A limitação do direito de propriedade, as externalidades e as obras estatais

Os direitos de propriedade, tais como limitados pelas leis e protegidos pelo poder judicial e pela polícia, são o resultado de um longo período de evolução. A história de todo esse tempo é o registro dos violentos esforços feitos com o objetivo de abolir a propriedade privada. Seguidamente, déspotas e movimentos populares têm tentado restringir os direitos de propriedade privada ou aboli-los inteiramente. Essas tentativas falharam, é verdade. Mas deixaram traços nas ideias que influenciaram a forma legal e a definição de propriedade. Os conceitos legais de propriedade não levam na devida conta a função social da propriedade privada. Existem certas deficiências e incongruências que perturbam o desenvolvimento dos fenômenos do mercado.

O direito de propriedade, considerado de forma consistente, deveria, por um lado, conferir ao proprietário o direito de usufruir todas as vantagens que o bem possuído pode gerar, e deveria, por outro lado, onerá-lo com todos os inconvenientes resultantes de seu emprego. Assim sendo, as consequências seriam de exclusiva responsabilidade do proprietário, que, ao lidar com sua propriedade, levaria em conta todos os resultados esperados de sua ação, tanto os favoráveis como os desfavoráveis. Mas, se alguns dos benefícios de sua ação não podem ser auferidos e alguns dos inconvenientes não lhe são debitados, o proprietário, ao elaborar os seus planos, não se preocupará com todos os feitos de sua ação. Não considerará os benefícios que não aumentam a sua própria satisfação, nem os custos que não o oneram. Sua conduta se afastará da linha que teria seguido se as leis refletissem melhor os objetivos econômicos da propriedade privada. Realizará certos projetos só porque as leis o desobrigam da responsabilidade de alguns dos custos incorridos.  Ele deixará de realizar outros projetos simplesmente porque as leis o impedem de colher todas as vantagens decorrentes dos mesmos.

As leis relativas à responsabilidade e à indenização por danos causados eram e ainda são deficientes sob muitos aspectos. De um modo geral, aceita-se como um princípio o fato de que cada um é responsável pelos danos que suas ações infringirem a outras pessoas. Mas esse princípio sempre teve suas brechas, suas exceções legais. Em alguns casos, esse privilégio foi concedido intencionalmente àqueles que se dedicavam a atividades que as autoridades desejavam impulsionar. Quando, no passado, em muitos países, os proprietários das fábricas e das estradas de ferro não foram responsabilizados pelos danos que suas empresas infringiam à propriedade e à saúde de seus vizinhos, clientes, empregados e outras pessoas (através de fumaça, fuligem, barulho, poluição da água e acidentes causados por equipamento inadequado ou defeituoso), a ideia subjacente era a de que não se deveria enfraquecer o progresso da industrialização e o desenvolvimento dos meios de transporte.

As mesmas doutrinas que inspiraram e ainda continuam inspirando muitos governos a incentivarem investimentos em fábricas e estradas de ferro por meio de subsídios, isenção de impostos, tarifas e crédito barato, contribuíram para o surgimento de uma situação jurídica na qual a responsabilidade dessas empresas foi prática ou formalmente aliviada.  Mais tarde, começou a prevalecer a tendência oposta, e a responsabilidade dos industriais e das estradas de ferro passou a ser tratada com maior severidade do que a dos demais cidadãos e firmas.  Também, nesses casos, os objetivos são políticos.  Os legisladores desejavam proteger os pobres, os assalariados, os camponeses, contra os ricos capitalistas e empresários.

Que o fato de desobrigar o proprietário de algumas das desvantagens que resultam da maneira como ele conduz o seu negócio seja fruto de uma política deliberada adotada pelos governos e pelos legisladores — ou seja, um efeito não intencional da redação tradicional das leis — é, de qualquer forma, um dado que precisa ser levado em conta. Estamos diante do problema dos denominados custos externos.  Esta situação faz com que algumas pessoas escolham certas maneiras de satisfazer suas necessidades simplesmente em função do fato de que uma parte dos custos incorridos não lhes é debitada, mas recai sobre outras pessoas.

O exemplo extremo nos é proporcionado pelo caso das terras sem dono.  Se a terra não tem dono, embora o formalismo jurídico possa qualificá-la de propriedade pública, as pessoas utilizam-na sem se importar com os inconvenientes de uma exploração predatória.  Quem tiver condições de usufruir de suas vantagens — a madeira e a caça dos bosques, os peixes das extensões aquáticas e os depósitos minerais do subsolo — não se preocupará com os efeitos posteriores decorrentes do modo de exploração.  Para essas pessoas, a erosão do solo, o esgotamento dos recursos exauríveis e qualquer outra redução da possibilidade de utilização futura são custos externos, não considerados nos cálculos pessoais de receita e despesa.  Cortarão as árvores sem qualquer consideração para com as que ainda estão verdes ou para com o reflorestamento.  Ao caçar e pescar não hesitarão em empregar métodos contrários à preservação das reservas de caça e pesca.  

Nos primórdios da civilização, quando ainda havia abundância de terras de qualidade não inferior à já utilizada, o uso de métodos predatórios era corrente.  Quando a produtividade diminuía, o lavrador abandonava sua terra e se mudava para outro lugar. Só mais tarde, à medida que a população crescia e não havia mais disponibilidade de terra virgem de primeira classe, as pessoas começaram a considerar tais métodos predatórios um desperdício. Consolidava-se assim a instituição da propriedade privada da terra; a princípio, nas terras aráveis, e depois, passo a passo, estendendo-se aos pastos, às florestas, aos pesqueiros.  As novas colônias de ultramar, especialmente os vastos espaços dos Estados Unidos, cujas fantásticas potencialidades agrícolas estavam praticamente intactas, quando lá chegaram os primeiros colonizadores, passaram pelos mesmos estágios.  Até as últimas décadas do século XIX havia sempre uma zona geográfica aberta aos recém-chegados: a fronteira.  Nem a existência dessas regiões inexploradas, nem o seu desaparecimento são peculiares à América.  O que caracteriza as condições americanas é o fato de que, ao esgotarem-se as terras inexploradas, fatores institucionais e ideológicos impediram que os métodos de utilização da terra se ajustassem à nova circunstância.

Nas áreas centrais e ocidentais da Europa continental, onde a instituição da propriedade privada já estava firmemente estabelecida há muitos séculos, as coisas foram diferentes. Não houve erosão de solos já cultivados. Não houve devastação de florestas, apesar do fato de as florestas particulares terem sido, durante gerações, a única fonte de madeira para construção e mineração, e de combustível para as fundições e os fornos, para as cerâmicas e para as fábricas de vidro.  Os proprietários dessas florestas foram impelidos a conservá-las movidos pelos seus próprios interesses egoístas.  Nas áreas mais densamente habitadas e industrializadas, até alguns anos atrás, entre um quinto e um terço da superfície era ocupado por florestas de primeira classe administradas segundo os melhores métodos da tecnologia florestal.[1]

O cálculo econômico torna-se ilusório e os seus resultados enganadores sempre que uma parte considerável dos custos incorridos sejam custos externos.  Mas isto não é uma consequência das alegadas deficiências inerentes ao sistema de propriedade privada dos meios de produção.  É, ao contrário, uma consequência das brechas deixadas no sistema.  Poderiam ser eliminadas por meio de uma reforma das leis relativas à responsabilidade por danos infringidos e pelo cancelamento das barreiras institucionais que impedem o pleno funcionamento do sistema de propriedade privada.

O caso dos benefícios externos não é simplesmente uma inversão do caso dos custos externos. Ele possui características e campo de aplicação próprios.

Quando os resultados de uma ação não beneficiam apenas o agente atuante, mas também outras pessoas, existem duas alternativas:

1 — O ator considera as vantagens que espera auferir para si mesmo tão importantes que está disposto a arcar com todos os custos.  O fato de sua ação também beneficiar outras pessoas não o impedirá de realizar aquilo que promoverá o seu próprio bem-estar. Quando uma companhia de estrada de ferro constrói um dique para proteger a sua linha férrea de deslizamentos ou avalanches, também está protegendo as casas nos terrenos adjacentes. Mas esse benefício auferido pelos vizinhos não impedirá a companhia de realizar um investimento que considera vantajoso.

2 — Os custos necessários à realização de um projeto são tão grandes que nenhum dos possíveis beneficiários está disposto a suportá-los inteiramente.  O projeto só poderá ser realizado se um número suficiente de interessados compartilhar os seus custos.

Não seria necessário dizer mais nada sobre benefícios externos, se não fosse o fato de esse fenômeno ser inteiramente deturpado na literatura pseudoeconômica corrente.

Um projeto não será lucrativo se os consumidores preferirem a satisfação derivada de outro projeto à satisfação prevista com a realização de P.  A execução de desviaria capital e trabalho de algum outro projeto, considerado mais urgente pelos consumidores.  O leigo e o pseudoeconomista não chegam a perceber esse fato. Teimosamente se recusam a reconhecer a escassez dos fatores de produção.  No seu entendimento, poderia ser realizado sem qualquer inconveniente, isto é, sem renúncia a qualquer outra satisfação; seria apenas a insensibilidade do sistema de lucro que estaria a impedir que a nação desfrutasse graciosamente os benefícios de P.

Ora — continuam esses críticos de visão curta e mentalidade estreita —, o absurdo do sistema de lucro torna-se especialmente ultrajante se a não lucratividade de se dever ao fato de o empresário não considerar nos seus cálculos as vantagens de que para ele são benefícios externos.  Do ponto de vista da sociedade como um todo, dizem esses críticos, tais vantagens não são externas; beneficiam pelo menos alguns membros da sociedade e aumentam o "bem-estar total".  A não realização de seria portanto uma perda para a sociedade.  Por isso, quando a iniciativa privada, egoisticamente, se recusa a realizar tais projetos não lucrativos, o dever do governo é preencher esse vazio.

O governo deveria ou realizá-los por meio de empresas públicas ou subsidiá-los para torná-los atrativos ao empresário privado e ao investidor.  Os subsídios poderiam ser concedidos seja diretamente em dinheiro, à custa do erário público, seja por meio de tarifas cuja incidência recairia sobre os compradores dos produtos.  Os que assim argumentam não percebem que os meios que o governo utiliza para fazer funcionar uma empresa deficitária ou para subsidiar um projeto não rentável terão de ser retirados da capacidade de gastar e investir dos contribuintes ou terão de ser obtidos de modo inflacionário.  

Nem o governo nem qualquer indivíduo têm a possibilidade de criar algo do nada.  Maiores gastos do governo representam menores gastos do público. As obras públicas não são realizadas pelo poder milagroso de uma varinha de condão; são pagas com recursos tomados dos cidadãos.  Se o governo não houvesse interferido, os cidadãos os teriam empregado em projetos lucrativos, os quais agora não mais serão realizados porque os meios correspondentes lhes foram subtraídos.  Para cada projeto não rentável realizado com a ajuda do governo, há um outro que deixa de ser realizado em virtude da intervenção governamental.  Com uma diferença: o projeto não realizado teria sido lucrativo, isto é, teria empregado os escassos meios de produção de maneira a atender às necessidades mais urgentes dos consumidores. Do ponto de vista dos consumidores, o emprego desses meios de produção para realização de um projeto não lucrativo é um desperdício.  Priva-os daquelas satisfações que preferem, dando-lhes em troca aquelas que o projeto estatal pode lhes oferecer.

As massas crédulas incapazes de ver além do que a vista alcança se entusiasmam com as realizações maravilhosas de seus governantes.  Não chegam a perceber que são elas, as massas, que pagam a conta e que, consequentemente, têm que renunciar a muitas satisfações de que teriam usufruído se o governo tivesse gasto menos com projetos não rentáveis.  Não têm imaginação suficiente para sequer vislumbrar as possibilidades que o governo não permitiu que viessem a existir.

Esses entusiastas da intervenção estatal ficam ainda mais extasiados quando a ação governamental possibilita que produtores submarginais continuem produzindo, competindo com usinas, lojas ou fazendas mais eficientes. Nesses casos, dizem eles, é óbvio que a produção total aumentou e que alguma coisa — que se não fosse a ajuda das autoridades não teria sido produzida — foi acrescentada à riqueza geral.  O que ocorre, na realidade, é exatamente o oposto; o montante da produção total e da riqueza total diminui.  Instalações que produzem por custos maiores entram em funcionamento, enquanto outras instalações que produzem por custos menores são forçadas a diminuir ou a paralisar a sua produção.  Os consumidores não estão obtendo mais, e sim, menos.

Uma ideia que habitualmente tem muita aceitação é a de que o governo deve promover o desenvolvimento agrícola daquelas regiões do país maldotadas pela natureza.  Nessas regiões, os custos de produção são maiores do que em outras áreas; é precisamente este fato que torna o seu solo submarginal.  Se não forem ajudados por recursos públicos, diz o senso comum, os agricultores que trabalham essas terras não conseguiriam suportar a competição das fazendas mais férteis.  A agricultura desapareceria ou não se desenvolveria e a região se tornaria uma parte atrasada do país.  Com pleno conhecimento dessa realidade, as empresas que visam ao lucro evitam investir na construção de estradas de ferro que liguem essas regiões inóspitas aos centros de consumo.

A situação difícil dos agricultores não é causada pela falta de meios de transporte. A causalidade é no sentido inverso: como as empresas percebem que as perspectivas agrícolas da região não são favoráveis, abstêm-se de investir em estradas de ferro que provavelmente não serão lucrativas, porque há falta de uma quantidade suficiente de bens a serem transportados.  

Se o governo, cedendo aos grupos de pressão interessados, constrói a estrada de ferro e a opera com déficit, certamente estará beneficiando os proprietários de terras dessas regiões pobres.  Podem então esses agricultores, uma vez que uma parte dos custos de transporte é absorvida pelo erário público, competir com os que cultivam terras melhores e que não recebem ajuda oficial.  Mas quem paga os favores concedidos a esses agricultores privilegiados são os contribuintes, que terão de prover os fundos necessários para cobrir o déficit. Tal liberalidade não afeta o preço nem a quantidade total disponível de produtos agrícolas.  Simplesmente torna rentável a operação de fazendas que até então eram submarginais, e marginaliza outras fazendas cuja operação era até então lucrativa.  Desloca a produção das terras, que poderiam produzir por custos menores, para terras cujos custos de produção são maiores. Em vez de aumentar, diminui a riqueza e a disponibilidade total de mercadorias, uma vez que as quantidades adicionais de capital e trabalho, necessárias ao cultivo de campos que exigem custos de produção maiores, são retiradas de outros empregos que tornariam possível a produção de outros bens de consumo.  O governo consegue beneficiar algumas regiões do país, dando-lhes o que lhes falta, mas em detrimento de outros setores e gerando custos que excedem os ganhos deste pequeno grupo privilegiado.


Leia também: Como as obras públicas subtraem riqueza da população



[1] No final do século XVIII, os governos europeus começaram a promulgar leis visando à conservação de florestas.  Entretanto, seria um grave erro atribuir a essas leis qualquer importância na conservação das florestas.  Na segunda metade do século XIX, ainda não havia uma estrutura administrativa capaz de fazer com que essas leis fossem cumpridas.  Além disso, os governos da Áustria e da Prússia, para não mencionar os estados alemães menores, não tinham suficiente poder para obrigar a aristocracia a respeitá-los.  Nenhum funcionário público antes de 1914 teria tido a audácia de causar irritação a um magnata da Boêmia ou da Silésia, ou a um Standesherr alemão (aquele cujo feudo tivesse sido anexado a uma dos estados soberanos do império).  Esses príncipes e condes cuidavam espontaneamente de suas florestas porque estavam seguros quanto à posse de seus domínios e porque procuravam preservar a fonte de suas rendas e o valor venal de suas terras.


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SOBRE O AUTOR

Ludwig von Mises
foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico.  Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política.  Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico.  Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia".



www.mises.org.br/Article.aspx?id=454

[link www.mises.org.br/Article.aspx?id=306[/link]
Para começar, sua afirmação é falsa. No entanto, ainda que ela fosse verdadeira, isso seria imaterial.

Essa questão da Previdência brasileira é um assunto bastante interessante pelo seguinte motivo: talvez seja a única área da economia que não está aberta a opiniões ideológicas.

Não importa se você é de esquerda ou de direita; liberal, libertário ou intervencionista. Também pouco importa se você acredita que a Previdência atual seja superavitária (como alguns acreditam). O que importa é que o modelo dela é insustentável. E é insustentável por uma questão puramente demográfica.

E contra a realidade demográfica não há nada que a ideologia possa fazer.

Comecemos pelo básico.

Ao contrário do que muitos ainda pensam, o dinheiro que você dá ao INSS não é investido em fundo no qual ele fica rendendo juros. Tal dinheiro é diretamente repassado a uma pessoa que está aposentada. Não se trata, portanto, de um sistema de capitalização, mas sim de um sistema de repartição: o trabalhador de hoje paga a aposentadoria de um aposentado para que, no futuro, quando esse trabalhador se aposentar, outro trabalhador que estiver entrando no mercado de trabalho pague sua aposentadoria.

Ou seja, não há investimento nenhum. Há apenas repasses de uma fatia da população para outra.

Por motivos óbvios, esse tipo de esquema só pode durar enquanto a fatia trabalhadora for muito maior que a fatia aposentada. Tão logo a quantidade de aposentados começar a crescer mais rapidamente que a fatia de trabalhadores, o esquema irá ruir.

Portanto, todo o arranjo depende inteiramente do comportamento demográfico da população. A qualidade da gestão do INSS é o de menos. Mesmo que a Previdência fosse gerida por anjos probos, sagazes e imaculados, ainda assim ela seria insustentável no longo prazo caso a demografia não cooperasse.

E, no Brasil, ela já não está cooperando. Segundo os dados do IBGE, em 2013, havia 5,5 pessoas com idade entra 20 e 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos. Em 2060, a se manter o ritmo projetado de crescimento demográfico, teremos 1,43 pessoa com idade entre 20 a 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos.

Ou seja, a menos que a idade mínima de aposentadoria seja continuamente elevada, não haverá nem sequer duas pessoas trabalhando e pagando INSS para sustentar um aposentado.

Aí fica a pergunta: como é que você soluciona isso? Qual seria uma política factível "de esquerda" ou "de direita" que possa sobrepujar a realidade demográfica e a contabilidade?

Havendo 10 trabalhadores sendo tributados para sustentar 1 aposentado, a situação deste aposentado será tranquila e ele viverá confortavelmente. Porém, havendo apenas 2 trabalhadores para sustentar 1 aposentado, a situação fica desesperadora. Ou esses 2 trabalhadores terão de ser tributados ainda mais pesadamente para sustentar o aposentado, ou o aposentado simplesmente receberá menos (bem menos) do que lhe foi prometido.

Portanto, para quem irá se aposentar daqui a várias décadas e quer receber tudo o que lhe foi prometido hoje pelo INSS, a mão-de-obra jovem do futuro terá de ser ou muito numerosa (uma impossibilidade biológica, por causa das atuais taxas de fecundidade) ou excessivamente tributada (algo que não é duradouro).

Eis o fato irrevogável: contra a demografia e a matemática, ninguém pode fazer nada.

A não ser mudar totalmente o sistema.

Uma proposta para uma reforma definitiva da Previdência
"Faltou incluir o custo administrativo, o lucro e os impostos da empresa terceirizada."

Abordados explicitamente no artigo (o qual, pelo visto, você nem sequer leu).

"Lembremos que os custos sempre são repassados ao consumidor (nesse caso, seria a empresa contratante)."

Errado. Não tem como empresas repassarem integralmente seus custos ao consumidor. Isso é básico de economia.

Se você tem uma padaria, e repentinamente seus custos sobem (por exemplo, sua conta de luz subiu), você não tem como simplesmente repassar esse custo adicional ao consumidor. Se você fizer isso, perderá fatia de mercado para as padarias concorrentes. Se você aumentar seus preços, perderá clientes para as padarias vizinhas.

Outra coisa: se fosse tão simples assim sair aumentando preços para repassar custos, então por que as empresas não fazem isso (aumentam preços) agora mesmo? Afinal, não é necessário esperar que haja um aumento de custo para haver aumento de preços. Basta aumentar o preço agora mesmo. Por que elas não fazem isso?

Pois é, porque não é tão simples assim.

Aumentos de custos são sempre, em última instância, arcados pela própria empresa. Fosse realmente tão simples assim sair repassando aumento de custos para os preços, então nenhuma empresa jamais quebraria na história.

P.S.: o único mercado em que é possível "repassar custos" -- e, mesmo assim, com parcimônia -- é o mercado de postos de gasolina, que é um mercado extremamente regulado, com baixíssima entrada de novos concorrentes (por causa das regulações estatais, é caríssimo abrir um posto de gasolina), e vendendo um produto cuja demanda é inelástica. E, mesmo assim, isso só funciona em cidades pequenas, em que há poucos postos à disposição.

"Com isso o custo de se terceirizar torna-se maior."

Embora você nada tenha explicado de correto para chegar a essa conclusão, o fato é que, se você realmente acredita que o custo irá se tornar maior, então você nada tem a se preocupar. Absolutamente ninguém irá querer terceirizar.

(O engraçado é que a esquerda diz justamente o contrário: todo mundo vai querer terceirizar porque o custo vai cair. Favor entrarem num consenso).

"E mesmo se a terceirizada conseguir ser mais eficiente (pois isso depende da área de atuação), a empresa contratante não vai economizar em nada, somente na dor de cabeça com a justiça do trabalho."

Então, de novo, você absolutamente nada tem com o que se preocupar. Ninguém vai querer terceirizar. Logo, tal lei será completamente inócua. Nem sei por que você está perdendo tempo com ela.

"Fui orçamentista em uma terceirizada da construção civil. Como nossas atividades tinham que acompanhar as demais atividades, tínhamos que manter nossos operários até o final da obra. Com isso os custos eram os mesmos da empresa contratante se ela tivesse contratado diretamente os operários. Na verdade eram até maiores, porque no nosso preço final estavam embutidos o nosso custo administrativo, o lucro e os impostos."

Ou seja, não apenas a empresa que contratou os seus serviços era completamente imbecil (aumentou os próprios custos), como você próprio perdeu uma grande oportunidade de lucro: caso tivesse você próprio feito essa empreitada no lugar dessa empresa, teria ganhado um belo dinheiro.

Por que não fez? Odeia dinheiro?

"Portanto não vejo vantagem na ideia de terceirização para a empresa contratante."

Então, pela terceira vez, você nada tem com o que se preocupar. Ninguém irá terceirizar. A lei será inócua. Agora, seja coerente, vá a campo e acalme toda a esquerda. Eles estão estressados com nada. Certo?
Acabariam por voltar aos mesmos padrões de corrupção, eventualmente.

Veja bem, a idéia do sistema de freios e contrapesos foi criada justamente com esse intento. Que, ao dividir os poderes governamentais em três, impediriam que o estado fosse abusivo. A idéia funciona, em teoria, mas na prática o que acaba acontecendo é que os três poderes eventualmente acabam se aliando e legitimando um monopólio de poder. (Esse raciocinio está presente no livro do Rothbard, A anatomia do estado).

Entidades privadas policiando governos estariam sempre sob ataque dos mesmos, pois é raro um governo permitir ser controlado por uma entidade externa, já que a lógica governamental é que são entidades supremas em seus respectivos territórios e não aceitariam ter seu poder reduzido. O governo:

A) Iria recusar a entidade.
e/ou:
B) Tentaria ativamente corrompe-la ou sabota-la.

No nosso arranjo atual, a solução mais viável (não é a melhor, mas que é possivel implementar) seria que entidades internacionais (em um mercado irrestrito e de livre entrada) efetuassem ratings do governo baseado em dados já existentes (como IDH e indice de liberdade econômica, indice de corrupção). É a mesma ideia das notas de investimento, mas para estilos de governo, mas isso só funcionaria em um mercado de livre entrada que não fosse subsidiado por governos, pois assim, as empresas desonestas seriam desqualificadas pelos consumidores e perderiam seu mercado.

Embora eu pessoalmente não sei dizer quem seria o consumidor desse tipo de arranjo.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Leitor  30/11/2012 05:00
    Como Mises consegue ser genial em tudo que escreve?
  • Mercado de Milhas  30/11/2012 10:24
    Depois de ler Adam Smith, fica fácil.
  • amauri  30/11/2012 08:25
    Boa tarde Leandro!
    O Brasil voltou a registrar, no terceiro trimestre de 2012, o pior crescimento econômico na comparação com seus pares no grupo BRICS. Na comparação do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre com igual período do ano anterior, o crescimento brasileiro de 0,9% ficou atrás da China (7,4%), Índia (5,3%), Rússia (2,9%) e África do Sul (2,3%).
    Mesmo dando incentivos e o credito facil. Tambem ouvi dizer que o governo gastou menos em investimento, o que diminui o PIB. Ainda nao li se o governo conseguiu equilibrar as contas nao tendo deficits. Voce sabe dizer se a queda do PIB for por que o governo gastou menos e se a conta esta equilibrada?
    abs
  • Leandro  30/11/2012 08:48
    Redução de gastos em investimento de fato não ajudam um PIB, mas a causa principal da desaceleração é esta explicada no artigo abaixo: evolução do crédito.

    Tendências da economia brasileira - números e gráficos
  • Jose  30/11/2012 14:14
    Os bancos públicos estão expandindo o crédito a taxas elevadas, já os privados a taxas moderadas. Mas estão prevendo que os segundos vão no ano que vem voltar a expandir a taxas altas. Vc acredita nisso?
  • Leandro  30/11/2012 14:56
    Só se forem malucos. Por que sairiam emprestando para uma população já sobre-endividada? Os riscos são enormes. Ademais, com a baixa taxa de juros do mercado interbancário (a taxa SELIC), a qual tende a cair ainda mais, os bancos vão preferir investir em coisas mais seguras, como títulos do governo, principalmente os de mais longo prazo. Por quê?

    Porque, para você fazer empréstimos, você tem de ter um mercado interbancário atrativo e funcionando bem para cobrir as suas reservas. Com a SELIC baixa, a tendência é que os bancos não irão sair emprestando para aqueles outros bancos que fizeram empréstimos arriscados. Só o farão se os juros subirem e tornarem esses empréstimos interbancários mais atrativos.

    Isso está acontecendo hoje nos EUA. Com a SELIC deles em 0,25% e a economia sem grandes perspectivas, os bancos só estão emprestando para clientes totalmente confiáveis. O resto eles estão investindo em títulos públicos de longo prazo. Enquanto os juros continuarem baixos, isso não vai mudar. Há uma chance de o mesmo acontecer com o Brasil.
  • Jose  30/11/2012 15:21
    Mas e se o BC reduzir o compulsório?

    Vc fala que a tendência é a selic baixar mais, por causa do pib fraco do 3ºtri?
  • Leandro  30/11/2012 15:33
    O compulsório -- sobre depósitos em conta-corrente e a prazo -- já foi reduzido várias vezes esse ano. Foi o que restou ao BACEN.

    O que ocorrerá se o compulsorio for reduzido ainda mais? Bom, se eu fosse um banqueiro, depositaria o que foi liberado em algum fundo de investimento ou até mesmo compraria mais títulos públicos. Quero segurança.

    Quanto à SELIC diminuir, sim, será por causa do PIB anual de 1%. Mas também pela simples queda na demanda. Os juros bancários atuais estão baixos por queda da demanda por empréstimos. É só ver as estatísticas de crédito do BACEN. Sem muitas perspectivas de crescimento, as empresas não expandem seus investimentos. E os bancos privados, corretamente, só estão emprestando para pessoas com bom histórico.

    Esse, aliás, já é o cenário na Europa e nos EUA há 4 anos.
  • Jose  30/11/2012 15:42
    Mas o compulsório ainda é muito alto no Brasil. Se a queda maior da selic não funcionar, resta ao BC mexer no compulsório. Comparado com Europa e EUA, o Brasil ainda tem armas fortes para fazer o crédito se expandir.
  • Jose  30/11/2012 15:53
    Esse juro baixo nos EUA está ajudando as empresas a captarem.

    Leia:

    Dívida de empresas vira febre nos EUA

    "Venho fazendo isso há 23 anos e nunca vi uma demanda tão grande por novas emissões de dívida corporativa", diz Jim Probert, executivo do Bank of America responsável pela área de investimentos de baixo risco.

    online.wsj.com/article/SB10000872396390444184704577587792512714260.html
  • Jose  30/11/2012 15:59
    Acho que os bancos também vão apostar mais no mercado imobiliário.
  • Jose  30/11/2012 15:34
    Os bancos também não vão investir mais em dívida corporativa?

    Essa selic baixa não vai fomentar o mercado de capitais brasileiro?
  • Leandro  30/11/2012 16:00
    Bom, isso aí (o que os bancos vão fazer), você obviamente terá de perguntar a eles. Eu não tenho mínima capacidade de dizer o que vários indivíduos farão e nem como eles agirão. Isso está totalmente fora do meu escopo.

    O que eu posso fazer eu já fiz: falar o que eu faria se fosse eles, e explicar o que eles já fizeram até agora.

    Quanto à redução do compulsório gerar expansão do crédito, repito o que eu disse: por que emprestar arriscado? Outra coisa: você não enfia crédito à força em ninguém. Indivíduos e empresas só irão se endividar se quiserem e se puderem.

    Quanto a essa última notícia, exatamente o que eu disse lá em cima: investimento de baixo risco. Com juros zero e cenário ruim, todo mundo vai para onde há algo. Foi exatamente o que eu disse que faria se fosse banqueiro (ou títulos públicos ou algum fundo de investimento). Grandes empresas, confiáveis, se darão bem. As pequenas e novas, mais difícil.

    Bom, agora vou dar uma pausa. Estou trabalhando há 16 horas seguidas.

    Abraços!
  • Licurgo  01/12/2012 20:27
    Prezado Leandro,

    Uma vez que a causa principal da redução do crescimento é o recuo no volume do crédito e que para voltar a emprestar os bancos precisariam de um mercado interbancário atrativo, o BC não poderia ver-se tentado a interromper a queda da SELIC como forma de incrementar o volume de crédito?

    Grato.
  • Leandro  02/12/2012 21:08
    Para o Brasil, isso seria uma das soluções. Mas apenas isso não seria garantia de nada. Primeiro, os preços têm de se reajustar. Como explicado graficamente neste artigo, enquanto o IGP-M não deflacionar, os investimentos não retomam. Isso é primordial. Foi isso que ocorreu em 2003 e 2009 (nossas duas últimas recessões), mas ainda não ocorreu na atual. Não é à toa que a FBKF (formação bruta de capital fixo) está negativa há quatro trimestres seguidos, e ninguém entende por quê.
  • Rhyan  30/11/2012 11:06
    Leandro, desculpe minha ignorância, mas como pode o PIB comparado com o trimestre anterior ser 0,6% sendo que os valores de mercado são: 2º sem R$1.101,6 bi e 3º R$1.098,3 bi? Não deveria ser um número negativo?

    Obrigado!
  • Leandro  30/11/2012 11:18
    É porque esse aí é o valor nominal. Sobre esse valor, eles aplicam um deflator implícito e fazem a conversão para o PIB real.

    Mas você chamou atenção para um fator crucial (e eu não tinha me dado conta disso): o PIB nominal do terceiro trimestre foi menor que o segundo. Isso só ocorreu no 3º trimestre de 2009.
  • Jose  30/11/2012 14:16
    Cresceremos 4% em 2013, prevê Mantega após divulgação de dados do PIB

    www.valor.com.br/brasil/2924270/cresceremos-4-em-2013-preve-mantega-apos-divulgacao-de-dados-do-pib#ixzz2DeBtCcqR
  • Vítor Höher Nunes  03/12/2012 04:22
    Que sensação de déjà vu...\r
    \r
  • Barack Obama  30/11/2012 11:22
    Oi, eu vi no artigo falando algo que deixa a entender que o ato de empreender é transformar coisas com pouca utilidade marginal em coisas com alta utilidade marginal, você pode indicar artigos que reforcem essa ideia, achei ela fenomenal, obrigado!
  • Leandro  30/11/2012 11:26
    Obama, esses dois artigo são inteiramente sobre isso (leia nessa ordem):

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1374
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1373

    Espero que, munido destas leituras, o senhor comece a ter bom senso em sua ocupação.

    Cheers!
  • Thyago  01/12/2012 12:58
    Mais simples de se entender impossível.

    Um livro de introdução a economia deveria ter esse tipo de texto.
  • Eduardo  02/12/2012 05:54
    Sobre o artigo simplesmente genial. Mises sempre consegue colocar as coisas de forma bem claras e simples de se entender.

    Agora tenho uma duvida. É muito difundido que há setores que nos deveríamos ter apoio do estado para que esse x setor cresça e a gente não fique dependentes de outros países. O exemplo mais clássico é o do petróleo, onde sempre dizem que nos devemos ser autossuficientes em petróleo e blablabla.

    Eu entendo que mesmo em um setor considerado "mais importante do que os outros"(isso não são palavras minhas, apenas estou reproduzindo o que a grande mídia costuma dizer, os efeitos nocivos de um investimento estatal seja ele através de subsídios ou da criação de uma empresa estatal para extrair petróleo serão os mesmos.
    Também vejo que não existe apenas um grande produtor de petróleo, então é um tanto quanto falaciosa essa ideia de que ficaríamos dependentes de apenas um pais (apesar que quando não é dito um pais, eles se referem aos grandes produtores de petróleo).

    E há também outro ponto crucial que eu não consigo argumentar quando penso ou discuto sobre esse assunto. É muito dito que o Brasil(e diversos outros países)viveram crises exatamente por essa "dependência" para adquirir petróleo. Até onde essas crises aconteceram por isso? O aumento no preço do petróleo em determinadas épocas contribuiu para essas crises ou isso é apenas falacia?
  • Filosofo comum  08/06/2014 07:21
    Alguém pode me explicar como a terra se tornou uma propriedade, ja que nao possui algo inerente, isso foi um acordo entre a comunidade?
  • Fernando Chiocca  09/06/2014 16:23
    O John Locke pode.


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