Cinquenta tons de governo
por , terça-feira, 21 de agosto de 2012

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287546-fifty-shades-of-grey.jpgRecentemente, durante uma viagem de avião, notei que pelo menos um terço dos passageiros estava lendo um determinado best seller.  Isso me fez pensar.

Toda organização politicamente ativa e poderosa o suficiente para fazer lobby quer algo do governo, e o governo, sempre que possível, se mostrará extremamente satisfeito em aquiescer às demandas.  Durante períodos eleitorais, tal relação se torna ainda mais explícita.  Tudo não passa de uma troca de favores: votos em troca de poder e privilégios.

Uma outra maneira da colocar tudo isso: o governo aloca privilégios na forma de regulamentações específicas, de espoliação de uns em troca de favorecimentos para outros, de proteção aos favoritos e de punições aos não condescendentes.  Todos os grupos de interesse e todos os partidos políticos têm ideias sobre como seu poder sobre nós pode e deve ser usado.

Para os que não são privilegiados e poderosos o bastante para entrar neste arranjo, como você e eu, será que realmente faz alguma diferença quem irá receber os espólios?  Se você será tributado para o governo construir ciclovias ou para dar aumentos salariais ao funcionalismo, o resultado final é o mesmo: você está sendo proibido de utilizar uma parte da sua renda apenas para que políticos e burocratas possam satisfazer seus desejos.  Se as regulamentações dizem que você não pode trabalhar em troca de um valor salarial que esteja abaixo de um valor estipulado arbitrariamente por políticos ou se elas proíbem você de comprar determinados produtos, o efeito final é o mesmo: sua liberdade de fazer contratos voluntários está sendo solapada.

O problema real é que todos se limitam a discutir interminavelmente apenas sobre como o governo pode e deve ser usado.  Ninguém concebe tirar o governo de cena.  O governo deve proibir gays de se unirem civilmente ou deve proibir empresas privadas de discriminar pessoas que optam pela união homossexual?  Ou o estado proíbe alguma coisa ou impõe outra.  Estes são os dois extremos de sua amplitude de atuação.  De um jeito ou de outro, o estado está sendo utilizado para dizer às pessoas o que elas podem e o que elas não podem fazer.  Neste sentido, esquerda e direita têm muito mais em comum do que aceitam admitir: ambas partem do princípio — para elas axiomático — de que o estado pode gerenciar a ordem social melhor do que a liberdade.  Ambas têm planos sobre como o estado pode bem gerir as pessoas.

O governo deve restringir a circulação de automóveis ou deve estimular suas aquisições?  Os bancos devem ser protegidos e estimulados a se fundirem ou devem ser estritamente regulados de modo a não poderem realizar outras atividades senão as bancárias?  As grandes empresas devem ser subsidiadas e protegidas das importações ou devem ser tributadas ao máximo?  Gordura saturada deve ser de consumo obrigatório como parte de uma nova dieta nacional ou deve ser proibida como sendo um risco à saúde?  Remédios devem ter seu acesso dificultado ou subsidiado?

Estes são os grandes debates da nossa era.  Mas é óbvio que eles não representam debates.  Fundamentalmente, são meras empulhações com o objetivo único de sacramentar o poder decisório do estado.  Qualquer que seja a escolha dentre as opções acima, o real vencedor sempre será o governo, seus agentes, seus porta-vozes e seus poderes.  Acima de tudo, será a consagração da nossa aceitação do estado controlando nossas vidas, nossas decisões e nossa cultura.  Ou o estado me proíbe ou ele me obriga.  Estas são as únicas opções ofertadas.  E, incrivelmente, tal totalitarismo segue inquestionável pelo rebanho.

A carga tributária deve ser de 40% do PIB ou 37,2%?  Deve incidir majoritariamente sobre a renda ou sobre o consumo?  Qualquer que seja a escolha, a liberdade é a perdedora, e os direitos de propriedade se tornam cada vez menos garantidos.

Religiosos devem poder controlar o que vemos na televisão, o que lemos e o que fumamos, ou os ateus devem poder impor leis que impeçam as pessoas religiosas de se expressarem livremente?  Qualquer que seja a escolha, está-se concedendo ao governo mais controle sobre a sociedade.

Essa é a grande tragédia de se viver sob o leviatã.  O ser humano sempre terá ideias distintas e conflitantes sobre como as questões devem ser conduzidas.  Isso é inevitável.  O problema ocorre quando se delega o monopólio da tomada suprema de decisões para uma entidade amorfa e acima da lei.  Quem deve ser premiado?  Quem deve ser punido?  Quem deve receber privilégios?  Quem deve pagar a conta?  No final, tudo se torna uma guerra entre grupos de interesse, cada um se esforçando ao máximo para ter influência sobre o estado e, com isso, viver à custa de todo o resto da sociedade.

E o que realmente é essa coisa a que chamamos de estado?  O que é o governo?  Trata-se de uma gangue envolta por toda uma estrutura institucional que cria regras arbitrárias, fiscaliza seu cumprimento e impõe punições aos dissidentes.  Ao mesmo tempo, o estado e seus agentes vivem em uma dimensão paralela, completamente alheios e imunes às leis que eles próprios impõem ao resto da população.  Nós não podemos roubar, mas o governo pode.  Nós não podemos matar, mas o governo pode.  Nós não podemos falsificar dinheiro, mas o governo pode.  Nós não podemos sequestrar nem praticar fraude, mas o governo pode.  Esta coisa chamada governo possui, obviamente, um forte interesse em manter seu poder, seu prestígio e seu financiamento.  Que seus agentes queiram manter seus privilégios, embora moralmente condenável, é algo um tanto compreensível.  O que realmente não dá para entender é que pessoas que estão fora do esquema continuem defendendo a existência dele.

A natureza do estado é a mesma, independentemente de qual seja a estrutura do governo.  Oligarquia, monarquia absolutista, monarquia constitucional, república presidencialista, república parlamentarista, democracia — todos têm uma característica em comum: eles criam uma casta privilegiada de cidadãos que vivem à custa de todo o resto do populacho.

Em uma democracia, o arranjo é ainda mais descarado.  O governo consegue recrutar toda a população para defender a sua causa.  O governo magicamente consegue fazer com que as pessoas se limitem a discutir apenas como o governo deve ser utilizado para se alcançar determinados objetivos econômicos e sociais.  Que o governo sequer deve ser utilizado para tais fins é algo que não passa pela cabeça das pessoas.  Enquanto esta alienação persistir, o governo continuará sendo o vencedor, para o regozijo dos grupos de interesse.  Em uma democracia, a função de lobistas e de grupos de interesse é justamente a de recompensar a classe política por seus esforços, transferindo nosso poder e dinheiro para ela.  Exatamente qual é a desculpa utilizada — e ela muda de acordo com o momento; algumas vezes sutilmente, outras, dramaticamente — é algo que não interessa ao governo.

O governo é um camaleão, perfeitamente jubiloso em vestir qualquer manto cultural ou ideológico que o permita se camuflar e se imiscuir com quaisquer que sejam as demandas sociais e culturais da época.  Em uma democracia litigiosa — como todas são —, existem cinquenta tons de governo, cada tom apropriado para uma determinada época e lugar, cada tom adaptado aos propósitos do momento, todos com o interesse único de firmar seu controle sobre todos.

É disso que se trata todo o "espectro político".  O governo nos domina e nós nos submetemos.  Ele nos coloca em servidão e nós obedecemos à sua disciplina.  Tem de haver uma boa desculpa para tudo isso, caso contrário jamais nos submeteríamos a tamanha humilhação voluntária.  Temos de acreditar que o governo, de alguma maneira, em algum nível, está fazendo algo que nos agrade.  Talvez, como dizem, o governo seja nós mesmos...

As pessoas gostam de dizer que, na Idade Média, na "era da fé", diferenças religiosas levavam a guerras.  No entanto, alguns historiadores que se puseram a analisar aquele período mais detalhadamente observaram algo diferente: governos que querem fazer guerras adoram utilizar a religião como desculpa.

E o mesmo raciocínio se aplica à atualidade.  Na atual "era da ciência", somos submetidos a um planejamento científico social no qual especialistas, com as mãos firme nas alavancas de controle, dizem às pessoas como irão utilizá-las.  Se a desculpa apresentada será religiosa ou científica, ambientalista ou pragmática, nacionalista ou globalista, realmente não interessa para o resto de nós.  Os direitos e as liberdades daqueles que terão de pagar a conta estarão para sempre sacrificados em prol da agenda política de terceiros.

Portanto, na próxima eleição, quando você estiver indo como um cordeirinho para as urnas, pense nos nomes dos candidatos e no que estas pessoas prometeram fazer por você e para você caso você sancione o direito delas de mandar em você.  Afinal, sempre que votamos, nos dizem que nós fizemos nossa escolha voluntariamente e agora temos de viver com ela.

Mas é claro que, neste arranjo, não há escolha nenhuma.  Um dia talvez percebamos de que não há nenhum sentido em nos submetermos a esta servidão consentida.  Ainda haverá um dia em que revogaremos nossa dependência e rejeitaremos toda esta relação escravo-senhor, a qual é a base de sustentação de todo o sistema.  Cinquenta Tons de Governo tem sido um best seller há centenas de anos.  Já é hora de os governados escreverem um livro totalmente novo.


Jeffrey Tucker é o presidente da  Laissez-Faire Books e consultor editorial do mises.org.  É também autor dos livros It's a Jetsons World: Private Miracles and Public Crimes e Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo



17 comentários
17 comentários
Filipe Celeti 22/08/2012 07:19:22

Tucker ataca novamente!

E eu realmente estava pensando neste best-seller e na possibilidade de usá-lo para divulgar o libertarianismo...

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Tiago Leal - Canguçu/RS 22/08/2012 07:34:01


Perfeito texto. Infelizmente os eficazes mecanismos de alienação social não deixam as pessoas lembrarem de questionar as bases do sistema, somente suas superfluidades, e isso quando não estão entretidas no pão e circo (no Brasil entenda-se Bolsa Família e futebol/novelas). Tudo isso sem perceber que é a própria felicidade delas que está em jogo. É se submeter a se especializar num ramo profissional e trabalhar a vida inteira alienado como um cordeirinho em um emprego que não se gosta, anseando por uma suposta aposentadoria alentadora e ainda tendo trabalhado metade da vida pra pagar impostos que certamente não valeram a empreitada. E dizem que isso é o melhor que podemos ter. Foi-se o tempo em que o povo pegava em armas contra os déspotas no ocidente. Não sei quando o jogo irá virar, mas a história certamente nos condenará por essa extrema passividade. Hoje em dia parece que a forma mais eficiente de fugir às garras do governo é se isolando em uma comunidade auto-sustentável escambista e de energia solar na zona rural. Chega a ser ridículo, mas as vezes me pergunto se isso não seria felicidade.

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Roberto 22/08/2012 09:04:53

Concordo plenamente com o texto.
Porém, qual é a alternativa possivel?
Imagino como viáve diminuir ao máximo a participação do Estado em nossas vidas, porém não vejo como simplesmente suprimi-lo. Como o próprio texto cita, as pessoas são diferentes e agem de forma diferente e neste caso, quem regularia as relaçoes entre elas?
Quem seria encarregado de gerir por exemplo a força policial para nos dar segurança?

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anônimo 22/08/2012 09:15:16

Roberto, é leitura que não acaba mais.

www.mises.org.br/Subject.aspx?id=16

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Angelo Noel 22/08/2012 09:05:31

The
Ultimate
Champion on
Knowledge and
Expertise of
Reality.

Responder
Fabio 22/08/2012 12:57:38

Muito Obrigado!
Um dos melhores textos que eu tive o prazer de ler nos últimos dias...

Responder
Erik Frederico Alves Cenaqui 22/08/2012 14:33:41

Os textos do Jeffrey Tucker são sempre muito bons.

Neste texto específico ele levanta um tema que não é percebido pela população.

Esta implicito no debate de idéias na imprensa, escolas, universidades e partidos que o estado deve ser sempre grande, mas onde ele deve ser grande é que é discutido.

Os temas liberais estão completamente fora de circulação na "grande" imprensa, o que é lamentável.

Abraços

Responder
Carlos Eduardo 22/08/2012 15:45:26

O texto do Tucker é, como sempre, implacável. Ainda acho incrível o fato de que tanta gente ainda vê como se fosse grande coisa uma disputa eleitoral ou de poder, por exemplo, entre partidos como PSDB e PT, achando que existe um verdadeiro universo entre os dois, quando na verdade os dois defendem dois lados de uma mesma moeda, de uma mesma linha intervencionista, totalitária e fiel cumpridora dos preceitos do estado fascista e corporativista, só que sob máscaras diferentes. Entender a falsidade dessa dicotomia é a chave pra sair dessa Matrix que é a tal "democracia". Abraços!

Responder
Augusto 22/08/2012 16:56:03

"O governo deve restringir a circulação de automóveis ou deve estimular suas aquisições?"\r
\r
Geralmente, o governo tenta fazer os dois ao mesmo tempo. Eh desperdicio de dinheiro que nao acaba mais.

Responder
Marcus Benites 22/08/2012 17:22:47

O texto é a síntetese perfeita do que pensamos. Entra naquela seleta lista de "texto que queríamos ter escrito". É a plena expressão do que sinto. Excelente.

Responder
Artur Fernando 23/08/2012 07:03:45

Nós percebemos a tragédia que é o fato de as discussões se situarem dentro do campo hegemônico que é o estatismo... Engraçado que a esquerda radical acredita o contrário, que a discussão ocorre dentro do campo hegemônico da aceitação dos mercados do "sistema capitalista"...

Responder
Flaco Marques 24/08/2012 05:19:05

Gostei bastante do texto. Lúcido e provocante.

Responder
Renato 24/08/2012 15:03:29

Deve-se notar que a Constituição americana foi pensada no sentido de restringir a possibilidade de expansão das atribuições do governo. Ela foi traída, evidentemente.

Responder
Deilton 24/08/2012 20:20:37

Sabe quando a pessoa começa bem, mas termina mal?

www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/1139800-basta.shtml
"A Anvisa é uma das agências fascistas que querem controlar nossas vidas nos mínimos detalhes, com sua proposta de exigir receita médica para comprar remédios tarja vermelha. É uma das pragas contemporâneas. "

Responder
Marcos Campos 26/08/2012 19:27:59

Artigo fantástico e me agregou muita poder de argumentação sobre o assunto para essa época de eleições.

Vocês já viram as notícias desta página do face?
https://www.facebook.com/saepr?ref=stream

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anônimo 15/01/2014 23:56:19

Eu concordo parcialmente com o artigo. Há um detalhe que não foi analizado (e leia com atenção porque é meio confuso).

O governo tem a liberdade de dar mais ou menos liberdade ao povo.

Isso ocorre porque a liberdade não é algo contábil, e sim uma condição que varia de intensidade e presença. Uma redução de um imposto implica em mais liberdade financeira, pois adquiriu-se liberdade da parte reduzida do imposto para ser gasto no que a pessoa quiser. Porém haveria-se maior liberdade se o imposto deixasse de existir. Você até pode dizer que há uma liberdade "total" agora de tal imposto, ao invés de parcial.
Então mesmo que no caso uma redução de um imposto ainda implique falta de liberdade do povo de aumentá-lo, reduzí-lo ou eliminá-lo, a redução implica em um passo em direção à liberdade.
Isso aplica também a leis e restrições. Quanto menor for o poder de coersão de um governo, mais liberdade (do governo) o povo experienciará. Em teoria, um governo poderia cometer suicídio, mas isso é algo impossível de qualquer governo querer.

Responder
Pobre Paulista 16/01/2014 10:42:42

Nonsense. Ainda que o governo dê a "liberdade" de cobrar 0% de impostos para as pessoas, que na sua análise significaria liberdade total, ele ainda detém o poder de alterar essa taxa para quanto ele quiser - e quando ele quiser. Isso não é liberdade. O governo não tem a liberdade de dar liberdade ao povo. O governo, apenas pela sua existência, acaba com a liberdade das pessoas, independentemente de suas atitudes.

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