A China no limiar de uma recessão industrial

Uma forte recessão vem castigando a Europa e os EUA há anos.  Para piorar, tudo indica que a China entrou no radar.  O setor industrial chinês, que abrange uma substancial fatia da economia chinesa — uma fatia muito maior do que a de todas as economias desenvolvidas (85% da economia americana, por exemplo, é formada pelo setor de serviços) — vem apresentando inequívocos sinais de estagnação.

Produtos estão se amontoando nos portos.  Os estoques não param de crescer.  Os consumidores reduziram o apetite.  É o que relata o The New York Times.

Após três décadas de crescimento vertiginoso, a China está se deparando com um problema até então inédito em sua recém-enfraquecida economia: um acúmulo imenso de bens não vendidos que está abarrotando lojas, entupindo concessionárias de automóveis e enchendo os depósitos das fábricas.

O excesso de tudo, desde aço e utensílios domésticos até carros e apartamentos, está atrapalhando os esforços da China para sair de uma desaceleração econômica acentuada. Também está produzindo uma série de guerras de preços e tem levado os fabricantes a redobrarem os esforços para exportar o que não conseguem vender no país.

A seriedade do excesso de estoques na China tem sido mascarada cuidadosamente pela manipulação dos dados econômicos por parte do governo chinês — tudo parte de um esforço para estimular a confiança na economia entre os empresários e os investidores.

A principal pesquisa feita por agências não governamentais afirma que os estoques estão crescendo a um ritmo nunca visto desde que a pesquisa passou a ser realizada, em abril de 2004.  Esta aceleração no crescimento dos estoques vem ocorrendo desde maio.  As vendas estão em queda.

"Por todo o setor manufatureiro que pesquisamos, as pessoas esperavam mais vendas durante o verão (no hemisfério Norte) e elas não aconteceram", disse Anne Stevenson-Yang, diretora de pesquisa da J Capital Research, uma empresa de análise econômica em Hong Kong. Com os estoques extremamente altos e as fábricas agora cortando a produção, ela acrescentou, "as coisas estão meio que parando".

A reação dos fabricantes tem sido racional: cortar preços.  Tentar reduzir ao máximo os estoques.  Mas isso não está acontecendo a um ritmo rápido o bastante.

Tudo está se estagnando: exportações, importações, emprego, demanda por matérias-primas.  Até mesmo o setor imobiliário começou a vivenciar uma queda de preços. [Já prevista, em ordem cronológica, aqui, aqui e aqui].

A China é a segunda maior economia do mundo e tem sido o maior motor de crescimento econômico desde o início da crise financeira global em 2008. A fraqueza econômica significa que a China provavelmente comprará menos bens e serviços do exterior em um momento em que a crise da dívida soberana na Europa já está prejudicando a demanda, aumentando a perspectiva de excedente global de bens, queda de preços e fraca produção por todo o mundo.

O crescimento das exportações chinesas, um esteio da economia nas últimas três décadas, desacelerou até quase parar. As importações também pararam de crescer, em particular para matérias-primas como minério de ferro para a produção de aço, enquanto os industriais perdem a confiança de que conseguirão vender se mantiverem suas fábricas funcionando. Os preços dos imóveis caíram acentuadamente, apesar de haver indícios de que chegaram ao ponto mais baixo em julho, e o dinheiro tem deixado o país por vários canais legais e ilegais.

Algumas empresas estão relatando declínios de 30 a 50% em suas vendas.  Isso não é nada insignificante.  Várias empresas estão falindo.

Os donos de empresas que produzem ou distribuem produtos tão diversos quanto desumidificadores, tubos plásticos para sistemas de ventilação, painéis solares, roupa de cama e vigas de aço para teto falso, disseram que as vendas caíram ao longo do último ano e exibem pouco sinal de recuperação, enquanto os bens não vendidos acumulam.

"As vendas caíram 50% em relação ao ano passado e o estoque está elevado", disse To Liangjian, proprietário de uma empresa atacadista que distribui molduras de foto e xícaras.

Alguns empreendedores parecem não entender a mensagem.  Um gerente de uma empresa atacadista de pias e torneiras disse que suas vendas caíram 30% no ano passado e que tem acumulado mercadoria excedente, mas seu fornecedor continua produzindo em ritmo acelerado e aumentando seus estoques.  "O estoque do meu fornecedor é imenso porque ele não pode reduzir a produção — ele não quer perder vendas quando a demanda voltar".  Este fornecedor está brincando com a sorte.  A menos que a economia se recupere rapidamente, ele vai ficar sem dinheiro.

Os estoques de automóveis não vendidos estão inchando nas concessionárias por todo o país. Problemas de qualidade estão surgindo. E os problemas da indústria chinesa mostram todos os sinais de estarem piorando, não melhorando. Foram abertas tantas fábricas de automóveis na China nos últimos dois anos que o setor está operando a apenas cerca de 65% de sua capacidade — bem abaixo dos 80% geralmente necessários para lucratividade.

Mas tantas novas fábricas estão sendo construídas que, segundo a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma chinesa, a capacidade manufatureira do setor automotivo do país está a caminho de voltar novamente a crescer, nos próximos três anos, em uma quantidade igual a todas as fábricas de automóveis do Japão, ou quase todas as fábricas de automóveis nos Estados Unidos.

Os níveis dos estoques estão subindo rapidamente.

Os fabricantes, em grande medida, têm se recusado a reduzir a produção e estão pressionando as concessionárias a aceitarem a entrega de automóveis segundo seus acordos de franquia, apesar de muitas concessionárias estarem com dificuldades para encontrar lugares para estacioná-los em seus pátios abarrotados ou para encontrar formas de financiar seus estoques crescentes.

Qual foi a reação do governo?  Suspender a divulgação de dados sobre a queda no licenciamento de automóveis.

Minha avaliação: os exportadores chineses começarão a reduzir seus preços para aliviar seus estoques.  Tal prática irá se tornar cada vez mais agressiva.  Países que têm livre comércio com a China podem se beneficiar disso em termos de inflação de preços.  Itens fabricados na China, como vestuário, podem ficar mais baratos.  As indústrias destes países terão ainda mais dificuldades para concorrer com a China.  Mas o setor varejista irá se beneficiar.  Os consumidores irão se beneficiar.  Este fenômeno chinês irá ajudar a manter os índices de inflação de preços mundiais marginalmente menores do que seriam em outros contextos.

A recessão global tende a piorar nos próximos meses.  A concorrência de preços praticada pela China irá ajudar os consumidores a navegar por essa recessão.  Mas essa concorrência irá afetar uma pequena parcela do setor industrial da maioria dos países ocidentais.  Os efeitos sobre a maioria dos trabalhadores do setor industrial será periférico.

Aqueles investidores mais prescientes que ficaram vendidos na China irão ganhar muito dinheiro.

 

Não deixe de ler nossos artigos sobre a China.


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SOBRE O AUTOR

Gary North
, ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história. Visite seu website


"Não podemos ignorar o fato de que muitos governos protegem e subsidiam o produto nacional para torná-lo artificialmente competitivo."

Correto. "Artificialmente competitivo". Isso significa que algo só consegue ter um mínimo de competência caso chupe dinheiro de impostos de toda a população, a qual não ganha nada com isso, mas é obrigada a encher os bolsos de empresários mercantilistas, incompetentes e avessos à concorrência.

"Vejam o caso da Bombardier no Canada, que disputa mercado com a Embraer, que fez queixas formais à OMC."

E, ainda assim, a Embraer tem mais aviões que a Bombardier no mercado americano.

"A China subsidiou setores que ganharam mercado através da derrocada em outros países."

Quais mercados que foram dominados pelos chineses e que fizeram muita falta para outros países? Colocando de outra forma: esses mercados que os chineses dominaram por acaso são mercados tecnológicos, complexos e que geram riqueza e prosperidade, ou são mercado primitivos, tecnologicamente defasados e que não exigem nenhuma grande especialidade?

Até onde sei, chineses produzem pano, sapato e bugigangas de baixíssimo valor agregado. Isso leva alguém à pujança? Um país que deixou de fazer isso por causa dos chineses agora está irremediavelmente condenado ao atraso?

Por acaso cortar, entortar e rebitar ferro — tarefas que um xing-ling é capaz de executar a custos irrisórios — são coisas economicamente prementes para o país ou será que o governo quer que isso seja feito apenas para exibir estatísticas de produção industrial?

"Basta lembrar o que aconteceu com o setor textil e calçadista no Brasil."

Exatamente o que acabei de dizer acima. Em vez de nos preocuparmos com nanotecnologia, microprocessadores e outras atividades que realmente produzem riqueza, ainda estamos preocupados com pano e sapato, coisas completamente primitivas, que podem perfeitamente ser produzidas nos rincões mais atrasados do mundo.

Estude um pouco sobre divisão global do trabalho.

Comece por aqui:

Não há argumentos econômicos contra o livre comércio - o protecionismo é a defesa de privilégios

"Livre mercado é uma utopia irrealizável."

O que é realmente irrealizável é a inteligência econômica do brasileiro médio.
O artigo do André Lara já foi comentado pelo Leandro em duas ocasiões:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2578#ac189563

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2585#ac189561

Beira o inacreditável como é que um economista tão conceituado falou tamanha bobagem a respeito da política monetária americana. O André Lara simplesmente ignora como realmente se deu a política monetária americana. Foi impressionante.
Economistas do Banco Central do Brasil estão batendo palmas para este artigo publicado no Valor:
www.valor.com.br/cultura/4872458/andre-cochrane-e-teoria-fiscal-dos-precos

Gostaria de uma análise por parte do pessoal do Mises.

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VALOR ECONÔMICO -SP | EU E FIM DE SEMANA

BANCO CENTRAL | ECONOMIA, FINANÇAS E CONTAB.

André, Cochrane e a teoria fiscal dos preços (Artigo)

André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que "a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (...) tem sólidas credenciais analíticas". Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

Claro que não se trata disso! Apesar de o artigo se apresentar como uma crítica ao "conservadorismo intelectual", sua conclusão final é absolutamente conservadora: o trabalho de controle da inflação depende, em última instância, da confiança na sustentabilidade fiscal de longo prazo; sem isto, a política monetária estará sempre lutando uma batalha perdida.

A crítica de André ao conservadorismo parece resultar mais de um flerte com a doutrina neofisheriana, que se caracteriza por conclusões heterodoxas sobre a relação entre taxa de juros e inflação e por uma controversa teoria fiscal dos preços. Eduardo Loyo lembra que essas ideias têm apenas sobrevivido de forma marginal no corpo da ciência econômica, com seus resultados em total contraversão à opinião da maioria e ao senso comum.

Os neofisherianos dão muita importância à conclusão óbvia de que um regime monetário baseado em uma taxa de juros nominal fixa não produz uma âncora para a inflação. É possível ancorar a inflação quando se mantém o estoque total de moeda fixo, ou evoluindo a uma velocidade constante, como proposto por Milton Friedman. É possível também ancorar a inflação com uma taxa de câmbio fixa, como ocorria tradicionalmente nos regimes de padrão ouro. Não é possível, porém, ancorar a inflação apenas mantendo fixa a taxa nominal de juros.

Para demonstrar isso, considere a velha equação de Fisher, que na realidade é uma identidade que define a taxa real de juros:

Taxa nominal de juros = (taxa real de juros) mais (taxa de inflação)

Sabemos que a inflação aumenta quando a taxa real de juros cai. Imagine então que a taxa nominal de juros é fixa e ocorre um choque exógeno que aumenta a taxa de inflação. Pela identidade de Fisher, isso reduz a taxa real de juros, já que a taxa nominal permanece fixa. Como consequência, a taxa de inflação aumenta ainda mais, o que por sua vez produz uma redução adicional da taxa real de juros, e assim por diante. Ou seja, um regime monetário baseado numa taxa nominal de juros fixa não consegue ancorar a inflação. Qualquer choque exógeno produz uma trajetória explosiva, que tanto pode ser inflacionária como deflacionária.

É claro, porém, que nenhum banco central vai operar com uma taxa nominal de juros fixa, ainda que esta seja sua variável preferencial de controle. No mundo real, a ancoragem monetária é feita através de uma meta de inflação, com a autoridade monetária aumentando a taxa de juros quando a inflação fica acima da meta e reduzindo quando a inflação fica abaixo da meta, até que ocorra a convergência da inflação para a meta. Como consequência a ancora monetária não é uma taxa de juros nominal fixa, mas sim a própria meta de inflação. Nesse regime monetário, a taxa de inflação tende a ser igual à meta de inflação, que é a ancora efetiva. Quando isso ocorrer, a taxa nominal de juros terá seu valor determinado pela identidade de Fisher. Ou seja, no longo prazo a taxa nominal de juros não determina a taxa de inflação; ela é determinada pela meta de inflação!

O longo recente artigo de John Cochrane, citado por André, parece ser uma tentativa de relançar o neofisherianismo em bases técnicas mais respeitáveis. Cochrane sonha em ser uma espécie de Einstein da ciência econômica, afirmando que a experiência recente das economias avançadas com taxas de juros próximas de zero e taxas de inflação persistentemente abaixo das metas constitui-se numa espécie de experimento natural semelhante ao famoso resultado de Michelson-Morley, que foi o ponto de partida para a teoria da relatividade. Acontece que a teoria keynesiana moderna, que é utilizada por todos os bancos centrais, não encontra maior dificuldade para explicar os fatos.

Cochrane utiliza uma versão simplificada da teoria para demonstrar que, quando a taxa de juros de curto prazo é reduzida até zero, só existem duas possibilidades: ou a taxa de inflação volta a subir em direção à meta ou ocorre um processo ilimitado de deflação. Como nada disso teria ocorrido na experiência americana depois que a taxa de juros foi reduzida a praticamente zero ao fim de 2008, a conclusão é de que precisamos uma reformulação fundamental da teoria, e Cochrane sugere a alternativa da teoria fiscal dos preços.

Acontece que os números de inflação para os EUA estão longe de justificar o radicalismo de Cochrane. Em 2016 a taxa de inflação já convergiu, sim, para a meta do Fed de 2% ano. A taxa de núcleo do índice da Personal Consumption Expenditure, o PCE-core que costuma ser priorizado pelo Fed em suas decisões, também está subindo e chegou a 1,7% em 2016, ou seja, bem próximo da meta. Não é correto, portanto, dizer que a política monetária americana com taxa de juros próxima de zero não atingiu seu objetivo de colocar a inflação na meta.

Pode-se argumentar que parece ter demorado muito para conseguir isso? Na realidade não houve tanta demora. Entre 2011 e 2013, a inflação média do IPC americano ficou em 2,1%, com oscilação entre 1,5 e 3%, já perfeitamente compatível com a meta de 2%. No mesmo período, a média para o PCE-core ficou em 1,5%, com oscilação entre 0,9 e 1,7%, um pouco abaixo do IPC, mas nada muito dramático. Deve-se notar que nesses anos havia uma taxa de desemprego na faixa de 7 a 9%, o mercado imobiliário continuava em crise e as famílias provavelmente ainda estavam reduzindo suas despesas pessoais para ajustar seus endividamentos. Logo existiam forças importantes operando no sentido de impedir a elevação da taxa de inflação.

O quadro realmente mudou em 2014 e 2015, quando a inflação caiu abaixo de 1%. Essa desaceleração ocorreu junto a gradual eliminação do relaxamento quantitativo (QE), portanto em princípio com um aperto na política monetária, mas esta não nos parece ser a melhor explicação. O fator determinante foi uma brusca queda nos preços internacionais de commodities, com a cotação do petróleo Brent, por exemplo, caindo cerca de 70% entre meados de 2014 e fim de 2015. Os economistas da tradição de Chicago acreditam tanto em flexibilidade de preços que costumam não levar em consideração choques exógenos desse tipo. Se olharmos, porém, para as variações fortemente negativas do IPC Energia em 2014 e 2015 (menos 10,6% e menos 12,6%), fica claro que este foi um determinante importante da desaceleração inflacionária no período. Em 2016 alguns preços internacionais de commodities voltaram a subir (como 40% para o petróleo e 20% para os metais), o que certamente contribuiu para a elevação da taxa de inflação.

Ou seja, desde 2009 a política monetária americana foi efetivamente expansionista, ainda que diversos fatores tenham contribuído para um retorno relativamente gradual em direção à meta. Fica claro que estamos longe de um resultado paradoxal, tipo Michelson-Morley, que justifique alguma revolução teórica. Talvez o único conhecimento novo relevante que resultou da experiência americana com relaxamento quantitativo (QE) é que uma redução significativa das taxas longas de juros, que foi sua principal consequência, tem pouco impacto sobre o nível de atividade. Isto sugere que Keynes estava errado quando discordava de Hawtrey sobre a maior relevância das taxas curtas de juros para a política monetária.

Faltou comentar a tese de Cochrane sobre a possibilidade de deflação ilimitada quando a política monetária atinge a restrição do piso zero, o que talvez seja relevante para a economia japonesa. Pode acontecer que um banco central operando uma meta de inflação seja levado a reduzir a taxa nominal de juros até zero sem que consiga levar o nível de atividade a uma posição suficiente para reverter uma tendência generalizada à deflação dos preços. Isto ocorreria devido a uma configuração muito desfavorável da relação entre investimento e poupança. Uma economia com muita poupança e pouco investimento, que talvez seja o caso do Japão atual, pode produzir uma situação de desequilíbrio de longa duração com inflação cadente ou negativa.

Devido ao piso zero, a economia não consegue sair da posição deflacionária apenas através da política monetária e vai depender para isso de um estímulo fiscal. O fato de que uma situação desse tipo, como parece acontecer de forma crônica no Japão (particularmente quando olhamos o índice de preços empresarial), produz apenas uma deflação de intensidade limitada e indica apenas que a relação entre inflação e nível de atividade (representada pela curva de Phillips) não é linear e pode ter inclinação muito próxima de zero na região de taxas de inflação negativas. Isso é compatível com a velha noção keynesiana de que é difícil produzir deflações na prática.

Resta ainda entender o que pretende a teoria fiscal dos preços. A melhor explicação foi apresentada por Harald Uhlig no seminário sobre o assunto realizado em abril no Becker Friedman Institute da Universidade de Chicago. Uhlig, curiosamente, comenta que, entre outras possibilidades, a teoria fiscal dos preços talvez possa ser vista como "um conjunto de previsões que ocasionalmente funcionam em circunstâncias exóticas", e adiciona entre parênteses (Brazil?).

Sua explicação é muito simples. Se usarmos B para indicar o valor nominal da dívida pública e P para indicar o índice de preços de bens e serviços, então B/P indica o valor real da dívida. Os agentes privados que detêm esses títulos públicos esperam que eles possam ser pagos através da geração de superávits primários no futuro. Então para que se sintam confortáveis é necessário que o valor presente desses superávits futuros, que podemos indicar por VPS, seja igual ao valor real da dívida, ou seja, B/P = VPS. Isto pode ser visto como uma espécie de condição de arbitragem e podemos perguntar o que acontece se o governo aumenta sua dívida sem aumentar também o valor presente dos superávits futuros. Neste caso, B/P fica maior que VPS e, num mundo de preços plenamente flexíveis e expectativas racionais, o desequilíbrio será corrigido por um aumento no nível de preços. Ou seja, P aumenta de modo a que novamente B/P = VPS. Podemos concluir então que a taxa de inflação, que é a taxa de variação percentual de P, vai ser determinada pela diferença entre as taxas de variação percentual da dívida B e do valor presente dos superávits futuros VPS. Essa é a teoria fiscal dos preços, que se pretende uma explicação radicalmente nova para a inflação, sem qualquer menção a conceitos tradicionais como curva de Phillips, taxa de desemprego, investimento e poupança ou taxa de juros.

A teoria tem um defeito óbvio: não fica claro qual é o mecanismo de mercado que produz o movimento do índice de preços quando B/P difere de VPS. Não há dúvida de que se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para esses títulos, isto é, B/P maior que VPS, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição. Mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços?

Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal ao qual a dívida foi emitida pelo governo, que estamos indicando por B, e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por zB, sendo z um fator de desconto. Se escrevemos a teoria fiscal dos preços como zB/P = VPS, então parece mais razoável supor que um desequilíbrio entre zB/P e VPS vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública, indicado por z. Como esse fator está inversamente relacionado à taxa de juros de longo prazo, a conclusão é de que a teoria fiscal de preços não é uma nova teoria para a inflação, mas apenas uma teoria fiscal da taxa longa de juros.

Veja, porém, que realmente existe um caso exótico em que a teoria fiscal dos preços pode funcionar! É o caso em que a totalidade da dívida pública consiste de papéis ligados à taxa de juros overnight, como acontece com as LFTs no Brasil (que, aliás, foram inventadas pelo próprio André!). Neste caso, o fator de desconto para a dívida pública será sempre igual a um, por definição, e voltamos à formulação B/P = VPS, que viabiliza a teoria. Naturalmente, isso não significa que esteja garantida sua relevância prática no mundo real, fora dos modelos de preços totalmente flexíveis e expectativas racionais. Significa apenas que Uhlig tinha razão ao especular que a teoria fiscal dos preços poderia em tese funcionar em circunstâncias exóticas, como no Brasil das LFTs.

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC)

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Hay  28/08/2012 06:49
    Eu ainda tenho aquela sensação de que há algo acontecendo na China que é difícil de prever, alguma bomba-relógio prestes a explodir. Acho que tem alguma coisa a ver com uma bolha imobiliária, porque acho que tem sido gasto muitos recursos em construções de cidades inteiras no meio do nada, e acho que há maquiagem demais de números e estatísticas partindo do governo chinês.
    Estou sentindo que há uma conjunção de fatores que levará, em alguns anos, a um gigantesco colapso, algo que nem a pessoa mais pessimista conseguirá prever. Isso porque todos estão tentando manipular números e fazer com que tudo pareça estar melhor do que realmente está. Quando isso acontece, segue-se a geração de uma bolha de crédito ainda maior para tentar "reativar" a economia. Quando essa bolha estourar, a coisa pode realmente ficar muito feia. Como a bolha vai estourar nas mãos de outros políticos, os que estão atualmente no poder não estão nem um pouco preocupados com isso.
  • Mateus moura  28/08/2012 09:16
    Os politicos lá ficam eternamente, ou seja: pensam no futuro
    só olhar como eu falei as reservas... Quase 5O POR CENTO DO pib
    dá até ACABAR COM OS IMPOSTOS em alguns meses se for preciso...
    sem problema galera, NÃO ADIANTA GENERALIZAR, achando que por china estar 133 de liberdade economica ela tem um PONTO FRACO QUE VAI ESTOURAR
    não tem, o natural é continuar crescendo
  • pensador barato  28/08/2012 12:05
    Hay especifique para nós suas angustias,pois ficar divagando(refletindo) em cima de generalizações não contribue em nada para o debate.

    ´
  • Hay  06/09/2012 12:18
    Se quer algo realmente concreto, procure no YouTube por cidades fantasma china
    É bastante curioso, estranho e alarmante.

  • Steve Ling  28/08/2012 07:26
    Quando a crise chegar vao culpar o capitalismo.
  • ademir  28/08/2012 08:14
    LEANDRO,NÃO SEI SE ESTOU CORRETO NO MEU RACIOCÍNIO,MAS,COM UMA DESACELERÇÃO DA ECONOMIA CHINESA E UMA CONSEQUENTE BAIXA NA DEMANDA POR COMMODITIES BRASILEIRAS,SEREMOS AFETADOS MAIS SERIAMENTE PELA CRISE,MAS SEM O BENEFÍCIO PROVOCADO PELA DEFLAÇÃO DE PREÇOS PROVOCADA PELO EXCESSO NA OFERTA DE BENS DE CONSUMO,POIS O GOVERNO IRÁ NOS "PROTEGER" DESTES EFEITOS COLATERAIS MALÉFICOS QUE PODEM ACABAR COM A INDÚSTRIA NACIONAL.DADO ESTE QUADRO COMO TIRAR PROVEITO DESTA DEFLAÇÃO DE PREÇOS,MESMO COM A INTERVENÇÃO DO ESTADO?
  • Leandro  28/08/2012 13:49
    Concordo com a análise, muito embora sempre seja possível uma surpresa -- como, por exemplo, itens chineses chegando aqui sem ser fiscalizados pela Receita Federal.

    Agora, se o governo realmente decidir encarecer as importações, aí um abraço. Não tiraremos proveito de absolutamente nada.

  • Pedro  29/08/2012 16:10
    Eu acho que não resta muita dúvida de que o governo vai tentar encarecer o produto chinês para beneficiar seus empresários amigos aqui no Brasil. Toda vez que pego o jornal tem alguma noticia a respeito, agora quem tá pedindo mais proteção é a indústria têxtil.

    Porém como já foi dito, não é muito dificil também muitos produtos passarem sem fiscalização, mas de qualquer forma, se o governo resolver encarecer o importado, ele vai encarecer, independentemente se haverá ou não produto passando sem fiscalização, que eu acredito que seja apenas uma minoria.
  • Joao Ribeiro  28/08/2012 08:49
    A sorte da China é que eles estão a comprar quantidades maciças de ouro.

    Já estão a programar o salto em frente numa nova realidade económica prevendo o crash americano e mundial.



  • Mateus moura  28/08/2012 09:10
    Olhem as RESERVAS DA CHINA(3 TRILHÕES DE DOLÁRES)
    Dá pra neutralizar brincando...
    e esse desaquicemento já ERA PREVISTO pelo paper 99 e vai se acentuar um pouco, mas coninua acima de 5 por cento firme e forte...
    se não tem o que eu falei ali em cima
  • amauri  28/08/2012 11:01
    Boa tarde Leandro. Voce conhece este instituto American Enterprise Institute? Dizem que é serio e mais a direita. É isto? abs
  • Leandro  28/08/2012 13:28
    É o instituto mais assumidamente neoconservador que existe, do tipo que defende mandar bomba em todos os países que não aquiesçam às vontades americanas. Um dos manda-chuvas de lá é Paul Wolfowitz, que dispensa apresentações (e comentários).

    Dizer que se trata de um instituo "sério" é algo que vai depender totalmente dos interesses envolvidos. Para os lucros do complexo industrial-militar, sem dúvida, o instituto é seríssimo.
  • Lauro Daniel  28/08/2012 17:37
    O Governo Chinês tem sido o mais genial do mundo em tirar proveito das maravilhas do capitalismo, enquanto países ocidentais se tornam cada vez mais socialistas e isto que os levou a crise, os poderosos Chineses tem se tornando cada vez mais capitalistas.

    Assim eles conseguirão manter o poder de forma como nenhum outro governo. Duvido muito que aconteça uma queda na economia chinesa.
  • Randalf  28/08/2012 19:16
    O governo chinês fundos gigantescos pois 'rouba' poder de compra aos cidadãos, imprimindo moeda fixada no dólar, para não falar dos maus investimentos que faz (claro, é governo, de outra forma não poderia ser), como reservas de dólares, construção massiva de edifícios, entre outros. A china está a crescer para daqui a algum tempo cair no abismo, pois não tem só problemas económicos, mas sociais. Não irá ter uma queda só a nível económico amigo, será bastante grande e em diversos sectores, só espero que não dê em guerra. Veremos nos próximos anos...
  • Marcos Campos  28/08/2012 22:16
    Não existe mais fórmulas keynesianas para o que esta por vir, o mundo inteiro caíra, o caos se estabelecerá, a fome varrerá os continentes, revoltas, guerras, e a escuridão.

    É por isso que estudo muito aqui a economia austríaca, um de nós deve sobreviver para que possamos fazer do jeito certo.

    Vejo uma grande manobra anglo-saxão e seus aliados para impingir uma linha, um limite para a expansão chinesa (opinião própria).

    O primeiro sinal do fim do mundo como conhecemos foi dado aqui no Brasil, com o comissionamento ex primeiro-ministro da Inglaterra Tony Blair assumindo um cargo de consultoria para a cidade de São Paulo. Os governantes deste país devem estar loucos, ou estamos todos vendidos. Como pode tomarmos tal atitude diante da disputa territorial que vive hoje Inglaterra e Argentina nossa principal parceira no Mercosul.

    A desculpa foi de que empresários paulistas tenham feito o convite. Hora! Nossos empresários não tem capacidade de gestão? Essa história esta muito mau contada, e minha intuição certeira diz que o Brasil vai adquirir mais umas correntes com a Rainha Mãe.

    Delmiro Gouveia e Barão de Mauá devem estar sacolejando em seus túmulos.
  • Pedro Ivo  30/08/2012 13:36
    "Como pode tomarmos tal atitude diante da disputa territorial que vive hoje Inglaterra e Argentina nossa principal parceira no Mercosul" - A argentina é tudo do Brasil no MERCOSUL (amante sadomasoquista-dominatrix, estelionatária, ladra, extorssora, etc.), exceto parceira. Às favas com eles

    "A desculpa foi de que empresários paulistas tenham feito o convite. Hora! Nossos empresários não tem capacidade de gestão? Essa história esta muito mau contada, e minha intuição certeira diz que o Brasil vai adquirir mais umas correntes com a Rainha Mãe" - não estou advogando plano de governo, pois acho que bom mesmo é DESgoverno, mas...

    ...um acordo de livre comércio com os britânicos em troca de apoio com as Folklands vale bem + que nosso acordo de livre comércio com os [i]hermanos]/i](sim, hermanos. A argentina é nosso pais irmão: amigo a gente escolhe, família não).

    Ademais, que correntes com a rainha o que? A Grã-Bretanha não é + tudo isto. Eles não podem nada contra nós. Eles estão falidos. Nós, só à caminho da falência. O Brasil ainda pode se safar. A Grã-Bretanha não.
  • Patrick de Lima Lopes  29/08/2012 04:04
    (Não faz parte do tópico)
    Ron Paul não foi nomeado na convenção de Tampa ontem. A RNC mudou suas próprias regras para que os delegados apenas pudessem votar nos candidatos que seus respectivos estados escolheram, segundo as informações que recebi.
    Agora eu pergunto: Se apenas querem nomear o estatista que gostam, por que ter uma nomeação?
    Nossa esperança de um futuro mais austríaco ainda fez um ótimo discurso um dia antes:
    www.youtube.com/watch?v=YJ-8j9wwDrc&feature=results_video
    Bem, sem comentários. O resultado foi o esperado mas como fui alguém que tentou ao máximo auxiliar a campanha do Ron Paul mesmo estando um oceano distante, não posso deixar de esclarecer que estou muito triste com o que aconteceu.
  • Pedro Ivo  30/08/2012 13:39
    Que você fez para auxiliar na campanha dele? (fiquei curioso agora)


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