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O cenário político italiano e seu sistema bancário: a grande encrenca para a União Europeia
As perspectivas futuras não são nada boas para Bruxelas

No dia 23 de junho, os eleitores do Reino Unido deram um não à permanência do país na União Europeia. Os defensores do Brexit saíram vitoriosos, assustando o establishment e temporariamente abalando os mercados financeiros. Aquele ato jogou ainda mais gasolina em uma fogueira italiana, que estava ainda incandescente — uma fogueira que pode acabar se transformando em incêndio.

Em julho, os resultados dos testes de estresse (testes para ver a robustez dos balancetes) feitos em 51 bancos europeus mostraram que o Banca Monte dei Paschi di Siena, o terceiro maior da Itália, é o que está em situação mais delicada. Tendo tomado vários calotes — o que significa que ele está com ativos (empréstimos) que, na prática, valem zero —, o banco terá de declarar, até o final do ano, uma redução de 28 bilhões de euros em seus ativos.

Uma redução de 28 bilhões nos ativos sem uma igual redução em seus passivos significa uma profunda descapitalização, que pode deixar o banco totalmente insolvente.

O Banco Central Europeu, por conseguinte, ordenou que o Monte dei Paschi conseguisse levantar pelo menos 5 bilhões de euros para se recapitalizar. Ato contínuo, o Monte Paschi anunciou que iria fazer isso (elevar seu capital) por meio de três etapas: transformar passivo em patrimônio líquido (capital), emitir mais ações na bolsa de valores, e retirar de seus balancetes os empréstimos inadimplentes.

A etapa de transformar passivo em patrimônio líquido começou na segunda-feira passada e foi até sexta-feira. O Monte dei Paschi pediu a todos que estivessem em posse de títulos do banco [como CDBs e RDBs] que aceitassem trocar 4,3 bilhões de euros por ações do banco. Os detentores dos títulos concordaram em converter apenas um quarto deste valor.

Estava programada para esta semana a segunda etapa, que era a emissão de ações. Porém, com o resultado negativo do referendo ocorrido neste fim de semana e com a subsequente renúncia do atual governo, não se sabe qual será a continuação dada a esse programa pelo futuro novo governo.

Apenas se a emissão de ações fosse bem sucedida é que a terceira etapa seria implantada: um total de 27,7 bilhões em empréstimos inadimplentes seria retirado do balancete do Monte dei Paschi e direcionada para um entidade separada, a qual transformaria essas dívidas ruins em títulos e venderia no mercado secundário para investidores dispostos a assumir o risco. O programa de emissão de ações estava condicionado à venda desses empréstimos inadimplentes. Um não irá ocorrer sem o outro.

O governo do agora demissionário primeiro-ministro Matteo Renzi anunciou que não iria haver nenhum pacote de socorro para os bancos italianos. Como nada se sabe quanto ao futuro governo, tudo agora fica em aberto.

O futuro

Desde 2008, o Monte dei Paschi já recebeu 4 bilhões de euros dos pagadores de impostos e mais 8 bilhões de euros dos investidores. Todo o valor foi queimado. E, agora que mais de um terço de seus empréstimos concedidos estão inadimplentes, o banco precisa de uma nova rodada de capitalização.

As nuvens pesadas já estão a pleno no horizonte. Se o banco queimou 12 bilhões de euros, por que não irá queimar outros 5 bilhões?

Pior: dado que vários bancos italianos estão repletos de empréstimos inadimplentes (o total chega a aproximadamente 200 bilhões de euros), e dado que suas ações estão em valores historicamente baixos, é necessário ser bastante otimista para acreditar que o programa de emissão de ações será bem-sucedido.

O fato é que se o Monte dei Pasche não conseguir se recapitalizar no mercado, o futuro governo italiano e a União Europeia irão entrar em conflito. E aí jaz a potencial tormenta: pelas novas regras da União Europeia, caso um banco em dificuldades não consiga se recapitalizar no mercado, seus correntistas é que terão de fazer o serviço. Na prática, o dinheiro que está na conta-corrente, na conta-poupança ou em CDBs será confiscado de seus proprietários e incorporado ao patrimônio líquido do banco, aumentando seu capital.  Aquele dinheiro que até então era contabilizado como um passivo para o banco torna-se um patrimônio líquido do banco.  [Foi isso o que aconteceu no Chipre em 2013.]

Tal prática tornou-se conhecida no jargão financeiro como bail-in — em oposição ao bail-out, que é quando o governo utiliza dinheiro de impostos para socorrer os bancos, não mexendo no dinheiro dos correntistas.

O bail-in, obviamente, é politicamente suicida para qualquer governo. O bail-out, embora também impopular, tende a ser mais popularmente palatável. Mas vai contra as novas regras da União Europeia.

Caso um governo populista de esquerda contrário à União Europeia e ao euro — como o hoje popular Movimento 5 Estrelas, liderado pelo comediante Beppe Grillo — assuma o comando do país, tudo se torna ainda mais imprevisível. De um lado, não mais haveria segurança política para que o mercado recapitalizasse os bancos. De outro, provavelmente não haveria nem bail-ins (impopular para os correntistas do terceiro maior banco italiano) e nem bail-outs (impopular por ser visto como "governo salvando banqueiro").

O problema é a economia

Partindo do princípio de que será difícil o banco se recapitalizar no mercado, sobram o bail-in (que é o que manda a União Europeia) e o bail-out (que a EU proíbe).

Os argumentos contra o bail-out são sólidos: eles representam a premiação da incompetência e o aumento do risco moral. Por que um banco seria prudente se ele sabe que o governo sempre irá socorrê-lo com o dinheiro de impostos?

Já os argumentos contra o bail-in, especialmente no caso italiano, são mais frágeis: seus críticos dizem que imputar perdas aos investidores abalaria a confiança nos bancos, aumentaria os saques dos correntistas, e, consequentemente, afetaria a capacidade futura dos bancos italianos em seguir concedendo crédito barato. 

Sim, só que esta é exatamente a própria política que gerou o problema.  Ao contrário do que ocorreu na Espanha ou na Irlanda, em que o descalabro bancário esteve vinculado a uma bolha imobiliária que estourou e gerou calotes maciços, a situação italiana não decorre de nenhum boom econômico artificial: a renda per capita do país está literalmente estagnada há 20 anos.  Todo o crédito bancário que foi direcionado a famílias e empresas se materializou em investimentos de baixíssimo retorno, incapazes de gerar os fundos suficientes para amortizar as dívidas.  Daí os calotes, mesmo com os juros baixíssimos.

O problema econômico da Itália, portanto, nunca foi de escassez de crédito, mas sim de falta de oportunidades sensatas de investimento.  Isso fez com que o país crescesse exiguamente em decorrência de endividamento insolvente.  Em vez de se preocuparem com a restrição creditícia que seria acarretada pelo bail-in, seus governantes deveriam se preocupar em impulsionar um ambicioso pacote de liberalizações que multiplique as oportunidades reais de investimentos. 

Conclusão

O Monte dei Paschi não é o único banco italiano encrencado. Por causa da fraca atividade econômica e dos calotes que ela gerou, todos os bancos italianos precisam (ou precisarão em breve) de capital adicional. Só que emitir novas ações não seria uma ideia muito atraente porque as ações de todos os bancos valem hoje menos que seu valor contábil. Os bancos Intesa Sanpaolo, UniCredit, UBI Banca, Banco Popolare e o próprio Monte dei Paschi estão com sua ações valendo menos que seu patrimônio.

Sem recapitalização via mercado, um socorro governamental se torna a fonte mais politicamente viável de recapitalização. Mas isso é proibido pela UE. Sobra então para os correntistas e investidores detentores de títulos bancários socorrer os bancos, mas isso é impopular.

Enquanto isso, o Movimento 5 Estrelas é o favorito para assumir o governo nas próximas eleições, segundo as pesquisas. Ele é a favor da saída da Itália da UE e do euro. Isso, sim, pode trazer inquietação para os garotos de Bruxelas.

 

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autor

Steve Hanke
é professor de Economia Aplicada e co-diretor do Institute for Applied Economics, Global Health, and the Study of Business Enterprise da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA.  O Professor Hanke também é membro sênior do Cato Institute em Washington, D.C.; professor eminente da Universitas Pelita Harapan em Jacarta, Indonésia; conselheiro sênior do Instituto Internacional de Pesquisa Monetária da Universidade da China, em Pequim; conselheiro especial do Center for Financial Stability, de Nova York; membro do Comitê Consultivo Internacional do Banco Central do Kuwait; membro do Conselho Consultivo Financeiro dos Emirados Árabes Unidos; e articulista da Revista Globe Asia.


  • Gilberto F da Silva  05/12/2016 14:41
    Isso de depositarmos o dinheiro num banco e o banqueiro ficar trabalhando com ele, está se mostrando a causa de muitos problemas financeiros. A gente não possui controle para quem o banqueiro empresta o dinheiro. Se dá certo ele embolsa os lucros, se dá errado a gente fica com o prejuízo.
  • Pobre Paulista  05/12/2016 15:00
    Lucros privados, prejuízos socializados: É exatamente assim que funciona o capitalismo de estado.

    Num livre mercado genuíno o banco simplesmente quebraria, ou antes disso seria comprado por um outro banco mais eficiente. E também as pessoas se lembrariam que o banco é um mero facilitador de investimentos, e não um personagem central no cenário econômico.
  • Anderson d'Almeida  05/12/2016 15:15
    Mas essa é a prática de agiotagem dos bancos, eles crescem emprestando dinheiro dos outros para outros, depois, o capital retornado junto aos juros é devolvido aos donos - parte dele - e o resto fica com os próprios bancos.

    O problema é quando os bancos se metem a fazer empréstimos arriscados e, pior, com a maior parte de seus balancetes. É uma loucura! Mas os bancos não querem saber, pois o que lhes interessa é o lucro que possivelmente terão com essas operações de risco.

    Se não houvesse esse sistema de reservas fracionárias, em que as fraudes reinam, e os governos não pudessem socializar os prejuízos - quando os bancos são socorridos pelos governos através do dinheiro de impostos -, a tendência seria uma maior cautela e solidez dos bancos...

    Sugiro ler o artigo : O dilema do sistema bancário e as regras da Basileia

  • Anderson d'Almeida  05/12/2016 14:56
    Ótimo artigo!


    Estas ondas - ou seria mar? - que as economias entraram, reservas fracionárias, têm se mostrado, ao longo das últimas décadas, péssimas à economia. Sempre temos crises daqui e dali, e o pior é que a resolução das crises é a gestação de uma futura crise. Quanta insensatez. Ainda que os controles contábeis melhorem, sempre há espaços para emissão de moedas "sem valor" e prejuízos socializados a todos.
  • Andre  05/12/2016 15:06
    Liberalizações econômicas na Itália? Impossível, assim como no Brasil. Vão é embarcar em outro debaclê e mais uma recessão mundial virá.
  • Rennan Alves  05/12/2016 16:09
    Isso me lembrou da Operação Mãos Limpas que ocorreu na Itália, e muitos atribuem a catástrofe financeira como consequência daquela operação.
  • Roberto  05/12/2016 16:22
    Não sei se foi consequência, mas é empiricamente observável que ela em nada ajudou no quadro político do país. Muitos no Brasil estão esperançosos de que a Lava Jato oxigenará a política no Brasil. They are in for a big surprise!
  • Andre  05/12/2016 17:17
    Brasileiro acreditou no Lula, na Dilma e até no Edir Macedo, acreditar que a Lava Jato vai transformar o Brasil num país sério é só mais um delírio de nossas classes média e funcionalismo que pensam que a culpa de todas as mazelas deste país é unicamente a corrupção.
    E reformas econômicas para facilitar a vida do capitalismo malvadão nem italianos e nem brasileiros querem, sorte da Itália que enriqueceu antes.
  • Oráculo  05/12/2016 17:41
    A Lava Jato entregará a presidência do país a Ciro Gomes. Anotem aí e me cobrem depois.
  • Vinicius  05/12/2016 17:52
    Se esse homem levar a presidência é Venezuela sem escala.
  • Marcos  05/12/2016 17:52
    Também acho, Oráculo. Serra já era (felizmente). Aécio e Alckmin serão colhidos pela Lava Jato. Caiado (em quem eu votaria) não tem penetração política nenhuma. Todos esses são carta fora do baralho.

    Sobrarão Bolsonaro e Ciro Gomes. Mas Bolsonaro não tem nenhum traquejo em economia e levará baile nos debates. Além disso, será impiedosamente bombardeado pela mídia. E toda esquerda, capitaneada pelo PT, estará com Ciro.

    Se não for Ciro, será o próprio Lula, que voltará espumando de raiva e disposto a explodir tudo (e, se concorrer, ele ganha).

    Protejam-se.

    P.S.: chamem-me de louco, mas perante estas opções, uma reeleição de Michel Temer seria até uma bênção...
  • anônimo  09/12/2016 02:05
    Verdade.
  • FL  05/12/2016 15:53
    Caros, me perdoem a ignorância, mas não achei a informação em nenhum lugar confiável: o que exatamente foi votado no tal referendo italiano?
  • Giulianno   05/12/2016 16:11
    Era um referendo que fazia profundas alterações na Constituição italiana, tendo em vista simplificar a burocracia do país. Por exemplo, os prazos para a aprovação de leis.

    Hoje a Câmara e o Senado têm o mesmo poder na Itália. O governo afirma que a paridade emperra os processos.

    Renzi propôs, portanto, que o Senado fosse esvaziado. O número de senadores diminuiria de 315 para 100 e a Casa não poderia, por exemplo, dissolver governos.

    O Senado tampouco poderia aprovar leis, tornando-se assim uma espécie de órgão de consulta. Senadores só teriam poder de decisão em casos restritos, como as modificações na Constituição.

    Outra mudança proposta pelo premiê era centralizar o poder em Roma, diminuindo a importância de entidades regionais. Esse ponto, em específico, foi bastante criticado como indício de demasiada concentração na capital.

    www.rtp.pt/noticias/mundo/perguntas-e-respostas-sobre-o-referendo-em-italia_es966808
  • Marco  05/12/2016 16:17
    Diferentemente do Reino Unido, que tem economia e finanças estáveis, a Itália é um país quase tão bagunçado quanto o Brasil.

    União Européia, o último a sair que apague a luz.
  • myself  05/12/2016 16:19
    Pelo que já li por aqui, me parece que a maioria das pessoas no IMB são contra os bancos trabalharem com o sistema de reservas fracionárias. Me parece (não tenho certeza) que o abandono do sistema de reservas fracionárias faria o sistema bancário se tornar mais robusto, mas traria ganhos menores aos investidores/correntistas com suas aplicações financeiras.
    É isso mesmo? Ou estou enganado?

    Obrigado
  • Henrique Zucatelli  05/12/2016 16:54
    Myself, não a maioria, mas todos. A Escola Austríaca é pautada basicamente pela realidade e o lastro. Moeda fracionária é dinheiro de mentirinha, basicamente.

    Portanto dinheiro virtual + governo gastador = inflação, ou seja, perda do poder de compra da moeda. Como isso seria bom para qualquer investidor?

    Um sistema bancário lastreado em ouro ou qualquer ativo escasso e estável faria (como já fez) com que o poder de compra das pessoas e empresas aumentasse gradativamente, e sim, isso seria bom para todos, inclusive para os investidores.
  • Taxidermista  05/12/2016 21:52
    Caro Henrique,

    desculpe-me pela correção, mas nem todos os austríacos são contrários ao sistema de reservas fracionárias (alguns dizem que as reservas fracionárias podem existir desde que não exista um banco central ou interferência governamental):

    "George Selgin - ao lado de Lawrence White, Roger Garrison e do falecido Larry Sechrest, além do próprio Hayek, de certa forma - pertencem à ala austríaca que não tem nada contra o sistema bancário de reservas fracionárias, desde que implantado em um ambiente genuinamente concorrencial - isto é, sem um banco central e sem qualquer tipo de protecionismo estatal.
    George Selgin concedeu a entrevista a seguir à Region Focus, uma publicação do Federal Reserve de Richmond, Virgínia.
    ":

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=312


    Aqui no site tem um artigo de um economista brasileiro da EA defendendo essa posição:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1045

    Abraço.



  • Henrique Zucatelli  06/12/2016 08:53
    Bom dia Taxidermista.

    Nunca pensei que poderia dizer isso, mas... Deturparam Mises.
  • Henrique Zucatelli  06/12/2016 09:33
    Mas falando sério agora.

    Sem hermenêutica mas sob o ponto de vista histórico, Hayek, Friedman e outros de seu tempo foram e voltaram pelo liberalismo (falo disso mais a frente), porém nesse artigo denota-se a princípio que ele não é literalmente a favor de reservas fracionárias, mas que em um sistema de free banking, tal modelo teria um freio, ou seja, o próprio mercado, como podemos notar nesse trecho:

    "Nesse cenário de livre concorrência, aquele banco que tentasse lucrar emitindo mais moeda que seus competidores estaria rapidamente insolvente, pois seus clientes mudariam rapidamente para uma moeda concorrente ao sentirem a inflação de preços em sua atual moeda, e também porque esses bancos passariam dificuldades no mercado interbancário [...]"

    E segue em outro trecho:

    "É verdade que, como a história já nos ensinou, se tivéssemos um free banking desde o início, não teríamos bancos centrais e quase certamente teríamos um padrão monetário baseado em alguma commodity, provavelmente o ouro."

    Neste raciocínio:

    "O papel-moeda fiduciário que temos atualmente é puramente o produto de bancos centrais. Creio que já está bem claro que, se nunca tivéssemos tido bancos centrais, não teríamos papel-moeda fiduciário. Ao contrário, ainda teríamos uma moeda commodity. Não creio que teria havido quaisquer tipos de forças evolucionárias capazes de retirar dos sistemas monetários padrões-commodities já estabelecidos, principalmente o ouro e a prata."

    Apesar disso, durante o artigo ele se encanta pelo modelo, dizendo que os refutadores do sistema de reservas fracionárias têm argumentos fracos.

    Sobre Hayek e o Neo Liberalismo

    Um artigo que ilustra bem o por que dessa posição estranha de Hayek sobre reservas fracionárias é este brilhante artigo sobre Mises contra Neo Liberalismo.

    Alguns trechos apontam que, em suma, Hayek foi o pai do Neo Liberalismo:

    "Encontramos uma clara expressão da visão de mundo neoliberal em um artigo que Hayek escreveu em 1935. Comentando a teoria de Mises sobre o intervencionismo, Hayek observa que, do argumento de Mises, não se pode concluir que "a única forma de capitalismo que pode ser racionalmente defendida é aquela do laissez-faire completo, em seu antigo sentido". Ele continuou:

    O reconhecimento do princípio da propriedade privada não necessariamente implica, de modo algum, que a delimitação dos conteúdos desse direito pelas leis existentes é a mais apropriada. A questão sobre qual é o mais apropriado arranjo permanente que irá assegurar o funcionamento mais harmônico e eficiente da concorrência é da maior importância, e há de se admitir que tal questão tem sido lamentavelmente negligenciada pelos economistas."


    E em outro trecho:

    Essas ideias expressavam perfeitamente os sentimentos de uma geração de economistas que haviam sido criados em um ambiente intelectual inteiramente estatista, mas que no entanto conheciam as lições ensinadas pelos liberais clássicos. F.A. Hayek, Wilhelm Röpke, Fritz Machlup, Milton Friedman, Michael Polanyi, Walter Eucken e vários outros cursaram suas universidades na década de 1920 e início da de 1930, quando adquiriram seus decisivos impulsos intelectuais. Durante o final da década de 1930, eles começaram a adquirir cargos mais altos e, após a Segunda Guerra, acabaram por assumir a liderança intelectual da direita política.

    Seu neoliberalismo animou o trabalho daquelas instituições que surgiram no pós-guerra com o intuito de estancar o crescimento do estatismo — mais especificamente a Mont Pèlerin Society e o Institute for Economic Affairs de Londres. Atualmente, a agenda neoliberal é propagada por instituições educacionais como o Institute for Humane Studies, o Cato Institute e a Atlas Research Foundation.


    Para completar o raciocínio:

    "Para os mais resolutos defensores da liberdade, o neoliberalismo de Hayek era excessivamente brando e tolerante para com o governo. O programa positivo de O Caminho para a Servidão deixava o governo no controle da vida econômica. A economia ainda era para ser planejada, com o governo no controle de todo o planejamento. Hayek meramente sugeria que esse planejamento fosse voltado para a exortação da concorrência, e não para o controle detalhado de todos os participantes do mercado. Sob qualquer ponto de vista, essa era uma abordagem ingênua, e alguns pensavam até que era também indefensável do ponto de vista intelectual. Comentando sobre o programa de Hayek, Frank Chodorov exclamou: "Quanta tolice!", e fez questão de deixar claro que achava que o programa beirava a covardia intelectual.

    Mises ficou muito contente com o sucesso do livro. Entretanto, ele também achou que Hayek defendeu seu argumento em termos equivocados. Hayek havia apontado o planejamento econômico como a causa fundamental das várias políticas que ameaçavam as liberdades políticas e econômicas. Mas não há perigo no ato do planejamento per se. A questão real é: quem deve fazer o planejamento e como os planos devem ser realizados? Deveria haver apenas um plano imposto pelo poder do estado sobre todos os cidadãos? Ou deveria haver vários planos diferentes, cada um feito por indivíduos distintos ou por chefes de família? Mises enfatizou essa crucial distinção em um discurso feito a 30 de março de 1945 na American Academy of Political Science. Ele deixou implícito o fato de que seu discurso era uma análise crítica do livro de Hayek."



    Taxidermista, ficamos combinados assim: Austríacos são contra moedas fiduciárias. Aqueles que são a favor de mecanismos que vão contra as bases sólidas da propriedade, seja por intervenção, seja por coação, seja por relativismo intelectual, não podem ser chamados de austríacos. Certo?

    Abraços,


  • Taxidermista  06/12/2016 11:47
    Caro Zucatelli:

    bacana o seu comentário. Vale acrescentar um ponto aí na temática.

    Sobre o seu último parágrafo, insta lembrar que o busílis da discórdia (dentro da EA) aí é, fundamentalmente, o seguinte: Rothbard, por ex, como vc sabe, defendia que o sistema de reservas fracionárias deveria ser proibido (pq esse sistema constitui uma fraude à propriedade privada).
    A ala defensora do sistema de reservas fracionárias (desde que sem banco central) afirma que essa posição do Rothbard implica intervenção estatal na economia, porquanto sem um banco central o sistema de reservas fracionárias, caso existisse, seria fruto de acordo entre as partes (bancos e clientes, no caso).

    Rothbard chegou a responder a esse argumento, dizendo que a proibição das reservas fracionárias constituiria uma regra de defesa da propriedade, como qualquer regra que impede fraudes.

    Hoppe escreveu dois conhecidos artigos em defesa da posição de Rothbard (um deles em coautoria com Block e Hulsmann):

    mises.org/library/how-fiat-money-possible-or-devolution-money-and-credit

    mises.org/library/against-fiduciary-media-0

    O Huerta de Soto, como vc sabe, também é um fervoroso defensor da posição de Rothbard.

    Abraço fraterno.
  • Henrique Zucatelli  06/12/2016 14:16
    Gostei da sua resposta, e realmente encontramos o paradoxo da rocha de Santo Agostinho na EA.

    1- Liberdade total com a possibilidade de bancos emitirem reservas fracionárias ou;

    2- Restrição Estatal de reservas e implantação do padrão moeda-commoditie?

    Fico a pensar.

    Grande abraço.
  • Emerson Luis  09/12/2016 11:26

    Proibir a prática de reservas fracionárias seria tão autoritário quanto impor as reservas fracionárias (sistema atual).

    Em um sistema de liberdade econômica plena (mas responsável, gerido por leis), alguns bancos escolheriam não seguir o sistema de reservas fracionárias e outros sim, seria um direito de escolha deles. Ao mesmo tempo, os clientes seriam livres e bem informados para escolher entre os dois tipos de bancos, pesando os prós e contras de cada um. Com o tempo, as livres escolhas dentro do livre mercado aperfeiçoariam o processo e selecionaria naturalmente não só os melhores bancos, mas também o melhor sistema bancário.

    * * *
  • Luis  05/12/2016 16:57
    Eu vou comprar euros. Se a uniao europeia e o euro acabrem, vira reliquia. Um real comemorativo das olimpiadas ja vale 200.
  • Kekanto  09/12/2016 02:06
    Não acho que seja uma boa ideia, amigo.
  • Luiz Felipe  05/12/2016 17:16
    Que o cartel bancário protegido pelo estado (via Banco Central) vire ruínas e que a população comece a se concentrar em alternativas mais seguras e legítimas, como as criptomoedas, o ouro e outras commodities.

    Não se iludam, isso ainda chega ao Brasil.
  • Anos 80  05/12/2016 17:37
    Fácil, muitos brasileiros da época da hiperinflação e confisco ainda são economicamente ativos, esse chiqueiro tem muitos ativos reais para usarem como meio de troca e escambo, em poucos meses a economia daqui se adapta a uma quebradeira bancária mundial, a europa não vê nada assim desde a segunda guerra e os EUA há mais tempo ainda e sem hiperinflação.
    Ouro é para os fracos, quero ver essa juventude fazer negócios usando meios como fusca zero, linha de telefone, garrafa de uísque, milheiro de tijolo, traseiro de boi, galinha de pé, bereta e outras coisas inusitadas, todas garantidas pelo fio do bigode.
  • Paulo Henrique  05/12/2016 18:38
    Não fala besteira. Escambo, seja qual economia for, não permite nenhum calculo econômico racional em toda a economia tal como o dinheiro faz (é claro, teoricamente qualquer coisa divisível pode ser usada como dinheiro, porem, é pouco provável que qualquer dos artigos citados se tornem moeda corrente)

    Dito isso, em uma economia de subsistência uma destruição bancária pode ter pouco impacto para quem consome tudo o que produz e não incorre em nenhuma troca com moeda, no restante, é um apocalipse financeiro; Basta ver a venezuela para você ter um pouco de noção do que uma destruição monetária pode causar

    Sim, eles praticam escambo na venezuela, e esse arranjo não chega aos pés de uma moeda sólida
  • Andre  05/12/2016 18:55
    O Brasil dos 80s teve uma destruição monetária muito pior que a Venezuela, se não me engano é a 6ª maior inflação acumulada da história da humanidade, a da Venezuela não entrou nem no top 30, mesmo com índices pararelos.
    Venezuela é país socialista, literalmente você é proibido de produzir, o Brasil dos 80s ainda mantinha uma economia de mercado capenga como sempre foi aqui. É preciso bastante esforço pra criar o apocalipse financeiro sem socialismo, e a UE com seus bancos zumbis parece que vai conseguir.
  • Pedro Ivo  05/12/2016 19:41
    "Ouro é para os fracos, quero ver essa juventude fazer negócios usando meios como fusca zero, linha de telefone, garrafa de uísque, milheiro de tijolo, traseiro de boi, galinha de pé, bereta e outras coisas inusitadas,"... - Também gostaria de ver jovens negociando com estas bugigangas 'démodée fait français': seria uma curiosidade saudosista, mas charmosa. Creio seja mais provável façam-no com "higthtec"-quesas como smartphones e laptops. Mas é só um palpite...

    "...todas garantidas pelo fio do bigode." - Se há tantas mulheres negociando garantindo-se em pentelhos de boceta (putas) e homens nos cabelos do saco (michês), qual a dificuldade de fazê-lo com fios de bigode? Credibilidade se conquista, e quem não a tem que arque com o ônus, ora!
  • Pedro Ivo  05/12/2016 19:56
    "Ouro é para os fracos, quero ver essa juventude fazer negócios usando meios como fusca zero, linha de telefone, garrafa de uísque, milheiro de tijolo, traseiro de boi, galinha de pé, bereta e outras coisas inusitadas,"... - Também gostaria de ver jovens negociando com estas bugigangas 'démodée fait français': seria uma curiosidade saudosista, mas charmosa. Creio seja mais provável façam-no com "higthtec"-quesas como smartphones e laptops. Mas é só um palpite...

    "...todas garantidas pelo fio do bigode." - Se há tantas mulheres negociando garantindo-se em pentelhos de boceta (putas) e homens nos cabelos do saco (michês), qual a dificuldade de fazê-lo com fios de bigode? Credibilidade se conquista, e quem não a tem que arque com o ônus, ora!
  • Mr. Magoo   05/12/2016 21:29
    Concordo "Anos 80". Totalmente.
    Para quem passou por aquela época, os dia de hoje tem gosto de déjà vu; estão vacinados.
  • Fábio  05/12/2016 23:47
    Meu pai comprou o primeiro terreno dele juntando garrafas de uísque e revólveres, mostrei seu comentário pra ele e entrou numa nostalgia danada. Hoje em dia seria taxado como traficante.
  • Citador Casual  05/12/2016 18:35
    "O sucesso é uma mera questão de sorte. Pergunte a qualquer fracassado."
    EARL WILSON, escritor (1907-87)
  • Eliel da Silva  05/12/2016 18:36
    A Itália assusta a União Europeia - https://www.publico.pt/2016/12/05/mundo/noticia/a-italia-assusta-a-uniao-europeia-1753720

    Isto não é o momento "Brexit" de Itália - https://www.publico.pt/2016/12/05/mundo/noticia/isto-nao-e-o-momento-brexit-de-italia-1753664

    Matteo Renzi demite-se após derrota no referendo - https://www.publico.pt/2016/12/04/mundo/noticia/matteo-renzi-demite-1753650

    Enquanto isso, em Portugal ... Passos: Situação da CGD só trouxe "mais ameaças e dúvidas" ao sistema financeiro - https://www.publico.pt/2016/12/05/economia/noticia/passos-situacao-da-cgd-so-trouxe-mais-ameacas-e-duvidas-ao-sistema-financeiro-1753686

  • Capitalista Keynes  05/12/2016 22:48
    Fugindo um pouco do assunto ,mas ainda no exterior ....e a Áustria ?....A derrota da extrema direita nas eleições apesar de função um tanto figurativa do presidente, foi bom? .....ou só ajuda na permanência da Áustria na UE e evitar um futuro "Austrexit" '0' ?.....
  • Jarzembowski  06/12/2016 10:38
    Com essa instabilidade tem alguma chance do real se valorizar em relação ao Euro nas próximas semanas?
  • Andre  06/12/2016 11:10
    Tem que contar a instabilidade aqui também, agora o PT tem a presidência do senado federal. além da recorrente incapacidade do governo reanimar a economia.
  • Noob  07/12/2016 05:23
    Desculpem a pergunta tão óbvia de um leigo, mas por que alguém mantém seu dinheiro em contas nesse banco, se existe o perigo desse dinheiro ser roubado para pagar a dívida do banco?

    Não é mais lógico todos os clientes sacarem o dinheiro e investirem em alguma coisa, ou depositar em outro banco, ou até mesmo guardar embaixo do colchão? O que impede que isso aconteça?
  • Bob  07/12/2016 11:14
    Porque é impossível fazer isso. Artigo inteiro sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2445
  • Emerson Luis  09/12/2016 11:03
  • anônimo  17/12/2016 13:03
    Itália, Portugal e Espanha estão se encaminhando pra virarem a Grécia.
  • Anônimo Educado  17/12/2016 21:43
    Acho que a maior prova dessa insanidade é a desvalorização do euro, e o euro é muito mais do que uma simples moeda corrente da Zona do Euro. Segundo HHH, ele afirma que essa política da UE é para enfraquecer a Alemanha e torná-la submissa aos burocratas de Washington, e isso é a mais completa verdade, porque no auge da crise da Grécia, os políticos dos países europeus da Zona do Euro, tiveram várias reuniões na capital dos EUA.

    Eu acho que a verdadeira reviravolta desta maluquice virá justamente do país mais forte da zona, a Alemanha. Se os alemães se mostrarem um povo esclarecido e politicamente esperto, verá que essa política criada era justamente para enfraquecer o potencial alemão.
  • Mr. Magoo   17/12/2016 23:42
    "A União Monetária, no final, resultará em uma gigantesca operação de chantagem. Quando os alemães exigirem disciplina monetária, outros países vão culpar esta mesma disciplina por seus problemas financeiros e, por extensão, nós, alemães. Além disso, nos olharão como uma espécie de polícia econômica. Corremos o risco de, mais uma vez, nos tornarmos os cidadãos mais odiados da Europa". Arnulf Baring, cientista político alemão, em livro de 1997. (Uma previsão digna de Nostradamus).


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