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Idéias iguais, resultados diferentes

Ideias iguais podem ter consequências completamente diferentes de acordo com o ambiente em que são implantadas. 

Uma ideia que gerou um ótimo resultado em uma determinada sociedade não necessariamente terá o mesmo êxito em outra sociedade cujo ambiente cultural e político seja diferente.

O professor português João Carlos Espada recorrentemente apresenta — em suas aulas, livros e palestras — o seguinte exemplo, o qual eu costumo usar sem moderação:

Como recordou a historiadora norte-americana Gertrude Himmelfarb, "o verdadeiro milagre da Inglaterra moderna não está em ter sido poupada da revolução, mas em ter assimilado tantas revoluções — industrial, econômica, social, política, cultural — sem recorrer à Revolução."

Na Oxford History of Western Philosophy, Anthony Quinton reconheceu esta especificidade da cultura política de língua inglesa com um olhar original.  Ele afirmou que "o efeito da importação das doutrinas de John Locke na França foi muito semelhante ao do álcool em estômago vazio." Na Inglaterra, os princípios de Locke "serviram para sancionar uma ampla revolução conservadora [em 1688] contra a inovação absolutista", enquanto que na França [em 1789] a importação das ideias de Locke conduziria ao radicalismo da revolução francesa."

O professor Espada também acrescenta que "segundo Popper, o mistério inglês residia no fato de que todos, do leiteiro ao primeiro-ministro, desejavam ser um gentleman".


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SOBRE O AUTOR

Bruno Garschagen
é autor do best seller "Pare de Acreditar no Governo - Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado" (Editora Record). É graduado em Direito, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford (visiting student), professor de Ciência Política, tradutor, blogger (www.brunogarschagen.com), podcaster do Instituto Mises Brasil e membro do conselho editorial da MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia.



OFF-TOPPIC: pessoal do IMB, seria possível vocês redigirem um artigo refutando as teorias conspiratórias sobre o Nióbio que abundam desde a época do Enéias? Quinta-feira o Instituto Liberal reiniciou o debate, e seria ótimo se vocês dessem continuidade. Eis o que comentei no website do IL, é o que resumidamente penso do assunto:

"Se há indícios concretos ou, ao menos, motivos para crer que as empresas autorizadas pelo Estado brasileiro a retirarem do solo e comercializarem este metal estão cometendo fraudes de qualquer natureza, em conluio com grupos estrangeiros ou não, a solução é, em se confirmando as irregularidades, rescindir os contratos de permissão em vigor e abrir este mercado para mais empresas interessadas no empreendimento - seja lá de onde elas forem. A que oferecer a melhor barganha leva as jazidas - e paga impostos sobre tudo o que produzir. Elevar o preço na marra? Claro, abusar desta condição de quase monopolista pode funcionar no começo, mas no médio prazo surgirão alternativas de melhor custo-benefício para atender a demanda daqueles insatisfeitos com a situação. Deixar de vender o Nióbio como comodittie e agregar valor ao mineral em nossa indústria da transformação? Seria ótimo, se nosso parque industrial não estivesse parado no tempo desde meados do século passado. Só falta criarem a estatal NIOBRÁS no Brasil, que dará origem ao escândalo do NIOBRÃO. O brasileiro não aprende mesmo: sempre achando que vai encontrar um bilhete premiado no chão e poderá passar o resto da vida bebendo e sambando."
"Tal afirmação nunca foi feita. Em ponto nenhum do artigo. E nem em nenhum outro artigo"

Não me refiro à uma frase ou texto escrito nos artigos do IMB. Estou questionando a percepção daqueles que defendem esse modelo de afrouxamento da terceirização proposto pelo governo, pois essa discussão toda é parte da realidade em que estamos vivenciando. Aliás, não creio que esse artigo seja uma mera exposição teórico-dissertativa acerca do que seria e quais os benefícios de uma terceirização segundo os liberais, muito menos um texto desvinculado da conjectura atual, como você transparece para quem lê. Logo, minha indagação é pertinente, ainda que, o que questiono, não esteja explicitamente escrito no artigo.

Em relação ao artigo linkado, em momento algum vi algo a mostra que abordasse diretamente o problema terceirização-corporativismo privado que eu levantei acima. O que mais se aproxima seria esse trecho:
"Em primeiro lugar, a ideia de que custos menores para empresas é algo ruim. Além do fato de que custos baixos permitem maior acúmulo de capital — o que possibilita mais investimentos e mais contratações —, falta explicar como que custos de contratação menores podem ser ruins para pessoas à procura de emprego."
Sim, não há problema algum em um empresário tentar reduzir seus custos para se adequar a concorrência e auferir maiores lucros. O entrave se encontra, como eu falei, no empresário monopolista que não possui um fator invísivel para motivá-lo à otimizar sua produção. A mão visível do Estado garante que seu produto inevitavelmente será consumido e, com isso, seu lucro será certeiro. Por conseguinte, não há a preocupação constante deste em inovar, melhorar a qualidade, aumentar a produtividade da sua mão de obra. Nesse sentido, a terceirização beneficia esse empresário, justamente por rebaixar seus custos com contratados (temporários ou não) à niveis abaixos daquilo que os empregados produzem, sabendo se que eles estão confortáveis em relação aos processos trabalhistas que enfrentarão (ajudinha estatal). Bem como, estagna ou retarda as inovações, tendo em vista que sua produção atual será adquirida pelos consumidores à um preço "monopolístico" durante um tempo maior que o de uma concorrência que existiria num livre mercado. Ademais, seu produto foi feito empregando mão-de-obra com um ônus muito abaixo daquilo que ela de fato produz. Desse modo, a margem de lucro é gigantesca, sendo que esse lucro pode sim ser revertido em capital para futuras melhoras, o que, na minha opinião, não aflinge ou preocupa de modo algum uma empresa monopolista, pois esta pode facilmente pegar crédito subsidiado de bancos estatais, ou ser empreendido em outros investimentos pessoais e, na minha percepção, fúteis e de pouco potencial de gerar valor no futuro.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Marcos  15/12/2015 19:15
    É o que eu sempre digo: "É a cultura, seu tolo".

    Sem uma ampla alteração na mentalidade das pessoas, políticas liberais ou anti-estatais não têm nenhuma chance de dar certo.
  • Partidário da Causa Operária  15/12/2015 19:31
    Os whigs não quiseram implantar "ideias lockeanas". Falta estudo.
  • Guilherme  15/12/2015 19:46
    Sim, isso ficou a cargo dos tories. E daí?
  • Bruno Garschagen  15/12/2015 22:03
    Mas quem falou em whigs e tories? Desconsiderando certa arrogância disléxica, esse comentário parece ser falta de cuidado com a leitura.
  • Partidário da Causa Operária  16/12/2015 00:49
    O texto é muito curto, talvez não tenha havido espaço suficiente para o desenrolar da ideia.

    "Na Inglaterra, os princípios de Locke "serviram para sancionar uma ampla revolução conservadora [em 1688] contra a inovação absolutista (...)"

    Suponho que a revolução de 1688 seja a Revolução Gloriosa. E também suponho que a fonte de tais "ideias lockeanas" em contexto político tenham por fonte seu "Dois Tratados Sobre o Governo".

    Ora o livro de Locke foi publicado em dezembro de 89. Como então é possível que serviram de base para a revolução de 88? Trata-se de uma impossibilidade.
  • John  16/12/2015 10:44
    PCO, você está desinformado.

    [Locke] returned to England in 1679 […]. Around this time, […], Locke composed the bulk of the Two Treatises of Government. While it was once thought that Locke wrote the Treatises to defend the Glorious Revolution of 1688, recent scholarship has shown that the work was composed well before this date.

    The work is now viewed as a more general argument against absolute monarchy (particularly as espoused by Robert Filmer and Thomas Hobbes) and for individual consent as the basis of political legitimacy.

    Though Locke was associated with the influential Whigs, his ideas about natural rights and government are today considered quite revolutionary for that period in English history.

    https://en.wikipedia.org/wiki/John_Locke#Life_and_work
  • Andre  16/12/2015 11:49
    "o efeito da importação das doutrinas de John Locke na França foi muito semelhante ao do álcool em estômago vazio.".

    Pois é... Isso me lembra de uma ideia criada por John Locke que tem interpretações completamente distintas, é a ideia da Tabula Rasa.

    Para um esquerdista essa ideia pode ser usada para afirmar que:
    - "Não se nasce mulher, torna-se".

    Já uma pessoa normal irá apenas usar essa ideia para decidir que devemos ensinar as crianças à ler e escrever, pois elas não nascem sabendo.

    Pra mim é uma ideia completamente idiota, com certeza todos nascem "sabendo" muitas coisas, por exemplo, nascem sabendo distinguir e reconhecer rostos de pessoas facilmente:



    Nascem sabendo usar indução para, após ver apenas cisnes brancos durante muitos anos concluírem que, provavelmente, ou com certeza, apenas existem cisnes brancos. Os mais inteligentes escolhem a opção "provavelmente" os menos inteligentes escolhem a opção "com certeza", mas ninguém escolhe a opção "acho que por puro acaso só vi cisnes brancos ao longo da minha vida, mas PROVAVELMENTE todos os outros cisnes são de outras cores".

    Etc...

    Claro que ninguém nasce sabendo TUDO, ou coisas que foram inventadas por outras pessoas, mas muita coisa já se nasce sabendo.
  • Anderson S  16/12/2015 13:44
    O professor Espada também acrescenta que "segundo Popper, o mistério inglês residia no fato de que todos, do leiteiro ao primeiro-ministro, desejavam ser um gentleman".


    Interessante, enquanto os ingleses lutavam para apresentar falas e gestos refinados, além de ascender financeiramente, outros povos faziam diferente, eram cada vez mais afastados da elegância da elite (o Brasil...).

    Theodore Dalrymple diz que um dos piores legados culturais que os europeus deixaram aos colonizados africanos foi o "tratamento de criança" que lhes fora dado; os africanos eram tratados como crianças ou pessoas com pouca capacidade intelectual, política e de expressão. Esta forma de enxergar e contactar os africanos acabou deixando-os (ou perpetuando) destituídos de autoridade pessoal frente aos problemas e, pior, acabou por deixá-los, pós-colonização, nas mãos dos pequenos déspotas (filhos dos nativos mais proeminentes, que estudavam no exterior ou os líderes tribais).
  • Rodrigo Pereira Herrmann  17/12/2015 21:00
    Na verdade, como tenta mostrar a própria Himmelfarb, havia uma dupla corrente de pensamento dentro do iluminismo inglês. Uma com Locke, Bentham e Mandeville. A outra com Shafstesbury, Butler, Reid, Berkeley, Smith e Burke.

    A primeira influenciou mais fortemente a revolução francesa.
    A segunda, a política inglesa e a revolução americana.

    A diferença é de teoria de conhecimento, aquisição de valores morais e fundamento da liberdade.


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