No
atual debate sobre a crise do euro, a Alemanha é frequentemente retratada como
um modelo de robustez econômica, a boia luminosa da prudência fiscal e uma
ferrenha defensora de reformas estruturais.
Seus recursos parecem ser infinitos e os títulos da dívida de seu
governo são um indiscutível 'porto seguro'.
Se ao menos a Alemanha compartilhasse seu poderio e seus recursos mais
generosamente, a crise da dívida da zona do euro poderia ser resolvida.
Mas
tudo isso é uma mera ilusão de ótica.
Cedo ou tarde, os mercados irão acordar para a realidade e finalmente se
dar conta das fundamentais deficiências do país e de seus graves desafios.
Ao
longo dos 13 anos de vida do euro, a Alemanha acumulou uma dívida pública
adicional de €900
bilhões. A dívida pública total subiu de
€1,2 trilhão no início
de 1999 para €2,1
trilhão no final de 2011 — isto é, de 61 para 81% do PIB. Lembrem-se de que foi a Alemanha quem mais
pressionou para que todos os países da zona do euro adotassem os critérios de
Maastricht, dentre os quais uma relação dívida/PIB de não mais do que 60%. A Alemanha (mal) conseguiu cumprir este
referencial em apenas 3 dos 13 anos do euro.
E, atualmente, são muito poucas as chances de que consiga repetir este
feito. Somente em 4 destes 13 anos o
déficit orçamentário da Alemanha se manteve dentro do limite de 1% recomendado
pelo Tratado de Maastricht, sendo que em 7 ocasiões ele excedeu o 'máximo
permitido' de 3%.
Sim,
é verdade que o déficit orçamentário de 1% registrado ano passado parece muito
respeitável quando comparado à maioria dos países da zona do euro ou à
Grã-Bretanha (8,4%) ou aos EUA (8,7%).
Porém, este pequeno déficit foi alcançado após dois anos de crescimento
econômico de 3%, em que os juros sobre sua dívida pública estiveram em níveis
historicamente baixos e a taxa de desemprego foi a menor em 20 anos. Ainda assim, com todos estes fatores a seu
favor, o governo alemão não conseguiu equilibrar seu orçamento. E este cenário róseo certamente não irá durar
muito tempo. Como em todos os outros
lugares, taxas de juros artificialmente baixas estão, por enquanto, sustentando
uma ilusão de lucratividade e prosperidade em vários setores da economia alemã,
em particular no setor financeiro.
Ainda
mais importante é o fato de que a Alemanha está sentada sobre uma bomba-relógio
de cunho fiscal, e nada foi feito nos últimos anos para tentar desarmá-la. Durante as últimas quatro décadas, a Alemanha
ampliou e prolongou várias promessas assistencialistas para sua população, promessas
generosas para as quais simplesmente não há receitas, principalmente nas áreas
da previdência, da saúde pública e do seguro-saúde estatal para os mais velhos,
esta última uma criação onerosa do último governo 'conservador' de Helmut Kohl,
mentor de Merkel. Estes compromissos
constituem um 'implícito' endividamento estatal de mais de 200% do PIB, no
mínimo.
Os
alemães gostam de seu estado assistencialista, e seu apetite por reformas é
estritamente limitado. As modestas,
porém importantes, medidas adotadas anos atrás para uma maior liberalização do
mercado de trabalho — as quais o atual governo alemão sente darem a ele o
direito de sair dando lições aos outros países sobre a necessidade reformas
estruturais — foram todas feitas durante o segundo mandato de Gerhard
Schroeder, dez anos atrás. Nada foi
feito no governo Merkel. Não é de se
surpreender que tais reformas tenham custado a reeleição de Schroeder.
A
Alemanha não é nenhuma exceção. Assim
como a maioria das 'social democracias modernas', a Alemanha está lentamente,
porém resolutamente, indo à bancarrota.
Suas diferenças para a Grécia e Espanha são de velocidade e de
intensidade apenas, não de direção. Trata-se
de uma total imprudência o país ter assumido para si o papel de sustentáculo de
todo o continente. Tão logo a Espanha
entrar oficialmente na lista dos falecidos, 80% dos fundos do Fundo
Europeu de Estabilização Financeira terão de vir de apenas 3 países:
Alemanha, França e Itália. Isto
significa uma conta imediata de mais de €200 bilhões para a Alemanha, mais de 8% do seu PIB. Porém, dado que a Itália ou os setores
bancários de vários outros países podem ser os próximos da fila, as demandas
por mais dinheiro alemão são praticamente ilimitadas.
Os
bancos dos países periféricos da zona do euro estão sofrendo uma hemorragia de
depósitos, os quais estão fluindo consideravelmente para a Alemanha. Em nível dos bancos centrais nacionais, estas
transferências não estão sendo compensadas.
Isto permite que o sistema bancário dos países periféricos possa
substituir o dinheiro que foi retirado por fundos oriundos do Banco Central
Europeu. Isso, por conseguinte, reduz a
necessidade de bancos gregos e espanhóis terem de vender ativos e restringir
passivos, o que levaria a uma forte contração de sua oferta monetária. Tal arranjo coloca o Bundesbank na
desconfortável posição de ser um genuíno devedor dos outros bancos
centrais. Ao final de maio, os saldos Target 2 (dívida para
com o BCE) do Bundesbank estavam em €700 bilhões, aproximadamente 27% do PIB alemão.
A
Alemanha pode muito bem ser o 'último sobrevivente' do drama do euro, mas isso
significa apenas que não sobrará ninguém para socorrê-la. Os títulos da dívida alemã desfrutarem a
condição de 'porto seguro' são sintomas evidentes de mais uma bolha prestes a
explodir. A Alemanha só é rei porque
vive em um vale de cegos.