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As consequências ignoradas da Primeira Guerra Mundial
E a ascensão do comunismo, do fascismo e da social-democracia

Nota do Editor

Ontem, dia 6 de abril de 2017, foi o centésimo aniversário da entrada dos EUA na Grande Guerra na Europa, também conhecida como Primeira Guerra Mundial. Em tese, seria a "guerra para acabar com todas as guerras", a guerra pela liberdade, pela autodeterminação, pela justiça, pela moralidade, pela verdade, pela democracia, e contra a monarquia, a tirania e o absolutismo.

Mas quais foram as reais consequências daquela guerra? Mais ainda: como seria o mundo hoje não fosse a entrada dos EUA na guerra? Utilizando um impecável exercício de lógica, Hans-Hermann Hoppe apresenta a resposta.

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A Primeira Guerra Mundial representou um dos maiores divisores de água da história moderna. Ao seu final, a transformação de todo o mundo ocidental, que havia sido iniciada ainda na Revolução Francesa, foi completada: governos monárquicos e reis soberanos deixaram de existir e deram lugar a governos republicano-democráticos.

Até 1914, existiam apenas três repúblicas na Europa: França, Suíça e, desde 1911, Portugal. E, dentre todas as principais monarquias europeias, apenas a do Reino Unido podia ser classificada como um sistema parlamentar, isto é, um sistema em que o poder supremo estava investido em um parlamento eleito. 

No entanto, quatro anos depois, após os Estados Unidos terem entrado na guerra europeia e decisivamente determinado o seu resultado, as monarquias praticamente desapareceram, e a Europa, junto com o resto do mundo, adentrou a era do republicanismo democrático.

Na Europa, os Romanovs, Hohenzollerns e Habsburgos, militarmente derrotados, tiveram de abdicar ou renunciar, e a Rússia, a Alemanha e a Áustria tornaram-se repúblicas democráticas com sufrágio universal (masculino e feminino) e com governos parlamentares. Igualmente, todos os recém-criados estados — sendo a Iugoslávia a única exceção — adotaram constituições republicano-democráticas.  

Na Turquia e na Grécia, as monarquias foram destituídas. E até mesmo naquelas nações onde as monarquias ainda existiam ao menos nominalmente, como na Grã-Bretanha, na Itália, na Espanha, na Bélgica, na Holanda e nos países escandinavos, os monarcas não mais exerciam qualquer poder governamental. O sufrágio adulto universal foi introduzido, e todo o poder estatal foi investido em parlamentos e funcionários "públicos".

Essa mudança histórica mundial — do ancien régime de reis e príncipes à nova era republicano-democrática de governantes popularmente eleitos ou escolhidos — também pode ser caracterizada como a mudança que representou a abolição da Áustria e "do jeito austríaco" e a afirmação dos Estados Unidos e do "jeito americano".  E assim é por várias razões.  

Em primeiro lugar, a Áustria iniciou a guerra, e os EUA puseram-lhe um fim. A Áustria perdeu, e os EUA venceram. A Áustria era governada por um monarca — o imperador Francisco José —, e os EUA, por um presidente democraticamente eleito — o professor Woodrow Wilson. No entanto, ainda mais importante é a constatação de que a Primeira Guerra Mundial não foi uma guerra tradicional, em que se combatia por objetivos territorialmente limitados, mas sim uma guerra ideológica; e a Áustria e os EUA, respectivamente, eram os dois países que mais claramente personificavam as ideias em conflito — e era assim que as demais partes beligerantes os viam. [1]

A Primeira Guerra Mundial começou como uma tradicional disputa territorial. No entanto, com o prematuro envolvimento e a derradeira entrada oficial dos Estados Unidos em abril de 1917, a guerra tomou uma nova dimensão ideológica. Os EUA foram fundados como uma república, e o princípio democrático, inerente à ideia de uma república, apenas recentemente tornara-se vitorioso — tal vitória decorreu da violenta derrota e da violenta devastação da Confederação secessionista pelo governo da União centralista.  

Na época da Primeira Guerra Mundial, essa triunfante ideologia de um republicanismo democrático expansionista encontrou a sua perfeita personificação no então presidente dos EUA, Woodrow Wilson.

Sob a administração de Wilson, a guerra europeia tornou-se uma missão ideológica: fazer com que o mundo se transformasse em um lugar seguro para a democracia e livre de governantes dinásticos. Quando, em março de 1917, o czar Nicolau II, um aliado americano, foi forçado a abdicar, sendo estabelecido um novo governo republicano-democrático na Rússia sob Kerensky, Wilson exultou. Com o czar abatido, a guerra finalmente havia se transformado em um conflito puramente ideológico: o bem contra o mal.

Wilson e os seus mais próximos conselheiros de política externa, o coronel House e George D. Herron, não simpatizavam com a Alemanha do kaiser, com a aristocracia e com a elite militar. Mas eles odiavam a Áustria. Erik von Kuehnelt-Leddihn assim caracterizou as visões de Wilson e da esquerda americana:

A Áustria era mais demonizada do que a Alemanha. Ela estava em total contradição com o princípio mazziniano de estado nacional, tendo herdado muitas tradições e muitos símbolos do Sacro Império Romano (a águia de duas cabeças, as cores preta e dourada, entre outros).  

A sua dinastia uma vez governara a Espanha (outra bête noire [2]). Ela liderou a Contra-Reforma, encabeçou a Santa Aliança, combateu o Risorgimento, suprimiu a rebelião húngara de Kossuth (em cuja homenagem havia um monumento na cidade de Nova York) e apoiou moral e filosoficamente o experimento monarquista no México. 

Habsburgo — este era exatamente o nome que evocava memórias do Catolicismo Romano, da Armada, da Inquisição, de Metternich, de Lafayette encarcerado em Olmütz e de Silvio Pellico confinado na fortaleza de Spielberg, em Brünn. Tal estado tinha de ser destruído; tal dinastia tinha de desaparecer.[3]

Sendo um conflito cada vez mais ideologicamente motivado, a guerra rapidamente se degenerou em uma guerra total. Em todas as nações da Europa, a economia nacional inteira foi militarizada (socialismo de guerra)[4], e a consagrada e honrada distinção entre combatentes e não-combatentes, e entre vida civil e vida militar,  foi abandonada. Por essa razão, a Primeira Guerra Mundial resultou em muito mais baixas de civis — vítimas de inanição e de doença — do que de soldados mortos em campos de batalha.

Ademais, devido ao caráter ideológico da guerra, ao seu término somente eram possíveis a total rendição, a humilhação e a punição do derrotado, e não acordos de paz. Como consequência, a Alemanha teve de desistir da sua monarquia, e a Alsácia-Lorena foi devolvida à França tal como antes da Guerra Franco-Prussiana de 1870-71. A nova república alemã foi onerada com pesadas reparações de longo prazo. A Alemanha foi desmilitarizada, o Sarre alemão foi ocupado pelos franceses, e, no leste, grandes territórios tiveram de ser cedidos à Polônia (Prússia Ocidental e Silésia).

A Alemanha, entretanto, não foi desmembrada e nem destruída. Wilson reservara esse destino para a Áustria. Com a deposição dos Habsburgos, todo o Império Austro-Húngaro foi despedaçado. Para coroar a política externa de Wilson, dois novos e artificiais estados, Tchecoslováquia e Iugoslávia, foram extraídos do antigo Império. A Áustria, por séculos uma das grandes potências europeias, foi maciçamente reduzida em tamanho, limitando-se agora ao seu pequeno território central de língua alemã; e, como outro dos legados de Wilson, a agora pequena Áustria foi obrigada a entregar sua província inteiramente alemã do Tirol do Sul (Alto Ádige ou Bolzano) — estendendo-se até o Passo do Brennero — à Itália.

Desde 1918, a Áustria desapareceu do mapa do poder político internacional. Em seu lugar, os Estados Unidos emergiram como a potência líder do mundo. A era americana — a pax Americana — começara. O princípio do republicanismo democrático havia triunfado. E ele triunfaria de novo ao final da Segunda Guerra Mundial. E uma vez mais — ou ao menos assim pareceu — com o colapso do Império Soviético nos últimos anos da década de 1980 e no início da década de 1990. Para alguns observadores contemporâneos, o "Fim da História" havia chegado.  A ideia americana de democracia universal e global finalmente estava totalmente implementada.[5]

Assim, a Áustria dos Habsburgos e a prototípica experiência pré-democrática austríaca se tornaram uma mera curiosidade histórica. Para ser exato, não é que a Áustria deixou de ter suas façanhas reconhecidas. Até mesmo os intelectuais e artistas pró-democracia, de qualquer campo das atividades intelectuais e artísticas, não podiam ignorar o enorme nível de produtividade da cultura austro-húngara e, em particular, da cultura vienense. Com efeito, a lista de grandes nomes associados à Viena do fim do século XIX e do início do século XX parece infinita. 

A lista inclui Ludwig Boltzmann, Franz Brentano, Rudolph Camap, Edmund Husserl, Ernst Mach, Alexius Meinong, Karl Popper, Moritz Schlick e Ludwig Wittgenstein entre os filósofos; Kurt Godel, Hans Hahn, Karl Menger e Richard von Mises entre os matemáticos; Eugen von Böhm-Bawerk, Gottfried von Haberler, Friedrich A. von Hayek, Carl Menger, Fritz Machlup, Ludwig von Mises, Oskar Morgenstern, Joseph Schumpeter e Friedrich von Wieser entre os economistas; Rudolph von Jhering, Hans Kelsen, Anton Menger e Lorenz von Stein entre os advogados e os juristas; Alfred Adler, Joseph Breuer, Karl Bühler e Sigmund Freud entre os psicologistas; Max Adler, Otto Bauer, Egon Friedell, Heinrich Friedjung, Paul Lazarsfeld, Gustav Ratzenhofer e Alfred Schutz entre os historiadores e os sociólogos; Hermann Broch, Franz Grillparzer, Hugo von Hofmannsthal, Karl Kraus, Fritz Mauthner, Robert Musil, Arthur Schnitzler, Georg Trakl, Otto Weininger e Stefan Zweig entre os escritores e os críticos literários; Gustav Klimt, Oskar Kokoschka, Adolf Loos e Egon Schiele entre os artistas e os arquitetos; e Alban Berg, Johannes Brahms, Anton Bruckner, Franz Lehar, Gustav Mahler, Arnold Schonberg, Johann Strauss, Anton von Webern e Hugo Wolf entre os compositores.

No entanto, e curiosamente, essa elevada produtividade intelectual e cultural raramente foi correlacionada pelos estudiosos como decorrente da tradição pré-democrática da monarquia dos Habsburgos. A incrível efervescência cultural e intelectual da Viena do final do século XIX e início do século XX raramente é correlacionada com o ambiente criado pela monarquia dos Habsburgos. Em vez disso, nos raros casos em que não é considerada uma mera coincidência, a produtividade da cultura austro-vienense é apresentada, de forma "politicamente correta", como sendo prova dos positivos efeitos sinergéticos do multiculturalismo e de uma sociedade multiétnica.[6]

Por outro lado, já desde o final do século XX, acumulam-se crescentes evidências de que, em vez de assinalar o fim da história, o sistema político-democrático imposto ao mundo pelos EUA está mergulhado em uma crise profunda. Desde o fim da década de 1960 e começo da década de 1970, a renda salarial real nos Estados Unidos e na Europa Ocidental estagnou-se e, em alguns casos, até mesmo caiu. No Oeste Europeu em particular, as taxas de desemprego só fizeram aumentar. Os gastos governamentais e a dívida pública dispararam em todos os países, alcançando patamares astronômicos, em muitos casos excedendo o próprio Produto Interno Bruto (PIB) de um país. Similarmente, os sistemas de Previdência Social (ou seguridade social) em todos os lugares estão à beira da falência.  

Ademais, o colapso do Império Soviético não representou exatamente um triunfo da democracia; apenas comprovou a impossibilidade prática do socialismo. Mais ainda: tal colapso trouxe embutido em si um alerta contra o sistema ocidental de socialismo democrático (em vez de socialismo ditatorial). 

Atualmente, em todo o hemisfério ocidental, divisões e movimentos em prol de separatismos e secessões nacionais, étnicas e culturais estão crescendo. As criações democráticas e multiculturais de Wilson — a Iugoslávia e a Tchecoslováquia — já se fragmentaram. Em todo o Ocidente, em menos de um século de democracia perfeitamente completa, os resultados são estes: degeneração moral, desintegração social e familiar e decadência cultural na forma de taxas crescentes de divórcio, de filhos bastardos, de aborto e de criminalidade. Em consequência de uma quantidade — ainda em expansão — de leis e políticas antidiscriminatórias, multiculturais e igualitaristas, todos os poros da sociedade ocidental foram afetados pela interferência governamental e pela integração forçada. Consequentemente, as tensões e hostilidades raciais, étnicas e culturais — bem como as inquietações sociais — têm crescido dramaticamente.

À luz dessas decepcionantes experiências, ressurgiram dúvidas fundamentais sobre as virtudes do sistema democrático preconizado pelos americanos.  

E se os EUA não houvessem entrado?

Mas fica a pergunta: o que teria acontecido se, de acordo com suas próprias promessas feitas durante sua campanha de reeleição, Woodrow Wilson tivesse mantido os Estados Unidos fora da Primeira Guerra Mundial? Em virtude da sua natureza contrafatual, a resposta a uma questão como esta jamais pode ser empiricamente confirmada ou rejeitada. Todavia, isso não torna a questão sem sentido ou a resposta arbitrária. Pelo contrário: baseando-se na compreensão dos verdadeiros eventos e personagens históricos envolvidos, a questão acerca do mais provável curso alternativo da história pode ser respondida em detalhes e com considerável segurança.[7]

Se os Estados Unidos tivessem seguido uma estrita política externa de não-intervencionismo, o conflito dentro da Europa provavelmente teria acabado ao final de 1917 ou no início de 1918, como resultado de várias iniciativas de paz, mais notadamente empreendidas pelo imperador austríaco Carlos I. Ademais, a guerra teria sido concluída por meio de acordos de paz mutuamente aceitáveis e que mantivessem a dignidade das partes, e não com o decreto que de fato foi imposto. Consequentemente, a Áustria-Hungria, a Alemanha e a Rússia teriam permanecido com as tradicionais monarquias em vez de serem transformadas em repúblicas democráticas de curta duração.

Com um czar russo, um kaiser alemão e um kaiser austríaco, teria sido quase impossível para os bolcheviques conquistar o poder na Rússia. Da mesma forma, também teria sido quase impossível para os fascistas e os nacional-socialistas (nazistas) — em reação à crescente ameaça comunista na Europa Ocidental — fazerem a mesma coisa na Itália e na Alemanha.[8]

Os milhões de vítimas do comunismo, do nacional-socialismo (nazismo) e da Segunda Guerra Mundial teriam sido salvos. A extensão da interferência e do controle governamentais sobre a economia privada no mundo ocidental jamais teria alcançado o tamanho que hoje se vê. E, em vez de a região que abrange a Europa Central e a Europa Oriental (e, em consequência, metade do globo) cair em mãos comunistas e por mais de quarenta anos ser pilhada, devastada e coercivamente excluída dos mercados ocidentais, a Europa inteira (e todo o globo) teria permanecido economicamente integrada (tal como ocorrera no século XIX) por meio de um sistema de divisão do trabalho e de cooperação social de âmbito global.  

O padrão de vida no mundo como um todo seria hoje muito maior do que o atual.

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Diante do pano de fundo desse exercício imaginativo e do verdadeiro curso dos eventos, o sistema imposto ao mundo pelos EUA e a pax Americana parecem ser — ao contrário da história "oficial", a qual é sempre escrita pelos vencedores; mais especificamente, a partir da perspectiva dos proponentes da democracia — um desastre colossal.  

Por conseguinte, a Áustria dos Habsburgos e a era pré-democrática se tornam ainda mais atraentes. Ninguém menos do que George F. Kennan, embaixador americano na URSS e a própria encarnação do establishment, escrevendo em 1951, chegou muito perto de admitir isso:

Contudo, hoje, se fosse oferecida a oportunidade de ter de volta a Alemanha de 1913 — uma Alemanha governada por pessoas conservadoras, mas relativamente moderadas, sem nazistas e sem comunistas, uma Alemanha vigorosa, unida e não-ocupada, cheia de energia e confiança, capaz de fazer parte de uma frente que contrabalançaria o poder russo na Europa —- bem, haveria objeções a isso de muitos lugares, e isso não faria todo mundo feliz; porém, de várias maneiras, e em comparação com os nossos problemas de hoje, isso não seria tão ruim.  

Agora, pense no que isso significa.  Quando verificamos o saldo total das duas guerras, nos termos dos seus objetivos declarados, há uma enorme a dificuldade em perceber e discernir algum ganho. (George F. Kennan, American Diplomacy, 1900-1950 [Chicago: University of Chicago Press, 1951], pp. 55–56)

Certamente, então, seria de grande valia realizar uma pesquisa sistemática sobre a transformação histórica da monarquia para a democracia.  E é exatamente isso o que pretendi fazer em meu livro Democracia, o deus que falhou

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O texto acima é a introdução do livro Democracia, o deus que falhou, o qual pode ser adquirido aqui.


[1] Para ver um brilhante resumo das causas e das consequências da Primeira Guerra Mundial, ver Ralph Raico, "World War I: The Turning Point", em The Costs of War: America's Pyrrhic Victories, editado por John V. Denson (New Brunswick, N. J.: Transaction Publishers, 1999).

[2] Expressão utilizada em língua inglesa, emprestada do francês, cuja tradução literal seria "besta negra". Significa um anátema; algo que é particularmente detestado ou evitado; objeto de aversão, fonte de aborrecimento persistente ou irritação. (Nota do Tradutor — N. do T.)

[3] Erik von Kuehnelt-Leddihn, Leftism Revisited: From de Sade to Pol Pot (Washington, D. C.: Regnery, 1990), p. 210; sobre Wilson e o wilsonianismo, ver os seguintes escritos: Murray N. Rothbard, "World War I as Fulfillment: Power and the Intellectuals", em Journal of Libertarian Studies, 9, n. 1 (1989); Paul Gottfried, "Wilsonianism: The Legacy that Won't Die", em Journal of Libertarian Studies, 9, n. 2 (1990); idem, "On Liberal and Democratic Nationhood", em Journal of Libertarian Studies, 10, n. 1 (1991); e Robert A. Nisbet, The Present Age (New York: Harper and Row, 1988).

[4] Ver Murray N. Rothbard, "War Collectivism in World War I", em A New History of Leviathan, editado por Ronald Radosh e Murray N. Rothbard (New York: E. P. Dutton, 1972); e Robert Higgs, Crisis and Leviathan: Critical Episodes in the Growth of American Government (New York: Oxford University Press, 1987).

[5] Ver Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man (New York: Avon Books, 1992).

[6] Ver Allan Janik e Stephen Toulmin, Wittgenstein's Vienna (New York: Simon and Schuster, 1973); William M. Johnston, The Austrian Mind: An Intellectual and Social History, 18481938 (Berkeley: University of California Press, 1972); e Carl E. Schorske, Fin-de-Siècle Vienna: Politics and Culture (New York: Random House, 1981).

[7] Para conhecer uma coleção contemporânea de exemplos de "história contrafatual", consultar Virtual History: Alternatives and Counterfactuals, editado por Niall Ferguson (New York: Basic Books, 1999).

[8] Sobre a relação entre o comunismo e a ascensão do fascismo e do nacional-socialismo (nazismo), ver Ralph Raico, "Mises on Fascism, Democracy and Other Questions", em Journal of Libertarian Studies, 12, n. 1 (1996); e Ernst Nolte, Der europäische Bürgerkrieg, 1917—1945. Nationalsozialismus und Bolschewismus (Berlim: Propyläen, 1987).


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autor

Hans-Hermann Hoppe
é um membro sênior do Ludwig von Mises Institute, fundador e presidente da Property and Freedom Society e co-editor do periódico Review of Austrian Economics. Ele recebeu seu Ph.D e fez seu pós-doutorado na Goethe University em Frankfurt, Alemanha. Ele é o autor, entre outros trabalhos, de Uma Teoria sobre Socialismo e Capitalismo e The Economics and Ethics of Private Property.



  • Pobre Paulista  01/07/2014 14:15
    Mais uma paulada na cabeça dos democracetes.

    Mas parece que eles gostam, vai entender...
  • Mohamed Attcka Todomundo  02/07/2014 21:15
    so se tivessem cabeça p/ bater, ou mesmo colhões q chutar. por isso a resistencia; ñ faz dodoi
  • daniel  01/07/2014 14:19
    Excelente introdução para um excelente livro.
  • Mohamed Attcka Todomundo  02/07/2014 21:17
    Churchill, Hitler e a guerra desnecessária. faz eco c/ esse. recomendo o livro
  • Leonardo Faccioni  01/07/2014 14:49
    O idealismo de Woodrow Wilson foi a perdição do ocidente, talvez em definitivo.

    Não obstante, embora seja tentador atribuir à desmesurada intervenção do progressismo americano as máximas dimensões do desastre que se seguiu, nosso exercício imaginativo não poderia desconsiderar a profunda "malaise" intelectual que, por conta própria, já deitava sombras sobre as potências centrais (a teor, por exemplo, do que observa Modris Eksteins em seu fascinante "Rites of Spring"). O espírito do tempo era definitivamente desfavorável à liberdade e aos valores perenes que a forjaram na alma europeia. Com ou sem o combustível wilsoniano, 1789 e 1848 quiçá seguissem a minar as instituições consuetudinárias das nações envolvidas, conduzindo de uma forma ou outra o continente aos descaminhos socialistas, sequer necessariamente pela via democrática. Sem a pretensão de soar fantasmagórico, diante de reações concatenadas como as que originaram o século XX, é como se tudo já estivesse escrito desde o Eterno. "Maktub".

    Em tempo, se me permitem uma observação com vistas à - no mais - excelente e ditosa tradução, na citação de Erik von Kuehnelt-Leddihn, creio que a fórmula convencional seria "Santa Aliança", e não, como consta, "Aliança Sagrada".
  • JonatasMand  01/07/2014 16:36
    O comentário do Leonardo Faccioni merece ser bem meditado.
  • Mohamed Attcka Todomundo  02/07/2014 21:28
    "O espírito do tempo era definitivamente desfavorável à liberdade e aos valores perenes que a forjaram na alma europeia." - e em parte, minha opiniao, deve-se atribuir, este espirito desfavoravel a liberdade, às proprias monarquias e às religioes, pq elas perderam, por seus demeritos, autoridade e qualificaçao conceitual para lidar com as demandas q lhes eram colocadas pelas transformaçoes da epoca. emfrakeceram as liberdades individuais e a autoresponsabilidade das pessoas por comprarem valores intervencionistas e socialistas alheios às suas raizes filosoficas

    "Com ou sem o combustível wilsoniano, 1789 e 1848 quiçá seguissem a minar as instituições consuetudinárias das nações envolvidas, conduzindo de uma forma ou outra o continente aos descaminhos socialistas..."- o olavo de carvalho fala sobre isso em seus trabalhos sobre a 'mentalidade revolucionaria'; confiram
  • Paulo  01/07/2014 15:21
    EUA é terra do "coisa-ruim".

    Europa é o centro do mundo ocidental. Estou certo de que ressurgirá das cinzas.
  • anônimo  07/04/2017 16:34
    Será o Europistão é ressurgirá das cinzas. Mas não será coisa boa.
  • Edimar Pacheco Estevam  01/07/2014 15:31
    Esse livro tem versão Kindle ou outro formato de ebook?
  • Lopes  01/07/2014 15:55
    Uma guerra encerrando ao início de '17 pouparia milhões dos períodos mais atrozes do conflito, tanto no front como em seus sustentáculos. A Aliança estava em excelente situação quando Carlos I da Áustria buscou a paz:

    www.historyofwar.org/Maps/ww1_h_end1916.gif

    Devido à estagnação no front francês, a surpresa da brutalidade obtida pelo conflito na área russa, é válido especular que a Áustria de Carlos I, com gente beligerante como Czernin, responsável pela diplomacia e que apenas aprovaria um acordo de paz para a aliança inteira; tentara de fato uma paz confidencialmente separada da Alemanha no início de 1917 (ou seja, apenas a Áustria sairia do conflito); o que da mesma forma encurtaria a guerra, mas poderia comprometer os alemães.

    Enfim, é inegável que a entrada (e expectativa dela) dos EUA alterou o curso do conflito para mais violência.
  • Silvio  01/07/2014 16:21
    Como foram faladas umas boas verdades sobre a 1ª Guerra Mundial, interessante ler em complementação umas boas verdades sobre a 2ª: www.mises.org.br/Article.aspx?id=1215
  • Carlos gIL  01/07/2014 16:32
    Conhecer um pouco da história do coronel House, que era assessor de Woodrow Wilson, irá ajudar no entendimento do texto de Hans-Hermann Hoppe.

    > www.espada.eti.br/futuro-3.asp
  • marcelo prieto  01/07/2014 16:39


    Apenas gostaria de acrescentar, se estiver correto, entre os pensadores austriacos o nome de PETER DRUCKER. Assim a administracao de empresas, fica representada.

    grato, marcelo
  • Carlos Prado  01/07/2014 16:40
    Putz, sempre que alguém tentou impor, militarmente, sua ideologia de "mundo melhor" o mundo passou a ser infinitamente pior e caminhando cada vez mais para a fossa, com cada vez mais gente tentando impor sua ideologia de "mundo melhor"; quanto mais fazem, mas necessários fazem parecer consertar o mundo.
  • Andre  01/07/2014 16:43
    Artigo muito interessante.
    Não sabia que a Áustria era tão relevante.
    Coisas que os professores de história não ensinam.
  • Ronni Paul  07/07/2015 01:19
    E o Império Austro-Húngaro nos deu a Imperatriz Leopoldina, primeira esposa do nosso Dom Pedro I; foi regente quando seu marido viajava, tendo inclusive assinado o decreto da independência em 1822. Em minha opinião (que vai ao encontro do assunto do artigo), se tivéssemos mantido nossa monarquia parlamentar hoje seríamos "primeiro-mundo"...
  • Juliano  01/07/2014 16:44
    O texto é interessante por vários motivos.

    Em primeiro lugar, acaba colocando um contra ponto à visão comum em liberais de que as guerras não trouxeram prosperidade aos EUA (o Tom Woods sempre rebate isso), mas por razões diversas. O main-stream costuma creditar às guerras a recuperação econômica com as mesmas desculpas Keynesianas de sempre, fato que é normalmente rebatido por liberais, mas também existe esse cenário político descrito no artigo que favoreceu muito os EUA. Depois das guerras a Europa estava em ruínas e os EUA puderam assumir as rédeas da política global. Isso sem dúvida os colocou em uma posição privilegiada e gerou dividendos aos seus cidadãos.

    Além disso, achei o otimismo um pouco exagerado em relação aos destinos da Europa sem a intervenção americana e em relação aos regimes monárquicos. Como foi mencionado pelo Leonardo, o clima já era desfavorável à liberdade. Claro que uma guerra, ainda mais nessa proporção, tende a gerar ambientes mais radicais, mas, ainda assim, é complicado exagerar no otimismo ao considerar as alternativas. Quem sabe quais outros conflitos não teriam surgido? Por mais incômodo que seja, nossa história foi sempre recheada de violência e selvageria.
  • Daniel  01/07/2014 17:07
    Os liberais do séc. XIX tinham uma visão meio romântica da democracia. Eles julgavam que diluir o poder entre todos os indivíduos diminuiriam os possíveis danos causados por aqueles com más intenções, que eram máximos quando um desses coincidia de estar na posição de monarca (nas palavras do próprio Lord Acton: O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus). E não precisa ir até Wilson pra entender isso, já que o PT nos lembra disso diariamente. Além disso, vale lembrar que foi Woodrow Wilson que ratificou a implementação do imposto de renda e deu vida ao Fed, ambos eu seu primeiro ano de governo.

    Apesar de concordar com as críticas do Hoppe em relação a democracia, ele vem insistindo em que há algo bom em monarquias. Enquanto não se fala em uma completa quebra do círculo vicioso do poder, não pode haver preferência quanto a melhor forma de ser espoliado e escravizado.
  • higopr  01/07/2014 17:19
    Então para Hoppe
    O melhor tipo de monarquia seria a absoluta? ou a parlamentar ?
  • Igor  01/07/2014 17:32
    De novo essa pergunta? Ele já falou sobre isso 517 vezes. Vai aqui o resumo de sua posição:

    Embora prefira a monarquia à democracia, Hoppe não é um entusiasta deste arranjo. Muito pelo contrário: ele se opõe completamente à existência de um estado. "Com efeito, uma entidade que detém o monopólio da decisão judicial suprema e equipada com o poder de tributar não apenas produzirá menos justiça e em menor qualidade, como na realidade produzirá mais injustiça e mais agressão. Portanto, a escolha entre monarquia e democracia diz respeito a uma opção entre duas ordens sociais defeituosas."

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1860
  • higopr  01/07/2014 21:28
    Eu não sabia que ele tinha respondido à essa pergunta.
  • higopr  01/07/2014 17:09
    Essas monarquias absolutistas na Europa poderiam ter se tornando Monarquias parlamentaristas..
  • Leonardo Faccioni  01/07/2014 18:45
    Tudo o mais constante, é o que provavelmente se passaria. Não só as da Europa, aliás: a monarquia brasileira, abortada por um golpe de lunáticos positivistas, vinha se desenvolvendo mediante organicidade invejável sob o império de Pedro II, e os ventos indicavam que a sucessora, dona Isabel, proporcionaria ambiente institucional tão ou mais favorável. Idem aos filhos desta, que seguiram sendo educados para reinar e pensar a sociedade em termos de séculos, não de quadriênios, e como magistrados, não como partes (nem partidos).

    É evidente que aquele não era um mundo ideal, mas, dentre as alternativas que se vislumbravam, seguramente era por muito a preferível. A dinastia dos Bragança - incorporando, aliás, ascendência hasbúrgica -i.e.austríaca- direta através de D. Leopoldina, mãe do segundo imperador) levava muito a sério a concepção de responsabilidade hereditária pela população e território, tal como Hoppe elogia acometer as monarquias.

    A proclamação da república por quartelada equivaleu, para a política daqui, às imposições de Wilson para a Europa: uma autoridade ultracentralizadora a fazer tábula rasa sobre toda a construção relativamente autônoma da sociedade, decantada ao longo das eras em forma de arcabouço juspolítico, e impondo a todo o país um traje excêntrico feito para um sujeito de corpo desproporcional. Não é de se estranhar que a república já saísse do forno encarcerando meio mundo por delito de opinião, censurando a imprensa, invadindo províncias para espancar civis, multiplicando subsídios aos ocupantes de cargos públicos e despejando papel-moeda na praça - mais ou menos como faz até hoje cada felizardo que a assume, sabendo que a mamata dura pouco.

    Os mesmos processos se sucederam, mutatis mutandis, após as mudanças forçadas de regime na Europa, antes e depois da guerra. Eles tiveram por resposta nazismo, fascismo e comunismo. Nós, o Estado Novo de Vargas. Nem nós, nem eles logramos nos livrar da herança maldita de ambos -- nem os americanos da de Wilson. Tudo pela reinvenção dos homens e das nações a partir de aspirações sedizentes racionais.

    ***

    Pressupondo uma visão hoppeana, talvez a ascenção do poder parlamentar soe como demérito. Suspendo sobre isso meu julgamento. Sem a guerra na Europa, mantida a monarquia no Brasil, imagino que o parlamento seguiria a conviver entre nós com um poder moderador ponderadamente exercido pela pessoa da Imperatriz, o que manteria bastante sólido o caráter monárquico da constituição. Viesse a guerra do mesmo modo, dificilmente a monarquia brasileira passaria incólume pela devastação do modelo europeu, que geraria comoção interna insustentável. De uma forma ou de outra, há bns motivos para crer que todas as transições pelas quais passamos, mesmo se inevitáveis, teriam sido menos traumáticas e mais serenas sob aquele arranjo.
  • higopr  01/07/2014 21:31
    Pois é
    Esse golpe de 1889 foi fatal para o Brasil...
  • Ronni Paul  07/07/2015 10:03
    Perfeito Leonardo, perfeito! Seríamos hoje, com Dom Luis, certamente um país desenvolvido...
  • Michel  07/07/2015 14:36
    Concordo com sua visão Leonardo Faccioni. As monarquias e os monarcas uma vez que não contam com a prerrogativa de serem os "escolhidos do povo" tendem a se adaptar e se moldarem às necessidades e às exigências das nações onde existem. Diferente das repúblicas que em seus pedestais de serem supostamente a "vontade do povo" negam e reprimem quaisquer mudanças ou adaptações (principalmente se visarem a diminuição do poder e das regalias de seus "donos"), sendo que quando isso chega a acontecer ocorre de maneira traumática e turbulenta

    Ao longo da história a evolução da monarquia pode ser observada e associada à própria evolução da sociedade. Desde as monarquias sacerdotais e guerreiras da idade antiga, passando pela monarquia medieval onde o rei tinha seu poder dividido entre seus vassalos, os senhores feudais, chegando ao período absolutista em que a formação e o fortalecimento de Estados Nacionais exigia um poder central também fortalecido, e por fim desembocando na era atual, em que uma maior conscientização e educação da sociedade e de seus cidadãos permite a existência do amalgama das três formas de governo apontadas por Aristóteles como as ideais, a saber, a Monarquia, o governo das leis ou governo constitucional (haja vista a administração ativa dos negócios públicos ser exercida por uma comissão de legisladores na monarquia parlamentar) e a aristocracia (o governo dos melhores, dos preparados, pois que na monarquia parlamentar tanto os Chefes de Estado são preparados desde seu nascimento para assumirem suas funções, quanto o próprio processo de escolha e permanência do governo (primeiro ministro) exige que o chefe de governo e seu gabinete sejam também preparados para assumirem ou continuarem no poder.

    Poderia em sua imaginação algum dia o pensador grego imaginar que essas três formas de governo se tornariam uma, e a mais eficaz e justa atualmente, condensando-se no regime monárquico parlamentar constitucional?

    Estudando o livro Democracia Coroada - Teoria Política do Império observei que mesmo para a época nossa monarquia já apresentava sinais de ser uma das mais avançadas do mundo, tanto em termos de aperfeiçoamento do sistema quanto questão de sensibilidade às questões sociais.

    E devido à tendência do regime monárquico se adaptar à sociedade, creio que se não tivesse sido, violentamente, abolido o czarismo teria também seguido o caminho das monarquias ocidentais, democratizando-se, desenvolvendo o país e evitando a ditadura comunista que se instalou ali e ceifou a vida de milhões, além de causar décadas de instabilidade em todo o mundo. Assim como também as figuras do kaiser teria e do Imperador Austro-Húngaro, possivelmente, evitado a ascensão nazista.

    Enfim, a fantasia revolucionária, que permeou o campo das ideias do século XVIII e que conta com representantes até hoje, e que via na república a forma da suprema perfeição estatal, quando muito abortou uma evolução política e social pacífica que, felizmente, foi mantida por alguns países e que hoje servem de vitrine para o mundo.
    Esses revolucionários simplesmente beneficiaram-se de uma agitação infantil que impuseram à sociedade, destruindo alicerces sólidos onde se ergueriam em breve pilares de democracia política e social.
  • Rudson  01/07/2014 23:06
    Mas o Czar Russo caiu em 1917, antes de os EUA efetivamente ingressarem na guera, com a revolução em fevereiro. E vale lembrar que os bolcheviques só não se estabeleceram como líderes incontestes na Rússia, por causa da guerra civil, cujo lado "branco" recebeu apoio de várias potências europeias e dos EUA.

    A carnificina europeia já estava em curso 3 anos antes dos EUA entrarem e não havia muito sinal de arrefecer sem a vitória completa de um dos lados (que, depois do tratado de Brest-Litovsk, parecia pender pro lado Alemão). Só lembrar que as batalhas do Somme e de Verdun já tinham acontecido, sem qualquer participação direta dos EUA. Então é duro de acreditar que foi simplesmente o "Wilsonimo" o responsável por tudo.

    Por outro lado, o autor ignora a reviravolta da política externa alemã ocasionada com o início do reinado de Guilherme II e a saída de Bismarck da chancelaria. Durante o período de Bismarck como chanceler, a Alemanha se manteve com a tradicional "Realpolitik", que, entre outros aspectos, tinha como características a busca de objetivos delimitados e palpáveis, com a consequente escolha dos meios - a princípio - corretos para se atingir tais objetivos. Guilherme II mudou isso. Ele instaurou a "Weltpolitik" - a ideia de que a Alemanha merecia um "Lugar ao Sol" junto as demais potências europeias. Nessa política, não havia espaço para se buscar objetivos definidos (a própria noção de Lugar ao Sol é completamente indefinida).

    Esse aspecto é extremamente importante. Se a guerra fosse conduzida por homens como Bismarck, Metternich (Austríaco), Tayllerand, sem dúvidas já no segundo dia da Batalha do Somme, a guerra terminaria com concessões mútuas - isso se a guerra começasse. Mas, tendo em vista a visão diplomática de Guilherme II, qualquer concessão significaria derrota.

    Outra questão interessante é a Áustria. Ela já estava decadente desde a morte de Metternich (na verdade, desde Austerlitz, a Áustria não era a mesma) e o século XIX e início do XX foi um período de enfraquecimento do império. Graças ao surgimento do nacionalismo, as nacionalidades locais do império (húngaros, sérvios, croatas, eslovacos, tchecos, poloneses, etc) já estavam contestando o poder imperial de dentro e parecia claro que era uma questão de tempo que ele caísse (como era o caso da Turquia). A própria existência da Diarquia era um sinal disso, posto que a diarquia foi uma concessão da casa de Hasburgo aos Húngaros frente à revolução de 1848 e necessária depois da derrota catastrófica da Áustria contra a Prússia em 1866. Então não me parece correto dizer que a Áustria era um império no seu auge que foi simplesmente destruído por Wilson.

    O fato é que a visão política de Wilson sobre como o mundo deveria ser organizado e o transplante dessa visão para o tratado de Versalhes influenciou os eventos nos anos seguintes. Mas me parece equivocado atribuir a ele - e apenas a ele - a carnificina da primeira guerra mundial, a queda dos impérios austríacos e russos (o alemão até vá lá, já que sem os EUA é provável que a Alemanha vencesse a guerra), a tomada de poder pelos comunistas na URSS e a Segunda Guerra Mundial.
  • Felipe  29/12/2014 15:45
    Incrível! Você apenas repete papagaiada britânica sobre a primeira guerra mundial. Curiosamente, a versão histórica britânica omite certos fatos vitais para quem quer entender melhor a rivalidade germano-britânica, iniciada, primeiramente, pelos britânicos, que foram pela primeira vez em quatro séculos, "relegados" ao posto de segunda potência econômica européia, tendo sido ultrapassados pelo "terrível huno" na virada do século.

    Durante a segunda guerra dos bôeres, o governo alemão ofereceu ajuda humanitária para os civis rebeldes, que estavam sendo massacrados e confinados em condições degradantes, em campos de concentração, pelo governo britânico. O governo britânico, com sua típica virulência militarista, estranhamente esquecido pelos seus apologistas neocons, ameaçou bombardear os portos alemães no Mar do Norte caso qualquer ajuda fosse estendida aos rebeldes. Foi a partir desse evento que os alemães decidiram que precisavam de uma marinha maior para se proteger de uma ameaça britânica.

    Em 1907, o governo britânico, ofereceu, secretamente, ao governo francês, uma garantia( a famosa Cordiale) que em caso de uma guerra franco-germana, os britânicos iriam intervir em favor da França. Os alemães ficaram a par da situação e finalmente perceberam que o Reino Unido tornara-se uma nação germanófoba e que qualquer expectativa de neutralidade britânica em caso de um conflito europeu era impossível.

    O ponto de inflexão das relações germano-britânica foi a ascensão alemã ao posto de nação dominante da Europa, e a postura germanófoba adotada pelo governo britânico desde então.

    Em 1917, o político católico alemão Matthias Erzberger, membro do Zentrum, se encontrou com o então arcebispo Eugenio Pacelli, para ouvir as propostas de paz que o arcebispo havia planejado. As seguintes nações enviaram uma nota oficial aceitando a mediação do arcebispo: Alemanha, Austria-Hungria, Bulgária e Império Otomano. O império britânico enviou uma nota evasiva, mas não negou a proposta. França, Itália e Estados Unidos ignoraram a nota, Wilson, presidente americano, um presbiteriano, segundo relatos, teria bradado palavras nada educadas aos esforços ao futuro pontífice. Aliás, essa tensão entre os arcebispo e o presidente tem uma origem. Em 1915, o então papa Benedito XV, tomando conhecimento do fato que os EUA, supostamente neutro, enviavam material bélico para a França e Reino Unido em navios de passageiros, sugeriu aos americanos que efetivassem um embargo de materiais de guerra para todos os participantes do conflito, o que foi, obvimente, ignorado pelos americanos. Quando os EUA finalmente declararam guerra as potências centrais, Eugenio Pacelli, talvez na mais acurada descrição de todos os tempos, finalmente acusou os americanos de embarcarem em uma "cruzada alimentada pelo messianismo democrático".

  • Eduardo  07/04/2017 20:53
    Incrível Felipe, como vc repete papagaiada de fontes de pouca credibilidade e que menciona as palavras de Wilson como "segundo relatos". Vc quer dar a entender q a culpa da guerra é dos britânicos e americanos. O que o Rudson falou está certo. Hoppe também falha na ordem cronológica. Ele diz que a guerra teria terminado em fim de 1916 ou início de 1917 sem o ingresso dos EUA mas estes só entraram em abril de 17. E a Rússia só perdeu a sua monarquia graças à ajuda dos alemães a Lenin para que este pudesse dar o golpe com a condição de tirar a Rússia da guerra, aliviando o front oriental da Alemanha. Isso antes dos EUA entrarem. Gosto do Hoppe mas se ele erra nisso, fica difícil imaginar sua idéia de como seria o mundo em outras circunstâncias. E sem bajular a idéia de democracia, mas até hoje, que eu saiba, nunca houve uma guerra disputada entre 2 democracias.
  • Tiago Mattos  07/04/2017 23:18
    "Ele diz que a guerra teria terminado em fim de 1916 ou início de 1917 sem o ingresso dos EUA mas estes só entraram em abril de 17."

    Não é isso o que está escrito no texto. Lá fala 1917 e 1918.

    "E a Rússia só perdeu a sua monarquia graças à ajuda dos alemães a Lenin para que este pudesse dar o golpe com a condição de tirar a Rússia da guerra, aliviando o front oriental da Alemanha."

    Isso, sinceramente, não faz sentido nenhum. No início de 1917 a Rússia já estava em frangalhos. Nicolau II já havia abdicado do trono e entregue a seu irmão, o qual, por sua vez, repassou o governo ao príncipe liberal Georgy Lvov. E depois veio Kerensky. Repleta de insurreições e inquietações sociais, e sem exército mobilizado, a Rússia não oferecia mais riscos nenhum.

    A Alemanha, ademais, tinha vários investimentos estrangeiros na Rússia, majoritariamente no setor ferroviário. Por que ela iria apoiar um autodeclarado comunista, que prometia nacionalizar os investimentos estrangeiros e estatizar tudo? Não faz sentido.

    De resto, o governo russo só foi derrubado efetivamente em novembro de 1917, quando os bolcheviques assumiram o poder. Ou seja, bem depois da entrada dos EUA na guerra.

    "E sem bajular a idéia de democracia, mas até hoje, que eu saiba, nunca houve uma guerra disputada entre 2 democracias."

    Desculpe, mas o Partido Nacional-Socialista Alemão foi eleito democraticamente. Tem até a contagem dos votos:

    en.wikipedia.org/wiki/German_federal_election,_March_1933

    Mussolini também.

    Portanto, a segunda guerra foi feita por líderes que chegaram ao poder democraticamente (com a exceção da Rússia e do Japão).

    E, caso não tenha ficado satisfeito, ainda cito a Guerra do Chaco (Bolívia x Paraguai, 1932-1935), a Guerra de 41 (entre Peru e Equador), a guerra do Líbano (Israel, uma democracia, invadiu o Líbano, outra democracia [os membros do Parlamento -- que escolhem presidente e primeiro-ministro, são eleitos pelo povo]), a Guerra da Chechênia (que era apoiada pela Geórgia contra a Rússia), a própria guerra da Rússia contra a Geórgia, e Ucrânia versus Rússia.

    Mas até que você tem um ponto: realmente, é raro ver duas democracias em guerra. Normalmente, quem faz a invasão e sai mandando bomba é a própria democracia. Vide como EUA e França atuam no Oriente Médio. Ou mesmo Israel no Líbano.
  • Eduardo  08/04/2017 11:22
    Como o que falei não foi compreendido, vou ter que deixar mais claro.1) O livro original do Hoppe fala que a guerra teria acabado em fim de 1916/início de 1917. 2) A história do apoio alemão a Lenin pode não fazer sentido a você mas infelizmente foi o que aconteceu. Acho que até saiu na Veja recentemente mas não me baseei por aí. 3) Hitler e Mussolini chegaram ao poder democraticamente porém não eram democracias quando começaram a guerra. Assim como a Rússia de hoje, que anexa territórios, não é.
  • Carlos  08/04/2017 19:37
    Assim fica fácil, né? Só é democracia enquanto funciona e tudo vai bem; quando deixa de funcionar e tudo começa a desandar, aí deixa de ser democracia. Bem gostoso.

    Aliás, por que a Rússia atual não é democracia? Qual a diferença de lá para o Brasil? Há eleições regulares, há oposição e tudo. Você diz que não é democracia simplesmente porque não gosta do Putin. E também porque a Rússia refuta seu argumento de que democracias não fazem guerras.

    E enfatizo o que disse corretamente o Tiago acima: todos os grandes conflitos bélicos atuais foram iniciados por democracias. São os EUA quem invadem e saem mandando bomba em todo mundo (países, aliás, que nunca lhes agrediram; o que o Iraque e a Síria fizeram contra os EUA?). É a França quem sai mandando bomba. É a Rússia. É o Reino Unido. A Alemanha só não o faz porque foi desarmada pós-Segunda Guerra.
  • Eduardo  08/04/2017 22:25
    Mais uma vez esclareço: os conflitos atuais podem ter sido começados por democracias mas se você prestar atenção no que eu escrevi ao invés de se afobar, vai ler no meu comentário que eu não conheço um conflito ENTRE duas democracias. Sei que alguns conflitos foram iniciados por elas mas foram contra ditaduras ou monarquias. E após séculos de conflitos entre europeus, o período democrático na Europa foi o mais estabilizador que se tem notícia. Antes havia uma disputa pelo trono quase toda vez q um rei morria. Não sei da onde vc tirou q considero a Rússia uma ditadura pq não gosto do Putin mas pela sua lógica, vc deve considerar a Venezuela tb uma democracia. Se vc só considera uma ditadura qd há golpe e não quando o tirano entra pelo voto do eleitor, fica à vontade. Gosto qd sou convencido por bons argumentos pois me faz estudar mais, mas aqui não foi o caso. Me considero um anarquista há mais tempo do que conheço os ensinamentos dos autores que li nesse site, mas monarquia melhor que democracia? Eu não concordo.
  • Luis  09/04/2017 00:40
    Mas é claro que há democracia na Venezuela. E em excesso.

    Ora, se por democracia entendemos 'o governo do povo', então o que constatamos é que realmente há diferentes intensidades de democracia ao redor do mundo. E um dos países em que a democracia é exercida no seu sentido mais pleno é a Venezuela. Aloizio Mercadante estava corretíssimo quando disse que "Na Venezuela, há democracia até em excesso". Claro! Lá, basta a pequena maioria demandar, e o governo faz. Confiscos de renda, expropriação de terra, congelamento de preços e censura. Tudo democraticamente exigido pela pequena maioria da população e prontamente acatado pelo governo. Elas mandam, o governo obedece. E a minoria se estrepa. Democracia em sua plenitude.

    Quanto mais democracia, mais arbitrário o estado -- o que não quer dizer que na ditadura ocorra o oposto. Onde há estado, há arbitrariedade -- varia apenas o grau de explicitude com que a espoliação é feita.

    Agora, respeito à integridade do indivíduo e a tudo aquilo que assegura a sua existência é algo que só acontece em um regime de respeito absoluto à propriedade privada.

    E respeito à propriedade privada é algo absolutamente impossível de ocorrer onde quer que haja democracia, pois a democracia depende exclusivamente do assalto à propriedade privada para existir. É impossível existir democracia sem esbulho da propriedade privada.
  • Eduardo  09/04/2017 02:20
    É impossível existir qqer forma de governo sem esbulho da propriedade privada, seja ela democracia ou monarquia. Hoppe idealiza as monarquias da Europa ocidental mas esquece que há ou houve inúmeros exemplos de monarquia na África e Ásia onde a agressão à propriedade privada é ou foi regra.
  • Eduardo  09/04/2017 01:03
    Mais uma vez esclareço: os conflitos atuais podem ter sido começados por democracias mas se você prestar atenção no que eu escrevi ao invés de se afobar, vai ler no meu comentário que eu não conheço um conflito ENTRE duas democracias. Sei que alguns conflitos foram iniciados por elas mas foram contra ditaduras ou monarquias. E após séculos de conflitos entre europeus, o período democrático na Europa foi o mais estabilizador que se tem notícia. Antes havia uma disputa pelo trono quase toda vez q um rei morria. Não sei da onde vc tirou q considero a Rússia uma ditadura pq não gosto do Putin mas pela sua lógica, vc deve considerar a Venezuela tb uma democracia. Se vc só considera uma ditadura qd há golpe e não quando o tirano entra pelo voto do eleitor, fica à vontade. Gosto qd sou convencido por bons argumentos pois me faz estudar mais, mas aqui não foi o caso. Me considero um anarquista há mais tempo do que conheço os ensinamentos dos autores que li nesse site, mas monarquia melhor que democracia? Eu não concordo.
  • Emerson Luis, um Psicologo  02/07/2014 12:44

    Em certo sentido, o século XX começou em 1914.

    Quando Fukuyama se referiu ao "fim da História", ele NÃO quis dizer que não haveria mais conflitos e até retrocessos. Ele usou um termo filosófico para designar que a Humanidade havia desenvolvido o melhor sistema socioeconômico que o ser humano pode produzir: uma democracia liberal - "democracia" aqui no sentido de isonomia.

    O "Primeiro Homem" seria o ser humano primitivo, tribal, no início da História, milênios atrás. Após um longo processo de desenvolvimento, a Humanidade atingiria o seu melhor possível - o "Último Homem", regido pelo liberalismo isonômico. Este seria o "fim da História", assim como a entrada na vida adulta é o fim da infância.

    Mas Fukuyama apontou ameaças à democracia liberal, uma delas sendo o Estado de bem-estar social.

    Nada impede a Humanidade de sofrer um retrocesso e retornar tecnológica e culturalmente à Era do Bronze por mil anos, para só então começar a se recuperar, redescobrir a ciência, ter uma nova Revolução Industrial, etc. Mas a recuperação só seria possível com o método científico e com os princípios liberais.

    * * *
  • Silvio  02/07/2014 15:45
    Por falar no Fukuyama, interessante essa entrevista bem recente publicada em razão do aniversário de 25 anos de sua tese: www.dw.de/ainda-tenho-raz%C3%A3o-afirma-francis-fukuyama-fil%C3%B3sofo-do-fim-da-hist%C3%B3ria/a-17730414
  • Tiago RC  07/07/2014 08:53
    Nesse final de semana visitei um lugar chamado Carrières de Lumières, no sul da França. E pude observar na prática a importância da Áustria no século XIX. Nesse lugar eles fazem apresentações luminosas de várias obras artísticas. Na saída havia uns painéis com as biografias dos artistas cujas obras eram mostradas. Praticamente todos tinham passado por Viena em algum momento da vida, a maioria morreu nessa cidade.

    Foi legal ter feito esse passeio após ter lido esse texto. Acho que eu não teria notado esse detalhe se a ordem tivesse sido invertida.
  • Alerson Molotievschi  09/07/2014 16:40
    Talvez não concorde com toda a ideologia de Hoppe e com sua defesa argumentativa. Estou desenvolvendo meu pensamento, mas por enquanto é dissonante. Jamais eu defenderia algo que fosse em direção oposta à busca da liberdade individual dos seres. O fato é que reconheço que o homem não é digno de TOTAL liberdade de ação, pois há no homem o mal intrínseco (diferentemente do que pensam os filósofos cristãos mais proeminentes como Tomás de Aquino). Creio nesse fato empírico. Acredito que o homem não nasce bom, mas que sua conduta será ditada pela cultura, meio ambiente e valores familiares (para não me alongar). Ainda, penso no caminho de um 'ditador de regras' acima dos homens: penso em um guia de regras saído das mãos de uma autoridade superior, que é do Criador somente, único a quem o homem deveria obedecer e que, sim, é a medida da Bondade e Justiça. O conjunto de regras deixado pelo Criador seria o único código a ditar e limitar as liberdades dos homens e, por isso, perante os próprios homens, os mesmos seriam livres. Não é possível para mim defender indiretamente monarcas absolutos como que voltando o caminho em guinada de cento e oitenta graus. O problema ainda é a real aversão a autoridades, principalmente uma autoridade que se fundamenta na Fé. Na minha visão o homem não é capaz de viver sem regras, mas regras Divinas e apenas esse argumento poderia embasar uma busca pelo racionalismo que a Fé contém, também na minha humilde opinião. Eu enxergo razão no plano da redenção do homem construído por um Deus. Jesus faz muito sentido para mim nesse busca filosófica. Estou aberto a maiores discussões. Um abraço a todos.
  • antonio madeira pacheco  12/07/2014 03:24
    Por que você não citou o Mozart entre os artistas?



  • marcos  07/07/2015 15:35
    talvez por ter morrido um século antes do período citado?
  • Kaiser Wilhelm II  12/02/2015 14:01
    Só para complementar a observação sobre a efervescência cultural austríaca muito bem lembrada pelo Hoppe, faço um pequeno adendo sobre a produção cultural alemã:

    De 1901 até 1918, ano do fim do Império Alemão, os alemães receberam mais prêmios Nobel do que Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia juntos.
  • Pedro Ivo  24/04/2015 17:10
    Alguém tem o link deste artigo em inglês ou francês?
  • Hans  24/04/2015 21:11
    Trecho da introdução do livro Democracia, o deus que falhou"

    www.mises.org.br/Product.aspx?product=84
  • Alexandre Tadeu  28/09/2016 05:30
    Sempre tive uma dúvida com relação ao desenvolvimento econômico da Alemanha durante o século XIX, visto que existem teorias que citam o denominado "método de industrialização prussiano", que era baseado no protecionismo econômico, subsídios para as indústrias e formação de grandes cartéis empresariais. Conforme leituras anteriores, a Alemanha anterior à unificação enfrentou um período de liberdade econômica entre 1820-1870, sendo que no ano da reunificação (1871) o tamanho de sua economia ultrapassava a França e perdia apenas para o Reino Unido e os Estados Unidos da América. Contudo, a partir da ascensão do II Reich e do intervencionismo estatal promovido por Otto von Bismarck, a economia alemã foi perdendo as características liberais e a centralização indústrias em oligopólios e protecionismo passou a comandar a política econômica do Império Alemão. Além disso, muitos economistas "requentam" as teorias de Friedrich List para defender o suposto método de industrialização prussiano, que fora herdeiro do período de grande liberdade econômica anterior à centralização de Bismarck e Guilherme I. Eu estaria certo em afirmar que o crescimento econômico da Alemanha no século XIX se deve mais ao período liberal (1820-1870) do que ao período intervencionista (1871-1919) do II Reich e que a Alemanha teria crescido muito mais economicamente se não entrasse na aventura imperialista na África a partir de 1883, preservando as características liberais de outrora?
  • FREDERICO HAUPT  07/04/2017 16:45
    Comparando-se o Brasil e os EUA, verifica-se o contrário:
    XIX , O Século que Perdemos
    As disparidades entre Brasil e Estados Unidos só aumentariam ao longo do século XIX, que não foi um século qualquer, trata-se do momento de decolagem da segunda Revolução Industrial – a chamada revolução tecnocientífica -, quando o tempo tomou a velocidade da eletricidade, das máquinas a vapor, dos poços de petróleo e do trem.
    Os anos 1800 catapultariam algumas economias fora da Europa – Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, e mesmo a Argentina e o Uruguai -, enquanto o binômio escravismo-absolutismo amarrava a economia brasileira no atraso das plantações de cana-de-açúcar e café, na agricultura de subsistência e nas preguiçosas criações extensivas de gado.
    Como diz o historiador Evaldo Cabral de Mello, a independência foi uma manobra contra-revolucionária encabeçada por D.Pedro I, cuja intenção era imunizar o Brasil do contágio da onda liberal que estava tomando Portugal. Os pesquisadores Harber e Klein expõem seus pensamentos sobre porque a América Latina ficou para trás : A independência política claramente não produziu transformação estrutural no Brasil e crescimento auto-sustentado. O Brasil era uma colônia agrícola antes da independência e continuou sendo assim depois.
    No século anterior, Portugal se nutria do ouro brasileiro, que repassava em boa medida para a Inglaterra, como espécie de tributo pela proteção militar contra França e Espanha; do açúcar que recebia do Brasil e revendia para a Europa, como também do tráfico negreiro, que alimentava a próspera triangulação entre África, Europa, Brasil. Sessenta por cento da economia portuguesa vinha dos produtos brasileiros.
    A partir de 1808, a corte mudou de endereço, ficou abrigada nas águas da baía de Guanabara, bem longe dos exércitos de Napoleão, mas manteve o mesmo esquema de sugar as riquezas do país e repassá-los para a Inglaterra.
    O que aconteceu de fato foi que o Brasil se tornou independente de Portugal, que era um país ocupado. Por outro lado, o Brasil instalou dentro de suas fronteiras a elite de Portugal que o oprimia e sugava. A união entre a corte recém-chegada e a aristocracia brasileira escravista fortaleceria seus laços, agora no mesmo endereço, formando um grupo dominante que atravessaria a independência, a república e ainda influenciaria os dias de hoje.
    A permanência da corte portuguesa no Rio por 13 anos, de um lado, reforçou seus laços com a elite dominante local, fortalecendo seu projeto econômico escravista; de outro, sufocava pela proximidade as inspirações independentistas .
    A relação entre a corte lusitana e as elites escravistas brasileiras se tornou mais íntima logo depois do desembarque no Rio de Janeiro. Para sustentar seus gastos infindáveis, a corte abriu lista de doações para que os ricos locais abrissem seus bolsos. Logo na primeira dessas listas, das 38 maiores doações, a metade foi de traficantes de escravos. A retribuição era feita em forma de títulos de nobreza ou cargos no governo que davam direito a arrecadação de impostos. Os barões de Vassouras, Paty do Alferes, Ubá, Rio Bonito, Guaribu, Palmeiras, Ibiapaba, os Viscondes da Paraíba, entre tantos outros, eram de prósperas famílias de traficantes de mercadoria humana.

    A independência do Brasil veio pelas mãos de um príncipe português , que não estava muito entusiasmado com a idéia, mas foi forçado pelos brasileiros que o cercava. "O Brasil caiu sob o controle econômico da Inglaterra, de que comprava a maior parte dos bens manufaturados e para quem vendia apenas parcelas secundárias de sua exportação, uma situação que prevaleceu por mais de cem anos." (Emília Viotti). A monarquia dos Bragança continuaria aqui com seus poderes absolutos, enquanto em Portugal D.João jurava fidelidade a uma constituição liberal, coisa que o Brasil demoraria muito a conhecer.
    Foi uma independência conquistada no grito. Um grito meia-boca. Nada de sangue, nada de brigas, tudo se resolveu entre camaradas e conterrâneos, que era o que os portugueses de ambos os lados do oceano se consideravam.("No Nordeste houve lutas pela independência – Lorde Cochrane contratado por D.Pedro para expulsar os portugueses - porém nada comparável à guerra da independência americana").
    Já nos Estados Unidos correria sangue – e muito – para se conseguir a independência. No Sul escravista os proprietários de grandes plantações aderiram relutantemente à independência, quando não colaboravam com os ingleses, deixando clara uma divisão que fermentaria ao longo dos anos para explodir na Guerra de Secessão em 1861.
    Com o reconhecimento da vitória em 1783, os Estados Unidos da América cortavam definitivamente os laços de submissão com a metrópole e tinham a independência reconhecida pelos antigos colonizadores.
    Depois da independência americana, a ex-colônia passa a adotar imediatamente as tecnologias usadas na Revolução Industrial inglesa para acelerar com entusiasmo o modo de produção capitalista, em tudo adequado ao espírito de independência e individualismo adotado no novo país.

    Aléxis de Tocqueville, jovem de 26 anos e ambicioso juiz de direito na França visita os Estados Unidos em 1831. Jean Baptiste Debret, filho de tradicional família francesa, chega ao Brasil em 1816, com 48 anos, chefiando a missão francesa que fundaria a Escola de Belas Artes do Brasil. Aqui permaneceu até 1831. Os dois deixaram para a história imagens marcantes dos dois países.
    Debret, com suas aquarelas, retratou o cotidiano escravista que vivenciou. Tocqueville, viajou nove meses pelos Estados Unidos, e escreveu A Democracia na América, obra de grande peso. Foi como se a mesma máquina fotográfica mostrasse no mesmo momento os dois países. O que Tocqueville e Debret observaram sobre os dois países salta aos olhos pelas disparidades sociais e econômicas que já existiam entre o Brasil – que nutria os velhos escravismo e absolutismo – e os Estados Unidos, que tinham trinta anos de independência, uma nascente república e um desenvolvimento impressionante no Nordeste do país.
    O Nordeste americano não amava mais os negros que o Sul, mas queria o fim do escravismo porque suas indústrias precisavam de consumidores. A lógica do início do capitalismo tanto na Inglaterra – que começou a combater o tráfico negreiro no início do século XIX – quanto no Nordeste dos Estados Unidos pedia assalariados , que se tornariam compradores. Além disso a mão de obra escrava favorecia a fabricação de produtos básicos mais baratos, numa concorrência desleal com trabalhadores livres do campo.
    As aquarelas de Debret – a senhora branca sentada à mesa com as escravas em volta, jogando migalhas para o negrinho que brincava no chão; o mercado de escravos; os negros de ganho pelas ruas – dizem quase tudo sobre a sociedade brasileira naquele momento , assim como a impressão de equalitarismo na formação do nordeste dos Estados Unidos foi o que mais impressionou Tocqueville. Segundo este : " Grande igualdade existe entre os emigrantes que se estabeleceram nas praias da Nova Inglaterra. Mesmo os germes da aristocracia nunca foram plantados naquela parte da União." Esse maior equalitarismo não existia nos estados escravistas do Sul dos Estados Unidos. Tocqueville fez poucas observações sobre o racismo e o escravismo, mas quando o fez mostrou bem o abismo que separava as regiões americanas que empregavam e as que não empregavam mão-de-obra escrava. Beaumont, companheiro de viagem de Tocqueville, escreveu em forma de romance sobre o racismo americano. Observou que o equalitarismo se limitava aos brancos.
    Tocqueville viu , a olhos nus, o escravismo levando um estado para o fracasso e a ausência do escravismo levando o outro ao desenvolvimento : "Operando continuamente há dois séculos, em sentidos opostos, as mesmas causas acabaram por criar uma diferença enorme entre a capacidade comercial do homem do Sul e do homem do Norte. Hoje somente o Norte possui navios, fábricas, estradas de ferro e canais."
    A próxima passagem de Tocqueville poderia ser uma descrição da elite que vivia no Rio de Janeiro machadiano no século XIX :
    "No Sul dos Estados Unidos, a raça inteira dos brancos formava um corpo aristocrático, a cuja frente ficava certo número de indivíduos privilegiados, cuja riqueza era permanente, os lazeres hereditários. Aqueles chefes da nobreza americana perpetuaram , no corpo do qual eram representantes, os preconceitos tradicionais da raça branca, e tinham por honrosa a ociosidade."
    Outra visitante francesa ao Brasil do século XIX, Adèlle Samson Toussaint, descreve de maneira semelhante os homens e mulheres que encontrou no Rio de Janeiro : "Não há brasileiro que aceite servir; todos querem ser senhores. Se o escravismo fosse abolido de repente, toda a cultura pararia; seria fome que iria grassar." Ela descreve a cena a que assistiu logo que chegou ao Brasil.
    "Negrinha", gritava sem parar uma senhora que jogava cartas : "Passe o leque! Negrinha, traga o rapé! Negrinha, vá buscar um copo d'água! Negrinha, pegue meu lenço!" O lenço foi jogado pela senhora umas vinte vezes ao chão, pelo simples prazer de ver uma negrinha de sete ou oito anos , que se aninhava entre suas pernas, buscá-lo.
    Se aguçarmos bem o ouvido, ainda escutaremos os mesmos gritos, chamando alguma Maria, por todos os cantos do Brasil.

    Debret não deixou de observar também a desigualdade que grassava na sociedade brasileira mesmo entre os brancos. Entre os obstáculos que emperravam a agricultura, segundo ele, estava " a desigualdade incrível existente entre duas classes de cultivadores da colônia, uma primeira completamente feudal, composta por ricos proprietários, senhores de engenho", e a segunda classe, constituída de pobres cultivadores arrendatários, sujeita à opressão dos senhores de engenho : " Desanimados com isso esses escravos brancos...vegetam em suas choças cercadas de bananeiras,...."

    Para o pintor, o mercantilismo monopolista, fechado aos estrangeiros, também tinha sua parcela de culpa no atraso do país. "Deve-se atribuir", diz ele, "o estado estacionário da indústria e do comércio brasileiro durante mais de três séculos unicamente à sujeição da rica colônia ao domínio português, pois este, até 1808, proibiu a entrada de estrangeiros." Depois da abertura dos portos, acreditava Debret, o progresso apareceria.
    Não foi assim. O "estado estacionário do comércio e da indústria" ainda se manteria até o final do século XIX.
    Foi na segunda metade do século XIX que os Estados Unidos deram o grande salto de industrialização , capitaneados pelo Norte. Entre 1870 e 1900 a população urbana americana passou de 10 milhões para 30 milhões.
    O Brasil só teve algo parecido com o Nordeste americano , com um capitalismo dinâmico, na virada do século XIX para o XX, com a chegada dos imigrantes europeus contaminados pelo espírito industrialista : São Paulo. Mas em proporções infinitamente menores. Assim mesmo, os primeiros impulsos industriais encontraram forte oposição do Rio de Janeiro, entre os interesses agrários organizados em torno da capital da nascente república brasileira.

    A monarquia, aliada ao escravismo generalizado, proporcionou ao Brasil um século perdido em matéria de avanço econômico. O gráfico da renda per capita dos brasileiros é uma linha que quase não oscila entre o ano 1800 e o 1900. O eletrocardiograma de uma economia moribunda. Nos Estados Unidos a variação foi de US$ 1.250 para US$ 4.000 . O Brasil só atingiria US$ 2.000 no final da década de 1950.
    Preso ao escravismo e à monocultura o país perdeu o bonde da Revolução Industrial, que transformava a Europa e os Estados Unidos.
    O Nordeste industrial e capitalista é que fez dos Estados Unidos um país tão mais desenvolvido do que o Brasil e que qualquer outro país no mundo no século XIX. E as bases estavam criadas e solidificadas para a hegemonia no século XX.

    A herança absolutista e a herança de uma sociedade de classes

    O escravismo negro é traço comum entre Brasil e Estados Unidos, porém as aparentes semelhanças levam a enganos. É verdade que, nos dois países, a escravidão negra deixou marcas profundas e ainda sensíveis. No entanto, nos Estados Unidos, os estados do Nordeste, que lideraram a industrialização, não eram escravistas. No Brasil, a escravidão durou muito mais e foi mais generalizada que nos Estados Unidos . Aqui permaneceu por 350 anos. Lá, por 221.
    De todo o tráfico de escravos da África para as Américas, calculado em cerca de 9 milhões e 500 mil pessoas, o Brasil ficou com 40%; os Estados Unidos, com 6%; a América espanhola permaneceu com 18% e o Caribe, com os restantes 34%. "A escravatura delineou o perfil histórico do Brasil e produziu a matriz de sua configuração social", como define o historiador Décio Freitas.
    Os estados do Sul americano, onde se plantavam algodão e fumo, com mão-de-obra escrava, eram parecidos com o Brasil. Para que não se negligencie a importância da herança escravista, até hoje estes são os estados mais pobres dos Estados Unidos, com os piores índices sociais, apesar de todo desenvolvimento, todas as políticas públicas e da grande migração interna.A marca do escravismo ainda perdura.
    Uma pesquisa da Unctad, publicada em 1994, que mediu o desenvolvimento humano das populações negra e branca dos Estados Unidos, mostrou que a população negra estaria na 34a colocação mundial em desenvolvimento humano, enquanto a população branca americana estaria em primeiro lugar.
    O panorama social do Sul dos Estados Unidos , que perdeu a Guerra de Secessão para o Norte, não escravista, perdurou no Brasil inteiro por mais vinte e três anos ("após o fim da escravidão nos Estados Unidos"). Se no Sul dos Estados Unidos , mais de 150 anos depois ainda perduram as marcas da escravidão, o que dizer do Brasil ¿
    Podemos imaginar uma situação hipotética em que o Sul dos Estados Unidos teria conseguido se separar do Norte. Certamente veríamos hoje um país ("esse Sul") muito parecido com o Brasil, no que diz respeito à desigualdade social ("e dificuldade de desenvolvimento").
    A prática da miscigenação racial durante a história brasileira explica porque a grande discriminação econômica contra os negros não levou a uma situação racial tão violenta no Brasil, quanto ocorreu nos Estados Unidos, onde a prática da miscigenação foi evitada e mesmo proibida.
    O resultado disso é um racismo "mais suave", "menos violento", no Brasil, segundo o sociólogo americano Edward Telles.
    Apesar da miscigenação, o racismo brasileiro mantém sua eficiência no que tange às relações econômicas. As grandes plantações de cana-de-açúcar, com seus engenhos, a organização da casa-grande, para os donos da terra e seus empregados de confiança, e a senzala para os escravos negros deixaram marcas profundas na formação do Brasil. O esquema do senhor com seus capatazes cruéis e os trabalhadores sem direitos se reproduziu quase sem mudanças nas plantações de café e só começou a mudar , sempre com bastante resistência por parte dos herdeiros dos senhores de engenho , com a chegada da migração européia do final do século XIX e início do século XX.
    Grande parte dos escravos negros libertos em 1888 no Brasil teve de competir , na economia capitalista que se instalava, com descendentes de europeus – alguns já tendo capital e instrução – numa sociedade dominada por brancos, em que os brancos europeus e seus descendentes tinham o poder de decisão e de dar asas a seus preconceitos, mesmo sem amparo legal.
    "O escravo negro tinha que se poupar no trabalho, senão morria logo. Sua política era economizar o corpo....Enquanto o imigrante branco ("que tinha parte de seu trabalho, poupado para si") vinha com a consciência que precisava poupar dinheiro e não trabalho, já que isso o libertaria. Daí a implicância dos imigrantes europeus com os negros da terra, que chamavam de preguiçosos. Trabalhar muito para o negro era a morte, para o europeu a libertação."
    ("Essa estrutura sócio-econômica, modernizada aos dias de hoje, e o ranço sócio-cultural que dela provém, pode ser observada ainda hoje na nossa sociedade. Quem já não ouviu alguém dizendo que não adianta investir nos empregados porque eles são "preguiçosos" e não querem progredir ¿").

    No Brasil , os escravos recém libertos foram basicamente abandonados à própria sorte. Nos estados mais atrasados do Nordeste do Brasil, como Alagoas, ainda se vê a persistência de esquemas que diferem pouco do sistema escravista. É onde se encontram os maiores índices de analfabetismo , pobreza, exploração sexual de menores, inexistência de proteção trabalhista, controle de prefeituras por donos de engenho.
    O Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, mostra que, se os negros brasileiros formassem um país, este ocuparia a 105a posição no ranking que mede o desenvolvimento social no mundo, enquanto o Brasil "branco" seria o 44o . Os negros de Alagoas ficariam em 122o lugar no IDH , junto com a Namíbia.
    São esses números que reforçavam a observação nada lisonjeira do historiador inglês Eric Hobsbawn, em seu livro Era dos Extremos, sobre nosso país : " O Brasil, um monumento à negligência social."

    "Qualquer pai de família, com 21 anos ou mais, pode ocupar uma parcela de terra pública de 64,8 hectares de terra. E se provar que morou na terra e a cultivou por cinco anos, ganhará o título de propriedade da terra." Essa é a ´síntese da medida que foi tomada em 1862, por Lincoln. Não por acaso a medida coincide com a conquista do Oeste, momento de expansão do nordeste capitalista. O Homestead Act sozinho foi responsável pela ocupação de 10% da superfície dos Estados Unidos. Entre 1870 e 1900 foram cultivadas mais terras do que toda extensão ocupada desde o início da colonização.
    No Brasil, a terra até 1850 era considerada dádiva. O imperador distribuía sesmarias e glebas conforme seu agrado a seus protegidos. Não requeria que as cultivassem. Depois de 1850, quando foi proibido o tráfico de escravos, por pressão da Inglaterra, qualquer interessado tinha de negociar terras com o governo. E o governo de então preferia estabelecer um preço razoavelmente alto para as terras, para que os trabalhadores livres não pudessem comprá-las, forçando-os assim a trabalharem para os fazendeiros já estabelecidos.
    "Essa herança chega até hoje na nossa estrutura sócio-econômica." No Brasil, do século XXI, os problemas de terra ainda persistem.
    A diferença da estratégia brasileira e da americana é visível na expansão econômica que se seguiu. Por volta de 1870, nos estados Unidos havia 353.863 manufaturas, enquanto no Brasil não passavam de 200. As ferrovias já se estendiam por 50 mil kilômetros , enquanto por aqui Mauá lutava para estender os primeiros trilhos.

    Entre 1822 e 1889 os Estados Unidos tiveram nada menos que 18 presidentes. Mesmo com suas imperfeições ("sendo a principal a ligada ao racismo") a república americana ficava a muitos anos-luz de distância de qualquer outra democracia à época. E a Constituição da União , com apenas 7 artigos, que nasceu da necessidade de limitar os poderes dos estados e de organizar as finanças do novo país, resiste até os dias de hoje, com 27 emendas em quase 220 anos de existência.
    E aqui no Brasil, como nasceu nossa primeira Constituição ¿ A idéia inicial defendida pelos liberais brasileiros que participaram do movimento pela independência era de que D.Pedro obedecesse uma constituição e que não tivesse direito de veto ou pelo menos tivesse o direito de veto limitado. Mas o imperador, não satisfeito, mandou dissolver a Assembléia Constituinte e exilar os liberais mais radicais, em Novembro de 1823.
    Em 1824, D.Pedro imporia ao país e aprovaria em nome de toda a nação uma Constituição, em que prometia :"guardar a Constituição , se fosse digna do Brasil e dele". Além disso , estabelecia em seu art. 99 : " A Pessoa so Imperador é inviolável e Sagrada: Ele não está sujeito a responsabilidade alguma." Foi esse o arremedo de Constituição que vigorou até a partida de D.Pedro II, em 1889, quando o século quase se findava. Foi com esse semi-absolutismo, auto-intitulado "constitucionalista" , que o Brasil conviveu até quase a virada do século XIX, quando ele já tinha sido exterminado em quase toda a Europa mais de meio século antes.
    Eram atribuições do rei , ainda, nomear e promover os altos funcionários da burocracia civil, militar e eclesiástica. Dar a última palavra sobre a distribuição de recursos entre os diversos ramos da administração, poder suspender, adiar ou dissolver a Câmara. No nascente Estado brasileiro independente , o empreguismo já se torna um mecanismo fundamental para manutenção do poder. A doação de títulos e empregos funciona para amolecer as oposições. É com uma classe burocrática e improdutiva que o império vai governar e se manter até quase o final do século.
    Em termos de contas públicas , vamos ver que a república americana chega a 1889 saudável, com superávit de quase 100 milhões de dólares, enquanto a monarquia brasileira chegava ao final de seus dias pendurada num déficit de quase um milhão de reais. Aqui o poder central arrecadava cerca de 80% dos impostos, deixando menos de 5% para os municípios arrecadarem. Enquanto nos Estados Unidos o poder federal arrecadava 37% e os municípios cobravam e ficavam com a maior parte, 52%. Quem está mais próximo do cidadão arrecada e gasta melhor. "Essa é outra herança que até os dias de hoje atrapalha o desenvolvimento brasileiro".Segundo os dados da Confederação Nacional dos Municípios, as prefeituras ficam hoje com cerca de 15% do bolo dos tributos. E a parte do "leão" continua com o governo federal.

    A república no Brasil começa com mais de cem anos de atraso em relação aos Estados Unidos. Mas ainda guardando sinais do velho regime. Muitos dos homens que assumem os ministérios do início da república haviam servido à monarquia e carregavam muitos dos seus ranços.
    A proclamação da república no Brasil foi um movimento militar. Quer dizer, nada de movimentos populares, como os sans culotte franceses ou os dos fazendeiros dos Estados Unidos. A Constituição republicana , que foi bandeira em outros países, demorou aqui dois anos para ser aprovada, para logo em seguida ser suspensa por um estado de sítio. Por aqui, as leis que deveriam moldar a nação republicana sob uma nova forma (mais aberta, esperava-se) custaram para mudar e quando o fizeram , não foram significativas. E mantiveram os privilégios das oligarquias rurais que mandavam e continuaram mandando no país. Os militares e civis mais avançados que ajudaram a proclamar a república foram logo presos, exilados, afastados, deixados no ostracismo ou, mais tristemente, cooptados, para que o governo pudesse continuar servindo a quem sempre serviu, a oligarquia rural.
    A industrialização do Brasil para valer começa no final do século e em São Paulo.
    A política do governo brasileiro de subsidiar a imigração geraria um fenômeno benéfico aos cafeicultores : a abundância de mão-de-obra barata. Aos imigrantes se juntavam milhões de nordestinos, expulsos pela seca e pelo fracasso das plantações de algodão, que enfrentaram a retomada da produção americana.
    "Também a imigração européia que à primeira vista pode parecer um fenômeno que aconteceu de modo similar no Brasil e nos Estados Unidos, guarda diferenças importantes entre os dois países".
    Como o governo brasileiro custeava a viagem, vieram para o Brasil, principalmente, os europeus dos países mais pobres e menos letrados, geralmente do sul da Europa, que não podiam pagar a viagem para os Estados Unidos.
    "Os números da migração não escrava para o Brasil e para os Estados Unidos são absolutamente diferentes. Entre 1820 e 1998 entraram no Brasil 4,5 milhões de migrantes, enquanto no mesmo período foram para os Estados Unidos 53,1 milhões".
    Por falta de consistência e outros apoios, os militares que proclamaram a república acabaram se aliando às elites agrárias de São Paulo e Minas, que governaram o país até 1930, quando Getúlio Vargas rompeu o pacto do café-com-leite e tentou novamente impulsionar mudanças industriais.
    Com o golpe de estado de Getúlio Vargas, os industriais de São Paulo acharam que subiriam ao poder , mas sofreram grande decepção com o realinhamento do poder em torno dos interesses rurais, agro-exportadores. Já em 1932 organizariam a Revolução Constitucionalista, sufocada rapidamente. Os poderes da economia agrária exportadora eram mais fortes do que Vargas poderia suspeitar.
    Durante toda a primeira metade do século XX os interesses industrialistas , mais voltados para o mercado interno, chocaram-se com os tradicionais esquemas agro-exportadores, mais interessados no mercado externo e na valorização das moedas dos compradores de seus produtos. Os industrialistas queriam a ampliação do mercado interno. Para o setor agro-exportador isso não interessava. O que valia era exportar. "Essa herança nos chegou até os anos 1970, no lema dos governos militares, de que o que valia era exportar . Naquele momento até justificadamente em função da necessidade do país fazer frente à dívida externa que se agigantava. O que levou à paralisação da economia nos anos 80."
    A variável que parece ter feito toda a diferença entre o desenvolvimento americano e o brasileiro foi a do crescimento do mercado interno.
    Enquanto nos Estados Unidos um mercado interno forte cresceu junto com as exportações, aqui os lucros do mercado externo eram apropriados por uma pequena parcela da população, desde os tempos do ouro de Minas Gerais, até os tempos do boom do café. E mercado interno era uma variável sem a menor importância para uma economia agro-exportadora ("de estrutura retrógrada").

    A grande defasagem entre Brasil e Estados Unidos está em que, na América do Norte , a república independente formou-se há mais de 200 anos, por uma população livre, de grandes e pequenos proprietários e trabalhadores. Desde o início, os Estados Unidos herdaram as sementes da industrialização, da livre concorrência, o que transformou o país no motor da Segunda Revolução industrial. Desde a independência, formou-se um alicerce político razoavelmente democrático, igualitário e duradouro no país, com uma estrutura estatal não intervencionista, o que favoreceu o crescimento do capitalismo.
    "O escravismo – "com toda sua herança formadora de uma sociedade de classes" – lá, nos Estados Unidos, foi limitado, ficou isolado, sendo derrubado militarmente há 150 anos, pelo Norte capitalista. No Brasil foi generalizado geograficamente em todo o território nacional, começou muito antes e terminou depois, e impediu a formação de um mercado interno consumidor, influenciando de um modo muito mais profundo, a estrutura econômica e a mentalidade formadora da cultura brasileira. Como conseqüência temos no Brasil de hoje a presença muito mais marcante de uma sociedade de classes sociais e de renda, do que o que existe nos Estados Unidos."
    Podemos dizer que as bases democráticas no Brasil foram firmadas bem mais recentemente, depois de duas ditaduras. Enquanto, nos Estados Unidos a democracia, o igualitarismo perante a lei e a limitação dos poderes do Estado fizeram parte da própria formação do país. Já o que tivemos durante séculos aqui foi uma elite colonial e seus prolongamentos antidemocráticos. Só na metade do século XX começamos a ensaiar democracias e só depois do final da ditadura militar , há vinte anos, pudemos começar a consolidá-la.

    O balanço histórico entre Brasil e Estados Unidos é amplamente desfavorável ao nosso país. E é isso que nos deixa tão na retaguarda.
    Mas esse passado negativo não deve servir para nos deprimir. Já que não podemos cancelar a História é importante entendê-la e conhecê-la, para melhor enxergar e remover suas heranças daninhas.
  • Esron  07/04/2017 19:18
    Muito boa aula de história!! Obrigado!
  • AGB  09/04/2017 22:44
    Excelente apanhado da situação histórica do Brasil no século XIX . Mas , com todas as mazelas das classes dirigentes do Império, foram elas que permitiram a coesão do território nacional. Sem aquele regime, hoje o Sul seria paraguaio, Bahia e Nordeste um Haiti, o Norte uma Bolívia. Se é que não teríamos algumas Guianas por aí. Acho que sobraria Rio, São Paulo e Minas. Veja o que aconteceu na América espanhola e lembre das repetidas tentativas de secessão. Outro aspecto importante é a demografia de 1822: 14 milhões de habitantes, sendo 1 milhão de brancos e 13 milhões de negros e índios.
  • 4lex5andro  10/04/2017 16:23
    Se esse wall que praticamente descreveu o Brasil for partes de um livro (ou vários livros) favor indicar a fonte.

    Excelente texto.
  • AGB  10/04/2017 19:38
    Uma correção necessária: a população do Brasil em 1822 não atingia 14 milhões mas sim algo como 4,5 milhões. Contudo a proporção entre diferentes origens era a mesma: 7% de brancos e 93% de negros e índios.
  • LUIZ F MORAN  07/04/2017 19:23
    DEMOCRATISMO - no sentido da prática política definida pelo excesso de discussões e pelo atraso na tomada de decisões;
    +
    FASCISMO - modelo econômico;
    +
    SOCIALISMO - todo o resto;
    =
    BRASIL
  • Carlos Neto  08/04/2017 01:57
    "Por outro lado, já desde o final do século XX, acumulam-se crescentes evidências de que, em vez de assinalar o fim da história, o sistema político-democrático imposto ao mundo pelos EUA está mergulhado em uma crise profunda. Desde o fim da década de 1960 e começo da década de 1970, a renda salarial real nos Estados Unidos e na Europa Ocidental estagnou-se e, em alguns casos, até mesmo caiu. No Oeste Europeu em particular, as taxas de desemprego só fizeram aumentar."


    Pois é. Mas nunca os europeus e americanos tiveram tanta expectativa de vida, acesso a lazer, saúde e educação, tudo universalizado e disponivel a todos. Nunca os indices de violencia foram tao baixos (mesmo com ataques terroristas!) e os continentes ficaram sem guerra por tanto tempo...


    O grande filósofo de Madureira talvez tenha razão: "O Sol brilha para todos, mas é bom não se afastar muito da sombra"
  • anônimo  08/04/2017 02:44
    A culpa de tudo isso é a república, um regime de psicopatas, ladrões etc. Esse regime maléfico derrubou as monarquias no século 20 e criou guerras em nome da democracia. Que no Brasil esse regime maléfico caia e que volte a monarquia pois ela defende: propriedade privada, livre iniciativa e estado mínimo!
  • Adelson Araujo  08/04/2017 17:32
    Não custa destacar que o Brasil foi governado por um autêntico Habsburgo, o Imperador Pedro II, filho de Maria Leopoldina da Áustria (Carolina Leopoldina de Habsburgo-Lorena). Pedro II governou o Brasil por mais de 47 anos, na única monarquia das Américas, consolidando nosso território continental. Durante todo seu reinado, funcionou um ativo Parlamento, com ampla liberdade de imprensa. Pedro II possuía profunda erudição, falava vários idiomas, e foi benemérito e membro de várias sociedades científicas na Europa e Estados Unidos.
    Com a proclamação da República, o Brasil mergulhou em crises políticas sucessivas, com períodos democráticos entremeadas pela ditadura do Estado Novo e o Regime Militar de 1964.
  • interessado sincero  08/04/2017 23:04
    estou pensando seriamente em comprar, parece excelente, mas a frase: "Com um czar russo, um kaiser alemão e um kaiser austríaco, teria sido quase impossível para os bolcheviques conquistar o poder na Rússia." me soa estranha. A alemanha do kaiser ajudou lenin a chegar na Rússia para se livrar da guerra de front duplo.

  • Tiago Mattos  09/04/2017 14:46
    "A alemanha do kaiser ajudou lenin a chegar na Rússia para se livrar da guerra de front duplo."

    Isso é uma falácia sem nenhum sentido lógico.

    Para começar, o único fato histórico realmente comprovado é que, em 16 de abril de 1917, Lênin chegou de trem à Rússia depois de obter licença para atravessar o território alemão. Isso é o máximo da "ajuda" dos alemães a Lenin que se tem documentado.

    A Alemanha, ademais, tinha vários investimentos estrangeiros na Rússia, majoritariamente no setor ferroviário. Por que ela iria apoiar um autodeclarado comunista, que prometia nacionalizar os investimentos estrangeiros e estatizar tudo? Não faz sentido.
  • interessado sincero  09/04/2017 17:04
    "Para começar, o único fato histórico realmente comprovado é que, em 16 de abril de 1917, Lênin chegou de trem à Rússia depois de obter licença para atravessar o território alemão"

    Ok, supondo que essa seja a única forma de ajuda que lênin recebeu, ainda assim é considerável dada as circunstâncias da guerra. E mais: Por que a Alemanha deu essa licença para lênin? Ora, porque sabia q ele poderia causar problemas na Rússia e a guerra era de longe a maior preocupação da alemanha.
  • Régis  09/04/2017 20:39
    Liberar um sujeito pra cruzar a fronteira dentro de um trem agora é "prova conclusiva" de que o Kaiser alemão queria derrubar o czarismo na Rússia e instalar o comunismo no país?! Carai... até mesmo petista que diz que o impeachment foi "golpe" usa uma lógica melhor que essa.

    Aliás, cadê aquela sua certeza inabalável de que a Alemanha conspirou abertamente para colocar Lênin no poder?
  • Henrique Zucatelli  10/04/2017 12:28
    Hoppe deu uma vacilada temporal sobre a Rússia. Falo com propriedade de quem ainda é fascinado pelo movimento revolucionário que culminou no outubro vermelho de 17. O czarismo já vinha em queda há muito tempo, principalmente devido a miopia de Nicolau, que preferiu enfrentar na pedrada os discípulos judeus de Marx que vinham arregimentando fileiras anos antes da tomada de poder.

    Do lado cultural, Lenin conspirava junto a artistas, jornalistas, professores e toda sorte de intelectuais e burgueses anti monarquistas, respaldada por seus irmãos alemães.

    Do lado prático, Sverdlov reuniu os camponeses e os trabalhadores das fábricas, organizando greves e motins contra a burguesia aristocrática. Abrindo um parênteses, muito dentro do meio comunista atual dão mais aso aos feitos de Sverdlov que ao próprio Lenin, pois este chegou a acumular mais de 30 funções dentro do partido, sendo de fato o primeiro (e único) presidente da Rússia Socialista, antes da virada de mesa de Stalin.

    Em que pese a tese de que o movimento bolchevique não recebeu de fato ajuda oficial do Kaiser alemão, por outro lado os líderes socialistas tinham livre trânsito em todo país, além de uma espécie de exílio ante as ordens de prisão emitidas pelo Czar, ou até mesmo para os fugitivos, como foi o caso de Sverdlov.

    Paralelamente, há muitas teses que afirmam que o sionismo teve papel fundamental na escalada da social democracia no mundo, sendo que o próprio movimento bolchevique além de ser liderado em quase sua integridade por judeus, teve amparo financeiro e cultural de judeus alemães (a Alemanha Pré Hitler possuía uma das maiores colônias judaicas do mundo) E americanos.

    E permeando esta linha de pensamento, tais judeus americanos tiveram também muita influência na entrada dos EUA na primeira guerra, ao contrário da campanha de Wilson. E corroborando esta tese, uma opinião ácida de Henry Ford em "O Judeu internacional" influenciaria Hitler a retaliar o sionismo após a acensão do nacionalismo alemão.

    Por isto, a queda do Czarismo na Rússia PRECEDE a entrada dos EUA, fazendo pouca diferença no desenrolar dos fatos para aquele contexto.

  • Amante da Lógica  10/04/2017 13:08
    "o sionismo teve papel fundamental na escalada da social democracia no mundo, sendo que o próprio movimento bolchevique além de ser liderado em quase sua integridade por judeus, teve amparo financeiro e cultural de judeus alemães. E americanos.[...]

    Tais judeus americanos tiveram também muita influência na entrada dos EUA na primeira guerra [...]. Por isto, a queda do Czarismo na Rússia PRECEDE a entrada dos EUA."


    Ou seja, segundo você, os judeus queriam o fim do czarismo, defendiam a ascensão do bolchevismo, e ainda os EUA para entrar na guerra.

    Não sei se você percebeu, mas essa sua tese simplesmente confirma a ideia de que a entrada dos EUA na guerra -- pressionada por judeus, os quais também queriam o fim do czarismo e a ascensão do bolchevismo -- foi o fator decisivo em precipitar o fim do czarismo.
  • Minarquista  10/04/2017 15:34
    1) Democracia = violência (uns mandarem em outros, seja por qual critério for, é uma forma de violência)
    2) Democracia ilimitada = violência ilimitada
    3) Democracia ilimitada + líder forte = fascismo (o fascismo pressupõe que o líder forte apoiado pelo povo tudo pode)
    4) Democracia ilimitada + líder forte + xenofobia = nazismo (ou algo muito semelhante ao nazismo)

    Infelizmente, a maioria das pessoas hoje defende:
    a) a democracia ilimitada (não reconhecem direitos naturais)
    b) um líder forte (vamos eleger o presidente certo, que vai resolver todos os nossos problemas)
    c) a xenofobia: discriminação dos estrangeiros, através de:
    - ideologia mercantilista: os produtos produzidos por estrangeiros devem ser preteridos em favor dos produzidos por nacionais
    - controle de pessoas: como maioria podemos impedir estrangeiros de passearem, morarem e trabalharem no país
    - controle de capitais: a maioria tem o direito de criar um monte de empecilhos a investimentos em projetos estrangeiros (fora do país)

    Assim, infelizmente, a ideologia dominante hoje é o nazismo - ou algum lixo muito parecido com isso.

    []s
  • Gustavo  10/04/2017 17:06
    Brasil = Xenofobia ?
    Nazismo = Democracia (democracia ilimitada!) ?
    Brasil = Nazista ?

    O LSD que estão distribuindo por aí realmente está muito pesado.
  • Minarquista  10/04/2017 18:04
    Olá Gustavo:

    Você está confundindo tudo. A suas igualdades são totalmente inválidas. Por favor, se atenha às minhas.

    1) Xenofobia:
    Em nenhum momento mencionei o Brasil. A xenofobia hoje existe na cabeça da maioria das pessoas, independente de onde elas moram. Ela se manifesta no controle de mercadorias, pessoas e capitais nas fronteiras.
    Que direito a maioria tem de me impedir de comprar um produto estrangeiro? Só porque é produzido por uma pessoa que fica atrás de uma linha imaginária? Isso é discriminar a pessoa que mora além dessa linha. E fere a minha liberdade de comprar o que eu quiser com o fruto do meu trabalho.
    Que direito a maioria tem de me impedir (ou dificultar) de investir o meu dinheiro onde eu quiser? O meu dinheiro me pertence e o invisto onde eu quiser.
    Que direito tem a maioria de uma certa região (chamem de país se quiserem) de me impedir de morar e trabalhar onde eu quiser? Posso comprar uma casa onde eu quiser. E se eu comprar a casa, devo poder morar nela.

    2) Democracia
    A democracia é limitada pelos direitos naturais.
    A democracia ilimitada significa a violação dos direitos naturais (violência). Por isso democracia ilimitada = direito ilimitado da maioria sobre minha vida (ou corpo), liberdade e propriedade. Portanto a democracia ilimitada permite e estimula a violência sem limites da maioria contra a minoria. Podem ser brancos contra negros, alemães contra judeus, pobres contra ricos, etc. O caso mais típico atualmente é a maioria mais pobre querer viver às custas do fruto do trabalho da minoria mais rica. Pode ser 60% contra 40%; 90% contra 10% ou 99% contra 1%. Tanto faz. É roubo do mesmo jeito.
    A maioria, em princípio, não tem o direito de violar minha vida, liberdade e propriedade.

    3) Nazismo
    Dizer que Brasil = Nazismo é uma prosopopéia. Seres inanimados não têm opinião. Somente indivíduos podem ter opiniões.
    Agora, se você quis dizer que a ideologia dominante no Brasil se assemelha ao nazismo, eu diria que há vários pontos em comum entre a ideologia dos alemães dos anos 30, com a ideologia das pessoas no Brasil hoje.
    Os pontos em comum mais evidentes são:
    1) crença na democracia ilimitada: toda e qualquer ação do estado seria legítima, desde que apoiada pela maioria.
    Isso justificaria o roubo da propriedade alheia na forma de impostos para qualquer finalidade que a maioria deseje. Isso viola claramente os direitos naturais e, portanto, é absolutamente falso.
    2) acreditar que as pessoas que nasceram dentro da fronteira têm mais direitos do que as que nasceram fora. Isso justifica impostos, quotas e demais barreiras à importação; controles de imigração; subsídios à indústria "nacional"; etc.
    Todos os serem humanos nascem com direitos civis iguais. Então todos - inclusive os "estrangeiros" - têm os mesmos direitos. Inclusive de morar onde queiram, de comprar e vender o que quiserem para quem quiser comprar.
    3) achar que o problema são os líderes e não o sistema. Assim, a solução é simples: eleger os líderes certos. É só parar de votar nas pessoas do PT, e eleger um líder melhor (mais competente e honesto), que tudo magicamente se resolve... Um líder forte, com poderes grandes o suficiente para, como o apoio da maioria, resolver todos os problemas.
    Infelizmente, o buraco é mais embaixo. É preciso mudar o sistema. É preciso limitar a ação do estado (e da maioria) sobre as pessoas. Num governo mínimo, os governantes terão tão pouco poder, que sua ação dificilmente fará grande diferença...
    A solução é justamente o oposto do senso comum: líderes quase sem poderes; poder do estado o mais limitado possível.

    []s
  • Minarquista  10/04/2017 18:51
    Ah: só para apimentar um pouco mais o debate:

    Hitler foi eleito pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.
    A maioria das pessoas que conheço tem ideias nacionalistas, socialistas e trabalhistas...

    A CLT foi inspirada fortemente na Carta di Lavoro, a lei trabalhista do Mussolini...
    A maioria das pessoas que conheço é "contra" a abolição dos "direitos" nela estabelecidos...

    Será que, realmente, as ideias nazistas e fascistas não estão na cabeça da maioria das pessoas à nossa volta?

    []s
  • Jango  10/04/2017 18:59
    Ia comentar a mesma coisa. A capacidade que alguns indivíduos possuem de misturar tudo é impressionante.

    A maioria até pode ser xenofóbica (não sei e ninguém deve saber), mas graças à maioria dos governos, as pessoas estão sendo forçadas faz tempo de conviverem num mesmo território com que não querem. www.mises.org.br/Article.aspx?id=2456 - www.mises.org.br/Article.aspx?id=2468

    E misturar protecionismo com xenofobia é outro absurdo. Quase nenhuma pessoa comum vê problemas em consumir produtos feitos em outro lugar. Quem adora Protecionismo são políticos, mas não por uma questão de Xenofobia e sim porque estão pensando no seu próprio bolso.

    Nazi-fascismo com "democracia ilimitada" foi a mais.
  • Minarquista  10/04/2017 19:48
    Caro Jango:

    Obrigado pela resposta.

    Então a maioria pode decidir se eu posso ou não vender a minha casa para um estrangeiro? Caro: a casa é minha e posso, em princípio, vendê-la para quem eu quiser... E quem a comprar deve poder usá-la, morar nela...
    É preciso um motivo muito forte para a maioria das pessoas de uma região impedir alguém de morar onde queira...
    Isso seria legítimo em casos muito excepcionais, como se tratando de um criminoso, etc...

    Quanto ao segundo artigo, concordo plenamente: a melhor organização é a de cidades estado. Assim, as pessoas serão livres para escolherem se mudar para o estado que quiserem.

    Isso é o exato oposto de a maioria ter o direito de proibir os estrangeiros de se mudarem para lá. Se todas as cidades estado impedirem a entrada de estrangeiros, a liberdade das pessoas ficará muitíssimo limitada. Imagine você poder circular livremente somente no município onde nasceu...

    Com certeza o melhor modelo são cidades estado, desde que a circulação de pessoas, mercadorias e capitais seja totalmente livre.

    Os empecilhos ao livre trânsito de pessoas, mercadorias e capitais são imorais, e reduzem a liberdade dos indivíduos.

    Quanto à ideologia nazi-fascista, por favor, veja minha provocação no comentário anterior...

    []s


  • Ninguem Apenas  14/04/2017 22:21
    Leandro,

    Um dos maiores argumentos a favor do socialismo foi que a condição de vida dos soviéticos, ainda que ruim, melhorou após o fim do Império Russo quando se formou a URSS. Dizem que o Império Russo vivia sobre uma espécie de feudalismo e escravismo total, e que a URSS ainda que com seus problemas melhorou o padrão de vida no geral.

    Essa "desculpa" me soa bem parecida com a forma com que os cubanos veem o período anterior ao golpe de estado, onde realmente sabemos que a condição apenas piorou. Existe algo de verdadeiro nisso? houve alguma melhoria de padrão de vida, mesmo no período da NEP e do governo provisório ou é só mais uma falácia?
  • Historiador  15/04/2017 01:18
    Não. É só falácia. Quem diz isso tem como referência a Rússia do inicio do século XX que saiu de duas guerras seguidas (uma civil e uma mundial). Qual país do mundo sai de guerra sem ter o povo passando fome?

    Mais: repare nestas fotos a cores tiradas daquela época: Além das crianças e dos adultos estarem corados, e os diferentes povos estarem em harmonia, o Império Russo antes do comunismo tinha algo que os soviéticos NUNCA TIVERAM: Liberdade para empreender e produzir, e COMIDA.

    spotniks.com/29-fotos-inacreditaveis-da-russia-antes-da-revolucao-socialista/

    Nos cinqüenta anos que antecederam a revolução comunista, a economia russa foi a que mais cresceu na Europa, deixando longe a Inglaterra e a Alemanha que então pareciam ser as encarnações mesmas do progresso e das luzes, e só encontrando rival do outro lado do oceano, nos Estados Unidos da América. Se o regime czarista não tivesse sido destruído pela I Guerra Mundial e pela subseqüente ascensão dos comunistas, o simples crescimento vegetativo da economia teria acabado por dar aos russos, por volta de 1940, um padrão de vida comparável ao dos americanos.

    Em contraste com isso, na União Soviética dos anos 80 o cidadão médio consumia menos carne do que um súdito pobre do tzar um século antes e tinha menos acesso a automóveis, assistência médica e serviços públicos em geral do que os negros sul-africanos vivendo sob o regime humilhante do apartheid. Nada está na realidade política de um país que não esteja primeiro na sua literatura.

  • Ninguem apenas  15/04/2017 19:44
    Hitoriador,

    Muito obrigado pela resposta, as fotos estão incríveis, obrigado!

    É uma pena que essa literatura explicando o crescimento do Império Russo e os problemas vindos eu simplesmente não encontro, existe o livro negro do comunismo, e outros que mostram o desastre que foi o comunismo, também existe a literatura socialista que diz a tal 'falácia' acima refutada. Mas existe algum livro que mostra o outro lado? Um livro que afirme que o Império Russo só crescia e que alcançariam o EUA?

    Eu aprendi na escola que foi o ataque do Czar que colocou o exército pra enfrentar a população que estava fazendo uma passeata pacífica pedindo melhores condições de trabalho e o fato do Império Russo ter perdido a guerra com o Japão e a primeira guerra mundial também, que deram início a Revolução Russa. Mas hoje eu imagino, será que a passeata era realmente pacífica? e "melhores condições de trabalho" não é exatamente aquilo que os bolcheviques diziam lutar?

    Eu agradeceria muito se me indicassem livros em português, espanhol ou inglês sobre o assunto. Desde já, agradeço!
  • Ninguem Apenas  16/04/2017 15:54
    Pessoal do IMB ou Leandro, alguem possui uma literatura hitórico-economico tratando desse assunto? de preferencia de ponto de vista libertário e tratando da economia do Império Russo.
  • Emerson  16/04/2017 16:12
    Pode começar pelo capítulo 9 deste livro, escrito pelo historiador Ralph Raico.
  • Ninguem Apenas  16/04/2017 19:04
    Muito obrigado, lerei!


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