O precipício fiscal americano

A mídia americana está atualmente fixada com uma característica aparentemente nova da economia dos EUA: um "precipício fiscal" no qual os EUA irão cair em janeiro de 2013.  Ela vê um perigo surgindo da simultânea implementação dos US$2 trilhões em cortes automáticos de gastos (os quais ocorrerão ao longo de 10 anos) — acordados na votação da elevação do teto da dívida do ano passado — e a expiração dos cortes de impostos feitos durante o primeiro governo Bush.  Os economistas que a maioria dos jornalistas entrevista alertam que o impacto conjunto de redução nos gastos do governo e aumento dos impostos irá desacelerar a "recuperação" e talvez jogar a economia americana de volta para a recessão.  Embora de fato haja muito com o que se preocupar na economia americana, este precipício em particular não deve figurar no topo da lista.

Grande parte do medo advém da falsa premissa de que gastos governamentais geram crescimento econômico.  As pessoas tendem a esquecer que o governo só pode adquirir dinheiro por meio da tributação, do endividamento ou da simples impressão da moeda.  Absolutamente nada que o governo gasta vem de graça, de modo a não prejudicar ninguém e beneficiar a todos.  O dinheiro que é tributado ou tomado via empréstimo é retirado do setor privado, onde ele poderia ter sido utilizado mais produtivamente.  Já o dinheiro que é criado do nada pelo Banco Central serve apenas para criar inflação de preços e ciclos econômicos.  Sendo assim, os cortes automáticos de gastos, caso eles realmente sejam implementados (o que é duvidoso), tendem a estimular o crescimento econômico, e não a impedi-lo.  Mesmo vários economistas mais liberais tendem a aceitar o boato de que gastos governamentais podem ajudar a economia em geral.  Cortes de gastos afetam apenas aqueles setores que cresceram acostumados a estes subsídios e que irão corretamente encolher quando a mordomia for cortada.

O único motivo de existir este mecanismo de corte automático de gastos é o fato de o Congresso americano não ter tido a capacidade de identificar e implantar cortes específicos.  Mas tenha a certeza de que o Congresso irá inventar outra saída de emergência tão logo se descubra novamente emparedado.  Acabar com os cortes de gastos antes de eles sequer serem implementados tornará risível qualquer plano subsequente de redução do déficit.  Mas políticos sempre irão preferir a frustração da inação à fúria de seus eleitores, os quais podem ser afetados em decorrência de decisões reais.  De qualquer forma, apenas uma fatia extremamente pequena dos cortes está agendada para 2013.  E se o Congresso americano se mostrar incapaz até mesmo de cumprir sua promessa de corte ínfimo de gastos para apenas um ano, como é que ainda existirá gente capaz de acreditar que o Congresso cortará gastos durante dez anos?

Já o impacto do fim dos cortes de impostos da era Bush é bem mais difícil de estimar.  Os efeitos adversos de um aumento de impostos poderiam ser contrabalançados pelos benefícios da redução dos empréstimos tomados pelo governo (desde que os impostos de fato resultassem em um aumento da receita).  Porém, considerando-se os incentivos negativos criados por um aumento das alíquotas do imposto de renda, particularmente no que concerne ao seu impacto na poupança e no investimento, um aumento de impostos pode na realidade resultar em menos receita, desta forma ampliando o déficit orçamentário.

A realidade é que a economia americana passará por caminhos extremamente tortuosos e perigosos independentemente de qual seja a decisão do Congresso.  O verdadeiro "precipício fiscal" está nos encargos da dívida que os EUA terão enfrentar quando os juros subirem.  E, infelizmente, ninguém está falando sobre isso.

A atual dívida pública dos EUA é de aproximadamente US$16 trilhões (e este valor diz respeito apenas à fatia do orçamento que possui receita específica.  Quando se considera todo o passivo para o qual não há receita específica, como os programas assistencialistas Medicare e Medicaid, o passivo pode chegar a estratosféricos US$144 trilhões já em 2015).  Os EUA ainda estão conseguindo pagar o serviço desta espantosa dívida simplesmente porque as taxas de juros sobre os títulos da dívida do governo estão em níveis historicamente baixos (hoje abaixo dos 2%).  Tal nível de juros faz com que o atual serviço da dívida seja de "apenas" US$300 bilhões por ano, um valor relativamente controlável.

Caso mantenha sua atual trajetória, a dívida pública dos EUA provavelmente chegará a US$20 trilhões em alguns anos.  Se, quando isto ocorrer, as taxas de juros voltarem a apresentar algum semblante de normalidade — por exemplo, uma taxa de 5%, que sempre foi seu valor histórico —, somente o pagamento de juros desta dívida será de US$1 trilhão por ano.  Esta quantia representa quase 40% do total de receitas do governo federal em 2012!

Além de tornar o serviço da dívida totalmente ingovernável, taxas de juros maiores irão deprimir a atividade econômica, consequentemente reduzindo as receitas tributárias do governo.  Ao mesmo tempo, juros maiores levam a maiores gastos do governo, justamente por causa do serviço da dívida.  Isto elevaria ainda mais os déficits do governo, gerando ainda mais pressão de alta nas taxas de juros.

Hipotecas mais caras e desemprego ascendente irão renovar a pressão baixista sobre os preços dos imóveis, talvez levando a mais uma grande onda de execução de hipotecas e arresto de imóveis.  Meu palpite é que apenas as perdas nas hipotecas seguradas pelo governo podem acrescentar várias centenas de bilhões de dólares aos déficits orçamentários anuais. 

Quando todos estes fatores são levados em conta, é possível enxergar déficits orçamentários anuais se aproximando rapidamente dos US$3 trilhões (atualmente o déficit é de US$1 trilhão).  Tudo isso deve estar nas estimativas caso as taxas de juros voltam ao seu patamar historicamente normal de 5%.

Se toda esta volumosa perspectiva de endividamento finalmente começar a preocupar os credores dos EUA, taxas de juros de 5% podem rapidamente subir para 10%.  A este novo valor, o custo anual dos juros sobre a dívida pública pode ser igual a toda a receita do governo.  Se isto ocorrer, o governo americano ou terá de cortar gastos generalizadamente (inclusive cortar benefícios politicamente sensíveis), elevar impostos significativamente sobre os pobres e a classe média (bem como sobre os ricos) e dar o calote em sua dívida, ou irá imprimir dinheiro e com isso subjugar toda a população ao prolongado impacto da alta inflação.  Isso, sim, é um precipício fiscal.

Ao continuar se endividando desvairadamente agora que os juros estão baixos, o governo americano está levando toda a sua economia para este precipício, ao mesmo tempo em que mantém os olhos firmemente fixados no espelho retrovisor (assim como o novo governo francês parece estar fazendo).  Por anos, alertei que uma crise financeira seria desencadeada pelo estouro da bolha imobiliária.  Meus alertas foram rotineiramente ignorados e ridicularizados, pois a mídia se apegava à suposição quase universal de que preços de imóveis jamais caem.  Meus alertas sobre o real precipício fiscal também estão sendo ignorados por causa de uma similarmente falsa premissa de que as taxas de juros jamais podem voltem subir.  No entanto, se a história pode nos servir de guia, deveríamos olhar o atual período de taxas de juros extremamente baixas como sendo a exceção, e não a regra.


1 voto

SOBRE O AUTOR

Peter Schiff

é o presidente da Euro Pacific Capital e autor dos livros The Little Book of Bull Moves in Bear Markets, Crash Proof: How to Profit from the Coming Economic Collapse e How an Economy Grows and Why It Crashes.  Ficou famoso por ter previsto com grande acurácia o atual cataclisma econômico.  Veja o vídeo.  Veja também sua palestra definitiva sobre a crise americana -- com legendas em português.




"Não podemos ignorar o fato de que muitos governos protegem e subsidiam o produto nacional para torná-lo artificialmente competitivo."

Correto. "Artificialmente competitivo". Isso significa que algo só consegue ter um mínimo de competência caso chupe dinheiro de impostos de toda a população, a qual não ganha nada com isso, mas é obrigada a encher os bolsos de empresários mercantilistas, incompetentes e avessos à concorrência.

"Vejam o caso da Bombardier no Canada, que disputa mercado com a Embraer, que fez queixas formais à OMC."

E, ainda assim, a Embraer tem mais aviões que a Bombardier no mercado americano.

"A China subsidiou setores que ganharam mercado através da derrocada em outros países."

Quais mercados que foram dominados pelos chineses e que fizeram muita falta para outros países? Colocando de outra forma: esses mercados que os chineses dominaram por acaso são mercados tecnológicos, complexos e que geram riqueza e prosperidade, ou são mercado primitivos, tecnologicamente defasados e que não exigem nenhuma grande especialidade?

Até onde sei, chineses produzem pano, sapato e bugigangas de baixíssimo valor agregado. Isso leva alguém à pujança? Um país que deixou de fazer isso por causa dos chineses agora está irremediavelmente condenado ao atraso?

Por acaso cortar, entortar e rebitar ferro — tarefas que um xing-ling é capaz de executar a custos irrisórios — são coisas economicamente prementes para o país ou será que o governo quer que isso seja feito apenas para exibir estatísticas de produção industrial?

"Basta lembrar o que aconteceu com o setor textil e calçadista no Brasil."

Exatamente o que acabei de dizer acima. Em vez de nos preocuparmos com nanotecnologia, microprocessadores e outras atividades que realmente produzem riqueza, ainda estamos preocupados com pano e sapato, coisas completamente primitivas, que podem perfeitamente ser produzidas nos rincões mais atrasados do mundo.

Estude um pouco sobre divisão global do trabalho.

Comece por aqui:

Não há argumentos econômicos contra o livre comércio - o protecionismo é a defesa de privilégios

"Livre mercado é uma utopia irrealizável."

O que é realmente irrealizável é a inteligência econômica do brasileiro médio.
O artigo do André Lara já foi comentado pelo Leandro em duas ocasiões:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2578#ac189563

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2585#ac189561

Beira o inacreditável como é que um economista tão conceituado falou tamanha bobagem a respeito da política monetária americana. O André Lara simplesmente ignora como realmente se deu a política monetária americana. Foi impressionante.
Economistas do Banco Central do Brasil estão batendo palmas para este artigo publicado no Valor:
www.valor.com.br/cultura/4872458/andre-cochrane-e-teoria-fiscal-dos-precos

Gostaria de uma análise por parte do pessoal do Mises.

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VALOR ECONÔMICO -SP | EU E FIM DE SEMANA

BANCO CENTRAL | ECONOMIA, FINANÇAS E CONTAB.

André, Cochrane e a teoria fiscal dos preços (Artigo)

André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que "a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (...) tem sólidas credenciais analíticas". Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

Claro que não se trata disso! Apesar de o artigo se apresentar como uma crítica ao "conservadorismo intelectual", sua conclusão final é absolutamente conservadora: o trabalho de controle da inflação depende, em última instância, da confiança na sustentabilidade fiscal de longo prazo; sem isto, a política monetária estará sempre lutando uma batalha perdida.

A crítica de André ao conservadorismo parece resultar mais de um flerte com a doutrina neofisheriana, que se caracteriza por conclusões heterodoxas sobre a relação entre taxa de juros e inflação e por uma controversa teoria fiscal dos preços. Eduardo Loyo lembra que essas ideias têm apenas sobrevivido de forma marginal no corpo da ciência econômica, com seus resultados em total contraversão à opinião da maioria e ao senso comum.

Os neofisherianos dão muita importância à conclusão óbvia de que um regime monetário baseado em uma taxa de juros nominal fixa não produz uma âncora para a inflação. É possível ancorar a inflação quando se mantém o estoque total de moeda fixo, ou evoluindo a uma velocidade constante, como proposto por Milton Friedman. É possível também ancorar a inflação com uma taxa de câmbio fixa, como ocorria tradicionalmente nos regimes de padrão ouro. Não é possível, porém, ancorar a inflação apenas mantendo fixa a taxa nominal de juros.

Para demonstrar isso, considere a velha equação de Fisher, que na realidade é uma identidade que define a taxa real de juros:

Taxa nominal de juros = (taxa real de juros) mais (taxa de inflação)

Sabemos que a inflação aumenta quando a taxa real de juros cai. Imagine então que a taxa nominal de juros é fixa e ocorre um choque exógeno que aumenta a taxa de inflação. Pela identidade de Fisher, isso reduz a taxa real de juros, já que a taxa nominal permanece fixa. Como consequência, a taxa de inflação aumenta ainda mais, o que por sua vez produz uma redução adicional da taxa real de juros, e assim por diante. Ou seja, um regime monetário baseado numa taxa nominal de juros fixa não consegue ancorar a inflação. Qualquer choque exógeno produz uma trajetória explosiva, que tanto pode ser inflacionária como deflacionária.

É claro, porém, que nenhum banco central vai operar com uma taxa nominal de juros fixa, ainda que esta seja sua variável preferencial de controle. No mundo real, a ancoragem monetária é feita através de uma meta de inflação, com a autoridade monetária aumentando a taxa de juros quando a inflação fica acima da meta e reduzindo quando a inflação fica abaixo da meta, até que ocorra a convergência da inflação para a meta. Como consequência a ancora monetária não é uma taxa de juros nominal fixa, mas sim a própria meta de inflação. Nesse regime monetário, a taxa de inflação tende a ser igual à meta de inflação, que é a ancora efetiva. Quando isso ocorrer, a taxa nominal de juros terá seu valor determinado pela identidade de Fisher. Ou seja, no longo prazo a taxa nominal de juros não determina a taxa de inflação; ela é determinada pela meta de inflação!

O longo recente artigo de John Cochrane, citado por André, parece ser uma tentativa de relançar o neofisherianismo em bases técnicas mais respeitáveis. Cochrane sonha em ser uma espécie de Einstein da ciência econômica, afirmando que a experiência recente das economias avançadas com taxas de juros próximas de zero e taxas de inflação persistentemente abaixo das metas constitui-se numa espécie de experimento natural semelhante ao famoso resultado de Michelson-Morley, que foi o ponto de partida para a teoria da relatividade. Acontece que a teoria keynesiana moderna, que é utilizada por todos os bancos centrais, não encontra maior dificuldade para explicar os fatos.

Cochrane utiliza uma versão simplificada da teoria para demonstrar que, quando a taxa de juros de curto prazo é reduzida até zero, só existem duas possibilidades: ou a taxa de inflação volta a subir em direção à meta ou ocorre um processo ilimitado de deflação. Como nada disso teria ocorrido na experiência americana depois que a taxa de juros foi reduzida a praticamente zero ao fim de 2008, a conclusão é de que precisamos uma reformulação fundamental da teoria, e Cochrane sugere a alternativa da teoria fiscal dos preços.

Acontece que os números de inflação para os EUA estão longe de justificar o radicalismo de Cochrane. Em 2016 a taxa de inflação já convergiu, sim, para a meta do Fed de 2% ano. A taxa de núcleo do índice da Personal Consumption Expenditure, o PCE-core que costuma ser priorizado pelo Fed em suas decisões, também está subindo e chegou a 1,7% em 2016, ou seja, bem próximo da meta. Não é correto, portanto, dizer que a política monetária americana com taxa de juros próxima de zero não atingiu seu objetivo de colocar a inflação na meta.

Pode-se argumentar que parece ter demorado muito para conseguir isso? Na realidade não houve tanta demora. Entre 2011 e 2013, a inflação média do IPC americano ficou em 2,1%, com oscilação entre 1,5 e 3%, já perfeitamente compatível com a meta de 2%. No mesmo período, a média para o PCE-core ficou em 1,5%, com oscilação entre 0,9 e 1,7%, um pouco abaixo do IPC, mas nada muito dramático. Deve-se notar que nesses anos havia uma taxa de desemprego na faixa de 7 a 9%, o mercado imobiliário continuava em crise e as famílias provavelmente ainda estavam reduzindo suas despesas pessoais para ajustar seus endividamentos. Logo existiam forças importantes operando no sentido de impedir a elevação da taxa de inflação.

O quadro realmente mudou em 2014 e 2015, quando a inflação caiu abaixo de 1%. Essa desaceleração ocorreu junto a gradual eliminação do relaxamento quantitativo (QE), portanto em princípio com um aperto na política monetária, mas esta não nos parece ser a melhor explicação. O fator determinante foi uma brusca queda nos preços internacionais de commodities, com a cotação do petróleo Brent, por exemplo, caindo cerca de 70% entre meados de 2014 e fim de 2015. Os economistas da tradição de Chicago acreditam tanto em flexibilidade de preços que costumam não levar em consideração choques exógenos desse tipo. Se olharmos, porém, para as variações fortemente negativas do IPC Energia em 2014 e 2015 (menos 10,6% e menos 12,6%), fica claro que este foi um determinante importante da desaceleração inflacionária no período. Em 2016 alguns preços internacionais de commodities voltaram a subir (como 40% para o petróleo e 20% para os metais), o que certamente contribuiu para a elevação da taxa de inflação.

Ou seja, desde 2009 a política monetária americana foi efetivamente expansionista, ainda que diversos fatores tenham contribuído para um retorno relativamente gradual em direção à meta. Fica claro que estamos longe de um resultado paradoxal, tipo Michelson-Morley, que justifique alguma revolução teórica. Talvez o único conhecimento novo relevante que resultou da experiência americana com relaxamento quantitativo (QE) é que uma redução significativa das taxas longas de juros, que foi sua principal consequência, tem pouco impacto sobre o nível de atividade. Isto sugere que Keynes estava errado quando discordava de Hawtrey sobre a maior relevância das taxas curtas de juros para a política monetária.

Faltou comentar a tese de Cochrane sobre a possibilidade de deflação ilimitada quando a política monetária atinge a restrição do piso zero, o que talvez seja relevante para a economia japonesa. Pode acontecer que um banco central operando uma meta de inflação seja levado a reduzir a taxa nominal de juros até zero sem que consiga levar o nível de atividade a uma posição suficiente para reverter uma tendência generalizada à deflação dos preços. Isto ocorreria devido a uma configuração muito desfavorável da relação entre investimento e poupança. Uma economia com muita poupança e pouco investimento, que talvez seja o caso do Japão atual, pode produzir uma situação de desequilíbrio de longa duração com inflação cadente ou negativa.

Devido ao piso zero, a economia não consegue sair da posição deflacionária apenas através da política monetária e vai depender para isso de um estímulo fiscal. O fato de que uma situação desse tipo, como parece acontecer de forma crônica no Japão (particularmente quando olhamos o índice de preços empresarial), produz apenas uma deflação de intensidade limitada e indica apenas que a relação entre inflação e nível de atividade (representada pela curva de Phillips) não é linear e pode ter inclinação muito próxima de zero na região de taxas de inflação negativas. Isso é compatível com a velha noção keynesiana de que é difícil produzir deflações na prática.

Resta ainda entender o que pretende a teoria fiscal dos preços. A melhor explicação foi apresentada por Harald Uhlig no seminário sobre o assunto realizado em abril no Becker Friedman Institute da Universidade de Chicago. Uhlig, curiosamente, comenta que, entre outras possibilidades, a teoria fiscal dos preços talvez possa ser vista como "um conjunto de previsões que ocasionalmente funcionam em circunstâncias exóticas", e adiciona entre parênteses (Brazil?).

Sua explicação é muito simples. Se usarmos B para indicar o valor nominal da dívida pública e P para indicar o índice de preços de bens e serviços, então B/P indica o valor real da dívida. Os agentes privados que detêm esses títulos públicos esperam que eles possam ser pagos através da geração de superávits primários no futuro. Então para que se sintam confortáveis é necessário que o valor presente desses superávits futuros, que podemos indicar por VPS, seja igual ao valor real da dívida, ou seja, B/P = VPS. Isto pode ser visto como uma espécie de condição de arbitragem e podemos perguntar o que acontece se o governo aumenta sua dívida sem aumentar também o valor presente dos superávits futuros. Neste caso, B/P fica maior que VPS e, num mundo de preços plenamente flexíveis e expectativas racionais, o desequilíbrio será corrigido por um aumento no nível de preços. Ou seja, P aumenta de modo a que novamente B/P = VPS. Podemos concluir então que a taxa de inflação, que é a taxa de variação percentual de P, vai ser determinada pela diferença entre as taxas de variação percentual da dívida B e do valor presente dos superávits futuros VPS. Essa é a teoria fiscal dos preços, que se pretende uma explicação radicalmente nova para a inflação, sem qualquer menção a conceitos tradicionais como curva de Phillips, taxa de desemprego, investimento e poupança ou taxa de juros.

A teoria tem um defeito óbvio: não fica claro qual é o mecanismo de mercado que produz o movimento do índice de preços quando B/P difere de VPS. Não há dúvida de que se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para esses títulos, isto é, B/P maior que VPS, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição. Mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços?

Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal ao qual a dívida foi emitida pelo governo, que estamos indicando por B, e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por zB, sendo z um fator de desconto. Se escrevemos a teoria fiscal dos preços como zB/P = VPS, então parece mais razoável supor que um desequilíbrio entre zB/P e VPS vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública, indicado por z. Como esse fator está inversamente relacionado à taxa de juros de longo prazo, a conclusão é de que a teoria fiscal de preços não é uma nova teoria para a inflação, mas apenas uma teoria fiscal da taxa longa de juros.

Veja, porém, que realmente existe um caso exótico em que a teoria fiscal dos preços pode funcionar! É o caso em que a totalidade da dívida pública consiste de papéis ligados à taxa de juros overnight, como acontece com as LFTs no Brasil (que, aliás, foram inventadas pelo próprio André!). Neste caso, o fator de desconto para a dívida pública será sempre igual a um, por definição, e voltamos à formulação B/P = VPS, que viabiliza a teoria. Naturalmente, isso não significa que esteja garantida sua relevância prática no mundo real, fora dos modelos de preços totalmente flexíveis e expectativas racionais. Significa apenas que Uhlig tinha razão ao especular que a teoria fiscal dos preços poderia em tese funcionar em circunstâncias exóticas, como no Brasil das LFTs.

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC)

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Nairon  12/07/2012 08:27
    E a caixa "econômica" federal fazendo comerciais vultosos de alegria com atores alienados sobre taxas baixas ordenadas pelo governo.
  • PESCADOR  12/07/2012 10:26
    Caramba! Se o Schiff estiver certo mais uma vez, o futuro dos EUA será totalmente caótico.
  • Lucio  12/07/2012 11:02
    Esse tipo de artigo é o meu preferido.

    Seria muito bom poder ler mais artigos como esse, mas usando o Brasil como objeto de análise.

    Amplexos.
  • Leandro  12/07/2012 11:11
    Prezado Lúcio, o último e atualizado artigo sobre a economia brasileira é este:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1347

    Abraço!
  • Filipe Nava  12/07/2012 11:20
    Uma questão importante (que acho que deveria ser abordado em outro artigo) seria calcular os efeitos no resto do mundo. O que será da UE, da China, do Japão, do Brasil, etc. com uma situação de aumento de déficit insustentável pelos EUA, dentre tantas outras consequências?

    Ainda que feita uma análise superficial do mundo daqui alguns anos, o que se poderia prever?
  • Johnny Jonathan  12/07/2012 13:24
    Peter Schiff sempre diz que nos (o resto do mundo) estaremos muito bem sem os EUA pra nos atrasar, que eles são maus pagadores e tal. Só não sei se esse é o caso agora.

    Eu vi um vídeo no youtube em que ele diz que a maior beneficiado vai ser os chineses, que tem uma poupança alta e vão aumentar consumo tendo uma avanço absolutamente incrível na qualidade de vida deles.
    Os EUA consomem quase 50% da gasolina do mundo, sem eles no meio, essa gasolina iria pra nós.

    Mas eu vi isso por alto, não sei qual seria a real situação.

    Tem um carinha lá, o Gerald Celente, que é até mais radical: diz que os States serão o primeiro país do mundo a se subdesenvolver.

    Será? É ver pra crê.
  • Leandro  12/07/2012 13:48
    O argumento do Schiff diz respeito principalmente à China. Segundo ele, as exportações para os EUA são uma perda para os chineses, pois estes estariam em melhor situação se estivessem consumindo eles próprios sua produção. Sua intenção é dizer que tal política do governo chinês de estimular as exportações não faz sentido quando se leva em conta que o país está apenas acumulando títulos americanos e, principalmente, quando se leva em conta o enorme potencial de seu próprio mercado interno.

    Os chineses trabalham muito e praticamente não usufruem os frutos desse esforço, pois seus produtos são exportados em troca de títulos da dívida americana -- algo que, convenhamos, não é muito inteligente. É como se os chineses fossem escravos de seu governo, cuja política de estímulo às exportações não lhes permite se beneficiar dos frutos de seu esforço.

    Ou seja, vou enfatizar - com o risco de soar repetitivo - qual é o ponto de Schiff: Os chineses trabalham, produzem, mas não ficam com sua abundância de produtos, que é o que genuinamente aumenta o bem-estar. Os produtos são criados e são dados aos americanos em troca de títulos da dívida dos EUA que jamais serão quitados.
  • ANDRE LUIS  13/07/2012 18:57
    Olá Leandro

    Não podemos nos esquecer que o regime de governo da China hoje se assemelha a uma DITADURA FASCISTA, com um Estado forte e meia dúzia de empresários dando o suporte financeiro ao regime. Lembro-me de ter levantado a questão do trabalho escravo na China há uns meses atrás. Lá eu argumentava que o conluio entre o Estado e os mega-empresários estaria usando a população como arma de guerra para subjugar uma nação rival. O Partido Chinês e seus amigos empresários não querem o desenvolvimento da população chinesa, por isso a mantêm em rédeas curtas por meio de um regime tirânico, mas sim a HEGEMONIA MUNDIAL.
    A situação econômica americana está a beira de um colapso, e um calote tem até data prevista aproximadamente. O que vc acha que aconteceria num caso destes? Uma guerra seria absolutamente desnecessária, pois já estaria ganha legitimamente pelo credor, e creio mesmo que nem haverá necessidade de se chegar a tanto. A entrega do poderio militar e dos recursos naturais seria voluntária. Seria o fim da sua e da minha liberdade, tão estimada e cantada em prosa e verso neste site.
    Leandro, vc acha que a falta de uma palavra para descrever tal situação, já que escravidão não estaria tecnicamente correta, poderia eximir a responsabilidade de se analisar a aplicação do livre mercado em benefício claro de uma estratégia de guerra?
    Mais simples: Poderia o livre mercado funcionar como coveiro da liberdade?


  • Johnny Jonathan  15/07/2012 01:19
    China é uma ditadura fascista.

    O Brasil é uma ditadura da "maioria" fascista.

    A unica diferença é que lá eles são muito mais autoritários legalmente, e menos economicamente. Aqui como quase tudo é meio-termo tendendo ao autoritarismo.
  • Arion Dias  13/07/2012 21:02
    "É como se os chineses fossem escravos de seu governo"
    Como assim? Se existe governo, existe escravo. É um axioma.
  • BrasilRJ  13/07/2012 00:18
    O primeiro país não teria sido a Argentina?
  • Igor  13/07/2012 22:06
    Esse Gerald Celente é um sensacionalista, ao nível daqueles teóricos do apocalipse do Youtube. As previsões dele não são fundamentadas em nada. Em novembro de 2008 ele disse que em 2012 a crise já teria sérias implicações na política, na economia e na sociedade, tendo o povo americano deixado de ser consumista para se tornar faminto.
  • Igor  13/07/2012 22:10
    www.lawrei.eu/MRA_Alliance/?p=2956
  • Lucio  12/07/2012 11:34
    Olá Leandro,

    Não perco um artigo seu, inclusive já tinha lido este que você indicou.

    Apenas me manifestei para informar sobre demanda por esse tipo de artigo. E à propósito, o gráfico do artigo sobre em que parte do ciclo econômico está o brasil encontra-se desatualizado. =)

    Abraço!
  • mauricio barbosa  12/07/2012 11:35
    Se o schiff estiver correto estaremos no pior dos mundos o desafio é saber quanto tempo essa depressão mundial irá durar, infelizmente estamos caminhando para isso, que DEUS NOS PROTEJA.
  • Eduardo  12/07/2012 12:30
    Olá Leandro. Parabéns por publicar esse artigo!

    Qual/quais seriam o gatilho para isso acontecer? Ânimo dos investidores dos títulos americanos? A velocidade o aumento do déficit dos governos? Qual seria o que teria maiores probabilidades de importância para a crise começar a rolar de vez?
  • Leandro  12/07/2012 12:54
    Eduardo, todas estas opções, bem como a tardia percepção da China de que todos os seus trilhões de dólares acumulados em títulos americanos nunca serão quitados, o que fará com que ela pare de continuar financiando o déficit dos americanos. Aí é que a coisa vai desandar, pois será o momento de os EUA finalmente colocarem a casa em ordem. Sangue, suor, lágrimas e desespero.
  • Julio dos Santos  13/07/2012 09:44
    Sensacional! Incrível como o Schiff consegue chegar a conclusões lógicas e de forma tão simples. Enquanto os keyninhos ficam elaborando teorias super elaboradas com índices tão teóricos que nem eles mesmos sabem o que significa, Schiff chega e simplesmente explica.\r
    Leandro, um sinal de que este gatilho será disparado pode ser o momento que a China parar de recomprar títulos dos EUA quando estes começarem a vencer, correto? Se sim, um bom motivo para eles fazerem isso seria, por qualquer que seja o motivo, um processo de consumo de suas reservas internacionais?
  • Rhyan  12/07/2012 13:07
    Meu irmão diz que os EUA vai voltar bombando... vou recomendar esse artigo pra ele.

    Lembro que uma das apostas do Schiff foi a hiperinflação no curto prazo (?). Perdeu a aposta por causa da crise do euro. Acho que essa aposta da dívida ele não tem como perder.
  • Tiago Moraes  16/07/2012 05:19
    Peter Schiff não fez essa abordagem, Paul Krugman distorceu o argumento dele. O que o Schiff disse é que todos esses dólares criados pelo Federal Reserve, e que foram injetados no sistema financeiro americano, irão provocar uma elevada inflação na economia americana quando essa massa monetária entrar em circulação. Porém, isso ainda não ocorreu, porque o sistema financeiro americano não está aplicando essa massa de liquidez governamental, ou seja, estão com reservas em excesso.
  • Pipe  16/07/2012 06:40
    Na verdade, Peter Schiff argumenta que a hiperinflação monetária está a pleno vapor. Como na economia mainstream o dinheiro é neutro, e não há grande diferença entre dar rios de dinheiro para gente bem conectada no governo e depositar exatamente a mesma quantidade de dinheiro para todas as pessoas no país, para Krugman, não faz sentido falar em consequências desastrosas da inflação monetária. Afinal, a inflação serve para aumentar a demanda agregada, já que a economia para Krugman é só o equivalente àquela bolha assassina do filme "A Bolha": basta alimentá-la para que ela saia por aí rolando contente.
  • andre  12/07/2012 14:27
    Enquanto o dólar for moeda mundial, não há problema para os gringos. Basta imprimir e distribuir para os outros países, e por sinal é o que está havendo no Brasil. E caso os grandes países credores decidam abandonar o dólar, melhor ainda, uma guerra é o melhor cenário para o governo do tio sam.
  • Antônio   12/07/2012 15:49
    Sempre achei muito tola a avaliação de que são os EUA que estão perdendo ao comprar produtos baratos da China. O comércio não é um jogo de soma zero, e tanto o comprador como o vendedor ganha com ele. Inicialmente, a China até pode ter tido vantagens ao acumular altos saldos comerciais com os EUA, pois precisava acumular reservas para decolar. Atualmente, de fato, financia os EUA, haja vista que vende produtos de qualidade muito baratos, incluindo bens de capital.\r
    \r
    Outro fato relacionado ao endividamento excessivo dos Eua não foi mencionado: quando os juros subirem, os títulos do governo vão se desvalorizar, o que fará com que os americanos com títulos do seu governo fiquem mais pobres, provocando uma espiral descendente na economia.
  • Pedro  12/07/2012 21:24
    Europa quebrada, EUA quebrando (com potencial de ser um caso muito pior que o europeu) e a China desacelerando com uma bolha imobiliária gigantesca em formação.

    O futuro é promissor...

    No caso dos EUA eu só consigo ver 3 cenários possiveis:

    1- O governo vai tentar elevar drasticamente os impostos para compensar o déficit, o que será desastroso e poderá não resultar em nada no final, já que um aumento nos impostos (graças a curva de Laffer) nem sempre resulta em um aumento na arrecadação. Historicamente (excluindo século 19) a tributação americana teve seus altos e baixos e a arrecadação no final foi sempre em torno de 18-20% do PIB. Se isso acontecer a segunda hipotése se torna mais provavel.

    2- O FED vai começar a imprimir dinheiro que nem louco para comprar os titulos americanos e financiar sua divida, criando uma inflação galopante, o que será mais desastroso ainda.

    3- O calote que por incrivel que pareça, me parece a saida mais "adequada", pois um calote generalizado irá fazer com que a confiança no governo americano por parte dos credores se anule, o governo não tenha mais como se financiar e seja então, obrigado a viver dentro de seus limites. Como viver dentro de seus limites não é algo que o governo deseja, a opção impostos e inflação, infelizmente, parecem ser as mais provaveis.

    A saida ideal mesmo, que seria fazer o que o Ron Paul propõe, cortar pelo menos 1 trilhão em gastos imediatamente está fora de questão, duvido mesmo que isso venha a ser posto em pratica.
  • Eduardo  13/07/2012 12:10
    Muito boa a sua análise Pedro!
  • Pedro Valadares  16/07/2012 13:23
    Leandro, na sua opinião E.U.A sofrerão o que o Brasil passou nos anos 80,crise da dívida externa e hiper inflação?

    Com a possível desvalorização do dólar, o eixo mudará e os E.U.A voltarão a ser um pólo exportador, atraindo de volta os empregos nas indústrias?

  • Eduardo  16/07/2012 14:09
    Até os EUA voltar a ser polo exportador, se um dia voltar, ainda tem muito chão e lágrimas à rolar, penso eu.
  • Thyago  13/07/2012 06:47
    Esse tipo de artigo é o meu preferido (2).
  • ricardson  09/11/2012 13:37
    Prezado Leandro,



    Recentemente tive uma conversa com um amigo economista sobre a atual crise econômica americana. De imediato, ele reconheceu que houve apenas uma falha do Federal Reserve, mas a "culpa" foi totalmente atribuída ao sistema financeiro americano. Segundo ele, o Federal Reserve somente tem o poder sobre a taxa de juros de curto prazo, e essa crise se deu por causa da diminuição da taxa de juros de longo prazo, a qual é determinada pelo próprio mercado.

    Poderia me esclarecer melhor essa questão?

    certo de sua valiosa consideração, no aguardo,

    ricardson.

  • Leandro  09/11/2012 15:37
    A que taxa de juros de longo prazo que ele se refere? A dos títulos de longo prazo da dívida americana? Os de 10 anos? Os de 30 anos? Esses não tiveram influência nenhuma sobre a bolha imobiliária.

    Ele se refere às hipotecas de 30 anos? Ora, essas são consequências diretas da política monetária do Fed.

    Sim, o Fed controla diretamente apenas os juros de curto prazo, mas estes juros afetam todos os outros juros da economia. Se o Fed injeta dinheiro nas reservas bancárias -- permitindo que os bancos possam agora expandir o crédito em um valor múltiplo dessas reservas --, tanto os juros de curto prazo quanto os juros de todos os empréstimos de prazo mais longo tendem a cair.

    E foi isso que aconteceu. De 2001 a 2006, o Fed, em conjunto com o sistema bancário de reservas fracionárias, injetou 2 trilhões de dólares na economia, os quais foram majoritariamente para o setor imobiliário, inflando a bolha. Quando tal expansão foi freada, os juros das hipotecas subiram, a demanda por imóveis caiu, os preços dos imóveis caíram, pessoas que não mais conseguiam pagar suas hipotecas começaram a dar o calote, os bancos que haviam emprestado para essas pessoas ficaram sem dinheiro e viram o valor de seus ativos despencar, isso levou a uma contração do crédito, e todo o sistema bancário se tornou insolvente. Os bancos ficaram insolventes tanto pelo fato de seus empréstimos terem sido caloteados quanto pelo fato de os imóveis que arrestaram dos clientes inadimplentes terem caído de valor.

    Vale acrescentar que esta farra de empréstimos só pôde ocorrer neste nível porque, além de toda a expansão monetária do Fed, os bancos foram obrigados por uma lei federal (chamada de Community Reinvestment Act) a emprestar para pessoas sem nenhum histórico de crédito e também porque havia duas proto-estatais (Fannie Mae e Freddie Mac) que juravam garantir todos os empréstimos feitos pelos bancos para pessoas que queriam comprar imóveis.

    Em um cenário desses, era impossível não acontecer lambança.


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  • Rodrigo  09/11/2012 15:24
    E Jim Rogers e Marc Faber estão falando do horror financeiro que pode vir mais à frente. E a reeleição de Obama não satisfez nem a um nem a outro.
  • carraro  09/11/2012 17:22
    O que poderá fazer com que as taxas de juros que os EUA pagam em seus títulos de dívida aumentem?

    Li em outros artigos que o FED se meteu em um beco sem saída, uma vez que adquiriu muitos ativos (títulos americanos, títulos hipotecários podres, etc) contrabalanceando em seu passivo as atuais reservas em excesso dos bancos. Quando os bancos se sentirem seguros e começarem a liberar esse dinheiro na economia, para segurar a inflação, o FED terá que vender esses ativos podres, ou mesmo títulos americanos, aumentando a oferta e consequentemente os juros, desencadeando assim esse precipício fiscal que o Schiff alerta. É isso mesmo? Há alguma outra saída para o atual arranjo?

    Abs.
  • Leandro  12/11/2012 01:29
    Correto. Uma outra saída seria alterar a taxa do compulsório, inclusive para depósitos de poupança e a prazo -- os quais não possuem compulsório nos EUA. Mas isso, além de também afetar os juros, terá muita resistência do setor bancário.
  • Indagador  13/05/2014 00:12
    Por que a taxa de juros do mercado interbancário não é a mesma que o tesouro estipula para os seus títulos? Os títulos são usados como lastro nas operações interbancárias overnight, logo é de se esperar que seja o valor dos juros dos títulos a taxa básica de juros e não o valor definido arbitrariamente pelo banco central. Resumidamente não compreendo como os títulos, ao entrarem no mercado secundário, tem sua rentabilidade definida pelo banco central e não mais pelo tesouro. É infinita a quantidade de títulos que podem ser usados no mercado interbancário, já que os bancos podem comprar a quantidade de títulos do tesouro que quiserem? Por que isso não torna a tarefa do banco central de manipular os juros impossível?

    O FED paga sobre as reservas em excesso a taxa 0,25% a.a. de forma fixa, ou este valor acompanha a taxa básica de juros? Se amanhã a taxa básica de juros for 10% a.a., as reservas em excesso serão remuneradas nessa taxa?

    Porque se o tesouro elevar os valores dos juros que paga a seus títulos a atividade econômica será deprimida? Isso ocorre mesmo se a taxa interbancária permanecer baixa?

    Quando o juros de um título pré fixado (todos os títulos americanos são pré fixados) é elevado, seu valor atual cai. Ou seja, se eu comprei um título cujo valor de face é $1000 por $500, ele pode estar valendo $400 no futuro devido a um aumento do valor do juros. Na ocorrência dessa queda, o tesouro pode gastar esses $100 por não estarem mais lastreando o valor atual do meu título? O governo não tem para si o valor que conseguiu com a venda dos títulos, mas somente o valor das quedas (do valor atual dos títulos) que o aumento dos juros provocou? O tesouro tem, a qualquer momento, o dinheiro correspondente ao valor atual de todos os títulos que emitiu, para no caso de uma "corrida ao tesouro", não dar calote?
















  • Leandro  13/05/2014 11:27
    "Por que a taxa de juros do mercado interbancário não é a mesma que o tesouro estipula para os seus títulos?"

    O Tesouro não estipula juros nenhum. O Tesouro apenas vende títulos (de curto, médio e longo prazo) em um leilão; quem estipula juros é o mercado, o qual, no entanto, é altamente influenciado pela taxa básica de juros (curto prazo) estipulada pelo Banco Central.

    "Os títulos são usados como lastro nas operações interbancárias overnight, logo é de se esperar que seja o valor dos juros dos títulos a taxa básica de juros e não o valor definido arbitrariamente pelo banco central."

    O "valor definido arbitrariamente pelo banco central" é exatamente a taxa overnight.

    "Resumidamente não compreendo como os títulos, ao entrarem no mercado secundário, tem sua rentabilidade definida pelo banco central e não mais pelo tesouro."

    De novo: Tesouro não define juros. E o BC define apenas as taxas de curto prazo, embora consiga de certa maneira influenciar também as de longo prazo. (Leia sobre a "Operação Twist" efetuada pelo Fed).

    "É infinita a quantidade de títulos que podem ser usados no mercado interbancário, já que os bancos podem comprar a quantidade de títulos do tesouro que quiserem?"

    Em tese, sim.

    "Por que isso não torna a tarefa do banco central de manipular os juros impossível?"

    De novo: o BC estipula apenas os juros de curto prazo, embora consiga afetar marginalmente as taxas de médio e longo prazo.

    "O FED paga sobre as reservas em excesso a taxa 0,25% a.a. de forma fixa, ou este valor acompanha a taxa básica de juros? Se amanhã a taxa básica de juros for 10% a.a., as reservas em excesso serão remuneradas nessa taxa?"

    Pagar juros sobra as reservas em excesso foi uma medida excepcional adotada pelo Fed em um momento de pânico. Em situações normais, reservas em excesso não são remuneradas. Logo, "se amanhã a taxa básica de juros for 10% a.a.", não há absolutamente nenhum motivo para o Fed continuar remunerando as reservas em excesso.

    "Porque se o tesouro elevar os valores dos juros que paga a seus títulos a atividade econômica será deprimida? Isso ocorre mesmo se a taxa interbancária permanecer baixa?"

    Pela terceira vez: o Tesouro não estipula os juros. E a taxa interbancária é justamente a taxa básica de juros da economia.

    Juros elevados deprimem a economia (em tese) porque juros maiores reduzem a demanda por crédito. E quanto menos crédito é concedido, menos dinheiro é criado pelos bancos, o que significa menos investimentos e menos consumo. Com menos dinheiro, há também menor pressão sobre os preços.

    "Quando o juros de um título pré fixado (todos os títulos americanos são pré fixados) é elevado, seu valor atual cai. Ou seja, se eu comprei um título cujo valor de face é $1000 por $500, ele pode estar valendo $400 no futuro devido a um aumento do valor do juros. Na ocorrência dessa queda, o tesouro pode gastar esses $100 por não estarem mais lastreando o valor atual do meu título?"

    Não. A quantidade de dinheiro que o Tesouro irá gastar com cada título já foi definida no momento do leilão. Queda de juros irá afetar apenas o dinheiro a ser gasto com os títulos que serão lançados dali em diante.

    "O tesouro tem, a qualquer momento, o dinheiro correspondente ao valor atual de todos os títulos que emitiu, para no caso de uma "corrida ao tesouro", não dar calote?"

    Não. Ele tem de arrecadar esse dinheiro ou por meio de impostos ou por meio de novos endividamentos, o que significa que ele se endivida para quitar dívidas antigas.
  • Indagador  13/05/2014 16:43
    Muito obrigado pelas respostas Leandro! Pelo visto você faz jus ao seu cargo não oficial de economista-intelectual-chefe desse Instituto!

    Por favor, tenha a bondade de amarrar os pontos que estão faltando para eu entender esse artigo:

    "Os EUA ainda estão conseguindo pagar o serviço desta espantosa dívida simplesmente porque as taxas de juros sobre os títulos da dívida do governo estão em níveis historicamente baixos (hoje abaixo dos 2%)."

    Se a quantidade de dinheiro que o Tesouro irá gastar com cada título já foi definida no momento do leilão, como um aumento das taxas de juros sobre os títulos da dívida do governo aumentará o valor do serviço da dívida?

    O serviço da dívida é o quanto o governo precisa desembolsar para que o Tesouro consiga rolar a dívida? Quanto maior forem os juros sobre a dívida menor é o valor atual dos títulos, portanto mais títulos precisarão ser vendidos para rolar a dívida e consequentemente mais dinheiro o governo terá que direcionar ao Tesouro para cobrir o rombo que sempre ocorre nesse processo? É isso?




  • Leandro  13/05/2014 23:02
    "O serviço da dívida é o quanto o governo precisa desembolsar para que o Tesouro consiga rolar a dívida?"

    Quase. Serviço da dívida são todos os gastos do governo relacionado à dívida, como juros e amortização.

    "Quanto maior forem os juros sobre a dívida menor é o valor atual dos títulos, portanto mais títulos precisarão ser vendidos para rolar a dívida e consequentemente mais dinheiro o governo terá que direcionar ao Tesouro para cobrir o rombo que sempre ocorre nesse processo? É isso?"

    Coloquemos da seguinte maneira: aumento dos juros gera uma redução do preço de cada título que já está no mercado. Ponto.

    Títulos que ainda serão leiloados pelo Tesouro pagarão juros maiores. E, dado que os juros subiram, o valor arrecadado por cada título no momento do leilão será -- em relação ao período anterior ao aumento dos juros -- ainda menor que seu valor de face. Consequentemente, o governo terá de leiloar um número maior de títulos apenas para conseguir arrecadar a mesma quantia de antes. Logo, maior será o aumento da dívida.


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