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Eis a encrenca política: se o Deutsche Bank quebrar, o setor exportador alemão vai junto
Por isso, as chances de resgate do governo são altas

A coisa está feia. Muito feia. Embora a situação do Deutsche Bank já estivesse grave há mais de um ano, foi apenas muito recentemente que grande mídia começou a abordá-la em suas páginas financeiras.

A situação, que já era ruim, foi piorada ainda mais pela multa de US$ 14 bilhões aplicada ao banco pelo Departamento de Justiça americano.  Isso criou um problema imediato.  E em um péssimo momento.  Um ano atrás, essa multa poderia ter sido paga sem criar um maremoto internacional; hoje, com o banco bem mais descapitalizado, sem chance.

A questão mais premente é: e se o governo não fizer nada?  E se não houver um pacote de socorro?  Todo o dominó irá cair?

Como dito neste artigo:

Se o Deutsche Bank quebrar e o governo alemão nada fizer para socorrê-lo, isso será um devastador golpe à maior economia da Europa — e ao sistema financeiro global.  Ninguém realmente sabe quais seriam as perdas totais e qual será o impacto sobre todo o sistema financeiro.  Certamente, seria um golpe fatal para o sistema bancário italiano.  Os bancos franceses e espanhóis seriam os próximos.  Pior ainda: a economia da zona do euro, com a França e Itália de volta ao crescimento zero e ainda lidando com o impacto do Brexit, dificilmente está em boa forma para absorver um choque desta magnitude.

Esse é um bom ponto: a ameaça de os bancos italianos quebrarem é enorme.  O sistema bancário italiano é muito maior que o da Grécia.  Depois da Itália vem a Espanha.  E depois a França.  Todo operador de hedge fund sabe disso.  A zona do euro tem como elo uma moeda comum.  Contas-correntes podem ser abertas e fechadas em qualquer país da zona do euro por qualquer residente de qualquer país.  A Grã-Bretanha nunca se juntou a isso.  Os outros 17 países, sim.

Eis a encrenca: se o Deutsche falir, grandes correntistas (aqueles que têm mais de 100 mil euros depositados) terão suas contas bancárias confiscadas, com esse montante sendo incorporado ao patrimônio líquido do banco.  Essa prática passou a ser chamada de bail-in, em oposição ao bail-out, que ocorre quando o banco é socorrido com o dinheiro de impostos e seus correntistas nada perdem.  Logo, a única maneira de correntistas do Deutsche escaparem de um bail-in é tirando o dinheiro do banco e o redepositando em outro banco.  Isso, obviamente, seria uma corrida bancária.  Corridas bancárias são fatais a um banco.

A falência de um banco do porte do Deutsche pode desencadear corridas em outros bancos.  E então começa o efeito dominó.  Para aqueles bancos solventes, que receberão todo esse dinheiro sacado dos bancos insolventes, tudo será um ótimo negócio.  Para os bancos que sofrerem as retiradas, tudo será péssimo.

Matthew Lynn conclui:

A cruz e a espada são as opções de Merkel.  Um colapso do Deutsche facilmente aniquilaria sua carreira política.  Por outro lado, seu resgate poderia significar o fim do euro e da União Europeia. 

Há anos eu digo isso sobre Merkel: "Seus lábios dizem 'não, não', mas seus olhos dizem 'sim, sim'."  Ela fala como uma alemã durona, e depois se rende como uma francesa presenteada com um Chanel #5 em 1946.

Tudo dependerá de seu julgamento.  Se ela nada fizer, e o Deutsche quebrar e aplicar um bail-in a seus correntistas, isso enviará uma mensagem para todos os outros bancos da zona do euro: "apertem os cintos".  Também enviará uma mensagem para os correntistas: "Saiam e salvem-se enquanto puderem".

O desenrolar

O mais provável é que o governo alemão socorra o Deutsche Bank.  E é provável que o Commerzbank, o segundo maior banco do país, esteja em situação igualmente ruim.  Suas ações estão desabando.

Mas se o governo alemão intervier, os correntistas europeus farão a si próprios a seguinte pergunta: quais bancos são seguros?

Qualquer cidadão europeu pode depositar euros nos bancos de qualquer país da zona do euro. Mas em quais bancos?  De quais países?  A Alemanha sempre foi vista como a mais sólida nação do bloco, e seus bancos, os mais seguros.

Alguns hedge funds já começaram a tirar seu dinheiro do Deutsche Bank.  Segundo a Bloomberg:

Estes fundos, que fazer parte de um subsistema dos mais de 800 fundos que são clientes do banco no setor de hedge fund, já retiraram parte de seus derivativos e os moveram para outros bancos, de acordo com um documento interno do banco a que a Bloomberg News teve acesso.  Dentre eles, $ 34 bilhões do Millennium Partners, $ 4 bilhões do Rokos Capital Management, e $ 14 bilhões do Capula Investment Management, disse uma pessoa familiarizada com a situação e que pediu para não ser identificada falando sobre assuntos confidenciais relacionados a clientes.

Ao retirar dinheiro de um banco, você tem de redepositá-lo em outro banco.  Estamos falando de dígitos eletrônicos.  Não há dinheiro de papel nessa quantia.  E não há como sacar dinheiro de papel nesse volume.  Portanto, as pessoas lidam apenas com dígitos eletrônicos.  Ao retirar seus dígitos eletrônicos do Banco A, você necessariamente tem de colocá-lo no Banco B.  Isso ocorre de maneira praticamente simultânea.  Consequentemente, quando isso ocorre, o setor bancário como um todo não corre risco.  A oferta monetária não se altera.  Mas toda a confiança se evapora.

Mas há um detalhe: se um banco do porte do Deutsche vai à falência, aí sim todo o sistema bancário é afetado.  Como explicado aqui:

Se o Deutsche Bank quebrar, vários outros bancos que lidam com ele podem ir junto.  Todos os bancos (e também empresas) que possuíam ativos do Deutsche Bank teriam seu capital imediatamente reduzido.  Ficando descapitalizados, sua capacidade de conceder novos empréstimos seria substantivamente reduzida: os bancos teriam de restringir novos empréstimos e requisitar a quitação antecipada de empréstimos pendentes, pois agora seu capital sofreu uma redução.  

E, dado que o sistema bancário trabalha com reservas fracionárias, tal medida inevitavelmente iria gerar um processo deflacionário, pois isso faria com que várias contas-correntes que foram criadas para esses empréstimos fossem encerradas.  Na prática, os bancos estariam requisitando a devolução de um dinheiro que está na economia.

Por isso, praticamente nenhum governo permite a quebra de um grande banco.  As consequências para a economia podem ser devastadoras: a acentuada deflação monetária que isso geraria poderia levar a economia para uma profunda depressão.

Não visualizo nenhum sistema bancário de nenhum país da zona do euro sendo capaz de concorrer exitosamente com a Alemanha.  A Holanda possui bancos prudentes e conservadores, mas são pequenos.  A Áustria também é conhecida por seus bancos conservadores, mas é muito provável que seu dinheiro esteja dentro de bancos alemães.

Se o governo alemão deixar o Deutsche quebrar, isso enviará um mensagem para os correntistas dos outros países: a Alemanha não é mais um porto seguro.  Correntistas — principalmente os grandes correntistas — terão de ser ainda mais cautelosos e planejados ao selecionarem seus bancos.  Só que hoje não lhes resta muito tempo para fazer isso.  O bail-in pode acontecer a qualquer momento.  Eles têm de abandonar o navio antes que ele afunde e leve consigo seus depósitos.

Os mais sagazes, que já haviam percebido isso há mais tempo, já estavam direcionando seus dígitos eletrônicos para os títulos públicos do governo alemão, cujos juros, por causa de tamanha demanda, adentraram em território negativo.  À época, alertei que isso era um sintoma de que havia uma grande desconfiança em relação ao sistema bancário da região.  Com os bancos sendo obrigados a pagar juros ao Banco Central Europeu — uma prática inédita no mundo, e que está destruindo seu capital —, isso era algo previsível.

Tudo isso faz o Brexit, olhando em retrospecto, se revelar uma decisão incrivelmente acertada.  Os britânicos nunca se juntaram ao sistema monetário da zona do euro.  Sua opção por sair da União Europeia não gerou nenhuma crise na Grã-Bretanha.  Toda a ameaça de que haveria uma profunda recessão e uma crise de comércio era uma completa tolice.  Os indicadores econômicos britânicos melhoraram.  A bolsa subiu e teve seu melhor trimestre desde 2013

Agora que os bancos alemães estão em situação periclitante, os britânicos viram da encrenca da qual escaparam.  Se os bancos mais fortes da zona do euro estão em crise, o que pensar dos bancos da Espanha, da Itália, de Portugal e da França?

Isso está enviando sinais de alerta para os eurocratas.  A União Europeia e suas burocracias estão cambaleantes.  Os benefícios de se permanecer na UE não serão claros se o sistema monetário e bancário da zona do euro se desmoronar.  As nações irão exigir soberania sobre seu sistema bancário.  Isso significaria um retorno aos bancos centrais nacionais autônomos e suas moedas nacionais.

Merkel pode assegurar o quanto quiser a seus eleitores de que seu governo não socorrerá o Deutsche Bank com dinheiro público.  Ela irá recuar tão logo perceber que a alternativa é a falência.  O banco hoje deve US$ 14 bilhões ao Departamento de Justiça americano.  E a capitalização total do banco é de US$ 14 bilhões.

Tudo parecia muito fácil em 2007, quando as ações do banco valiam 100 euros.  Hoje, estão ao redor de 10.

No cerne do globalismo (não confundir globalismo com globalização; globalismo é a política internacionalista, implantada por burocratas, que vê o mundo inteiro como uma esfera propícia para sua influência política) estão os bancos.  Falências bancárias revelariam os instáveis pilares do experimento globalista.  É por isso que a crise do Deutsche Bank se estende para além de seus correntistas, cujo capital está em risco.  Ela pode se espalhar para todos os bancos da zona do euro.

Mario Draghi prometeu em 2012 fazer "o que for necessário" para salvar o euro e a União Europeia.  Essa promessa hoje se mostra problemática.  Estamos falando de bancos grandes.  O fato de que eles estão tendo problemas sete anos após a "recuperação" econômica é algo nefasto.  Eles já deveriam estar sólidos.  Estão é ficando mais doentes.

O grande problema das exportações alemãs

A Alemanha exporta praticamente metade do seu PIB — uma cifra impressionante para um país grande.  Ela possui seguidos superávits comerciais.  Isso significa que as empresas alemãs exportadoras têm de abrir contas em bancos estrangeiros. 

[N. do E.: Quando um brasileiro exporta soja para os EUA, não entram dólares na sua conta bancária aqui no Brasil.  O dólar não é moeda corrente aqui e nem na esmagadora maioria dos países do mundo.  Sendo assim, o dólar não "entra" nesses países via sistema bancário e nem muito menos sai do sistema bancário americano. 

O que ocorre na prática é que o exportador brasileiro recebe dólares em uma conta bancária no exterior.  Ato contínuo, ele pode decidir entre vender a posse desses dólares para outra pessoa (normalmente para um banco brasileiro ou para um importador brasileiro, que então depositará reais em sua conta em um banco brasileiro) ou manter esses dólares em sua conta, decidindo investir esses dólares na própria economia americana (comprando ações, debêntures ou até mesmo títulos do governo americano. 

Funciona assim no mundo todo.]

Um superávit comercial, portanto, significa que as empresas exportadoras do país exportador têm de comprar ativos financeiros nos países que estão tendo déficits comerciais.

No caso da Alemanha, há vários desdobramentos.  Se os bancos alemães quebrarem, toda a economia da zona do euro será afetada.  Não só as economias de Itália, Espanha e França serão duramente atingidas, como também seu sistema bancário será afetado.  

Consequentemente, os investimentos que as empresas alemãs fazem nestes países será duplamente afetado: as economias estarão encolhendo e seus bancos  — que é onde está o dinheiro das empresas alemãs — estarão sob crescente rico.

Ato contínuo, as empresas alemãs não apenas ficarão a descoberto caso os bancos estrangeiros nos quais elas têm dinheiro depositado comecem a quebrar, como também seus investimentos nas economias locais estarão dando prejuízo.  Isso fará com que as empresas alemãs encerrem seus investimentos e tragam seu dinheiro de volta para os bancos alemães.  Isso, por sua vez, acelerará a implosão dos bancos estrangeiros. 

Mais: irá afetar o superávit comercial da Alemanha.  E isso irá afetar o principal pilar da economia alemã: suas exportações.

Não é só o Deutsche Bank que está em risco.  Toda a zona do euro está em risco.

E piora: se as empresas da China não puderem exportar para a zona do euro, então a economia da China também sofrerá um forte impacto.

Acho que deu para entender o cenário.

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Leia também:

A situação do Deutsche Bank coloca Angela Merkel entre a cruz e a espada

O dilema do sistema bancário e as regras da Basileia

Propostas para uma reforma bancária completa e estabilizadora


16 votos

autor

Gary North
é Ph.D. em história, ex-membro adjunto do Mises Institute, e autor de vários livros sobre economia, ética, história e cristianismo. Visite seu website

  • Capital Imoral  03/10/2016 15:05
    È preciso fazer uma investigação das urnas Brasileiras

    Tenho sérias dúvidas com relação as urnas Brasileiras, sabemos que a democracia foi corrompida, ontem, pelo capitalismo.

    Como pode o defensor dos pobres não ser eleito? Existe alguma explicação? Não é possível que o povo seja tão ignorante e alienado. Simplesmente os pobres da favela, que são perseguidos pela policia, pelo capital, elegeu um burgues, branco, que tem mulher branca.

    Essas eleições sem dúvida, foi a eleição da burguesia. Deixo aqui minha revolta, e a necessidade de fazer uma investigação séria nas urnas Brasileiras, porque sem dúvida, o capital comprou essas eleições.
  • Guilherme  03/10/2016 18:09
    Esse marginal é de torrar o saco hein IMB!
    Bloqueiem esse lixo totalitário!
  • Ali Baba  03/10/2016 18:51
    Relaxa... Esse é personagem/caricatura do blog...
  • Renan Merlin  03/10/2016 18:40
    Leandro em uma moeda lastreada em ouro ou dolar(CURRENY BOARD) suponhamos que o pais entre em crise e ocorra uma fuga de capitais e os bancos fiquem sem reservas.
    Como ter poupança suficiente pra investimentos?
  • Leandro  03/10/2016 18:59
    Não existe esse cenário. Ele é tecnicamente impossível de acontecer.

    Sob um arranjo de Currency Board, para que a moeda nacional sumisse, todas as pessoas -- do grande empresário à faxineira, do aposentado ao mendigo -- teriam de trocar suas cédulas por dólares e teriam de converter seus depósitos bancários por dólares.

    O primeiro caso é bastante óbvio: se você trocar as cédulas da moeda nacional por cédulas de dólar, os dólares continuam dentro do país. O que essas pessoas farão com cédulas de dólar eu não sei, pois o dólar não é moeda corrente dentro do país. Em todo caso, a quantidade de cédulas na economia continua a mesma. O dinheiro não "sumiu".

    Já no segundo caso -- em que as pessoas trocam dígitos da moeda nacional por dígitos em dólares --, as pessoas teriam de mandar todas as suas economias para contas bancárias em outros países, pois só assim podem ter dólares.

    Será que absolutamente todos os habitantes de um país possuem contas bancárias no estrangeiro? E, ainda que possuíssem, o que eles fariam se enviassem todo o dinheiro para fora e ainda continuassem morando em seu país de origem? Na prática, eles continuariam em seu país de origem, mas agora sem nenhuma moeda nacional. Morreriam de fome.

    Logo, não faz sentido dizer que a moeda nacional pode acabar sob um regime de Currency Board. Toda a base monetária teria de desaparecer (com o detalhe de que as cédulas da moeda nacional poderiam apenas ser trocadas por cédulas de dólares, o que não configura exatamente um desaparecimento do dinheiro).

    Adicionalmente, mesmo se houver uma saída líquida de reservas, a base monetária irá se contrair. Isso fará com que os juros do interbancário subam. E isso fará com que os juros dos depósitos bancários subam. Com juros mais altos -- e com uma moeda sem qualquer chance de desvalorização --, a atração de capital estrangeiro seria imediata.

    Ou seja, esse capital que fugiu voltaria, pois os juros no país estarão agora bem maiores que no país da moeda-âncora. E sem que haja nenhum risco de desvalorização cambial.

    Para um estrangeiro, é ganhar ou ganhar.

    De novo: para que haja um completo esgotamento de reservas estrangeiras, toda a base monetária do país tem de sumir. Isso significa que todas as pessoas -- desde os bilionários até a simples faxineira -- teriam de converter a suas cédulas de papel e seus depósitos bancários em moeda estrangeira, de modo que não restasse mais nem um centavo de moeda nacional.

    Factível?

    Artigo inteiro sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2196
  • Samuel Lemos  04/10/2016 11:52
    Engraçado que, enquanto era o PT quem vencia, o sistema era plenamente confiável né... Só rindo mesmo!
  • WDA  04/10/2016 12:36
    Hahaha O capital imoral é um fake que está cada vez mais engraçado. Suas últimas postagens, então, me fizeram rir bastante!
  • Henrique Zucatelli  03/10/2016 15:33
    Só não consegui vislumbrar como ocorreu de fato a queda nas ações do DB, e qual foi o gatilho desse evento. Procurei no outro artigo mas não encontrei a resposta em si.

    Leandro, poderia explicar em detalhes, por favor?
  • Leandro  03/10/2016 16:00
    Mas a resposta estava lá: taxas de juros negativas (que estão comendo o capital do banco), calotes parciais (haircuts) dos governos de países da periferia da zona do euro (majoritariamente da Grécia), apostas erradas no mercado de câmbio e no de derivativos relacionados à taxa Libor (no desespero de conseguir alguma taxa de retorno positiva, pois os juros estão negativos na Europa) e, acima de tudo, a multa de US$ 14 bilhões do Departamento de Justiça americano.
  • Henrique Zucatelli  03/10/2016 17:19
    Obrigado Leandro. Acabei me perdendo no artigo. Li mas não capitulei.
  • Joaquim Saad  03/10/2016 18:34
    Leandro,

    E a Libor (que vem subindo) em USD, como funciona ? Trata-se de outro mercado aberto de reservas bancárias (no caso, em dólares, já que essa taxa também é calculada p/ outras moedas) fora da alçada do Fed ?!

    Mas, neste caso, como é que o próprio BC americano (por definição o único emissor das FRN e suas proxies digitais) não iria controlar esta outra network ("paralela") e os empréstimos em dólares eletrônicos que nela ocorrem entre bancos ?

    Na hipótese inversa mais plausível (a de que só há um único open market\rede de dólares "de banco central", gerido pela própria autoridade monetária dos EUA atuando ela como uma espécie de "bolsa" onde são fechadas tais negociações determinadoras da FFR , a exemplo no Brasil do SELIC e sua taxa de juros homônima), por quê simplesmente todos (ou ao menos a grande maioria dos) bancos do mundo não teriam conta de reservas no Fed p/ se financiar facilmente (em tese) pela Federal Funds Rate, a qual encontram-se em níveis historicamente baixos refletindo uma liquidez excessiva (paradoxalmente aos rumores de escassez de USD sugeridos na Libor em alta) ?

    OBS: quando clico no botão "VISUALIZAR", tem aparecido aquela mensagem de que "seu comentário foi recebido e em breve estará disponível para leitura." Só o aviso é que tá aparecendo indevidamente, ou o texto já acaba sendo enviado a vocês a cada "visualizada" prévia ?
  • Leandro  03/10/2016 19:27
    "E a Libor (que vem subindo) em USD, como funciona ? Trata-se de outro mercado aberto de reservas bancárias (no caso, em dólares, já que essa taxa também é calculada p/ outras moedas) fora da alçada do Fed ?!"

    Em tese, sim.

    A Libor nada mais é que a London Interbank Offered Rate. Trata-se da taxa de juros cobrada entre os bancos internacionais que operam no mercado londrino. Ou seja, é a taxa do mercado interbancário praticada por todos os bancos que sediados na City.

    Fazendo uma aproximação bem tosca, ela seria equivalente ao nosso CDI, com a diferença de que a Libor se aplica a 7 moedas. Várias instituições financeiras de escopo mundial estipulam as taxas de juros de seus empréstimos (de hipotecas a cartões de crédito, passando por empréstimos para investimento e consumo) com base na Libor.

    Sabe-se que há pelo menos 350 trilhões em derivativos e outros produtos financeiros lastreados na Libor.

    "Mas, neste caso, como é que o próprio BC americano (por definição o único emissor das FRN e suas proxies digitais) não iria controlar esta outra network ("paralela") e os empréstimos em dólares eletrônicos que nela ocorrem entre bancos ?"

    As operações de mercado aberto do Fed não ocorrem no mercado interbancário londrino. Logo, ele não tem como controlar a Libor. Ele pode, isso sim, influenciar bastante as expectativas quanto ao valor futuro do dólar, o que afetaria a taxa Libor em dólar. Mas ele não pode controlar diretamente os juros praticados no mercado interbancário londrino.

    "por que simplesmente todos os bancos do mundo não teriam conta de reservas no Fed p/ se financiar facilmente (em tese) pela Federal Funds Rate?"

    Só tem conta no Fed quem é dealer primário nos EUA. E só o Fed pode escolher esses privilegiados. Eis a lista:

    www.newyorkfed.org/markets/pridealers_current.html

    Agora, o que é bastante comum de acontecer, e que vai no sentido disso que você acabou de mencionar, é uma prática chamada "carry trade", por meio da qual grandes investidores pegam empréstimos baratos em países de juros baixos, convertem o dinheiro e o aplicam em países de juros altos.

    Por exemplo, pegar empréstimos em dólares a juros quase zero, converter em reais e aplicar a 14,25% no Brasil.

    Essa alavancagem dá muito certo se se o país de destino não passar por uma forte desvalorização cambial. Se houver uma grande desvalorização cambial nesse país -- como a que houve no Brasil em 2015, em que o dólar foi de R$ 2,50 para R$ 4,24 (encarecimento de 70%) -- não há juros altos que compensem as perdas trazidas por essa desvalorização.

    Afinal, quando ele for converter reais em dólares para ir embora, após a desvalorização do real, ele terá perdido muito dinheiro.

    P.S.: sobre o "Visualizar", para mim está normal. A ferramenta apenas mostra como seria a mensagem; ela não a envia.
  • Joaquim Saad  03/10/2016 19:51
    No caso do CDI brasileiro, um banco efetivamente empresta (i.e. se desfaz de) suas reservas no BCB em favor do tomador, certo ?

    No interbancário londrino em dólares, quando um banco empresta p/ outro não teria de acontecer o mesmo c/ suas reservas no Fed, onde portanto o tomador também deveria ter conta ? Do contrário, este estaria recebendo apenas crédito criado exclusivamente pelo banco emprestador (que então estaria fazendo as vezes do Fed), "dinheiro" que se então puder ser transferido do tomador p/ qq outro lugar parece configurar uma rede paralela de criação de base monetária em dólares totalmente fora do controle do bc americano !
  • Leandro  03/10/2016 20:40
    "No interbancário londrino em dólares, quando um banco empresta p/ outro não teria de acontecer o mesmo c/ suas reservas no Fed, onde portanto o tomador também deveria ter conta ?"

    Não necessariamente. Se o Banco A, em Londres, empresta dólares para o Banco B, também em Londres, todo o necessário é que o Banco A tenha uma conta, em dólares, em algum banco americano (normalmente, será sua própria filial nos EUA). Havendo o empréstimo, o que ocorrerá é uma troca da propriedade dessa conta bancária.

    Ou, ainda mais comum, é que tanto o Banco A quanto o Banco B tenham filiais nos EUA, de modo que compensação ocorrerá por meio destes dois bancos.

    Na prática, isso é o mesmo que ocorre quando há exportações, como descrito no artigo.
  • Joaquim Saad  03/10/2016 21:23
    Se o tomador não possui filial nos EUA (estabelecimento que esclareceu antes como sendo algo não tão fácil, supondo que todo banco p/ operar num país precisa ter conta de reservas em sua autoridade monetária), ok, ele não pode acessar (ao menos diretamente) o interbancário de lá (o qual é gerido pelo Fed), tendo então de se sujeitar a outros mercados onde os custos de empréstimos podem se descolar do open-market americano (oferecendo inclusive oportunidade de arbitragem numa mesma moeda).
    Mas parece não fazer sentido haver empréstimos a uma taxa (no caso, Libor) superior à Fed Funds Rate entre bancos que mantenham ambos contas de reserva (indiretamente através de suas filiais nos EUA) no banco central americano.

    ps: se bem que essa Libor, a despeito de indexar centenas de trilhõe$ em contratos mundo afora, pelo jeito representa apenas uma consulta feita a bancos acerca de quais juros estimam que pagariam em empréstimos hipotéticos, de modo que uma elevação daquela taxa parece então não sinalizar necessariamente uma escassez absoluta de dólares pelo mundo (algo bastante contra-intuitivo a julgar pelo balanço hiper-inflado do Fed).
  • Trader  03/10/2016 22:18
    Sim, a Libor é formada por meio de consultas diretas aos bancos participantes.

    Aqui há uma explicação completa:

    www.theice.com/iba/libor
  • Joaquim Saad  03/10/2016 23:48
    Consultas diretas de empréstimos hipotéticos, certo ? Ou seja, a LIBOR não representaria de fato os juros médios de um mercado organizado por alguma instituição onde transações de compra\venda de títulos e\ou contratação de crédito ocorressem efetivamente entre as partes, como nos open-markets dos bancos centrais mundo afora (cuja completa ausência de auditorias independentes a propósito levanta cada vez mais todo tipo de suspeita no melhor estilo "teoria conspiratória", pondo em xeque a veracidade dos próprios números publicados no FRED acerca da base monetária americana, por ex).

    Ou seja, vai lá se saber o que de fato acontece nesses ambientes de negociatas, digo, "negociações" de moeda vs dívida soberana, ainda mais no caso da polêmica taxa interbancária londrina (envolvida naqueles escândalos recentes de manipulação)...
  • Andre  03/10/2016 15:57
    Haverá bail -in geral, não apenas no Deutsche, vão pegar os correntistas de outros bancos de surpresa.
  • Capitalista Keynes  03/10/2016 16:09
    Não mesmo....vai ter socorro do governo ao Deutsche. foi assim com a GM e FORD nos EUA e será assim na Alemanha. Não existe economia sem Estado atuante no mundo. Por isso sempre falo aqui que liberalismo é tão utópico quanto o socialismo.
  • Amante da Lógica  03/10/2016 16:32
    Opa, agora falou tudo.

    Mas aí fica a pergunta: dado que "não existe economia sem Estado atuante no mundo", então por que as pessoas -- principalmente seus colegas keynesianos -- disseram que a crise financeira de 2008 foi culpa da ausência de um estado atuante?

    E dado que o liberalismo é apenas uma utopia, então por que falaram que foi o liberalismo (esse fantasma utópico) o grande responsável pela crise de 2008?

    Parabéns por expor, ainda que de maneira involuntariamente, a fragorosa contradição de seus companheiros.

  • Pedro  03/10/2016 16:32
    Funciona assim.

    Quando tudo está bem:

    Keynesiano intervencionista: "Não existe, em lugar nenhum do mundo, liberalismo econômico! Todas as economias desenvolvidas possuem um estado forte e regulador!"

    Quando estoura uma crise:

    Keynesiano intervencionista: "A crise foi causada pelo excesso de liberalismo econômico e pela total ausência de um estado regulador! Temos de regular esse excesso de capitalismo liberal!"
  • Joaquim Saad  03/10/2016 17:53
    Par eu ganho, ímpar você perde !
  • Bruno  03/10/2016 17:20
    Excelente artigo. Alguém sabe quais as consequências disso no Itaú, Bradesco e BB?
  • Henrique  03/10/2016 17:43
    Depende da exposição deles ao Deutsche e aos demais mercados citados. Quem tiver a informação, compartilhe por obséquio
  • Bruno  03/10/2016 17:58
    Já um boato que os 14bi de mta virarão 5,5bi, sim, um QE intercontinental ...

    Isso compra mais qto tempo na opinião de vcs?
  • Andre  03/10/2016 18:29
    Reduz o custo de Bail-in, em tempo não acho que conte nada.
  • Ricardo Schweitzer  03/10/2016 18:06
    Crescem no mercado as apostas de que a instituição não terá saída senão recorrer a um aumento de capital em breve — contrariando, assim, o discurso de seu CEO.

    Resta saber se os recursos serão privados (bail-in) ou públicos (bail-out).

    As preocupações com o Deutsche são apenas a faceta mais recente da sucessão de problemas que assolam a UE. Na esteira de taxas de juros irrisórias e atividade econômica anêmica, a maioria das instituições financeiras vêm há tempos reportando resultados fraquíssimos.

    Faço aqui eco às recentes palavras do CEO do Credit Suisse: no atual contexto, banco na Europa não é investimento.

    É risco, e dos grandes.
  • Renan Merlin  03/10/2016 18:35
    Leandro esse artigo tem alguma relevÂncia? Dizendo que a oferta monetaria do Euro foi aumentada em 240% todavia a inflação de preços aumentou apenas 20%. Eles alegam que sem o aumento desse dinheiro não haveria investimentos pra aumentar a produtividade e que bitcoin em uma econômia geraria estagnação por ter uma oferta monetaria pouca elastica dai não haveria como investir pra aumentar a produção.
    Isso é keynesianismo puro ou tem algum tipo de relevancia?

    www.superinteressante.pt/index.php?option=com_content&id=1892:a-origem-do-dinheiro&Itemid=86
  • Leandro  03/10/2016 18:50
    Ele diz que "entre 2002 e 2011, os preços subiram, em média, 20% em Portugal. O que custava 100 euros passou a custar 120. Parece muito em apenas uma década, mas essa impressão desaparece diante do facto de o fornecimento de moeda ter crescido 240%".

    Só que a oferta monetária em Portugal não aumentou 240% de 2002 a 2011, mas sim "apenas" 38%.

    Pode conferir o gráfico:

    cdn.tradingeconomics.com/charts/portugal-money-supply-m2.png?s=portugalmonsupm2&v=201610011527o&d1=20020101&d2=20111231
  • Paulo Henrique  03/10/2016 20:29
    Por que o sistema de justiça americano está multando o Banco em 14 bi? E qual as chances de ele voltar atrás de uma medida assim, sabendo que poderia afetar a economia global e consequentemente o próprio EUA?

    E somente isso seria o suficiente para o banco Alemão ir para uma zona segura? Ou seria um ''alívio'' temporário? (supondo que isso seja algo possível ou que exista vontade nos EUA)
  • Bruno  03/10/2016 20:41
    Explicado no primeiro artigo da série sobre o Deutsche Bank: por causa daquele esquema de venda de títulos hipotecários retratado (ainda que de maneira torta e incompleta) no filme "A Grande Aposta".

    Citigroup e Goldman Sachs também estão na lista.

    fortune.com/2016/09/16/deutsche-bank-doj-mortgages-case/
  • Hugo Guimarães  03/10/2016 20:58
    Leandro, já li aqui no IMB artigos demonstrando benefícios de uma deflação.
    Neste artigo o autor diz que "praticamente nenhum governo permite a quebra de um grande banco. As consequências para a economia podem ser devastadoras: a acentuada deflação monetária que isso geraria poderia levar a economia para uma profunda depressão."
    Ainda sou principiante na Escola Austríaca e não entendi. Você pode, por gentileza, me explicar?
  • Leandro  03/10/2016 22:17
    Deflação monetária é uma coisa. Deflação de preços é outra.

    Deflação de preços -- como aquela que ocorre no setor tecnológico -- é extremamente benéfica para a população.

    Já uma deflação gerada por uma quebra bancária generalizada equivale a um sumiço do dinheiro, a uma forte contração do crédito, e a um aumento abrupto e repentino dos juros.

    Em si mesmo, tal cenário pode ser perfeitamente remediável, desde que haja plena liberdade para que preços e principalmente salários sejam remarcados para baixo. Afinal, se agora há menos dinheiro na economia, então preços e salários têm de cair.

    No entanto, governos e sindicatos não deixam que isso ocorra. Não é politicamente palatável.

    Logo, deflação monetária em um cenário de preços e salários rígidos gera um total descasamento entre oferta monetária, preços e custos em toda a economia. Tem-se uma recessão profunda e duradoura. Enquanto preços e salários não puderem se reajustar, a economia não se conserta.

    Por outro lado, supondo um cenário de total liberdade, a recessão seria profunda, porém curta. Ela duraria até que preços e salários caíssem ao valor correspondente à nova oferta monetária.
  • Hugo Guimar%C3%83%C2%A3es  04/10/2016 17:22
    Muito obrigado, Leandro.
  • JP  03/10/2016 21:20
    Bem, permitam-me uma sucinta opinião. Como foi falado sobre a diferença de globalização e globalismo e saindo do escopo apenas econômico do artigo e ampliando o conceito do que é globalismo, faz parte da agenda dos burocratas a ampliação do gayzismo, feminismo e multiculturalismo, principalmente o islâmico.

    Quando se percebe a tendência à feminização dos homens do ocidente, mais especificamente da Europa, a qual estamos tratando aqui neste breve comentário, como se vê abaixo o comentário desta mulher:



    E partindo do pressuposto factual que os homens perderam a capacidade de defender a si mesmo e suas mulheres, porque estão virando mulheres, e atualmente na Alemanha, bem como outros países da Zona do Euro adotam a mesma política,
    e quando a própria população perde suas características por estarem sendo dominadas por outro tipo de cultura, ver aqui:



    E quando, pelo artigo acima, se demonstra que a economia está indo para o ralo. Podemos ver quer a história se repete, um Estado corroído economicamente por dentro, uma cultura sendo destruída propositalmente; assim, quando aparece uma cultura islâmica fanática fica fácil passar o trator por cima. A história antiga dos impérios mostra isso. E quando a Alemanha está no meio, geralmente o estrago é enorme, vide as duas guerras mundiais.

    É bom fica de olho.

  • Henrique  03/10/2016 21:54
    Atuar como garantidor da solvência bancária é uma função primordial do estado para prevenir que voltemos a uma economia de escambo numa situaçâo dessas...
    O que o deus mercado pode oferecer a um sistema bancário insolcente na ausência de estado.
  • Meirelles  03/10/2016 22:15
    Ué, mas quem foi que quebrou o Deutsche senão a política de juros negativos do Banco Central Europeu, que o obriga a pagar juros ao próprio BCE? Quem foi que quebrou o Deutsche senão o governo americano, obrigando-o a pagar uma multa do valor do seu patrimônio? Quem foi que quebrou o Deutsche senão os governos periféricos da zona do euro, que lhe deram o calote?

    O estado que fez isso tudo é o mesmo que irá "atuar como garantidor da solvência bancária"?

    A esquerda é hilária. Após o estado quebrar as coisas, ela diz que, se não fosse o estado para salvar aquilo que ele próprio quebrou, não haveria civilização.

    Fascinante.

    P.S.: perguntinha sobre risco moral: dado que eu sei que o estado sempre irá me salvar para "garantir minha solvência", por que deveria eu ser cauteloso com qualquer coisa?
  • Gabriel  03/10/2016 23:00
    "Atuar como garantidor da solvência bancária é uma função primordial do estado para prevenir que voltemos a uma economia de escambo numa situaçâo dessas... "

    O curioso é que se nós formos analisar os fatos históricos será possível perceber claramente que essa alegação não passa de uma invenção para tentar fazer parecer legitima uma visão baseada apenas em uma ideologia e na repulsa ao livre mercado.

    Pois a história já nos mostrou que a possibilidade de criação infinita de moeda na mão dos políticos já fez com que as pessoas utilizassem o escambo em decorrência da hiperinflação causada pela irresponsabilidade desses políticos, e a Alemanha pós segunda guerra acho que é o exemplo mais claro dessa situação.

    "O que o deus mercado pode oferecer a um sistema bancário insolvente na ausência de estado."

    Primeiro que o "mercado" não é um Deus, na verdade ele é um sistema formado por todos nós. Sejamos consumidores, empresários, investidores e etc... E segundo, o que o "mercado" acaba "fazendo" é apenas eliminar todos aqueles banqueiros incompetentes que tomaram decisões completamente erradas, os retirando do "mercado".

    Ah, e em um sistema de livre concorrência onde não há a cartelização do sistema bancário por meio do Banco Central nós não teríamos alavancagens tão grandes como nós temos hoje, isso só é possível exatamente por essa cartelização que dá mais conforto para se adotarem medidas cada vez mais arriscadas.
  • Henrique  04/10/2016 15:15
    Quer dizer, então, que o mercado pode oferecer a quebradeira generalizada como solução para a insolvência bancária?
    Quebra de um banco não é como de uma padaria. Haverá um enorme efeito cascata na economia com milhões de pessoas perdendo suas economias e investimentos. Quiçá poderemos ter até uma convulsão social ocasionada pelo pânico coletivo.
    Não é melhor o governo intervir nesse caso? Ele não pode intervir nunca? Até onde estamos indo com o fundamentalismo de livre mercado?


    Abraços.
  • Marcos  04/10/2016 16:19
    Primeiro você reclama que o estado ajuda privilegiados. Agora exige que o estado tem de ajudar privilegiados.

    Decida-se.

    E não, não é necessário haver "quebra bancária generalizada". O bail-in de todos os correntistas e acionistas do Deutsche resolveria tudo. Só que isso não é politicamente palatável, pois vários poderosos levariam ferro.

    E você defende que o governo ajude poderosos. Parabéns.
  • Eduardo  28/03/2017 17:51
    Como , detalhadamente, a política de juros negativos do BCE afetou o DB? (pergunta sincera)
  • Jorge  28/03/2017 19:48
  • Wesley  04/10/2016 00:04
    Leandro, tenho uma dúvida sobre o Currency Board. Vamos supor que no Brasil ele fosse estabelecido em R$1,50 ou R$2,00 por $1,00. O poder de compra de R$1,50 ou de R$2,00 seria o mesmo de $1,00 ou esse poder de compra seria o mesmo no caso do real em câmbio flutuante? Os maiores empecilhos para se ter um CB no Brasil é o lobby do baronato exportador e o fato do governo não poder se financiar pela impressão de dinheiro?

    Tenho outra dúvida: Se o governo brasileiro não conseguir pagar a divida e decretar moratória, quais as consequências disso para a população brasileira?
    Um abraço!
  • Leandro  04/10/2016 00:46
    "O poder de compra de R$1,50 ou de R$2,00 seria o mesmo de $1,00 ou esse poder de compra seria o mesmo no caso do real em câmbio flutuante?"

    Esse valor seria irreal e insustentável. A maneira certa de se instalar um regime de Currency Board foi detalhada neste artigo.

    Seguindo-se os passos descritos no artigo, aí sim o valor determinado teria o mesmo poder de compra de 1 dólar.

    "Os maiores empecilhos para se ter um CB no Brasil é o lobby do baronato exportador e o fato do governo não poder se financiar pela impressão de dinheiro?"

    Correto. Perfeito.

    "Se o governo brasileiro não conseguir pagar a divida e decretar moratória, quais as consequências disso para a população brasileira?"

    Para começar, vários bancos e fundos de investimento iriam à falência, pois estão maciçamente investidos em títulos do Tesouro. Consequentemente, pessoas e empreses que têm contas nesses bancos e quotas nesses fundos de investimento também quebram.

    Todos os fundos de pensão, todos os planos de previdência privada, todas as seguradoras também iriam à falência. É com a rentabilidade dos títulos públicos que se remunera milhões de pessoas que têm fundos de pensão, previdência privada e seguros.

    No mais, um calote seria uma incrível burrice: hoje, o governo só consegue se manter porque pega dinheiro emprestado. Tendo déficit primário, o governo não paga nem o funcionalismo público se não tomar dinheiro emprestado.

    Sendo assim, ele precisa se endividar simplesmente para continuar funcionando.

    Ao dar um calote, o governo estaria fechando justamente aquela fonte de financiamento que sempre lhe esteve disponível. Você não mata quem sempre lhe empresta dinheiro e permite fechar suas contas.

    Adicionalmente, vale ressaltar que nem a Venezuela deu calote. Aliás, nem mesmo a Argentina dos Kirchner fez isso (o governo deu o beiço nos estrangeiros, mas não nos nacionais).
  • Wesley  04/10/2016 03:20
    Entendo. Sobre o CB perguntei porquê o dólar de Honk Kong não tem exatamente proporção de um para um, ao menos pelo que percebi.

    Sobre a moratória perguntei porque estão falando na mídia que se o governo não conseguir controlar a divida e ela chegar aos 100% do PIB, os credores podem se recusar a continuar financiando a divida do governo. Nesse caso o governo não poderá rolar a divida. Mas penso que os credores irão ao invés de se recusar a financiar a divida, irão exigir que o governo privatize ativos e aumente tributos. Não sei se estou correto.
    Um abraço!
  • Joaquim Saad  04/10/2016 11:19
    O controle dos juros do interbancário pela autoridade monetária (impedindo, através da compra ilimitada de títulos públicos no mercado secundário, que suas taxas subam acima de um teto = SELIC) é a essência de qq sistema financeiro c/ banco central propriamente dito (i.e. emissor de dinheiro próprio lastreado em papeis do governo, e não em outra moeda ou commodity como num currency board). Tal arranjo na prática garante o financiamento ad eternum do tesouro, cuja dívida acaba sendo sempre subscrita pelos bancos comerciais nos leilões primários, já que poderão depois revendê-la c/ algum lucro ao próprio BC, pois neste esquema os passivos dessas duas entidades estatais podem crescer ilimitadamente, um apoiado no outro.
    O ajuste se dará inevitavelmente (mais uma vez) via inflação de preços crescente conforme os balanços de ambas forem aumentando nessa relação incestuosa entre elas.
    Ou será que surgirá alguém corajoso o suficiente p/ decretar moratória das obrigações da "união" c/ credores e recebedores de salários, aposentadorias, "saúde","educação" ?! ;)
  • Cassiano  04/10/2016 12:00
    Olá, obrigado pelo excelente artigo. Assim é mais fácil entender o que está ocorrendo e o que pode ocorrer.


    Do texto:
    "Logo, a única maneira de correntistas do Deutsche escaparem de um bail-in é tirando o dinheiro do banco e o redepositando em outro banco."

    - Quais bancos alemaes estao "livres" de ser atingidos pelo Deutsche Bank?
    - Para quais bancos um correntista do Deutsche poderia levar seu dinheiro?
    - Seria uma boa hora para pensar em paraísos fiscar como Suíça, Luxemburgo ou Liechtenstein?

    Obrigado e um abraço!
  • O MESMO de SEMPRE  04/10/2016 12:04
    .
    Se acontecer o "efeito dominó" o mundo estará salvo.
    Todos os bancos ESTÃO QUEBRADOS!

    Os GOVERNOS JÁ GASTARAM, praticamente, TODA POUPANÇA que existiu.

    Foi uma gigantesca e mundial "CORRENTE da FELICIDADE" (pirâmide) estatal e está durando porque envolve o mundo todo e o crescimento econômico viabiliza a reentrada de participantes. Porém, mesmo assim um dia essa "corrente" vai romper, visto que não há possibilidade infinita, sobretudo porque os próprios governos prejudicam esse crescimento real.

    Resultado de um "efeito dominó" é que muitos bilionários, que NÃO INVESTEM EM PRODUÇÃO, se descobrirão como mera classe média alta e NÃO MAIS BILIONÁRIOS.

    Esse dinheiro que supostamente possuem, ao ser "confiscado" (não se confisca o que não existe) simplesmente deixará TUDO COMO DANTES no quartel de Abrantes.
    Esses recursos em aplicações FICTÍCIAS não influenciam o mercado, NÃO!!!

    Portanto, o ÚNICO DANO SERÁ CONTRA OS ESPECULADORES BILIONÁRIOS do mercado financeiro. Ficarão milionários e terão que se adequar à nova realidade. SÓ ISSO! ...esses "BENS de PAPEL" em nada influencia no mercado que, aliás, ficará bem mais LIMPO e REAL sem estes EMBUSTES do CASSINO FINANCEIRO.

    Problema vai acontecer se os governos tentarem salvar bancos e grandes "jogo-especuladores" de suas transações virtuais-fictícias que igualmente os remunera virtual-ficticiamente!!!
  • Pablo  04/10/2016 15:48
    Fiquei com uma dúvida, a impressão que tive ao ler o texto é que o mais sagaz para o governo alemão fazer é resgatar o Deutsche Bank em caso de quebra, é isso mesmo?
  • Escobedo  04/10/2016 16:18
    Depende da sua definição de "sagaz".

    Se a questão é ser "politicamente sagaz", então a solução é socorrer. Agora, se a questão é ser "ética e moralmente sagaz", então a solução é deixar quebrar e deixar que seus acionistas e correntistas se encarreguem do fardo.
  • O MESMO de SEMPRE  05/10/2016 14:39
    Os acionistas do banco não perderão nada, mas apenas deixarão de continuar auferindo suas comissões sobre os negócios.
    O banco, em si, não perde porque trabalha com capital alheio.

    Aqueles que vão arcar com o prejuizo serão os investidores e correntistas do banco. Estes sim, perderão o capital que deixaram sob tutela do banco.

    As transações internacionais e a credibilidade do sistema, um tanto posta a nu, é que trarão algumas consequencias que no curto ou médio prazo se reorganizarão para um funcionamento mais ÉTICO, LIMPO e SIMPLES nas transações.
  • Ismael Bezerra  05/10/2016 22:12
    Qual o papel das Big Four neste processo todo?
  • Joaquim Saad  05/10/2016 23:37
    Ficarem "de 4" ? :D


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