até mesmo malcriações, como dizer que "escorregou no quiabo".

    Da próxima, faça perguntas humildes e sinceras em vez de ironias e afirmações descontextualizadas. Você verá como a recepção será muito melhor.

    Saudações.
  • SRV  20/02/2017 19:48
    Thiago ,

    Espero que você tenha compreendido e esclarecido sua dúvida. Espero também que as rusgas iniciais sejam relevadas por ambas as partes e que você possa voltar para aprender mais sobre a Escola Austríaca.

    Grande abraço, bons estudos, desejo sorte.
  • Mariano Garrido  21/02/2017 17:04
    Thiago, tive até que trocar meu nome de participação aqui no fórum, pois foram inúmeras as vezes que os oráculos do site me deram patada. Tente compreender. Eu compreendo isso mais como recalque, ou mesmo ameaça de perder um emprego remunerado por este site. Interesses existem em todas as partes, em todas as esferas, o que não invalida o pensamento econômico austríaco. Mas continuemos aprendendo, apesar das contribuições nada amistosas de alguns.
    Daqui alguns anos eles estarão no círculo do poder, então se sentem ameaçados com perguntas, refutações, mesmo que sejam de amadores como nós.
  • Vitor  21/02/2017 18:15
    Isso que vocês estão discutindo, é justamente algo que me afastou da seção de comentários do IMB.

    Anteriormente, eu costumava ler todos os artigos e até mesmo os comentários, mas depois de um tempo essa ofensividade com opiniões discordantes me fez não apenas parar de ler os comentários, como também selecionar a dedo os artigos que me parecem relevantes.

    Pelo lado do IMB, eu consigo perceber que cada vez mais a popularidade deste vem crescendo, o que faz com que a seção de comentários venha aumentando, e mesmo com mediação do moderador, é extremamente difícil fazer este "controle de qualidade", que caso fosse feita a um nível "satisfatório" apenas entraria em censura.

    O que eu percebi neste tempo acompanhando a seção de comentários é que, praticamente, qualquer comentário que não seja de um perspectiva libertária é naturalmente "canalha". E em vez de ser respondido educadamente, pois geralmente se trata de uma dúvida legítima que quem o faz possui, o que se vê é uma mistura de arrogância desnecessária com a resposta. Isso quando o que se segue não é apenas ofensa gratuita. Isso apenas oferece cada vez mais validade à crítica de Milton Friedman à intolerância de Mises e Rothbard: "Talvez eu possuo mais influência que ideólogos como Rand ou Rothbard ou Mises, libertários no sentido estrito. E eu acredito que o motivo é que eles têm sido intolerantes"

    Itálico meu.

    E eu concordo com esta afirmativa, que a arrogância dos dois acaba tornando as suas ideias menos atraentes para pessoas que as simplesmente as desconhecem, ou entram em um debate amistoso de um posto de vista divergente. Eu não tenho problema algum com a inflexibilidade dos princípios que estes tinham, isto para mim é algo extremamente positivo. Há, inclusive, um ótimo artigo aqui no instituto sobre isto. Mas a arrogância e a ofensividade é algo que definitivamente deveria ser preocupante para muitos de seus leitores.

    Não deixe isto afetar sua vontade de estudar a tradição austríaca, liberal, libertária, o que seja. É realmente uma bibliografia muito rica, e um dos meus escritores favoritos, Bastiat, se encontra no meio dela.

    Bons estudos, e grande abraço!
  • Mr Richards  20/02/2017 16:51
    Keynesianos pensando sobre suas teorias em 3, 2, 1 ...
  • O Libertário  20/02/2017 21:08
    Keynesianos não seriam keynesianos se lessem este site, coisa que infelizmente eles não fazem.
  • Mr Richards  20/02/2017 21:26
    Au contraire, muitos leitores se baseiam nas medidas keynesianas para explicar ou tentar refutar aquilo que foi escrito em algum artigo aqui no IMB, mas simplesmente não conseguem rebater as afirmações sob a perspectiva austríaca dos caros autores e leitores deste site.
  • Andrius  20/02/2017 19:18
    Leandro, desculpa incomodar mas surgiu uma dúvida.
    Se o crédito criado do nada for emprestado para consumo seja do governo ou dos consumidores isso vai gerar certas consequências é claro, mas não vai gerar um ciclo econômico ao estilo "Boom and Bust " e tal ciclo econômico só ocorreria se o dinheiro criado do nada fosse emprestado para ser investido na produção e não em consumo, faz sentido afirmar isso, obrigado.
  • Leandro  20/02/2017 19:49
    Sim e não.

    De fato, se todo o crédito fosse para consumo -- uma coisa irreal, pois o crédito para consumo é o mais caro e arriscado --, o efeito imediato seria o aumento dos preços dos bens e serviços. Muitas pessoas estariam repentinamente consumindo mais (maior demanda) sem que tivesse havido qualquer aumento na oferta.

    Só que tal aumento de preços mandaria um sinal claro para empreendedores: tais setores estão vivenciando aumento da demanda; ampliem a oferta daqueles bens e serviços e lucrem com isso.

    Ato contínuo, a estrutura de produção da economia será rearranjada de modo a satisfazer essa nova demanda impulsionada pelo crédito.

    Mas aí, em algum momento futuro, acontecerá o inevitável: se essas pessoas estão se endividando para consumir, como elas manterão sua renda futura para continuar consumindo? A única maneira de aumentar a renda permanentemente é produzindo mais, e não se endividando mais.

    Tão logo a expansão do crédito acabar, e as pessoas estiverem muito endividadas (e tendo de quitar essas dívidas), não mais haverá demanda para aqueles bens e serviços. Consequentemente, os empreendedores que decidiram investir na ampliação daqueles setores rapidamente descobrirão que estão sem demanda. Com efeito, nunca houve demanda verdadeira por seus produtos. Houve apenas demanda artificial e passageira.

    É aí que começa a recessão: quando vários investimentos errados (para os quais nunca houve demanda verdadeira) são descobertos e precisam ser liquidados.

    E de nada adiantará o estado tentar estimular artificialmente a demanda para dar sobrevida a esses investimentos errados. Aliás, isso só piorará a situação.

    Se um empreendedor investiu em algo para o qual não havia demanda genuína, ele fez um erro de cálculo. Ele imobilizou capital em investimentos que ninguém realmente demandou. Na prática, ele destruiu capital e riqueza. Cimentos, vergalhões, tijolos, britas, areia, azulejos e vários outros recursos escassos foram imobilizados em algo inútil. A sociedade está mais pobre em decorrência desse investimento errôneo. Recursos escassos foram desperdiçados.

    O governo querer estimular o consumo de algo para o qual nunca houve demanda natural irá apenas prolongar o processo de destruição de riqueza.

    O que realmente deve ser feito é permitir a liquidação desse investimento errôneo. O empreendedor que errou em seu cálculo empreendedorial -- e que, no mundo real, provavelmente estará endividado e sem receita -- deve vender (a um preço de desconto, obviamente) todo o seu projeto para outro empreendedor que esteja mais em linha com as demandas dos consumidores.

    Este outro empreendedor -- que está voluntariamente comprando esse projeto -- terá de dar a ele um direcionamento mais em linha com os reais desejos dos consumidores.


    Traduzindo tudo: a recessão nada mais é do que um processo em que investimentos errôneos -- feitos em massa por causa da manipulação dos juros feita pelo Banco Central -- são revelados e, consequentemente, rearranjados e direcionados para fins mais de acordo com os reais desejos dos consumidores.

    A economia entra em recessão exatamente porque os fatores de produção foram mal direcionados e os investimentos foram errados.

    Nesse cenário, expandir o crédito e tentar criar demanda para esses investimentos errôneos irá apenas prolongar esse cenário de desarranjo, destruindo capital e tornando a recessão (correção da economia) ainda mais profunda no futuro. E com o agravante de que os consumidores e empresários estarão agora bem mais endividados, em um cenário de inflação em alta -- por causa da expansão do crédito -- e sem perspectiva de renda.
  • Pobre Paulista  21/02/2017 02:59
    Sobre o crédito, de maneira em geral: Fulano só toma emprestado a uma taxa X se você acredita que seu retorno será maior do que X. Se fulano vai ou não ter um retorno maior do que X, é um problema dele, o risco é dele, e o retorno é dele. Nesse quesito, não há nada de errado em colocar mais crédito na economia, pois ele é direcionado ao aumento da oferta de bens e produtos. Nesse processo, obviamente, os melhores Fulanos terão melhores retornos, se e somente se souberem colocar os bens de produção disponíveis a serviço dos exigentes consumidores. O crédito é um aliado aqui, independente de X.

    Já o crédito para consumo, aquele cuja taxa é manipulada a bel prazer dos "reguladores competentes", apenas gera apenas inflação e má alocação de recursos, como já foi exaustivamente explicado pelo Leandro Roque. O crédito é um vilão aqui.

    Não vamos demonizar o crédito per se. O real problema é a manipulação das taxas de juros.
  • Guilherme  21/02/2017 13:21
    Exato, não há nada errado com o crédito em si. O problema é o crédito criado do nada, ou seja, sem uma respectiva poupança prévia.
  • 4lex5andro  21/02/2017 13:34
    Mas os juros não seriam elevados também pela conduta perdulária de governo e consumidores de crédito ? E, também, pelo baixo nível de renda média do Brasil, isso também seria um fator incentivador de tomadas de empréstimo.
  • Pobre Paulista  21/02/2017 16:18
    Os déficits do governo criam sim uma pressão nos juros, mas não configuraria uma "manipulação", é mais um "desajuste". Manipulação é o crédito direcionado, por exemplo.

    Já a questão da renda é irrelevante, o cara pode ser catador de papelão e ainda assim financiar ou uma barraquinha de cachorro quente ou um iphone 999 master plus.
  • Xucro  21/02/2017 12:25
    O artigo é muito bom, mas a questão principal é a propriedade privada.

    A base de sustentação da riqueza é a propriedade privada. As pessoas precisam manter, cuidar e preservar seu próprio patrimônio, com a certeza de que isso vai lhes trazer benefícios.

    Quando o estado expropria o patrimônio das pessoas, elas entendem que trabalhar e produzir não vai lhes proporcionar benefícios. Isso também torna inviável qualquer forma produção de bens que precisam de mais investimentos.

    Outro problema é o estado proibindo trocas voluntárias. Cuba possui racionamento debatatas.

    O resultado é que menos pessoas irão produzir bens e serviços.

    Foi isso que implodiu o sistema socialista.

    A troca voluntária é o meio, enquanto a propriedade é o objetivo.

  • luis fernando  21/02/2017 22:09
    De fato no Brasil não se houve debates sobre a forma de solução do problema da Produção/Oferta. Simplesmente parece que inexiste.
  • Ninguem Apenas  22/02/2017 01:57
    Leandro,

    é meu primeiro comentário aqui, mas já acompanho o site há tempo e tenho uma dúvida.

    A Lei de Say diz que a oferta cria demanda, em outras palavras, que as pessoas ofertam bens e serviços pois sabem que podem obter em retorno disso um poder de compra manifestado em uma moeda que permitirá que esta demande bens e serviços produzidos por outros. Até aí ok?

    Keynes quando atacou a Lei de Say, disse que em um livre mercado nem sempre a oferta cria demanda, e disse que tal fato nem sempre é verdadeiro pois existe a Preferência por Liquidez.

    Minha duvida está aqui:

    Imagine uma sociedade hipotética aonde as pessoas são extremamente consumistas e a poupança quase não existe, tal sociedade não enriquece muito pois tem altíssima preferência temporal e os bens e recursos ofertados são voltados ao consumo, sem uma estrutura de capital complexa.

    Se esta sociedade de uma hora pra outra(por qualquer motivo que seja) resolver abandonar esse extremo consumismo e resolver poupar(ou entesourar como Keynes dizia) de 30 a 40% de todo dinheiro obtido em retorno a sua produção, isso poderia causar um período de instabilidade correto? se esta sociedade possuir uma bolsa de valores esta sofreria uma queda brusca, pois os empresários das empresas de consumo descobririam que especularam errado a demanda dos indivíduos e as empresas voltadas ao consumo não mais estarão com aquele enorme fluxo de gastos, já que as pessoas resolveram ficar liquidas, certo? porque com este fato acontecendo a estrutura de produção desta sociedade sofreria um enorme ajuste, correto? Durante o período de instabilidade não seria correto eu afirmar que nem toda a oferta se transformou em demanda? ou melhor, que nem todo dinheiro obtido pela produção individual se reverteu em demanda de produtos de terceiros já que as pessoas resolveram se manter liquidas?

    Eu entendo que esse acontecimento não levaria exatamente a uma crise, mas talvez uma instabilidade e uma enorme queda na bolsa no curto prazo. Daí os empresários que estão em constante estado de alerta logo perceberiam uma nova forma de lucro, a produção passaria a focar em bens cujas etapas de produção e divisão do trabalho é maior e sem se voltar tanto para o consumo imediato. Se o governo intervir nesse arranjo, a sociedade como um todo seria prejudicada, pois elas voluntariamente resolveram guardar dinheiro(para comprar casas, carros, hiates e etc) e por isso o governo incentivar o consumo apenas estaria agindo contra a preferencia desses indivíduos ao mantê-la em enorme consumismo.
    Até aqui ta certo?

    Agora imagine uma outra sociedade também extremamente consumista aonde o governo interviu, baixou a taxa de juros artificialmente, injetou liquidez e como a TACE explica, isso acarretou em uma crise. Se nesta nova sociedade agora, o governo decidir não intervir na crise e as pessoas dessa sociedade resolverem tomar a mesma atitude que a sociedade antiga tomou de aumentar sua preferência por liquidez a crise acabaria mais rápido não? já que como elas passarão a poupar bastante, nem toda a estrutura de capital criada pelo período de boom inflacionário precisaria ser destruída, já que a demanda dos bens de capital será criada no futuro por resultados de um maior poder de compra, correto?

    Keynes também afirmou que como as pessoas demandam dinheiro para estarem liquidas, isso também seria uma evidencia que a moeda não é neutra na economia, já que a produção se alteraria por completo de acordo com uma maior injeção de liquidez de acordo com o quanto cada uma tem preferencia com o dinheiro que possui.

    Posso afirmar que a preferência por liquidez é a preferencia temporal por dinheiro também né? As duas são a mesma coisa a meu entender.

    Não vim aqui defender Keynes, sei que sua Teoria Geral está errada e nem mesmo afirmar que Say foi refutado, já que Say pra mim foi um dos maiores economistas que já existiu. Ele introduziu a questão de utilidade que depois foi absorvida por Carl Menger e os conceitos básicos de uma teoria do capital, depois melhor desenvolvido por Bohm Bawerk.

    Mas, acredito que não seria um exagero afirmar que Keynes não errou em 100% e ele mesmo chegou a afirmar que no longo prazo acreditava que o livre-mercado poderia sim corrigir as instabilidades. Outro conceito que também acredito que não esteja totalmente errado é o da Armadilha de Liquidez, pois se o governo baixa a taxa de juros e injeta liquidez no mercado para prolongar a adiar a recuperação natural da economia nas crises, vai chegar uma hora que o governo simplesmente não vai conseguir mais baixar a taxa de juros e o país entra em depressão, o Japão é exemplo disso não? Ele errou a propor intervenção como solução, mas não errou em tudo ao meu ver.

    Gostaria de saber se esta minha opinião também se traduz na opinião de Juan Ramon Rallo, pois já li um artigo daqui afirmando que ele seria um híbrido.

    No mais desculpem o incômodo, o comentário grande e os erros de português.
    Leandro, continue o bom trabalho, seus artigos são excelentes por sinal kkk
  • Substituto  22/02/2017 02:24
    "Durante o período de instabilidade não seria correto eu afirmar que nem toda a oferta se transformou em demanda? ou melhor, que nem todo dinheiro obtido pela produção individual se reverteu em demanda de produtos de terceiros já que as pessoas resolveram se manter liquidas?"

    Não muda absolutamente nada. Parece-me que você confundiu os conceitos.

    Quando se diz que a oferta cria a demanda significa que a venda de bens ou de mão-de-obra (oferta) gera poder de compra (demanda) para essa pessoa. Se ela vai usar esse poder de compra ou "entesourar", isso é completamente imaterial.

    O fato é que, para você demandar, você tem antes de ofertar. É a oferta que cria seu poder de compra (demanda). Esse é o ponto.

    No seu exemplo específico, se há produtos "encalhados", uma redução de seu preço irá desencalhá-lo. Ou então, caso não desencalhe, é prova de que a economia precisa de uma mudança em sua estrutura de produção, pois estão sendo produzidos bens que ninguém quer.

    "Outro conceito que também acredito que não esteja totalmente errado é o da Armadilha de Liquidez, pois se o governo baixa a taxa de juros e injeta liquidez no mercado para prolongar a adiar a recuperação natural da economia nas crises, vai chegar uma hora que o governo simplesmente não vai conseguir mais baixar a taxa de juros e o país entra em depressão, o Japão é exemplo disso não? Ele errou a propor intervenção como solução, mas não errou em tudo ao meu ver."

    Não, o Japão não é exemplo de Armadilha da Liquidez. O Japão é exemplo de sistema bancário quebrado e não-liquidado (porque o governo impediu).

    Os bancos japoneses são zumbis. Eles foram dizimados pelo estouro da bolha imobiliária no início da década de 1990. Esse estouro foi verdadeiramente espetacular. Os preços dos imóveis e dos terrenos desabaram e os bancos tomaram seguidos calotes e ficaram com seus balancetes dizimados. Só que o governo não deixou que eles fossem à falência. A consequência é que eles não morreram, mas também não funcionam. Bancos descapitalizados, com balancetes dizimados, não fazem empréstimos. Com juros baixos, então, aí é que eles realmente não farão empréstimo nenhum (o risco é alto e o retorno é nulo). Protegidos pelo governo, os bancos japoneses hoje se mantêm como zumbis. Não são liquidados, e também não têm capacidade de conceder crédito

    Economias com bancos zumbis não saem da estagnação, pois não há crédito. No Japão, os bancos emprestam apenas para o governo e para os megaconglomerados, cujo risco de calote é quase nulo.

    Artigo inteiro sobre o Japão:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2519
  • Ninguem Apenas  22/02/2017 12:31
    Eu já li o artigo do Japão, sei muito bem que é uma economia zumbi e que a TACE é a unica teoria que consegue explicar a situação do Japão, nunca disse o contrário, quando disse que a Armadilha de Liquidez não é completa mente errada, é que o governo baixou tanto a taxa de juros que chegou a um certo ponto aonde ele se vê impossibilitado de baixar ainda mais, já que estão em taxas negativas, qualquer queda maior não vai adiantar de nada, pois a economia não vai mais reagir a nenhum estímulo Keynesiano e só vai prolongar ainda mais a crise e o reajuste, só que Keynes propõe que quando a economia chegar nessa situação basta iniciar um enorme período de gastos públicos, o que é completamente errado.

    "O fato é que, para você demandar, você tem antes de ofertar. É a oferta que cria seu poder de compra (demanda). Esse é o ponto. "

    Obrigado pela resposta, percebi mais claramente que a Lei de Say permanece intacta, mas minha duvida ainda fica sobre o conceito de preferência por liquidez. Ao que pude entender podemos dizer que Keynes não errou em 100% de sua análise e o conceito de preferência por liquidez não vai contra a teoria austríaca, acredito que tanto a preferência temporal quanto a preferência por liquidez seriam interessantes na análise da economia. As minhas proposições feitas no comentário anterior estão realmente corretas? ou cometi algum erro de análise?
  • Rodrigo Fernandes Moreira  22/02/2017 18:44
    Leandro,

    Você acredita que essa valorização do real vai dar um respiro para a economia brasileira, ou isso é 'too little, too late'?
  • Leandro  22/02/2017 20:24
    Embora seja tardia, é alvissareira. Como sempre disse este Instituto, a moeda forte é indispensável -- embora não suficiente -- para se ter uma economia estável.

    "A estabilidade pode não ser tudo; porém, sem estabilidade, tudo vira um nada", dizia Karl Schiller, ministro das finanças da Alemanha Ocidental de 1966 a 1972, explicando o quão importante era para a Alemanha ter uma moeda forte.

    O mesmo vale para o Brasil (e para qualquer país do mundo).

    A carestia, que estava realmente saindo do controle em 2015 e início de 2016, hoje está completamente domada. Com esse problema eliminado, já há mais segurança para investimentos de longo prazo. Com o teto dos gastos sendo realmente obedecido, os déficits orçamentários futuros tendem a cair, o que eleva ainda mais a confiança para investimentos de longo prazo (explicação aqui). E caso a reforma trabalhista e previdenciária saiam, aí fica tudo nos trilhos. (Mas se houver risco de um populista ser eleito em 2018, nenhum investimento sairá do papel).

    [link www.mises.org.br/Article.aspx?id=2402]Neste artigo do início de maio de 2016[/link], expliquei a teoria e fiz a seguinte previsão: se o dólar caísse abaixo de R$ 3,35, o real estaria forte, e isso derrubaria a inflação de preços.

    Fato consumado. A partir do final de agosto, o dólar caiu para menos de R$ 3,35, e desde então a inflação de preços passou a ficar totalmente comportada.

    De setembro de 2016 a janeiro de 2017, o IPCA está acumulado em 1,21%. Em termos anualizados, isso equivale a 2,93%, um valor incrivelmente baixo.

    A maneira certa de se debelar carestia -- como tantas vezes já explicado -- é com moeda forte.
  • Rodrigo Fernandes Moreira  22/02/2017 22:08
    Muito bom, obrigado!
  • Douglas Rodrigues  24/02/2017 13:54
    Leandro, não sei se está sabendo (creio que sim), mas está rolando entre os economistas mainstream no Brasil, a causa do juros no Brasil ser historicamente alta. Ontem eu ouvi um podcast da Monica de Bolle, mas confesso que não entendi muito ela, ela falou, falou, mas não falou nada de concreto. A discussão toda começou com um artigo do [www.valor.com.br/cultura/4834784/juros-e-conservadorismo-intelectual]André Lara Resende para o Valor levantando a questão[www.valor.com.br/cultura/4834784/juros-e-conservadorismo-intelectual], e segundo ele os juros nominais praticados pelo Banco Central são a causa da alta inflação no Brasil, [www.valor.com.br/cultura/4842254/nada-de-novo-no-debate-monetario-no-brasil]depois Marcos Lisboa e Samuel Pessoa responderam ele [www.valor.com.br/cultura/4842254/nada-de-novo-no-debate-monetario-no-brasil], [www.valor.com.br/cultura/4849060/teoria-pratica-e-bom-senso]depois o André faz uma tréplica[www.valor.com.br/cultura/4849060/teoria-pratica-e-bom-senso], e posteriormente uma galera entra no debate, [www.valor.com.br/cultura/4857030/neofisherianismo-vai-entender]como Eduardo Loyo (economista-chefe da BTG PActual) [www.valor.com.br/cultura/4857030/neofisherianismo-vai-entender], [www.valor.com.br/cultura/4879800/taxa-real-de-juro-evolucao-e-perspectivas]o ex-ministro Nelson Barbosa[www.valor.com.br/cultura/4879800/taxa-real-de-juro-evolucao-e-perspectivas], entre outros. Li os artigos, mas confesso que consegui entender muita pouca coisa sobre a questão. Não tenho conhecimento a altura para compreender o assunto, mas segundo a Escola Austríaca, o que explica o juros alto no Brasil?

  • Andre  24/02/2017 16:43
    Esse comentário está mais bagunçado que bilhete de sequestrador.


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