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A elite vermelha contra o Brasil

Este governo já acabou.  E acabou quando esmagou e negligenciou as principais elites naturais brasileiras: as elites militar, empresarial, religiosa, intelectual, rural e burocrática/política. [1]

Estas historicamente serviam como interlocutores e contrapartes em pactos mutuamente benéficos. Em troca de prestígio, exposição, e recompensas materiais, as elites naturais apoiavam o governo e ajudavam a conter eventuais animosidades do povo.

Como disse em outra ocasião, um status de ingovernabilidade se caracteriza pelo afastamento contínuo e crescente das elites — políticas, militares, empresariais, intelectuais e religiosas — em relação ao governo em questão.  E isso já ocorreu.

A sede por poder do partido se mostrou incompatível com o modus operandi tradicional. Era necessário — pensaram seus integrantes — consolidar o máximo do poder para controlar verbas, cargos, projetos e promover o dirigismo socialista.

As elites ocultaram seu descontentamento até que surgisse a oportunidade de 2015: crise extrema e corrupção generalizada revelada por um solitário herói e sua equipe. Os ressentimentos das elites acumulados nos últimos 10 anos agora estão assombrando, com juros e correção monetária, os sonhos de poder eterno do partido.

Foi um erro primário. Afinal, nenhum governo se sustenta sem o apoio das elites naturais. Mesmo dentro do núcleo-duro de governabilidade — artificialmente costurado para atender nosso presidencialismo de coalizão —, o partido sistematicamente esmagou seus sócios.

Neste momento, há um grande consenso tanto no povo quanto nas elites sobre 'o que não queremos mais'.  Mas ainda há grandes incertezas sobre 'o que queremos'.

Apenas um vibrante grupo tem consistentemente apresentado uma promessa, com contornos utópicos, de um futuro melhor, com uma identidade única e princípios que detalham emotivamente as terríveis injustiças e chagas do sistema e governo atuais: este é o grupo de liberais, libertários, e conservadores unidos em torno da visão da liberdade (e consequentemente de um estado muito menos intrusivo na sociedade).

A fase da resistência gradualmente está cedendo lugar à fase da liderança, por um Brasil em que teremos orgulho em viver. É um privilégio fazer parte desta inevitável mudança.


[1] Utilizo o termo 'elite' no sentido de representar aquele grupo de pessoas (geralmente uns 10%) em cada uma dessas categorias que (naturalmente) exerce a maior parte da liderança, autoridade ou influência na categoria.  O termo, neste caso, tem uma conotação negativa, pois o acerto tradicional destas com os membros da elite governante é baseado em receber prestígio e recompensas financeiras.

Já o termo 'natural' apenas se refere ao fato de que, em cada categoria, sempre haverá um grupo (os 10% a que me refiro) que exerce a maior parte da liderança, autoridade e influência.


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SOBRE O AUTOR

Helio Beltrão
é o presidente do Instituto Mises Brasil.


OFF-TOPPIC: pessoal do IMB, seria possível vocês redigirem um artigo refutando as teorias conspiratórias sobre o Nióbio que abundam desde a época do Enéias? Quinta-feira o Instituto Liberal reiniciou o debate, e seria ótimo se vocês dessem continuidade. Eis o que comentei no website do IL, é o que resumidamente penso do assunto:

"Se há indícios concretos ou, ao menos, motivos para crer que as empresas autorizadas pelo Estado brasileiro a retirarem do solo e comercializarem este metal estão cometendo fraudes de qualquer natureza, em conluio com grupos estrangeiros ou não, a solução é, em se confirmando as irregularidades, rescindir os contratos de permissão em vigor e abrir este mercado para mais empresas interessadas no empreendimento - seja lá de onde elas forem. A que oferecer a melhor barganha leva as jazidas - e paga impostos sobre tudo o que produzir. Elevar o preço na marra? Claro, abusar desta condição de quase monopolista pode funcionar no começo, mas no médio prazo surgirão alternativas de melhor custo-benefício para atender a demanda daqueles insatisfeitos com a situação. Deixar de vender o Nióbio como comodittie e agregar valor ao mineral em nossa indústria da transformação? Seria ótimo, se nosso parque industrial não estivesse parado no tempo desde meados do século passado. Só falta criarem a estatal NIOBRÁS no Brasil, que dará origem ao escândalo do NIOBRÃO. O brasileiro não aprende mesmo: sempre achando que vai encontrar um bilhete premiado no chão e poderá passar o resto da vida bebendo e sambando."
"Tal afirmação nunca foi feita. Em ponto nenhum do artigo. E nem em nenhum outro artigo"

Não me refiro à uma frase ou texto escrito nos artigos do IMB. Estou questionando a percepção daqueles que defendem esse modelo de afrouxamento da terceirização proposto pelo governo, pois essa discussão toda é parte da realidade em que estamos vivenciando. Aliás, não creio que esse artigo seja uma mera exposição teórico-dissertativa acerca do que seria e quais os benefícios de uma terceirização segundo os liberais, muito menos um texto desvinculado da conjectura atual, como você transparece para quem lê. Logo, minha indagação é pertinente, ainda que, o que questiono, não esteja explicitamente escrito no artigo.

Em relação ao artigo linkado, em momento algum vi algo a mostra que abordasse diretamente o problema terceirização-corporativismo privado que eu levantei acima. O que mais se aproxima seria esse trecho:
"Em primeiro lugar, a ideia de que custos menores para empresas é algo ruim. Além do fato de que custos baixos permitem maior acúmulo de capital — o que possibilita mais investimentos e mais contratações —, falta explicar como que custos de contratação menores podem ser ruins para pessoas à procura de emprego."
Sim, não há problema algum em um empresário tentar reduzir seus custos para se adequar a concorrência e auferir maiores lucros. O entrave se encontra, como eu falei, no empresário monopolista que não possui um fator invísivel para motivá-lo à otimizar sua produção. A mão visível do Estado garante que seu produto inevitavelmente será consumido e, com isso, seu lucro será certeiro. Por conseguinte, não há a preocupação constante deste em inovar, melhorar a qualidade, aumentar a produtividade da sua mão de obra. Nesse sentido, a terceirização beneficia esse empresário, justamente por rebaixar seus custos com contratados (temporários ou não) à niveis abaixos daquilo que os empregados produzem, sabendo se que eles estão confortáveis em relação aos processos trabalhistas que enfrentarão (ajudinha estatal). Bem como, estagna ou retarda as inovações, tendo em vista que sua produção atual será adquirida pelos consumidores à um preço "monopolístico" durante um tempo maior que o de uma concorrência que existiria num livre mercado. Ademais, seu produto foi feito empregando mão-de-obra com um ônus muito abaixo daquilo que ela de fato produz. Desse modo, a margem de lucro é gigantesca, sendo que esse lucro pode sim ser revertido em capital para futuras melhoras, o que, na minha opinião, não aflinge ou preocupa de modo algum uma empresa monopolista, pois esta pode facilmente pegar crédito subsidiado de bancos estatais, ou ser empreendido em outros investimentos pessoais e, na minha percepção, fúteis e de pouco potencial de gerar valor no futuro.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Amauri Cavalcante  01/04/2016 01:21
    Ainda bem que são incompetentes. Ainda bem que erraram tão primariamente...

    Mas ainda não acabou e não têm moral. Sem moral podem usar qualquer arma, principalmente as que quem tem moral não usaria.
  • Sandro Luciano  01/04/2016 01:23
    O empresariado brasileiro não possui espírito competitivo por conta própria, acostumou-se a viver de mãos dadas com o governo e os políticos. Estou apenas relatando um fato. O que veio a ocasionar isso é motivo para intensos debates historiográficos, antropológicos, sociológicos e psicológicos.
  • anônimo  01/04/2016 02:20
    Será mesmo que esse governo acabou? eles ainda tem a máquina publica na mão e diversos movimentos sociais ao seu lado.
  • Lel  01/04/2016 04:28
    Tenho a mesma dúvida.
  • Dam Herzog  02/04/2016 02:32
    Movimentos sociais são uma minoria infima.
  • anônimo  02/04/2016 22:59
    Uma minoria, mas uma minoria organizada, que faz pressão política e dita os rumos do congresso.
  • Fabio Moretto  01/04/2016 10:53
    Delcidio estava certo, eles têm o stf na mão, ontem foi um golpe! O stf rasgou a constituição! Deu foro privilegiado para um cidadão que não tem esse direito! Só falta agora o congresso!
  • Mr Citan  01/04/2016 13:44
    Eu sempre soube que aquele monte de papel soça conhecido como "Constituição de 88" não tinha muito valor mesmo, dado o alto nível soça, como também as várias leis que tem muitas interpretações.
  • Gilmar  01/04/2016 21:21
    Calma lá, nada mudou. Não vai na onda dos noticiários.

    www.midiasemmascara.org/artigos/direito/16435-2016-04-01-08-29-58.html

    https://criticanacional.wordpress.com/2016/03/31/esclarecimento-sobre-decisao-do-stf-dessa-quinta-feira-nada-mudou/
  • Rafael Lustosa  01/04/2016 16:19
    Este é um momento único para os liberais, libertários e conservadores do Brasil. Por mais que tudo pareça muito difícil, que o futuro não pareça tão animador, que o PT talvez não caia e que o socialismo ainda seja forte, muitas pessoas estão tomando consciência de que a solução não está no governo. Quando o governo e a situação estão envolvidos em escândalos, as pessoas se perguntam: "Em quem votar?". Antes, surgiam salvadores da pátria. Mas hoje, muitos já se deram conta que o melhor é menos governo. Pelo menos no meu meio, já espalhei o liberalismo na cabeça de todo mundo. A grande maioria comprou a ideia. Os petistas ficaram em uma situação bem ridícula.
    Ninguém falou que ia ser fácil. Ninguém falou que não ia doer. Ainda vamos sofrer muitas derrotas. Mas agora, a alternativa da liberdade está chegando, pelo menos como mensagem, aos brasileiros. Cabe a nós continuar lutando pela nossa liberdade.
  • Ernesto Mello  03/04/2016 14:31
    Concordo com a conclusão de que o governo acabou. Apear os agentes é a questão não resolvida, pois continuam com a máquina governamental e a caneta nas mãos. Alem disso grupos organizados com tentáculos no legislativo continuam fortes e vão lutar com unhas e dentes para manter a teta estatal drenando. Não vai ser fácil.
  • Pobre Paulista  03/04/2016 19:49
    Vão-se os governantes, fica o estado. Este ânimo recente é absolutamente incompreensível.
  • anônimo  03/04/2016 21:53
    "Ânimo"? Ânimo de quem?
    Só se for do Rafael aí em cima.
    Eu só vejo desânimo. Aliás, tenho visto desespero ao meu redor nos dias atuais.
  • Mitchell Cox  06/04/2016 21:37
    Também só vejo desânimo e desespero nas pessoas. Não vejo ânimo nenhum.
  • Henrique  04/04/2016 12:45
    Precipitado este artigo. O PT vai conseguir quórum para barrar o impeachment na Câmara.


    Abraços;
  • Andre Cavalcante  06/04/2016 19:09
    Vixe,

    Cidadão, do texto:

    "Como disse em outra ocasião, um status de ingovernabilidade se caracteriza pelo afastamento contínuo e crescente das elites — políticas, militares, empresariais, intelectuais e religiosas — em relação ao governo em questão. E isso já ocorreu."

    Então, este governo já era, com impedimento ou sem!

    Mais atenção na próxima, ok?

    Abraços

    PS.: A turma que comenta no IMB, pelo que tenho percebido tem caído de nível mui recentemente.
  • Ex-Dissidente  06/04/2016 21:36
    André, esse Henrique é um conhecido MAV do espaço.

    Abço
  • Leg  06/04/2016 23:20
    O PT ainda tem os cargos para barganhar apoio, eles ainda podem virar o jogo.
  • Emerson Luis  08/04/2016 11:03

    A arrogância distorce a percepção e o raciocínio, levando a erros estratégicos. Por isso sempre que a esquerda radical assume o poder ela provoca seu próprio colapso.

    * * *
  • Fernando  09/04/2016 14:34
    Como pode um senador falar tranquilamente que comprou 100 hectares de terra do Incra ?

    O Incra pode ser um expropriador de terras, para depois vender essas terras ?

    O Incra é um antro de corrupção e de propina.

    noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/04/08/lider-do-pdt-no-senado-aparece-em-relacao-de-beneficiarios-de-terras-do-incra.htm


    O PDT está pagando movimentos sociais Por todo Brasil. É um partido tão ruim quanto o PT.

    Essa turma vermelha vai de bandido à guerrilheiro.
  • Emilio Gouvêa  24/04/2016 21:15
    Falando teoricamente sobre o Liberalismo, sabemos que não existe vácuo de poder, sempre que um poder estabelecido se enfraquece ele é desafiado por outro poder mais forte, e quando ele cai, o mais forte entre os poderes concorrentes assume a liderança da sociedade e cria um governo.
    Então, se na vida real não existe vácuo de poder, como pode a falta de governo ser um objetivo?
    A falta de poder legal sempre levará à tomada do poder por governos de criminosos e outros tipos usando a violência.
  • Peralta  25/04/2016 00:56
    Sim. Quanto maior o território governado por um governo central, e quanto maior a população submissa a esse governo central, mais lucrativo é tomar o poder e impor ordens aos seus vassalos.

    Nesse quesito você está certo. Quanto maior o estado, quanto maior a população que ele governo, e quanto mais vasto o território que ele abrange, mais apetitoso será tomar o poder.

    Sendo assim, você tem duas opções:

    1) Acreditar no conto de fadas de que é possível "eleger as pessoas certas", as quais irão nos levar à felicidade e riqueza geral.

    2) Separar-se desse poder central e concentrar poderes, minúsculos, apenas em pequenas localidades.

    Sobre isso, ver:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2341

    E também este livreto:

    www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=95

    Que também foi resumido aqui:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1692.

    Ou então vir direto pra cá.

    www.mises.org.br/Subject.aspx?id=48
  • Emilio Gouvea  25/04/2016 01:25
    As favelas dominadas pelo narcotráfico e depois pelas milícias que vencem e destroem os traficantes para explorar os cidadãos com taxas ilegais mostram que não existe a possibilidade de unidades populacionais menores ficarem a salvo de tomadas violentas de poder.
    As Repúblicas de Bananas do Caribe e a política de canhoneiras praticadas pelos EUA no início do século XX mostram que países pequenos são dominados pelos maiores.
    O bulling praticado nas escolas também mostra que não há limites para o domínio da violência se impor sobre comunidades. Vizinhos abusadores que colocam som alto e criam cachorros em apartamentos, jovens impondo som extremamente alto com seus carros nas praias.
    Enfim, o mundo teórico é uma coisa, o mundo real é outra e a lógica da violência e do uso do poder por quem tem coragem e meios de exerce-lo não pode ser ignorada, não há alternativas para governos eleitos e leis de convivência. Não existe vácuo de poder mesmo nas menores unidades sociais.
  • Getulio  25/04/2016 04:46
    "As favelas dominadas pelo narcotráfico e depois pelas milícias que vencem e destroem os traficantes para explorar os cidadãos com taxas ilegais mostram que não existe a possibilidade de unidades populacionais menores ficarem a salvo de tomadas violentas de poder."

    Ué, mas quem é que gera esse descalabro nas favelas?

    Sim, ele mesmo, o excesso de estado. O quê?! Sim, excesso de estado. E eu lhe provo.

    Uma área pobre de uma grande cidade, infestada de quadrilhas de traficantes e de milicianos que circulam por ali sem qualquer restrição, vendendo abertamente drogas nas ruas e becos e descarregando rajadas de metralhadora em qualquer um que apresente um comportamento suspeito está nessa situação terrível justamente porque a polícia opera ali rotineiramente e com truculência.

    Se a polícia realmente nunca se preocupasse em impor qualquer lei naquela área, então ninguém teria de se preocupar com o risco de ir pra cadeia por estar vendendo drogas.

    Consequentemente, empresas de fora poderiam ir se instalar naquele bairro, abrir lojas com janelas à prova de balas e vigiadas por seguranças muito bem armados, e vender cocaína e outras drogas para os moradores (ou, principalmente, para os clientes que vêm de outros bairros) por uma fração do preço vigente nas ruas.

    Essas empresas iriam rapidamente quebrar todas as quadrilhas de traficantes que operam na região, uma vez que os clientes iriam correr em manada para aqueles empreendimentos profissionalmente geridos, principalmente por causa de seus preços baixos e pela qualidade de seus produtos.

    Porém, por que isso não ocorre? Porque se alguns empreendedores tentassem de fato implementar o plano acima, eles seriam rapidamente impedidos pela polícia, que interromperia suas atividades (com o indisfarçável apoio dos traficantes locais).

    Mais ainda: essas empresas teriam suas contas bancárias confiscados por ordem do judiciário, inviabilizando qualquer operação. Líderes comunitários e religiosos iriam reclamar que uma farmácia não pode vender cocaína para adolescentes em plena luz do dia (embora os traficantes o façam imperturbáveis) e o chefe da delegacia encarregada da região iria concordar.

    Com efeito, nem ocorre a qualquer empreendedor tentar fazer o que foi dito acima porque -- duh! -- seria algo totalmente ilegal.

    Portanto, não é difícil entender que não é inoperância do governo o que permite que determinadas favelas permaneçam em um equilíbrio violento; ao contrário: é justamente o ataque do governo aos direitos de propriedade que faz com que bandidos detenham um poder permanente sobre determinadas regiões.

    "As Repúblicas de Bananas do Caribe e a política de canhoneiras praticadas pelos EUA no início do século XX mostram que países pequenos são dominados pelos maiores."

    Sim, é por isso que a Suíça foi seguidamente dominada por várias potências imperialistas. É por isso que Liechtenstein é diariamente invadido por tropas estrangeiras. É por isso que Luxemburgo vive em cativeiro. É por isso que Mônaco, Andorra, Hong Kong e Cingapura foram escravizados por grandes países.

    E é por isso que o Paraguai e o Uruguai foram anexados pelo Brasil.

    Né?

    "O bulling praticado nas escolas também mostra que não há limites para o domínio da violência se impor sobre comunidades."

    Oi?!

    "Vizinhos abusadores que colocam som alto e criam cachorros em apartamentos, jovens impondo som extremamente alto com seus carros nas praias."

    Gozado. Todos esses cenários ocorrem exatamente em um arranjo de estado máximo, que é esse que vivemos no Brasil. Você, curiosamente, em vez de comprovar a total ineficácia do estado em coibir estas agressões à propriedade alheia, constata -- estranhamente -- que sem o estado seria tudo muito pior. Como assim?

    Aliás, permita-me um comentário de um entendido, pois eu vivencio esse drama diariamente.

    Moro em uma região repleta de barzinhos. Diariamente, a partir das 18h, escuto, como se estivessem dentro da minha casa, boêmios e pinguços conversando animadamente em voz alta. Na maioria das vezes, eles berram mesmo.

    E isso perdura até por volta da meia-noite.

    Nas quartas-feiras, quando tem futebol, é ainda pior: é comum que a badalação vá até as 2 da manhã.

    Desnecessário dizer que os sábados à noite são os piores dias.

    Já nos domingos, embora a farra se encerre mais cedo (por volta das 22h), a boemia é a mais prolongada: já por volta do meio-dia esses foliões chegam e vão ficando até as 22 horas.

    Não é incomum essas pessoas ficarem no meio da rua soltando foguetes, principalmente em épocas de decisão de campeonato.

    A associação de moradores do bairro já reclamou com a prefeitura. A resposta: "esses estabelecimentos pagam impostos, empregam pessoas e agem perfeitamente dentro da normalidade".

    Com muito custo, conseguimos fazer com que nas segundas e terças-feiras eles fechassem um pouco mais cedo. E só.

    Primeira conclusão: em um ambiente de regulação estatal, vence justamente quem tem mais poder político. (Para a prefeitura, nós moradores só pagamos IPTU; já esses estabelecimentos, além de pagarem IPTU, pagam também ISS).

    Segunda conclusão: em um ambiente de regulação estatal, que é o atual arranjo, não há solução.

    Terceira conclusão: qual a solução? Ruas e/ou bairros privados. Garanto que em condomínios fechados esse tipo de coisa não acontece.
  • Emilio Gouvea  25/04/2016 05:39
    Eu estava tentando exatamente entender qual a lógica em não ter governo nenhum, se isso é tão impossível quanto fazer a Terra parar de girar. Governo é quem manda e tem o monopólio da violência, não importa o tamanho da comunidade. Na falta de um governo estabelecido de forma consensual e o mais democraticamente possível, os extremos de poder/governo podem ocorrer desde que haja vontade para tanto, a Máfia exerce seu poder/governo e está cagando para o fato de ter ou não um governo legal. Ou seja você vai ser governado por alguém sempre, quem tem e quer exercer o poder violento, vai governar.
    Os países que vc cita, Lichtenstein, Luxenburgo,Andorra, Monaco e Hong Kong são protetorados semi-independentes politicamente, mas dependentes militarmente da França, Alemanha e China. A Suiça assim como Israel e Cingapura, são fortalezas militares extremamente fortes onde cada cidadão é soldado. Cingapura quase foi anexada pela Malasia quando o UK concedeu sua independência. O Timor Leste foi invadido e escravizado pela Indonésia quando Portugal saiu de lá. Países como Holanda, Belgica, Dinamarca, Islândia, Libano, Kuweit, Letonia, Estonia, Lituânia, Palestina, o Curdistão, a Bosnia, Eslovênia, Kosovo, Laos, Camboja, Vietnam, a Coreia, o Panamá, a antiga Tchecoslováquia, foram todos invadidos em algum momento de sua história e a própria Austria de Mises foi anexada pelos nazistas. E até mesmo Paraguai (ocupado por mais de 10 anos) e Uruguai foram invadidos e passaram anos sob tutela ou anexados ao Brasil, lembra da Província Cisplatina (Uruguai)? O poder americano retalhou o México, a Bolívia perdeu o mar e o Acre, a Espanha dominou e depois perdeu metade do mundo, assim como Portugal, França, Belgica, Holanda e a Inglaterra.
    A grade questão que eu formulei você não consegue responder a nível teórico: Não existe vácuo de poder, na falta de um poder consensualmente estabelecido, ocupa o espaço um poder autoritariamente estabeleceido, portando eliminar o estado é uma utopia que jamais vai ocorrer. A prática demonstra isso e o seu próprio argumento sobre os bares de sua vizinhança, demonstra o que eu falei, o poder dos donos dos bares está se impondo a você e seus vizinhos, porque o poder governamental não está agindo. Entende? Você sempre vai ser governado por alguém mais forte ou mais abusado e ousado, NÃO EXISTE VÁCUO DE PODER.
  • José Flávio  25/04/2016 12:30
    Você próprio já deu a resposta:

    Suiça e Cingapura são fortalezas militares extremamente fortes onde cada cidadão é soldado.

    Estou dentro e sou a favor desse arranjo: todo mundo armado e todo mundo cuidando do seu pedaço de terra. Não preciso de Dilma, Cunha, Calheiros et caterva para me proteger.

    E aí, tá dentro?
  • Andre Cavalcante  26/04/2016 01:39
    Olá Emilio Gouveia

    "Eu estava tentando exatamente entender qual a lógica em não ter governo nenhum, se isso é tão impossível quanto fazer a Terra parar de girar."

    A lógica de não ter governo nenhum é a população reconhecer a não necessidade de governo algum. E não é tão impossível quanto fazer a Terra parar de girar, coisa aliás que vai acontecer naturalmente quando a Lua se for e o Sol avermelhar.

    "Governo é quem manda e tem o monopólio da violência, não importa o tamanho da comunidade."

    Ooops, governo só tem o monopólio da violência se os súditos assim o permitirem. E tamanho é sim importante nesta história. Exemplo: imagine que no Rio de Janeiro não haja nenhum governo. Então, como você acha que os traficante iriam "governar" a população de suas respectivas comunidades (assumindo que eles tem ali o monopólio da violência, a bem do argumento)? Se eles tentassem "explorar" o povo ali, como o governo brasileiro faz hoje com a sua população, naturalmente as pessoas se mudariam porque é muito mais fácil trocar de comunidade no Rio do que de país, no caso do Brasil.

    Como todo bom anarcocapitalista já percebeu, o problema não é quem tem as armas na mão (o poder, como queira), mas se esse poder tem ou não concorrência. Para se criar um ambiente em que haja concorrência de "governos", o melhor é diminuir a área e a fonte de financiamento de cada governo. E, fato, se as armas estão nas mãos do população então é que um governo (qualquer que seja o tipo) vai ter mais dificuldade ainda de se estabelecer, talvez até ao nível em que cada qual é o seu próprio governo (o ideal anárquico).

    Lembrando sempre: anarquia = sem soberano; monarquia = um soberado; oligarquia = alguns soberanos; politeia = todos são soberanos (isto seria possível?)


  • Emilio  25/04/2016 13:00
    Concordo que o modelo de Cingapura e Suiça são bons...mas é porque eles tem um Estado extremamente forte, bem estruturado e com baixo nível de impostos ou seja não tem vácuo de poder.
  • Hans  25/04/2016 13:17
    Beleza. Então responde aí, SEM GOOGLAR:

    Quem é o chefe de estado ou o chefe de governo da Suíça? Se o estado suíço é forte -- ao ponto de intimidar qualquer invasão estrangeira -- então todo o mundo tem de saber quem está no comando deste aparato.

    Você certamente sabe o nome dos principais chefes de governo europeu (ou, ao menos, se lembra de algum nome do passado). Mas e da Suíça?

    Pois é...

    Isso é que é estado forte, hein? É tão forte, mas tão forte, que ninguém sabe nem quem está no comando...
  • Martins  25/04/2016 13:27
    Depois de tudo que o Brasil passou e ainda está passando por causa do seu estado hipertrofiado e robusto, ainda temos de aguentar nêgo vindo aqui dizer que precisamos de um estado ainda mais firme e robusto.

    É depressivo, viu...
  • Emilio  25/04/2016 14:41
    Não faço a menor idéia de quem seja o chefe de governo da Suiça, e nem o primeiro ministro da Suécia, de Cingapura ou mesmo da Itália hoje em dia. Isso ocorre porque eles não estão na mídia, principalmente a Suiça...ninguém lembra de uma crise qualquer com esse pais. Os governos se alternam democraticamente e são politicamente neutros e militarmente fortes. A Suiça é um exemplo de governo que funciona razoavelmente...mas ele existe.
    Ninguém que vem a este site quer o Brasil com governos hipertrofiados e sugadores de renda, mas assim como a Lei da Gravidade não foi revogada, a lei básica da política é que:
    Não existe vácuo de poder, quando um poder cai ou enfraquece, outro assume imediatamente ou abre luta para assumir.
    Demonstrando teoricamente, ninguém até agora foi capaz de desmentir essa dinâmica.
  • Garavine  25/04/2016 17:31
    Viu só? Você nem sabe qual é a forma de governo da Suíça. Você não sabe se há presidente ou primeiro-ministro. Você não sabe qual é a figura que manda lá.

    Você não sabe quem é o líder da Suécia ou da Itália por mera ignorância temporária. Uma simples googlada irá resolver o problema. Na pior das hipóteses, você ao menos conhece algum nome do passado, como Silvio Berlusconi e Bettino Craxi.

    Agora, e da Suíça? Você nem sabe qual é a forma de governo de lá.

    "Não existe vácuo de poder, quando um poder cai ou enfraquece, outro assume imediatamente ou abre luta para assumir."

    Correto. E ninguém aqui quer inexistência de poder. Muito pelo contrário: queremos o poder nas mãos da população. Uma população muito bem armada, ciosa de seus direitos de propriedade e atenta contra toda e qualquer tentativa de confisco, agressão e usurpação. Armas tornam as pessoas mais civilizadas e transforma todos em bons vizinhos.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2146


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