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Liberdade e guerra - uma breve história


Saul atacando David (1646)
Guercino (1591—1666)

Em seu livro A Anatomia do Estado, Murray Rothbard escreveu:

Assim como as duas interrelações humanas básicas e mutuamente exclusivas são a cooperação pacífica ou a exploração coerciva — produção ou depredação —, a história da humanidade, em particular a sua história econômica, também pode ser considerada uma disputa entre estes dois princípios. 

Essa disputa tem sido unilateral.  No mundo antigo, impérios dominavam a vida política. Sistemas impiedosos baseados na escravidão, no roubo e na guerra eram a regra ao redor do mundo.  Uma exceção, em um território rodeado por impérios desse tipo, eram as tribos de Israel.  Mesmo alertados pelo próprio Deus sobre a miséria que enfrentariam caso renunciassem voluntariamente à liberdade que gozavam sob o regime descentralizado dos juízes em favor de um rei terreno que os governasse, eles clamaram pela própria escravização.  É instrutivo que a recompensa que os israelitas julgavam justa não obstante seu alto preço fosse a de ter um rei que os liderasse em batalha.  Tendo Saul como rei, Israel não mais desfrutou de períodos de paz como quando sob a liderança dos juízes; esteve constantemente em guerra.  Como Samuel havia alertado, Saul tomou seus filhos como soldados, suas filhas e seus empregados como escravos, suas melhores terras, suas colheitas e seus rebanhos, assim reduzindo os israelitas à servidão.[1]

Os israelitas não seriam o último povo a sucumbir ao canto de sereia da guerra.  A respeito da importância da guerra como um instrumento para o engrandecimento do poder do estado em sua disputa contra a liberdade, Rothbard escreveu:

Em uma guerra, o poder do estado é levado ao extremo, e sob os slogans da "defesa" e da "emergência", ele pode impor uma tirania ao público que, em tempos de paz, enfrentaria franca e aberta resistência.  Desta forma, a guerra provê muitos benefícios a um estado e, de fato, todas as guerras modernas trouxeram aos povos envolvidos um permanente legado de maiores encargos estatais sobre a sociedade. 

A guerra não apenas amplia enormemente as transferências de riqueza da sociedade para o estado para que este fortaleça seu regime, como também promove a ideologia pró-estado.  Como o estado vive parasiticamente da produção de seus hospedeiros, aqueles que se beneficiam destas transferências de riqueza devem ser sempre uma minoria da população.  As vítimas do estado têm de ser a maioria e, portanto, sua aceitação da depredação promovida pelo estado deve ser cuidadosamente engendrada, caso contrário será o fim desse mesmo estado.

A legitimidade do estado deve ser fabricada e mantida por meio da ideologia.  Do despotismo oriental à hegemonia americana, o estado nunca falhou em atrair, com seu poder e riqueza, aqueles que se esforçassem para criar sua apologia.  Mas mesmo toda a litania de alegações — que nossos governantes são sábios e seus governos são beneficentes, que nossos governantes nos protegem de perigos terríveis, que nossos governantes mantêm a coesão social, que nossos governantes preservam a tradição gloriosa de nossos ancestrais, que nossos governantes incorporam os interesses da sociedade, que nossos governantes são designados por Deus, que nossos governantes trazem ciência e razão à sociedade, que nossos governantes são capazes de controlar a economia e assim por diante — nunca conseguiu explicar como é possível transformar hegemonia em associação voluntária, tributação em oferenda espontânea, coerção em liberdade de escolha, homicídio em massa em defesa, regulação econômica em prosperidade e enriquecimento de todos.  Se o estado é a fonte de onde jorram todas as benesses sociais, então por que seus apologistas estão sempre tentando fortalecer seu poder instigando um sentimento de culpa nos bem sucedidos e de inveja nos mal sucedidos?

Nós libertários conseguimos ver através das mentiras e dos sofismas da ideologia pró-estado porque soubemos aceitar a verdade promovida por aqueles que sempre defenderam a liberdade.  Extrapolando da nossa experiência, podemos ver que a ideologia antiestado é condição necessária para se estabelecer e manter a liberdade.  As vantagens que ela tem sobre a ideologia pró-estado são que, primeiro, ela apela aos interesses da maioria, e segundo, ela se apóia na verdade a respeito da natureza da ação humana.  Ao passo que a liberdade é consistente com a ação humana, o estado está fundamentado em uma flagrante contradição, a saber: a ideia de que a única maneira de haver uma instituição que proteja nossos direitos é criando uma instituição que se baseie totalmente na própria violação dos nossos direitos.

Os antigos israelitas seguiam uma ideologia que possuía muitas das qualidades necessárias para manter o poder estatal restringido, como, por exemplo, uma lei superior à qual todo homem estava sujeito, e um sistema de governo descentralizado. Por algumas gerações, os reis de Israel foram um tanto quanto contidos pela lei superior. Mas a perversidade dos reis posteriores foi aumentando, a lei superior acabou sendo finalmente abandonada, e as liberdades dos israelitas foram extintas.[2]

Levaria muitos séculos para que o mundo testemunhasse outra faísca de liberdade.  Ela foi acesa sob Sólon, em Atenas, e sua brasa brilhou mais vivamente durante o reinado de Péricles.  Mas a liberdade durou somente enquanto Péricles e sua geração estiveram vivos.  De acordo com Lord Acton, o sistema ateniense não foi capaz de proteger as minorias e de colocar o estado sob o domínio da lei.  A democracia de Atenas, no final, levou ao conflito de classes, o que destruiu o sistema.  A Guerra do Peloponeso extinguiu tanto Péricles quanto a chama da liberdade ateniense.[3]

Em Roma, os estóicos redescobriram o conceito de lei superior à qual todos os homens estão sujeitos.  Em sua maior formulação, nas mãos de Cícero, Sêneca e Fílon, os estóicos afirmaram que há uma comunidade universal dos filhos de Deus e que Sua voz deveria ser obedecida.  A liberdade seria alcançada por meio da obediência das leis naturais de Deus. Com uma ideologia melhor que a dos gregos, a nova batalha pela liberdade durou bem mais em Roma do que em Atenas. Mas ela nunca atingiu na prática as elevadas expressões alcançadas na teoria.[4] Como Acton escreveu,

Indivíduos e famílias, associações e dependências eram material mais do que suficiente para o poder soberano consumir para seus próprios objetivos.  O que o escravo era nas mãos de seu mestre, o cidadão era nas mãos da comunidade.  As mais sagradas obrigações desapareceram ante as vantagens públicas. Os passageiros existiam para sustentar o navio.[5]

No auge de seu poder, antes que as guerras do império abortassem sua liberdade e prosperidade embrionárias, Roma encontrou uma esperança de liberdade nos homens livres das comunidades teutônicas.  Quando seus líderes foram convertidos ao cristianismo, eles converteram seu povo.  Após a queda de Roma, seus governos descentralizados persistiram uma vez que a Igreja resistia à centralização do poder estatal, permitindo um longo período de incubação para o nascimento da liberdade.[6]

A vez da liberdade chegou durante o século X, quando os escandinavos interromperam suas invasões agressivas à Europa e passaram a praticar o livre comércio de forma pacífica.  No século seguinte, o Mediterrâneo estava seguro para a navegação europeia. Veneza e as cidades do norte da Itália prosperaram expandindo suas rotas comerciais e levando a divisão do trabalho às cidades do interior.  As cidades hanseáticas fizeram o mesmo no norte da Europa. Como escreveu Henri Pirenne, a Europa tornou-se uma região de cidades construídas pelo capital.[7]

O florescimento do comércio na Europa foi fortalecido pelo desenvolvimento de uma ideologia pró-liberdade, elevada a um apogeu inédito pela doutrina cristã do indivíduo. O próprio Deus havia encarnado e vivido como um homem.  Jesus Cristo sofreu e morreu para assegurar a salvação de cada indivíduo.  No Céu, Deus glorificará cada pessoa com um corpo espiritual para viver em comunhão com Ele e com o próximo. Nações prosperam e entram em decadência, mas o indivíduo viverá pela eternidade.

Como mostrou Harold Berman, no século XI a Igreja reformulou o direito canônico em linhas mais favoráveis à propriedade privada e ao contrato. A lei canônica funcionou como um fermento para os diferentes sistemas legais, tanto o civil quanto o comercial.[8]  Berman escreveu:

Talvez a característica mais distintiva da tradição legal ocidental seja a coexistência e a competição dentro da mesma comunidade de jurisdições diferentes e de sistemas legais diferentes. É essa pluralidade de jurisdições e sistemas legais que torna a supremacia da lei necessária e possível.

O pluralismo legal originou-se na diferenciação entre o governo eclesiástico e os governos seculares.  A Igreja declarou sua independência do controle secular, sua jurisdição exclusiva em determinados assuntos, e sua jurisdição concorrente em outros assuntos ... A lei secular, por sua vez, estava dividida em vários tipos concorrentes, incluindo a lei real, a lei feudal, a lei senhorial, a lei urbana, e a lei comercial.[9]

Na medida em que a proteção legal da propriedade privada ia sendo lenta mas decisivamente ampliada da Igreja e dos mercadores para qualquer indivíduo, o progresso econômico foi levado às massas.  A pequena revolução industrial, engendrada pela proteção da propriedade privada e dos contratos, atraiu a atenção de estudiosos que queriam explicar o funcionamento da economia florescente.  Jean Buridan e Nicholas Oresme escreveram trabalhos no século XIV explicando a atividade econômica tendo como moldura a sociedade como uma ordem natural surgida do funcionamento das leis que Deus imprimiu à natureza das coisas.  A lei natural também formou a base para leis feitas pelo homem na alta Idade Média.  Como Berman escreveu,

Na era formativa da tradição jurídica ocidental, a teoria da lei natural predominou.  Era consenso geral que o direito humano, em última análise, derivava, e deveria ser aprovado, pela razão e pela consciência.  De acordo não apenas com a filosofia do direito da época, mas também com o próprio direito positivo, qualquer lei positiva, fosse ela editada ou baseada em costumes, deveria estar em conformidade com a lei natural, caso contrário ela careceria de validade como lei e poderia ser ignorada.  Esta teoria era baseada tanto na teologia cristã quanto na filosofia aristotélica.  Mas ela também estava baseada na história da luta entre autoridades eclesiásticas e seculares, e na política do pluralismo.[10]

Quando irrompiam guerras no contexto desta ideologia cristã pró-liberdade, elas meramente desaceleravam, em vez de interromperem por completo, o ímpeto da liberdade.  A Guerra dos Cem Anos veio para consolidar o poder estatal e fomentar a ideologia pró-estado.  As forças reacionárias eram fortes o bastante para inaugurar a era do absolutismo monárquico.  A ascensão do estado-nação começou a ameaçar a liberdade no Ocidente como até então nada havia ameaçado antes, desde o poder estatal de Roma.  Assim como autores mercantilistas vocalizavam a ideologia pró-estado nos séculos XVI e XVII, os escolásticos tardios revidavam com suas visões pró-liberdade.

A Escola de Salamanca desenvolveu uma visão sobre política e economia fundada na lei natural.  O fundador da escola, Francisco de Vitória, argumentou que todos os indivíduos merecem a mesma proteção legal para suas pessoas e para suas propriedades. Como Tom Woods escreveu,

Vitória afirmou que o homem não podia ser privado da sua capacidade civil por estar em pecado mortal, e que o direito de possuir coisas para uso próprio (isto é, o direito à propriedade privada) pertencia a todos os homens, mesmo que fossem pagãos ou tivessem costumes considerados bárbaros.  Os índios do Novo Mundo eram, portanto, iguais aos espanhóis em matéria de direitos naturais.  Possuíam as suas terras de acordo com os mesmos princípios pelos quais os espanhóis possuíam as deles.[11]

A visão da lei natural dos escolásticos foi elevada por Hugo Grócio em sua obra sobre o direito internacional no século XVII, e a ideologia pró-liberdade foi posteriormente refinada nas obras sobre direitos naturais de Locke e Jefferson nos séculos XVII e XVIII.

A América provou ser terreno fértil para a ressurreição da liberdade.  O poder estatal não foi capaz de reprimir as tendências de pessoas possuidoras de uma ideologia pró-liberdade de viverem respeitando a propriedade privada e os contratos, no território aberto e nos governos descentralizados da América do Norte colonial.  Estados-nações tiveram de se contentar com limitações ao seu poder diante das possibilidades que suas vítimas tinham de escapar de suas depredações.  Durante o seu apogeu no século XIX, o liberalismo clássico espalhou os frutos da liberdade, da paz, da prosperidade e da prosperidade humana.  Mas a ideologia pró-liberdade refinada pelos liberais clássicos não estava livre de impurezas.  Seu defeito fatal estava patente na centralização do poder estatal através da constituição americana, que impunha um formato de estado-nação sobre o sistema de governos descentralizados dos 13 estados. Como Hans-Hermann Hoppe escreveu,

A filosofia política liberal clássica — como personificada por Locke e mais proeminentemente demonstrada na Declaração de Independência de Jefferson — era antes e acima de tudo uma doutrina moral.  Inspirada na filosofia dos estóicos e dos escolásticos tardios, ela estava centrada ao redor das noções de soberania do indivíduo, apropriação original de recursos naturais (sem dono), na propriedade e no contrato como sendo um direito humano universal implícito na natureza do homem enquanto animal racional.  No ambiente de governantes monárquicos (reis e príncipes), esta ênfase na universalidade dos direitos humanos colocou a filosofia liberal em radical oposição a todo e qualquer governo estabelecido.  Para um liberal, todo homem, rei ou aldeão, estava sujeito aos mesmos princípios universais e eternos de justiça.  E um governo, ou ele conseguia justificar sua existência como sendo um contrato entre proprietários privados, ou ele não poderia ser justificado de forma alguma.[12]

Tragicamente, da genuína proposição de que uma ordem social liberal requer que seus membros utilizem violência defensiva para suprimir a agressão contra a pessoa e a propriedade, liberais clássicos incorretamente concluíram que deveria haver um provedor monopolístico dessa violência defensiva.  De acordo com a visão de que o estado é essencial para uma ordem social liberal, os liberais clássicos permitiram que o poder estatal mantivesse um ponto de apoio que ele mais uma vez utilizaria para atacar a liberdade.

Esse momento veio em 1914.  Como Rothbard escreveu,

Mais do que qualquer outro período, a Primeira Guerra Mundial foi o crítico divisor de águas para o sistema empresarial americano.  A economia transformou-se em um "coletivismo de guerra", uma economia totalmente planejada e conduzida amplamente pelos interesses dos grandes negócios e por meio da intervenção do governo central, o qual serviu como o modelo, o precedente e a inspiração para o capitalismo corporativo de estado pelo restante do século XX.[13]

Como um prelúdio para a sua destruição na Grande Guerra, a ideologia pró-estado havia desferido um ataque frontal à liberdade no século XIX.  Hunt Tooley registrou a função das ideologias no ímpeto à guerra em seu livro The Western Front.[14] Como Ralph Raico observou[15] em sua crítica ao livro de Tooley,

Tooley lida habilmente com as correntes intelectuais e culturais da Europa pré-guerra. Contribuindo para a propensão à violência havia o anarco-sindicalismo de Georges Sorel e uma forma degenerada de nietzscheanismo; porém, acima de tudo, havia o darwinismo social — na realidade, somente Darwinismo —, que ensinava o conflito eterno entre raças e tribos de humanos e de outras espécies.

Mesmo na América, a ideologia pró-estado havia conseguido degenerar o pensamento cristão durante a Era Progressista, despindo-o de sua forma pró-liberdade.  Richard Gamble documenta esta degeneração em seu livro The War for Righteousness.[16]  Como Raico escreveu em sua crítica ao livro de Gamble,

Ao final do século XIX, protestantes progressistas, frequentemente influenciados pela Teoria da Evolução, estavam pregando pela transformação sucessiva da igreja, depois da sociedade americana, e finalmente do mundo todo. Ao rejeitar o calvinismo tradicional, eles rejeitaram também a distinção agostiniana entre a Cidade de Deus e a Cidade do Homem.  A Cidade do Homem deveria ser transformada na Cidade de Deus, aqui na Terra, por meio de uma alteração do cristianismo, o qual deveria ser redefinido como uma doutrina socialmente ativista.[17]

A Grande Guerra liberou as forças coletivistas do socialismo e do fascismo ao longo de todo o mundo ocidental. Como Raico escreveu,

A Primeira Guerra Mundial foi o ponto de inflexão do século XX.  Se ela não houvesse ocorrido, os Hohenzollern da Prússia muito provavelmente permaneceriam como chefes da Alemanha, com seu arsenal de reis e nobres subordinados encarregados dos estados germânicos menores.  Com qualquer vitória que Hitler pudesse ter obtido nas eleições do Reichstag, poderia ele ter erigido sua ditadura totalitária e homicida em meio a esta poderosa superestrutura aristocrática?  Altamente improvável.  Na Rússia, os poucos milhares de comunistas de Lênin confrontaram o imenso exército imperial russo, o maior do mundo.  Para que Lênin tivesse qualquer chance de sucesso, aquele exército deveria ser antes pulverizado, que foi exatamente o que os alemães fizeram.  Portanto, um século XX sem nazistas ou comunistas.  Imagine isso.  Foi o ponto de inflexão na história da nação americana, que sob a liderança de Woodrow Wilson transformou-se em algo radicalmente diferente do que havia sido antes.[18]

Em nenhum outro lugar a transformação radical foi mais evidente do que no direito.  A tapeçaria legal do Ocidente, tecida por mais de um milênio, foi esgarçada e fendida na Primeira Grande Guerra.  Harold Berman escreveu,

Quando os diferentes regimes legais de todas essas comunidades — locais, regionais, nacionais, étnicas, profissionais, políticas, intelectuais, espirituais, e outras — são engolidos pela legislação do estado-nação ... [isso] é, de fato, o maior perigo representado pelo nacionalismo contemporâneo.  As nações da Europa, que se originaram de sua interação umas com as outras no contexto da cristandade ocidental, tornaram-se cada vez mais separadas entre si no século XIX.  Com a Primeira Guerra Mundial, elas se separaram violentamente e destruíram os laços comuns que as haviam mantido previamente ligadas, ainda que frouxamente.  E, no final do século XX, ainda sofremos com a historiografia nacionalista originada no século XIX, que apoiou a desintegração do patrimônio legal comum ao Ocidente.[19]

Mesmo na terra onde a liberdade ardia com maior brilho, a guerra provou ser uma força potente para o retrocesso. Como Rothbard escreveu,

Historiadores têm geralmente tratado o planejamento econômico da Primeira Guerra Mundial como um episódio isolado, ditado pelas necessidades da época, e tendo pequena significância posterior.  Mas, ao contrário, o coletivismo de guerra serviu como uma inspiração e um modelo para um temível conjunto de forças destinadas a moldar a história da América no século XX.[20]

A Primeira Guerra Mundial destruiu a economia mundial que havia sido construída durante o século XIX sob o liberalismo clássico.  Como Maurice Obstfeld e Alan Taylor demonstraram em seu livro Global Capital Markets: Integration, Crisis, and Growth, o nível de integração da economia mundial subiu de moderadamente baixo em 1860 para moderadamente alto em 1914.  A Grande Guerra desintegrou a economia mundial, retornando-a a um nível substantivamente abaixo daquele vigente em 1860.  E ao final da Segunda Guerra Mundial (que foi uma continuação da Primeira Guerra Mundial), o nível de integração era metade do nível de 1860.  O nível de integração da economia mundial só foi superar aquele de 1914 no século XXI.[21]  Os governos levaram 70 anos para realizar aquilo que a liberdade fez em questão de dias.

A Grande Guerra destruiu o padrão-ouro clássico e introduziu uma era de moedas fiduciárias de papel. Hiperinflações e depressões foram o resultado.  Como Steve Hanke e Nicholas Krus documentaram, dos 56 episódios de hiperinflação da história apenas um ocorreu antes de 1920.[22]  E como George Selgin, William Lapstras e Lawrence White demonstraram, os cem anos de política monetária do Federal Reserve resultaram em mais instabilidade econômica e financeira do que o menos insolvente sistema bancário americano existente antes de o Fed ser criado.[23]

A Grande Guerra aniquilou o mundo liberal clássico e iniciou um século de ascensão do estado coletivista.  A civilização ocidental, tendo dado à luz a liberdade e a alimentado, sacrificou sua cria antes que ela tivesse tido a oportunidade de atingir a maturidade ao redor do mundo.  Em vez de liberdade, a hegemonia americana espalhou o corporativismo pelos quatro cantos da Terra.

Como nós, nossos predecessores trabalharam para divulgar a ideologia pró-liberdade durante dias negros, quando a liberdade havia sido eclipsada pelo poder estatal.  Sua estratégia envolvia a criação de instituições independentes.  Christopher Dawson, em seu livro The Crisis of Western Education, demonstrou que os movimentos intelectuais da Renascença e do Iluminismo se desenvolveram ao largo do estado.  Dawson escreveu,

Na Inglaterra e nos Estados Unidos, a tradicional relação entre a igreja, a escola e o sistema medieval de independência corporativa conseguiu sobreviver, não obstante os ataques de reformadores políticos e educacionais.  Os abusos do antigo sistema e a negligência da educação primária certamente não eram menos flagrantes na Inglaterra do que no continente europeu.  Mas a força do princípio do livre-arbítrio e a ausência de um estado autoritário fizeram com que o movimento reformista na Inglaterra seguisse um caminho independente e criasse suas próprias organizações e instituições.[24]

Para restaurar a liberdade em nossa era, devemos erigir empreendimentos genuinamente privados e instituições educacionais independentes.  Por meio de organizações como o Mises Institute, podemos fazer a nossa parte no século XXI para reverter essa maré do estatismo coletivista que se ergueu no século XX, exatamente como nossos predecessores fizeram ao reverter o absolutismo no século XVIII.  Não devemos repetir seus erros.  Desta vez, nossa ideologia pró-liberdade deve abraçar suas implicações lógicas e rejeitar completamente a ideia de estado. Somente assim pode todo o potencial da vida, da liberdade e da propriedade ser concretizado na prosperidade de toda a raça humana.



[1] I Samuel 8.

[2] I Reis e II Reis.

[3] Lord Acton, Essays in the History of Liberty, Vol. 1, (Indianapolis: Liberty Classics, 1985), pp. 12-13.

[4] Acton, Essays in the History of Liberty, pp. 24-25.

[5] Acton, Essays in the History of Liberty, p. 18.

[6] Acton, Essays in the History of Liberty, pp. 30-33.

[7] Henri Pirenne, Medieval Cities (Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1925); idem, Economic and Social History of Medieval Europe (London: Routledge, 1936); and Acton, Essays in the History of Liberty, pp. 35-36.

[8] Harold Berman, Law and Revolution (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1983).

[9] Berman, Law and Revolution, p. 10.

[10] Berman, Law and Revolution, p. 12.

[11] Tom Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (São Paulo: Quadrante, 2010),

[12] Hans Hoppe, Democracy, the God that Failed (New Brunswick, N.J.: Transaction Publishers, 2001), p. 225.

[13] Murray Rothbar, War Collectivism: Power, Business, and the Intellectual Class in World War I (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2012), p. 7.

[14] Hunt Tooley, The Western Front: Battle Ground and Home Front in the First World War (New York: Palgrave McMillan, 2003).

[15] Ralph Raico, Great Wars and Great Leaders: A Libertarian Rebuttal (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2010), p. 230.

[16] Richard Gamble, The War for Righteousness: Progressive Christianity, the Great War, and the Rise of the Messianic Nation (Wilmington, Del.: ISI Press, 2003).

[17] Raico, Great Wars and Great Leaders, p. 193. Itálicos no original.

[18] Raico, Great Wars and Great Leaders, pp. 1-2.

[19] Berman, Law and Revolution, p. 17.

[20] Rothbard, War Collectivism, pp. 34.

[21] Maurice Obstfeld and Alan Taylor, Global Capital Markets: Integration, Crisis, and Growth (Cambridge: Cambridge University Press, 2004).

[22] Steve Hanke and Nicholas Krus, "World Hyperinflations," Cato Working Paper (Washington: Cato Institute, 2012). A exceção foi na França, durante a Revolução, em 1795.

[23] George Selgin, William Lastrapes, and Lawrence White, "Has the Fed Been a Failure?" Cato Working Papers (Washington: Cato Institute, 2010).

[24] Christopher Dawson, The Crisis of Western Education (Steubenville, Oh.: Franciscan Press, 1989), p. 67.


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autor

Jeffrey Herbener
é professor de economia no Grove City College.


  • Fabio  03/12/2013 12:07
    Magistral!

    Cada palavra desse artigo foi um verdadeiro deleite para o intelecto.
  • André Luiz  03/12/2013 12:09
    Este artigo acaba de entrar na minha lista top 10, e está em análise pra ver se entra na lista top 5.

    E essa frase é simplesmente espetacular:

    "Se o estado é a fonte de onde jorram todas as benesses sociais, então por que seus apologistas estão sempre tentando fortalecer seu poder instigando um sentimento de culpa nos bem sucedidos e de inveja nos mal sucedidos?"
  • Lúcio   03/12/2013 12:16
    André, fiquei curioso para saber quais artigos integram essa sua lista.
    Poderia informá-los?
  • André Luiz  03/12/2013 12:24
    Lúcio, de cabeça posso citar um do Hoppe (a origem da propriedade privada e da família), dois do Rothbard (o igualitarismo é uma revolta contra a natureza e a filosofia política de Étienne de la Boétie), um do de Soto (liberalismo clássico versus anarcocapitalismo), um do Sennholz (monopolio bom e monopólio ruim), um do Rockwell (a burguesia e suas virtudes cardinais; o estado e seus pecados capitais).

    Os do Tucker são muito bons pra convencer iniciantes, e os do Leandro são os melhores para explicar conceitos básicos de economia (aqueles da SELIC e das privatizações eu releio sempre que posso).

    Tem um do "Alceu Garcia", que não está publicado no site do IMB (a teoria econômica de Lord Keynes e a ideologia triunfante de nosso tempo), que eu acho sensacional.

    Eis os links:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1037

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1206

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1197

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=482

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1057

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1176

    www.mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=67&type=articles

    www.mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=79&type=articles

    www.olavodecarvalho.org/convidados/0138.htm

    Abraço.
  • Renato  03/12/2013 12:10
    Sábio este texto. O autor faz diferença entre os impérios totalitários, e os governos descentralizados, que via de regra permitem muito mais liberdade às pessoas. Interessante a compreensão do autor sobre o momento em que os EUA mudaram o registro, de uma nação onde o normal era a liberdade para uma nação centrada no estado. Eu nunca havia percebido isso, como a Primeira Guerra foi o ponto de inflexão do mundo, de volta aos caminhos do totalitarismo.

    Achei a visão do autor sobre a alta idade média demasiadamente otimista. Até onde me é dado conhecer, foi um período de menos liberdade que o século XIX.

    Quanto ao início da idade moderna, conhecendo agora um pouquinho dos escolásticos tardios, através do IMB, reconheço a imensa liberalidade de suas idéias. Mas é certo que essas idéias foram muito pouco aplicadas na própria nação espanhola, onde viviam muitos desses pensadores. Ao contrário, a Espanha foi a encarnação do mercantilismo no início da idade moderna. E nunca deixou de ser mercantilista. Mas, por algum motivo, tenho esperança de que a Espanha ainda será uma luz de liberdade para o mundo. Eles tem uma tradição que teria evitado muitos dos grandes males da humanidade, se fosse aplicada. Imagino que no futuro, talvez muitos espanhóis se deem conta disso.
  • Ismael Santos  03/12/2013 12:25
    "De degrau em degrau, vamos descendo ao grunhido" disse em entrevista o saudoso Saramago referindo se aos 140 caracteres do Twitter e a tendência na internet em tornar-se os diálogos cada vez mais simples.

    Com todo respeito ao escritor, mas os artigos aqui do Mises como este, são exemplos aplaudíveis de como é possível encontrar boa informação no ambiente virtual, e de como alguns minutos de leitura ou releitura possam ser tão construtivos e gratificantes.

    Um segundo aplauso é sobre uma indignação que eu tinha quando pensava - O que ainda faltaria surgir para impactar os 'mistérios' da ideologia cristã? Seriam novas descobertas antropológicas? Ossadas disso ou daquilo? - No entanto, nunca pensei (e para uma maravilhosa surpresa) que relatos ou personagens bíblicos pudessem ser analisados sob o olhar da economia, mais especificamente uma Escola de Economia que ousadamente descarta pra lixeira muito do que se escreveu de economia até hoje.
    Isso vale mais do que pesquisadores fazendo análises de Carbono 14 sobre mantos sudários, não desmerecendo o trabalho de qualquer intelectual. Mas este artigo está sim de parabéns pelo seu valor inestimável que acrescenta às análises histórico-sociais.

    Compreensível o desabafo que Saramago tenha feito das tolices das redes sociais. Mas bom saber que aqui neste degrau (o Mises, e inclusive seu espaço de comentários) não estamos fatídicamente nos direcionando para a eclosão da comunicação.

    Parabéns ao autor e a quem nos prestigia com a oportunidade (tradução)do artigo!
  • Pobre Paulista  03/12/2013 12:26
    Sendo Cristão, gostei de ver o autor citar Samuel 8 para demonstrar alguns princípios de liberdade. Sempre utilizo esse artigo para mostrar às pessoas que o estado não é coisa de Deus, e sim coisa de Homem, portanto falho por natureza.

    No entanto em diversas discussões a respeito as pessoas insistem em citar Romanos 13, focando a argumentação sempre em torno de "Toda autoridade provém de Deus". Tento contra argumentar que o Estado não é autoridade, uma vez que se baseia em princípios de violência para se auto estabelecer, mas as pessoas em geral não aceitam essa argumentação. Tento também mostrar que a mesma lógica que diz que o estado é autoridade sobre o cidadão permite inferir que um estuprador é autoridade sobre a estuprada, um assassino é autoridade sobre a vítima e assim por diante. Obviamente sou taxado de anarquista louco nessas horas e a discussão produtiva cessa por completo.

    Enfim, alguém por aqui conhece algo mais a respeito do estudo da liberdade segundo a palavra de Deus? Eu me interesso muito sobre o assunto mas vejo poucos autores a comentar, por isso fiquei contente de ver alguma coisa nesse texto.

    Obs: aos que não creem na palavra Deus: favor não se incomodar em responder esse post.
  • mauricio barbosa  03/12/2013 15:02
    Pobre Paulista tento mostrar aos mesmos que se toda autoridade provém de Deus e deve ser respeitada,nós devemos sim respeita-la,mas,somente naquilo que esta autoridade não contrarie a palavra de Deus. Exemplo:Nero enquanto imperador e criador de leis justas merecia respeito dos cristãos,mas ao editar leis proibindo a pregação do evangelho não merecia respeito nenhum, tanto é que em seu governo a perseguição era feroz e nem por isso o evangelho deixou de ser pregado ou seja em um mundo sem estado a autoridade será transferida para aqueles que voluntariamente você eleger como tal,e se não fosse assim então até hoje o império romano estaria dando as cartas em todo o mundo(Afinal a autoridade provém de Deus,mas as instituições humanas são passageiras e o IMB mostra isso com autoridade ).
  • Pobre Paulista  03/12/2013 18:49
    Mauricio, sua visão é essencialmente o discurso Calvinista, que inclusive pregou desobediência civil no caso das leis dos homens estarem em desacordo com a Palavra.

    No entanto não chegamos ainda ao cerne da questão: como legitimar a autoridade de Julio César, ou qualquer estado, nesse contexto, visto que ela é baseada em princípios de violência e coerção? Pode ESSA autoridade vir de Deus? No meu ponto de vista, não, pois um cidadão qualquer não o direito de negar essa autoridade: alguém, em nome do estado (ou de Julio César) irá necessariamente o privar de minha liberdade, ou confiscar seus bens, ou fazer alguma sorte de maldade com ele. Ora, se isso é autoridade, então um sequestrador é autoridade sobre o sequestrado! Essa autoridade vem de Deus?

  • mauricio barbosa  03/12/2013 19:54
    Pobre Paulista se a autoridade usa a justiça em suas ações devemos sim respeitar,agora o estado nos moldes atuais está longe de praticar a justiça.Portanto hoje defendo o fim dele,a sua substituição por instituições voluntárias,eleitas pacificamente ou seja não serão votadas mas aceitas ou contratada de preferência,e tais autoridades aceitas pacificamente ou contratadas para tal mister igual a câmaras de arbitragens atuais que são contratadas,ela serão perfeitamente representante de Deus,relembrando se agirem com justiça e imparcialidade sempre e sempre com certeza terão a benção de Deus,agora se agirem com injustiça e parcialidade com certeza não terão a benção de Deus,isso é bíblico.
  • Pobre Paulista  06/12/2013 12:30
    Acabei achando um artigo bom por aqui no Mises mesmo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=781
  • Andre Cavalcante  03/12/2013 15:13
    Paulista,

    Das várias definições de Deus, uma da que mais gosto, até porque não é antropomórfica, é a de que Deus é a causa primária, isto é, a causa que não tem causa. Isso é meio filosófico. É baseado em uma evidência lógica: todo efeito tem uma causa. Aquilo que nós vemos tem uma causa. A própria luz tem uma causa. O Universo, como um todo tem uma causa. A seta do tempo é a evidência de que os eventos sucessivos são efeito um do outro, sendo os antigos a causa dos atuais. E, assim, sucessivamente, até a origem de tudo. Deus seria aquilo que colocou tudo em movimento e Ele próprio não teria uma causa (se possível). E é, por isso, é perturbador a ideia de um Big Bang para o início do tempo e do espaço - é muito próximo da passagem bíblica do fiat lux, e, como não há tempo no big bang, não há sucessão de eventos, portanto ele seria a causa primária (ou o que gerou o big bang). Dá um nó na mente eu sei...

    Por causa da definição acima é que concordo com a passagem "Toda autoridade provém de Deus", porque, sendo a causa primária, é aí que está a lei natural. Do ponto de vista da matéria, essas leis são as leis que a física e a química estudam. Do ponto de vista moral, essas leis são as de ordem ética e moral (talvez as que devessem ser estudadas pelas religiões - aqui no sentido literal re-ligare, de religação com Deus, porque tal ligação foi perdida em algum momento da história do ser). Cabe ao homem, portanto, a descoberta destas leis, que são, por definição, válidas para todos e, se são válidas para todos, não há preferências na natureza por quem quer (ou que quer) que seja.

    De fato esse é o único pensamento que pode ser extrapolado para um eventual 1º contato com inteligências extraterrestres (já pensou nisso e o porque a Igreja Católica começa a se preocupar com o tema?)

    Há mais coisas nessa discussão, mas aqui já há muito material para uma boa discussão.
  • Arthur  03/12/2013 20:56
    Andre,
    a seguinte passagem:
    "Deus é a causa primária, isto é, a causa que não tem causa"
    foi retirada do livro Leviatã, de Hobbes?

    Obrigado
  • anônimo  04/12/2013 10:04
    'É baseado em uma evidência lógica: todo efeito tem uma causa.'

    Não necessariamente, existem várias correntes que dizem que o universo sempre existiu.
    E depois, se Deus é a causa primária, então essa lei está errada, e se ela está errada isso abre espaço pra várias outras possibilidades, entre elas, essa de que o universo sempre existiu
  • Gil Garçoa  03/12/2013 12:27
    Sou novato nas leituras do instituto Mises. É tudo novo, diferente, muito longe das nossas escolas, e das nossas vidas. Continuem. Parabéns.
  • Emerson Luis, um Psicologo  03/12/2013 13:14

    Artigo profundo e surpreendente, mesmo já tendo visto parte dessas informações em outros posts.

    Algumas observações:

    1- O cristianismo começou a se dividir e a se degenerar depois dos apóstolos, mas o que o corrompeu de vez foi ter sido estatizado no século IV.

    2- O catolicismo foi a religião estatal da Europa por séculos;

    3- Por que a religião é tão dinâmica nos EUA e tão morna (para não dizer morta) na Inglaterra e outros países europeus? Porque nos EUA existe separação entre Igreja e Estado: os religiosos influenciam sim a política, mas não existe religião estatal ou "religião oficial".

    Conclusão: A estatização corrompe a religião.

    * * *

  • Renato  03/12/2013 14:34
    Emerson Luis, muitos países de maioria protestante a religião é ainda oficial. O anglicanismo na Inglaterra ainda não é a religião oficial do Estado?; em muitos países escandinavos as igrejas nacionais ainda são oficiais do estado (se eu não me engano a Suécia aprovou a separação em 2002)?
  • Emerson Luis, um Psicologo  03/12/2013 15:29

    Sim, Renato. E o erro disso se vê pelas consequências: são países onde onde a religião é morna ou morta, sem força para lutar contra o neomarxismo. Um país ter uma igreja estatal ou uma religião oficial é um erro, seja qual for ela: protestante, católica romana, católica ortodoxa, budista, islâmica, etc.

    O Estado laico foi (na implementação prática) uma invenção dos patriarcas da Revolução Americana para evitar esse erro e suas consequências nefastas, como perseguição religiosa. A separação entre Estado e Igreja não foi uma criação de agnósticos ou de ateus, mas de cristãos que queriam liberdade de consciência.

    * * *
  • Jeferson  03/12/2013 18:28
    Xiii... se prepare que daqui a pouco vai chover católicos te bombardeando por você estar acusando a igreja deles de ter se unido ao estado.
  • Julio Heitor  04/12/2013 01:28
    Eu sou católico e concordo com a premissa de que a igreja já fez parte ou fazia conluio com o estado e hoje em dia, apesar de veladamente apolítica, a igreja é fortemente influenciada pelas ideias estatais. Não é a toa que o Papa Francisco regurgita coisas que apenas um politico em campanha falaria.
  • Arthur  03/12/2013 20:50
    Vale ressalvar a premissa da descentralização do Estado, mas não sua aniquilação.
    Não podemos conviver com um único centro de poder, mas não podemos também conviver sem uma regulamentação básica das relações sociais, já que, os princípios moralidades estão difusos na sociedade atual.
  • Doutrinador  03/12/2013 21:07
    Prezado Arthur, você por acaso está querendo dizer que a "regulamentação básica das relações sociais" é função do estado?

    O que faz você crer que Sarney, Genoíno, Dirceu, Calheiros, Collor, Dilma et caterva detêm uma superioridade moral que os capacita a coordenar os "princípios moralidades que estão difusos na sociedade atual"?

    Essa paixão por políticos e burocratas é algo doentio.
  • Arthur  04/12/2013 11:07
    Você interpretou de forma errônea.
    Nossa sociedade sofre uma "crise moral", em relevância o Brasil.
    Você supõe em um ambiente de livre mercado sem a presença de uma instituição reguladora, a respeitabilidade entre os agentes da livre concorrência?
    Pelos livros que li, são poucos ainda pois sou novo na área, até mesmo o hayek não repudia a presença de um órgão regulamentador, não necessariamente um Estado, mas parecido com "direito consuetudinário", na qual os indivíduos relacionam-se frente a uma moral básica comum.
    Um exemplo:
    Sem a presença de uma regulamentação, acredito, que os homicídios seriam extraordinários, já que cada pessoa é regida pela suas regras, sendo o homicídio um ato "correto" para um e "errado" para outro.
    A inveja, sabemos, é um sentimento intrínseco ao se humano, a abonança de um impõe a relutância do outro.
    Na minha visão, a presença de um órgão regulamentador trata-se de um assunto complexo, mesmo assim, sou contra a concepção de Estado atual.
    A extinção do Estado não resolverá a situação instantaneamente, até mesmo pelo cenário monopolístico da economia vigente.
    Por favor me critiquem! E se possível me repasse link como forma de argumentação.
    Obrigado
  • anônimo  06/12/2013 14:11
    Arthur, a crise moral que a sociedade atravessa é decorrência justamente da existência de um estado centralizador. Este estado destrói a economia, ao inflacionar a moeda e prejudicar quem poupa, e a criar barreiras para a livre iniciativa, ao mesmo tempo que beneficia quem é amigo daqueles que estão no poder. Neste arranjo é óbvio que a crise moral vai acontecer: os honestos são prejudicados enquanto que os desonestos são recompensados. E isto é inerente a qualquer sociedade onde existe o monopólio das leis e da criação da moeda. O policial sempre vai favorecer o seu conhecido, o seu amigo, o seu familiar. O banco central sempre vai financiar aqueles políticos e empresários que são próximos a ele, prometendo recursos em troca de favores.

    Como você mesmo admitiu que é novo, sugiro que gaste mais tempo na leitura dos artigos aqui deste site.

    Foque nos artigos destas duas seções, eles tratam das questões que você levantou:

    Artigos sobre o assunto 'Democracia'
    www.mises.org.br/Subject.aspx?id=11

    Artigos sobre o assunto 'Anarcocapitalismo'
    www.mises.org.br/Subject.aspx?id=16
  • anônimo  06/12/2013 14:49
    'E isto é inerente a qualquer sociedade onde existe o monopólio das leis'

    Como é que uma sociedade NÃO vai ter o monopólio das leis?Em outras palavras, como é que um conjunto de pessoas que decidiu viver juntas, colaborando umas com as outras, não vai adotar o mesmo conjunto de regras que aquelas pessoas acham que seja o moralmente correto?
    Se alguém não está disposto a obedecer àquelas regras, ele não faz parte dessa sociedade, por definição.

    É por isso que como ideal é muito mais razoável pensar num mundo como vários micro estados do que na competição de leis e de justiças privadas onde o mesmo lugar tem pessoas diferentes obedecendo a leis diferentes.
  • Lg  06/12/2013 15:56
    Mas basicamente seriam "micro estados", o problema do estado no modelo atual é que ele é coercitivo, você é forçado a utilizar e pagar pelos serviços do estado, caso contrário cadeia, se resistir eles te matam.
    Se você for em um lugar isolado, fazer o encanamento por conta própria, utilizar um gerador de luz, construir as ruas... tudo sozinho, o estado ainda vai te tributar. Se o lugar crescer o estado vai tomar a infraestrutura que você fez e começar a cobrar pelo serviço (eu vi isso acontecer). É como uma empresa de segurança, enquanto você busca o serviço livremente ela é apenas uma empresa comum, no momento que trogloditas armados começam a forçar que você pague pela proteção se torna uma máfia.


    No momento em que você participar e viver no "estado" por vontade própria e não por coerção fica tudo certo.
  • anônimo  06/12/2013 16:23
    A idéia dos micro estados é justamente pra facilitar a competição entre eles e a possibilidade de largar um pelo outro.
  • anonimo de cima  06/12/2013 16:19
    Da minha frase não se pode retirar que a sociedade é que tem o monopólio das leis. Favor prestar atenção na interpretação de texto.
  • Andre Cavalcante  06/12/2013 18:31
    anônimo 06/12/2013 14:49:50 escreveu:

    "Como é que uma sociedade NÃO vai ter o monopólio das leis?Em outras palavras, como é que um conjunto de pessoas que decidiu viver juntas, colaborando umas com as outras, não vai adotar o mesmo conjunto de regras que aquelas pessoas acham que seja o moralmente correto?"

    Hoje já é assim! Na minha casa eu não fumo, nem meus filhos. Não há cigarreiras e eu não deixo ninguém fumar, nem empregado, nem visitas. Já na casa de meu primo, que é fumante, não só é permitido como tem toda a parafernalha necessária aos fumantes, inclusive uma mentinha no final para "tirar o sabor" do hálito.

    Porque podemos conviver em harmonia? Ele respeita e não fuma quando está em minha casa e eu o respeito quando eu estou em sua casa. Simples, assim. É claro que várias leis nós concordamos, como, por exemplo, a propriedade de cada qual, que não devemos matar, roupar, estuprar etc.

    Em uma sociedade livre, haverá várias leis e jurisdições, entretanto, quanto mais abrangente for a situação, mais provavelmente concordaremos com o mesmo código moral. Assim é que eu compraria um serviço de justiça (assim como já pago o de saúde) um pacote de não fumante (e qualquer outra droga alucinógena, por exemplo). O meu primo compraria o de fumante (que permitisse maconha, por exemplo). Mas provavelmente em ambos os pacotes haveria algo como assassinato é ruim.

    Se alguém de sua família matasse alguém da minha muito provavelmente ele seria criminoso em qualquer sistema de justiça. Mas ele só seria considerado um criminoso, se fumasse na minha casa.

    Em outras palavras, divergiríamos nos detalhes, mas as leis morais, quanto mais próximas da lei natural, mais abrangentes e mais universais se tornariam. Inclusive este método permitira descobriríamos as verdadeiras leis morais, um tanto deturpadas hoje em dia.
  • Felipe  07/12/2013 03:16
    De fato um artigo instigante , sem duvida um dos mais interessantes que já li. Mas eu confesso que é cada vez mais complicado defender uma posição Libertária num País onde as pessoas acham que a salvação virá do Estado e de seus "Burrocratas".
  • Alexandre  31/01/2014 12:27

    O Desenvolvimento do Estado

    O ESTADO é uma evolução útil da civilização; ele surgiu para representar o ganho líquido que a sociedade retirava das devastações e dos sofrimentos da guerra. Até mesmo a arte política do estadista, desde a antiguidade, tornou-se meramente uma técnica acumulada para ajustar a disputa competitiva de forças, entre as nações em luta.

    O estado moderno é a instituição que sobreviveu na longa luta pelo poder grupal. O poder maior finalmente prevaleceu, e gerou uma criação de fato — o estado — e, junto, o mito moral da obrigação absoluta de o cidadão viver e morrer pelo estado. Mas o estado não tem uma gênese divina; nem mesmo é um produto da ação humana volitiva intencional; é uma instituição puramente evolucionária e a sua origem foi totalmente automática.

    1. O Estado Embrionário

    O estado é uma organização social territorial reguladora; o estado mais forte, o mais eficiente e duradouro, é composto de uma nação única, cujo povo tem uma língua, costumes e instituições em comum.

    Os primeiros estados eram pequenos, resultantes todos de conquistas. Eles não se originavam de associações voluntárias. Muitos foram fundados por nômades conquistadores, que se arremetiam sobre grupos de pastores pacíficos ou colônias de agricultores, para subjugá-los e escravizá-los. Tais estados, resultantes de conquistas, ficaram forçosamente estratificados; as classes tornaram-se inevitáveis, e as lutas de classes sempre foram seletivas.

    As tribos de homens vermelhos, ao norte da América, nunca chegaram a se organizar de fato em um estado. Nunca progrediram mais adiante do que até uma confederação afrouxada de tribos, uma forma muito primitiva de estado. A que mais se aproximou de um estado foi a federação iroquesa, mas esse grupo de seis nações nunca funcionou de fato como um estado e não conseguiu sobreviver por causa da falta de alguns elementos essenciais à vida moderna nacional, tais como:

    1. A aquisição e a herança da propriedade privada.
    2. Cidades providas de agricultura e de indústrias.
    3. Animais domésticos úteis.
    4. Uma organização prática da família. Esses homens vermelhos ativeram-se à família materna e à herança de tio para sobrinho.
    5. Um território definido.
    6. Um chefe executivo forte.
    7. A escravização dos prisioneiros — ou eles os adotavam ou os massacravam.
    8. Conquistas decisivas.

    Os homens vermelhos eram democráticos demais; eles tinham um bom governo, mas este fracassou. Teriam finalmente evoluído até um estado, caso não tivessem encontrado prematuramente a civilização mais avançada do homem branco, que estava buscando os métodos de governo dos gregos e dos romanos.

    O êxito do estado romano baseou-se:

    1. Na família paterna.
    2. Na agricultura e na domesticação dos animais.
    3. Na concentração da população — as cidades.
    4. Na propriedade e nas terras privadas.
    5. Na escravatura — nas classes de cidadania.
    6. Na conquista e na reorganização dos povos fracos e atrasados.
    7. Num território definido e com estradas.
    8. Em governantes pessoais e fortes.

    A grande fraqueza da civilização romana e um fator do colapso final do império foi a disposição, supostamente liberal e avançada, para a emancipação do jovem, aos vinte e um anos de idade, e a liberação incondicional das moças, de modo que ficassem livres para casar-se com os homens da sua própria escolha, ou para circular pelo país tornando-se dissolutas. O dano à sociedade não consistiu nessas reformas em si mesmas, mas muito mais na maneira súbita e disseminada com que foram adotadas. O colapso de Roma indica o que pode ser esperado, quando um estado é submetido a uma rápida expansão, associada à degeneração interna.

    O estado embrionário tornou-se possível pelo declínio dos laços consanguíneos, em favor da ligação territorial; e essas federações tribais foram, em geral, firmemente cimentadas pelas conquistas. Ainda que uma soberania que transcende a todas as lutas menores e a todas as diferenças grupais seja característica do verdadeiro estado, muitas classes e castas ainda persistem nas organizações estatais posteriores, como remanescentes dos clãs e das tribos de dias passados. Os estados territoriais mais recentes e maiores tiveram uma longa e amarga luta com esses grupos de clãs consanguíneos menores, o governo tribal passando pela provação de uma transição valiosa, da autoridade da família, para a do estado. Durante tempos mais recentes, muitos clãs surgiram do comércio e de outras associações econômicas.

    O fracasso na integração do estado resulta no retrocesso às condições técnicas governamentais do pré-estado, tais como o feudalismo da Idade Média europeia. Durante essas idades das trevas, o estado territorial entrou em colapso; e houve um retrocesso até surgirem os pequenos grupos encastelados, com o reaparecimento do clã e dos estágios tribais de desenvolvimento. Semi-estados semelhantes existem, até mesmo atualmente, na Ásia e na África, mas nem todos representam retrocessos evolucionários; muitos formam núcleos embrionários de estados do futuro.

    2. A Evolução do Governo Representativo

    A democracia, como um ideal, é um produto da civilização, não da evolução. Ide devagar! Escolhei com cuidado! Pois os perigos da democracia são:

    1. A glorificação da mediocridade.
    2. A escolha de governantes vis e ignorantes.
    3. O fracasso em reconhecer os fatos fundamentais da evolução social.
    4. O perigo do sufrágio universal nas mãos de maiorias pouco instruídas e indolentes.
    5. A escravidão à opinião pública; a maioria nem sempre está certa.

    A opinião pública, a opinião comum, sempre atrasou a sociedade; contudo, ela é valiosa, pois, conquanto retarde a evolução social, ela preserva a civilização. A educação da opinião pública é o único método seguro e verdadeiro de acelerar a civilização; a força é um expediente apenas temporário, e o crescimento cultural irá acelerar cada vez mais, se a arma que desfere projéteis der lugar à arma do voto. A opinião pública e os costumes são a energia básica e elementar da evolução social e do desenvolvimento do estado, mas para que tenha valor, para o estado, deve ser não violenta na sua expressão.

    A medida do avanço da sociedade é diretamente determinada pelo grau com que a opinião pública pode controlar o comportamento pessoal e pelas regulamentações do estado, por meio de expressões não violentas. Um governo realmente civilizado terá chegado quando a opinião pública estiver investida dos poderes do voto pessoal. As eleições populares nem sempre podem decidir corretamente as coisas, mas elas representam o modo certo, até mesmo de fazer uma coisa errada. A evolução não produz, de imediato, a perfeição superlativa, ela faz um ajustamento antes comparativo e de avanço prático.

    Há dez passos, ou estágios, na evolução de uma forma de governo representativo que seja prática e eficiente, e esses passos são:

    1. A liberdade da pessoa. A escravidão, a servidão e todas as formas de sujeição humana devem desaparecer.
    2. A liberdade da mente. A menos que um povo livre esteja bem instruído — preparado para pensar inteligentemente e para planejar com sabedoria —, a liberdade, em geral, causa mais mal do que bem.
    3. O âmbito da lei. A liberdade pode ser desfrutada apenas quando as vontades e os caprichos dos governantes humanos são substituídos pelos atos do legislativo, de acordo com a lei fundamental aceita.
    4. A liberdade de discurso. Um governo representativo é inconcebível sem liberdade para todas as formas de expressão, para as aspirações e as opiniões humanas.
    5. A segurança da propriedade. Nenhum governo pode resistir muito, se deixar de proporcionar o direito ao desfrute da propriedade privada de alguma forma. O homem anseia pelo direito de usar, controlar, dar, vender, alugar e legar a sua propriedade pessoal.
    6. O direito de petição. O governo representativo assume o direito, que os cidadãos têm, de serem ouvidos. O privilégio de petição é inerente à cidadania livre.
    7. O direito de governar. Não é suficiente ser ouvido; o poder de reivindicar deve progredir até à administração factual do governo.
    8. O sufrágio universal. O governo representativo pressupõe um eleitorado inteligente, eficiente e universal. O caráter desse governo será determinado sempre pelo caráter e pelo calibre daqueles que o compõem. À medida que a civilização progride, o sufrágio, ainda que permanecendo universal, para ambos os sexos, deverá ser efetivamente modificado, reagrupado e diferenciado de outros modos.
    9. O controle dos servidores públicos. Nenhum governo civil será útil e eficiente, a menos que os cidadãos possuam e façam uso de técnicas sábias para conduzir e controlar os cargos e os funcionários.
    10. Uma representação inteligente e treinada. A sobrevivência da democracia depende de um governo representativo que tenha êxito; e isso é condicionado à prática de eleger aos postos públicos apenas os indivíduos tecnicamente treinados, que sejam intelectualmente competentes, socialmente leais e moralmente adequados. Apenas com essas precauções pode o governo do povo, pelo povo e para o povo ser preservado.

    3. Os Ideais do Estado

    A forma política ou administrativa de um governo tem pouca importância, desde que forneça os elementos essenciais ao progresso civil — liberdade, segurança, educação e ordem social. Não é o que um estado é, mas o que ele faz, que determina o curso da evolução social. E, afinal, nenhum estado pode transcender aos valores morais dos seus cidadãos, tais como exemplificados pelos seus líderes eleitos. A ignorância e o egoísmo assegurarão a queda, mesmo do mais elevado tipo de governo.

    Por mais que seja de se lamentar, o egoísmo nacional tem sido essencial à sobrevivência social. A doutrina do povo eleito tem sido um fator primordial na fusão das tribos e na edificação da nação, até os tempos modernos. Mas um estado só pode atingir os níveis ideais de funcionamento quando todas as formas de intolerância sejam controladas; elas são, para sempre, inimigas do progresso humano. E a intolerância é mais bem combatida sob a coordenação da ciência, do livre comércio, das diversões e da religião.

    As leis do estado ideal são poucas em número e passaram da idade do tabu negativo para a era do progresso positivo, da liberdade pessoal, consequência de um autocontrole individual mais acentuado. O estado superior não apenas compele os seus cidadãos ao trabalho, mas também os incita a uma utilização proveitosa e enaltecedora do tempo crescente de lazer, resultante da liberação do trabalho pesado, advindo com a idade da máquina. O lazer deve produzir, tanto quanto consumir.
    Nenhuma sociedade tem avançado o suficiente quando permite a ociosidade ou tolera a pobreza. Mas a pobreza e a dependência nunca poderão ser eliminadas se tais famílias infortunadas forem sustentadas livremente, sem uma contrapartida em resultados práticos de autossuficiência futura, e também se lhes for permitido reproduzir-se sem restrição nem planejamento.

    Uma sociedade moral deveria almejar preservar o autorrespeito dos seus cidadãos e proporcionar a cada indivíduo normal uma oportunidade adequada de autorrealização. Esse plano de realização social produziria uma sociedade cultural da mais elevada ordem. A evolução social deveria ser encorajada pela supervisão governamental exercendo um mínimo de controle regulador. O melhor estado é aquele que coordena o máximo, enquanto governa o mínimo.

    Os ideais do estado devem ser alcançados pela evolução, pelo crescimento lento da consciência cívica: o reconhecimento da obrigação e do privilégio do serviço social. Depois do fim da administração por empreguismo e oportunismo político, a princípio, os homens assumem as responsabilidades do governo, como um dever, porém, mais tarde, eles buscam essa ministração como um privilégio, como a maior honra. O status da civilização, em qualquer nível, é fielmente retratado pelo calibre dos cidadãos que se apresentam voluntariamente para aceitar as responsabilidades do estado.

    Numa comunidade real, a questão de governar cidades e províncias é conduzida por especialistas e é administrada exatamente como quaisquer outras formas de associações econômicas e comerciais de pessoas.

    O estado que almeje tornar-se avançado, o serviço político deve ser considerado como sendo digno da mais elevada devoção dos cidadãos. A maior ambição dos cidadãos mais sábios e mais nobres seria ganhar o reconhecimento civil, seria ser eleito ou apontado para alguma posição de confiança no governo, e esses governos confeririam as suas mais elevadas honras de reconhecimento por serviços aos seus servidores civis e sociais. Na sequência da ordem, as honras seriam concedidas em seguida aos filósofos, aos educadores, aos cientistas, aos industriais e aos militares. Os pais seriam devidamente recompensados pela excelência dos seus filhos.

    4. A Civilização Progressista

    A economia, a sociedade e o governo devem evoluir, se querem permanecer. As condições estáticas, em um mundo evolucionário, indicam decadência; apenas perduram aquelas instituições que se movem para a frente, junto com a corrente evolucionária.
    O programa progressivo de uma civilização em expansão abrange:

    1. A preservação das liberdades individuais.
    2. A proteção do lar.
    3. A promoção da segurança econômica.
    4. A prevenção das doenças.
    5. A educação compulsória.
    6. O emprego compulsório.
    7. Uma utilização proveitosa do lazer.
    8. Os cuidados pelos desventurados.
    9. O aperfeiçoamento, por parte da medicina, da imunidade e sanidade humana.
    10. A promoção da ciência e da arte.
    11. A promoção da filosofia — da sabedoria.
    12. A ampliação do discernimento cósmico — da espiritualidade.

    E esse progresso nas artes da civilização conduz diretamente à realização das metas humanas mais elevadas — a realização social da fraternidade dos homens que se torna revelado dentro de cada indivíduo.

    O surgimento da fraternidade genuína significa que foi alcançada uma ordem social na qual todos os homens rejubilam-se de carregar o fardo uns dos outros; de fato, eles desejam praticar a regra dourada. Mas essa sociedade ideal não pode ser realizada, se os fracos ou os perversos ficam à espera para tirar vantagens injustas e ímpias daqueles que estão principalmente possuídos pela devoção ao serviço da verdade, da beleza e da bondade. Nessa situação, apenas uma linha de conduta torna-se prática: os "adeptos da regra de ouro" podendo estabelecer uma sociedade progressista, na qual eles vivem de acordo com os seus ideais, enquanto mantêm uma defesa adequada contra os companheiros ignorantes que poderiam procurar explorar as suas predileções pacíficas ou destruir a sua civilização em avanço.

    O idealismo não poderá sobreviver nunca, em um planeta em evolução, se os idealistas de cada geração permitirem a si próprios ser exterminados pelos níveis mais vis da humanidade. E aqui está o grande teste do idealismo: pode uma sociedade avançada manter aquela prontidão militar que a torna protegida contra todos os ataques dos seus vizinhos, amantes da guerra, sem cair na tentação de empregar essa força militar em operações ofensivas contra outros povos, com propósitos de ganho egoísta ou de engrandecimento nacional? A sobrevivência nacional demanda a prontidão, e só o idealismo da liberdade, em união à capacidade intelectual avançada de um povo, pode impedir que a prontidão seja prostituída pela sua transformação, em agressão.

    5. A Evolução da Competição

    A competição é essencial ao progresso social, mas a competição desordenada gera a violência. Na sociedade atual, a competição está, aos poucos, substituindo a guerra, ao determinar o lugar do indivíduo na atividade produtiva, bem como ao decretar a sobrevivência das próprias indústrias. (O assassinato e a guerra diferem entre si pelo status perante os costumes; o assassinato tendo estado fora da lei desde os primeiros tempos da sociedade, ao passo que a guerra nunca foi totalmente proscrita pelas leis da humanidade).

    O estado ideal assume regulamentar a conduta social apenas o suficiente para afastar a violência da competição individual e para impedir a injustiça na iniciativa pessoal. E aqui está um grande problema de ordem estatal: como garantir a paz e a tranquilidade na atividade produtiva, como pagar os impostos para sustentar o poder do estado e, ao mesmo tempo, impedir que os impostos prejudiquem essas atividades e que o estado se torne um parasita ou um tirano?

    Durante as idades iniciais de qualquer mundo, a competição é essencial à civilização progressiva. À medida que a evolução do homem progride, a cooperação torna-se cada vez mais eficaz. Nas civilizações avançadas, a cooperação é mais eficiente do que a competição. O homem primitivo é estimulado pela competição. A evolução primitiva é caracterizada pela sobrevivência do mais apto biologicamente; mas as civilizações posteriores são mais bem promovidas pela cooperação inteligente, por um espírito de fraternidade compreensiva e pela irmandade espiritual.

    Bem verdade é que a competição, na indústria, leva a desperdícios excessivos tornando-se altamente ineficaz; mas nenhuma tentativa de eliminar essa perda na atividade econômica deveria ser encorajada, se os ajustamentos acarretarem, até mesmo, a mais leve anulação de qualquer das liberdades fundamentais do indivíduo.

    6. A Motivação do Lucro

    A economia atual, motivada pelos lucros, está condenada, a menos que a motivação do lucro possa ser acrescida da motivação de servir. A competição impiedosa, baseada somente em interesses egoístas e de horizontes estreitos, é terminantemente destrutiva, até mesmo daquelas coisas que busca manter. A motivação exclusiva do lucro individualista é incompatível com os ideais humanos.

    Na economia, a motivação do lucro está para a motivação do serviço, como o medo está para o amor, na religião. Mas a motivação do lucro não deve ser destruída, nem removida, subitamente; ela mantém muitos mortais no trabalho duro, os quais, de outro modo, ficariam indolentes. Não é necessário, contudo, que esse estimulador das energias sociais, para sempre, tenha objetivos puramente egoístas.

    O motivo do lucro nas atividades econômicas é de todo vil e totalmente indigno de uma ordem avançada de sociedade; contudo, é um fator indispensável no decorrer das primeiras fases da civilização. A motivação do lucro não deve ser afastada dos homens, até que eles estejam imbuídos de tipos superiores de motivações não lucrativas, para os seus esforços econômicos e para os seus serviços.

    7. A Educação

    O estado duradouro é fundamentado na cultura, dominado pelos ideais e motivado pelo serviço. O propósito da educação deve ser adquirir habilidade, buscar a sabedoria, realizar a individualidade e alcançar os valores espirituais.

    No estado ideal, a educação continua durante a vida e, algumas vezes, a filosofia torna-se a principal busca dos seus cidadãos. Os cidadãos dessa comunidade buscam a sabedoria como uma ampliação do seu discernimento dos significados nas relações humanas, das significações da realidade, da nobreza dos valores, das metas da vida e das glórias do destino cósmico.

    Nós podemos e devemos ter a visão de uma nova sociedade cultural bem mais elevada. A educação saltará para novos níveis de valor, quando ultrapassar o sistema da economia, baseado puramente na motivação do lucro. A educação tem sido, por muito tempo, regionalista, militarista, exaltadora do ego e buscadora do sucesso; ela deve finalmente ser aberta para o mundo, tornar-se idealista, auto realizadora e abrangente do ponto de vista holístico.

    A educação passou, recentemente, do controle do clero para o dos advogados e homens de negócios. E finalmente deve ser entregue aos filósofos e cientistas. Os educadores devem ser seres livres, líderes de fato, com o fito de que a filosofia, a busca da sabedoria, possa tornar-se a busca principal na educação.

    A educação é a ocupação maior da vida; deve continuar durante toda a vida e de um modo tal que a humanidade possa gradualmente experimentar os níveis ascendentes da sabedoria mortal, que são:

    1. O conhecimento das coisas.
    2. A compreensão dos significados.
    3. A apreciação dos valores.
    4. A nobreza do trabalho — o dever.
    5. A motivação das metas — a moralidade.
    6. O amor pelo serviço — o caráter.
    7. A clarividência cósmica — o discernimento espiritual.
    8. O Carácter Estatal

    O único aspecto sagrado de qualquer governo humano é a divisão do estado nos três domínios de funções, o executivo, o legislativo e o judiciário. Pouco importa a forma de estado que um povo possa escolher, desde que os cidadãos estejam sempre progredindo no sentido da meta de um autocontrole maior e de um serviço social ampliado. A depuração intelectual, a sabedoria econômica, a habilidade social e a força moral de um povo são, todas, fielmente refletidas no estado.

    A evolução do estado requer progresso, de nível para nível, do seguinte modo:

    1.A criação de um governo tríplice, com as ramificações de um poder executivo, um legislativo e um judiciário.
    2.A liberdade para as atividades sociais, políticas e religiosas.
    3.A abolição de todas as formas de escravidão e de servidão humana.
    4.A capacidade dos cidadãos de controlar a arrecadação de impostos.
    5.O estabelecimento da educação universal — o aprendizado, abrangendo do berço ao túmulo.
    6.O ajustamento próprio, entre o governo local e o governo nacional.
    7.O estímulo à ciência e ao controle das doenças.
    8.O devido reconhecimento da igualdade dos sexos e do funcionamento coordenado de homens e mulheres no lar, na escola e na igreja; e com o serviço especializado das mulheres, na indústria e no governo.
    9.A eliminação da escravidão do trabalho, substituída pelo aprimorado uso de tecnologias (máquinas).
    10.A conquista dos dialetos — o triunfo de uma língua universal.
    11.O fim da guerra — o julgamento internacional das diferenças nacionais e raciais, por intermédio das cortes continentais das nações, a que presidirá um supremo tribunal planetário, automaticamente recrutado, dos chefes que, periodicamente, se aposentam nas cortes continentais. As cortes continentais têm autoridade executiva; a corte mundial é consultivo-moral. A tendência mundial da busca da sabedoria — a exaltação da filosofia.

    Esses são os pré-requisitos do governo progressivo e os sinais de identificação do estado ideal.

    Ainda estamos longe da realização desses ideais elevados, mas já tivemos um começo — a humanidade está na marcha em direção a destinos evolucionários mais elevados.

    ------------------------------------------
    Texto contido em: O Livro de Urântia (Doc. 71). -Há uma ou outra modificação/troca/retirada de palavras/frases neste texto, em relação ao original.
  • anônimo  31/01/2014 13:35
    O livro de urântia? Não, obrigado. Um governo gigantesco não é ideal elevado nenhum - exceto para quem estará dentro das estruturas de poder.
  • Alexandre  31/01/2014 13:53
    Caro Anônimo,

    Respeito sua opinião, mas a mesma se torna vazia sem argumentos às propostas apresentadas no texto. Seria interessante ler seus comentários/argumentos para cada tópico apresentado no texto. Que tal?

    NOTA: não defendo, no texto postado, um livro em si, mas sim um minúsculo trecho do mesmo, que vem ao encontro do que mais se discute neste maravilhoso site.
  • anônimo  31/01/2014 14:01
    "6. A Motivação do Lucro

    A economia atual, motivada pelos lucros, está condenada, a menos que a motivação do lucro possa ser acrescida da motivação de servir. A competição impiedosa, baseada somente em interesses egoístas e de horizontes estreitos, é terminantemente destrutiva, até mesmo daquelas coisas que busca manter. A motivação exclusiva do lucro individualista é incompatível com os ideais humanos.

    Na economia, a motivação do lucro está para a motivação do serviço, como o medo está para o amor, na religião. Mas a motivação do lucro não deve ser destruída, nem removida, subitamente; ela mantém muitos mortais no trabalho duro, os quais, de outro modo, ficariam indolentes. Não é necessário, contudo, que esse estimulador das energias sociais, para sempre, tenha objetivos puramente egoístas.

    O motivo do lucro nas atividades econômicas é de todo vil e totalmente indigno de uma ordem avançada de sociedade; contudo, é um fator indispensável no decorrer das primeiras fases da civilização. A motivação do lucro não deve ser afastada dos homens, até que eles estejam imbuídos de tipos superiores de motivações não lucrativas, para os seus esforços econômicos e para os seus serviços."

    Alexandre, você colocou isto aqui como piada ou como conscientização para os leitores sobre o real caráter deste livro?
  • anonimo  31/01/2014 16:09
    Vou deixar de lado a parte histórica e ir direto para o item 4:

    No 4.6 o que é emprego compulsório? A URSS tinha...

    Aliás quando se fala em algo compulsório (4.5 e 4.6), já vai contra o item 4.1, qual seja, as liberdades individuais, não pode alguém ser livre e obrigado a fazer algo que foi unilateralmente determinado por um governo.

    O que quer dizer promoção da segurança econômica (4.3)?
    Uma utilização proveitosa do lazer (4.7)?
    Os cuidados pelos desventurados (4.8)?

    No item 5:

    "O estado ideal assume regulamentar a conduta social apenas o suficiente para afastar a violência da competição individual e para impedir a injustiça na iniciativa pessoal."

    Se deixar para o governo regulamentar, o resultado será desastroso, há vários artigos sobre o assunto neste site.

    "Bem verdade é que a competição, na indústria, leva a desperdícios excessivos tornando-se altamente ineficaz."
    Discordo completamente, onde houve mais competição, tudo ficou mais eficaz (pode citar áreas agrícolas, produção de petróleo, setor automotivo).

    No item 6:

    "O motivo do lucro nas atividades econômicas é de todo vil e totalmente indigno de uma ordem avançada de sociedade"

    A motivação pelo lucro por si só gera poupança, produtos/serviços mais baratos e melhores. Qual era o interesse de quem produz carros? Computadores? Comida?
    Já leu a Revolta de Atlas (Ayn Rand)?

    No item 7:

    7.8 O que é caráter estatal?

    No 7.4 o que impede que a maioria decida que a minoria deve pagar mais impostos? Isso levaria a servidão (que em teoria teria sido abolida pelo item 7.3).

    Como o 7.8 funcionaria na prática?
    No 7.9 como que o trabalho é escravidão? Apenas será escravidão se for compulsório...O que vai contra as liberdades individuais...

    "a humanidade está na marcha em direção a destinos evolucionários mais elevados."

    Pode dizer onde?

    Obrigado.
  • Alexandre  31/01/2014 14:27
    Ao ler todo o conteúdo anterior ao tópico 6, você verá que o que se prega, no trecho refutado por você, é uma análise passado/presente/futuro do estado, visando uma análise mais aprofundada sobre o estado.

    Repare na frase: "Mas a motivação do lucro não deve ser destruída, nem removida, subitamente"

    Ou seja, faz-se necessário, no futuro e não agora, que repensemos filosoficamente os reais objetivos da busca pelo lucro. Tal questão (LUCRO) provavelmente terá profundas mudanças ideológicas, no futuro [reitero], por meio da evolução cultural e dos conceitos da humanidade.

    Vamos em frente, aguardo suas refutações para debatermos.

    .
  • Alexandre  31/01/2014 15:47
    Olá Ricardo,

    Para a atualidade, e desde os primórdios da civilização moderna, concordo plenamente com os artigos citados por você. Sou comerciante e sei da importância do lucro (mercado), como também dos inúmeros benefícios trazidos para a sociedade.

    O texto (por completo) postado por mim nos traz sugestões em forma de alerta, para uma futura (daqui a 50, 100, 200, 500 anos) mudança de paradigma, pois certamente a sociedade evoluirá, a economia evoluirá, a inteligência e cultura evoluirão...

    É um assunto profundo (filosoficamente falando), que mexe com nossos costumes e conhecimentos, e deve ser estudado, refletido, analisado... Veja bem: no passado a Terra era o centro do Universo, não era redonda, foi criada em sete dias, e por aí vai... Eram verdades incontestáveis, até a ciência evoluir, para assim alguns gênios discordarem e provarem o contrário.

    Creio que, no futuro próximo, teremos novas teorias econômicas, políticas, sociais, um novo estilo de produção, uma nova forma de mercado, entre outras tantas mudanças do dia a dia.
  • anonimo de cima  31/01/2014 17:40
    Alexandre, faço coro com a postagem do Ricardo. Faço o exposto nos artigos citados os meus argumentos, e adiciono ainda os seguintes:

    É imoral e anti-humano ser contra o lucro e a livre iniciativa
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1203

    O dinheiro macula tudo?
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1242

    A virtude do lucro
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1312

    Espero a sua refutação dos mesmos.


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