A Alemanha só é rei porque vive em um vale de cegos

No atual debate sobre a crise do euro, a Alemanha é frequentemente retratada como um modelo de robustez econômica, a boia luminosa da prudência fiscal e uma ferrenha defensora de reformas estruturais.  Seus recursos parecem ser infinitos e os títulos da dívida de seu governo são um indiscutível 'porto seguro'.  Se ao menos a Alemanha compartilhasse seu poderio e seus recursos mais generosamente, a crise da dívida da zona do euro poderia ser resolvida. 

Mas tudo isso é uma mera ilusão de ótica.  Cedo ou tarde, os mercados irão acordar para a realidade e finalmente se dar conta das fundamentais deficiências do país e de seus graves desafios.

Ao longo dos 13 anos de vida do euro, a Alemanha acumulou uma dívida pública adicional de €900 bilhões.  A dívida pública total subiu de €1,2 trilhão no início de 1999 para €2,1 trilhão no final de 2011 — isto é, de 61 para 81% do PIB.  Lembrem-se de que foi a Alemanha quem mais pressionou para que todos os países da zona do euro adotassem os critérios de Maastricht, dentre os quais uma relação dívida/PIB de não mais do que 60%.  A Alemanha (mal) conseguiu cumprir este referencial em apenas 3 dos 13 anos do euro.  E, atualmente, são muito poucas as chances de que consiga repetir este feito.  Somente em 4 destes 13 anos o déficit orçamentário da Alemanha se manteve dentro do limite de 1% recomendado pelo Tratado de Maastricht, sendo que em 7 ocasiões ele excedeu o 'máximo permitido' de 3%.

Sim, é verdade que o déficit orçamentário de 1% registrado ano passado parece muito respeitável quando comparado à maioria dos países da zona do euro ou à Grã-Bretanha (8,4%) ou aos EUA (8,7%).  Porém, este pequeno déficit foi alcançado após dois anos de crescimento econômico de 3%, em que os juros sobre sua dívida pública estiveram em níveis historicamente baixos e a taxa de desemprego foi a menor em 20 anos.  Ainda assim, com todos estes fatores a seu favor, o governo alemão não conseguiu equilibrar seu orçamento.  E este cenário róseo certamente não irá durar muito tempo.  Como em todos os outros lugares, taxas de juros artificialmente baixas estão, por enquanto, sustentando uma ilusão de lucratividade e prosperidade em vários setores da economia alemã, em particular no setor financeiro.

Ainda mais importante é o fato de que a Alemanha está sentada sobre uma bomba-relógio de cunho fiscal, e nada foi feito nos últimos anos para tentar desarmá-la.  Durante as últimas quatro décadas, a Alemanha ampliou e prolongou várias promessas assistencialistas para sua população, promessas generosas para as quais simplesmente não há receitas, principalmente nas áreas da previdência, da saúde pública e do seguro-saúde estatal para os mais velhos, esta última uma criação onerosa do último governo 'conservador' de Helmut Kohl, mentor de Merkel.  Estes compromissos constituem um 'implícito' endividamento estatal de mais de 200% do PIB, no mínimo.

Os alemães gostam de seu estado assistencialista, e seu apetite por reformas é estritamente limitado.  As modestas, porém importantes, medidas adotadas anos atrás para uma maior liberalização do mercado de trabalho — as quais o atual governo alemão sente darem a ele o direito de sair dando lições aos outros países sobre a necessidade reformas estruturais — foram todas feitas durante o segundo mandato de Gerhard Schroeder, dez anos atrás.  Nada foi feito no governo Merkel.  Não é de se surpreender que tais reformas tenham custado a reeleição de Schroeder. 

A Alemanha não é nenhuma exceção.  Assim como a maioria das 'social democracias modernas', a Alemanha está lentamente, porém resolutamente, indo à bancarrota.  Suas diferenças para a Grécia e Espanha são de velocidade e de intensidade apenas, não de direção.  Trata-se de uma total imprudência o país ter assumido para si o papel de sustentáculo de todo o continente.  Tão logo a Espanha entrar oficialmente na lista dos falecidos, 80% dos fundos do Fundo Europeu de Estabilização Financeira terão de vir de apenas 3 países: Alemanha, França e Itália.  Isto significa uma conta imediata de mais de €200 bilhões para a Alemanha, mais de 8% do seu PIB.  Porém, dado que a Itália ou os setores bancários de vários outros países podem ser os próximos da fila, as demandas por mais dinheiro alemão são praticamente ilimitadas.

Os bancos dos países periféricos da zona do euro estão sofrendo uma hemorragia de depósitos, os quais estão fluindo consideravelmente para a Alemanha.  Em nível dos bancos centrais nacionais, estas transferências não estão sendo compensadas.  Isto permite que o sistema bancário dos países periféricos possa substituir o dinheiro que foi retirado por fundos oriundos do Banco Central Europeu.  Isso, por conseguinte, reduz a necessidade de bancos gregos e espanhóis terem de vender ativos e restringir passivos, o que levaria a uma forte contração de sua oferta monetária.  Tal arranjo coloca o Bundesbank na desconfortável posição de ser um genuíno devedor dos outros bancos centrais.  Ao final de maio, os saldos Target 2 (dívida para com o BCE) do Bundesbank estavam em €700 bilhões, aproximadamente 27% do PIB alemão.

A Alemanha pode muito bem ser o 'último sobrevivente' do drama do euro, mas isso significa apenas que não sobrará ninguém para socorrê-la.  Os títulos da dívida alemã desfrutarem a condição de 'porto seguro' são sintomas evidentes de mais uma bolha prestes a explodir.  A Alemanha só é rei porque vive em um vale de cegos.


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SOBRE O AUTOR

Detlev Schlichter
é formado em administração e economia.  Trabalhou 19 anos no mercado financeiro, como corretor de derivativos e, mais tarde, como gerente de portfolio.  Nesse meio tempo, conheceu a Escola Austríaca de Economia e, desde então, dedicou seus últimos 20 anos ao estudo autônomo da mesma.  Foi apenas após conhecer a Escola Austríaca que ele percebeu o quão mais profundas e satisfatórias eram as teorias austríacas para explicar os fenômenos econômicos que ele observava diariamente em seu trabalho.  Visite seu website.

Tradução de Leandro Roque




"Por exemplo, o relativo à questão estrutural, que devido ao orçamento praticamente ser engessado pelos gastos com servidores, aposentados e pensionistas, tem-se muita dificuldade em fazer qualquer redução ou enxugamento da máquina estatal."

Na verdade, isso foi abordado no artigo.

O fato é: durante a expansão do crédito, quando a quantidade de dinheiro na economia aumentava continuamente, a arrecadação dos governos estaduais não parava de subir. Consequentemente, os governadores não paravam de criar novos gastos. Era uma farra que foi vista como perpétua.

Agora que o crédito secou, a oferta monetária estancou e a economia degringolou (com o fechamento de várias empresas), o aumento previsto das receitas não ocorreu. Na verdade, pelos motivos explicados no artigo, as receitas estão caindo. Mas os gastos contratados continuaram subindo.

Gastos em ascensão e receitas caindo -- é claro que a conta não vai fechar.

O RJ teve o problema adicional da lambança feita na Petrobras, o que reduziu bastante as receitas do estado com a extração de petróleo. Mas, mesmo que a Petrobras estivesse supimpa, a situação do estado continuaria calamitosa. Um pouquinho melhor do que é hoje, mas calamitosa.

Lição: é impossível brigar contra as leis da economia.

"a partir de 2009, os estados puderam voltar a se endividar. [...] Aí os estados passaram a se financiar, ou a financiar seus investimentos, através de endividamento e não de a partir de suas receitas. E mais com o dado de que o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, assinou (uma a uma) autorizações de crédito pra estados e municípios que tinham classificação de crédito C e D."

Como você corretamente colocou, os estados eram avalizados pelo governo federal. Eles só podiam pedir emprestado se o governo federal fosse o fiador do empréstimo.

Vale ressaltar que esses empréstimos aos estados são efetuados pelos bancos estatais (com a garantia do governo federal). E esse foi exatamente o tema do artigo.

Esses empréstimos dos bancos estatais direcionados aos governos estaduais também permitiram que eles inchassem suas folhas de pagamento, mas sem qualquer garantia de que as receitas futuras continuariam cobrindo esse aumento de gastos.

Como a realidade se encarregou de mostrar, isso não ocorreu.

No final, tudo passa pelos bancos estatais e sua expansão do crédito de acordo com critérios políticos.

Obrigado pelas palavras e grande abraço!
Posso me meter nessa contenda.

Roberto, analisei o nexo temporal de necessidade x invenção dos medicamentos e diria que sim, Thiago está correto.

E pensando sobre isso, a necessidade antes da criação engloba tudo aquilo que escapa a ação humana e interfere em nossas vidas, como doenças, mudanças climáticas e a gênese química e biológica. Porém o cerne da Lei de Say não é o apriorismo da criação como antecedente da necessidade, mas sim de como o mercado valora a criação, e se por essa valoração intrínseca ela se perpetua ou não através do tempo. Mas vamos voltar ao exemplo do Thiago.

Por exemplo, se analisarmos técnicas de irrigação em uma biosfera árida, e existem centenas delas. A partir daqui conseguimos estabelecer o cenário de solo árido (criado por... enfim eu acredito em Deus, mas quem quiser acredite no ocaso), a necessidade subjetiva de irrigação para agricultura, e a ação humana, que irá mover recursos escassos para ali produzir, calculando custos e impondo preços, e em contrapartida novamente a ação humana, que irá verificar se esses custos são viáveis, comprando ou não os frutos daquela terra.

Com isso conseguimos estabelecer um nexo causal entre a necessidade primeira e a criação posterior, onde o agente primário criador daquele cenário árido não está entre nós. Não sabemos o por quê de ser árido. O criador desse quadro não o vendeu para nós, logo esse agente não busca o mesmo resultado que nós - o lucro. Só nós, o solo e a oportunidade subjetiva de aproveita-lo para produzir e prosperar.

O mesmo paralelo podemos estabelecer entre a doença e a medicina, onde nós somos o terreno criado pelo agente oculto, e neste terreno habitam doenças causadoras de distúrbios (também criadas pelo mesmo agente).

Apriorísticamente desde quando nascemos existe a necessidade primária de solução, ou o resultado é muitas vezes a morte. A partir dessas quase infinitas necessidades, profissionais de todas as partes do mundo criam desde os primórdios da nossa espécie técnicas e substâncias para, se não possível resolver, mitigar a necessidade trazendo conforto ao doente.

Nesse emaranhado de técnicas foram se perpetuando as mais eficientes E mais econômicas, tanto ao doente quanto ao profissional. Novamente conseguimos enxergar o nexo causal, onde a ação humana só existe após a doença, e com ela cessada, a ação humana também cessa. Sendo mais lúdico, remonto as palavras do Mestre: "Os sãos não precisam de médico".

Para concluir, os homens que estão a frente de seu tempo são aqueles que não somente criam antes da necessidade, basicamente inventando-a (afinal, quem diria como um Iphone é útil sem saber que ele existe?), mas aqueles que conseguem lidar com a necessidade criada pelo agente oculto de forma mais efetiva que seus pares, em menos tempo, e de forma mais econômica.

Obrigado por quem leu até aqui.
Leandro, me referi que em um período ou em uma ''reforma'' anunciada, seria mais racional seguir essa ordem..

E mais, eu disse:

''Eu entendo que cortar as tarifas e permitir importar carro usado, iria de fato ser positivo, ao mesmo tempo aumentaria o desemprego substancialmente nessa grave recessão e pior: O desemprego iria continuar se o empreendedorismo continuasse como esta''

Ai que ta, mesmo sobrando dinheiro para as pessoas consumirem, investirem, pouparem e empreenderem, nessa recessão e nessa burocracia asfixiante o efeito não seria tão significante, imagine nesse cenário nacional onde empreender é coisa pra maluco, uma recessão tremenda, um governo intervindo mais novamente e etc, como que poupança vai surgir, consumo, empréstimo, renda....
Repito, você esta completamente correto sobre esses efeitos lindos, só que isso em um país fora de recessão e um pouquinho mais livre... Não vejo que esses feitos aconteceriam no Brasil nesse caos atual, uma economia que no ranking de liberdade economica fica junto a países socialistas....Entende?

Sera mesmo que os resultados seriam significantes?
Essa a questão sobre ''a situação atual''.

Mas você fez eu perceber um ponto que eu antes não havia pensado, muito obrigado!

''A única maneira garantida de fazer reformas é havendo uma "ameaça" concreta e imediata. No Brasil, sempre foi assim.

Por outro lado, ficar empurrando a situação com a barriga, à espera do surgimento de uma "vontade política" para fazer uma mudança que não é urgente (e não será urgente enquanto não houver livre comércio) é garantia de imobilismo.''

Ainda acho essa ameaça utópico aqui, porque:
Que político estaria disposto a abrir a economia mas continuar engessando a economia nacional? Uma contradição pura, se algum burocrata eleito tiver disposto a abrir a economia, muito provável que ele também estará disposto a facilitar o comercio nacional. Nunca vi um exemplo de um cara que chegou e falou ''temos que abrir a economia pro mundo, mas devemos criar toda dificuldade para as pessoas empreenderem''
Ele nunca daria esse tiro no pé e criar essa ameaça que você falou, até porque mesmo que fizesse, os empresários chorariam pela volta da reserva de mercado porque é caro a produção aqui e o burocrata voltaria a estaca zero...

Por outro lado você exagerou um pouco sob minha colocação:

''Essa ideia de que primeiro temos de esperar o governo ter a iniciativa de arrumar a casa para então, só então, conceder a liberdade para o indivíduo poder comprar o que ele quiser de quem ele quiser é inerentemente totalitária''

Acho que o que der pra fazer primeiro que faça, não acho que devemos esperar o governo arrumar pra então abrir.
No meu comentário eu também quis dizer que se algum presidente estivesse disposto a fazer uma reforma pró-mercado, que então fosse assim, acredito que seria mais eficiente e com menos ''choro'' assim. Você sabe, Argentina, Brasil e afins são países inviáveis, você quer fazer reforma trabalhista nego chora, reforma da previdência nego chora.... Imagine o que os empresários brasileiros não iriam fazer quando soubessem que um presidente esta disposto a destruir as reservas de mercado amanha....
Eu acho que ''politicamente'' também seria mais eficiente do jeito que eu falei...

Agora se tivermos a oportunidade de acabar com as reservas de mercado amanha, antes de qualquer outra reforma, que ACABE!. Seria uma conquista e um passo rumo a liberdade e por isso os resultados não importariam, eu questionei a significancia desses resultados no Brasil de hoje, não acredito que seria como você disse por causa do nosso desastre e dessa economia estatal. Nunca que vou ser contra esse passo, no máximo como eu falei, em uma reforma liberal geral eu iria ''adia-la por um ano''.
Principalmente olhando mais pra realidade ''Política'' e como o País e seu povo é.

''Não faz sentido combater estas monstruosidades criando novas monstruosidades. Não faz sentido tolher os consumidores ou impor tarifas de importação para compensar a existência de impostos, de burocracia e de regulamentações sobre as indústrias. Isso é querer apagar o fogo com gasolina. ''

Não tem lógica mesmo, nesse seu comentário brilhante você respondeu como se eu fosse um protecionista, o que não é o caso kkk.
Eu apenas levantei a reflexão que: Se tivesse um cara do IMB na presidência, com carta branca pra fazer o que quiser, acho que seguir a ''ordem'' que eu disse seria mais racional, politicamente mais viável (daria pra conter melhor o choro) e por ai vai...

Nesse seu trecho, você não esta me contra-argumentando e sim um protecionista que eu não presenciei..kkkk

Novamente, não defendo o protecionismo de maneira alguma, só disse que em uma reforma austríaca no Brasil, as tarifas de importação deveriam ser extintas depois de certas reformas(não demoraria, seria uma das prioridades sim).
E questionei a significancia dos efeitos sob nossa situação atual.
Se esse fosse o tema do referendo amanha, eu votaria contra?
Obvio que não, independente de qualquer coisa....

Foi isso que eu quis passar....

tudo de bom e Grande Abraço!
Sim. A sorte é que, na prática, elas não são impingidas. Há tantos requisitos que têm de ser encontrados para que tais restrições sejam impingidas que, na prática, isso não ocorre.

https://www.hoganlovells.com/~/media/hogan-lovells/pdf/publication/competition-law-in-singapore--jan-2015_pdf.pdf

Aliás, veja que interessante: o caso mais famoso em que essa medida foi aplicada foi quando a CCS (Competition Commission of Singapore) multou 10 financistas por eles terem pressionado uma empresa a retirar uma oferta do mercado.

Ou seja, o governo, uma vez que ele existe, atuou exatamente naquela que é a sua função clássica: coibir a coerção a terceiros inocentes. No caso, coibiu uma pressão que estava sendo feita a uma empresa que estava vendendo produtos (seguro de vida) mais baratos.

www.channelnewsasia.com/news/business/singapore/10-financial-advisers/2611160.html

Eu quero.
Opa, eu também tenho correlações irrefutáveis!

tylervigen.com/images/spurious-correlations-share.png

i.imgur.com/OfQYQW8.png

https://img.buzzfeed.com/buzzfeed-static/static/enhanced/webdr02/2013/4/9/15/enhanced-buzz-25466-1365534595-12.jpg

www.tylervigen.com/chart-pngs/10.png

i.imgur.com/xqOt9mP.png

Caso queira mais é só pedir!


P.S.: ah, só para você não mais ser flagrado como desinformado, os irmãos Koch financiam o Cato Institute, que é inimigo figadal do Mises Institute. Os Koch desprezam o Mises Institute e seus integrantes. E o Mises brasileiro sobrevive das doações de voluntários, como você. Faça a sua parte!

www.mises.org.br/Donate.aspx
Sim e não.

De fato, se todo o crédito fosse para consumo -- uma coisa irreal, pois o crédito para consumo é o mais caro e arriscado --, o efeito imediato seria o aumento dos preços dos bens e serviços. Muitas pessoas estariam repentinamente consumindo mais (maior demanda) sem que tivesse havido qualquer aumento na oferta.

Só que tal aumento de preços mandaria um sinal claro para empreendedores: tais setores estão vivenciando aumento da demanda; ampliem a oferta daqueles bens e serviços e lucrem com isso.

Ato contínuo, a estrutura de produção da economia será rearranjada de modo a satisfazer essa nova demanda impulsionada pelo crédito.

Mas aí, em algum momento futuro, acontecerá o inevitável: se essas pessoas estão se endividando para consumir, como elas manterão sua renda futura para continuar consumindo? A única maneira de aumentar a renda permanentemente é produzindo mais, e não se endividando mais.

Tão logo a expansão do crédito acabar, e as pessoas estiverem muito endividadas (e tendo de quitar essas dívidas), não mais haverá demanda para aqueles bens e serviços. Consequentemente, os empreendedores que decidiram investir na ampliação daqueles setores rapidamente descobrirão que estão sem demanda. Com efeito, nunca houve demanda verdadeira por seus produtos. Houve apenas demanda artificial e passageira.

É aí que começa a recessão: quando vários investimentos errados (para os quais nunca houve demanda verdadeira) são descobertos e precisam ser liquidados.

E de nada adiantará o estado tentar estimular artificialmente a demanda para dar sobrevida a esses investimentos errados. Aliás, isso só piorará a situação.

Se um empreendedor investiu em algo para o qual não havia demanda genuína, ele fez um erro de cálculo. Ele imobilizou capital em investimentos que ninguém realmente demandou. Na prática, ele destruiu capital e riqueza. Cimentos, vergalhões, tijolos, britas, areia, azulejos e vários outros recursos escassos foram imobilizados em algo inútil. A sociedade está mais pobre em decorrência desse investimento errôneo. Recursos escassos foram desperdiçados.

O governo querer estimular o consumo de algo para o qual nunca houve demanda natural irá apenas prolongar o processo de destruição de riqueza.

O que realmente deve ser feito é permitir a liquidação desse investimento errôneo. O empreendedor que errou em seu cálculo empreendedorial -- e que, no mundo real, provavelmente estará endividado e sem receita -- deve vender (a um preço de desconto, obviamente) todo o seu projeto para outro empreendedor que esteja mais em linha com as demandas dos consumidores.

Este outro empreendedor -- que está voluntariamente comprando esse projeto -- terá de dar a ele um direcionamento mais em linha com os reais desejos dos consumidores.


Traduzindo tudo: a recessão nada mais é do que um processo em que investimentos errôneos -- feitos em massa por causa da manipulação dos juros feita pelo Banco Central -- são revelados e, consequentemente, rearranjados e direcionados para fins mais de acordo com os reais desejos dos consumidores.

A economia entra em recessão exatamente porque os fatores de produção foram mal direcionados e os investimentos foram errados.

Nesse cenário, expandir o crédito e tentar criar demanda para esses investimentos errôneos irá apenas prolongar esse cenário de desarranjo, destruindo capital e tornando a recessão (correção da economia) ainda mais profunda no futuro. E com o agravante de que os consumidores e empresários estarão agora bem mais endividados, em um cenário de inflação em alta -- por causa da expansão do crédito -- e sem perspectiva de renda.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Cristiano  10/07/2012 07:34
    Excelente artigo. Toca num ponto, por muitos, ignorado. Achar uma divida publica de 80% do PIB como sinal de saude financeira é tão fantasioso quanto achar que em um bote salva-vidas caberá toda tripulação de um cruzeiro.
  • Eduardo  10/07/2012 08:54
    Uma dúvida.
    Dado que o PIB não é uma estatística confiável pra mensurar uma economia nacional, e coloca como sinal de prosperidade os gastos do governo, o consumo e o aumento da quantidade monetária, por exemplo... Isso quer dizer que essas economias estão bem pior do que aparentam, e as dívidas em relação ao PIB são um osso ainda mais duro de roer?
  • Leandro  10/07/2012 09:01
    Eduardo, é perfeitamente possível a economia estar indo bem e o PIB estar indo mal, e vice-versa. No caso europeu, um estudo mais detalhado ainda precisa ser feito para cada país. Tenho certeza de que as conclusões seriam interessantes.

    Eis um artigo sobre o assunto:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=960

    Abraços!
  • Eduardo  12/07/2012 18:21
    Leandro, obrigado pela resposta!
    Vejo que existem bastante artigos no site a respeito, e darei uma aprofundada.
    Abraços!
  • mauricio barbosa  10/07/2012 11:13
    Caro Leandro estes estudos sobre a crise fiscal européia e em outros paises me desanimam não pela realidade retratada, mas sim pela falta de consciência da maioria esmagadora da população.
    O povo segue bovinamente as diretrizes estatais de maneira que todo esse alarmismo infelizmente não dá em nada,o IMB e os outros institutos mises espalhados pelo mundo são iguais ao DOM QUIXOTE lutando contra moinhos de vento,desculpe o desabafo,estou em um dia desanimador e espero ser compreendido pelos demais comentaristas,mas é desalentador ver os paises caminharem rumo ao caos e no final não irá mudar nada pois os governantes estão armados de bombas e metralhadoras até os dentes e a imprensa manipuladando para que tudo continue como dantes no quartel de abrantes.
    Vou continuar sendo libertário frustrado por não ver nenhuma reação de mudança no ar,infelizmente.
    Um abraço e espero ser compreendido.
  • SergioRR  10/07/2012 14:53
    Como dificilmente conseguiremos mudar o mundo, só nos resta mudar a nós mesmos. O que podemos fazer é utilizar os conhecimentos da EAE em nossos investimentos.
  • Deilton  11/07/2012 06:44
    Digo mais, usarmos em nossos investimentos e em todas as decisões importantes para nossas vidas. Infelizmente não podemos mudar o mundo, não podemos mudar nem mesmo nosso país. O bom de estar "consciente" é estarmos preparados para o pior. Quando a maré começar a baixar não estaremos nadando pelados.
  • Eduardo  12/07/2012 18:24
    Às vezes me sinto assim.
    Como Ludwig von Mises escreveu:

    "Occasionally I entertained the hope that my writings would bear practical fruit and show the way for policy. Constantly I have been looking for evidence of a change in ideology. But…I have come to realize that my theories explain the degeneration of a great civilization; they do not prevent it. I set out to be a reformer, but only became the historian of decline."
  • Stefan Bernard  10/07/2012 13:01
    Infelizmente, mais uma vez, os Políticos estão à frente de negociações dos ajustes das Políticas Monetárias. Em minha humilde opinião, uma estupidez sem fim, pois desde quando um Político possui base de conhecimento suficiente para propor diretrizes "saudáveis" para uma economia ?
    Pois bem, como todos nós já sabemos, eles irão apenas defender os pontos que interessam à eles. Situação esta óbvia, visto que eles só ficam apenas 4 anos no poder. O próximo que "Segure o Abacaxi".

    E outro ponto importante que gostaria de ressaltar é o seguinte:

    Todos estão focando suas atenções e perspectivas em Grécia / Espanha / Itália / entre outros. Acredito que seja válido e importante analisarmos e darmos a devida atenção à estes países. E como vimos neste artigo, a Alemanha não está fora deste grupo de analise.
    Porém, o ponto mais importante que as pessoas acabam "esquecendo" é a situação em que os EUA se encontram. Sim, eles bateram o teto de endividamento em 100% na relação divida/PIB. E claro, ninguém fala nada.

    Mas Peter Schiff já havia dito: "Cuidado com os EUA. Pois os EUA hoje é a Grécia de 5 anos atrás. Todos sabiam que a Grécia estava ferrada, mas mesmo assim não fizeram nada e de propósito."

    Fiquem atentos!

    Um abraço!
  • alberto  10/07/2012 15:13
    Um comentário e uma questão para os demais leitores: essa análise é do tipo que me assusta. primeiro porque sou dos que entende a Alemanha com um bom exemplo de economia para este século, e, segundo porque se a Alemanha estiver ruim, comparativamente, toda Europa estará destruída em breve.\r
    \r
    Agora uma pergunta, não muito relacionada. já li vários artigos de libertários criticando o Euro e uma coisa não me entra na cabeça: das moedas disponíveis no mundo hoje, o Euro não está sob controle de país nenhum, logo, uma desvalorização através de emissão irresponsável de moeda para custear alguma incompetência governamental está fora de cogitação. Isto não o tornaria uma das melhores moedas disponíveis? Quase um padrão ouro das moedas contemporâneas? Afinal, qual o problema do Euro para os libertários?\r
    \r
    \r
  • Leandro  10/07/2012 15:44
    Alberto, este artigo certamente vai lhe interessar:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1330

    Grande abraço!
  • Rodrigo  10/07/2012 16:37
    Sem duvida um bom artigo mas eu nao gosto quando ele fala "Estes compromissos constituem um 'implícito' endividamento estatal de mais de 200% do PIB, no mínimo."

    Fica a impressao de que isso nao passa de um achismo, chute.
  • Leandro  10/07/2012 16:59
    Rodrigo, compreensível a sua posição, mas afirmo que isso está longe de ser um chute. Não estou bem informado sobre a Alemanha, mas os EUA, cujas informações sobre abundantes, sofrem exatamente deste mesmo problema citado pelo autor. Sua dívida pública divulgada não retrata nem de perto a realidade das contas públicas do país porque ela não considera as "unfunded liabilities", como o medicare, o medicaid e a previdência, que irão precisar de fartos aportes no futuro e não há a mínima ideia de onde este financiamento virá.

    Para você ter uma ideia, já se fala de que este passivo será de módicos US$144 trilhões em 2015

    Daí se fala que a real dívida pública dos EUA está próxima dos 145% do PIB.

    Grande abraço!


    P.S.: este foi um artigo publicado em jornal, o qual sofre da inflexível rigidez de espaço. Daí o autor não ter podido se aprofundar mais nestes números.
  • Diego Kruger  10/07/2012 19:03
    Essa é uma análise bem detalhada sobre essas unfunded liabilities (feita antes do Obamacare):
    www.cato.org/publications/policy-analysis/bankrupt-entitlements-federal-budget
  • anônimo  11/07/2012 03:43
    Pelo menos a BMW está muito bem, vem batendo recordes de exportação ano a ano.
  • Paulo Sergio  11/07/2012 03:47
    A Alemanha não é um dos poucos países que tem uma indústria capaz de competir com a indústria chinesa?
  • anônimo  11/07/2012 03:53
    Pessoal, e como fica a industria de automoveis alemã? A Volkswagen é um monstro, tem subdivisões da Audi e da Lamborghini. Eu tenho um Audi A4 e não gostaria de ver a Audi sumir do mapa. Estou um pouco apreensivo.
  • Leandro  11/07/2012 05:28
    Calma. Ativos físicos e bens tangíveis não evaporam e somem no éter. No máximo, troca-se a gerência e a produção continua. No caso das fabricantes alemãs citadas, não vejo (ainda) nenhum motivo para pânico.

    Por outro lado, pense pelo lado positivo: se a Audi ficar ruim, você poderá ir a Ingolstadt e assumir toda a fábrica.

    Grande abraço!
  • marcos   11/07/2012 11:46
    Se a Aelamanha que nao tem corruptos como o brasil esta indo em direçao da banca rota , imagina o brasil daqui alguns anos, vamos estar pior que a grecia.;
  • BrasilRJ  18/07/2012 03:02
    Entenda: burrocrata é burrocrata em qualquer lugar do mundo.


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