Existe uma página específica para este artigo. Para acessá-la clique aqui.

A areia movediça da ingovernabilidade

Um status de ingovernabilidade se caracteriza pelo afastamento contínuo e crescente das elites — políticas, militares, empresariais, intelectuais e religiosas — em relação ao governo em questão.

Em meio a tantas notícias e ruídos, fica difícil perceber ou mensurar a velocidade desse afastamento. No caso da expansão do universo, mensura-se pelo grau de avermelhamento da luz das estrelas (efeito Doppler). No caso da ingovernabilidade brasileira, há um doppler ao contrário, todos fugindo do vermelho.

Um dos sinais reveladores da aceleração da ingovernabilidade é que os argumentos — ainda que dotados de algum fundamento — daqueles que ainda apoiam o regime não encontram eco algum; apenas servem como justificativa para que tais defensores sejam associados a uma causa perdida, como a defesa de um governante com pouca ética e sem futuro.

Ou seja, para os solitários apoiadores ainda corajosos o suficiente para fazer uma defesa pública, qualquer discurso de apoio ao regime tem um custo maior (e crescente) do que qualquer benefício. É a areia movediça da ingovernabilidade. Mexer-se e debater-se é pior, levando à morte.

Por conta deste efeito, são cada vez mais raros os votos de apoio públicos por membros de lideranças das diversas elites mencionadas acima (os formadores de opinião). Aqueles que ainda apoiam o governo passam a se calar. Só que isto também piora a sustentabilidade e governabilidade.

Usualmente, o governo tenta a cartada final de mobilizar os simpatizantes remanescentes entre o povo para ir às ruas. Porém, sem o apoio e intermediação dos formadores de opinião, e dada a baixa energia dos simpatizantes remanescentes, não há o efeito esperado.

A areia movediça da ingovernabilidade não perdoa.


0 votos

SOBRE O AUTOR

Helio Beltrão
é o presidente do Instituto Mises Brasil.


O estado matou a liberdade dos açougues em prol dos empresários corporativistas

Há dez anos havia uma predominância muito maior de açougues de bairro. Eram comércios na maioria das vezes confiáveis e a procedência das carnes normalmente não era tão duvidosa quanto a vendida no supermercado.

Geralmente os donos desses açougues eram pais de família que manipulavam a carne com certo rigor, contratavam gente da vizinhança pra dar aquela força no comércio, faziam o bom e velho fiado pra quem não podia pagar na hora, enfim, era um tempo onde havia maior proximidade entre os produtos de consumo e o consumidor.

Mas eis que apareceu o governo e suas "bondades". E aí o açougueiro foi para o abismo com uma série de taxações, regulações, decretos, portarias, leis inúteis, legislações pesadas e tudo o mais necessário para acabar com um negócio promissor e confiável sob a desculpa de proteger os clientes daquele "malvadão" que – absurdo! – quer trabalhar e lucrar com o comércio de carnes.

E são tantas regras "protecionistas" que, sabendo da impossibilidade dos donos em cumpri-las de forma plena, os fiscais do governo se aproveitam da situação para caçar "irregularidades" como "a cor da parede", pedindo aquele salário mínimo para assinar o alvará de funcionamento.

Enquanto isso, o estado isentou as grandes empresas de impostos e multas sempre que possível, bem como das regras sanitárias que o açougueiro da esquina tem que cumprir. Enquanto o dono do açougue do bairro era impedido de obter uma mísera linha de crédito para investir em seu negócio, o governo fornecia uma gorda verba para as grandes empresas por meio do BNDES.

E veio o período maquiavélico de "aos amigos os favores, aos inimigos a lei", onde não há nada que impeça as grandes empresas. As dívidas caíam de 1 bilhão para 320 milhões, a "fiscalização" sanitária se tornou aliada e o Ministério da Agricultura passou a conceder seus selos livremente para os amigos do governo. Claro que isso teve um custo, pago com aquela verba pra campanha eleitoral para "resolver" tudo.

E o resultado não poderia ser diferente: nos baseando na confiança em um selo estatal e no sorriso técnico do Tony Ramos afirmando que "carne confiável tem nome!".

O corporativismo, ou seja, a aliança entre estado e grandes empresários, nos trouxe resultados deploráveis. Mas o malvado continua sendo o seu José da esquina, aquele que queria vender suas carnes e terminou fechando por excesso de burocracia estatal. Enquanto isso, os corporativistas da JBS, BRF e companhia cairão no esquecimento em breve.

O corporativismo brasileiro é um desastre sem fim.
Prezado Paulo, você reclama que teve emprego e salário, mas não ganhava tanto quanto os funcionários mais antigos e experientes. Você foi contratado a um salário menor e achou isso injusto. Queria já chegar ganhando o mesmo tanto que funcionários melhores e mais experientes, que já estavam lá há anos. É isso mesmo?

Não posso acreditar.

Outra coisa: você teve salário e emprego (e ainda teve plano de saúde!) graças à possibilidade de terceirização. E se fosse proibida a contratação de terceirizados? Será que você teria tido esse emprego e esse salário? Será que você sequer teria tido essa chance?

Desculpe, mas parece que você está cuspindo no prato que comeu. Você teve emprego e renda (e plano de saúde!) graças a uma liberdade de contrato, e agora vem dizer que essa liberdade foi ruim para você? Bom mesmo seria se o mercado de trabalho fosse restrito. Aí sim você já seria contratado como presidente...

É interessante como você parte do princípio de que o mundo não só lhe deve emprego e renda (e plano de saúde!), como ainda lhe deve um emprego extremamente bem-remunerado imediatamente após a contratação (você já quer entrar ganhando o mesmo tanto que os funcionários mais antigos e experientes).

De fato, ainda estamos deitados em berço esplêndido. Aqui todo mundo só quer saber de direitos.


P.S.: ainda no aguardo de você responder à pergunta do Leandro (a que aparentemente te deixou assim tão zangado): a terceirização nada mais é do que permitir que uma pessoa tenha maior liberdade para contratar outra pessoa para fazer um trabalho. Só isso. Qual exatamente seria um argumento racional e respeitável contra esse acordo voluntário e livremente firmado entre duas partes?

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Felipe  08/03/2016 20:55
    O que será que vai acontecer no futuro a curto prazo com o Brasil?
  • José Roberto  08/03/2016 21:19
    Minha aposta é: A Dilma não fará abertura das Olimpíadas, já terá caído antes disso.
  • Primo  08/03/2016 23:06
    E o mais engraçado é que ninguém está interessado em governar. Está todo mundo passando o bastão. O poder está vago. Ninguém está a fim de misturar seu trabalho a terra brasileira e legitimar a propriedade. É a destruição do poder pelo poder. Imagine se todas as acusasoes de caixa dois, propina e corrupção forem comprovadas, muitas pessoas envolvidas, imagine o entrelaçamento de pedido de dinheiro entre os envolvidos para manter silencio, imagine a destruição da expectativa de 'direito' adquirido de todo o assistencialismo público e privado. Está ingovernável, mas sem dúvida cutucaram o gigante adormecido. Agora não sei se o gigante vai com tudo para a esquerda ou para a direita ...
  • Almir  08/03/2016 23:55
    Quem sobreviverá, já que sobra pra todo o mundo, pra todos os setores do governo, do estado, para os três poderes, ninguém escapa, a corrupção é tamanha que não me arrisco a nada. O tempo há de mostrar se tem jeito ou vai piorar muito mais.
  • Emerson Luis  09/03/2016 10:05

    Agora está cada vez mais fácil apontar os erros do governo petista (ou pelo menos não apoiá-lo). Coragem para isso era necessária quando o Lula presidia com 80% de aprovação. Muitos "chutadores de cachorro morto" são ratos abandonando o navio afundando.

    * * *
  • Erick  09/03/2016 12:18
    Pois que a areia leve! Vá com Deus!
  • Capital imoral  09/03/2016 14:42
    Está é a prova viva que a democracia funciona.

    Vocês adoram falar que a democracia não funciona, veja por si só, uma presidente democraticamente eleita, que está quase deixando o poder por ingovernabilidade.


    Ela pode estar lá, mas praticamente não exerce o poder. Lógico que isso é culpa do capitalismo, que ajuda a deturbar a democracia, mas isso é questão para um outro artigo meu.

    O fato é: A ingovernabilidade da Dilma, é a prova viva que a democracia funciona.
  • Guilherme  10/03/2016 02:17
    A hilariedade não tem limites, obrigado pela gargalhada.
  • Luma  10/03/2016 13:04
    Esperançosa de que possa haver mudanças em nosso país a curto prazo. Infelizmente nosso país está sem essa governabilidade, é só jogo de interesses, a luta eterna pelo poder. Muito triste!


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.