A união dos bancos centrais mundiais e a transição para o sonho keynesiano

Eis a notícia divulgada ontem para todo o mundo:

Os principais bancos centrais do mundo lançaram nesta quarta-feira uma ação coordenada para aliviar as crescentes tensões no sistema financeiro global, uma medida que estimulou acentuadamente as bolsas de valores.

O Banco Central Europeu, o Federal Reserve americano, o Banco da Inglaterra, e os bancos centrais do Canadá, do Japão e da Suíça fazem parte da operação, a qual foi criada para "intensificar suas capacidades de fornecer liquidez e suporte ao sistema financeiro global."

O BCE emitiu um comunicado dizendo que a intenção dos bancos centrais é baratear o acesso dos bancos ao dólar, aumentando a liquidez da moeda americana sempre que necessário.  A operação começará na próxima segunda-feira.

Os BCs também estão tomando medidas para garantir aos bancos que eles tenham acesso imediato ao dinheiro em qualquer moeda, de acordo com as condições de mercado.

...

Temores de mais turbulência financeira na Europa já fizeram com que alguns bancos europeus se tornassem dependentes de empréstimos do BCE para suas operações diárias.  Outros bancos estão receosos de emprestar a esses bancos problemáticos por medo de não terem seu empréstimo quitado.

Tais limitações aos empréstimos interbancários podem afetar a economia como um todo, pois fazem com que haja menos dinheiro disponível para ser emprestado a empresas e famílias.

Essa última frase é adorável.  Os bancos centrais estão fazendo todo esse esforço coordenado pensando unicamente no bem das famílias.  Nada a ver com os grandes bancos que estão sentados sobre pilhas de títulos da dívida soberana.

Vamos explicar melhor o que está acontecendo.  O Federal Reserve fez o seguinte acordo com todos aqueles cinco bancos centrais mundiais acima citados: as operações de troca de cada moeda nacional por dólares serão "facilitadas".  Em outras palavras, agora ficará mais barato para os bancos de todo o mundo pegarem dólares emprestados em troca de suas moedas nacionais.  E como será possível baratear essa operação?  É justamente esse o ponto que não foi comentado: o Fed simplesmente irá aumentar a quantidade de dólares em circulação no mundo.  Não foi coincidência nenhuma o fato de que, tão logo foi anunciado este programa, o dólar imediatamente se desvalorizou não apenas perante todas as outras moedas, como também perante metais preciosos, como ouro e prata.

Como explicou Peter Schiff:

Muitos analistas creem que tudo isso não passa de uma forma disfarçada de pacote de socorro à zona do euro.  Não é.  Trata-se, isso sim, de um pacote de socorro aos bancos de ambos os lados do Atlântico.  Na noite de terça-feira, a Standard & Poor's rebaixou a avaliação de vinte grandes bancos americanos, dentre eles o Bank of America e o Morgan Stanley.  Antes do anúncio desse programa, as ações do Bank of America estavam em menos de US$ 5, o menor valor em 52 semanas.  Após o anúncio, as ações dispararam.  Creio que tudo isso não passa de mais uma forma de pacote de socorro aos bancos, à la QE2.  Não se trata de estimular crescimento econômico, mas sim de socorrer instituições financeiras insolventes por meio de mais inflação monetária.  Quem entende essa dinâmica já deveria estar comprando ouro e outros metais preciosos.

Qualquer uso dessa linha de crédito criada pelo Fed significa uma expansão da base monetária: todos os dólares, não importa onde sejam depositados — Cazaquistão, Japão ou México —, irão inevitavelmente acabar retornando a um banco americano.  Isso significa que, sempre que um banco central estrangeiro incorrer nessa operação de crédito com o Federal Reserve, este irá criar dinheiro novo com o intuito de fazer a troca de moedas.  A mesma operação foi feita no final de 2008 e ela foi a principal causa da explosão da base monetária americana ocorrida à época.   

Dado que a chanceler Angela Merkel se recusou com muita firmeza a permitir que o BCE monetizasse a dívida dos PIIGS, Ben Bernanke foi então chamado para fazer o serviço.   Uma notícia que passou despercebida foi o recente encontro ocorrido na Casa Branca, nesta segunda-feira passada, entre o Secretário de Tesouro americano Timothy Geithner, o presidente do Conselho Europeu Herman Van Rompuy, o presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso e a Comissária do Comércio Europeu Catherine Ashton.  Esse encontro ocorreu na segunda-feira e o programa foi anunciado na quarta-feira.  Você acha que eles se reuniram apenas porque gostam de um bom papo enquanto tomam chá?

O que tudo isso significa

Esse último esquema inflacionário criado pelo Fed soa como uma inovação tecnocrática.  A ideia é que o Fed fará pelo mundo aquilo que a Europa, a Inglaterra e a China estão relutantes em fazer: rodar a impressora de dinheiro 24 horas por dia para socorrer instituições financeiras e economias insolventes.  Como efeito, o Fed simplesmente se comprometeu a ser o emprestador de última instância para toda a economia global.

Parece algo novo, mas não é.  Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, John Maynard Keynes advogou com muito afinco a criação de um papel-moeda global, que seria administrado por um banco central mundial.  Essa era a sua solução proposta para a rixa entre as moedas nacionais: tirar o poder inflacionário dos estados nacionais e entregá-lo a uma autoridade mundial.  E assim o mundo jamais teria de lidar novamente com problemas de "falta de coordenação".

A ideia não vingou, mas as instituições que supostamente deveriam administrar tal sistema foram de fato criadas: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.  Mas elas não funcionaram como originalmente havia sido planejado.  Em vez de uma autoridade monetária mundial, os estados nacionais mantiveram sua autoridade monetária; e essas duas novas instituições se tornaram gloriosas fornecedoras de assistencialismo para os ricos dos países pobres, meros canais de transferência de dinheiro — e de opressão — para países em desenvolvimento.

O sonho de Keynes manteve-se vivo, no entanto.  A criação do euro e do Banco Central Europeu foi um passo nessa direção.  O mesmo pode ser dito da abolição dos últimos resquícios do padrão-ouro feita por Richard Nixon em 1971.  A cada nova crise monetária criava-se uma desculpa para avançar ainda mais em direção àquilo que Murray Rothbard rotulou de sonho keynesiano.

E por que o sonho keynesiano ainda não foi implantado totalmente?  Por várias razões.  Estados-nações não abrem mão de seus poderes facilmente.  O Banco Mundial e o FMI são institucionalmente inadequados para a tarefa.  Várias pessoas no setor bancário também se sentem desconfortáveis com essa ideia, pois têm pleno conhecimento da devastação que a expansão incontida do crédito pode causar à economia.  E banqueiros não têm nenhum interesse em um mundo devastado.  Não é negócio para eles.  Ademais, até o momento ainda não houve uma crise grande o bastante para justificar medidas tão extremas.

No entanto, tal crise pode finalmente estar chegando.  Desde 2008, o Fed demonstrou que, dentre todos os bancos centrais do mundo, ele é o único corajoso o suficiente para adotar gigantescas medidas inflacionárias sem titubear.  O Banco Central Europeu opera sob algumas restrições estatutárias que limitam um pouco sua atuação como planejador central monetário.  A China ainda não se converteu por completo à fé inflacionária.  E o mesmo pode ser dito para a Inglaterra.

Ben Bernanke, no entanto, é um ser diferenciado: ele tem se revelado um keynesiano ultrapassado, do tipo que tem uma fé inabalável e ilimitada no poder do dinheiro de papel em solucionar todos os problemas do mundo.

O que isso significa é que o Fed assumiu, sozinho, a função de socorrer todo o resto do mundo.  Há uma lógica perversa nisso tudo.  Afinal, se você vai agir como um imperador do mundo, operando sob a presunção de que nada no planeta está fora do seu alcance político, então você terá de arcar com algumas responsabilidades.  Ajuda internacional e tropas estacionadas em quase todos os países do mundo são só o começo.  Você eventualmente terá também de assumir responsabilidades financeiras.  Uma economia globalizada e viciada em dívidas necessita de uma instituição disposta a intervir e garantir essas dívidas, fornecendo a liquidez necessária para ajudar a economia mundial durante os tempos difíceis.

Tão logo o anúncio das novas medidas do Fed veio a público, a elite intelectual da internet prontamente fez a óbvia observação de que tais medidas geram um enorme risco de desencadeamento de uma crise inflacionária global.  Ela pode levar ao desmantelamento final das moedas de papel.

O Fed, no entanto, garantiu que não é bem assim.  Suas novas medidas "não geram risco cambial".  Porém, como explicou o economista Robert Murphy, "estritamente falando, isso não é verdade.  Há sim um grande risco cambial.  Se o Fed der $50 bilhões de dólares ao BCE, este (ao câmbio do dia) vai dar ao Fed o equivalente em euros a $50 bilhões de dólares.  Ato contínuo, o BCE vai emprestar os dólares que recebeu do Fed para os bancos.  No entanto, se antes de os bancos pagarem de volta os empréstimos, o euro se desvalorizar perante o dólar... então o BCE não terá meios de adquirir dólares suficientes para pagar o empréstimo ao Fed.  Mesmo com o BCE tendo uma impressora de dinheiro, ela está configurada para imprimir euros, e não dólares".

Murphy vai adiante e explicita aquilo que todo mundo sabe, mas ninguém está disposto a dizer: "A atual rodada de intervenções não irá solucionar os problemas.  Com o tempo — provavelmente mais cedo do que mais tarde —, os bancos centrais ao redor do mundo irão inventar novos mecanismos de intervenções extraordinárias, e sempre com a desculpa de que, caso isso não seja feito, o mundo se desintegrará.  O problema é que imprimir dinheiro não resolve os problemas fundamentais.  Não importa o que eles façam, no final todo o mundo financeiro entrará em colapso."

A velocidade com que tudo isso está acontecendo é estonteante.  Não faz nem 48 horas que ouvimos as primeiras manifestações públicas de preocupação quanto a uma possível escassez de crédito na Europa.  As grandes corporações alegaram estar vendo suas linhas de crédito secarem.  Os bancos estavam começando a se tornar mais meticulosos e cautelosos em suas operações, o que não foi nenhuma surpresa, pois, considerando-se que as taxas de juros estão em quase zero, tornou-se praticamente impossível obter algum lucro com as operações convencionais de concessão de crédito.

Ao passo que, em 2008, o Fed permitiu que as preocupações quanto à escassez de crédito crescessem ao ponto de virarem mania internacional, desta vez ele interveio rapidamente na esperança de se antecipar aos inevitáveis alertas sobre o iminente fim da civilização.  Somente trilhões em dinheiro de papel podem salvar o mundo agora!  O Fed viu o que estava por vir e decidiu tomar medidas antes mesmo de surgir uma demanda por elas.

Porém, ao invés de acalmar os mercados, o efeito real será o oposto.  Se você for ao médico porque está com uma congestão nasal, e ele correr com você para uma sala de cirurgia, você não irá simplesmente congratulá-lo por ser tão meticuloso e cuidadoso.  Você irá, isso sim, perceber que ele sabe de algo muito sério, algo de que você não sabe — no caso, que a sua condição é muito mais séria do que você imaginava.  Sua família muito provavelmente irá entrar em pânico.

Esse motivo psicológico, por si só, já é capaz de perturbar os mercados de maneira imprevisível.  O Fed agora assumiu a função de impressor de dinheiro de papel para o mundo inteiro.  Estamos em um admirável mundo novo.  Se você crê que uma nova era de prosperidade, paz e estabilidade nos aguarda, então você certamente passou o último século vivendo dentro de alguma caverna.  É impossível que uma única alma viva possa dormir bem sabendo que Ben Bernanke se elegeu a si próprio o analista de crédito de todo o globo.

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"Não podemos ignorar o fato de que muitos governos protegem e subsidiam o produto nacional para torná-lo artificialmente competitivo."

Correto. "Artificialmente competitivo". Isso significa que algo só consegue ter um mínimo de competência caso chupe dinheiro de impostos de toda a população, a qual não ganha nada com isso, mas é obrigada a encher os bolsos de empresários mercantilistas, incompetentes e avessos à concorrência.

"Vejam o caso da Bombardier no Canada, que disputa mercado com a Embraer, que fez queixas formais à OMC."

E, ainda assim, a Embraer tem mais aviões que a Bombardier no mercado americano.

"A China subsidiou setores que ganharam mercado através da derrocada em outros países."

Quais mercados que foram dominados pelos chineses e que fizeram muita falta para outros países? Colocando de outra forma: esses mercados que os chineses dominaram por acaso são mercados tecnológicos, complexos e que geram riqueza e prosperidade, ou são mercado primitivos, tecnologicamente defasados e que não exigem nenhuma grande especialidade?

Até onde sei, chineses produzem pano, sapato e bugigangas de baixíssimo valor agregado. Isso leva alguém à pujança? Um país que deixou de fazer isso por causa dos chineses agora está irremediavelmente condenado ao atraso?

Por acaso cortar, entortar e rebitar ferro — tarefas que um xing-ling é capaz de executar a custos irrisórios — são coisas economicamente prementes para o país ou será que o governo quer que isso seja feito apenas para exibir estatísticas de produção industrial?

"Basta lembrar o que aconteceu com o setor textil e calçadista no Brasil."

Exatamente o que acabei de dizer acima. Em vez de nos preocuparmos com nanotecnologia, microprocessadores e outras atividades que realmente produzem riqueza, ainda estamos preocupados com pano e sapato, coisas completamente primitivas, que podem perfeitamente ser produzidas nos rincões mais atrasados do mundo.

Estude um pouco sobre divisão global do trabalho.

Comece por aqui:

Não há argumentos econômicos contra o livre comércio - o protecionismo é a defesa de privilégios

"Livre mercado é uma utopia irrealizável."

O que é realmente irrealizável é a inteligência econômica do brasileiro médio.
O artigo do André Lara já foi comentado pelo Leandro em duas ocasiões:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2578#ac189563

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2585#ac189561

Beira o inacreditável como é que um economista tão conceituado falou tamanha bobagem a respeito da política monetária americana. O André Lara simplesmente ignora como realmente se deu a política monetária americana. Foi impressionante.
Economistas do Banco Central do Brasil estão batendo palmas para este artigo publicado no Valor:
www.valor.com.br/cultura/4872458/andre-cochrane-e-teoria-fiscal-dos-precos

Gostaria de uma análise por parte do pessoal do Mises.

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VALOR ECONÔMICO -SP | EU E FIM DE SEMANA

BANCO CENTRAL | ECONOMIA, FINANÇAS E CONTAB.

André, Cochrane e a teoria fiscal dos preços (Artigo)

André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que "a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (...) tem sólidas credenciais analíticas". Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

Claro que não se trata disso! Apesar de o artigo se apresentar como uma crítica ao "conservadorismo intelectual", sua conclusão final é absolutamente conservadora: o trabalho de controle da inflação depende, em última instância, da confiança na sustentabilidade fiscal de longo prazo; sem isto, a política monetária estará sempre lutando uma batalha perdida.

A crítica de André ao conservadorismo parece resultar mais de um flerte com a doutrina neofisheriana, que se caracteriza por conclusões heterodoxas sobre a relação entre taxa de juros e inflação e por uma controversa teoria fiscal dos preços. Eduardo Loyo lembra que essas ideias têm apenas sobrevivido de forma marginal no corpo da ciência econômica, com seus resultados em total contraversão à opinião da maioria e ao senso comum.

Os neofisherianos dão muita importância à conclusão óbvia de que um regime monetário baseado em uma taxa de juros nominal fixa não produz uma âncora para a inflação. É possível ancorar a inflação quando se mantém o estoque total de moeda fixo, ou evoluindo a uma velocidade constante, como proposto por Milton Friedman. É possível também ancorar a inflação com uma taxa de câmbio fixa, como ocorria tradicionalmente nos regimes de padrão ouro. Não é possível, porém, ancorar a inflação apenas mantendo fixa a taxa nominal de juros.

Para demonstrar isso, considere a velha equação de Fisher, que na realidade é uma identidade que define a taxa real de juros:

Taxa nominal de juros = (taxa real de juros) mais (taxa de inflação)

Sabemos que a inflação aumenta quando a taxa real de juros cai. Imagine então que a taxa nominal de juros é fixa e ocorre um choque exógeno que aumenta a taxa de inflação. Pela identidade de Fisher, isso reduz a taxa real de juros, já que a taxa nominal permanece fixa. Como consequência, a taxa de inflação aumenta ainda mais, o que por sua vez produz uma redução adicional da taxa real de juros, e assim por diante. Ou seja, um regime monetário baseado numa taxa nominal de juros fixa não consegue ancorar a inflação. Qualquer choque exógeno produz uma trajetória explosiva, que tanto pode ser inflacionária como deflacionária.

É claro, porém, que nenhum banco central vai operar com uma taxa nominal de juros fixa, ainda que esta seja sua variável preferencial de controle. No mundo real, a ancoragem monetária é feita através de uma meta de inflação, com a autoridade monetária aumentando a taxa de juros quando a inflação fica acima da meta e reduzindo quando a inflação fica abaixo da meta, até que ocorra a convergência da inflação para a meta. Como consequência a ancora monetária não é uma taxa de juros nominal fixa, mas sim a própria meta de inflação. Nesse regime monetário, a taxa de inflação tende a ser igual à meta de inflação, que é a ancora efetiva. Quando isso ocorrer, a taxa nominal de juros terá seu valor determinado pela identidade de Fisher. Ou seja, no longo prazo a taxa nominal de juros não determina a taxa de inflação; ela é determinada pela meta de inflação!

O longo recente artigo de John Cochrane, citado por André, parece ser uma tentativa de relançar o neofisherianismo em bases técnicas mais respeitáveis. Cochrane sonha em ser uma espécie de Einstein da ciência econômica, afirmando que a experiência recente das economias avançadas com taxas de juros próximas de zero e taxas de inflação persistentemente abaixo das metas constitui-se numa espécie de experimento natural semelhante ao famoso resultado de Michelson-Morley, que foi o ponto de partida para a teoria da relatividade. Acontece que a teoria keynesiana moderna, que é utilizada por todos os bancos centrais, não encontra maior dificuldade para explicar os fatos.

Cochrane utiliza uma versão simplificada da teoria para demonstrar que, quando a taxa de juros de curto prazo é reduzida até zero, só existem duas possibilidades: ou a taxa de inflação volta a subir em direção à meta ou ocorre um processo ilimitado de deflação. Como nada disso teria ocorrido na experiência americana depois que a taxa de juros foi reduzida a praticamente zero ao fim de 2008, a conclusão é de que precisamos uma reformulação fundamental da teoria, e Cochrane sugere a alternativa da teoria fiscal dos preços.

Acontece que os números de inflação para os EUA estão longe de justificar o radicalismo de Cochrane. Em 2016 a taxa de inflação já convergiu, sim, para a meta do Fed de 2% ano. A taxa de núcleo do índice da Personal Consumption Expenditure, o PCE-core que costuma ser priorizado pelo Fed em suas decisões, também está subindo e chegou a 1,7% em 2016, ou seja, bem próximo da meta. Não é correto, portanto, dizer que a política monetária americana com taxa de juros próxima de zero não atingiu seu objetivo de colocar a inflação na meta.

Pode-se argumentar que parece ter demorado muito para conseguir isso? Na realidade não houve tanta demora. Entre 2011 e 2013, a inflação média do IPC americano ficou em 2,1%, com oscilação entre 1,5 e 3%, já perfeitamente compatível com a meta de 2%. No mesmo período, a média para o PCE-core ficou em 1,5%, com oscilação entre 0,9 e 1,7%, um pouco abaixo do IPC, mas nada muito dramático. Deve-se notar que nesses anos havia uma taxa de desemprego na faixa de 7 a 9%, o mercado imobiliário continuava em crise e as famílias provavelmente ainda estavam reduzindo suas despesas pessoais para ajustar seus endividamentos. Logo existiam forças importantes operando no sentido de impedir a elevação da taxa de inflação.

O quadro realmente mudou em 2014 e 2015, quando a inflação caiu abaixo de 1%. Essa desaceleração ocorreu junto a gradual eliminação do relaxamento quantitativo (QE), portanto em princípio com um aperto na política monetária, mas esta não nos parece ser a melhor explicação. O fator determinante foi uma brusca queda nos preços internacionais de commodities, com a cotação do petróleo Brent, por exemplo, caindo cerca de 70% entre meados de 2014 e fim de 2015. Os economistas da tradição de Chicago acreditam tanto em flexibilidade de preços que costumam não levar em consideração choques exógenos desse tipo. Se olharmos, porém, para as variações fortemente negativas do IPC Energia em 2014 e 2015 (menos 10,6% e menos 12,6%), fica claro que este foi um determinante importante da desaceleração inflacionária no período. Em 2016 alguns preços internacionais de commodities voltaram a subir (como 40% para o petróleo e 20% para os metais), o que certamente contribuiu para a elevação da taxa de inflação.

Ou seja, desde 2009 a política monetária americana foi efetivamente expansionista, ainda que diversos fatores tenham contribuído para um retorno relativamente gradual em direção à meta. Fica claro que estamos longe de um resultado paradoxal, tipo Michelson-Morley, que justifique alguma revolução teórica. Talvez o único conhecimento novo relevante que resultou da experiência americana com relaxamento quantitativo (QE) é que uma redução significativa das taxas longas de juros, que foi sua principal consequência, tem pouco impacto sobre o nível de atividade. Isto sugere que Keynes estava errado quando discordava de Hawtrey sobre a maior relevância das taxas curtas de juros para a política monetária.

Faltou comentar a tese de Cochrane sobre a possibilidade de deflação ilimitada quando a política monetária atinge a restrição do piso zero, o que talvez seja relevante para a economia japonesa. Pode acontecer que um banco central operando uma meta de inflação seja levado a reduzir a taxa nominal de juros até zero sem que consiga levar o nível de atividade a uma posição suficiente para reverter uma tendência generalizada à deflação dos preços. Isto ocorreria devido a uma configuração muito desfavorável da relação entre investimento e poupança. Uma economia com muita poupança e pouco investimento, que talvez seja o caso do Japão atual, pode produzir uma situação de desequilíbrio de longa duração com inflação cadente ou negativa.

Devido ao piso zero, a economia não consegue sair da posição deflacionária apenas através da política monetária e vai depender para isso de um estímulo fiscal. O fato de que uma situação desse tipo, como parece acontecer de forma crônica no Japão (particularmente quando olhamos o índice de preços empresarial), produz apenas uma deflação de intensidade limitada e indica apenas que a relação entre inflação e nível de atividade (representada pela curva de Phillips) não é linear e pode ter inclinação muito próxima de zero na região de taxas de inflação negativas. Isso é compatível com a velha noção keynesiana de que é difícil produzir deflações na prática.

Resta ainda entender o que pretende a teoria fiscal dos preços. A melhor explicação foi apresentada por Harald Uhlig no seminário sobre o assunto realizado em abril no Becker Friedman Institute da Universidade de Chicago. Uhlig, curiosamente, comenta que, entre outras possibilidades, a teoria fiscal dos preços talvez possa ser vista como "um conjunto de previsões que ocasionalmente funcionam em circunstâncias exóticas", e adiciona entre parênteses (Brazil?).

Sua explicação é muito simples. Se usarmos B para indicar o valor nominal da dívida pública e P para indicar o índice de preços de bens e serviços, então B/P indica o valor real da dívida. Os agentes privados que detêm esses títulos públicos esperam que eles possam ser pagos através da geração de superávits primários no futuro. Então para que se sintam confortáveis é necessário que o valor presente desses superávits futuros, que podemos indicar por VPS, seja igual ao valor real da dívida, ou seja, B/P = VPS. Isto pode ser visto como uma espécie de condição de arbitragem e podemos perguntar o que acontece se o governo aumenta sua dívida sem aumentar também o valor presente dos superávits futuros. Neste caso, B/P fica maior que VPS e, num mundo de preços plenamente flexíveis e expectativas racionais, o desequilíbrio será corrigido por um aumento no nível de preços. Ou seja, P aumenta de modo a que novamente B/P = VPS. Podemos concluir então que a taxa de inflação, que é a taxa de variação percentual de P, vai ser determinada pela diferença entre as taxas de variação percentual da dívida B e do valor presente dos superávits futuros VPS. Essa é a teoria fiscal dos preços, que se pretende uma explicação radicalmente nova para a inflação, sem qualquer menção a conceitos tradicionais como curva de Phillips, taxa de desemprego, investimento e poupança ou taxa de juros.

A teoria tem um defeito óbvio: não fica claro qual é o mecanismo de mercado que produz o movimento do índice de preços quando B/P difere de VPS. Não há dúvida de que se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para esses títulos, isto é, B/P maior que VPS, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição. Mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços?

Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal ao qual a dívida foi emitida pelo governo, que estamos indicando por B, e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por zB, sendo z um fator de desconto. Se escrevemos a teoria fiscal dos preços como zB/P = VPS, então parece mais razoável supor que um desequilíbrio entre zB/P e VPS vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública, indicado por z. Como esse fator está inversamente relacionado à taxa de juros de longo prazo, a conclusão é de que a teoria fiscal de preços não é uma nova teoria para a inflação, mas apenas uma teoria fiscal da taxa longa de juros.

Veja, porém, que realmente existe um caso exótico em que a teoria fiscal dos preços pode funcionar! É o caso em que a totalidade da dívida pública consiste de papéis ligados à taxa de juros overnight, como acontece com as LFTs no Brasil (que, aliás, foram inventadas pelo próprio André!). Neste caso, o fator de desconto para a dívida pública será sempre igual a um, por definição, e voltamos à formulação B/P = VPS, que viabiliza a teoria. Naturalmente, isso não significa que esteja garantida sua relevância prática no mundo real, fora dos modelos de preços totalmente flexíveis e expectativas racionais. Significa apenas que Uhlig tinha razão ao especular que a teoria fiscal dos preços poderia em tese funcionar em circunstâncias exóticas, como no Brasil das LFTs.

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC)

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Ubiratan Jorge Iorio  01/12/2011 05:36
    Perfeito, rasteiro, bem colocado e no canto, fora do alcance do goleiro keymesiano Bernanke. Gol dos austríacos!
  • Felix  01/12/2011 09:09
    " Se você crê que uma nova era de prosperidade, paz e estabilidade nos aguarda, então você certamente passou o último século vivendo dentro de alguma caverna"

    Economia em caos não significa que a qualidade de vida está piorando. Ela vai continuar melhorando. Nós brasileiros já passamos por todo tipo de complicação econômica e estamos sempre evoluindo em qualidade vida, idh, educação, renda per capta etc...
    Não me entendam mal, sou ancap mas vou continuar investindo em ações, renda fixa e imóveis, as empresas vão continuar lucrando (sabendo escolhê-las) e o país vai crescer no longo prazo, mesmo com turbulências em curto prazo.
  • Carlos  01/12/2011 09:54
    O que os BCs deviam fazer?
  •   01/12/2011 10:26
    Encerrar suas atividades.
  • Leandro  01/12/2011 10:30
    Permitir a liquidação das dívidas, permitir que instituições insolventes sejam arrematadas por seus credores -- no caso dos bancoes, seus correntistas --, e dar plena liberdade ao sistema de preços para que este coordene todas as correções necessárias.

    Em suma, fazer o que foi detalhado neste artigo:

    mises.org.br/Article.aspx?id=946

    Abraços!
  • Carlos  01/12/2011 10:53
    Mas isso não ia levar ao caos econômico?
  • Leandro  01/12/2011 10:58
    O caos econômico ainda está por vir. E ele não vai ser bonito.

    Essas medidas, por outro lado, gerariam um reestruturação necessária de todo o sistema, o qual está completamente carcomido. Elas seriam dolorosas, é fato, mas são completamente necessárias. Você não corrige décadas de estragos feitos por papel-moeda apenas com medidas paliativas e indolores. Infelizmente.
  • Deilton  01/12/2011 14:09
    Leandro, gosto muito das suas análises. Na sua opinião, o que pode acontecer com o Brasil, caso o dolár "vá pro brejo"?
    É o que parece que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Apesar de todo alarmismo com a Europa, considero a situação americana e britânica muito pior que a da união européia. No brasil só está sentindo os efeitos da crise quem investe em ações, como eu, o povo ainda está alheio a esse assunto.
    Essa semana tentei explicar a uns colegas que o problema era o estado e não o capitalismo e vi o quanto a jornada anarco capitalista é longa. As pessoas vêem o estado como tutor, como o salvador, não como um senhor de escravos, que escraviza a nós todos.
  • Leandro  01/12/2011 21:57
    Prezado Deilton, se o dólar "for para o brejo", nossas reservas internacionais tornar-se-ão completamente inúteis, revelando-se um completo desperdício de dinheiro dos pagadores de impostos.

    Além disso, todo o setor exportador que tem os EUA como cliente principal terá de ser redimensionado e buscar outros mercados. No extremo, terá de desovar toda a sua produção no mercado interno mesmo.

    Por outro lado, as importações -- caso o dólar mantenha seu status de moeda internacional de reserva -- se tornariam extremamente baratas. No entanto, a hipótese mais provável é que outra moeda assuma o lugar do dólar, e ela passará a ser a moeda internacional. Aí o efeito se tornaria mais difícil de prever.

    Há um artigo mais detalhando explicando como um país pode sobreviver bem sem se preocupar com volatilidades na demanda oriunda do mercado externo.

    Abraços!
  • Mario Cunha  01/12/2011 09:55
    Amigos,\r
    \r
    Boa tarde!\r
    \r
    Quero compartilhar com vocês um artigo que me causou profundas náuseas e que tem relação com o artigo acima. \r
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    Só para quem tem estomago forte.\r
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    Abraços!\r
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    O Fundamental - Delfim Netto\r
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    Grupos não pequenos de estudiosos insistem em atribuir a crise a uma organização social misteriosa à qual dão o nome genérico de "capitalismo", codinome da organização da atividade econômica em torno dos "mercados", instituição que os homens "descobriram" para coordenar a atividade de consumir bens e serviços e, ao mesmo tempo, estimulá-los a produzir de forma relativamente eficiente e com maior liberdade individual.\r
    \r
    É preciso reconhecer que: 1) os mercados são meros instrumentos alocativos que tentam compatibilizar os interesses dos indivíduos no seu duplo papel; 2) obviamente, não há simetria de poder entre esses papéis; e 3) eles (os mercados) não podem funcionar (ou mesmo existir!) sem um Estado para regulá-los.\r
    \r
    Essa economia de mercado não foi inventada. Há claras evidências de que os mercados existem desde a velha Mesopotâmia (500 anos antes de Cristo). Foi sendo "descoberta" pelos próprios homens na sua atividade prática de buscar instituições que lhes permitissem facilitar a sobrevivência material e a possibilidade de combiná-la com sua eterna busca de liberdade de iniciativa. Ela não é nem perfeita nem imortal. A grande esperança é que a ação do Estado que garante a sua funcionalidade, possa minorar seus defeitos com as políticas econômica (a flutuação) e social (a desigualdade).\r
    \r
    A irresponsabilidade fiscal dos Estados precisa ser superada \r
    A ideia que os mercados têm a capacidade de autocorrigir-se e que os resultados da distribuição de seus benefícios são "justos" ou "merecidos" - e que, portanto, dispensam a ação do Estado - é absurda. Tão absurda quanto a ideia que os problemas que estamos vivendo se devem apenas a eles, sem nenhuma cumplicidade do Estado.\r
    \r
    Já passou da hora de os economistas livrarem-se de umas ingenuidades. A primeira é que Deus foi bom com eles deixando-lhes como objeto de estudo um mundo, cuja ordem poderia ser descoberta, como, por exemplo, o movimento dos astros. A segunda é o reconhecimento que, por mais importante que seja o papel do Estado, o poder incumbente está longe de ser onisciente e, logo, não precisa ser onipresente e, muito menos, pretender a onipotência!\r
    \r
    A história nos ensinou, e a experiência atual confirma, que o Estado precisa ser fiscalmente responsável! Não é preciso ser economista para entender tal "conta de padaria". A receita pública não pode ser, permanentemente, maior do que a despesa pública, não importa a "qualidade" ou a "necessidade" do gasto.\r
    \r
    Se ele é imperioso e permanente, só há três formas de atendê-lo: 1) aumentando a eficiência do governo; 2) cortando despesa menos prioritária; ou 3) aumentando os impostos. É uma maldição aritmética desagradável que a relação dívida pública/PIB só possa ser estabilizada num nível cujo financiamento possa ser feito, permanentemente, com uma taxa de juros real menor do que a taxa de crescimento real do PIB.\r
    \r
    Parece razoável concluir, portanto, que o que precisa ser superado é a irresponsabilidade fiscal dos Estados e a sua incompetência regulatória. Vivemos, basicamente, uma manifestação de Estados pouco cuidadosos fiscalmente e impotentes diante do poder econômico dos interesses financeiros. A crise de 2007/09, que se recusa a terminar, é a testemunha da tendência do setor financeiro de servir-se do setor real e de sua capacidade de apropriar-se do poder incumbente.\r
    \r
    Os "indignados" sugerem trazer de volta ideias de cérebros peregrinos, que "inventaram" outros mecanismos de organização social. Os mesmos que rechearam de tragédias o século XX. É preciso insistir que, até agora, o mercado como instrumento alocativo relativamente eficiente não encontrou nenhum substituto, como mostram o fracasso soviético e o sucesso chinês.\r
    \r
    A crise americana é menos grave do que a da Eurolândia, mas tem pouca probabilidade de terminar antes da eleição de novembro de 2012. E depois? Depois, valha-nos Deus se os intelectuais republicanos vencerem a batalha eleitoral! É uma pena. Os EUA têm tudo para sair mais depressa da crise. Faltam-lhes apenas uma liderança que reconstrua a confiança da sociedade.\r
    \r
    Na Eurolândia, a questão é mais complicada. Ela tem, na verdade, quatro problemas: 1) um desalinhamento das moedas dentro do euro, que causa resultados assimétricos nos balanços de pagamentos; 2) um descontrole dos déficits públicos; 3) uma perspectiva de crise bancária; e 4) falta-lhe um Banco Central autônomo, que seja, de fato, o emprestador de última instância e possa organizar as dívidas dos países.\r
    \r
    O jogo dialético civilizatório (apoiado no sufrágio universal) entre o mercado e a urna não é uma linha reta: pode sofrer graves e custosos desvios. O fato fundamental é que ele não resiste à irresponsabilidade fiscal. Quando essa leva as lideranças políticas à completa predominância do curto prazo sobre o longo, aproveitando-se de situações econômicas passageiras favoráveis para permanecer no poder, o mercado (isso é, a realidade fática) acaba cobrando o seu preço.\r
    \r
    O Brasil pagou tal preço no passado. A presidente deve ser fortemente apoiada quando corta na carne o Executivo e pede moderação ao Legislativo, ao Judiciário e aos sindicatos. Nunca a solidez fiscal foi tão necessária para proteger-nos da crise mundial, que está longe de terminar. É por isso que a DRU deve ser aprovada.\r
  • anônimo  01/12/2011 10:25
    "A irresponsabilidade fiscal dos Estados precisa ser superada
    A ideia que os mercados têm a capacidade de autocorrigir-se e que os resultados da distribuição de seus benefícios são "justos" ou "merecidos" - e que, portanto, dispensam a ação do Estado - é absurda. Tão absurda quanto a ideia que os problemas que estamos vivendo se devem apenas a eles, sem nenhuma cumplicidade do Estado."

    Quado uma pessoa escreve uma máxima como esta citada acima impondo a sua afirmativa, há de no mínimo do mínimo ser acompanhada pro uma premissa lógica que justifique tal afirmativa. Essas história de é assim porque é assim e pronto, é coisa de gente mau intencionada, vanila e ignorânte.
  • Leandro  01/12/2011 10:41
    Funciona assim: você pega o mercado, estrangula-o, cria uma miríade de impostos, inventa uma cornucópia de regulamentações, cria subsídios para os protegidos, sai imprimindo dinheiro sem qualquer restrição, pune aquele que lucra, recompensa aquele que perde, restringe o setor de capitais, estrangula os consumidores, sai estatizando tudo e criando todas as barreiras possíveis ao comércio, impede falências, proíbe demissões e, ainda assim, chama isso de mercado.  Aí quando todo o esquema entra em colapso, surge a gritaria: "Ah, viram só? O livre mercado falhou! É óbvio que agora precisamos de um estado mais autoritário!"

    Delfim aparentemente não percebeu -- não sei se por ignorância ou se é apenas desonestidade intelectual de sua parte -- que a recessão é justamente a maneira de o mercado tentar corrigir todas as sabotagens que lhe foram impingidas pelos governos. É uma grande vigarice utilizar um fenômeno inerente à autocorreção dos mercados -- as recessões -- como prova de que os mercados não se corrigem.

    Como já dissemos aqui, a ignorância econômica é devastadora.
  • Leandro Coelho  03/12/2011 09:16
    Excelente! Você deveria imprimir isso e enviar para o cara!
  • Gilx  01/12/2011 11:06
    Quem lê os artigos liberais deste site, dá vontade de dar risadas, diante da TV, das "soluções" apresentadas pelos economistas keynesianos.
  • anônimo  01/12/2011 11:25
    Pois é. Ontem, na TV Gazeta (de São Paulo), nao me lembro em que programa, mas era um telejornal por volta das 19-20 horas, havia um cara que praticamente juntava as mãos e fazia aquela cara de autopiedade, falando um monte de baboseiras sobre a "crise que é causada por todos nós, que compomos o mercado: comércio, industria, consumidores..." por que estamos menos propensos a consumir, estamos evitando gastos, e por isso o mundo se encontra no atual estágio. Faltou implorar que passassemos a gastar. Não tive como não falar com a TV. Então a culpa é minha? Num momento parei de gastar por prudência e em seguida a economia foi ao abismo? Inversão total da ordem da causalidade.
  • Glelson Fontes  01/12/2011 11:19
    a impressão que dá é que Delfim nunca leu Mises ou até mesmo Adam Smith.\r
    A pergunta que nao quer calar, será que é só impressão ou é realidade.\r
    :|\r
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  • Hay  01/12/2011 11:37
    O pior de tudo, Leandro, é que esses economistas são realmente levados a sério. São tidos como grandes intelectuais do nosso tempo. Acho que o segredo está na falta de lógica, nas frases desconexas, nas falácias, e nos constantes apelos à autoridade ("veja bem, aqueles austríacos malucos não ajoelham diante do Deus Keynes").

    Por sinal, Leandro, já chegou a ler o texto Why We Can't Associate Too Closely with the Austrians? No final, o autor escreve: "I hope I've convinced you of how unreasonable they are and why any theory of economics must be scientifically tested." Eu adoraria saber como essas pessoas testariam uma teoria econômica do jeito que eles imaginam. Criariam gigantescos grupos de populações em países, todos eles programados mentalmente ao mesmo tempo?
  • Leandro  01/12/2011 12:11
    Exato. É preciso ter um laboratório bastante moderno, com variáveis rigorosamente controladas, para se testar a hipótese de que uma maior quantidade de dinheiro perseguindo uma mesma quantidade de bens gera aumento de preços. Afinal, se isso não for feito, então a teoria não foi "cientificamente testada" -- logo, ela não é válida.
  • Leonardo  02/12/2011 04:26
    Não à toa esse artigo foi escrito por um estudante de física, uma ciência natural cujas teorias precisam de comprovações empíricas. As ciencias sociais são diferentes, principalmente a ciência econômica, pois não é possível conhecer e medir todas as variáveis que agem sobre o sistema econômico, colocá-las num tubo de ensaio em algum laboratório com intuito de testar certa hipótese. Como Hayek disse em seu discurso do premio Nobel:

    "as ciências sociais — como grande parte das ciências biológicas, porém ao contrário da maioria da ciências físicas — lidam com estruturas de complexidade essencial, ou seja, com estruturas cujas propriedades características podem ser exibidas somente por modelos compostos por um número relativamente grande de variáveis."

    O autor do artigo ainda diz que é possível testar as proposições de uma teoria econômica pela mera observação da realidade. Como se fosse possível para um ser humano abranger a totalidade da realidade economica em um modelo teórico, de modo que o que acontece na realidade só possa ser explicado exclusivamente pelas proposições do modelo e não por alguma outra variável que o modelo deixou escapar por algum motivo qualquer.

    É aquela velha história: Se o governo aumentar os impostos hoje e amanhã a economia começar a prosperar, será que foi por causa do aumento dos impostos ou apesar dele? Se eu montei um modelo prevendo que o aumento de impostos iria fazer a economia crescer, o autor do artigo daria minha proposição como comprovada empiricamente pela realidade, o que é algo de uma absurdidade descomunal.
  • Joao M Santucci  01/12/2011 11:38
    Não entendi muito bem o que o Tucker quis dizer com "sonho Keynesiano". Pra mim, sempre esteve clara a idéia de Keynes sobre os perigos de se atrelar a liquidez mundial às emissões de um único país, ou limitá-la a um reduzido grupelho de moedas. O próprio Tucker coloca a ponta disso no texto, apesar de não se aprofundar na idéia.

    Além do que, acho um tanto injusto jogar três linhas tão diferentes (keynesianismo, pós-keynesianismo e novo-keynesianismo) dentro do mesmo balaio e rotulá-lo "keynesiano", como se fosse tudo a mesma coisa. Quando, na verdade, elas todas, apesar de guardarem parcas similaridades, tem propostas bem diferentes entre si.

    Salvo estas duas, que considero como incoerências, achei o artigo excelente.

    E parabéns pela tradução.
  • Leandro  01/12/2011 12:06
    Ora, João, não há incoerência nenhuma na exposição do autor. Keynes sempre deixou clara sua idéia de que deveria haver uma moeda mundial -- o Bancor -- que deveria ser emitida por um banco central mundial. Tal BC deveria, obviamente, ser presidido por iluminados keynesianos, pois apenas eles teriam o conhecimento e a sensibilidade para fazer a "sintonia fina" na quantidade de dinheiro na economia mundial e no ritmo da sua expansão.

    A necessidade de um BC mundial presidido por keynesianos clarividentes e experientes adviria justamente do fato de se querer "evitar que a liquidez mundial ficasse atrelada às emissões de um único país".
  • mcmoraes  01/12/2011 13:18
    @Joao: "...Além do que, acho um tanto injusto jogar três linhas tão diferentes (keynesianismo, pós-keynesianismo e novo-keynesianismo) dentro do mesmo balaio e rotulá-lo "keynesiano", como se fosse tudo a mesma coisa. Quando, na verdade, elas todas, apesar de guardarem parcas similaridades, tem propostas bem diferentes entre si..."

    De acordo com Wikipedia, as 3 linhas diferem apenas em suas interpretações a respeito do que o Deus Keynes disse. Disso pode-se concluir que não há diferença fundamental entre elas. Se não há diferença fundamental entre elas, alguém que questione os fundamentos e premissas das idéias do Deus Keynes diretamente (o que é o caso do autor do artigo acima) não estará cometendo nenhuma injustiça ao botar tudo no mesmo balaio.
  • Joao M Santucci  05/12/2011 06:01
    Wikipedia? Sério?
  • mcmoraes  05/12/2011 07:23
    Por que não, João? Você viu algum erro específico no artigo que eu apontei ou o seu problema é com a Wikipedia como um todo? Se você viu algum erro específico no artigo, não seria essa uma ótima oportunidade de defender a sua posição?

    Além disso, depois que eu postei meu comentário anterior, eu fiquei imaginando você repreendendo o Milton Friedman com severidade após ele dizer que "We are all Keynesians now": pô Friedman, vc está jogando acho três linhas tão diferentes dentro do mesmo balaio; parece até aqueles amadores que usam a Wikipedia como fonte de informação. :)
  • Hay  05/12/2011 08:39
    Pra mim, sempre esteve clara a idéia de Keynes sobre os perigos de se atrelar a liquidez mundial às emissões de um único país, ou limitá-la a um reduzido grupelho de moedas.

    A solução, para Keynes, era criar um super-banco mundial, porque, dessa maneira, não haveria perigo, afinal, não haveria um país um ou pequeno grupo de países controlando as emissões. Seria uma entidade centralizadora, composta por todos os países do mundo ao mesmo tempo e, obviamente, não dominava nem um por um único país e nem por um grupo de países. Como todos sabemos, quando um grupo de políticos e burocratas se reúnem, tomam chá com bolinhos e procuram as melhores maneiras de ajudar a humanidade. Isso porque são seres com capacidades sobre-humanas, mais ou menos como o Dr. Manhatan do filme "Watchmen".
  • PESCADOR  01/12/2011 13:05
    Concordo com o que o Gilx escreveu ali em cima. Depois que passei a ler diariamente os artigos do IMB, não consigo mais assistir ao noticiário econômico na TV e quase sempre dou risada quando vejo "economistas" vomitando keynesianismo. Domingo passado, tentei acompanhar o programa Canal Livre, na Band, sobre a crise econômica. Foi patético. Espinafraram o livre mercado (ou que eles consideram como livre), e sacramentaram o estado como regulador imprescindível, entre outras bobagens. Eu ri assistindo, sozinho. Alguém aqui viu também? Se ainda não tiver no youtube, no site da Band eles disponibilizam o programa completo uma semana depois. Quem quiser rir um pouquinho (ou chorar, sei lá...), é só dar uma olhadinha nas abobrinhas que foram faladas no programa.
  • Matheus Polli  01/12/2011 15:40
    Também não consigo mais ver os telejornais keynesianos do Brasil sem sentir arrepios.
  • EUDES  01/12/2011 15:46
    Assisti ao Canal Livre domingo passado. Não gostei também.
  • Vinicius  02/12/2011 05:06
    comigo já aconteceu coisa parecida, depois q vc conhece a Escola Austriaca, veh q tudo q lhe foi doutrinado/ensinado não faz o menor sentido..... e praticamente tudo q lhe foi passado na escola/faculdade sobre economia é um lixo...
  •   02/12/2011 05:27
    Já desisti das notícias de economia na televisão faz um tempo, não quero sofrer um infarto.
  • mcmoraes  02/12/2011 07:00
    Essa thread me fez lembrar de uma entrevista do O d C:

    "...A educação então não deve ser para todos?

    Não. Educação é um processo irradiante, que vai por círculos concêntricos. Você educa dez, que educam cem, que educam mil, que educam um milhão e vai assim."
  • Abelardo  01/12/2011 14:29
    E vejam nosso governo seguindo a Cartilha keynesiana.

    economia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2011/12/01/caixa-libera-r-5-bi-para-consumo-apos-pacote-do-governo.jhtm

    Nossos lideres iluminados dizendo que o consumo é sinonimo de prosperidade.

    Cômico se não fosse trágico.
  • Anon  01/12/2011 17:25
    "Por sinal, Leandro, já chegou a ler o texto Why We Can't Associate Too Closely with the Austrians?"\r
    \r
    O rapaz é um físico tapado pelos anos de "estudo", coitado. Eu tenho uma versão modificada de "Why We Can't Associate Too Closely with the Austrians". Se eu apresentar prontamente uma idéia como teoria austriaca, o imbecíl vai rejeita-la de cara sem ao menos refletir sobre o assunto. Existem vários movimentos anti-preconceito (gays, negros, bigodudos, etc.)hoje no mundo, mas talves o grupo mais injustiçado seja o dos austriacos. È um assunto que ja foi mt debatido aqui mas ainda acredito que deveriamos plantar algumas sementinhas e fazer os interlocutores acharem que é uma criação deles, uma versão modificada do "mainstrain" (e a menina dos olhos de ouro, especialmente neste mundo inflacionário, é sim a TAC)
  • Carlos Araujo  01/12/2011 19:22
    É uma grande vigarice utilizar um fenômeno inerente à autocorreção dos mercados -- as recessões -- como prova de que os mercados não se corrigem.
  • Renato  04/12/2011 14:39
    Eu acredito que as políticas citadas no artigo tem mais inspirações monetaristas que Keynesiana. Como o artigo clássico do Milton Friedman e da Ana Schwartz dizia, a crise de 29 foi intensificada por causa da queda de 1/3 da oferta monetária americana, e a economia entrou num ciclo vicioso de falências bancárias que tornou os efeitos da crise mais persistentes.
    Embora não concorde com a política do FED, o artigo foi feito apenas para atacar o Keynesianismo e não é muito bom nisso, existem textos melhores para isso e com uma lógica mais forte.
  • Marcio Estanqueiro  06/12/2011 14:42
    Leandro,

    Acompanho os excelentes textos do site e também as suas respostas. Tenho aprendido muito. Sou totalmente favorável a Escola Austríaca de Economia, e defendo o mercado livre. Gostaria porém, e peço que não repare se eu falar alguma bobagem, mas o que deveria ser feito para evitar a crise que se aproxima? Se não devemos incentivar o consumo nem ajudarmos os bancos gerando mais moedas, eu digo nós os amercianos, o que deveria ser feito então? Obrigado.
  • Leandro  07/12/2011 02:07
    Prezado Marcio, é exatamente aquilo que respondi para o leitor Carlos, ali em cima. A solução é permitir a liquidação das dívidas, permitir que instituições insolventes sejam arrematadas por seus credores (no caso dos bancos, seus correntistas) -- o que geraria um extremamente necessário redimensionamento do sistema financeiro --, e dar plena liberdade ao sistema de preços e salários para que este coordene todas as correções e alocações necessárias.

    Não se corrige 40 anos de bagunça (idade do papel-moeda fiduciário e de curso forçado, criado desimpedidamente por bancos centrais), de crédito alocado de maneira irracional, de privilégios e de investimentos insustentáveis de maneira indolor. Infelizmente.

    Em suma, deve-se fazer o que foi detalhado neste artigo:

    mises.org.br/Article.aspx?id=946


    Abraços!
  • Rafael  09/08/2012 22:01


    Hahahahaha!!


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